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Cultivar 229

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Destaques

Índice Diretas

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Bioinseticidas no manejo de lagartas

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Controle genético de percevejos

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Solo saudável e supressão de doenças

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Tratamento de sementes com fungicidas

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Mosca-da-haste da soja nos Cerrados

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Helicoverpa armigera e H. Zea, confirmada em

Podridão das maçãs em algodoeiro

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espécies coletadas no Mato Grosso

Capa - Híbridos de Helicoverpa

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Diagnóstico correto de nematoides

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Plantas de cobertura como aliadas

38

Ferrugem alaranjada em cana

42

Empresas - Nidera

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Coluna Agronegócios

48

Coluna Mercado Agrícola

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Coluna ANPII

50

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Duas em uma

Conheça mais sobre a hibridização das lagartas

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Voltou para ficar

Presente oficialmente em todos os estados do Sul do Brasil, a mosca-da-haste da soja acaba de ser detectada também no Centro-Oeste

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Diagnóstico eficiente

Saiba por que identificar de modo correto a espécie de nematoide que ocorre nas áreas de cultivo é tão importante Cultivar Grandes Culturas • Ano XIX • Nº 229 Junho 2018 • ISSN - 1516-358X Crédito de Capa: Cecília Czepak

Grupo Cultivar de Publicações Ltda. CNPJ : 02783227/0001-86 Insc. Est. 093/0309480 Rua Sete de Setembro, 160, sala 702 Pelotas – RS • 96015-300 Diretor Newton Peter www.grupocultivar.com cultivar@grupocultivar.com Assinatura anual (11 edições*): R$ 269,90 (*10 edições mensais + 1 edição conjunta em Dez/Jan)

Números atrasados: R$ 22,00 Assinatura Internacional: US$ 150,00 Euros 130,00 Nossos Telefones: (53) • Geral 3028.2000 • Comercial: • Assinaturas: 3028.2065 3028.2070 3028.2066 • Redação: 3028.2067 3028.2060

Por falta de espaço não publicamos as referências bibliográficas citadas pelos autores dos artigos que integram esta edição. Os interessados podem solicitá-las à redação pelo e-mail: cultivar@grupocultivar.com Os artigos em Cultivar não representam nenhum consenso. Não esperamos que todos os leitores simpatizem ou concordem com o que encontrarem aqui. Muitos irão, fatalmente, discordar. Mas todos os colaboradores serão mantidos. Eles foram selecionados entre os melhores do país em cada área. Acreditamos que podemos fazer mais pelo entendimento dos assuntos quando expomos diferentes opiniões, para que o leitor julgue. Não aceitamos a responsabilidade por conceitos emitidos nos artigos. Aceitamos, apenas, a responsabilidade por ter dado aos autores a oportunidade de divulgar seus conhecimentos e expressar suas opiniões.

Expediente Fundadores: Milton Sousa Guerra e Newton Peter

REDAÇÃO • Editor Gilvan Dutra Quevedo

• Vendas Sedeli Feijó Rithieli Barcelos José Luis Alves

• Redação Rocheli Wachholz Karine Gobbi • Design Gráfico e Diagramação Cristiano Ceia • Revisão Aline Partzsch de Almeida COMERCIAL • Coordenação Charles Ricardo Echer

CIRCULAÇÃO • Coordenação Simone Lopes • Assinaturas Natália Rodrigues Clarissa Cardoso • Expedição Edson Krause

GRÁFICA: Kunde Indústrias Gráficas Ltda.


Diretas Lançamentos

A Syngenta destacou na AgroBrasília o fungicida Elatus, recomendando para o controle da ferrugem-asiática e o manejo de outras doenças em soja, além do recém-lançado inseticida Proclaim, registrado para combater lagartas de difícil controle. Outro destaque importante e que faz parte da estratégia de sementes da Syngenta é o lançamento de híbridos de milho de ciclo superprecoce – Syn 455 VIP3 – e de ciclo precoce – Syn 522 VIP3 e Syn 555 VIP3. Esses materiais já seguem o novo modelo de nomenclatura da empresa, com biotecnologia de ponta.

Marca

A Divisão Agrícola da DowDuPont apresentou na AgroBrasília a marca Corteva Agriscience, nome da futura companhia agrícola que se tornará independente em 1º de junho de 2019. A nova marca de distribuição de sementes Brevant também foi apresentada aos participantes do evento.

Novo sistema

O Sistema de Arroz Provisia, lançado pela Basf em 2018 nos Estados Unidos, tem previsão de chegar ao Brasil em 2022. Desde 2016, tratativas são realizadas com o Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) para que os produtores brasileiros tenham acesso à tecnologia voltada para o controle de plantas daninhas. Atualmente, o sistema Clearfield é utilizado em variedades produzidas pelo Irga. O Sistema de Arroz Provisia promete ajudar os produtores a controlar ervas daninhas resistentes, como arroz vermelho, arroz voluntário e gramíneas anuais.

Mosca branca

O inseticida Porcel 100EC, produzido pela Rotam do Brasil, para o manejo da mosca branca da soja, promete eficiência de até 100% na erradicação de ovos e ninfas de Bemisia tabaci. O inseticida, que pode ser aplicado em todo o ciclo evolutivo da lavoura, provoca distúrbios no equilíbrio hormonal, impedindo que os insetos jovens tornem-se adultos e, além disso, como explica Carlos Guarnieri, técnico sênior da Estação Experimental da empresa, as fêmeas que entram em contato com o produto colocam ovos inviáveis e também têm a postura reduzida.

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Carlos Guarnieri


Inseticida

Liderança

A Bayer acaba de lançar o inseticida Sivanto Prime, indicado para o controle do bicho mineiro na cultura do café. O produto possui ingrediente ativo flupiradifurona e faz parte do grupo químico butenolida. Segundo o gerente de Marketing para Frutas e Vegetais da Bayer, Fábio Maia, um dos principais diferenciais do produto reside na flexibilidade de aplicação em cafeeiro, uma vez que pode ser utilizado tanto na folha como no solo. Por se tratar de uma nova molécula, é também utilizado no manejo de resistência. Além de café, o novo produto possui registro para citros, couve e fumo.

Liam Condon

A Bayer anunciou a seleção da nova Equipe de Liderança Executiva para a Divisão Crop Science, que deve assumir a partir do fechamento da proposta de aquisição da Monsanto pela Bayer. O fechamento ainda está sujeito à aprovação regulatória. A nova Equipe de Liderança Executiva será conduzida por Liam Condon, que continua atuando como membro do Conselho de Administração da Bayer e como presidente da Divisão de CropScience, com sede em Monheim, Alemanha. Condon também é responsável pela unidade de negócios de saúde animal da Bayer. “Liam Condon traz mais de 25 anos de experiência em liderança e crescimento de negócios nos setores de agricultura e saúde. Estamos convencidos de que ele liderará com sucesso o negócio combinado da CropScience, disse Werner Wenning, presidente do Conselho de Supervisão da Bayer AG.

Saída

Fábio Maia

O presidente e CEO da Monsanto Company, Hugh Grant, anunciou em maio sua intenção de deixar a Monsanto após o fechamento da aquisição da companhia pela Bayer. Grant permanecerá como presidente e diretor executivo até a conclusão da transação. "Foi realmente um privilégio servir como CEO da Monsanto durante esse período de extraordinário crescimento e transformação em nossos negócios. Estou orgulhoso do que entregamos e aguardamos com expectativa o que o futuro reserva para essa organização." Durante 35 anos na Monsanto, Grant trabalhou em três continentes, gerenciando elementos-chave do negócio global e ajudando a diversificar os produtos e as soluções da empresa para os produtores.

Hugh Grant

Aniversário

Marcos Campos

Soluções

A Basf levou para a AgroBrasília soluções para o controle de pragas e doenças, com destaque para uma oferta completa de fungicidas em soja com OrkestraSC, Ativum, Versatilis e Status, além de Abacus HC e Ativum para o milho. O Versatilis foi apresentado pela primeira vez no evento. “Oferece facilidade e flexibilidade de aplicação nas diferentes fases de desenvolvimento da cultura, além de proporcionar incremento de produtividade para as lavouras”, explicou Marcos Campos, gerente de Marketing Território da Basf. Os visitantes também puderam conferir o portfólio de Seed Solutions da Basf.

Na AgroBrasília 2018, a Nidera comemorou com os clientes 13 anos da marca no Brasil. "Formamos um time de campeões no atendimento e no desenvolvimento de novos híbridos de milho e cultivares de soja", enfatizou Nélio Reis, Marketing e Comunicação Nidera Sementes/Brasil e Paraguai. O destaque da empresa na feira foi para os híbridos de milho NS 77 PRO 2, lançamento para safrinha de alto rendimento, e a cultivar de soja NS 7780 IPRO, de alta performance produtiva e excelente tolerância ao complexo de doenças da soja. "Estamos muito satisfeitos com todos os agricultores e parceiros que recebemos em nosso estande e esperamos revê-los em 2019", finaliza Reis.

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Biológicos

A Koppert levou para a AgroBrasília todo o seu portfólio em controle biológico de pragas agrícolas, tanto da linha macro como também produtos microbiológicos. “Mostramos soluções altamente eficientes para o manejo de pragas de diferentes culturas, cujos resultados em qualidade e produtividade, produtores espalhados por todo o país já têm colhido e atestado safra após safra”, afirmou Jaqueline Antonio, gerente de Comunicação e Marketing da empresa, que possui sede em Piracicaba, São Paulo, e representantes e parceiros em todos os estados brasileiros.

Milho

A Morgan Sementes levou para a AgroBrasília o lançamento de sementes híbridas de milho, como a MG 711, com tecnologia Powercore. “Produzimos vários tipos de híbridos para vários segmentos. A gente atende todo o nível de agricultores da região, buscando a maior produtividade possível. O milho híbrido é adaptado para a região para se obter o máximo possível de produtividade. Tem uma variedade de milho mais adaptada ao estresse hídrico, outra é mais adaptada a algumas doenças”, afirma o líder da área Centro-Oeste da Morgan Sementes, Marcelo Pupim.

Acordo de pesquisa

A Embrapa e a Corteva Agriscience, Divisão de Agricultura da DowDuPont, assinaram um acordo para realizar pesquisas para aumentar a competitividade e a sustentabilidade da agropecuária brasileira. A pesquisa se concentrará na genômica para melhorar a tolerância das culturas às pragas e à seca, aumentar a qualidade pós-colheita dos produtos agrícolas e minimizar o impacto ambiental da agricultura. O contrato de quatro anos foi assinado por Mauricio Lopes, presidente da Embrapa, e Neal Gutterson, diretor de Tecnologia da Corteva Agriscience, no Woodrow Wilson Center do Instituto Brasil, na capital Washington, como parte de um programa maior intitulado O Setor Agrícola na Era da Bioeconomia.

Mauricio Lopes e Neal Gutterson

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Herbicida e fungicida

A Alta (América Latina Tecnologia Agrícola) obteve registro para dois novos produtos no Brasil. Um deles é o herbicida Zavit, glifosato em exclusiva formulação SG – Granulado Solúvel -, para o manejo de plantas daninhas de folhas estreitas e largas. O segundo é o Seven, fungicida à base de tebuconazol em formulação 430 SC, para o controle de doenças foliares nas culturas da soja e trigo. "A Alta está sempre atualizando seu portfólio para oferecer produtos inovadores e eficientes para o mercado de proteção de plantas no segmento de defensivos agrícolas", disse o gerente de Marketing e Supply Chain da Alta, Ernesto Bellotto.


Manejo

A FMC apresentou na AgroBrasília tecnologias para o manejo integrado com foco nas culturas de soja, milho e feijão. “Consideramos a AgroBrasília uma das principais feiras do Brasil, que reúne grande número de produtores, principalmente do Distrito Federal, de Goiás e Minas Gerais. Por mais um ano estivemos aptos a apresentar uma vitrine de soluções com foco em estabelecer uma lavoura sadia, produtiva e rentável”, afirmou o coordenador de Marketing Regional da FMC, Fernando Salles.

Soja e milho

A DuPont Pioneer levou para a AgroBrasília sua linha de produtos voltados à produção de grãos na região do Cerrado, incluindo cultivares de soja e híbridos de milho. Na cultura do milho, o destaque foi para dois produtos novos: P3898 e 3707VYH. “A tecnologia Leptra resulta da associação entre Agrisure Viptera, YieldGard, Herculex e LibertyLink, e apresenta excelente opção para agricultores que buscam segurança e rentabilidade, pois auxilia no controle das principais lagartas que atacam a cultura do milho", explica o gerente de Conta da empresa na região de Goiás, Juliano Rosso. Já para a cultura da soja, os principais destaques foram as novas cultivares com a tecnologia Intacta RR2 PRO, 95R95 IPRO, 97R22 IPRO e 98Y20 IPRO.

Serviços

A Bayer esteve presente na AgroBrasília com o slogan "Tecnologia digital em favor do campo". "Nesta edição de uma das feiras mais importantes do nosso calendário agrícola, levamos aos produtores um leque de serviços diferenciados. O Patrulha Percevejo, por exemplo, é um dos serviços mais resgatados dentro do nosso programa de pontos da Rede AgroServices. Com ele, o produtor tem sua lavoura monitorada pela equipe de campo e, com o uso da tecnologia de GPS e análise de dados, são criados mapas de calor das áreas de incidência de percevejo. Esses dados ajudam na tomada de decisão do agricultor", explicou o gerente regional da Bayer, Emerson Barbizan.

Para a região

A Satis levou à AgroBrasília portfólio específico para atender à região, "A combinação de temperaturas baixas e alta umidade do solo resulta em maior incidência de doenças, causando uma queda significativa de produtividade e consequentemente prejuízo ao produtor. Por isto a necessidade de aplicação de produtos de nutrição vegetal e que estimulem a produção de substâncias de autodefesa da planta", destacou o gerente de Negócios Goiás da Satis, Ricardo Mendes Jardim.

Festival

A Syngenta foi uma das participantes do Festival Path, evento cultural e educacional multidisciplinar, que ocorreu em maio, em Pinheiros, São Paulo. Ariadne Caballero, líder de Agricultura Digital na empresa, foi uma das apresentadoras no painel de debate sobre o tema “Economia criativa e agricultura digital: o que a revolução no campo tem a ver com a cidade”. A ideia foi de mostrar que, tendo entrado de vez para o vocabulário do agronegócio, a AgTech expande suas possibilidades para além do meio rural e torna-se também oportunidade a quem busca novos caminhos profissionais e de empreendedorismo. Ariadne Caballero

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Soja

Alternativo e complementar A adoção de táticas de controle biológico, em particular o uso de bioinseticidas à base de baculovírus para manejo de lagartas de grande importância econômica, tem se mostrado importante ferramenta complementar e em alguns casos até mesmo alternativa a outras formas de combate a pragas

S

biológicas tornam-se fortemente limitadas ou obstruídas e certas espécies perdem sua regulação natural e tornam-se pragas. Deste modo, torna-se necessária a intervenção humana para tentar restaurar o equilíbrio entre as espécies existentes. É neste contexto que

entra o Manejo Integrado de Pragas (MIP), com suas diferentes táticas de controle. Dentre estas táticas, o controle biológico tem papel decisivo, por ser uma ferramenta com inúmeras vantagens agroecológicas que dão sustentabilidade ao sistema, desde que seja respeitada toda a sua prer-

Cecília Czepak

abe-se que a abundância e a distribuição dos artrópodes são influenciadas pela atividade dos inimigos naturais que ocorrem de forma voluntária em ecossistemas não modificados. Porém, em ecossistemas antropizados, ou os chamados agroecossistemas, essas interações

