Skip to main content

Cultivar 228

Page 1

Destaques

19

Índice

Radiografia da ferrugem

Como se comportou a mais agressiva doença que afeta as lavouras de soja, na safra 2017/18, nas diversas regiões do Brasil

36

Quarteto do mal

Diretas

04

Sustentabilidade nas propriedades rurais

08

Soja em áreas de arroz irrigado

10

Clima e manejo na produtividade de soja

16

Capa - Radiografia da ferrugem-asiática

19

Doenças foliares em trigo

28

Reunião Anual de Vendas Nidera

30

Desempenho de genótipos de milho

32

Gramíneas resistentes a glifosato

36

Grama-seda e tiririca em cana

39

Mancha de ramulária em algodão

44

Coluna Agronegócios

48

Coluna Mercado Agrícola

49

Coluna ANPII

50

O difícil controle de azevém, capimamargoso, capim-branco e capim-pé-degalinha, gramíneas resistentes a glifosato

44

Mais severa

O combate à mancha de ramulária, doença que tem crescido em importância e hoje detém status de principal enfermidade em algodão Cultivar Grandes Culturas • Ano XIX • Nº 228 Maio 2018 • ISSN - 1516-358X Crédito de Capa: Andre Katsuo Shimohiro

Grupo Cultivar de Publicações Ltda. CNPJ : 02783227/0001-86 Insc. Est. 093/0309480 Rua Sete de Setembro, 160, sala 702 Pelotas – RS • 96015-300 Diretor Newton Peter www.grupocultivar.com cultivar@grupocultivar.com Assinatura anual (11 edições*): R$ 269,90 (*10 edições mensais + 1 edição conjunta em Dez/Jan)

Números atrasados: R$ 22,00 Assinatura Internacional: US$ 150,00 Euros 130,00 Nossos Telefones: (53) • Geral 3028.2000 • Comercial: • Assinaturas: 3028.2065 3028.2070 3028.2066 • Redação: 3028.2067 3028.2060

Por falta de espaço não publicamos as referências bibliográficas citadas pelos autores dos artigos que integram esta edição. Os interessados podem solicitá-las à redação pelo e-mail: cultivar@grupocultivar.com Os artigos em Cultivar não representam nenhum consenso. Não esperamos que todos os leitores simpatizem ou concordem com o que encontrarem aqui. Muitos irão, fatalmente, discordar. Mas todos os colaboradores serão mantidos. Eles foram selecionados entre os melhores do país em cada área. Acreditamos que podemos fazer mais pelo entendimento dos assuntos quando expomos diferentes opiniões, para que o leitor julgue. Não aceitamos a responsabilidade por conceitos emitidos nos artigos. Aceitamos, apenas, a responsabilidade por ter dado aos autores a oportunidade de divulgar seus conhecimentos e expressar suas opiniões.

Expediente Fundadores: Milton Sousa Guerra e Newton Peter

REDAÇÃO • Editor Gilvan Dutra Quevedo

• Vendas Sedeli Feijó Rithieli Barcelos José Luis Alves

• Redação Rocheli Wachholz Karine Gobbi • Design Gráfico e Diagramação Cristiano Ceia • Revisão Aline Partzsch de Almeida COMERCIAL • Coordenação Charles Ricardo Echer

CIRCULAÇÃO • Coordenação Simone Lopes • Assinaturas Natália Rodrigues Clarissa Cardoso • Expedição Edson Krause

GRÁFICA: Kunde Indústrias Gráficas Ltda.


Diretas

Soja

Reconhecimento

A TMG participou da Expoagro Afubra com área demonstrativa da marca para o portfólio de soja. De acordo com o supervisor de Desenvolvimento de Mercado Sul Brasil da TMG, Sergio Marchi, os destaques para a região são TMG 7062 IPRO e TMG 7063 IPRO, que possuem em sua genética dois grandes diferenciais, a Tecnologia Inox, com resistência à ferrugem-asiática, e a tecnologia Intacta RR2 PRO, resistente a lagartas e ao herbicida glifosato.

Durante a Convenção anual de Vendas da Nidera Sementes, na Bahia, ocorreu um jantar de premiações, onde foram homenageados os colaboradores que obtiveram destaque dentro da companhia. "Existe um tempo para cada propósito debaixo do céu, e esse reconhecimento vem confirmar o comprometimento e toda a energia que nós colocamos para o sucesso de nosso negócio no campo. Agradeço a Deus, à minha equipe e aos meus líderes por esse momento", discursou o coordenador de Marketing e Comunicação da Nidera Sementes para o Brasil e Paraguai, Nélio Reis, ao receber a homenagem.

Sergio Marchi

Nélio Reis (centro)

Plataforma

A Agrichem do Brasil destacou o PAMnutri Folha, plataforma para interpretação de análises foliares na cultura da soja, , durante a Expodireto Cotrijal. De acordo com a analista de Marketing, Mayara Ribeiro, após seis anos de pesquisa e mais de 700 áreas de monitoramento, o conceito de interpretação foi baseado em três pilares: aplicação de métodos modernos em análise estatística, amplo banco de dados e resultados recentes de áreas com alta performance e modelagem por curvas de crescimento e acúmulo de fitomassa e nutrientes na cultura de soja. Abdalah Novaes

Produtos

A Nufarm divulgou na Expoagro Afubra dados de pesquisas a respeito da utilização dos herbicidas Crucial e Zetha Maxx nas culturas de soja e milho. Segundo o gerente de Trade Marketing da Nufarm, Rubens Fiorin, o herbicida Crucial age com eficácia e rapidez no controle de plantas daninhas da soja e do milho, inclusive nos períodos chuvosos. “Este produto já foi aplicado com sucesso em mais de 50 milhões de hectares de lavouras brasileiras, em diferentes culturas”, explicou. Já o herbicida Zetha Maxx atua no combate a plantas daninhas de difícil controle como a buva e o capim-amargoso, tanto na dessecação como no pré-plantio da soja.

04

Maio 2018 • www.revistacultivar.com.br


Fungicida

A Adama levou para a Expoagro Afubra, no município gaúcho de Rio Pardo, o fungicida Cronnos, defensivo da marca recomendado para o manejo da ferrugem-asiática. "Com a chegada de novos desafios para o controle da ferrugem da soja nas lavouras brasileiras, o mercado viu a necessidade de criar produtos que auxiliem o agricultor no combate a essa doença tão devastadora. Cronnos propõe parar o tempo da ferrugem e prolongar o tempo de controle por se tratar de um produto de múltipla ação, essencial para o programa de manejo das doenças da soja", explicou o representante técnico de Vendas da Adama, Lucas Rodrigues.

Soluções

Entre as soluções apresentadas pela Ourofino durante a Expoagro Afubra está o inseticida Terra Forte (fipronil), recomendado para o tratamento de sementes em soja, milho, algodão, feijão e pastagens. A empresa mostrou também o inseticida Racio (acefato), para o manejo de resistência e controle de percevejo e lagartas. Destacou ainda o Nillus (clorotalonil), ferramenta importante no manejo de resistência da ferrugem-asiática da soja e de outras doenças. “Queremos estar próximos aos produtores para auxiliá-los no controle de fungos na cultura de soja com a nossa linha de fungicidas protetores, bem como demonstrar a importância do tratamento de sementes para a lavoura”, explicou o gerente comercial da Ourofino Agrociência, João Vicente Esberci.

Novidades

Lucas Rodrigues

Portfólio

Os destaques da Syngenta durante a Expoagro Afubra ficaram por conta do fungicida Elatus, do recém-lançado inseticida Proclaim e do Fortenza Duo, inseticida para tratamento de sementes com amplo espectro de controle de pragas. “Outro lançamento importante e que faz parte da estratégia de sementes da Syngenta é o híbrido de milho de ciclo superprecoce Syn 422 VIP3”, informou o representante técnico de Vendas, Gustavo Freitas.

Durante a Expoagro Afubra a UPL apresentou seu portfólio de produtos, com o herbicida Fascinate, o inseticida Sperto e o fungicida Triziman. Para o supervisor de vendas da UPL, Adinan Martins, a participação da companhia em eventos é sempre muito positiva, para a fixação da marca e também estreitar o relacionamento com produtores.

www.revistacultivar.com.br • Maio 2018

05


Participação

A FMC participou da 18ª Expoagro Afubra, no Rio Grande do Sul. No estande da companhia houve destaque para o herbicida Boral, o inseticida Warrant e reforço do lançamento do bionematicida Quartzo. “A companhia investe nesse setor com foco em novas tecnologias e conveniência aos agricultores. Inclusive, o tema do evento vai ao encontro do nosso objetivo, de levar lucratividade e sustentabilidade ao campo. Apresentamos soluções biológicas para manejo de patógenos no solo, que aliado com o controle químico e outras práticas conservacionistas, contribui para a sustentabilidade do sistema”, explicou o coordenador de Desenvolvimento de Mercado da FMC, Márcio Ebling.

Presença

A Brevant, marca Premium de Distribuição de Sementes da Divisão Agrícola Dow Dupont, participou da Expoagro Afubra. O representante comercial, Jonas Morari, explicou que a nova marca traz a experiência acumulada durante décadas pela BioGene, a Coodetec e a Dow Sementes. No evento, os visitantes também puderam conhecer detalhes da nova tecnologia PowerCore Ultra.

Jonas Morari (esquerda)

Manejo

Os produtores que estiveram na Expoagro Afubra puderam aprender mais sobre a importância de identificar e manejar as principais pragas que causam danos às culturas de milho e soja. De acordo com a representante comercial da Monsanto, Graziani Spies, a empresa indica estratégias de manejo e como estas, em sinergia com as tecnologias, podem contribuir para se conseguir melhores resultados no campo. Neste contexto, a Monsanto levou ao evento informações sobre o Sistema Monsanto de Manejo (Sistema Roundup Ready Plus), com recomendações de práticas agronômicas para o manejo de pragas, embasadas pelas Boas Práticas Agronômicas e conceitos do Manejo Integrado de Pragas (MIP).

Graziani Spies

06

Maio 2018 • www.revistacultivar.com.br

Nidera

A Nidera destacou durante a Expoagro Afubra a NS 6601 IPRO, cultivar de soja que tem demonstrado boa tolerância à seca no sul, além de resultados em produtividade e alta performance nos diversos ambientes. “Com isso, garantimos produtividade, consistência e segurança para o agricultor”, informou o gerente de Transferência Sul da Nidera Sementes, Fábio Dotto. A marca também apresentou seu portfólio completo de cultivares de soja e híbridos de milho.


Convenção

A Ballagro reuniu a equipe para sua convenção anual de vendas e para 2018 escolheu o tema “Superação”, reforçando a importância de buscar conhecimentos para superar os desafios da agricultura atual. A empresa está entre as maiores no ramo de soluções biológicas no mercado brasileiro de proteção de plantas. “Acreditamos em uma agricultura cada vez melhor e mais sustentável”, disse o gerente de Produtos e Mercados da Ballagro, Lécio Kaneko.

Tecnologia

Além do potencial genético de sementes, a Morgan levou à Expoagro Afubra tecnologias que prometem aumentar a produtividade e a renda do agricultor, de acordo com o nível tecnológico da lavoura e as condições climáticas. No estande da marca, uma equipe de especialistas apresentou também as características e os resultados da tecnologia PowerCore Ultra, em fase de lançamento, bem como as vantagens do Tratamento de Sementes Industrial para a produtividade da lavoura.


Empresas

Sustentabilidade em destaque Números do Ministério do Meio Ambiente (MMA) apontam a inscrição de 4,9 milhões de imóveis rurais no Cadastro Ambiental Rural (CAR), um claro indicativo de que o produtor brasileiro compreende que a conservação do meio ambiente, o respeito aos aspectos sociais e a questão financeira caminham juntos

D

Divulgação

ados do Ministério do Meio Ambiente (MMA), divulgados em abril, apontam que até o dia 31 de março de 2018 constam inscritos mais de 4,9 milhões de imóveis rurais no Cadastro Ambiental Rural (CAR), equivalente a uma área maior que 439 milhões de hectares inseridos na base do sistema. Os estados das regiões Sul, Sudeste e Norte já atingiram 100% de área cadastrada, enquanto no Centro-Oeste são 97,2% e no Nordeste, 91,1%. A inscrição no CAR é um registro eletrônico para imóveis rurais que constrói uma base de dados, a fim de controlar e combater o desmatamento das florestas e vegetações nativas do Brasil. Além disso, é possível entendê-lo como indicativo para planejamento

08

Maio 2018 • www.revistacultivar.com.br

socioambiental e econômico, à medida que analisa a relação da comunidade com a área e pretende garantir a viabilidade financeira da propriedade por meio de práticas lícitas, assim, a produção agrícola pode ter mais aceitação e abertura a mercados nacionais e internacionais. É interessante analisar a mensuração do CAR, pois a área nacional cadastrada é superior à estimativa do MMA quando o registro foi iniciado em 2014. Na região Sul, por exemplo, eram considerados como cadastráveis 41,8 milhões de hectares e até o momento já foram feitos os registros de 43,2 milhões. Isto acontece porque, no início do Cadastro foram utilizados dados base do censo IBGE de 2006 e de lá para cá a área rural brasileira