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Figura 1- Ciclo Biológico dos Baculovírus

rogativa de utilização. Falando-se especificamente de baculovírus, uma importante categoria do controle biológico, é possível afirmar que sua utilização no controle de pragas-chave tem grande potencial de emprego na agricultura brasileira, pois além de serem eficientes, são específicos e não agridem o ambiente, os animais e o homem. Os baculovírus preenchem os requisitos básicos como alternativa e/ou complemento a outras táticas de controle. A utilização de baculovírus como inseticidas biológicos para controle de lepidópteros em programas de manejo integrado de pragas data da década de 1970. No Brasil, o programa de manejo da lagarta-da-soja, Anticarsia gemmatalis, por meio de baculovírus (AgMNPV), se tornou um programa reconhecido mundialmente por sua eficácia e alcance em diferentes países da América Latina As espécies de baculovírus são altamente específicas para invertebrados-alvo. Sob o ponto de vista de segurança são incapazes de se multiplicar em micro-organismos, células de plantas, cultura de células de vertebrados e em vertebrados. Além disso, a família Baculoviridae, a mais pesquisada e utilizada mundialmente como bioinseticida, não afeta os outros insetos e invertebrados inespecíficos. Assim, são agentes ideais em programas de MIP em culturas anuais, perenes e florestais. O primeiro bioinseticida à base de Baculovírus (HzSNPV) foi registrado comercialmente em 1975 (Virion-H, Biocontrol-VHZ, Elcar) e empregado em larga escala para controle do complexo de espécies da família Heliothinae, por exemplo a Helicoverpa zea e a Chloridea virescens, importantes pragas-chave da cultura do algodão nos Estados Unidos. Atualmente, aproximadamente 50 bioinseticidas à base de baculovírus são utilizados em diferentes partes

do mundo. Os nucleopoliedrovírus (NPV) de Lepidóptera, como também são conhecidos os baculovírus do gênero Alpha baculovirus, são formados por DNA circular dupla fita asÊnio Krunt Júnior sociados a proteínas capsidiais (nucleocapsídeo). Envoltos por uma membrana protetora, os nucleocapsídeos formam os vírions. Por sua vez, os vírions são protegidos em uma matriz proteica dando origem aos corpos de oclusão. A formação dos corpos de oclusão (OB – Occlusion Body) confere proteção física e biológica às partículas virais contra, por exemplo, a desativação por meio de fatores climáticos como temperatura e radiação solar. Compondo o corpo de oclusão, podem ser observados vários vírions (nucleopoliedrovírus múltiplos-MNPV) ou apenas um vírion (nucleopoliedrovírus simples SNPV). Após a aplicação foliar dos bioinseticidas, as lagartas ingerem os corpos de oclusão depositados sobre as plantas, o que dá início à primeira fase da infecção. Os corpos de oclusão dissolvem-se com o pH alcalino no intestino médio das lagartas, liberando as partículas virais. As partículas virais penetram no núcleo das células epiteliais do intestino, onde se replicam. Com a replicação, são geradas novas partículas virais, porém são “nuas” e não estão inseridas em membrana protetora. Sem a armadura protetora, os vírus extracelulares (BV- Budded vírus) dispersam-se com facilidade pela hemolinfa e traqueias, invadindo outros tecidos da lagarta infectada. Novos corpos de oclusão se formam no núcleo das demais células, caracterizando a segunda fase de infecção. Grandes quantidades de nucleocapsídeos protegidos em corpos de oclusão são geradas, resultando na ruptura das células e dos tecidos, liberando vírus no ambiente e começando a Epizootia (transmissão horizontal) (Figura 1). As partículas dos baculovírus se apresentam em forma

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Figura 2 – Sucessão de sintomas e comportamento de uma lagarta provocados pela infecção viral após a ingestão de folhas contaminadas com Baculovírus

de bastonetes, chamados de vírions, que são revestidos por uma matriz proteica. Esse vírus passa a atuar somente após a ingestão da praga-alvo. Em outras palavras, a lagarta precisa ingerir as partículas virais depositadas sobre as folhas. As partículas virais são dissolvidas dentro do trato gastrointestinal das lagartas, propiciando a liberação dos vírions. Por sua vez, estes vírions penetram na membrana da parede intestinal e atingem a hemolinfa, espalhando-se e multiplicando-se no núcleo celular de diferentes tecidos. O processo, desde o início da infecção até a morte da praga-alvo, pode durar em torno de três dias a sete dias, dependendo do tamanho das lagartas e das condições ambientais (Figura 1). Lagartas infectadas por baculovírus perdem a capacidade motora e de alimentação entre dois e quatro dias (dependendo da idade da lagarta) após a ingestão de substratos contaminados, como folhas, ramos ou frutos, e morrerão dentro de seis dias a sete dias após a infecção. A descoloração da parte ventral (esbranquiçada a amarelada) é um sintoma típico, que se propaga progressivamente por todo o corpo. Apesar de diminuírem sua mobilidade, as lagartas infectadas comumente se deslocam para a parte superior das plantas e morrem penduradas pelas pernas abdominais. Nesta fase, a lagarta apresenta o corpo flácido que posteriormente escurece e se rompe com facilidade, liberando uma grande quantidade de poliedros que servirão de inóculo para contaminação de outras lagartas da mesma espécie (Figura 2). O vírus tem capacidade de dispersão a longas distâncias, seja pelo vento, poeira, chuva, e/ou contato com outros insetos (por exemplo, moscas). Com as chuvas, grande quantidade de poliedros se acumula na camada superior do solo, onde o vírus pode permanecer de um ano para outro, promovendo futuras epizootias naturais nas áreas tratadas. O sucesso de programas de uso de baculovírus depende de uma série de fatores, incluindo a seleção de isolados mais virulentos, o momento adequado da aplicação (tanto em relação ao horário de aplicação como ao tamanho das lagartas e à densidade populacional que deve ser estimada por meio de avaliação frequente da população, tecnologia de aplicação apropriada, clima favorável, dentre outros). O momento de aplicação é extremamente importante, tanto

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em relação ao horário de aplicação como ao tamanho das lagartas e à densidade populacional, que deve ser estimada por meio de monitoramento frequente da população. A aplicação deve ser realizada no final do dia, para dar aos vírus tempo de agirem durante a noite, quando as lagartas são mais ativas na sua alimentação. A aplicação deve ser “preventiva e inoculativa”, ou seja, ser feita tão logo se observarem as primeiras lagartas pequenas na lavoura. Um dos entraves à utilização mais ampla desta categoria de produtos reside no fato de serem altamente específicos, o que pode levar o produtor a ter uma certa dificuldade de empregar estas ferramentas em seus programas de manejo de pragas, visto que muitas vezes duas ou mais espécies podem apresentar-se na mesma lavoura e ao mesmo tempo. Outro entrave tem sido o imediatismo na expectativa de obtenção de resultados, visto que os vírus têm ação mais lenta que os inseticidas químicos e devem ser utilizados de forma inoculativa, como ferramentas de base e como reguladores das populações de pragas. O uso do vírus é muito valioso dentro de um programa de Manejo Integrado de Pragas. Assim, quando um produtor decide por mudanças tecnológicas, estas mudanças devem seguir o posicionamento técnico correto, de forma a maximizar os benefícios que esta ferramenta pode trazer a curto e a longo prazo. O programa brasileiro de utilização do baculovírus na cultura da soja preconizado pela Embrapa foi adotado em aproximadamente dois milhões de hectares nos ano de 2003/04. Este exemplo é frequentemente citado em âmbito internacional como um real sucesso do controle biológico à base de baculovírus. Porém, devido a inúmeros fatores, o MIP Soja caiu no esquecimento nos últimos anos e o uso de baculovírus decresceu de forma lastimável, atualmente restringindo-se a algumas áreas isoladas no Sul do País. Produtores passaram a adotar práticas equivocadas e, consequentemente, houve o retorno das aplicações químicas indiscriminadas e/ou calendarizadas na cultura com prejuízos socioambientais inestimáveis. Apesar das crescentes populações de A. gemmatalis em cultivos de soja, principalmente nos Cerrados, a adoção do Baculovírus continua insignificante, infelizmente, como qualquer outra tática que


última geração como as cultivares que expressam proteínas Bt. Neste alarmante contexto, a única alternativa viável e sustentável será, sem sombra de dúvida, a adoção de programas de Manejo Integrado de Pragas, tendo o controle biológico como uma ferramenta alicerce e indispensável. Com certeza os inseticidas químicos não são e nunca serão a solução definitiva para o controle de pragas. As ferramentas químicas precisam ser vistas apenas como um dos vários recursos do Manejo Integrado de Pragas, pois para a boa convivência com estas "superlagartas" é essencial a integração de várias táticas de controle. Da mesma forma, o controle biológico não deve ser usado como uma prática isolada, sendo imprescindível que seja inserido dentro de um programa de Manejo de pragas. Neste sentido, o controle biológico deve ser utilizado de forma “contínua e integrada” a outras táticas de controle usualmente adotadas pelos produtores. Para tal, deve ser de fácil acesso, principalmente em relação à oferta e ao custo, duas questões historicamente limitantes

Cecília Czepak

não seja a química. Um caso pertinente e mais recente foi o que ocorreu com a identificação da Helicoverpa armigera no Brasil em 2013. Todos apostaram que as alternativas biológicas iriam decolar novamente, principalmente em cultivos como a soja, o algodão e o tomate. Sendo assim, empresas brasileiras e estrangeiras investiram principalmente no uso de bioinseticidas para controle de lagartas, pois são muitos os relatos de sucesso com a adoção de táticas biológicas, como os baculovírus nos países de origem da H. armigera. Entretanto, o que se viu, apesar de todos os esforços de divulgação sobre as melhores táticas de manejo desta praga, foi um retrocesso ainda maior, pois passaram a utilizar inseticidas químicos de forma indiscriminada, sempre com o pensamento de que seriam as ferramentas mais viáveis para uma lagarta como a H. armigera. O sobressalto provocado em 2013 pelas altas infestações com prejuízos inestimáveis e até hoje mal contabilizados fez muitos pensarem que a adoção do MIP propriamente dito seria impulsionada de forma generalizada nos cultivos brasileiros, mas não foi bem assim. As alternativas biológicas, comportamentais, legislativas, entre outras, ficaram novamente esquecidas. Afinal, para muitos, os inseticidas químicos- seja de origem lícita ou ilícita – bastavam, e o que é pior, alguns ainda se arriscaram a dizer que a H. armigera não seria mais problema para o Brasil. Outra praga que precisa, de forma urgente, ser abordada em um contexto amplo em relação ao MIP é a Spodoptera frugiperda. Além de ser um problema sério em gramíneas em geral e mais especificamente em milho, essa praga tem se tornado frequente em outras culturas como algodão, soja, tomate, feijão, dentre outras. As perspectivas futuras em relação à seriedade desta praga são assustadoras devido à sua alta capacidade de adaptação e à rápida evolução de populações cada vez mais resistentes, até mesmo a tecnologias de

que estão aos poucos sendo superadas por empresas comprometidas com o desenvolvimento e a manufatura destes produtos. Em suma, a adoção de táticas de controle biológico e, em particular, o uso de bioinseticidas à base de baculovírus para manejo de lagartas de grande importância econômica - que crescem em seriedade e disponibilidade de uso a cada ano no Brasil - representam uma possibilidade real de redução de custos de produção, pois além de eficientes, são altamente complementares a outras formas de controle e reduzem significativamente os riscos ambientais, podendo trazer grandes benefícios à agriC cultura brasileira.

Cecilia Czepak, Escola de Agronomia/UFG Paula G. Marçon, Marcelo Lima, Rafael Ferreira Silvério e Janayne Rezende, Agbitech Matheus Le Senechal Nunes, Escola de Agronomia/UFG

Ênio Krunt Júnior

Presença da lagarta falsa-medideira morta por vírus em folha de soja

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Soja

Auxílio da genética Como o desenvolvimento de cultivares resistentes pode auxiliar no manejo de percevejos em soja, por ajudar a reduzir os custos com aplicações de inseticidas e proteger a longevidade das poucas moléculas disponíveis para o controle químico

A

cultura da soja na safra 2017/18 ultrapassou os 35 milhões de hectares cultivados no Brasil e precisa manter sua produtividade de grãos, mesmo sob ataque de doenças e insetos-praga. Dentre as principais pragas da soja, os percevejos se destacam pelos danos causados diretamente nas sementes ainda em fase de enchimento até sua maturação, quando inserem seu estilete na semente e secretam enzimas para facilitar sua alimentação. Além dos danos diretos, ocorrem os indiretos, causados por patógenos que colonizam as sementes nos pontos das picadas. Dentre as espécies de percevejos de maior importância para a soja, o percevejo-marrom Euschistus heros tem se destacado nas últimas safras com populações elevadas e pelo potencial de dano para a cultura, além de outras espécies como o percevejo-verde-pequeno Piezodorus guildinii, o percevejo-barriga-verde Dichelops melacanthus e o percevejo-verde, Nezara viridula, que compõem o complexo de insetos sugadores de grãos. Em lavouras severamente atacadas por essas espécies, os danos diretos, dependendo do estádio de desenvolvimento das plantas, podem provocar o abortamento de vagens ou a formação de vagens com sementes menores e malformadas (enrugadas e chochas), reduzindo, consequentemente, a qualidade fisiológica das sementes produzidas (menor germinação e vigor), podendo, inclusive inviabilizar áreas para a produção de sementes. Somando esses danos diretos aos indiretos causados pela presença de patógenos, há ainda o apodrecimento de sementes e vagens, atraso na maturação e aumento na ocorrência de retenção foliar, provocando problemas para a colheita mecânica e reduzindo a produtividade e a qualidade de grãos.

ESTRATÉGIAS DE MANEJO E A RESISTÊNCIA GENÉTICA

Dentre as estratégias de manejo do complexo de percevejos, o controle químico é o método usualmente utilizado pelos agricultores. Na maioria das vezes essa tática de controle é empregada sem o devido diagnóstico dos níveis populacionais desses insetos nas lavouras, anteci-

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Figura 1 - Flutuação populacional de percevejos em cultivares de soja nos municípios de Florínea e Cândido Mota, São Paulo, na safra 2014/15. As setas indicam o momento das aplicações de inseticidas segundo o nível crítico (NC = 4 percevejos / m) para cada cultivar

pando sem necessidade e aumentando o número de aplicações de inseticidas e, consequentemente, os custos de produção. Além disso, o restrito número de moléculas eficientes para o controle de percevejos e a exposição contínua dessas populações aos mesmos inseticidas têm promovido a seleção de indivíduos resistentes principalmente para o percevejo-marrom, reduzindo a eficiência desta ferramenta para o manejo adequado das populações desses insetos. Uma ferramenta extremamente útil para o manejo dos percevejos reside no uso de cultivares resistentes. A resistência genética é o método mais simples e barato para os agricultores, pois reduz os custos de produção, traz benefícios ambientais e interage positivamente com os demais métodos de controle. Infelizmente, o número de cultivares resistentes registradas no Brasil é pequeno e restrito a algumas regiões específicas (cultivares IAC-100, IAC-17, IAC-24 e BRS 391). Por ser uma característica com herança mais complexa (Godoi & Pinheiro, 2009, Gen Mol Biology; Souza & Toledo, 1995, Braz J Genet), o desenvolvimento de cultivares de soja resistentes e comercialmente competitivas tem exigido grande esforço das instituições de pesquisa. Considerando uma taxa anual de crescimento da produtividade de 32,7kg/ha no Brasil ou 1,42% ao ano (Balbinot Júnior et al, 2017, Boletim de P&D/Embrapa Soja) fica fácil perceber o desafio de inserir essa resistência com herança poligênica em cultivares competitivas. Felizmente, apesar dessas dificuldades técnicas, algumas instituições como a Embrapa têm conseguido dar sua contribuição, já com uma cultivar convencional registrada além de linhagens derivadas das diversas plataformas trabalhadas na Embrapa (Convencional, RR e Intacta) com alto potencial produtivo e diferentes níveis de resistência aos percevejos (em fase de registro e validação).

CONTRIBUIÇÕES DA RESISTÊNCIA GENÉTICA

A cultivar BRS 391 é um bom exemplo. Trata-se de material precoce (GM=6.4) com adaptação para o Oeste, o Norte e o Noroeste do Paraná, o Médio Paranapanema e o Sudoeste de São Paulo, e o Sul, o Centro-Sul e o Sudoeste do Mato Grosso do Sul (RECs 201, 202 e 204), com teores médios de 20,7% de óleo e 39,3% de proteína. É resistente às principais doenças da soja (mancha olho-de-rã, cancro da haste, pústula bacteriana e podridão radicular de fitóftora), nematoides de galhas (M. javanica e M. incognita) e percevejos. Ensaios de validação do tipo “lado a lado”, com parcelas de dois hectares de cada material, realizados em três áreas de produtores na safra 2014/15, apresentaram rendimentos entre 5% e 44% superiores aos da cultivar BRS 232, atingindo produtividade de 5.910kg/ha em Florínea, São Paulo (Tabela 1). Nessas localidades, as populações de percevejos foram monitoradas com o pano de batida e o controle químico realizado quando a densidade populacional de percevejos atingiu o nível de quatro percevejos por metro, portanto, o dobro do nível de ação para lavoura comercial. Jovenil José da Silva

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Tabela 1 - Rendimento e qualidade da semente de cultivares de soja suscetíveis e tolerantes ao dano de percevejos em áreas de produtores onde o nível de controle foi de 4 percevejos /m, na safra 2014/15 (Corrêa-Ferreira et al., 2016, XXXV Reunião de Pesquisa de Soja) Local

Andirá, PR Florínea, SP Cândido Mota, SP

Cultivar

BRS 391 BRS 232 BRS 391 BRS 232 BRS 391 BRS 232

No de aplicações1

Rendimento (Kg/ha )2

Vigor

2 2 1 1 2 4

4638 ± 156 a 3222 ± 124 b 5910 ± 53 a 5281 ± 66 b 4485 ± 102 a 4258 ± 113 a

78,9 ± 1,3 a 19,2 ± 1,5 b 86,4 ± 1,3 a 86,7 ± 0,9 a 73,9 ± 0,6 a 73,7 ± 0,8 a

Análise de tetrazólio (%) Viabilidade Sementes Picadas Inviáveis 91,5 ± 0,7 a 65,3± 1,1 b 7,3 ± 0,6 b 58,9 ± 1,2 b 98,3 ± 0,5 a 37,5 ± 1,1a 93,2 ± 0,7 a 20,5 ± 1,5 b 1,0 ± 0,2 b 94,5 ± 0,7 a 36,0 ± 2,7 a 3,4 ± 0,4 a 90,7 ± 0,4 a 69,9 ± 2,6 a 7,5 ± 0,6 a 90,1 ± 0,7 a 63,7 ± 1,6 a 7,3 ± 0,6 a

1 Número de aplicações com inseticidas a partir do nível de controle de 4 percevejos / m no pano-de-batida. 2 Médias seguidas pela mesma letra, dentro de um mesmo local, não diferem estatisticamente entre si pelo teste de Tukey a 5%.