Fotos Bayer

Iniciativa Global Bayer ForwardFarming incentiva os agricultores a produzirem mais com sustentabilidade

vem se expandindo. Os números do MMA, portanto, nos deixam uma mensagem: o produtor rural está realmente interessado em obedecer a normas e manter seus negócios de maneira legal, e ele compreende que a conservação do meio ambiente, o respeito aos aspectos sociais e a questão financeira caminham juntos e trazem uma visão holística do campo, e que isso precisa ser uma preocupação constante. Antigamente considerado assunto apenas na teoria, o equilíbrio socioambiental hoje mostra progressos, como se pode observar nas buscas por certificações internacionais que comprovem a sustentabilidade do negócio. Em 2017, quatro milhões de grãos de soja foram certificados, de acordo com a Associação Internacional de Soja Responsável (RTRS, na sigla em inglês), o que representa acréscimo de 900 mil toneladas, segundo a entidade. Já o café, uma das cinco principais commodities brasileiras, passou o número de propriedades certificadas de 400, há dez anos, para mais de 35 mil, conforme a Associação Brasileira de Cafés Especiais. O que isto significa? Esses dados nos levam a afirmar que o Brasil está procurando não só garantir o mercado que tem, como, principalmente, expandir para novos consumidores por meio de certificação e boas práticas, assumindo uma era de inovação em que o agronegócio não é mais pensado apenas da porteira para dentro, mas sim como uma grande rede que conecta diferentes elos e considera, inclusive, a vida urbana um fator determinante para o planejamento da safra. É este conceito de rede que propicia a integração da cadeia, por isso é constante

vermos parcerias que têm por objetivo o progresso dos negócios no campo. Um exemplo reside na iniciativa da Bayer com o Instituto Rio Grandense de Arroz (Irga) - chamada de Soja 6.000 -, que juntos desenvolveram uma variedade de soja tolerante aos excessos hídricos da região e ideal para rotação em solos encharcados, habitualmente cultivados com arroz. Além de tornar possível o plantio de soja, a variedade agrega ainda mais valor para a agricultura local, pois parte das receitas geradas é reinvestida no fundo de pesquisa do Irga, para desenvolver novas tecnologias em benefício dos produtores. Este é um nítido referencial de sustentabilidade, pois permite que o sistema gaúcho mantenha sua permanência e que o agricultor tenha alternativas de renda no mesmo espaço produtivo. E se as propriedades estão assumindo uma nova identidade, o produtor rural está consciente do papel que precisa desempenhar, incluindo a prática na lavoura. É por isso que campanhas para o uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) se intensificam no setor e têm apoio de instituições como o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e a Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef). Ao olhar para este novo perfil de propriedades rurais que começa a se expandir em diferentes regiões brasileiras, é possível enxergar os três pilares que norteiam a forma de negócio contemporânea: econômico, social e ambiental. Investir nestes três preceitos demanda dedicação, ao mesmo tempo em que a produtividade e o planejamento da safra não podem parar. Para incentivar os agricultores a pro-

Bohne defende visão holística do campo e destaca amadurecimento do produtor brasileiro

duzirem mais, tendo esse conceito holístico de sustentabilidade como norteador, a Bayer lançou a iniciativa global Bayer ForwardFarming, que promove a agricultura sustentável em propriedades rurais, contribuindo para o objetivo comum de alimentar a crescente população mundial, que será de quase dez bilhões de pessoas em 2050, de acordo com estimativas da ONU. Já existem ForwardFarms implementadas na Bélgica, França, Alemanha, Holanda, Itália, Chile, Estados Unidos e Argentina e em 2017 foi inaugurada a primeira no Brasil. A implementação da primeira ForwardFarming reforça a importância do País como um dos principais produtores agrícolas do mundo e representante estratégico para os negócios da Bayer. Diante desse cenário, a companhia firmou aliança com a Fazenda Nossa Senhora Aparecida, a cerca de 150 quilômetros de Brasília, que pertencente à família Fiorese, cuja parceria tem por objetivos a promoção de práticas agrícolas sustentáveis e o entusiasmo de abraçar novas tecnologias. Aliás, a propriedade conquistou recentemente a certificação RTRS, que assegura que a soja tem origem de um processo ambientalmente compatível, socialmente adequado e economicamente viável. Além da preocupação com a sustentabilidade dos negócios no longo prazo e com o meio ambiente, esta certificação oferece à Fazenda Nossa Senhora Aparecida uma diferenciação do produto no mercado. E é assim, oferecendo cada vez mais soluções inovadoras e mantendo alianças, que vamos, juntos, proporcionar uma C agricultura sustentável no Brasil. Gerhard Bohne COO da Divisão Crop Science da Bayer no Brasil

www.revistacultivar.com.br • Maio 2018

09


Soja

Fronteira expandida Para as próximas safras há tendência de consolidação do avanço da soja em áreas de arroz, em terras baixas, no Rio Grande do Sul. Esse acréscimo é explicado principalmente por questões econômicas, devido à crise pela qual passa o setor arrozeiro, mas também por aspectos técnicos relacionados às vantagens da rotação de culturas

N

as últimas safras a média da área cultivada com soja em rotação com arroz irrigado se mantém em torno de 280 mil hectares, aproximadamente 25% da área cultivada com arroz. Na safra 2010/11 esse percentual era de pouco mais de 6%, aproximadamente 66 mil hectares. Essa área cresceu rapidamente, porém está estabilizada nas últimas cinco safras. Não é novidade o cultivo de soja em rotação com arroz no Rio Grande do Sul.

10

Nas décadas de 1960 e 1970 a oleaginosa era cultivada em várias regiões arrozeiras. Porém, problemas de controle de invasoras (nessa época não existia soja resistente a glifosato) e também períodos de estiagem levaram à redução da área nesse período. É possível identificar três momentos bem distintos em relação à soja em rotação com arroz no Rio Grande do Sul. O primeiro deles é quando a soja entrava na rotação de culturas com o arroz irri-

Maio 2018 • www.revistacultivar.com.br

gado com a finalidade de limpar a área de arroz vermelho; principal invasora nas áreas de arroz no Rio Grande do Sul. Nessa época, os produtores diziam que se não ganhassem nada já estava bom, pois o que importava era o controle de arroz vermelho. Esse sempre foi o principal objetivo do Instituto Riograndense do Arroz (Irga), que até hoje mantém a mesma nomenclatura e o foco. O segundo momento é quando a soja passa a ser um negócio interessante para


o arrozeiro, além do aumento de produtividade propiciado pela limpeza das áreas, e as melhorias proporcionadas pela rotação de culturas. A soja propicia diversificação de renda, operações no mercado futuro que propiciam aquisição de insumos sabendo por quanto vai vender o produto, o produtor de arroz acaba comercializando no primeiro semestre a soja e deixando o arroz para o segundo semestre, quando geralmente os preços são mais elevados. O terceiro momento é o atual, quando o produtor passa a ter a visão de um sistema de produção agrícola, em que a soja é uma ferramenta essencial para a sustentabilidade da lavoura arrozeira. Além disso, a integração lavoura e pecuária se consolida como alternativa de lucro ao produtor. Essa integração de culturas, somada à entrada do animal no sistema, possibilita uma renda maior por área. Muitas vezes não é possível obter os rendimentos máximos como se cada atividade fosse realizada isoladamente, mas o ganho por área passa a ser maior, principalmente as melhorias no sistema, com o tempo, do ponto de vista de fertilidade, controle de plantas daninhas, redução de custos e sustentabilidade, só aumentam. Diante disso, o Irga, que tem como característica gerar e difundir tecnologia, começa a fomentar de maneira mais intensiva o uso e o aumento da soja em rotação com arroz no Rio Grande do Sul. Em 2015 lançou o Projeto Soja 6000, um projeto de transferência de tecnologia que busca dar mais confiança ao

Figura 1 - Produtividade de soja das unidades de validação do Projeto Soja 6000 – safra 2016/17

produtor que quer produzir soja em rotação com arroz irrigado. O Projeto Soja 6000 do Irga chega à terceira safra, buscando se consolidar em um momento de grandes dificuldades para o setor. Na última safra houve uma maior adesão de produtores ao projeto. Foram 61 áreas de validação. Isso demonstra que a soja cada vez mais se consolida como uma alternativa capaz de colaborar para melhorar as lavouras de arroz do Rio Grande do Sul. Ao longo desses três anos de projeto foi possível avançar Ênio Krunt Júnior

www.revistacultivar.com.br • Maio 2018

11


Rodrigo Schoenfeld

Média de produtividade da última safra superou os 60 sacos por hectare

muito, consolidando alguns conceitos que a pesquisa produziu, entre eles os de época de semeadura, drenagem, camada compactada e adubação. Em relação à época de semeadura, sem dúvida altos rendimentos de soja

têm sido obtidos com semeaduras entre 20 de outubro e 10 de novembro. Porém, para que a soja possa ser semeada nesse período, alguns cuidados devem ser tomados. A lavoura de arroz deve estar resolvida, implantada e não pode ter con-

Principais pontos identificados entre os produtores que obtiveram os melhores resultados na cultura da soja 1 - Planejamento e gestão – datas, metas e acompanhamento 2 - Capitalizados – recursos e maquinário 3 - Lavoura de arroz – “resolvida” 4 - Recursos humanos – motivados 5 - Drenagem – o começo... 6 - Camada compactada – não havia ou resolveram 7 - Adubação e calagem – quantidade, operacionalidade, “sistema” 8 - Época de semeadura – potencial x riscos 9 - Cultivares – potencial, morte de plantas, arquitetura 10 - Plantabilidade – o diferencial, uniformidade 11 - Controle fitossanitário – domínio 12 - Integração lavoura e pecuária – “olhando o sistema” 13 - Cada um tem que encontrar o seu jeito e o seu tamanho

12

Maio 2018 • www.revistacultivar.com.br

flito de manejo entre as duas culturas. A chance de ocorrência de chuvas de maior volume no final de outubro é mais alta, por isso devem ser evitadas áreas de risco de alagamento. Drenagem, sem dúvida, é um dos maiores limitantes para o avanço da soja em terras baixas. Para o produtor está claro que a drenagem dentro da lavoura, nos quadros, melhorou muito, mas o problema é o entorno. Muitas vezes não se tem diferença de nível suficiente entre a lavoura e o dreno principal, que em determinas circunstâncias é representado por arroios, rios ou lagoas. Um exemplo disso são as áreas da região central, onde diante da ocorrência de grandes volumes de chuva (pelo nível elevado de rios como o Jacuí ou Vacacaí) por melhor que seja a drenagem da lavoura, não há para onde a água escoar. Camada compactada (na grande maioria das áreas de arroz cultivadas com soja ela existe) é um dos limitantes para se obter altos rendimentos de soja. Atualmente, no Rio Grande do Sul, 60% das áreas cultivadas com arroz irrigado estão em cima de Planossolos e Gleissolos. Grande parte da soja é cultivada nesses solos, que têm como característica de origem a presença de uma camada subsuperficial mais adensada. Além disso, pode haver a formação de uma camada compactada, pé de grade, pelo uso contínuo de implementos agrícolas, como grade e plainas, além do tráfego de máquinas. Esta camada tem de ser rompida, não há mais dúvida disso. Mas o que se discute é qual a maneira de realizar essa operação, e isso depende muito da profundidade onde se encontra esta camada. Entre os equipamentos que podem ser utilizados é possível citar subsolador, escarificador, mecanismos na própria semeadora como disco turbo e sulcador. Não cabe afirmar qual o ideal ou o melhor, pois vai depender muito da situação de cada lavoura, do tipo de solo e do nível tecnológico em que se encontra o produtor. Sem dúvida, as quantidades de adubação utilizadas estão muito abaixo do exigido para altas produtividades. Porém, o que deve ser discutido é que


para poder adubar é necessário ter lavoura, estande de plantas e esse é um dos grandes desafios: como estabelecer bem a cultura da soja em áreas de arroz. Outro ponto em que houve avanço é a questão das áreas de abertura, no primeiro ano de soja. Em geral, os níveis de fertilidade dessas áreas são muito baixos, requerendo calagem e fósforo. É sempre um dos limitantes. É recomendado realizar a correção, incorporando de 0cm-20cm de calcário e principalmente fósforo. Ao contrário, serão necessários vários anos de cultivo até que seja corrigida a fertilidade no perfil de solo. Em relação aos resultados da última safra, houve os três melhores desempenhos com média de 94,6 sc/ha e um deles superando os 100 sc/ha. Mas o mais importante é a media das lavouras, todas acima de 60 sc/ha. Engana-se quem pensa que o Projeto Soja 6000 tem como objetivo produzir 100 sc/ha de soja. Ao contrário, trata-se muito mais do que isso. É um projeto de transferência de tecnologia. Na Figura 1 é possível observar resultados da safra 2016/17. Um grupo de pesquisadores e consultores do Irga, entre eles Enio Marchesan, Ibanor Anguinoni e Paulo Regis Ferreira da Silva, visitou os três produtores que

obtiveram os melhores resultados e identificou os principais pontos que justificam o sucesso alcançado com a soja em suas áreas (Quadro 1). Na safra 2017/18 foram instaladas aproximadamente 60 áreas de Projeto Soja 6000 e em torno de 40 áreas de soja de entrada, novidade do Soja 6000 para esta safra. São os modelos para atingir até 3.000kg/ha, até 4.500kg/ha e 6.000kg/ha (que já existe). Dessa forma, seria possível atender a demanda e obter modelos para produtores que pretendem começar a produzir soja em terras baixas. Não foi possível atender nesses três anos um grupo de produtores que seria o que está melhor preparado e já tem experiência com o cultivo de soja em rotação com arroz. Porém, é necessária mais soja em áreas de arroz para a sustentabilidade da lavoura orizícola. Existem prontos para entrar no sistema de produção 150 mil hectares de áreas de arroz que pode ser plantada a soja. E principalmente áreas de baixo risco, como de expansão, no Litoral Norte do Rio Grande do Sul, como Mostardas, Palmares e Capivari do Sul, Planicíe Costeira Interna, Barra do Ribeiro, Tapes, Camaquã e São Lourenço do Sul, Zona Sul em Santa Vitória do Palmar, Pelotas e Rio