O primeiro impacto direto do uso da genética está na redução do número de aplicações de inseticidas. Em Cândido Mota foram realizadas duas aplicações na BRS 391 contra quatro aplicações na BRS 232 (Tabela 1 e Figura 1). Em Florínea e Andirá foram realizadas uma e duas aplicações, respectivamente, nas duas cultivares (Tabela 1). Entretanto, mesmo com aplicações no nível de quatro percevejos por metro, a BRS 391 apresentou maior rendimento e menor percentual de sementes picadas e inviáveis em relação à BRS 232 (Tabela 1), indicando que a cultivar suscetível precisaria de pelo menos uma aplicação adicional para evitar perdas. O segundo impacto dessa genética superior está na melhoria da qualidade fisiológica das sementes produzidas. A BRS 391 apresentou vigor e viabilidade superior ou igual ao padrão BRS 232 em Andirá e Florínea, respectivamente, proporcionando menor índice de sementes picadas e inviabilizadas pelos percevejos (Tabela 1). Na área de Cândido Mota não houve diferença entre as cultivares pela análise do tetrazólio mesmo com duas aplicações a menos na BRS 391 (Tabela 1 e Figura 1). A partir dessas validações realizadas em áreas comerciais, constata-se que a cultivar BRS 391 tolera o dobro do nível de ação preconizado pelo manejo integrado de pragas, requerendo menor uso de inseticidas.

e Intacta já existem linhagens com padrão de resistência/tolerância aos percevejos superior ou igual ao da cultivar BRS 391. Essas linhagens exibem características agronômicas de ciclo e potencial produtivo para atender outras regiões sojícolas, como as macrorregiões 1 e 3. Em ensaios de competição em rede, as novas linhagens já tiveram seu potencial produtivo comprovado e devem passar por um processo de validação em áreas comerciais para avaliação do impacto sobre o manejo de populações de percevejos. Dentre as convencionais destacam-se as linhagens BRI13-5301 e BR12-10309, a última também resistente à ferrugem. Para o programa RR, os destaques são BRRI13-1533 e BRRI14 1417 e para o Intacta, os genótipos BRB15-232859 e BRB14-210725. Dessa forma, independentemente da plataforma desejada pelo agricultor, pode-se afirmar que não faltarão boas opções de cultivares competitivas, mas com atributo adicional de oferecer aos agricultores uma ferramenta extra para o manejo C de populações de percevejos no Brasil.

Carlos A. Arrabal Arias, Clara B. Hoffmann-Campo, Beatriz S. Corrêa-Ferreira e Ivani de O. Negrão Lopes, Embrapa Soja

PERSPECTIVAS EM CURTO PRAZO

Clara Beatriz Hoffmann Campo

Tanto no programa convencional como nos programas RR

A

B

C

D

Linhagens convencionais BRI13-5301 (A), BR12-10309 (B), RR BRRI13-1533 (C) e BRRI14-1417 (D), em Londrina, PR, safra 2017/18

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Soja

Solo saudável

Aprenda a gerir e conservar adequadamente o solo, de modo a manter e estimular a sua capacidade supressiva a doenças, bem como preservar a resiliência a estresses de forma sustentável

A

expressão saúde do solo é usada, em sentido amplo, para indicar a capacidade do solo de funcionar como um sistema vivo, sustentar a atividade biológica e manter a saúde de plantas e animais. Nesse sentido, a saúde do solo tem correlação positiva com a produtividade e a sustentabilidade do sistema. Ou seja, solos saudáveis são mais produtivos ao longo do tempo, porque apresentam maior capacidade de

suportar estresses, como os causados pelas atividades agrícolas. E entre os sintomas de debilidade na saúde do solo estão as doenças de solo. Denominam-se de doenças de solo aquelas de plantas provocadas por micro-organismos (patógenos, neste caso) que habitam a terra. O controle dessas doenças é complexo e para obter sucesso é preciso conhecer o solo e agir para restabelecer Alexandre Dinnys Roese

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Sistemas Integrados de Produção Agropecuária são exemplos mais sustentáveis do ponto de vista biológico

sua saúde. O solo é habitado por inúmeros micro-organismos (fungos, bactérias etc), na maioria desconhecidos. Alguns estudiosos afirmam que a maior parte do que ainda não se conhece sobre a vida no planeta Terra está no solo. Sabe-se, no entanto, que a decomposição dos detritos no solo (processo de redução das cadeias de carbono para liberação de energia) é totalmente dependente de micro-organismos. Os micro-organismos, portanto, fazem parte do solo e, mais do que isso, são os verdadeiros responsáveis pelo funcionamento dos ecossistemas agrícolas e naturais. Esses organismos estão relacionados com as funções benéficas do solo e do ecossistema, incluindo decomposição de material orgânico, ciclagem de nutrientes, armazenamento de água, desintoxicação do solo e supressão de organismos nocivos e patogênicos. Solos com alta diversidade e atividade biológica são mais resilientes a estresses e supressivos a doenças do que solos com baixa atividade biológica. Por isso, é possível afirmar que o controle (manutenção do estado de equilíbrio) biológico de doenças se trata de algo que ocorre constantemente nos solos agrícolas, mesmo que não seja observado. E a maneira como cuida-se da saúde do solo interfere no controle de doenças, tornando-o mais ou menos supressivo. Um solo é considerado supressivo a uma doença quando o patógeno e a planta hospedeira estão presentes, e as condições ambientais são favoráveis à ocorrência da

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doença, porém a doença não ocorre ou se dá com menor intensidade. Características físicas e químicas do solo podem determinar sua supressividade a doenças. No entanto, o manejo das características biológicas (da saúde) do solo tende a ter um efeito mais marcante no controle de doenças, tornando o solo supressivo. Talvez porque a saúde do solo tenha sido, em muitos casos, negligenciada, enquanto as características físicas e químicas necessárias à produção vegetal tenham recebido maior atenção nas últimas décadas. Um solo pode ser naturalmente supressivo a doenças, ou seja, apresentar características físicas, químicas e biológicas que, associadas ou não, suprimem a ocorrência de uma ou mais doenças. No entanto, solos que não sejam naturalmente supressivos podem vir a suprimir doenças (supressividade induzida) através de práticas culturais como fertilização, descompactação, adição de matéria orgânica ou aplicação de micro-organismos que se estabeleçam no solo e atuem no controle biológico de doenças. Nesse sentido, a intensificação do uso do solo, através de Sistemas Integrados de Produção Agropecuária (Sipa), favorece a saúde do solo e consequentemente a supressividade a doenças, por incluir, em seus mais variados arranjos, práticas conservacionistas de manejo do solo e aumento da biodiversidade.

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Estratégias de gestão sustentável do solo que maximizem os ciclos naturais e reduzam a dependência de recursos não renováveis são fundamentais para a manutenção da saúde do solo. Além disso, solos saudáveis constituem um substrato mais eficiente para a ação de agentes de controle biológico que sejam aplicados (introduzidos) no solo, pois apresentam condições mais favoráveis ao estabelecimento desses organismos. Por outro lado, monocultura, revolvimento do solo, aplicação de produtos químicos e queima apresentam efeitos deletérios sobre a biota do solo. Entre as estratégias de gestão sustentável do solo é possível destacar aquelas relacionadas à conservação do solo, à conservação da matéria orgânica do solo, à atenuação de estresses e à redução do uso de insumos tóxicos. A conservação do solo pode ser alcançada através da redução da erosão e do aumento da cobertura vegetal. A conservação da matéria orgânica do solo inclui a redução do preparo do solo, a aplicação de adubos orgânicos de origem vegetal ou animal, o aumento da diversidade de espécies e o crescimento do aporte de carbono ao solo. A atenuação de estresses provocados no solo requer otimizar o preparo do solo, reduzir o trânsito de máquinas, favorecer a manutenção dos resíduos vegetais na superfície e da água no perfil do solo, e fracionar o uso de pro-


Fotos Alexandre Dinnys Roese

A intensificação da produção através de Sipas pode tornar o solo supressivo a doenças que causam o tombamento de plantas

dutos químicos ao longo do tempo, para evitar estresses pontuais. A redução do uso de insumos necessários na lavoura inclui o manejo integrado de pragas, doenças e plantas daninhas, o emprego de cultivares resistentes a pragas e doenças, a rotação de culturas e o emprego de plantas de cobertura do solo, com o objetivo de reduzir a aplicação de produtos que possam apresentar efeitos adversos aos organismos do solo. Os Sistemas Integrados de produção Agropecuária (Sipas), que abrangem diferentes arranjos, incluindo lavoura, pecuária e cultivo de espécies florestais, são exemplos mais sustentáveis do ponto de vista biológico. Um número crescente de estudos demonstra que essa intensificação do uso da terra tem um impacto positivo na abundância e riqueza de grupos específicos de organismos do solo e na diversidade microbiana do solo. Resultados disponíves na literatura científica, por exemplo, mostram que a intensificação da produção através de Sipas pode tornar o solo supressivo a doenças que causam o tombamento de plantas, reduzir o tempo de sobrevivência e a germinação de escleródios (estruturas de sobrevivência) de fungos patogênicos, aumentar a atividade microbiana no solo e o número de propágulos viáveis de micro-organismos comumente empregados no controle biológico de doenças. Em resumo, Sipas são formas eficientes de intensificação do uso do solo e incluem ou facilitam a adoção de estratégias de gestão sustentável do solo. Disso resultam solos mais saudáveis, com maior resiliência a estresses e suC pressividade a doenças.

Roese aborda a importância do uso e da gestão adequada do solo

Alexandre Dinnys Roese, Embrapa Agropecuária Oeste

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Soja

Tratamento em evolução Fotos Augusto César Pereira Goulart

Grandes avanços na tecnologia de fungicidas mostra reflexos também no tratamento de sementes. Entre as novidades está o surgimento de novas moléculas com características que vão além da fungitoxicidade, por serem capazes de atuar em rotas metabólicas secundárias que culminam por reduzir o impacto dos patógenos sobre as plantas

A

s sementes, como principal insumo, devem merecer uma maior importância por parte de qualquer segmento agrícola, uma vez que determinados micro-organismos associados podem constituir-se em fator altamente negativo no estabelecimento inicial de uma lavoura. A maioria das doenças de importância econômica que ocorrem na cultura da soja é causada por patógenos que podem ser transmitidos pelas sementes. Esses micro-organismos sobrevivem

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através dos anos (meio de perpetuação de doenças de geração a geração) e se disseminam pela lavoura, como focos primários de doenças. O aspecto sanitário tem sido um tema amplamente discutido no Brasil e no mundo. Considerando que a semente assume papel decisivo na diminuição de riscos, a sanidade de sementes apresenta-se com importância significativa. Como a semente é um insumo básico para a produção da maioria das espécies vegetais de interesse humano (90% das

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espécies destinadas à produção de alimentos no mundo são propagadas por sementes e estas plantas estão sujeitas ao ataque de doenças cuja maioria de seus agentes causais pode ser transmitida pelas sementes), sua qualidade é um aspecto que exige maior atenção e extremo cuidado por parte dos sistemas de certificação. As principais implicações resultantes da interação patógenos-sementes são: introdução de doenças em áreas novas ou mesmo a reintrodução em áreas


Importância do tratamento de sementes para o controle de Rhizoctonia solani: área tratada com fungicida eficiente (A) apresentando estande uniforme e área não tratada (B), mostrando falhas no estande

cultivadas nas quais a doença já havia sido controlada pela adoção de práticas eficientes de manejo, como, por exemplo, a rotação de culturas; disseminação de patógenos a longas distâncias; aumento de inóculo em áreas de cultivos sucessivos; redução do vigor e do poder germinativo das sementes (esses danos estão relacionados à presença nas sementes dos fungos Phomopsis sojae e Fusarium semitectum). Como consequência dessas implicações, ocorrem redução da produtividade e aumento do custo de produção para o controle dessas doenças. Vários e evidentes são os exemplos que podem demonstrar a relevância de utilização de sementes sadias e os riscos advindos do emprego de sementes portadoras de agentes patogênicos, sendo que os de maior importância no Brasil são Phomopsis sojae, Colletotrichum truncatum, Cercospora kikuchii, Fusarium semitectum, Sclerotinia sclerotiorum, Corynespora cassiicola e Aspergillus flavus. No caso dos patógenos de solo, merece destaque Rhizoctonia solani AG-4. Atualmente, a agricultura vem experimentando grandes avanços tecnológicos, em função da incorporação de novas tecnologias, onde, dentre as mais recentes, merecem destaques aquelas relacionadas à indústria de sementes e de fungicidas. A importância do tratamento de sementes com fungicidas, no contexto atual da agricultura brasileira, dispensa maiores argumentações, considerando o seu valor como medida preventiva no controle integrado de inúmeras doenças de impacto econômico na cultura da soja. O negócio do tratamento de sementes a nível global é de aproximadamente 5,33 bilhões de dólares anuais assim distribuídos: 38% na América do Norte, 24,6% na América do Sul, 26,4% na Europa e 11% na região Ásia-Pacífico. A prática do tratamento de sementes de soja com fungicidas no Brasil vem crescendo a cada ano, sendo que na safra de 1991/92 apenas 5% da área de soja era semeada com sementes tratadas. Atualmente, 98,2% das sementes de soja são tradadas com fungicidas, seja na indústria (Tratamento de Sementes Industrial – TSI – 25,6%) ou na propriedade agrícola, também denominado “on farm” (72,6%). Nos últimos seis anos, a adoção do tratamento de sementes no Brasil mais que dobrou, sendo que o valor de mercado saltou de 360 milhões

de dólares, em 2009, para 870 milhões de dólares em 2015. Considerando as culturas em que o tratamento de sementes é utilizado no Brasil, destaca-se a soja, com um valor superior a 525 milhões de dólares anuais. Considerando os princípios de controle de doenças, o tratamento de sementes com fungicidas se enquadra em dois deles: a erradicação (que diz respeito à presença já estabelecida do patógeno na semente, efetuando o seu controle efetivo) e a proteção (que contribui para a preservação da semente contra o ataque de patógenos que estão presentes no solo, que podem Ênio Krunt Júnior atuar de forma negativa à sua viabilidade). Assim, os objetivos do tratamento de sementes de soja com fungicidas se enquadram em dois grupos distintos: o primeiro se refere aos aspectos epidemiológicos (controle e transmissão do patógeno) e o segundo, relacionado à sustentabilidade da lavoura na fase inicial de desenvolvimento. Para a escolha correta de um fungicida, o primeiro aspecto que deve ser considerado é o organismo-alvo do tratamento. Neste contexto, sabe-se que, de forma variável, os fungicidas diferem entre si quanto ao espectro de ação ou especificidade. Assim, a ação combinada de fungicidas sistêmicos com protetores tem sido uma estratégia das mais eficazes no controle de patógenos das sementes e do solo, uma vez que o espectro de ação da mistura é ampliado pela ação de dois ou mais produtos. Desse modo, verificam-se melhores emergências de plântulas no campo com a utilização de misturas, em comparação ao uso isolado de um determinado fungicida. Alguns aspectos interferem diretamente na maior ou menor eficiência de um determinado produto no controle de patógenos da semente ou do solo. Os de maior importância são: incidência do patógeno nas sementes e capacidade de transmissão para as plântulas, densidade de inóculo do patógeno no solo, qualidade do tratamento (cobertura homogênea, dose correta do fungicida) bem como a sua formulação comercial. No tocante ao potencial de inóculo do patógeno, tanto na semente quanto no solo, resultados de pesquisa têm demonstrado que o controle efetivo de um determinado fungicida é melhor frente às populações mais baixas do fungo na semente e/ou no solo e que, na presença de maiores níveis de inóculo do patógeno, sua eficácia reduz www.revistacultivar.com.br • Junho 2018

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Fotos Silvia Zoche

significativamente. Atualmente, as misturas mais utilizadas para o tratamento de sementes de soja são: carbendazim + thiram, carboxin + thiram, fludioxonil + mefenoxan, fipronil + piraclostrobin + tiofanato metílico, fludioxonil + mefenoxan + thiabendazole, tiofanato metílico + fluazinan e clorotalonil + tiofanato metílico, nas doses recomendadas pelos fabricantes. Quando se fala em progressos no tratamento de sementes com fungicidas, duas situações apresentam-se como realidade: (I) o tratamento de sementes industrial (TSI) e (II) o uso de fungicidas com características que vão além da fungitoxicidade. O tratamento de sementes industrial (TSI) tem amplo potencial de crescimento no Brasil. Considerando a modernização da agricultura, o TSI agrega vantagens relacionadas à diminuição de riscos de ataque de fungos-alvo do tratamento de sementes, por garantir uma maior precisão do tratamento. As vantagens do TSI em relação àquele realizado de forma tradicional, na propriedade agrícola, também denominado “on farm”, são: cobertura uniforme, dose adequada (precisão quantidade do fungicida), qualidade das sementes garantida, evita o contato do produtor com o fungicida, redução do risco de contaminação, padrão de segurança garantido, tratamento de elevada qualidade, agrega valor ao produto (semente), além de proporcionar economia de tempo. Os últimos 50 anos experimentaram grandes avanços na tecnologia relacionada aos defensivos agrícolas. Os fungicidas modernos da atualidade pertencem ao grupo daqueles que atuam em um único sítio de ação, diferentemente dos compostos orgânicos e inorgânicos de antigamente, que tinham atuação multissítios. A maioria desses fungicidas é absorvida pela planta através das raízes, chegando até a parte aérea, apresentando desde translocação translaminar à sistêmica completa. Além disso, os avanços relacionados à formulação e adjuvantes contribuíram ainda mais para o aumento do desempenho desses fungicidas, que vão desde a elevada atividade intrínseca até um efeito duradouro mais pronunciado (long lasting effect), isso a taxas de aplicação (doses) bem mais baixas que aquelas observadas para os fungicidas mais antigos (30g/ha- 125g/ha para DMIs, QoIs e SDHI carboxamidas em comparação com 1.000g/ha para os organometalicos, ditiocarbamatos e fitalimidas). Até recentemente, o uso de fungicidas tinha exclusivamente o controle de fitopatógenos. O surgimento de novas moléculas de fungicidas apresentando características que vão além da fungitoxicidade é outro ponto importante quando se fala em progressos no tratamento de sementes. Esses produtos são capazes de atuar também em rotas metabólicas secundárias, culminando por reduzir o impacto dos patógenos sobre as plantas e, finalmente, levando ao seu controle. Dessa forma, produtos com ação exclusiva sobre patógenos tendem a ceder terreno para aqueles cujo efeito ocorre sobre rotas metabólicas secundárias, ou mesmo através do fortalecimento de processos de síntese nas plantas, culminando por reduzir o impacto dos patógenos sobre as plantas C e, finalmente, levando ao seu controle. Augusto César Pereira Goulart, Embrapa Agropecuária Oeste 20

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Aspecto das sementes submetidas ao TSI (esquerda) e comparação entre sementes tratadas “on farm” e no TSI (direita).

Comparativo de sanidade e aspecto visual de sementes tratadas e não tratadas com fungicidas

Goulart lembra a evolução de moléculas fungicidas disponíveis para o tratamento de sementes


Soja

Voltou para ficar Presente oficialmente em todos os estados do Sul do Brasil, além do Paraguai e da Bolívia, a mosca-da-haste da soja acaba de ser detectada também em lavouras do Centro-Oeste brasileiro. Com status de praga mais impactante da safrinha, Melanagromyza sojae ou MDH tem poder de fogo para reduzir a produtividade entre 10% e 15%. Seu controle demanda lançar mão de ferramentas como tratamento de sementes e pulverizações de inseticidas

A

mosca-da-haste da soja Melanagromyza sp. foi encontrada no Rio Grande do Sul nos anos 1980 por Gassen et al (1985) e depois, nos anos 2000, por Link et al (2009), com ocorrências localizadas, eventuais e sem grande importância. Entretanto, recentemente, a Equipe do Laboratório de Manejo Integrado de Pragas (LabMIP) da Universidade Federal de Santa Maria encontrou a MDH da soja em vários municípios da região Noroeste do Rio Grande do Sul e no Oeste de Santa Catarina, na safra 2014/2015. O LabMIP- UFSM confirmou a espécie por técnicas morfológicas e moleculares como Melanagromyza sojae (Diptera- Agromyzidae), que é uma espécie invasiva e de grande importância em países da Ásia. Nessas ocorrências, predominantemente em sojas do tarde ou da safrinha, as infestações não são mais localizadas, apresentam alta densidade de plantas atacadas e um evidente impacto na produção de grãos. Essas ocorrências causaram preocupação aos produtores e técnicos, e pela falta de conhecimentos técnicos/científicos para o seu manejo, tem sido praticadoo controle químico aleatório e sem resultados adequados. Os danos médios da mosca-da-haste da soja foram esti-

Jerson Guedes

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mados em 3,8 sacas/ha que equivalem a 13,7%, avaliados em sete experimentos realizados no Rio Grande do Sul, nos quais se observaram incrementos de produtividade da soja obtidos até 35 DAE, proporcionados pela proteção do tratamento de sementes (Curioletti 2017, informação pessoal).

NOVAS OCORRÊNCIAS NO BRASIL E NA AMÉRICA LATINA

Recentemente, com os avanços das pesquisas do LabMIP - UFSM, foi possível verificar que sua ocorrência é muito mais ampla e impactante nos cultivos de soja safrinha, não só na região Noroeste do Rio Grande do Sul, mas também nas regiões Nordeste e Central do estado. No Oeste de Santa Catarina, a sua ocorrência tem sido maior ou observada mais frequentemente em soja safrinha, e em sojas guaxas


Franciely Irala

plantas isoladas, dentro ou no entorno das lavouras, em estradas ou próximas a locais de trânsito ou descarga de soja (locais de descarga, armazéns etc). O exame dessas plantas deve seguir os mesmos procedimentos recomendados para plantas cultivadas.

IDENTIFICAÇÃO DA MDH DA SOJA

Figura 1 - Pupas de Melanagromyza em soja

ou tigueras. No Oeste do Paraná se observou MDH em sojas mais tardias e em plantas espontâneas. Entretanto, sua ocorrência é muito maior na região sojeira do Cone Sul da América do Sul. Recentemente, também houve a confirmação de M. sojae no Paraguai, onde a equipe do LabMIP - UFSM fez inúmeras pesquisas de comportamento, distribuição, danos e controle da praga. De outro lado, nos últimos meses confirmou-se a ocorrência de MDH da soja também na Bolívia, onde o cultivo de safra mais tardia está estabelecido e favorece a praga. Além destes casos, já registrados oficialmente, na última estação de cultivo ocorreram os primeiros registros da praga na região Centro-Oeste do Brasil.

DETECÇÃO E MONITORAMENTO DO ATAQUE DE MDH

A detecção da MDH da soja pela observação exclusiva dos sintomas externos da planta é bastante difícil, embora as plantas atacadas possam apresentar menor crescimento e folhas de coloração mais clara ou carijós, além de orifícios de saída dos adultos. A forma mais fácil de detectar a praga se dá pela observação das larvas e/ou pupas ou pela presença de galerias na haste principal e ramificações da soja. A amostragem e o monitoramento de lavouras devem ser realizados arrancando plantas de soja e, em seguida, seccionando as plantas com um corte transversal da haste na região do colo e separando a parte aérea das raízes. Com o auxílio de um canivete, a haste principal e as ramificações laterais devem ser abertas longitudinalmente, de baixo para cima, expondo a medula e os tecidos internos da haste, tornando possível verificar a ocorrência de larvas, pupas ou pupários vazios. Nesse momento, é possível realizar a contagem das plantas atacadas, da presença e do comprimento de galerias na haste principal e laterais e dos orifícios de saída. O monitoramento nas fases iniciais de desenvolvimento da cultura é importante para a detecção de ocorrências precoces da praga. Os primeiros sintomas da ocorrência da mosca-da-haste da soja são percebidos mais facilmente a partir dos 20 DAE (Dias Após a Emergência). Em soja guaxa ou tiguera (espontâneas), a amostragem deve ser feita em

A presença de soja contendo injúrias, larvas, pupas ou eventualmente adultos em galerias medulares em cultivos tardios, de safrinha ou tigueras, é um forte indício de ser MDH. Entretanto, a identificação correta e segura de M. sojae (Diptera- Agromyzidae) pode ser realizada de duas formas: 1) por observação de caracteres morfológicos de larvas e pupas da espécie, e/ou 2) pelo sequenciamento de um pequeno fragmento de seu DNA mitocondrial. Em ambos os casos, o LabMIP - UFSM pode fazer esta confirmação, depois de receber amostras com material conservado em álcool 96% e preferencialmente mantido em freezer.

CONHECIMENTO ATUAL E RESULTADOS DE CONTROLE

As informações da literatura sobre o manejo da MDH com inseticidas químicos são escassas e antigas. Há relatos do uso em pulverização foliar de inseticidas do grupo químico dos organofosforados como monocrotofós, dimetoato, ometoato, clorpirifós e do piretroide cipermetrina. Em aplicação na semeadura, foram utilizados: carbosulfan e os neonicotinoides tiametoxam e imidacloprido. Além disso, no Brasil e no Paraguai, ainda hoje não existem inseticidas registrados para o manejo de M. sojae ou outras espécies de Diptera na soja. Recentemente, entretanto, a equipe do LabMIP – UFSM, em parceria com a Central Nacional de Cooperativas do Paraguai (Unicoop), desenvolveu estudos avaliando a eficiência de inseticidas utilizados no manejo de outras pragas da soja, mas nesse caso para a proteção de plantas de soja ao ataque de M. sojae. Os experimentos foram conduzidos na área experimental da Cooperativa Pindó, em San Cristóbal, Alto Paraná, Paraguai, na safra 2015/16. No experimento 1, foram avaliados 12 inseticidas aplicados na semeadura da cultura, na forma de tratamento de sementes, jato dirigido ou grânulos distribuídos no sulco de semeadura, combinados ou não com pulverizações foliares realizadas aos 18 e 28 Dias Após a Emergência da cultura - DAE. No experimento 2, foram avaliados 16 inseticidas aplicados em pulverização foliar aos dez e 22 DAE (Figura 2). A ocorrência da mosca-da-haste nos ensaios foi intensa e se estabeleceu no início do desenvolvimento da soja, retratando as condições observadas nos cultivos de safrinha do Sul do Brasil e do Paraguai. Os resultados demonstraram que todos os inseticidas aplicados na semeadura, reduziram a incidência da MDH até os 22 DAE. Os inseticidas clorantraniliprole, bifentrina + imidacloprido e imidacloprido foram mais eficientes no controle da praga. Já os inseticidas fipronil, ciantraniliprole e tiametoxam apresentaram o maior

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período residual com controle até 28 DAE da soja. A combinação de inseticidas aplicados na semeadura com inseticidas foliares aos 18 e 28 DAE não resultou em redução de plantas atacadas. Isso indica que o tratamento de sementes isolado apresenta efeito residual efetivo capaz de controlar novos fluxos populacionais, antes dos 18 DAE. Também foi constatado que a pulverização foliar de inseticidas, realizada após o estabelecimento da MDH nas plantas de soja, é ineficiente para seu controle, pois provavelmente não são translocados a longas distâncias (pecíolos e hastes da soja), locais onde estão estabelecidas as larvas da MDH. No experimento 2, que avaliou o efeito de pulverizações foliares, realizadas aos dez DAE e 22 DAE, os inseticidas clorpirifós, tiametoxam + lambdacialotrina, tiodicarbe, bifentrina e imidacloprido + beta-ciflutrina proporcionaram redução na incidência de plantas atacadas. A drástica diminuição da eficiência dos inseticidas na avaliação aos 38 DAE em comparação com a avaliação aos 22 DAE indica que o período residual dos inseticidas é inferior a 12 dias, intervalo entre as pulverizações, e proporcionou a reinfestação da MDH.

RECOMENDAÇÕES DE MANEJO DA MDH DA SOJA

Os resultados do LabMIP – UFSM do Brasil e do Paraguai indicam que, para as condições de semeadura de soja tardia e de safrinha, é necessária a adoção de medidas de controle específicas para a mosca-da-haste da soja, considerando seu potencial de danos e o retorno dado pelos tratamentos químicos. A recomendação está pautada no uso dos inseticidas em tratamento de sementes e no sulco (na semeadura), em combinação com pulverizações foliares, pela redução de plantas atacadas por MDH, proporcionada pelo controle químico. As pulverizações foliares deverão iniciar até os dez DAE e repetirem-se em

intervalos inferiores a dez dias, a fim de proteger as plantas durante as cinco primeiras semanas de desenvolvimento, que é o período crítico da ocorrência da MDH e de seus danos na soja. Portanto, a recomendação final do LabMIP – UFSM para o manejo da MDH nos cultivos tardios de soja, período de maior intensidade de ocorrência, é o uso de tratamento de sementes combinado com C pulverizações foliares. Luis Eduardo Curioletti, Jerson Vanderlei Carús Guedes, Jonas André Arnemann, Clérison Régis Perini, Lucas de Arruda Cavallin, Lucas Drebes, Willian Bauer Daltrozo, UFSM

Figura 2 - Descrição dos momentos da aplicação e de avaliação dos tratamentos

Figura 3 - Plantas de soja atacadas por M. sojae em resposta à aplicação de Figura 4 - Plantas de soja atacadas por M. sojae em resposta à pulverização inseticidas na semeadura. (Curioletti et al 2018) foliar de inseticidas aos 10 e 22 DAE. (Curioletti et al 2018)

Inseticidas: Punto 600 FS (imidacloprido 48ml i.a./80ml p.c/ha) TS¹; Cruiser (tiametoxam 42ml i.a./120ml p.c/ha) TS; Standak Top (fipronil 20ml i.a./80ml p.c/ha) TS; Dermacor (clorantraniliprole 48ml i.a./80ml p.c/ha) TS; Crop Star (imidacloprido + tiodicarbe 42 + 26ml i.a./320ml p.c/ha) TS; Fortenza (ciantraniliprole 25ml i.a./40ml p.c/ha) TS; Rocks (bifentrina + imidacloprido 21,6 + 26,4ml i.a./160ml p.c/ha) TS; Marshal (carbosulfam 400ml i.a./1000ml p.c/ha) JDS²; Lorsban (clorpirifós 1200ml i.a./2500ml p.c/ha) JDS; Rugby 200 CS (cadusafós 800g i.a./4000g p.c) JDS; Rugby 100 GR (cadusafós 800g i.a./4000g p.c/ha) GS³; Actara (tiametoxam 125g i.a./500g p.c/ha) JDS. 1TS tratamento de sementes; 2JDS jato dirigido no sulco de semeadura; 3GS grânulos no sulco de semeadura.

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Inseticidas: Premio (clorantraniliprole 10 g i.a./50ml p.c/ha); Belt (flubendiamida 33,6 g i.a./70ml p.c/ha); Ampligo (clorantraniliprole + lambdacialotrina 7,5 + 3,75 g i.a./75ml p.c/ha); Taura (tiodicarbe 56 g i.a./75ml p.c/ha); Nocaut (metomil 215 g i.a./226 g p.c/ha); Lorsban (clorpirifós 480 g i.a./1000 ml p.c/ha); Eficiente (acefato 750 g i.a./1000 g p.c/ha); Pirate (clorfenapir 240 g i.a./1000 ml p.c/ha); Avatar (indoxacarbe 60 g i.a./400 ml p.c/ ha); Noctur (benzoato de emamectina 10 g i.a./100 g p.c/ha); Talstar (bifentrina 15 g i.a./150 ml p.c/ha); Actara (tiametoxam 52 g i.a./200 g p.c/ha); Hurano (imidacloprido 175 g i.a./290 ml p.c/ha); Engeo Pleno (tiametoxam + lambdacialotrina 32,25 + 12,5 g i.a./250 ml p.c/ha); Connect (imidacloprido + beta-ciflutrina 100 + 12,5 g i.a./1000 ml p.c/ha); Talisman (carbosulfano + bifentrina 90 + 30 g i.a./600 ml p.c/ha).