Marchesan, Anghinoni, Da Silva e Schoenfeld abordam desafios e potencialidades da soja cultivada em áreas de arroz

Grande e na Região Central em São Sepé, Cachoeira do Sul, entre outros. Em virtude de tudo o que está acontecendo, haverá nas próximas safras um avanço da soja em áreas de arroz, substituindo em parte a orizicultura. Esse avanço é explicado principalmente por questões econômicas, devido à crise pela qual passa o setor arrozeiro e também por aspectos técnicos relacionados às vantagens da rotação de culturas, principalmente limpeza de áreas com o controle do arroz vermelho. Enio Marchesan UFSM Ibanor Anghinoni Paulo Regis Ferreira da Silva UFRGS Rodrigo Schoenfeld Irga

Ênio Krunt Júnior

www.revistacultivar.com.br • Maio 2018

13


Soja

Clima x manejo

A definição de um método que possibilite a distinção entre essas duas fontes de variação da produtividade da cultura da soja é de grande utilidade para os produtores e consultores, pois permite definir as estratégias a serem adotadas para minimizar as perdas e, consequentemente, otimizar a eficiência agrícola

A

energia disponível para a fotossíntese, a temperatura do ar afeta o metabolismo das plantas, que, por sua vez, regula tanto a taxa de fotossíntese quanto a respiração de manutenção, além de controlar, juntamente com o fotoperíodo, a taxa de desenvolvimento da cultura, definindo a

duração das diferentes fases fenológicas e do ciclo. Além disso, a temperatura atua também sobre o balanço hormonal das plantas de soja, com papel fundamental na fase reprodutiva, quando altas temperaturas podem causar abortamento de flores e vagens. A radiação solar, jun-

Fotos Dirceu Gassen

produtividade da soja é o resultado da complexa interação entre o genótipo (cultivar) empregado, as condições meteorológicas e o manejo agrícola nas áreas de produção. Enquanto a radiação solar e o fotoperíodo controlam a quantidade de

16

Maio 2018 • www.revistacultivar.com.br


Figura 1 - Produtividades potencial (PP), atingível (PA) e real (PR) e as perdas de produtividade por déficit hídrico (YGdef) e por déficit de manejo (YGman) para os campeões das regiões Sul (S), Sudeste (SE), Centro-Oeste (CO), Norte/ Nordeste (N/NE) nas condições de sequeiro nas safras 2014/15, 2015/16 e 2016/17 e irrigada nas safras 2015/16 e 2016/17. Fonte: Sentelhas, Battisti e Sako (2017)

Os anos de melhores produtividades são aqueles que combinam boa distribuição de chuvas com períodos de elevada radiação solar

tamente com a temperatura, a umidade do ar e a velocidade do vento, é responsável pela demanda hídrica das lavouras de soja, que se não forem atendidas pelas chuvas irão provocar déficits hídricos, altamente prejudiciais à produtividade. O volume e a distribuição das chuvas são fundamentais para garantir bons níveis de produtividade das lavouras. Anos muito secos resultam em baixas produtividades, porém, anos excessivamente nublados e chuvosos também podem levar à redução das produtividades em razão da diminuição da disponibilidade de energia solar para a fotossíntese. Sendo assim, pode-se dizer que os anos de melhores produtividades são aqueles que combinam uma boa distribuição das chuvas ao longo ciclo com períodos suficientemente longos de elevada radiação solar para que as plantas possam fazer uso da água do solo de forma a maximizar o processo da fotossíntese, gerando altas produtividades. No Brasil, o efeito da variabilidade climática sobre a produtividade da soja é bastante evidente, tanto entre as diferentes safras de cultivo como entre as diversas regiões produtoras e até mesmo entre as várias datas de semeadura. Entre as diferentes safras, a variabilidade da produtividade da soja é principalmente condicionada por eventos climáticos como o El Niño Oscilação Sul (Enos), cujas fases quente (El Niño) e fria (La Niña) afetam os regimes térmicos e de chuva de diferentes regiões brasileiras. Assim, enquanto no estado do Mato Grosso há pouca variabilidade da produtividade da soja, no Rio Grande do Sul, mais afetado pelo Enos, tal variabilidade é mais acentuada, o que condiciona um maior risco climático para a cultura da soja. Em situação intermediária se encontra a região do Mapitoba, aonde, apesar dos efeitos prejudiciais do El Niño, as produtividades não chegam a oscilar tanto como na região Sul. Além do efeito do clima na produtividade da soja, o manejo

da cultura apresenta uma grande influência, já que a combinação da cultivar/grupo de maturação, da época de semeadura e das práticas de fertilização do solo e de proteção da cultura (controle de pragas, doenças e daninhas) é fundamental para a definição do nível de produtividade a ser atingindo. Apesar dessa distinção entre os efeitos do clima e do manejo agrícola sobre a produtividade da soja, nem sempre é possível se distinguir facilmente o quanto de perdas de produtividade é causado pelas adversidades climáticas (especialmente o déficit hídrico) e quanto pelas deficiências de manejo. Dessa forma, a definição de um método que possibilite a distinção entre essas duas fontes de variação da produtividade da cultura da soja é de grande utilidade para os produtores e consultores, pois possibilita definir as estratégias a serem adotadas para minimizar as perdas e, consequentemente, otimizar a eficiência agrícola. Uma das formas de se quantificar os impactos do clima e do manejo na produtividade da soja é por meio do uso de técnicas que permitem simular o crescimento e o desenvolvimento da cultura da soja, de modo que se definam as produtividades potencial (máximo a ser alcançado pelo genótipo em dada condição climática, sem falta de água e com manejo ótimo) e atingível (máximo a ser obtido pela cultura em condição de sequeiro com manejo ótimo). Uma vez definidas essas produtividades, respectivamente denominadas de PP e PA, pode-se compará-las às produtividades reais (PR), obtidas pelos produtores, definindo-se, assim, o quanto da quebra de produtividade foi advindo das limitações do clima (especialmente do déficit hídrico), pela diferença entre PP e PA, e o quanto foi causado pelas deficiências de manejo, pela diferença entre PA e PR. A Figura 1 apresenta os dados de produtividade dos campeões do Comitê Estratégico Soja Brasil (Cesb) nas três últimas safras (2014-15, 2015-16 e 2016-17), assim como os valores de PP e PA para cada uma das localidades dos vencedores. Observa-se que

www.revistacultivar.com.br • Maio 2018

17


a PP atingiu o valor máximo de 214 sc/ha para o campeão do N/NE na safra 2014/15 (Figura 1), fato associado à maior oferta de radiação solar que ocorreu durante a safra nessa região. Nas demais safras analisadas, os campeões da região N/NE também apresentaram as maiores produtividades potenciais, sempre acima de 180 sc/ha. Por outro lado, o valor mínimo, de 167 sc/ ha ocorreu na safra 2014/15 para o campeão da região S (Figura 1), provavelmente condicionada por dias nublados e com baixa oferta de radiação solar. Apesar dessa grande variação, esses valores demonstram o alto potencial de produtividade da soja disponível nos ambientes de produção do Brasil, o que, no entanto, é difícil de ser obtido em função das limitações impostas pelos períodos de déficit hídrico e pelo manejo subótimo que é realizado no campo. Quando houve a penalização da PP pelo déficit hídrico, obtendo-se a PA, maiores diferenças entre os valores mínimo e máximo foram observadas. A menor PA foi de 99 sc/ha para o campeão da região N/NE na safra 2015/16 (Figura 1), local que teve uma perda de 107 sc/ha devido ao déficit hídrico. Já o maior valor de PA foi de 164 sc/ha para o campeão da região CO na safra 2014/15, onde as perdas por déficit hídrico totalizaram 37 sc/ha (Figura 1). Em média, o déficit hídrico foi responsável pela redução de 44 sc/ha nas áreas dos campeões, incluindo as áreas irrigadas, oscilando entre um mínimo de 14 sc/ha para o campeão da região CO na safra 2016/17 e um máximo de 107 sc/ha para o campeão da região N/NE na safra de 2015/16 (Figura 1). Para a PR foi observada uma variação de 83 sc/ha a 149 sc/ ha. O valor mínimo foi obtido pelo campeão da região N/NE na safra 2015/16, área com maior redução por déficit hídrico, da ordem de 107 sc/ha, e de apenas 16 sc/ha devido ao manejo. Já

Dirceu Gassen

Sentelhas aborda a influência do clima e do manejo na produtividade das lavouras de soja

18

Maio 2018 • www.revistacultivar.com.br

o maior valor foi alcançado na safra 2016/17 na área do campeão da região S, onde houve redução de apenas 26 sc/ha devido ao déficit hídrico e de somente 1 sc/ha devido ao déficit de manejo, o que indica a excelente condição hídrica para a lavoura de soja nessa área/safra e a excepcional performance do produtor campeão no manejo da sua cultura. Baixas perdas por manejo também foram observadas nas áreas dos campeões da região S na safra 2014/15 (2 sc/ha), da região N/NE na safra 2014/15 (8 sc/ha), e da região SE na safra 2016/17 (6 sc/ha) (Figura 1). Por outro lado, há casos em que as perdas por manejo superaram as perdas por déficit hídrico, o que indica que há ainda espaço para melhoria das práticas agrícolas e, consequentemente, para incrementar as produtividades. De um modo geral, considerando-se uma média de todas as áreas dos campeões, as maiores perdas de produtividade da soja se deram em função do déficit hídrico, que contabilizou em média 43,4 sc/ha, enquanto as perdas decorrentes do déficit de manejo agrícola foram da ordem de 28 sc/ha. Isso mostra que 61% do total de perdas de produtividade das lavouras se deu em função do déficit hídrico, enquanto 39% em função do déficit de manejo. Os resultados do Cesb evidenciam que atualmente, nas áreas produtoras, há um maior efeito do clima na limitação da produtividade da soja. No entanto, quando se analisa a média da produtividade nacional das últimas três safras da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), da ordem de 51 sc/ha, e se compara esses dados aos valores médios dos campeões do Cesb (115 sc/ha), observa-se claramente que esse efeito é muito maior, o que provavelmente está associado ao limitado volume de solo disponível para o crescimento do sistema radicular, o que faz com que os déficits hídricos sejam mais pronunciados que aqueles que ocorrem nas áreas dos campeões, onde invariavelmente o perfil de solo é mais profundo. Nessa linha, ações que maximizem a produtividade são requeridas, de modo a minimizar os impactos do déficit hídrico na produtividade da soja. Entre essas ações, a escolha de datas de semeadura com menor risco climático, conforme recomendações do zoneamento de risco climático do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), a seleção de cultivares melhor adaptadas à região, especialmente com relação à tolerância à seca, e investimentos em ações de manejo do solo (química, física e biológica) para aumentar o perfil de exploração do sistema radicular, de modo a aumentar a água disponível para as plantas, são algumas das quais permitirão aos produtores brasileiros atingirem altas produtiviC dades em curto-médio prazo. Paulo Cesar Sentelhas Grupo de Pesq. em Agrometeorologia Esalq/USP


Soja

Radiografia da ferrugem

Na safra 2017/18, Phakopsora pachyrhizi não causou perdas significativas de produtividade na maioria das regiões brasileiras. O Paraná foi o estado mais afetado pela doença. O controle químico continua sendo a principal ferramenta para combater a enfermidade, e a resistência do fungo à aplicação de fungicidas permanece como a maior preocupação Fotos Rafael Soares

www.revistacultivar.com.br • Maio 2018

19


C

om as lavouras de soja em fase final de colheita da safra 2017/18, estimativas divulgadas em meados do mês de abril mostram que a produção brasileira de soja deverá totalizar 114,962 milhões de toneladas, com aumento de 0,8% sobre a safra da temporada anterior e produtividade média de 3.276kg/ha (Conab, 2018). A boa produtividade reflete as condições de clima que, de forma geral, favoreceram a cultura e desenha uma nova “supersafra” de soja no Brasil, com estados como Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins, Maranhão, Piauí, Bahia, Minas Gerais e São Paulo, registrando recordes de produtividade. Nesse contexto, a ocorrência da ferrugem-asiática, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, continua tendo um papel relevante, pois o seu controle reflete no custo de produção das lavouras e na obtenção de boas produtividades. O controle da ferrugem-asiática é feito por meio da adoção de diversas práticas de manejo, mas o patossistema que envolve a doença tem se mostrado dinâmico, com alteração a cada safra, trazendo a necessidade de constante aperfeiçoamento dessas práticas à medida que novos conhecimentos são adquiridos. O vazio sanitário mantém-se como uma medida importante e, embora com frequência sejam debatidos assuntos como duração, datas de vigência e eficiência da medida, o consenso geral é de que deve ser mantido nos estados onde já existe e adotado onde ainda não existe. Com isso, o estado do Rio Grande do Sul, como o último grande produtor sem vazio sanitário, está discutindo a criação da medida. Por sua vez, os estados de Santa Catarina, em 2017, e do Piauí, em 2018, estabeleceram vazio sanitário e a Bahia aumentou seu período de 60 para 99 dias (Figura 1). Outra medida legislativa que vem sendo adotada mais recentemente é a calendarização do período de semeadura da soja. Essa medida tem como objetivo restringir semeaduras muito tardias, que costumam demandar maior quantidade de aplicações com fungicidas, em razão da ocorrência precoce da ferrugem-asiática, consequentemente, podendo agravar o problema de resistência do fungo aos fungicidas. Até o momento, sete estados adotaram o calendário para limitar o período de semeadura da soja e, em alguns, o limite para colheita (Figura 2). Mesmo assim, casos de semeaduras tardias, infringindo as normativas estaduais, foram verificados. A semeadura da soja no início da época recomendada é de extrema importância porque permite o “escape” em relação ao período de ocorrência mais severa da ferrugem-asiática. Nesta safra não foi diferente, pois apesar do atraso das chuvas em algumas regiões, a maioria das lavouras foi semeada cedo e, quando a doença ocorreu, as lavouras já estavam na fase de enchimento de grãos (R5) ou mais adiantadas, em 86% das ocorrências registradas no site do Consórcio Antiferrugem (Figura 3). Isso resultou em bom controle da doença com fungicidas e possibilitou que grande parte das lavouras não tivesse perda de produtividade causada pela doença. O controle químico continua sendo a principal ferramenta para combater a ferrugem-asiática, e a resistência do fungo aos fungicidas permanece como a maior preocupação em relação a esse método de controle. A ocorrência da resistência é fato

20

Maio 2018 • www.revistacultivar.com.br

Figura 1 – Períodos de vazio sanitário da soja em estados brasileiros

Figura 2 – Calendário de período de semeadura da soja em estados brasileiros

consumado, mas a complexidade de sua distribuição e de sua frequência parece ter aumentado nas duas últimas safras. O uso de diversos grupos químicos e programas mais elaborados de manejo, além da alta variabilidade natural do fungo, parece estar contribuindo para situações variadas de maior ou menor eficiência dos fungicidas utilizados. A oferta de cultivares com gene(s) de resistência foi um avanço, embora ainda em número reduzido de materiais no mercado. Embora não elimine a necessidade de uso de fungicidas, a doença evolui mais lentamente nessas cultivares, o que pode dar maior segurança aos produtores, por exemplo, em uma situação em que a condição climática não permita a aplicação de fungicida no momento correto. É importante ressaltar que o uso contínuo de uma mesma cultivar pode resultar em perda de efetividade do gene de resistência que a cultivar possui, por isso deve-se rotacionar cultivares com diferentes genes de resistência. A seguir, é apresentado um resumo de como foi o andamento da safra 2017/18 de soja nos principais estados produtores do Brasil, com foco na ocorrência da ferrugem-asiática. As informações foram obtidas do Consórcio Antiferrugem, do Rally da Safra 2018, da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), de agências estaduais ligadas à agricultura e de comunicações


Fotos Rafael Soares

Figura 3 - Número de ocorrências de ferrugem-asiática por estádio de desenvolvimento da soja. Safra 2017/18. Fonte: Consórcio Antiferrugem

A pressão da ferrugem e de outras doenças foi baixa durante grande parte do ciclo da cultura, com moderado incremento de severidade no final do ciclo

recebidas de técnicos e agricultores ligados à cadeia de produção da soja.

RAIOS X DA SAFRA Região Nordeste (Bahia, Maranhão e Piauí)

Nessa região, de forma geral, choveu de maneira regular durante a safra, proporcionando bom desenvolvimento das plantas. A pressão de ferrugem-asiática e outras doenças foi baixa durante grande parte do ciclo da cultura, com moderado incremento de severidade no final do ciclo, em final de março e início de abril. Com isso, estão previstas produtividades recordes nesses três estados. No site do Consórcio Antiferrugem o primeiro relato de ferrugem-asiática em área comercial foi em 3/1/18 na Bahia e 16/2 no Maranhão. Região Norte (Rondônia, Tocantins e Pará)

Nessa região, de forma geral, as lavouras tiveram boas condições para o seu desenvolvimento e apresentaram alta produtividade de maneira geral. A pressão de ferrugem-asiática e de outras doenças foi baixa durante grande parte do ciclo da cultura. Com isso, estão previstas produtividades recordes nesses quatro estados. No site do Consórcio Antiferrugem o primeiro relato de ferrugem-asiática em área comercial foi em 18/1 no Tocantins e 13/4 no Pará. Em Rondônia, a semeadura de soja tardia (safrinha) no estado não está regulamentada e vem sendo realizada sob o monitoramento da Agência de Defesa Sanitária Agrossilvipastoril do Estado de Rondônia (Idaron). Embora a ferrugem-asiática tenha sido bem controlada na safra normal, foram comunicados registros de alta severidade de ferrugem em semeaduras mais tardias. O primeiro relato de ferrugem-asiática em área comercial foi no dia 28/12/17, 19 dias mais cedo que na safra anterior. Região Centro-Oeste (Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás)

No Mato Grosso, a semeadura da soja ocorreu como planejado no médio-norte e no oeste, mas com algum atraso no sudeste e no leste. As boas condições climáticas proporcionaram altas

22

Maio 2018 • www.revistacultivar.com.br

produtividades em quase todo o estado, com exceções pontuais onde ocorreram perdas por causa da seca no meio do ciclo ou do excesso de chuva na colheita. O manejo da ferrugem-asiática foi eficiente, sendo a primeira ocorrência da doença em área comercial registrada no dia 22/12/17, 19 dias mais tarde que na safra anterior. No Mato Grosso do Sul, as condições climáticas foram favoráveis na maioria das regiões, proporcionando alta produtividade para o estado. Ocorrências de excesso de chuva na colheita causaram perdas pontuais. O manejo da ferrugem-asiática foi eficiente de forma geral, mas com maior severidade em cultivos tardios no sul do estado. O primeiro relato em área comercial foi no dia 2/1/18, 43 dias mais tarde que na safra anterior. Em Goiás, embora tenha ocorrido atraso na semeadura no sudoeste, a maior parte das lavouras no estado se desenvolveu com uniformidade e apresentou altas produtividades. O primeiro relato de ferrugem-asiática em área comercial foi no dia 27/12/17, e embora tenha ocorrido 14 dias mais cedo que na safra anterior, a doença apresentou baixa severidade e foi manejada com eficiência. Maiores perdas foram observadas em lavouras semeadas tardiamente no centro-norte. Áreas de soja safrinha semeadas em período irregular foram autuadas pela agência de defesa estadual nessa safra. Região Sudeste (São Paulo e Minas Gerais)

Em São Paulo, as lavouras tiveram boas condições para o seu desenvolvimento e apresentaram alta produtividade de maneira geral. No entanto, a ocorrência irregular de chuvas e abaixo do normal no mês de fevereiro prejudicou algumas lavouras. A ocorrência de ferrugem-asiática foi baixa na maior parte do ciclo da cultura, sendo o primeiro relato da doença em área comercial em 20/11/17, nove dias mais tarde que na safra anterior. Em Minas Gerais, as produtividades das lavouras foram boas, superando a safra passada, que também teve bons resultados. Embora a ferrugem-asiática tenha sido relatada em área comercial em 30/11/17, 34 dias mais cedo que na safra anterior, a evolução da doença foi lenta, possibilitando bom controle na maioria das lavouras.


www.revistacultivar.com.br • Maio 2018

21


Região Sul (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul)

No Paraná, apesar do atraso no início das chuvas no oeste do estado, 66% e 98% das áreas já estavam semeadas até o final de outubro e novembro, respectivamente. Períodos longos com chuva e alta nebulosidade, entre dezembro e janeiro, causaram distúrbios fisiológicos como queda de vagens, alongamento de ciclo e atraso da colheita, em algumas regiões, baixando a produtividade média do estado em relação à safra anterior. Com isso, a ocorrência de doenças também foi favorecida em algumas regiões, com registros de ocorrência de mofo-branco e podridão radicular de Phytophthora. De maneira geral, o controle da ferrugem-asiática foi eficiente, mas com perdas pontuais onde a chuva impediu a entrada na lavoura para realizar o controle da doença no momento adequado. Há relatos de soja semeada tardiamente com mais de seis aplicações. A Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar) autorizou, excepcionalmente nessa safra, semeadura até o dia 15/1/18, em decorrência do atraso no início das chuvas. O primeiro relato de ferrugem-asiática em área comercial foi realizado no dia 23/11/17, sete dias mais tarde que na safra anterior. Em Santa Catarina, o excesso de chuva durante alguns períodos do ciclo da cultura propiciou a ocorrência de doenças em algumas áreas. Foram registradas ocorrências de mofo-branco, na região do Planalto, e maior severidade da ferrugem-asiática em áreas semeadas tardiamente. O primeiro relato de ferrugem-asiática em área comercial foi no dia 18/12/17, 20 dias mais cedo que na safra anterior. De forma geral, a produtividade do estado deve ser boa, embora abaixo da obtida na última safra. No Rio Grande do Sul, a seca atingiu com maior intensidade o sul do estado, o que provocou acentuada queda na produtividade esperada. Nas demais regiões as chuvas foram regulares, favorecendo principalmente as semeaduras com cultivares precoces. Cultivares mais tardias poderão ter a produtividade reduzida por causa da estiagem ocorrida no mês de março, principalmente na região oeste do estado. Na região serrana Figura 4 – Datas das primeiras ocorrências de ferrugem-asiática, por estado, na safra 2017/18. Fonte: Consórcio Antiferrugem

24

Maio 2018 • www.revistacultivar.com.br

foram registradas ocorrências de mofo-branco e no Planalto Médio, ataques de oídio. O primeiro relato de ferrugem-asiática em área comercial se deu no dia 16/11/17, 34 dias mais cedo que na safra anterior, sendo esse registro em lavoura semeada excepcionalmente cedo para a região, na primeira quinzena de setembro. De forma geral, a ferrugem-asiática foi bem controlada, mas a produtividade do estado será abaixo da obtida na última safra em decorrência dos problemas com seca, embora não configure uma quebra de safra.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A ferrugem-asiática não causou perdas significativas de produtividade na maioria das regiões, sendo o Paraná o estado mais afetado com a doença na safra 2017/18. Além de ter que contar com o clima favorável, o setor produtivo da soja tem conseguido bom controle da doença por meio da adoção conjunta das diversas ferramentas de manejo disponíveis. No entanto, essas estratégias devem ser utilizadas de forma adequada com o objetivo de maior eficiência e menor custo. O manejo da resistência do fungo aos fungicidas é um tema prioritário, o desenvolvimento de cultivares com genes de resistência deve ser intensificado, e modernas tecnologias para monitoramento das doenças e para aplicação de produtos devem ser buscadas. As medidas legislativas para regulação do cultivo da soja têm trazido benefícios no controle da ferrugem-asiática, mas também são passíveis de serem modificadas à medida que novos conhecimentos são adquiridos, de forma que atendam às necessidades do setor produtivo, sem colocar em risco o futuro C da sojicultura do País. Rafael M. Soares Cláudia V. Godoy Claudine D. S. Seixas Maurício C. Meyer. Embrapa Soja Mapa da dispersão da ferrugem-asiática


Trigo

Controle potencializado

Gabriele Casarotto

Doenças foliares como oídio e mancha foliar são capazes de limitar a produtividade e a qualidade das lavouras de trigo. Na busca por estratégias eficientes e sustentáveis de controle, o uso de potencializador à base de silício apresenta boa capacidade para auxiliar o produtor no combate destas enfermidades

Divulgação

P

ertencente à família dos semimetais, o silício está presente na crosta terrestre. Seu conteúdo no solo pode variar de menos de 1% até 45% da massa seca e representa 0,00001mg/kg a 0,001mg/kg (0,1%- 10%) da massa seca da planta. No solo, o silício está presente como ácido silícico (H4SiO4) e ao ser absorvido pela planta, se polimeriza em sílica amorfa, depositando-se nas paredes celulares, associando-se a polissacarídeos, lignina e proteínas. Plantas da família Poaceae, como trigo e arroz, acumulam silício na ordem de 4% ou mais, sendo consideradas plantas acumuladoras desse elemento

28

Maio 2018 • www.revistacultivar.com.br

químico. Além de ter função estrutural, o silício tem atividade importante na defesa de plantas contra patógenos. Duas atividades biológicas relacionadas ao processo de defesa contra estresses bióticos são descritas: (1) a sílica representa uma barreira física, limitando a entrada de patógenos como fungos ou bactérias e ainda (2) ativa o sistema de defesa natural das plantas, estimulando a produção de proteínas PR como quitinases e peroxidases, polifenóis, oxidases, fitoalexinas, dentre outros. Os benefícios do uso do silício são comprovados não somente em plantas conhecidas como acumuladoras, como é o caso do trigo e do arroz, por exemplo, mas, também, em não acumuladoras de silício como tomate e plantas do Cerrado. Segundo pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia, o silício deveria ser incluído na adubação de certas culturas, garantindo a sustentabilidade da produção agrícola, podendo aumentar potencialmente a produtividade. No caso da cana-de-açúcar, na aplicação da adubação à base de silício, foram registrados ganhos de até 30%. Além dos benefícios relacionados à resistência a patógenos, a tolerância à salinidade, à seca, à temperatura e à toxicidade por metais tem sido relatada e associada à aplicação de silício. A camada de sílica nos membros da família Poaceae está localizada logo abaixo da cutícula, em torno de 2-5µm abaixo. Em trigo, as folhas mais velhas podem apresentar até 11,8% de silício. A presença dessa camada mantém as folhas mais eretas e rígidas, aumentando a interceptação de luz e, por consequência, a taxa fotossintética. Essa camada também diminui a perda de água para o ambiente, ou seja, a redução de água por transpiração estando relacionada com fatores indiretos