Algodão

Espaço e altura A podridão de maçãs do algodoeiro, uma das principais doenças que afetam a cultura, e sua relação com o espaçamento entre linhas e a altura de plantas

Fabiano Perina/Embrapa Algodão

A

podridão de maçãs é um dos principais problemas fitossanitários do algodoeiro no Brasil. De ocorrência comum nas principais regiões produtoras de pluma do país, a podridão de maçãs ocorre devido à ação de diversos agentes patogênicos presentes naturalmente nas áreas de produção de algodão, ao encontrar condições ambientais favoráveis ao seu estabelecimento. A depender da continuidade da condição ambiental favorável, a doença pode progredir rapidamente, resultando em drásticas perdas na produtividade. O conhecimento de medidas de manejo para a redução das condições favoráveis ao estabelecimento e progresso da doença é de fundamental importância para assegurar boas produtividades. Tais medidas assumem maior importância nos anos em que as condições ambientais, que fogem do controle humano e do sistema de gestão da propriedade, são propícias ao surgimento e ao aumento da doença no campo. Os sintomas iniciais do apodrecimento geralmente aparecem de forma mais evidente no ápice ou ponta das maçãs. Entretanto, é comum observar o início de infecção em outras partes do fruto, como na base, no pedúnculo e lateralmente, nos “lóculos ou lojas” das maçãs. O apodrecimento pode ocorrer tanto antes como após a abertura das maçãs, e é caracterizado pela ação de um complexo

de agentes patogênicos, sendo registrada mais de uma centena de micro-organismos. Dentre os micro-organismos associados à podridão de maçãs do algodoeiro, destacam-se espécies de fungos e bactérias como: Rhizoctonia solani, Sclerotinia sclerotiorum, Corynespora cassiicola, Myrothecium roridum, Lasiodiplodia theobromae, Ramularia areola, Phytophthora spp., Colletotrichum spp., Fusarium spp., Alternaria spp., Phoma spp., Aschochyta spp., Phomopsis spp., Pectobacterium carotovorum, Xanthomonas axonopodis pv. malvacearum, Pantoe aagglomerans, Bacillus spp., além de micro-organismos saprófitos e oportunistas. Ressalta-se que a maioria desses agentes causadores do apodrecimento são micro-organismos habitantes do solo e presentes naturalmente nas principais regiões produtoras de algodão do país. Dessa forma, estes agentes necessitam apenas que ocorram condições ambientais favoráveis para iniciar sua multiplicação que, ao atingirem as maçãs, disseminados por ventos, trânsito de máquinas, insetos e respingos de chuva, irão começar o processo de apodrecimento. Períodos prolongados de chuva são necessários para o início do surgimento da podridão de maçãs na lavoura. De modo geral, a doença se inicia quando fatores ambientais como elevada umidade

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Medidas contra a podridão da maçã em algodoeiro

Fotos Fabiano Perina/Embrapa Algodão

• A utilização de datas de semeadura adequadas à região, a fim de não possibilitar que a cultura atinja o auge do período de formação e aberturas de maçãs, em épocas marcadas regionalmente pela ocorrência de chuvas intermitentes; • Utilização de cultivares com arquitetura que facilite o arejamento dos terços médio e inferior das plantas; • Uso de cultivares adaptadas à região de cultivo e que apresentem menor índice de apodrecimento de maçãs; • Emprego de cultivares com resistência a lagartas; • Efetivo controle do bicudo e de percevejos que atacam o algodoeiro. Maçã de algodoeiro sadia (direita) e maçã em fase adiantada de apodrecimento (direita)

relativa do ar, chuvas frequentes, alta nebulosidade e baixo índice de radiação solar ocorrem por dois ou mais dias e coincidem com a fase de formação ou abertura das maçãs. Passados quatro dias da ocorrência de períodos favoráveis é possível visualizar no campo o início dos sintomas típicos do apodrecimento de maçãs, a partir do terço inferior das plantas. Uma das medidas que contribuem significativamente para superar esse problema diz respeito à utilização de espaçamentos maiores e à adoção de um bom manejo da altura das plantas. O espaçamento maior contribuirá no sentido de promover um melhor arejamento da planta, desfavorecendo a formação de um microclima favorável aos agentes causais, presentes naturalmente no campo. Já o porte da planta influencia no apodrecimento de maçãs, pelo fato de que plantas maiores proporcionam maior sombreamento e, consequentemente, originam um microclima favorável ao desenvolvimento dos agentes causadores da podridão. Entretanto, apesar de desfavorecerem o apodrecimento das maçãs, plantas muito baixas podem apresentar menor potencial produtivo. Assim, o manejo correto do regulador de crescimento, evitando o crescimento excessivo da altura das plantas, consiste em uma das medidas de manejo cultural que contribuem para a redução do problema no campo. Pensando nisso, um trabalho

Perina aborda a relação entre a podridão das maçãs e a altura e o espaçamento das plantas de algodão

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foi realizado pela Embrapa em parceria com a Fundação BA, na região Oeste da Bahia, para avaliar a influência da altura do algodoeiro e do espaçamento entre as linhas de semeadura no apodrecimento de maçãs. Para tanto, o algodoeiro foi semeado na primeira janela de semeadura da região, período em que, historicamente, a cultura atinge a fase de formação e abertura de maçãs em época de maior probabilidade de ocorrência de chuvas intermitentes. Foram avaliados portes de planta variando de 0,5 metro de altura até dois metros de altura e os espaçamentos entre linhas de 0,5 metro; 0,76 metro e um metro, mantendo-se sempre a mesma densidade de plantas por hectare. Para a obtenção das diferentes alturas, as plantas foram manejadas por meio da aplicação de reguladores de crescimento. Nas condições em que o trabalho foi realizado, observou-se que, embora a utilização de maiores espaçamentos desfavoreça o apodrecimento, não houve diferenças significativas entre os espaçamentos avaliados. Entretanto, no que se refere à altura de plantas, foi observada uma influência direta do porte das plantas no apodrecimento das maçãs de algodoeiro, com tendência de aumento do apodrecimento, à medida que cresce a altura das plantas (Figura 1). Nessas condições, foi obtida uma perda média de cinco arrobas de algodão em caroço por hectare, para cada meio metro a mais na altura média final das plantas. Esses resultados evidenciam a influência da altura da planta no apodrecimento das maçãs e reforçam a necessidade da adoção de um manejo efetivo da altura das plantas, como ferramenta auxiliar no controle do apodrecimento das maçãs do algodoeiro. Em relação ao espaçamento entre linhas, os resultados obtidos sugerem que é possível assegurar a obtenção de produtividades rentáveis de algodão em caroço, com baixa incidência de apodrecimento de maçãs, mesmo com a utilização de espaçamentos menores, desde que se adote um manejo efetivo da altura das plantas, como medida adicional para o controle da podridão de maçãs. Para uma maior eficiência no manejo da altura das plan-


Figura 1 - Gráfico de Regressão linear do apodrecimento de maçãs em função da altura de plantas empregadas em cada tratamento. @/ha: Arrobas de algodão em caroço por hectare. Luís Eduardo Magalhães, BA

Maçã de algodoeiro com sintomas de apodrecimento no terço inferior da planta

Planta identificada com estaca e fita plástica para realizar avaliação de altura, com o objetivo de orientar as aplicações de regulador de crescimento

tas, sugere-se que seja adotado um padrão de monitoramento, por meio da marcação de plantas aleatórias no talhão, a fim de se realizar medições periódicas (pelo menos a cada três dias) da altura. O crescimento das plantas deve ser manejado para que, na média, não atinjam taxas de crescimento

maiores que 1,5cm de altura por dia. Conhecendo-se a relação existente entre o apodrecimento de maçãs e a altura de plantas de algodoeiro, ressalta-se a importância do correto manejo do porte das plantas com a utilização de regulador de crescimento no manejo do algodoeiro, para a melhoria

na qualidade fitossanitária como forma de assegurar boas produtividades e C rentabilidade na cultura. Fabiano Jose Perina Júlio Cesar Bogiani Alderi Emídio de Araujo Embrapa Algodão


Capa Fotos CecĂ­lia Czepak

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Duas em uma

Crescem as evidências da presença de híbridos de Helicoverpa no Brasil. Amostras de lagartas das espécies Helicoverpa armigera e H. zea, coletadas no Mato Grosso e analisadas por pesquisadores do Reino Unido e da Austrália, através de sequenciamento genômico completo, confirmam hibridização. O uso de diferentes táticas de manejo integrado deve ser adotado para que os problemas fitossanitários resultantes desta e de outras pragas agrícolas possam ser resolvidos da melhor maneira possível

O

s insetos pertencentes à família Heliothinae estão entre as pragas agrícolas mais prejudiciais do mundo. Dentre os principais representantes desta família estão Helicoverpa armigera e H. zea, popularmente denominadas lagarta do Velho Mundo do algodoeiro e lagarta da espiga do milho, respectivamente. A comunidade científica mundial classificou H. armigera como uma das pragas de maior impacto agrícola entre os anos de 2012 e 2016. H. armigera é uma praga extremamente polífaga, sendo registrada em mais de 300 hospedeiros, entre os quais estão plantas cultivadas, invasoras e silvestres em diferentes partes do mundo, incluindo culturas como algodão, soja, milho e tomate. Enquanto H. zea possui um número menor de hospedeiros, 123 espécies, dentre essas também estão culturas de grande importância econômica para o Brasil, tais como algodão, milho

e tomate. Sendo assim, pode-se dizer que há uma relação próxima e contínua entre as duas espécies, principalmente em cultivos anuais. Esta situação pode se agravar ainda mais, em sistemas contínuos de cultivo, como, por exemplo, áreas irrigadas, criando assim as conhecidas “pontes verdes”, muito comuns em regiões agrícolas do Cerrado brasileiro. H. armigera e H. zea são espécies morfologicamente semelhantes e análises moleculares comprovaram a similaridade genética entre seus genomas, o que justifica os casos relatados de hibridização entre as duas espécies. Há aproximadamente 1,5 milhão de anos, na linha evolutiva do tempo, H. armigera e H. zea compartilhavam um ancestral comum, o que explica esta proximidade genética. A capacidade de hibridização entre a lagarta do Velho Mundo H. ar-

migera e a do Novo Mundo H. zea, em produzir descendentes férteis, têm sido claramente demonstrada em experimentos de laboratório desde 1965, embora tais cenários tenham se restringido apenas a condições laboratoriais e anteriores à recente chegada de H. armigera no continente sul-americano. Por meio do sequenciamento genômico completo, conforme estudo do renomado Instituto CSIRO na Austrália, foi possível constatar a existência de indivíduos híbridos provenientes de amostras brasileiras. No recente estudo publicado na revista científica internacional Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America (PNAS) os pesquisadores do Reino Unido e da Austrália analisaram um pequeno número de espécimes do Mato Grosso, originalmente identificados como H. armigera por meio

Helicoverpa zea e Helicoverpa armigera são duas espécies morfologicamente semelhantes

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do DNA mitocondrial, porém, quando realizado o sequenciamento completo do genoma, ficou evidenciado de que essas supostas “H. armigera” na verdade seriam híbridos, com quantidade variável de contribuição genética de H. zea. Além disso, outra amostra identificada como H. zea, a partir do DNA mitocondrial, apresentou uma grande porcentagem de DNA de H. armigera em seu genoma. Portanto, essa introgressão genética pode levar ao surgimento de novos ecótipos (presença de populações geneticamente únicas que são adaptadas ao seu ambiente local) na família Heliothinae. Uma hibridização natural sem precedentes e em larga escala se iniciou com a chegada de H. armigera na América do Sul. Além disso, essa hibridização pode estar ocorrendo há mais tempo do que se imagina, já que a entrada da H. armigera no Brasil pode ter ocorrido muito antes do que se supõe na literatura. Sendo assim, a avaliação precisa das proporções de híbridos dentro de determinados sistemas agrícolas exigirá análise completa do genoma devido à imprevisibilidade do genoma híbrido, pois pode haver uma contribuição desigual de cada uma das espécies parentais de Helicoverpa ao longo de várias gerações. Assim, o método amplamente utilizado de identificação rápida de espécies com base em “genes barcodings’’, de DNA herdado da mãe para diferenciar entre H. armigera e H. Zea, será agora ineficaz, uma vez que este marcador de

DNA não consegue identificar híbridos. Sem contar que com a possível existência desses híbridos a identificação taxonômica não poderá ser utilizada como ferramenta única para a confirmação de qual espécie se está manejando no campo. Uma incógnita a ser desvendada. Diante deste cenário, algumas hipóteses podem ser traçadas, quanto ao futuro das duas espécies mais importantes de Helicoverpa, no Brasil. Estas incluem: • As populações das duas espécies parentais, bem como o híbrido, poderão persistir em equilíbrio populacional; • Os híbridos poderão assumir o status de uma única praga, enquanto o tamanho das populações de ambas as espécies parentais irão diminuir; • Dentro do mesmo ambiente, uma ou ambas as espécies parentais e o híbrido podem coexistir; • Novos ecótipos híbridos podem ser selecionados sob condições ecológicas específicas, levando à fixação de certas características genéticas dentro do híbrido existente. Isso com certeza só o tempo dirá, mas alguns indícios de que as espécies originais estão desaparecendo aos poucos estão sendo constatados. Contudo, ainda são apenas especulações, por isso estes estudos devem ser cada vez mais incentivados e pesquisadores de todas as instituições brasileiras, públicas e privadas, devem se unir para que esses e outros desafios advindos da agricultura possam ser solucionados de forma a

beneficiar a agricultura de todo o País. Ainda não se sabe ao certo o impacto destes híbridos sobre a agricultura brasileira, porém o potencial de danos agrícolas causados por híbridos e ambas as espécies parentais é preocupante, bem como a evolução da resistência aos diferentes inseticidas químicos disponíveis no mercado brasileiro. O que é certo é que a praga precisa ser monitorada e as nossas fronteiras devem ser mantidas sob vigilância contínua, como fazem inúmeros outros países. A biossegurança precisa ser reforçada para minimizar as oportunidades de novas incursões por outras populações oriundas do Velho Mundo e geneticamente distintas, como a literatura recente mostrou que importantes pragas agrícolas como H. armigera e mosca-branca Bemisia tabaci entraram no País em diversas ocasiões e trouxeram genes resistentes a agroquímicos. Além disso, precisamos entender que o Brasil pode se tornar um "exportador" de indivíduos resistentes para outros países, complicando ainda mais os esforços globais para gerenciar o impacto nos sistemas de produção agrícola. O uso das diferentes táticas de manejo integrado de pragas deve ser adotado para que os problemas fitossanitários resultantes desta e de outras pragas agrícolas possam ser resolvidos da melhor maneira possível, sem elevar os custos de produção no País. Vale a pena lembrar que pragas como a H.

Hibridização natural sem precedentes e em larga escala se iniciou com a chegada de Helicoverpa armigera na América do Sul

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Fotos Cecília Czepak

armigera não podem ser controladas confiando apenas em ferramentas químicas, como se observou nos últimos anos em que se seguiram após sua identificação oficial. Uma verdadeira mudança de práticas e hábitos em relação ao que se está adotando no campo para controlar essa praga é urgentemente necessária, e isso deve ser realizado em conjunto com o conhecimento genômico atualizado da praga, independentemente de seu status híbrido. Existem inúmeras ferramentas que podem ser usadas em conjunto para reduzir efetivamente os danos causados por pragas como a Helicoverpa, os quais já foram discutidos exaustivamente nos últimos anos. Embora esses métodos e ferramentas não tenham sido amplamente adotados nos campos, suas eficiências no controle dos híbridos da Helicoverpa também precisarão de avaliação por meio do esforço da pesquisa. Vale lembrar que apenas o investimento em estudos científicos e, consequentemente, conhecimento podem garantir safras mais sustentáveis no C futuro.

Cecilia Czepak, Universidade Federal de Goiás Wee Tek Tay, CSIRO Black Mountain Laboratories Clunies Ross Street – Canberra/Australia Humberto O. Guimaraes, Tiago Carvalhais, Matheus Le Senechal e Rafael F. Silvério, Universidade Federal de Goiás

Insetos da família Heliothinae estão entre as pragas agrícolas mais prejudiciais do mundo


Nematoides Fotos Santino Aleandro da Silva

Diagnóstico eficiente Responsáveis por danos da ordem de R$ 35 bilhões anualmente no Brasil, nematoides são motivo de grande preocupação em culturas como soja, algodão, feijão e café. Identificar de modo correto a espécie que ocorre nas áreas de cultivo é passo importante para a adoção do manejo certo, que permita conviver com os graves problemas causados por esses organismos

O

s nematoides tornaram-se motivo de grande preocupação para a agricultura brasileira, seja pela sua ampla distribuição geográfica, pois ocorrem em praticamente todas as regiões de importância agrícola no país, mas, principalmente, pela grande capacidade de causar perdas de produtividade em culturas como

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soja, algodão, feijão, café, entre outras. Em algumas regiões do Brasil, como no Centro-Oeste, já foram relatadas perdas de até 80% da produtividade de soja em função do ataque de uma única espécie de nematoide, Pratylenchus brachyurus, um dos principais problemas da cultura na atualidade. Segundo pesquisas recen-

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tes da Embrapa e da Aprosoja, os danos provocados por nematoides podem chegar a alarmantes R$ 35 bilhões por ano. Atualmente, as principais espécies de nematoides que ocorrem no país, causando expressivas perdas econômicas, são os nematoides das galhas, Meloidogyne javanica (soja e milho) e M. incognita (soja


e milho), o nematoide das lesões, Pratylenchus brachyurus (soja, algodão e milho), o nematoide de cisto da soja, Heterodera glycines (soja) e o nematoide reniforme, Rotylenchulus reniformis (soja e algodão). Todos causam expressiva queda de produção nas culturas principais em que ocorrem. Entretanto, o reconhecimento dessas espécies a campo, que é realizado através da observação do sistema radicular, que pode ou não apresentar sintomas típicos da presença desses organismos, nem sempre é tarefa fácil. A melhor forma de identificar corretamente o problema é através de análise nematológica, realizada por laboratório especializado. Isso porque, para a adoção de qualquer medida de manejo, é imprescindível uma identificação correta das espécies ou raças dos nematoides em questão. A dificuldade em controlá-los tem início, justamente, na diagnose incorreta ou incompleta, pois, dentre as principais práticas de manejo de nematoides, a maioria só será eficiente se aplicada especificamente para cada situação. É o caso do uso de cultivares resistentes, da rotação de culturas ou mesmo do controle biológico. Neste último caso, como o registro do nematicida microbiológico, na maioria das vezes, é realizado para o alvo, ou seja, para a espécie de nematoide, a utilização sem conhecimento pode levar a resultados insatisfatórios. Além disso, alguns agentes de controle biológico apresentam elevada especificidade de controle em relação à espécie de nematoide, como as bactérias do gênero Pasteuria. A resistência de plantas é uma ferramenta eficiente de manejo que melhora a produtividade da cultura na presença de nematoides e reduz suas populações no solo. O custo direto da resistência para o agricultor é mínimo, sendo acessível, portanto, a qualquer sistema de produção. Ainda, a resistência apresenta inerentemente um apelo ecológico no manejo de nematoides, especialmente quando comparada com o uso de nematicidas. Entretanto, nem todas as culturas de interesse econômico apresentam cultivares com níveis adequados de resistência aos nematoides. Além disso, a resistência geralmente é pontual, existindo, por exemplo, cultivares de soja ou híbridos de milho com resistência a M. incognita e não a M. javanica, razão pela qual não basta ao produtor saber que sua lavoura está infestada por nematoides das galhas, sem saber de qual espécie se trata. Resultados muito bons têm sido observados em relação ao controle de H. glycines através do uso de cultivares resistentes. Entretanto, a variabilidade genética e o número de raças desse nematoide detectadas no Brasil são maiores que o observado em outros países, dificultando o lançamento de cultivares de soja com altos níveis de resistência a várias raças. Ainda atualmente a maioria das cultivares lançadas apresenta resistência apenas às raças 1 e 3 de H. glycines, por serem as mais disseminadas no Brasil. Mais uma vez, a importância da correta diagnose da raça presente na lavoura fica evidente, pois mesmo com a utilização de cultivar resistente, se a raça presente não estiver contemplada pela resistência genética, o problema persistirá. Infelizmente, para o nematoide das lesões, P. brachyurus, o grande vilão da soja na atualidade, não foram encontradas fontes de resistência em soja ou milho, até o momento, apesar de algumas cultivares apresentarem baixo fator de reprodução (fator de reprodução significa o quanto o nematoide consegue