Tabela 1 - Doses e ingredientes ativos (ia) por hectare, aplicados para controle de doenças foliares do trigo nos diferentes tratamentos Tratamento 1ª aplicação 2ª aplicação 3ª aplicação 1 Axostrobina 60g ia/ha + tebuconazol 120g ia/ha + propiconazol 75g ia/ha Cresoxim-metílico 75g ia/ha + epoxiconazol 75g ia/ha Axostrobina 60g ia/ha + tebuconazol 120g ia/ha 2 T1 (1ª) + potencializador 250 g/ha (SiO2 68%) T1 (2ª) + potencializador 250g/ha (SiO2 68%) T1 (3ª) + potencializador 250g/ha (SiO2 68%) 3 Potencializador 250 g/ha (SiO2 68%) Potencializador 250g/ha (SiO2 68%) Potencializador 250g/ha (SiO2 68%) 4 Sem aplicação Sem aplicação Sem aplicação

Figura 1 - Localização da camada de sílica em plantas e sua relação com a entrada de patógenos. Adaptado e traduzido de Wang et al. (2017) https://doi.org/10.3389/fpls.2017.00701

Tabela 2 - Percentual de severidade nos diferentes tratamentos (T1) fungicida, (T2) fungicida + potencializador, (T3) potencializador e (T4) controle Tratamento Severidade oídio (%)* 1 0a 2 0a 3 0a 4 5,1 b

Severidade mancha foliar (%)* 5,54 b 3,58 a 4,74 a b 13,91 c

* Médias seguidas de mesma letra não diferem entre si pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade de erro.

de qualidade e produtividade. A absorção do silício é dependente da oferta de água no solo e da presença de folhas verdes, que fazem transpiração e, consequentemente, a movimentação desse elemento do solo até as folhas, onde se deposita. Apesar de não ser considerado um elemento essencial, o Instituto Internacional de Nutrição de Plantas (IPNI) reconhece que ele é benéfico e auxilia nas culturas de arroz, milho e trigo, principalmente, mas outras culturas como algodão e soja também respondem à aplicação de silício. As doses de aplicação dependem da espécie vegetal e do estágio de desenvolvimento da planta. Este trabalho teve o objetivo de avaliar a influência da utilização de potencializador à base de silício no controle de doenças foliares em trigo. O experimento foi conduzido no município de Ibirapuitã (RS), em campo, com blocos inteiramente casualizados de 10m x 16m. A cultivar de trigo utilizada foi a Ametista, semeada em 4 de julho de 2016 com espaçamento de 17cm entre linhas e densidade de 300 plantas/m². Foram realizadas duas aplicações de ureia de 120kg/ha e 100kg/ha, nos dias 15 de agosto de 2016 e 29 de agosto de 2016, respectivamente. O experimento contou com quatro tratamentos e cinco repetições. Nos diferentes tratamentos foram realizadas três aplicações de produtos químicos, conforme descrito na Tabela 1, sendo o tratamento 1 (T1) aquele em que as parcelas receberam somente aplicações de fungicidas; o tratamento 2 (T2) recebeu o mesmo tratamento químico com fungicidas que T1, porém com adição de potencializador à base de silício; o tratamento 3 (T3) recebeu somente o potencializador, sem aplicação de fungicidas; e o tratamento 4 (T4) é o tratamento controle, em que não houve aplicação nem de fungicidas nem de potencializador. O equipamento utilizado para efetuar as aplicações foi um pulverizador tratorizado com 16 metros de barra utilizando bicos TT110 015 VP com espaçamento de 50cm, utilizando 110L de calda/hectare em todas as aplicações. A severidade das doenças foliares, oídio e mancha foliar, foi avaliada com o auxílio de escalas diagramáticas onde o percentual de área foliar afetada foi determinado a cada 14 dias a partir

do aparecimento dos primeiros sintomas, totalizando quatro avaliações. Dez plantas por parcela e repetição foram avaliadas, totalizando 50 plantas por tratamento. As médias de severidade foram calculadas e os dados obtidos submetidos à análise de variância (p≤0,05) utilizando o programa estatístico Sisvar. Dentre os tratamentos, não foi possível verificar diferença significativa para a severidade de oídio, indicando que o silício, apesar de não apresentar controle superior aos fungicidas mostrou resultado similar. No caso das manchas foliares, os tratamentos somente com potencializador (T3) e potencializador mais fungicidas (T2) foram os que apresentaram melhor controle da doença. O tratamento somente com fungicidas (T1) apresentou controle inferior a T3 e T2 (com silício), sendo que o tratamento controle foi o que apresentou maior severidade (Tabela 2). O oídio é um fungo biotrófico que se estabelece e afeta somente as células epidérmicas, ocorrendo sintomas principalmente na superfície superior das folhas. As manchas foliares, por sua vez, são patógenos necrotróficos que colonizam o espaço inter e intracelular, com o envolvimento de toxinas e retirada de nutrientes do hospedeiro. A penetração desses fungos se dá por emissão de tubos germinativos que penetram através da cutícula. Sendo assim, a presença da sílica amorfa logo abaixo da cutícula impede ou restringe a penetração e espalhamento do fungo pelo tecido (Figura 1), o que explica o controle ou a redução da severidade nas parcelas com aplicação de silício. A aplicação de silício nesses casos, aumentando o controle de doenças foliares no trigo, confirma o envolvimento e a importância desse elemento no sistema de defesa da cultura, demonstrando o potencial desse elemento na redução de custos C com aplicações de produtos químicos fungicidas. Jesiomar Delazeri, Valter Bussoloto, Juliano de Carli, Felipe Fiorentin, William Gois, Ritieli Baptista Mambrin e Alice Casassola, UFSM www.revistacultivar.com.br • Maio 2018

29


Empresas

Diretrizes traçadas Nidera reúne mais de 200 colaboradores e parceiros em evento anual de vendas, na Costa do Sauípe, na Bahia

A

para 2018. “Estamos em um novo tempo, fortalecendo nossas relações de confiança e vamos aproveitar as oportunidades ao máximo. Espero que todos aproveitem porque preparamos dias incríveis para vocês”, avisou o líder de Negócios para o Brasil e Paraguai, André Franco, ao dar as boas-vindas ao grupo. Franco analisou o mercado em 2017 e o cenário atual para 2018. “Em 2017 o ano foi desafiador, estávamos com um orçamento desafiador, estoque alto de sementes, aumento de sementes salvas,

Fotos Nidera

Nidera Sementes realizou em abril sua reunião de vendas anual, na Costa do Sauípe, na Bahia. O evento reuniu mais de 200 colaboradores e parceiros. A convenção foi chamada de Novo Tempo. Na programação houve palestras relacionadas ao processo de negócios da Nidera, com o objetivo de motivar a equipe, criar engajamento e alinhar as oportunidades de crescimento. Foram apresentados por diretores e gerentes da marca os números de 2017 e as expectativas de crescimento e desempenho

Distribuidores e representantes das regiões Centro e Leste estiveram reunidos em Brasília

30

Maio 2018 • www.revistacultivar.com.br

menor preço das commodittes e com isso tivemos uma guerra de preços.” Atenta a esse cenário, a companhia readequou algumas áreas. “Aumentamos o nosso trabalho em equipe, a visitação aos nossos clientes e com muita dedicação, agilidade e coragem para mudar a rota estamos colhendo frutos em 2018. Nosso desafio é crescer 30%”, projetou. Para apoiar a estratégia e dar suporte ao seu crescimento, a Nidera Sementes lançou cinco programas: Programa Raízes voltado para Licenciamento, Raízes Cooperativas Aliadas, Raízes Corporate, Raízes Grandes Clientes e Raízes Distribuição. “Estamos intensificando o relacionamento com todos os elos da cadeia de clientes, ampliando fortalezas e nossa presença no campo. Temos feito tudo isso sem perder nossa essência, que é olhar o campo através dos olhos do agricultor, entendendo suas necessidades e entregando mais valor”, avaliou o coordenador de Marketing e Comunicação da Nidera Sementes para o Brasil e Paraguai, Nélio Reis.


Andre Dias, Head Seeds Latam e um dos responsáveis por construir o novo e atual modelo de negócio da marca Nidera Sementes, participou por videoconferência da reunião anual e abordou o processo de transformação que está acontecendo entre a Syngenta e a Nidera. “Primeiramente precisamos reconhecer o que foi feito no passado. Conseguimos obter crescimento acima do esperado, em um ano de 2017 que foi muito desafiador, e neste momento o mais importante é construir o futuro e continuar crescendo. O nosso processo de transformação está sendo muito positivo, estou participando efetivamente da junção das duas companhias e estamos aproveitando os principais pontos fortes de cada empresa”, disse. Com base no cenário atual, a equipe Nidera aproveitou a reunião anual para estudar o passado e comunicar o futuro, e o desafio é deixar claro os principais pilares de apoio para o crescimento em 2018, que são pessoas, produtos, processos e sistemas, aliando com a geração de demanda, posicionamento adequado, acesso ao mercado e execução determinada. “A nossa estratégia já está definida e estamos aproveitando a reunião anual para comunicar ao nosso time. Com isso, pudemos alinhar uma única mensagem para ser transmitida no campo. Tivemos um crescimento expressivo nos últimos anos e uma das principais estratégias para o nosso crescimento foi o reposicionamento de cultivares do nosso portfólio, somando isso com uma equipe totalmente focada no negócio de sementes”, explicou Franco.

Também foi discutida a evolução da marca e apontado o posicionamento através de uma linha do tempo. Em 2018, o foco é o agricultor. “Para isso, vamos adotar um novo jeito de ser e de ver a realidade através do olhar do agricultor. Vamos acompanhar o agricultor e trabalhar ao seu lado, carregando sua visão do campo”, destacou Reis.

PROJEÇÃO DE CRESCIMENTO CENTRO E SUL E PARAGUAI

Melhorar o acesso indireto no vertical, com abertura de novos distribuidores e de novos licenciados, e ampliar a base de clientes são as iniciativas para a continuação de crescimento e para atingir o principal objetivo da empresa. “O nosso objetivo é ser a primeira marca em soja e a segunda marca em milho safrinha na região Centro", explicou o diretor comercial para o Centro, Igor Lyra. Já para o Sul do Brasil, o desafio em 2017 foi maior, com necessidade de reestruturar o time, reposicionar o portfólio, focar em geração em demanda e participar mais de feiras e de dias de campo. “Os objetivos da Nidera para essa região são de aumentar a participação em milho e soja vertical e manter a liderança no licenciamento para fortalecer a marca e nossa participação de mercado. Além disso, vamos criar laços mais fortes com os nossos parceiros. Já para o Paraguai projetamos chegar em 40% de participação de mercado em soja”, explicou C o diretor comercial Sul e Paraguai, Rafael Carmona.

André Franco, líder de Negócios da Nidera Sementes para o Brasil e Paraguai

www.revistacultivar.com.br • Maio 2018

31


Milho

Melhor desempenho Diante da grande diversidade de genótipos de milho no mercado agronômico é necessária uma escolha criteriosa, que favoreça a interação positiva com o ambiente específico de cultivo

A

escolha do híbrido de milho é uma ação fundamental para a qualidade de um sistema produtivo, que de modo geral é responsável por 50% na produtividade final. O milho é uma cultura de elevada importância eco-

32

nômica, que necessita de estudos com o objetivo de atender às suas exigências nutricionais e edafoclimáticas para a obtenção do seu potencial produtivo. Para isso, destacam-se o conhecimento das características de cada cultivar, como tipo

Maio 2018 • www.revistacultivar.com.br

de melhoramento genético, resistência ao acamamento, duração do ciclo, exigência térmica, arranjo de plantas, entre outros (Farinelli et al, 2012). Conforme o melhoramento genético, os híbridos de milho são classificados de


acordo com sua base genética em híbridos simples, duplos, triplos e variedades (dentre outros). Os híbridos simples ou triplos podem ser geneticamente modificados ou não, como também pode haver um “top cross” que é o resultado do cruzamento de uma variedade e dois híbridos intervarietais e um híbrido simples. Os maiores resultados com produtividade encontram-se em híbridos simples, triplos e duplos, porém o custo da semente é mais alto, juntamente com o manejo exigido para expressão do potencial produtivo (Embrapa, 2016). Segundo recomendações da Embrapa, os ciclos são divididos conforme a acumulação de unidades de calor em graus dias (GD) da emergência até a floração e são divididos em superprecoce (menor que 830 GD), precoce (830 GD a 890 GD), semiprecoce e normal (maior que 890 GD). Para o cálculo da soma térmica é recomendado desconsiderar as temperaturas máximas que forem iguais ou maiores que 30ºC e temperaturas mínimas menores que 10ºC, atribuindo-se estes próprios valores. Outro aspecto importante na produtividade de milho é o arranjo de

plantas, que é representado pelo ajuste no espaçamento e densidade de plantas (Farinelli et al, 2012). Isso está relacionado com a cultivar escolhida, a época de semeadura e o tipo de solo. Atualmente, tem sido evidenciados na prática o aumento na densidade populacional e a diminuição do espaçamento, para atender às exigências das novas cultivares que tendem a ser mais precoces, possuírem menor porte, angulação mais ereta e maior produtividade. Com alto investimento em tecnologia, Demétrio et al (2008) relata que o melhor arranjo espacial de plantas está compreendido em uma população de 75 mil plantas/ ha a 80 mil plantas/ha com espaçamento de 40cm. Já Farinelli et al (2012) corrobora com o espaçamento entre fileiras, mas infere que as populações ótimas variam de 60 mil plantas/ha e 80 mil plantas/ha. Para se obter semeadura e crescimento de qualidade devem ser analisados os diferentes fatores de pré-semeadura e semeadura, como características da cultivar (ciclo, potencial produtivo e resistências a fatores bióticos e abióticos), além do espaçamenLucas Bruning

www.revistacultivar.com.br • Maio 2018

33


Tabela 1 - Produtividade de grãos, em kg/ha (PG); massa de mil grãos em gramas (MMS); produtividade de grãos em sacos/ha (PGS) Tratamento P 1680 YH P 32R22 YHR P 2530 NS 92 PRO2 AS 1656 PRO3 BG 7318 YH AS 1677 PRO3 NS 50 PRO DKB 230 PRO3 AS 1666 PRO3 P 3456 H BG 7060 HR DKB 290 PRO3 NS 56 PRO AG 9025 PRO3 P 30F53 YHX BG 7046 AG 8780 PRO3 AG 8690 PRO3 Média Geral Coeficiente de Variação (%)

PTG 4606 d 6777 c 7640 b 7832 b 7916 b 7961 b 8034 b 8208 b 8254 b 8488 b 8681 b 8838 b 9133 a 9208 a 9477 a 9507 a 9693 a 10039 a 10063 a 8439 9,8

MMS PG (sacos) 294,00 d 77 d 273,33 d 113 c 338,33 c 127 b 369,00 b 131 b 396,66 b 132 b 336,66 b 133 b 342,00 b 134 b 371,66 c 137 b 354,00 b 138 b 440,00 a 141 b 301,00 d 145 b 343,00 c 147 b 391,33 b 152 a 406,66 a 153 a 417,66 a 158 a 371,66 b 158 a 335,33 b 162 a 403,33 a 167 a 386,00 b 168 a 361,6 141,6 4,9 9,9

Tabela 2 - Caracterização dos híbridos de milho em relação às principais doenças. Enf (Enfesamento), Cerc (Cercospora), DC (Doenças colmo), SG (Sanidade grãos) Híbrido P 2530 P 32R22 YHR P1680YH P3456H P 30F53 YHR BG 7046 BG 7318 YH BG 7060 HR DKB 230 PRO3 DKB 290 PRO3 AS 1677 PRO3 AS1656 PRO2 AS 1666 PRO3 NS 92 PRO NS 50 PRO NS 56 PRO AG 8690 PRO3 AG 8780 PRO3 AG 9025 PRO3

FUS MR SI S SI SI SI T MT SI SI R R MR MT MT T

P. sor Physo P. polysora Phaeos MR SI S S MS S S S MS MS MS MS MS SI M MS MR SI S S MR MR S MS T SI MS T AT AT AS T T SI MS MS T SI T T MR MR R R MR MS S MS MR R MS S T MT MT MT T MT MT S AT BT BT BT

Enf SI S S SI SI MR SI BT SI SI R MR MR SI SI BT

H. turcicum H. maydis MR SI MS S MR MS MS SI S SI MR MS T SI T MT T SI T SI R R MR MR R MR MT SI MT SI MT MT

Cerc MS S MS M MR MR T AS MS SI MR MR MR T MT BT

DC MS S MS MS MR MR T T SI SI R R R T T T

SG MR MR MS MS MR MR T MT MT SI R R R T T T

*Altamente resistente, R - Resistente, MR - Medianamente resistente; MS - Medianamente sucetível; S - Sucetível; AS - Altamente sucetível; SI - Sem informação. FUS – Fusarione, P. sor – Puccinia Sorghi, PHYSO -Physopellazeae, P. polysora: Puccinia polysora, Phaeos: Phaeosphaeria, Enf: Enfezamento, H. turcicum – Exserohilum turcicum, H. maydis – Helminthosporium maydis, Cerc – Cercosporiose, DC – Doenças do colmo, SG - Sanidade dos grãos.

*médias seguidas pela mesma letra na coluna não diferem estatisticamente entre si pelo teste de Scott-Knott (p<0,05).

to entre fileiras e a escolha da melhor densidade populacional para o local. Em virtude desses fatores, objetivou-se caracterizar a produção de 19 híbridos de milho para as condições edafoclimáticas de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. O experimento foi conduzido na safra de verão 2015/16, no Departamento de Fitotecnia da Universidade Federal de Santa Maria, RS (29º42' S, 53º42' WW e 122 metros de altitude). O solo da área é classificado como Argissolo Vermelho Distrófico Arênico (Embrapa, 2006). O clima refere-se da classificação de Köppen, do tipo Cfa, (subtropical úmido sem estação seca definida e verões quentes). A média de temperatura do ar para os meses de junho e julho, é de 13,8°C, e o mês de janeiro é de 24,7°C. A precipitação normal anual é de 1.712,4mm, distribuída uniformemente durante as quatro estações do ano (Heldwein et al, 2009). A semeadura foi realizada no dia 19/10/2015, com semeadora adubadora na densidade de 7 sementes/m² e espaçamento entre fileiras de 45cm. A adubação foi realizada conforme a Comissão de Química e Fertilidade do

34

solo (CQFS, 2004), baseada através da análise química do solo coletado. O manejo fitossanitário foi realizado conforme as indicações técnicas para a cultura (Embrapa, 2013). A colheita foi realizada manualmente nas duas fileiras centrais com área útil de 6,97m². Posteriormente, avaliaram-se massa de mil grãos e produtividade total, sendo corrigido para 13% de umidade. A análise de variância (Teste de F) e as médias foram comparadas pelo Teste Scott-Knott, ao nível de 5% de probabilidade de erro com auxílio do software Sisvar (Ferreira, 2008). Em relação à produtividade de grãos, os híbridos mais produtivos foram AG 8690 PRO3, AG 8789 PRO3, BG 7046, P 30F53 YHX, AG 9025 PRO3, NS 56 PRO e DKB 290 PRO3, com destaques para os três primeiros citados produzindo, respectivamente, 10.063kg/ha, 10.039kg/ ha e 9.693kg/ha (Tabela 1). Isto representa uma produção superior de 28% em relação à média do Rio Grande do Sul (7.160kg/ha) e 56% comparada à média nacional (4.389kg/ha) (Conab, 2016). Assim, esses híbridos são aptos à região de Santa Maria, apresentando

Maio 2018 • www.revistacultivar.com.br

produtividades economicamente adequadas se aliadas a um bom manejo e condições ambientais. Alguns aspectos em comum podem ser destacados desses híbridos de alta produtividade como base genética, ciclo precoce e tecnologias de resistência contra insetos (Tabela 2). Todos os híbridos mais produtivos são simples e com exceção da BG 7046, possuem tecnologias VT PRO ou Herculex I, conferindo resistência a insetos da ordem lepidóptera, como a lagarta do cartucho. Uma hipótese para alguns híbridos não terem obtido altas produtividades pode estar relacionada à população de plantas. Por questões de praticidade na implantação do experimento, optou-se por padronizar a densidade de sementes para todas as cultivares. Cada um destes genótipos possui exigências diferentes quanto ao espaçamento e à população de plantas, o que pode impactar aproximadamente 20% na produção, a alteração no arranjo de plantas (Almeida et al, 2000). Na variável de massa de mil grãos conforme a Tabela 1, as cultivares com maiores resultados foram a AS 1666


Tabela 3 - Características agronômicas dos genótipos Cultivar P 2530 P 32R22 YHR P1680YH P3456H P 30F53 YHR BG 7046 BG 7318 YH BG 7060 HR DKB 230 PRO3 DKB 290 PRO3 AS 1677 PRO3 AS1656 PRO2 AS 1666 PRO3 NS 92 PRO NS 50 PRO NS 56 PRO AG 8690 PRO3 AG 8780 PRO3 AG 9025 PRO3

Tipo HS HS HS HS HS HT HS HS HS HS HS HS HS HS HS HS

Ciclo SP SP P P SP P HP SP P SP P SP SP P P SP

GD/D EP Uso CG 125 N G/SPI/SGU AM/AL 121 N G/SPI/SGU AM 130 N GRÃOS AL 135 N/S G/SPI AM/AL 120 N GRÃOS AL 137 N G/SPI AL 780 C/N GRÃOS AM/AL 840 C/N/T/S GRÃOS AM/AL 830 S GRÃOS AL 810 S GRÃOS AL SI C/N/T/S G/SPI LR SI C/N GRÃOS LR SI C/N GRÃOS LR 834 C/N G/SPI AM/AL 820 C/N GRÃOS AM/AL 785 C/N GRÃOS AM

D 60-65 50-65 60-80 55-65 65-80 50-65 70-80 65-75 65-75 65-75 70 65 70 65-75 65-80 65-75

RA M M M A A A A A A A A A A A A A

AE 1,1 a 1,25 1,1 a 1,25 1,1 a 1,20 1,3 a 1,5 1,4 a 1,55 1,30 a 1,40 1,15 1,2 1,45 1,4 1,23 1,25 1,19 1,2 1,2 1,22

AP Empresa 2,7 a 2,85 DU PONT 2,7 a 2,85 DU PONT 2,60 a 2,80 DU PONT 3 a 3,20 DU PONT 2,8 a 3,10 DU PONT 2,80 a 3,0 DU PONT 2,2 Dekalb 2,25 Dekalb 2,6 Agroeste 2,4 Agroeste 2,31 NIDERA 2,32 NIDERA 2,28 NIDERA 2,2 AGROCERES 2,2 AGROCERES 2,3 AGROCERES

Ciclo: HP - hiperprecoce; SP - superprecoce; P - Precoce; SMP - Semiprecoce; N – Normal Graus Dias/dias: valores sem especificação se referem a graus dias em ºC. Época de Plantio: C - Cedo; N - Normal; T - Tarde; S – Safrinha. Uso: G - Grãos; SPI - Silagem da planta inteira; SGU - Silagem de grãos úmidos. Cor do Grão: AL - Alaranjado; LR - Laranja; AV - Avermelhado; AM – Amarela. Densidade de plantas: mil plantas na safra/mil plantas na safrinha. Resistência ao Acamamento: A - Alta; M - Média; MA - Média a alta. TRAN (tipo de transgenia), GD/D (Graus dias ou dias), EP (Época de semeadura), CG (cor do grão), D (densidade - plantas/ ha), TG (textura do grão), RA (Resistência ao acamamento), AE (altura da espiga (m)), AP (altura planta (m), NT (Nível Tecnológico).

Fotos Lucas Bruning

PRO3, AG 9025 PRO3 e NS 56 PRO, com valores de 440g, 417,66g e 406,66g. Estes resultados estão associados à ocorrência de falta de chuva no período de enchimento de grãos. Com isso, alguns genótipos não obtiveram o peso semelhante ao que é informado pelo obtentor da semente. (Forsthofer et al, 2006; Lee; Tollenaar, 2007). A diversidade de genótipos de milho no mercado agronômico é grande, assim é necessária uma escolha criteriosa que mais favoreça a interação positiva entre genótipo e ambiente específico. É necessária atenção quanto à qualidade de semente e à certificação de fornecedor capacitado. Além do mais, para quaisquer dúvidas específicas recomenda-se contatar um engenheiro agrônomo, e para maior conhecimento do genótipo, é importante entrar em contato com os C representantes das sementes. Anderson da Costa Rossatto Guilherme Bergeijer da Rosa Lucas Bruning Glauber Monçon Fipke Thomas Newton Martin UFSM

O arranjo de plantas, representado pelo ajuste no espaçamento e na densidade, é um dos aspectos importantes na produtividade de milho

www.revistacultivar.com.br • Maio 2018

35


Plantas daninhas

Quarteto do mal Azevém, capim-amargoso, capim-branco e capim-pé-de-galinha são as quatro gramíneas que representam maior preocupação ao agricultor brasileiro, em função de apresentarem resistência ao glifosato. O uso de herbicidas aplicados em pré-emergência é uma das opções que ganham espaço no controle destas plantas daninhas

E

mbora a resistência de plantas daninhas aos herbicidas seja um problema mundial, as particularidades de um país de agricultura tropical intensiva como o Brasil levam ao desenvolvimento de problemas específicos para tais ambientes. A seleção de espécies de plantas daninhas resistentes ao glifosato compreende 22 espécies de folhas largas e 19 espécies de gramíneas. No Brasil, o número de espécies resistentes ao glifosato atualmente é de oito, sendo quatro folhas largas e quatro gramíneas. No entanto, dentre as folhas largas, três das quatro espécies são do gênero Conyza (buva) e o quarto caso é de Amaranthus palmeri, que até o momento permanece confinado a áreas específicas do Mato Grosso sob severa vigilância das entidades reguladoras. O clima quente e a oferta de água e

36

Maio 2018 • www.revistacultivar.com.br

de luz durante quase todo o ano favorecem a dispersão, o desenvolvimento e a multiplicação das gramíneas. Este é um dos itens que podem ajudar a explicar o crescimento do problema das gramíneas resistentes ao glifosato. A preocupação se agrava quando se constata que a disponibilidade de herbicidas destinados ao controle especificamente de gramíneas é muito mais limitada que a de produtos destinados ao controle de folhas largas. Nas áreas com problemas de resistência de gramíneas ao glifosato, a primeira alternativa de controle dos agricultores é normalmente um dos herbicidas inibidores da ACCase (DIMs e FOPs). Em função disso, três das quatro espécies que já apresentam resistência ao glifosato também já desenvolveram resistência para algum dos herbicidas deste grupo.