Galhas radiculares causadas por Meloidogyne spp

A

B

Lesões radiculares causadas por Pratylenchus brachyurus em soja. A) Raiz sadia; B) Raiz inoculada com P. brachyurus mostrando escurecimento generalizado após 110 dias da inoculação

se multiplicar; se o fator de reprodução é baixo, significa que a cultivar permite pequena multiplicação do nematoide e, por consequência, pequeno aumento populacional). No caso da rotação de culturas, além do entrave para sua ampla utilização por parte dos produtores, pelo fato de que, geralmente, são culturas sem apelo econômico, com problemas de manejo e, invariavelmente, as melhores opções são plantas cultivadas no verão, competindo com a cultura principal, ainda existe a identificação do nematoide como determinante para seu sucesso. Para exemplificar, é possível utilizar as aveias: resultados de pesquisas indicam que as aveias pretas são mais resistentes a P. brachyurus, enquanto algumas cultivares de aveia branca são resistentes aos nematoides de galhas. Algumas cultivares de milheto também são resistentes a P. brachyurus, mas multiplicam M. javanica. Nesses casos, se tratam de gêneros de nematoides

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Fotos Santino Aleandro da Silva

Espécies de plantas para rotação de culturas para o manejo de nematoides. A) Crotalaria breviflora. B) Crotalaria juncea. C) Milheto. D) Aveia preta

diferentes, mas existem situações (por exemplo, o trigo mourisco, planta atualmente bastante procurada por agricultores para uso em rotação) em que uma das cultivares, IPR 92, é resistente a M. javanica, mas suscetível a M. incognita. Além dessas, as crotalárias são as mais estudadas para o manejo dos nematoides e têm mostrado possibilidades práticas de utilização nos sistemas de produção. Além de C. spectabilis (a mais utilizada para o manejo de nematoides), outras espécies (C. virgulata, C. grantiana, C. breviflora, C. paulina, C. mucronata, C. striata e C. retusa) podem igualmente ser classificadas como má hospedeiras de algumas espécies, embora com base em pequeno número de dados publicados, podendo ser alternativa valiosa em locais onde, por alguma razão, não se recomenda ou não é possível o cultivo de C. spectabilis. Já no caso de C. juncea, seu uso deve se restringir ao controle de M. javanica e, ainda assim, com ressalvas. Há fortes indícios de que propicia o aumento populacional de M. incognita e P. brachyurus e de que é menos eficiente na supressão de M. javanica que as outras crotalárias.

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Além de todas as dificuldades apontadas no manejo de nematoides, nas condições brasileiras a situação é ainda mais complicada, devido à frequente presença de espécies concomitantes na mesma área, o que é obviamente muito relevante quando da introdução de cultivares resistentes ou de outras ferramentas de manejo. Se a escolha de cultivos alternativos para o controle de uma única espécie de nematoide na lavoura já é tarefa difícil, o que dizer então no caso de se necessitar selecionar uma cultura que, a um só tempo, precise mostrar-se resistente a duas ou três espécies de nematoides ocorrentes no local, ecologicamente sustentável e, ainda, atraente e viável sob o ponto de vista econômico? Trata-se, sem dúvida, de assunto dos mais complexos e que só evidencia a dificuldade em se controlar tais patógenos através da rotação de culturas. Outras espécies de nematoides também têm galgado importância no cenário agrícola brasileiro, como Helicotylenchus dihystera, Scutellonema brachyurus e Tubixaba tuxaua. E aí reside outro problema: a dificuldade para a

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correta identificação desses nematoides menos comuns, seja pelas suas próprias características, seja pelo despreparo dos profissionais que realizam as análises nematológicas, muitas vezes de outras áreas afins, que se veem na necessidade de realizar tais identificações. Vale salientar que, mesmo com um nematologista com pós-graduação na área à frente do laboratório, nem sempre sua formação envolveu os aspectos taxonômicos dos nematoides, o que gera grande dificuldade para a correta diagnose, além de prejuízos aos agricultores na hora de escolher o manejo mais adequado. Para exemplificar, recentemente, o relato de ocorrência de Tubixaba sp. em muitas lavouras dos estados do Paraná, Mato Grosso, Goiás, Tocantins e Maranhão acendeu uma luz de alerta entre os nematologistas. Esse nematoide é incomum, sendo a espécie Tubixaba tuxaua a mais conhecida; é nematoide visível a olho nu e que tem trazido preocupação e incertezas tanto aos produtores quanto àqueles que trabalham com o tema. Entretanto, nem mesmo sua patogenicidade à soja, principal cultura em que tem sido diagnosticado, é confirmada. Justamente pelo seu avantajado tamanho (fêmeas podem atingir mais que 1cm), sua identificação deveria ser facilitada por parte dos laboratórios, mas é justamente o contrário que se presencia. Boa parte dos laudos atestando sua presença não é confirmada por nematologistas bem treinados que refazem as análises, sendo que até minhocas têm sido erroneamente identificadas como sendo esse nematoide gigante. Esse é um problema que vem se agravando no País e envolve não somente T. tuxaua, mas outras espécies mais comuns, que são erroneamente identificadas. As consequências de uma identificação equivocada podem ser desastrosas para o correto manejo do problema! Em função do quadro apresentado, um grupo de nematologistas filiados à Sociedade Brasileira de Nematologia (SBN) tem realizado estudos mais detalhados da distribuição de T. tuxaua, bem como de sua morfologia, com o objetivo de trazer esclarecimentos e informações mais detalhadas a respeito de sua


identificação. Grupos de nematologistas ligados à SBN também têm se reunido para discutir metodologias utilizadas pelos laboratórios que realizam análises nematológicas, buscando-se uma padronização que garanta resultados mais confiáveis ao agricultor. Esses assuntos serão discutidos por esses grupos quando da realização do XXXV Congresso Brasileiro de Nematologia, em junho de 2018. A mensagem que fica é a de que existem, sim, vários laboratórios de nematologia aptos a realizar tais análises, mas é preciso certa cautela por parte do produtor para não cair em armadilhas. A sugestão é para que o agricultor se informe com a assistência técnica em sua região qual a melhor opção para o envio de suas amostras. De posse dos resultados, o agricultor deve procurar por um especialista no assunto em cooperativas, institutos de pesquisa ou universidades para que obtenha informações confiáveis e eficientes para o adequado manejo do nematoide presente em sua lavoura.

Andressa e Silva alertam para a importância de identificar corretamente a espécie que ocorre nas áreas de cultivo

Para o correto manejo de nematoides não existe receita pronta, cada caso tem que ser analisado individualmente! Com a união dos esforços entre o agricultor, a extensão rural e o nematologista, será possível conviver com o problema que

os nematoides representam para a agriC cultura brasileira. Andressa C. Z. Machado e Santino Aleandro da Silva Iapar


Plantas daninhas

Cobertura eficiente

Importantes no auxílio ao controle de daninhas e de pragas como nematoides, plantas de cobertura são grandes aliadas do produtor. Contudo, é necessário realizar sua escolha correta para cada ambiente

N

o campo, a principal ferramenta utilizada para o controle das plantas daninhas reside no emprego de herbicidas, porém um dos problemas enfrentados no manejo são os biótipos resistentes, o que inviabiliza o uso de determinados herbicidas e aumenta o custo de produção total ao produtor. Existem várias soluções para um manejo eficiente e rentável, destacando-se o manejo integrado no sistema de produção como o mais eficiente. Dentre as possibilidades disponíveis para o controle, uma opção que vem sendo cada vez mais recorrente é a adoção de plantas de cobertura intercalares ou sistema de sucessão nos cultivos agrícolas.

PLANTAS DE COBERTURA E SEUS BENEFÍCIOS

Plantas de cobertura são aquelas que têm por finalidade cobrir o solo, protegendo-o contra erosão, perdas de nutrientes por lixiviação, além de servir para o pastoreio, produção de grãos e sementes, feno, silagem, fornecimento de palhada para o sistema de plantio direito (SPD), e algumas espécies possuem a capacidade de

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ciclar nutrientes. Em razão desses atributos, as plantas de cobertura constituem importantes aliadas no manejo de plantas daninhas, pois o acúmulo da palhada serve como uma barreira física, que além de manter a umidade do solo e aumentar a matéria orgânica, suprime a emergência das plantas daninhas, tanto pelo impedimento da passagem de luz como pelo efeito alelopático que dificulta a germinação, a emergência, e o estabelecimento na área por meio de exsudados liberados pela parte aérea em decomposição ou pelas raízes. A adoção de plantas de cobertura contribui para a melhoria dos atributos do solo, como os físicos, os químicos e também os biológicos. As raízes das plantas de cobertura desagregam as partículas do solo, formando microporos que favorecem a distribuição de água no sistema e são de grande importância na construção

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do perfil do solo. Além disto, as plantas de cobertura auxiliam no controle de doenças, nematoides e outras pragas, beneficiando de forma direta a cultura de interesse.

TIPOS DE PLANTAS DE COBERTURA

É importante lembrar que para cada ambiente, e dependendo da cultura sucessora, há uma planta de cobertura que se adapta melhor, ou seja, para escolher uma boa planta de cobertura devem-se levar em conta alguns fatores, como: a planta deve ser de crescimento rápido e fácil estabelecimento, ter um sistema radicular profundo e vigoroso para assim reciclar nutrientes, não ser hospedeira de pragas e doenças, oferecer boa cobertura para o solo, ser uma boa produtora de matéria seca, ter baixo custo de manejo e preferencialmente o produtor obter algum retorno econômico, como fornecer grãos ou servir para o pastejo animal nos períodos de entressafra. Entretanto, a adoção dessas plantas requer cuidado, pois não há uma planta de cobertura que se adapte a todas as condições e que ofereça todos os benefícios que quaisquer sistemas possam requerer. A escolha deve levar em conta as limitações da área e as características de cada espécie. A maioria das plantas usadas para este fim se divide em duas famílias: leguminosas (Fabaceae) e gramíneas (Poaceae). As plantas da família das leguminosas, como a crotalária, são importantes fixadoras de nitrogênio atmosférico. E as gramíneas, como as braquiárias e o milheto, possuem sistema radicular vigoroso e profundo, eficientes em reciclar Giovani Voltolini


Sementes Caiçara

nutrientes essenciais para o crescimento e desenvolvimento das plantas que serão cultivadas em sucessão. Podem ser implantadas em consórcio com algumas culturas, entre elas o milho, o café e as frutíferas, ou então serem cultivadas sozinhas, na época de safrinha e inverno, normalmente em regiões que não fazem o cultivo de grãos nessas épocas. Assim, além dos benefícios já citados, impede a incidência de plantas daninhas na área em época de pousio, e consequentemente impede o aumento do banco de sementes, principalmente das plantas daninhas resistentes, trazendo assim um impacto positivo na safra de verão, uma vez que o banco de sementes estará reduzido. Vale lembrar que a dessecação das plantas de cobertura é bem mais fácil e econômica que a de plantas daninhas lignificadas e resistentes.

MANEJO DE DESSECAÇÃO

A dessecação das plantas de cobertura e das plantas daninhas deve ser realiza-

Área em pousio com cultivo de Azevém

da aproximadamente 15 a 20 dias antes do plantio, devido aos vários benefícios proporcionados, como quebra de ciclo de pragas e doenças; diminuir a competição por água no início de desenvolvimento da cultura; aumentar a decomposição dos restos culturais das coberturas e das plantas daninhas; melhorar a uniformidade do plantio; diminuir os efeitos alelopáticos causados pelas plantas de cobertura

e plantas daninhas; uniformizar o estádio das plantas daninhas para assim facilitar a aplicação de herbicidas pós-emergentes; promover o controle de plantas de difícil controle e consequentemente aumentar a produtividade.

TIPOS DE PLANTAS DE COBERTURA

• Aveia-preta (Avena strigosa):

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Claudinei Kappes

Área com o cultivo do capim braquiária Sementes Piraí

Área de pousio com crotalária

muito utilizada no cultivo de grãos, é uma planta bastante precoce e rústica, possui resistência às principais pragas e por isso é empregada como regeneradora da sanidade, diminuindo a população de patógenos como a ferrugem e o ataque de pulgões, além de servir para a produção de feno, silagem e alimentação tanto para os animais como para os humanos. Também produz uma elevada quantidade de massa verde e contribui para a ciclagem de nutrientes. É uma planta muito utilizada para proteger o solo durante o inverno e é uma excelente forrageira. • Azevém: (Lolium multiflorium): possui compostos alelopáticos que diminuem a incidência de plantas daninhas, é um importante aliado contra a erosão e pode ser utilizado para alimentação animal. Utilizado também como forrageira e formadora de palhada para o plantio direto, mas em alguns cultivos de inverno é considerado planta daninha, como, por exemplo, no trigo. É frequentemente usado como cobertura antes de culturas, como milho e soja. • Capim braquiária: braquiária ruziziensis (Urochloa ruziziensis), braquiária brizantha (Urochloa brizantha) e braquiária decumbens (Urochloa decumbens) são as espécies usadas como plantas de cobertura. Possuem alta capacidade de produção de biomassa, tanto na parte aérea, fornecendo palhada, como nas raízes, contribuindo muito para a estruturação do solo e incorporação de carbono orgânico em camadas mais profundas. Suas raízes formam uma malha que segura as partículas superficiais do solo e que o defende do impacto das gotas da chuva, protegendo o solo da erosão. • Crotalária: (Crotalaria spectabilis) e (Crotalaria juncea): importantes fixadoras de nitrogênio, apresentam elevada capacidade de ciclagem de macro e micronutrientes, melhorando as

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características físicas e químicas do solo, e aliadas no controle de nematoides formadores de galhas e cistos. Favorecem a C descompactação do solo e auxiliam no controle da erosão. São adotadas principalmente em associação com soja, milho e algodão. Aliado a isto, possuem grande capacidade de fixar nitrogênio atmosférico no solo, contribuindo assim para a fertilidade e a nutrição das plantas. • Milheto (Pennisetum glaucum): também usado para a alimentação animal, é uma planta de baixa exigência hídrica, com alta capacidade de ciclagem de nutrientes, crescimento rápido e de elevada produção de biomassa, o que contribui para a formação de palhada. É um aliado importante no controle de pragas e nematoides, pois por apresentar resistência, quebra o ciclo de reprodução desses parasitos. • Nabo forrageiro: (Raphanus sativus): muito utilizado para adubação verde no inverno, alimentação animal e na rotação de culturas, além de ser um importante aliado na descompactação do solo devido ao seu sistema radicular pivotante bastante profundo. Apresenta elevado crescimento inicial, com importante efeito supressor sobre plantas daninhas e se decompõe rapidamente, fornecendo nutrientes de forma imediata para a cultura seguinte.

CUSTO X BENEFÍCIO

A adoção recorrente desta técnica se deve em parte à acessibilidade na aquisição das sementes, cujo preço não ultrapassa R$ 300,00 por hectare. No princípio da instalação, o produtor tende a questionar o investimento a ser feito, incrédulo quanto ao retorno. Entretanto, estudos mostram que a prática pode resultar em uma economia de R$ 960,00 por hectare com insumos e manejo do solo. Outro problema comumente reportado é quanto ao ma-


nejo das plantas de cobertura, uma vez que os sistemas de produção atuais são muito baseados em sucessão de cultivos (exemplo: soja/milho). Este tipo de sucessão indica de forma clara o papel das plantas de cobertura na diversificação e viabilidade dos sistemas de produção, assim contribuindo para uma maior produção e de forma mais sustentável, isto é, menos suscetível a ataques de pragas, doenças e menos dependente de insumos agrícolas.