Todos os relatos de resistência do mundo podem ser encontrados no endereço eletrônico www.weedscience.org. Navegando no site, é possível encontrar informações sobre resistência de plantas daninhas, atualizadas e discriminadas por espécies, herbicidas, países, culturas e ano de ocorrência, não só no Brasil como em outros países do mundo. As quatro gramíneas que representam uma preocupação para o agricultor brasileiro, em função de apresentarem resistência ao glifosato, são azevém, campim-amargoso, capim-branco e capim-pé-de-galinha. 1) Azevém (Lolium multiflorum) Esta espécie é típica de ambientes temperados, portanto, os problemas com esta planta daninha estão limitados às regiões de clima mais ameno, na região Sul do Brasil. O azevém foi a primeira espécie a desenvolver resistência ao glifosato no Brasil. As primeiras populações resistentes foram identificadas em lavouras de soja RR no Rio Grande do Sul em 2005. Embora seja uma espécie tipicamente presente nas áreas de clima mais temperado do País, a preocupação tem aumentado após relatos de resistência múltipla a glifosato e inibidores da ACCase na soja (2010), assim como a glifosato

e inibidores da ALS em áreas de sucessão soja/trigo (2016). 2) Capim-amargoso (Digitaria insularis) O capim-amargoso é, sem dúvida, o caso de resistência ao glifosato que mais se disseminou no País. Este fato tem sido atribuído não só ao uso intensivo deste herbicida, mas também por se tratar de uma espécie perene, de apresentar transporte das sementes por meio de máquinas e do vento. Os primeiros casos de resistência ao glifosato foram registrados no Paraguai em 2005, no Brasil em 2008 e na Argentina em 2014. No Brasil, a partir da primeira constatação no oeste do Paraná em 2008, rapidamente ocorreu a disseminação para praticamente todos os estados produtores de grãos. A amplitude de disseminação das áreas de capim-amargoso com resistência ao glifosato tem levado à intensificação da utilização de herbicidas inibidores da ACCase. Recentemente, em 2016, foi registrado o primeiro caso de resistência a inibidores da ACCase (fenoxaprop e haloxyfop). 3) Capim-branco (Chloris elata) O primeiro relato de capim-branco resistente ao glifosato ocorreu em 2014, em uma população proveniente de áreas

de soja. Aparentemente, os mecanismos de resistência desta população estão relacionados à menor absorção de glifosato e à maior retenção do herbicida nas folhas tratadas. Dos quatro casos descritos neste trabalho, este é o de resistência ao glifosato com menor disseminação até o momento. 4) Capim-pé-de-galinha (Eleusine indica) O capim-pé-de-galinha é uma das plantas daninhas mais problemáticas, sendo encontrada em muitas regiões do mundo. É uma planta anual, de crescimento rápido e alto potencial de competição interespecífica, autógama, com ciclo C4 e elevada produção de sementes, disseminadas pelo vento. Seu centro de origem provavelmente é a Ásia e foi distribuída pelas regiões tropicais, subtropicais e temperadas do mundo, com maior presença em regiões entre os trópicos. Cada planta é capaz de produzir mais de 120 mil sementes. No Brasil, o primeiro caso de resistência de capim-pé-de-galinha a inibidores da ACCase (Acetil-CoAcarboxilase) foi registrado em 2003 no Rio Grande do Sul e posteriormente no Paraná. Com a introdução da soja RR e com o aumento do uso de glifosato em pós-emergência, tais problemas aparentemente foram

Fotos Universidade Estadual de Maringá

O capim-amargoso é, sem dúvida, o caso de resistência ao glifosato que mais se disseminou no País

O primeiro relato de capim-branco resistente ao glifosato ocorreu em 2014, em uma população proveniente de áreas de soja

www.revistacultivar.com.br • Maio 2018

37


Tabela 1 - Herbicidas registrados no Mapa (Agrofit, 2018) para utilização em pré-emergência de gramíneas resistentes a glifosato no Brasil Planta daninha Azevém Capim-amargoso

Opções de herbicidas para aplicação em pré-emergência flumioxazin, indaziflam, pyroxasulfone, trifuralin [chlorimuron+flumioxazin], diclosulam, [diuron+hexazinone], [diuron+sulfentrazone], [flumioxazin+imazethapyr], [flumioxazin+pyroxasulfone], [imazethapyr+sulfentrazone], s-metolachlor, trifuralin Capim-pé-de-galinha ametryn, [ametryn+clomazone], [ametryn+diuron], [ametryn+diuron+MCPA], [ametryn+simazine], amicarbazone, [atrazine+isoxaflutole], [atrazine+metholachlor], [atrazine+s-metholachlor], [chlorimuron+flumioxazin], clomazone, diuron, [diuron+hexazinone], [diuron+MSMA], [diuron+tebuthiuron], indaziflan, isoxaflutole, [isoxaflutole+thiencarbazone], metribuzin, [molinate+propanil], orizalin, S-metolachlor, sulfentrazone, tebuthiuron, trifuralin

considerados de pouco impacto, em função da efetividade do glifosato para controle desta planta. Nos últimos anos muitas reclamações de escape de plantas de capim-pé-de-galinha foram registradas no Cerado, principalmente nas áreas produtoras de algodão. Trabalhos do pesquisador Anderson Cavenaghi em conjunto com o IMA-MT indicam que mais de 60% das amostras de capim-pé-de-galinha avaliadas são atualmente resistentes ao clethodim. Em 2016, o NAPD/UEM reportou o primeiro caso de resistência ao glifosato em pé-de-galinha no Brasil, na região de Campo Mourão (PR). Por fim, em 2018, a pesquisadora Núbia Correia (Embrapa Hortaliças) reportou o primeiro caso de resistência múltipla (glifosato, fenoxaprop-P-ethyl e haloxyfop-methyl).

CONTROLE

Até o momento não existem herbicidas recomendados para o controle do capim-branco. Para a dessecação de áreas contendo estas gramíneas resistentes ao glifosato, as opções se resumem aos produtos de contato (paraquat, [paraquat + diuron] e amônio-glufosinato), que apresentam limitações com relação ao tamanho de plantas que controlam. Apesar dos casos de resistência, os inibidores da ACCase ainda são os herbicidas mais usados para o controle destas populações,

Ana Karoline Silva Sanches, Rafael Romero Mendes, Vanessa Francieli Vital Silva e Rubem Silvério de Oliveira Jr, Universidade Estadual de Maringá

Fotos Universidade Estadual de Maringá

O capim-pé-de-galinha é uma das plantas daninhas mais problemáticas

Eleusine indica é uma planta anual, de crescimento rápido e alto potencial de competição interespecífica

Ana Karoline, Mendes, Vanessa Francieli e Oliveira Jr abordam o manejo de daninhas resistentes a glifosato

38

tanto na dessecação quanto em pós, em função de serem sistêmicos e possibilitarem o controle de plantas adultas. Outra opção interessante e que tem adquirido maior importância reside no uso de herbicidas aplicados em pré-emergência. As opções disponíveis no mercado brasileiro estão listadas na Tabela 1. É conveniente ressaltar que nem todas as opções de herbicidas que constam na Tabela 1 são seletivas para todas as culturas de maior importância, sendo necessário consultar a assistência técnica para a melhor Planta de soja avaliar afetada pela ferrugem opção para cada caso. -asiática (Phakopsora pachyrhizi) É importante salientar que também existem opções alternativas aos herbicidas que podem ser utilizadas em conjunto, tais como rotação de culturas, uso de cobertura viva ou morta sobre o solo, operações mecânicas como roçadas e capinas, aração e gradagem, entre outras. Não apenas para o controle em si, mas esses métodos também C se enquadram como técnicas fundamentais na prevenção C e no manejo da resistência.

Maio 2018 • www.revistacultivar.com.br


Cana

Dupla perversa

Grama-seda e tiririca são duas plantas daninhas de difícil controle nos canaviais. Com alta capacidade de propagação e de interferir negativamente na cultura, ambas demandam muita atenção e esforço dos produtores para prevenir e minimizar os prejuízos

A

origem exata da grama-seda não é bem definida, possivelmente tenha surgido primeiramente na África,

Eurásia, Índia ou Malásia. Mas é uma espécie muito primitiva e, atualmente, considerada a planta daninha de maior distribuição

geográfica no planeta (Kissmann, 1997), só perde para a tiririca. Pode ser encontrada nas regiões tropicais e subtropicais, ao redor do globo, DMLab

www.revistacultivar.com.br • Maio 2018

39


Fotos Lucas C. Cirilo

Figura 1 - A) Planta adulta de grama-seda; B) Tiririca adulta

estando presente em aproximadamente 100 países. No Brasil está presente de Norte a Sul, seja como infestante ou planta cultivada (no caso de forrageira em pastagens). A tiririca é originária da Índia e é a planta daninha mais disseminada no mundo, sendo encontrada nos mais diversos tipos de agroecossistemas. Está presente em todos os países de clima tropical e subtropical e em muitos de clima temperado (Kissmann, 1997). Existem relatos que esta planta daninha foi introduzida no Brasil desde o início da colonização europeia, em vasos trazidos da Índia com outras espécies. O seu estabelecimento inicial teria sido nas regiões de Rio de Janeiro, Recife e Salvador (Deuber, R. 1992).

CARACTERÍSTICAS

A grama-seda também é conhecida como capim-bermuda e possui nome científico de Cynodon dactylon (Gurgel, 2003). No Brasil, é uma gramínea perene de crescimento herbáceo que atinge no máximo 40cm de altura. Quando as plantas são novas, apresentam porte rasteiro e atingem o porte ereto somente após sua floração (Kissmann, 1997). A reprodução pode ser tanto sexuada como assexuada, mas como suas sementes são bem pequenas e possuem vida curta, tornam a reprodução por sementes insignificante, se reproduzindo principalmente por rizomas e estolões (Procópio et al, 2003). O desenvolvimento dos estolões ocorre sobre a superfície do solo, com comprimentos que variam de centímetros a metros. Já os rizomas se encontram subterrâneos e bastante ramificados. A tiririca (Cyperus rotundus) é também conhecida como junça aromática, e apresenta semelhanças com a grama-seda, desde características morfológicas até medidas de controle e prejuízos causados. As plantas de tiririca são perenes, e sua parte aérea (conhecida como epígea) possui porte herbáceo com até 50cm de altura.

40

Maio 2018 • www.revistacultivar.com.br

As raízes originam diferentes tubérculos que permanecem ligados em forma de cadeia (Kissmann, 1997). Sua reprodução pode ser tanto sexuada como assexuada, mas a reprodução por sementes é pouco significativa, porque menos de 5% são viáveis. Assim, a principal multiplicação se dá por tubérculos e bulbos subterrâneos. A tiririca se adapta aos diferentes ambientes edafoclimáticos, o que inclui localidades de elevadas temperaturas. Nas regiões de temperatura baixa o seu desenvolvimento e a multiplicação tornam-se lentos, somente o congelamento do solo mata seus tubérculos. Também toleram prolongados períodos de seca ou inundação (Kissmann, 1997).

PROPAGAÇÃO

Os principais meios de disseminação da tiririca e da grama-seda ocorrem pelo uso de máquinas e implementos para o preparo de solo (subsoladores e grades), plantio (plantadoras de colmos ou MPBs) e tratos culturais (aplicadores de fertilizantes e inseticidas na linha da soqueira). Os implementos distribuem suas partes vegetativas (tubérculos de tiririca e estolões de grama-seda) no próprio talhão, bem como transportam para outros talhões. Como possuem elevada capacidade de reprodução e facilidade de se adaptar em diversos ambientes produtivos, rapidamente a infestação é observada no talhão, caso nenhum controle específico seja praticado. Para grama-seda, cada hectare infestado pode produzir até 40 toneladas de rizomas na camada de 0cm - 15cm do solo. Uma única planta pode produzir até cinco metros de rizomas em 80 dias, que tendem a permanecer dormentes no solo proporcionando fluxos de emergência irregulares. Essa característica contribui para a persistência das partes vegetativas no solo por longos períodos, podendo ser encontradas a até 80cm de profundidade (Jakelaitis et al, 2003). Já a tiririca pode ter seus tubérculos encontrados


Figura 2 - Infestação de canavial com grama-seda (A) e tiririca (B)

em até 40cm de profundidade no solo. Segundo Lorenzi (1983), a intensidade na formação das cadeias de tubérculos atinge densidades de três mil tubérculos em 0,4m3 (40cm solo x 1m 2 superfície), com até duas mil manifestações epígenas na superfície (1m2). Jakelaitis et al (2003) destacaram que um único tubérculo no espaço de um ano origina uma densidade de até 700 novos tubérculos, sendo que um hectare infestado pode desenvolver até 40 toneladas de tubérculos na camada de 0cm - 15cm do solo.