APLICAÇÕES

Cafeicultura x plantas de cobertura

Cada vez mais a adoção de plantas de cobertura na cafeicultura vem se tornando uma técnica consagrada, porque conferem grandes benefícios à cultura e, consequentemente, asseguram maior rentabilidade no cultivo aliado à produção sustentável. Na cafeicultura, a otimização da água, a ciclagem de nutrientes, a descompactação do solo, o auxílio no manejo de plantas daninhas, a fixação biológica de N (Fabaceae) e o aumento da matéria orgânica são os principais benefícios associados à sua utilização. O capim braquiária é a planta de cobertura mais empregada em cultivos de cafeeiros, pelos ganhos que esta gramínea proporciona às plantas. O manejo deste sistema se dá de forma integrada, onde o controle químico é realizado na linha de cultivo, e nas entre linhas o

Desafio da produção de grãos

O

Brasil é um dos maiores produtores de grãos do mundo. Estima-se que sua produção possa ultrapassar os 226 milhões de toneladas na safra 2017/2018, sendo a soja e o milho responsáveis pela maior parte da produção do país, representando aproximadamente 89%. De acordo com as estimativas para este ano agrícola, esperase que a produção de soja seja cerca de 119,2 milhões de toneladas e de milho 92,2 milhões de toneladas. Apesar da grande quantidade produzida, a produtividade média de grãos no Brasil ainda é considerada baixa, o que ocorre em função de vários fatores, entre os quais se destacam os solos brasileiros, por serem

manejo se dá de forma mecânica, por meio de roçadas. Neste sentido, os restos culturais oriundos da roçada são lançados para a linha do cafeeiro na busca de ganhos com matéria orgânica, melhoria na utilização de água, redução da amplitude térmica do solo e supressão das plantas daninhas, tanto por efeito físico, quanto por alelopatia. Plantas de cobertura como o feijão de porco, a mucuna, o amendoim forrageiro, a crotalária e o nabo forrageiro também são frequentemente utilizadas como plantas de cobertura no cafeeiro, cada

ácidos e pobres em matéria orgânica, e devido aos agricultores de subsistência não adotarem as tecnologias disponíveis, o que faz com que atinjam uma média produtiva baixa. Além disso, a não adoção de manejos adequados como rotação de culturas, tratos fitossanitários, controle de plantas daninhas e manutenção da fertilidade do solo e nutrição mineral das plantas, afetam a produtividade. Em relação às plantas daninhas, quando não manejadas de forma correta, podem causar reduções no crescimento, desenvolvimento e na produtividade da lavoura, devido à elevada capacidade de competir com a cultura por elementos essenciais disponíveis no meio, como: água, espaço, luz e nutrientes.

qual com suas especificidades.

SISTEMA SANTA FÉ

O sistema Santa Fé é consagrado na agricultura, onde há a associação do cultivo de milho com o capim braquiária, de forma que, após a colheita do milho, o capim passa a ser utilizado C como forrageira para pastoreio. Klinger M. Lima Júnior Lenise Oliveira Coelho Giovani Belutti Voltolini Maurício A. de Paula Santos Artur José Lima Guedes Ufla

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Cana

Peste laranja

Rafael Fávero Peixoto Júnior

Doença de grande importância para o setor canavieiro, a ferrugem alaranjada, causada por Puccinia kuehnii, exige especial cuidado no diagnóstico, já que pode ser confundida com outras enfermidades, como a ferrugem marrom. O uso de variedades resistentes é uma das alternativas para o controle, mas sua adoção ainda esbarra em algumas limitações

E

ntre as doenças que podem trazer prejuízos no setor canavieiro em todo o Brasil, destaca-se a ferrugem alaranjada, causada pelo basidiomiceto Puccinia kuehnii (W. Krüger) E. J. Buttler. Até o final da década de 1990, esta doença era considerada como de menor impacto para a cultura de cana-de-açúcar. Porém, em 2000, ocorreu um surto

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de ferrugem alaranjada na Austrália, atingindo a variedade Q124, resultando em perdas de produtividade superiores a 35%. Após esse episódio de alta severidade de ferrugem alaranjada nos campos da Austrália, deixou de ser uma enfermidade secundária e passou a ser uma doença fitossanitária de grande importância para o setor. No Brasil, a ocorrência


acervo do autor

Figura 1 – Estruturas de infecção e reprodução assexuada da ferrugem alaranjada em folha de cana-de-açúcar. Fonte: modificado de DOI 10.3389/fpls.2014.00664

Figura 2 – Variedade ‘IACSP84 2480’ apresentando lesões foliares de ferrugem marrom e alaranjada. (a) P. melanocephala, (b) P. kuehnii

de ferrugem alaranjada foi constatada pela primeira vez em dezembro de 2009, na região de Araraquara, no estado de São Paulo. Atualmente, se disseminou e se estabeleceu nas principais áreas canavieiras do país: São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, Goiás e Minas Gerais. Assim como em outras ferrugens, a alaranjada é causada por fungo biotrófico, ou seja, necessita de células do seu hospedeiro vivo durante o ciclo de vida. Essa doença causa uma série de danos em cana-de-açúcar, bem como em outras plantas do gênero Saccharum como: S. arundinaceum, S. nargenga, S. officinarum, S. spontaneum, S. robustum, S. munja, S. edule, S. bengalense e Sclerostachya fusca. Interfere mais frequentemente nas folhas, no crescimento das raízes e na taxa de fotossíntese, gerando um aumento na taxa de respiração e dificuldade de translocação de metabólitos nas folhas infectadas. Em variedades suscetíveis, há redução do tamanho e do diâmetro do colmo, diminuição da quantidade de perfilhos, comprometendo a produção final de açúcar e biomassa.

DESCRIÇÃO E ASPECTOS BIOLÓGICOS

A ferrugem alaranjada é favorecida por condições atmosféricas de alta umidade relativa e temperaturas amenas a quentes. Nessas condições, os urediniósporos, esporos responsáveis pela dispersão do fungo, podem germinar e infectar novas plantas. O curto ciclo de vida do fungo permite o desenvolvimento rápido de epidemias e dentro de cinco semanas a seis semanas, a cultura, de aspecto inicialmente verde, se torna alaranjada/avermelhada devido à formação maciça de pústulas na superfície abaxial das folhas. Inicialmente são formadas manchas alongadas e amareladas, paralelas às nervuras que vão aumentando de tamanho e adquirindo coloração alaranjada, devido à formação de urédias. Com o rompimento das urédias, há a formação de pústulas, sintoma típico das ferrugens. Em variedades muito suscetíveis, as pústulas agrupam-se, formando placas de tecido necrosado. Quando as pústulas coalescem, há uma necrose dos tecidos,

geralmente, nas folhas mais baixas, prejudicando o crescimento e consequentemente, a produção de cana-de-açúcar. Tanto urediniósporos como teliósporos de P. kuehnii foram identificados e descritos em cana-de-açúcar. Porém, urediniósporos são mais comuns e geralmente estão presentes ao longo do período de infecção, enquanto os teliósporos são normalmente encontrados no final do período de infecção quando as lesões estão muito escuras. Basidiósporos também foram encontrados, mas não possuem capacidade de começar uma infecção em cana-de-açúcar. Como o hospedeiro intermediário e o estágio aecial ainda não são conhecidos, supõe-se que o ciclo da doença se interrompa nesse ponto, não ocorrendo reprodução sexual. O desenvolvimento da ferrugem alaranjada depende de uma sequência de eventos que começa com a germinação dos urediniósporos e termina com o estabelecimento do fungo em plantas suscetíveis. O ciclo da doença é marcado pela germinação de um urediniósporo, que desenvolve um tubo germinativo com tamanho variável. Quando o tubo germinativo entra em contato com um estômato, ocorre a formação de apressório. Após a formação do apressório sobre o estômato, é formado um pequeno peg de infecção que entra na folha através da abertura estomática. A penetração direta do fungo na folha, sem a passagem pelo estômato, não tem sido observada. O peg de infecção, após passar pelas células-guarda, forma uma vesícula que pode ocupar toda a cavidade subestomática. A vesícula subestomática, por sua vez, desenvolve de duas a quatro hifas infectivas que colonizam e começam a se desenvolver no mesófilo foliar. A ponta da hifa infectiva se torna septada, originando uma estrutura chamada de célula mãe do haustório, que se posiciona ao lado da parede celular de uma célula do mesófilo. A parede celular da célula é penetrada e ocorre a formação do haustório (estrutura especializada na absorção de nutrientes a partir do citoplasma da célula hospedeira). Um urediniósporo, sob condições favoráveis em contato com uma folha, pode infectar e desenvolver uma pústula em menos de 14

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Figura 3 – Urediniósporos de ferrugem alaranjada e marrom (A, B, C e D) observados ao microscópio óptico (aumento 40x) e lesões foliares de ferrugem alaranjada e marrom observados ao microscópio esterioscópio (aumento 4x) (E e F). (A – B) P. kuehnii; (C) P. melanocephala; (D) Teliósporo de P. melanocephala; (E) Lesão foliar de ferrugem alaranjada; (F) Lesão foliar de ferrugem marrom. Fonte: acervo do autor

característica importante a ser observada é a idade das plantas e distribuição das lesões nas folhas, uma vez que a ferrugem marrom ocorre principalmente em plantas jovens, com idade de dois meses a seis meses, apresentando lesões no terço médio posterior das folhas. Já a ferrugem alaranjada pode ocorrer na planta em qualquer fase do seu desenvolvimento, apresentando lesões em toda a superfície foliar. A ferrugem marrom apresenta pústulas de cor marrom-escuro, estreitas e alongadas, enquanto as pústulas da ferrugem alaranjada são alaranjadas-claro, arredondadas e curtas. Os urediniósporos das duas ferrugens possuem estruturas morfológicas particulares que permitem a identificação das espécies por microscopia. Os urediniósporos de P. melanocephala são elípticos com parede celular uniforme em espessura e são de coloração marrom-escuro. Os urediniósporos de P. kuehnii são normalmente ovoides ou piriformes, e alguns dos esporos têm em sua parte apical um espessamento da parede celular, e a coloração costuma variar de amarelo dourado a alaranjado. Outra característica útil para a diferenciação das doenças é a superfície equinulada (espinhos) dos urediósporos. Na ferrugem marrom, as extremidades das paredes são muito equinuladas e com agrupamento de espinhos. Já as extremidades das paredes de ferrugem alaranjada são parcialmente equinuladas e sem agrupamentos de espinhos. No campo, a ferrugem alaranjada pode ser facilmente confundida com lesões foliares causadas pelo fungo Cercospora longipes. Nesses casos, as amostras devem ser analisadas, utilizando microscopia e/ou técnicas de biologia molecular. A biologia molecular, utilizando a técnica da Reação da Polimerase em Cadeia (PCR) com base na identificação precisa do DNA do patógeno, também pode ser empregada como ferramenta de distinção entre as duas ferrugens de cana-de-açúcar, antes mesmo do desenvolvimento dos sintomas.

VARIABILIDADE GENÉTICA

dias. Os urediniósporos são facilmente dispersos pelos ventos e respingos de chuva, e a grandes distâncias, por meio de toletes contaminados. Os sintomas de ferrugem alaranjada, por vezes, podem ocorrer concomitantemente com os da ferrugem marrom (Puccinia melanocephala) e ambos podem ser confundidos. Por esse motivo, é importante que a sintomatologia seja bem conhecida, assim como a morfologia dos agentes causais. A ferrugem marrom e a ferrugem alaranjada podem ser distinguidas pelo formato das pústulas, a coloração e ornamentação dos esporos, a distribuição das lesões nas folhas e também por marcadores moleculares. No campo, a primeira

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Em 2009, o Centro de Cana do Instituto Agronômico iniciou um trabalho financiado pelo programa Bioen da Fapesp, para identificar possíveis variabilidades genéticas em P. melanocephala que pudessem corroborar a existências de diferentes raças desse patógeno. Esse estudo resultou no desenvolvimento de marcadores moleculares microssatélites e na análise de amostras de diferentes locais afetados pela ferrugem marrom. Com o surgimento da ferrugem alaranjada nessa mesma época, os marcadores microssatélites antes desenvolvidos para ferrugem marrom foram testados também para ferrugem alaranjada. A transferibilidade intraespecífica de marcadores microssatélites é amplamente empregada, pois representa uma alternativa ao desenvolvimento de novos marcadores, evitando assim o alto custo do seu desenvolvimento. Como resultado desse trabalho, tanto para ferrugem marrom quanto para alaranjada, não foi identificada variabilidade genética nas amostras analisadas. Esse fato pode estar relacionado com a ausência de um hospedeiro intermediário no Brasil para as ferrugens da cana-de-açúcar, restringindo a propagação da doença somente por reprodução assexuada, o que limita a va-


Fotos acervo do autor

Figura 5 - Escala diagramática para avaliação da severidade de ferrugem alaranjada, causada pelo fungo P. kuehnii em folhas de cana-de-açúcar (Saccharum spp.). Valores em porcentagem de área foliar lesionada. Fonte: http://dx.doi.org/10.1590/ S1982-56762013000200012

Figura 4 – Mancha parda. (A) Lesões foliares, (B) Conidióforos de conídios de Cercospora longipes observados ao microscópio óptico (20x)

riabilidade genética entre diferentes amostras do patógeno.

CONTROLE

O controle mais eficaz e economicamente viável da ferrugem alaranjada é a utilização de variedades resistentes. Todas as novas variedades, antes de lançadas no mercado para os produtores, deveriam ser submetidas a testes de resistência à ferrugem. No entanto, esse procedimento é trabalhoso, demorado e de custo considerável, sendo que os programas de melhoramento, em geral, realizam a seleção de clones resistentes aproveitando-se da infestação natural em campo. Para a avaliação do grau de resistência da cultivar à ferrugem alaranjada utiliza-se a escala diagramática para avaliação da severidade. A avaliação é realizada na folha +3. São consideradas resistentes à ferrugem alaranjada as variedades com notas entre 1 e 3, intermediárias as com notas entre 4 e 6 e suscetíveis as com nota 7 a 9. A expansão do cultivo de cana-de-açúcar em regiões não tradicionais, com ambientes propensos a secas (regiões Central e Nordeste do Brasil), juntamente com um importante crescimento da colheita mecânica (com ausência de

queimadas), tende a favorecer o aparecimento de novos patógenos e/ou o reaparecimento de doenças há muito C tempo mantidas sob controle.

Rafael Fávero Peixoto Júnior e Silvana Creste, IAC


Empresas

Raízes profundas Nidera Sementes reúne colaboradores e parceiros do Brasil e do Paraguai em evento em Foz do Iguaçu, no Paraná, com os objetivos de consolidar propostas e projetar crescimento futuro

A

Nidera Sementes realizou em junho mais uma etapa do evento “Raízes", em Foz do Iguaçu, no Paraná. Voltado para licenciamento, o encontro reuniu durante dois dias mais de 200 colaboradores e parceiros da marca, do Brasil e do Paraguai. O objetivo, segundo os organizadores, foi de resgatar as propostas já realizadas, garantir as atuais e projetar crescimento para o futuro. O crescimento da Nidera Sementes nos últimos anos pode ser medido pelos números de vendas de produtos e também pelos resultados apresentados por pesquisas realizadas no setor. Na safra 2013/14, a empresa comercializou 1,79 milhão de sacas de sementes de soja do modelo vertical e a previsão para a safra 2018/19 é de que alcance o patamar 2,75 milhões de sacas vendidas. Em 2017, a Nidera foi a empresa mais lembrada pelos

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produtores em uma pesquisa que, entre outros questionamentos, busca saber qual a marca vem à mente dos agricultores quando o assunto é sementes. Em 2018, a Nidera permaneceu novamente na liderança e cresceu dois pontos percentuais em relação ao ano passado. O crescimento faz parte de uma série de estratégias adotadas nos últimos anos com o objetivo de tornar a companhia cada vez mais competitiva e eficiente. A meta é elevar a marca ao posto de melhor e maior empresa de sementes na América Latina. Para isso, a Nidera refinou seu portfólio, mantendo no mercado apenas produtos competitivos. "De 2014 para 2017, por exemplo, o portfólio de soja foi reduzido de 36 cultivares para 13 cultivares e o de milho de 12 híbridos para seis híbridos", explicou Fábio Guerra, gerente de Produtos Brasil e Paraguai. Outro passo importante para alcançar este


Fotos Nidera

objetivo reside no alinhamento das ações com licenciados e distribuidores, através de encontros como o Raízes, que ocorrem em 2018 com o objetivo de esclarecer as novas políticas da empresa e apresentar novas estratégias. Após estes encontros a empresa oferecerá a cada parceiro treinamentos, capacitações e incentivos comerciais com o objetivo de garantir remunerações mais elevadas, ampliando a capacidade de vendas de cada um. De acordo com o líder de Negócios Brasil e Paraguai, André Franco, em 2017 a Nidera projetava ser a melhor empresa de sementes do Brasil e agora, após ser adquirida pela Syngenta, quer ser também a maior da América Latina. “Deixamos de ser uma empresa provedora de germoplasma para também ser uma empresa de biotecnologia”, explica. Franco projeta que para alcançar esta meta a empresa deverá garantir sistemas e processos corretos, com pessoas competentes nos lugares certos. “Buscaremos esta conexão trabalhando com os melhores parceiros em todos os países da América Latina e criando programas de benefícios que incentivem todos os licenciados”, destaca. De acordo com o gerente de Desenvolvimento de Produto, Adriano Silva, o crescimento da empresa está baseado em quatro pontos essenciais: visão a longo prazo, maior integração das áreas, alinhamento entre países da América Latina e foco na equipe de Pesquisa e Desenvolvimento. “Estamos preparados para lançar variedades muito competitivas no mercado, com as tecnologias Conkesta (tolerante a 2,4-D, glifosato e glufosinato, com as proteínas BT Cry 1F e Cry 1AC) e Intacta 2Xtend (tolerante a glifosato e dicamba e com as proteínas BT Cry 1AC, Cry 2AB e Tich 105), que deverão ser comercializadas a partir da safra 2020/21”, projeta. O reforço do foco da marca em Pesquisa e Desenvolvimento pode ser observado no crescimento da rede de ensaio de um ano para

Franco destacou o potencial de crescimento na América Latina

outro, passando de 187 locais e 20 mil parcelas em 2017 para 214 locais e 40 mil parcelas em 2018. No Paraguai, onde atua há 12 anos, a Nidera tem atualmente 37% do marketshare de sementes e é líder de mercado há cinco anos. A meta é crescer ainda mais e alcançar 40% do mercado, chegando próximo a 500 mil sacas de sementes comercializadas na próxima safra. Para atingir 40% do mercado, a

empresa desenvolverá atividades em conjunto com licenciados para chegar aos produtores através de eventos e foco em produtos-chave. No total, são 20 multiplicadores trabalhando com a Nidera, distribuídos nas principais regiões produtivas do País. Para o gerente de Negócios no Paraguai, Pascual Gonzales Sanabria, o momento não poderia ser mais animador para colaboradores, distribuidores e licenciados. “A Nidera tem um portfólio que oferece grande produtividade aos produtores. Com produtos bons e licenciados e parceiros comprometidos cresceremos cada vez mais”, aposta. O modelo de licenciamento projeta o maior crescimento ao longo de cinco anos. O coordenador de Marketing e Comunicação, Nélio Reis, destacou a importância de licenciamento para a Nidera no Brasil “A Nidera planeja aumentar sua participação de mercado através de programa de licenciamento personalizado, que agrega serviços e capacitação técnica comercial, com um portfólio competitivo”, explicou.

Voltado a licenciados evento reuniu mais de 200 colaboradores e parceiros

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Coluna Agronegócios

Greve dos caminhoneiros: foco errado

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ão é possível separar a produção agropecuária de seus processos a montante e jusante, como máquinas, insumos, armazenagem, processamento e transporte. Tudo o que afetar o transporte de carga no país afeta também o agronegócio. De 21 a 30 de maio de 2018, o Brasil andou em primeira marcha reduzida (em alguns momentos andou de ré) porque uma greve iniciada por entidades de caminhoneiros e, posteriormente, infiltrada por outros interesses ainda por esclarecer, reivindicava redução do preço do óleo diesel e do pedágio e preço mínimo de frete, entre outros aspectos. De olho apenas na redução de custos imediata, e sem uma análise holística do real impacto da greve e suas demandas, algumas lideranças do agronegócio apoiaram a greve no seu princípio. No seu final, quase todos os líderes imploravam para que ela terminasse. Por quê?

O QUE OCORREU

A resposta à pergunta passa pela análise dos prejuízos imediatos causados pela greve, as concessões efetuadas pelo governo e seus impactos no médio prazo. Estimam-se perdas de R$ 100 bilhões na economia brasileira. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) informa um prejuízo de R$ 6,6 bilhões para os produtores rurais, além das perdas nas indústrias de insumos e de processamento de produtos agrícolas, que devem atingir montante igual ou superior. O prejuízo maior ocorreu na produção de aves, que tem um cronograma extremamente rígido para que seja rentável. Mais odioso foi a morte de bilhões de pintos e frangos por falta de energia, de rações e de transporte. Bilhões de litros de leite foram desperdiçados, o mesmo ocorrendo com parcela ponderável da produção de ovos. Outras cadeias da pecuária, como suínos, peixes e gado bovino, a horticultura e a fruticultura, que lidam com produtos perecíveis, também perderam muito dinheiro. Ninguém ganhou. O produtor rural perdeu mais de R$ 6 bilhões e valor similar foi perdido com exportações não realizadas. Entre os dois pontos, houve enormes perdas na indústria, no comércio e no transporte. Caminhoneiros perderam cargas e fretes, deixaram de faturar durante a paralisação. O governo arrecadou menos impostos, a população ficou sem combustível, sem escolas, em alguns locais faltou energia, o sistema de saúde concentrou-se nas prioridades máximas. A inflação vai subir e o país vai crescer menos em 2018. E, assim que foi aprovado um valor mínimo para os fretes, lideranças agrícolas acusaram o golpe e passaram a criticar a medida.

OS IMPACTOS

O governo reduzirá o preço do óleo diesel em R$ 0,46, não cobrará eixo levantado nos postos de pedágio, estabeleceu preço mínimo de fretes e reservou 30% do transporte dos estoques da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para caminhoneiros autônomos. Estima-se o valor em R$ 13,5 bilhões, somente em 2018. Para que alguém receba um subsídio, outrem tem que pagar a conta. Para não aumentar impostos, o governo cortou despesas. De onde sairá o dinheiro? Uma parte do subsídio virá da redução da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) e do PIS/Cofins. A Petrobras vai reduzir o preço na refinaria e será compensada pelo governo. O dinheiro para repassar à Petrobras virá da reoneração da folha de pagamentos

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de algumas empresas. O programa Reintegra, que devolvia 2% do PIS/ Cofins nas exportações de manufaturados, devolverá 0,1%, o que derrubará as exportações do setor. Será reduzido em 16% o crédito das empresas processadoras de suco de frutas da Zona Franca de Manaus. As indústrias químicas recebiam um crédito de 3,65% do PIS/Cofins nas suas importações, que será zerado. E haverá um corte de R$ 1,2 bilhão em despesas do governo, mormente em saúde e educação. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) perderá R$ 12 milhões, na defesa agropecuária e na pesquisa agrícola.

TRIBUTOS

O governo retirou isenção de impostos de alguns setores e a repassou para o setor de transportes, um arbítrio ao sabor da pressão do momento e conforme o humor dos governantes, em que um setor é privilegiado e outros são onerados. E os consumidores e pagadores de impostos arcam com o custo. O problema de fundo divide-se, de forma simplificada, em três ramos: gastos públicos, tributos e formação de preços de combustíveis. A sociedade paga 40% de impostos sobre tudo o que produz – um dos valores mais altos do mundo – para receber serviços que estão entre os piores do mundo. Urge uma reforma fiscal que enquadre Executivo, Legislativo e Judiciário na capacidade de pagamento de impostos do povo brasileiro, que não deveria superar 30%. Já passou muito da hora de o Brasil dispor de uma estrutura tributária moderna, livre do enredo de quase uma centena de impostos, taxas, contribuições e outras denominações usadas pelos governos para retirar dinheiro do povo. Tem mais: poucos se enquadram na regra, tamanhas são as exceções e as isenções, que tornam o sistema um prato cheio para contestações, fazendo a festa dos advogados, aumentando o custo Brasil.

PREÇO DOS COMBUSTÍVEIS

Vamos aos números atuais. Em junho de 2017, o preço do petróleo era de US$ 45/barril e em junho de 2018 é de US$ 80/barril, aumento de 78%. A taxa de câmbio em 1/6/2017 era US$ 1=R$ 1,15, em 1/6/2018 é de US$ 1=R$ 3,77, aumento de 20%. Combinando os dois preços, o barril de petróleo aumentou 113%. As alternativas: 1) repassar o preço ao consumidor; 2) a Petrobras subsidiar o combustível, arriscando falir; 3) o governo subsidiar o preço e a sociedade como um todo arcar com o subsídio, pagando mais impostos ou recebendo menos serviços. Há quase 50 anos Milton Friedman já avisara: “Em economia, não há almoço grátis”.

SOLUÇÃO

Há outra alternativa: do meu ponto de vista, de nada adianta afrontar as leis naturais da economia, seja com subsídios, privilégios ou reservas de mercado. A solução definitiva virá de uma nova estrutura tributária para o País, que seja justa, moderna, simples e eficiente. E de uma correta e eficiente aplicação dos recursos dos impostos, sem privilégios e sem corrupção. Se você concordar, o caminho para a solução depende de você: nas próximas eleições, vote em candidatos sérios, honestos e C efetivamente comprometidos com esses aspectos.

Decio Luiz Gazzoni, O autor é Engenheiro Agrônomo, membro do Conselho Consultivo de Agricultura Sustentável.


Coluna Mercado Agrícola MILHO

Colheita da safrinha em andamento

A safrinha está em colheita e há perdas no potencial produtivo devido ao clima seco deste ano. Como houve atraso no plantio de boa parte das lavouras e as chuvas cessaram cedo, áreas do Paraná, Mato Grosso do Sul e pontos de São Paulo e Goiás sofreram com a seca. Desta forma, a colheita, que no ano passado rendeu aproximadamente 67 milhões de toneladas na safrinha, deverá alcançar entre 55 milhões de toneladas e 60 milhões de toneladas no máximo (aproximadamente dez milhões de toneladas a menos em relação a 2017). Tal expectativa deu fôlego positivo às cotações internas e até mesmo à exportação que avançou forte nos prêmios praticados nos portos (onde são observados níveis de até 100 pontos acima de Chicago para o grão). Com boa demanda mundial, os valores nos portos se mantêm na faixa de R$ 40,50 a R$ 41,00 pela saca (de agosto em diante), sendo que há muito espaço no mercado externo para o milho brasileiro. Os formadores das cotações internas seguirão sendo os níveis que os portos estiverem praticando, porque internamente há o consumo de pouco menos de 30 milhões de toneladas no segundo semestre e assim boa parte da safra terá de ser exportada. Mas a boa notícia é que o milho neste ano está valendo entre R$ 12,00 e R$ 15,00 por saca, acima do praticado no ano passado e já existem indicativos de cotações ainda melhores para 2019.

SOJA

Comercialização avançou forte e agora vem safra nova

O mercado da soja do Brasil já negociou aproximadamente 80% da safra de mais de 116 milhões de toneladas. O ritmo está acelerado e agora o movimento deverá crescer com fechamentos da safra nova. Tudo indica que o país irá cultivar aproximadamente um milhão de hectares a mais que os 35 milhões de hectares plantados na última safra. Com isso, já começa a se movimentar o mercado de insumos para o novo plantio que virá a partir de setembro. Há potencial para superar 120 milhões de toneladas, com espaço para alcançar o primeiro lugar entre os exportadores mundiais de soja, ultrapassando os norte-americanos, que neste ano têm projeção de colher pouco mais de 116 milhões de toneladas. O mercado segue favorável ao setor com o dólar em alta e a bolsa de Chicago operando na faixa acima dos US$ 10,00, o que traz apoio para o novo plantio com boas expectativas e já com chances de fechamentos futuros também com lucros.

FEIJÃO

O feijão colhendo segunda safra

Os produtores se preparam para finalizar a segunda safra e no Sul houve perdas devido à seca. Agora, a produção do ano caminhará para a terceira safra ou feijão irrigado (que será limitado neste ano porque muitas áreas de pivô estão sendo plantadas com milho semente). Com esse cenário, os indicativos para o feijão no segundo semestre são de cotações melhores que a media

do primeiro semestre, que girou entre R$ 110,00 e 140,00 a saca. De agora em diante, o grão tende a operar com medias maiores e favoráveis aos produtores, até mesmo com chances de em alguns momentos ultrapassar R$ 200,00 a saca pelo feijão Carioca de boa qualidade.

ARROZ

Cotações em alta

O arroz teve o primeiro semestre do ano com cotações fracas, abaixo dos custos de produção, mas agora mostra fôlego positivo para reagir. Os sinais de reação que surgiram no final de maio tendem a continuar, com ajustes neste restante de ano porque o Brasil seguirá com demanda forte. Neste novo plantio 2018/19, tudo aponta para a queda de área no Rio Grande do Sul devido aos custos maiores do que o faturamento. Mas a alta prevista poderá mudar esta intenção dos produtores. O Brasil necessitará de mais de 12,5 milhões de toneladas de arroz em 2019 e com isso há espaço para plantar a mesma área e até mesmo melhorar a tecnologia para colher C mais, com melhor qualidade.

Vlamir Brandalizze Twitter @brandalizzecons www.brandalizzeconsulting.com.br

Curtas e boas TRIGO - o mercado do Trigo está otimista com os indicativos neste ano, porque os americanos perderam forte nesta safra e assim as cotações dispararam. Os níveis atingiram a faixa de US$ 5,50 por bushel em Chicago que aliados aos prêmios de mais de 100 pontos resulta em níveis de liquidação nas importações brasileiras acima dos R$ 900,00 por tonelada. Em alguns casos supera R$ 1.000,00 por tonelada junto aos moinhos. Cenário que serve de apoio aos produtores para o novo plantio, em andamento neste momento no Sul. EUA - O clima norte-americano favoreceu o plantio, que ocorreu dentro do período ideal. De agora em diante as atenções se voltam para as previsões de julho e agosto, período reprodutivo das lavouras americanas. Se houver calor e seca podem ocorrer perdas na produtividade e pressão de alta nas cotações.

CHINA - A China segue líder mundial na importação de grãos. Irá ultrapassar 100 milhões de toneladas de Soja, mais de 7 milhões de toneladas de Arroz e de 6 milhões de toneladas a 8 milhões de toneladas de Milho (volume que deverá dobrar em 2019). Outros grãos também serão comprados, além de produtos da indústria, como o DDG. ARGENTINA - a safra foi prejudicada pelo clima de duas formas, com seca no período mais importante e no final, já na colheita, com geadas sobre as lavouras tardias. Houve grandes perdas na safra, projetada no momento em 36 milhões de toneladas em Soja frente a 58 milhões de toneladas esperadas inicialmente. O Milho tem indicativos de 32 milhões de toneladas frente a 42 milhões de toneladas estimadas anteriormente. Desta forma haverá menos produtos agrícolas para exportar em 2019.

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Coluna ANPII

Mais do que inocular

A inoculação é a forma de fornecer o nutriente necessário em maior quantidade para a soja e o feijão, porém seu pleno funcionamento depende não apenas da qualidade do produto, mas de todo um leque de ações que devem ser observadas

H

á determinadas ações realizadas há tanto tempo e tão b. Os funcionários que irão realizar a aplicação estão bem seguidamente que se tornam automatizadas. Em funtreinados? ção disto, não se presta mais tanta atenção em como c. A logística está organizada para levar a semente ao solo o fazer. Quando se utilizam produtos que geram risco à saúde, mais rapidamente possível após a inoculação? como os defensivos, por exemplo, as advertências são fortes. d. As sementes estão ficando bem cobertas pelo inoculante? Há necessidade de equipamentos de proteção para o manuseio e. O processo está sendo realizado à sombra? e aplicação e o operador permanece alerta, tomando todos os f. Os produtos aplicados sobre a semente são registrados cuidados. Entretanto, para produtos como o inoculante, há uma para este tipo de uso? tendência à automatização, à aplicação de forma mecânica, sem g. Há estudo de compatibilidade entre os defensivos e o maior atenção. Findo o processo, consciência tranquila pelo inoculante? uso do produto. Mas todos os requisitos das boas práticas de 3. Fatores ambientais e nutricionais inoculação foram cumpridos? Houve um checklist da correlação a. O solo tem umidade suficiente para manter a bactéria viva de todos os fatores que incidem sobre o sistema simbiótico da até a germinação da semente? fixação do nitrogênio? b. O solo está corrigido com calcário No cultivo de plantas não existem fatodentro da recomendação de quantidade res isolados. Qualquer ação que se tome, e antecedência ao plantio? A exemplo da do preparo do solo até a semeadura, vai c. A adubação com P, K e micronuorquestra, é ter conexão com diversos aspectos que trientes está dentro das recomendações necessário que se inter-relacionam, sendo todos mututécnicas? amente afetados. Por isto é necessário d. Há boa cobertura no solo, para proo profissional, que se veja a cultura como um todo, piciar um melhor ambiente para planta e seja o próprio verificando esta inter-relação para que bactéria? todos os produtos aplicados na cultura e. Foi prevista a aplicação de Co e Mo, agricultor ou o seu funcionem corretamente, não só em sua seja na semente, seja via foliar? administrador, atue ação individual, mas na sinergia com os É possível observar que há uma longa demais. É como uma orquestra. Não basta lista de pontos de atenção para que a como maestro, ter excelentes músicos, se todos não esFixação de Nitrogênio se processe em levando todos os tiverem conectados e sinérgicos entre si, sua plenitude. É preciso levar em consimúsicos a agirem dentro de uma harmonia. deração que a inoculação é a forma de E no caso dos inoculantes, quais fatofornecer o nutriente necessário em maior de forma conectada, res devem ser levados em consideração quantidade para a soja e o feijão, porém para uma grande para se obter uma eficácia plena no seu pleno funcionamento depende não aporte de nitrogênio? A lista a seguir não apenas da qualidade do inoculante, mas exibição tem a pretensão de esgotar o assunto, de todo um leque de ações que devem isto é, citar todos os fatores para todas ser observadas com a maior importância. as situações. Voltando ao exemplo da orquestra, é necessário que o pro1. Do inoculante em si fissional, seja o próprio agricultor ou o seu administrador, atue a. O produto está registrado no Mapa? como maestro, levando todos os músicos a agirem de forma b. Está dentro do prazo de validade? conectada, para uma grande exibição. c. Traz instruções claras de como utilizar? A ANPII busca sempre divulgar as vantagens do inoculante, d. Foi armazenado em condições adequadas? mostrando suas vantagens, seus benefícios, mas sem deixar de e. O fabricante oferece assistência técnica em caso de nealertar para os demais fatores que integram o processo, para cessidade? que o agricultor tenha o maior ganho com o emprego do insumo C f. A dosagem de inoculante a ser usada está de acordo com biológico de maior uso na agricultura mundial. a característica da área e do modo de cultivo? Solon Araujo, 2. Da utilização do inoculante Consultor da ANPII a. Que tipo de equipamento é usado para tratar as sementes?

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