PREJUÍZOS

Na cultura da cana-de-açúcar a grama-seda domina a comunidade infestante, ou seja, se transforma rapidamente na espécie dominante. Proporciona perdas na produtividade que chegam até 85%, quando não controladas adequadamente (Victoria Filho & Christoffoleti, 2004). Também reduzem o número de cortes e a vida útil do canavial (Kissmann, 1997). Os prejuízos ocasionados por essa daninha devem-se, principalmente, à sua alta capacidade de propagação, o que acaba “sufocando” a cana particularmente na sua fase juvenil, leva os perfilhos à morte e as falhas no estande do canavial tornam-se evidentes (Figura 2). Normalmente, em uma reboleira de grama-seda, a cana praticamente desaparece. Uma única planta de grama-seda pode originar uma reboleira de 25 metros de diâmetro em apenas dois anos e meio. Estima-se que um canavial com soqueira no terceiro corte e com potencial produtivo de 80t/ha produzirá apenas 45t/ha (redução de 35t/ha) se infestado com grama-seda (Canaonline, 2017). Os prejuízos, em sua maioria, são decorrentes da competição exercida pela grama-seda quanto aos recursos naturais (água, luz, nutrientes, espaço), mas deve-se também considerar sua capacidade de produção e liberação de aleloquímicos no solo, o que afeta e inibe as

brotações e causa dificuldade de crescimento na cultura (Silva et al, 2005). A grama-seda tem grande potencial de causar aumento de impurezas minerais e vegetais na indústria, dado o volume de massa vegetal formada. Também pode ser hospedeira de nematoides dos gêneros Meloidogyne e Pratylenchus, os mais danosos à cultura da cana-de-açúcar. A tiririca possui enorme capacidade de interferir no desenvolvimento das culturas, de modo que em mais de 100 países indicam-na como “praga nacional” (Kissmann, 1997). A espécie precisa da presença do sol para seu estabelecimento e tolera muito pouco o sombreamento. Devido a essa característica, sua presença nos canaviais ocorre nos primeiros meses após colheita ou plantio da cultura (máximo até 120 dias). No Brasil, a tiririca é a mais conhecida das plantas daninhas, e mais de um milhão de hectares de cana-de-açúcar apresentam infestação (Lorenzi, 1983). Os prejuízos são decorrentes, em sua maioria, pela competição da tiririca pelos recursos do meio (água, luz e nutrientes), mas também possuem potencial alelopático. Em cana-planta, as substâncias, exudadas, inibem a brotação de gemas e o perfilhamento da cana, o que resulta em estandes mais baixos. Em casos de extrema infestação, a produtividade dos colmos cai em 75%, além da redução de 65% no acumulo da sacarose (Kissmann, 1997). Pela sua enorme capacidade de multiplicação, pode formar até 40 toneladas de matéria vegetal por hectare e, ainda, ser hospedeira alternativa para fungos como Fusarium spp. e para diversas espécies de nematoides.

MANEJO COMPLEMENTAR

O principal meio de disseminação da grama-seda e da tiririca é realizado por suas partes vegetativas (estolões e tubérculos) que ficam presas nas máquinas e nos

www.revistacultivar.com.br • Maio 2018

41


Tabela 1

Figura 3

Figura 4

42

Maio 2018 • www.revistacultivar.com.br

implementos agrícolas. A medida que se utilizam os implementos (grades, subsoladores, sulcadores), os estolões da grama-seda ou os tubérculos da tiririca se desprendem e são disseminados pelo canavial. Particularmente, quanto à tiririca, a distribuição da torta de filtro (subproduto rico em fósforo), seja nas soqueiras ou nos sulcos de plantio, também é grande responsável pela dispersão dos tubérculos. É muito comum a torta de filtro estar contaminada com tubérculos de tiririca oriundos dos locais de depósito. A limpeza das partes internas dos implementos ou máquinas agrícolas é eficaz para impedir que restos vegetativos sejam levados para outros canaviais, particularmente para os que não são infestados pelas espécies. Nesse caso, o controle preventivo soma-se eficazmente ao manejo químico a ser adotado sobre grama-seda e tiririca em canaviais. O controle cultural também pode ser somado ao manejo químico de grama-seda e tiririca, plantando-se a cultura nos períodos de maior umidade (dezembro a março). Ocorre que a umidade e a temperatura do verão favorecem o crescimento da cana-de-açúcar, que ao sombrear rapidamente o solo dificulta o desenvolvimento de ambas as plantas daninhas. Salienta-se que o controle cultural colabora com o manejo das espécies, particularmente quando associado ao químico, porém, por si só não acaba em resultados de controle eficazes. Também para agregar ao manejo de tiririca e grama-seda o controle mecânico deve ser considerado. Segundo Azania (2006), implementos, geralmente usados no preparo do solo, segmentam os tubérculos e estolões, expondo-os à desidratação pelo sol na superfície do solo. Quando o preparo de solo é realizado em canaviais


Azania, Cirilo, Boneti, Ana Rosália e Bidóia abordam a problemática de grama-seda e tiririca nos canaviais

infestados por grama-seda e tiririca em períodos de menor umidade, geralmente entre março e outubro (período semisseco e seco), os resultados no controle são melhores.

HERBICIDAS RECOMENDADOS

De acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) há diferentes herbicidas para manejo químico de tiririca e grama-seda (Tabela 1), mas não são todos seletivos à cana-de-açúcar. A partir da listagem proposta o agricultor precisa identificar quais são seletivos à cana-de-açúcar e depois a época do ano em que o herbicida será usado, particularmente quanto à umidade no solo. Para o período úmido (chuvas mais regulares), usar herbicidas de baixa solubilidade (Sw), para período semisseco, seco ou semiúmido (chuvas irregulares), empregar herbicidas de solubilidade intermediária ou alta. A dose do herbicida deve ser ajustada para o tipo de solo, evitar usar as maiores doses recomendadas para solos arenosos.

MANEJO QUÍMICO PLANTIO

O manejo de grama-seda e tiririca deve ser complementado com o controle químico. Certamente, se os herbicidas forem aplicados após medidas preventivas, culturais e mecânicas, a eficácia no controle será ainda melhorada. Para cana-planta, ao final do preparo do solo, a aplicação de herbicidas em pré-plantio incorporado (PPI) ajudará a reduzir significativamente a quantidade de estolões e rizomas presentes no solo. Entretanto, melhores resultados de controle são observados quanto maior o tempo que se deixa o herbicida em contato com as partes vegetativas das espécies. Sugere-se tempo mínimo entre 20 dias e 30 dias antes do plantio da cana-de-açúcar. Após o plantio, também deve-se aplicar herbicidas preferencialmente em pré-emergência. Ocorre que com o plantio, o solo será novamente revolvido na

abertura dos sulcos e é desejável a aplicação de herbicidas específicos à grama-seda e à tiririca. Transcorridos aproximadamente 60 dias após o plantio, há necessidade de nivelar a superfície do solo da entre linha e da linha de plantio, operação chamada de “quebra lombo”. Por haver revolvimento do solo e o canavial ainda não estar totalmente fechado é sugerida também nova aplicação de herbicidas. Nesse caso, deverá ser realizada em jato semidirigido, evitando-se as folhas da cultura. Dessa forma, no período em que o canavial não proporcionou sombra o suficiente para conter o desenvolvimento das plantas daninhas, os herbicidas utilizados inibem seus fluxos de emergência (Figura 1).

MANEJO QUÍMICO SOQUEIRA

Nas soqueiras infestadas com grama-seda e tiririca, o produtor também precisa optar por um dos herbicidas da Tabela 1, de acordo com o regime pluviométrico na época da aplicação. Para infestações distribuídas uniformemente pelos talhões deve-se aplicar o herbicida em pré-emergência da planta daninha e em área total, geralmente antes da cultura ter brotado. Para infestações distribuídas em reboleiras, o controle deve ser localizado. Havendo falhas de estande, a cultura pode ser erradicada no local (reboleira), seguida de aplicação de herbicida residual. Espera-se o pousio (entre 20 dias e 30 dias até a morte da soqueira) e planta-se a reboleira com mudas pré-brotadas (MPB), complementando nova aplicação de herbicida após 40 dias e com uso de pingente (Figura 2). C

Carlos Alberto Mathias Azania Lucas Carvalho Cirilo João Eduardo Brandão Boneti Ana Rosália Calixto da Silva Chaves Vitor Simionato Bidóia Grupo de Matologia, IAC Centro Cana

www.revistacultivar.com.br • Maio 2018

43


Algodão

Considerada pouco expressiva ao longo de muito tempo, a mancha de ramulária detém atualmente o status de principal doença na cultura do algodoeiro. Com controle baseado principalmente no uso de fungicidas essa enfermidade demanda manejo correto, com o estabelecimento de programas que privilegiem mais de um modo de ação e o emprego de todos os grupos químicos disponíveis, a fim de evitar a seleção de isolados de fungos menos sensíveis ou resistentes

A

fibra do algodão é o principal produto oriundo do algodoeiro, porém os subprodutos originados do processamento (caroço, farelo, torta e casca), apresentam valor econômico e são utilizados como fonte de nutrientes para a alimentação animal (Paim et al, 2010). No Brasil, desde o ano agrícola de 2014, a área cultivada com algodoeiro ficou estagnada e em alguns momentos houve até redução. Já a expectativa para a próxima safra é de crescimento, podendo atingir a média de 15,4% a mais que a safra 2016/17 (Conab, 2017). Esse período de redução foi influenciado por diversos fatores, como o baixo preço pago pela fibra e os altos custos de produção, especialmente pela grande quantidade de uso de inseticidas e fungicidas para o controle de pragas e doenças. O atual sistema de produção do algodoeiro, na região central do Brasil, é caracterizado pelo cultivo em extensas áreas aliado à sucessão de cultura (soja e algodão). Este monocultivo pode levar ao agravamento de enfermidades antes consideradas pouco expressivas, ou determinadas doenças que sejam comuns às duas culturas, como o mofo-branco e a mancha-alvo. A mancha de ramulária, causada pelo fungo Ramularia areola, é um exemplo de doença que foi considerada pouco expressiva por vários anos e que atualmente tornou-se principal no algodoeiro. A região nordeste do Mato Grosso do Sul é responsável por uma grande parcela de produção do estado e utiliza um sistema de cultivo de rotação de culturas. Na próxima safra, aproximadamente 87% da área será semeada no mês de dezembro, favorecendo a rotação de culturas. Este é um dos principais motivos pelos quais o produtor tem conseguido conviver com algumas doenças como a mancha-alvo (Gráfico 1), ocasionando pequeno impacto econômico. As condições climáticas de baixa precipitação ocorridas nos

44

Maio 2018 • www.revistacultivar.com.br

Alfredo Riciere Dias

Mais severa


Gráfico 1 - Severidade da mancha-alvo, no tratamento sem aplicações de fungicidas, dos ensaios realizados no algodoeiro em seis safras no município de Chapadão do Sul (MS)

Gráfico 2 - Severidade da mancha de ramulária, no tratamento sem aplicações de fungicidas, dos ensaios realizados no algodoeiro em oito safras no município de Chapadão do Sul (MS)

Gráfico 3 - Eficácia de fungicidas sobre a mancha de ramulária (R. areola), no algodoeiro cultivado em Chapadão do Sul e Costa Rica – MS, desde a safra 2010/2011

Gráfico 4 - Eficácia de fungicidas sobre a mancha de ramulária (R. areola), no algodoeiro cultivado em Chapadão do Sul e Costa Rica – Mato Grosso do Sul, desde a safra 2010/2011

meses de abril e maio têm favorecido o menor apodrecimento de maçãs. No entanto, a chuva que ocorreu nestes meses desencadeou uma das mais fortes epidemias da mancha de ramulária (Gráfico 2) na região. Tal constatação foi possível através do monitoramento realizado pela Fundação Chapadão em sua área experimental. Várias doenças afetam o algodoeiro e podem ocasionar danos consideráveis à produção. Sua importância depende de cada local, sendo que algumas consideradas pouco expressivas em determinadas regiões podem reduzir significativamente a produtividade em outra região produtora. O aparecimento e o desenvolvimento de doenças são resultantes da interação entre planta suscetível, agente patogênico e fatores ambientais favoráveis. O ambiente, portanto, é um componente relevante nesta interação, podendo, inclusive, impedir a ocorrência da doença, mesmo na presença do hospedeiro e do patógeno. Os fatores ambientais podem determinar o grau de predisposição do

hospedeiro, influenciando desde o estabelecimento da doença em uma cultura até o desencadeamento de epidemia (Bergamim Filho et al, 1996). O acompanhamento e o conhecimento das doenças são imprescindíveis para qualquer cultura, sendo este o primeiro fator a ser considerado quando se pensa no controle integrado de doenças, para que a partir daí se determinem as práticas de controle adequado. As medidas de controle para a mancha de ramulária, adotadas na região dos Chapadões, assim como nas principais regiões produtoras de algodão do Brasil, são baseadas principalmente na utilização de fungicidas. Este fato se deve à ação rápida que esses produtos promovem para a supressão da doença, e se utilizados no momento correto e com rotação promovem uma boa eficiência para o controle da doença. Na busca de soluções e para melhor entender a estratégia de controle químico da mancha de ramulária na região, a Fundação Chapadão realiza diversos trabalhos a campo desde 2010. Dentre as

várias pesquisas nesta linha de controle, merece destaque o ensaio realizado a cada ano, em dois locais (Chapadão do Sul e Costa Rica, Mato Grosso do Sul), para a comparação da eficiência de fungicidas registrados, possibilitando um acompanhamento da eficácia destes produtos ao longo dos anos (Gráfico 3). Os resultados das últimas três safras acenderam uma “luz vermelha” sobre a eficácia destes fungicidas. Foi constatada uma redução de eficiência sobre a mancha de ramulária. Um exemplo reside no tratamento com tetraconazol, usado de maneira isolada, que apresentava 91% de eficácia na safra 2013/2014 e registrou redução para 23% de controle na safra 2016/2017. No entanto, quando o mesmo triazol foi utilizado em produto comercial associado a uma estrobilurina (azoxistrobina + tetraconazol), notou-se menor perda de eficácia, demonstrando melhor estabilidade ao longo dos anos em relação ao uso do triazol sozinho, conforme dados apresentados no Gráfico 3. Resultado semelhante está sendo constatado com outro triazol de formu-

www.revistacultivar.com.br • Maio 2018

45


Fotos Alfredo Riciere Dias

Gráfico 5 - Eficácia de fungicidas sobre a mancha de ramulária (R. areola), no algodoeiro cultivado em Chapadão do Sul e Costa Rica – MS, desde a safra 2010/2011

Folha de algodão com sintomas da mancha de ramulária

lação isolada, o difenoconazol, que também na safra 2013/2014 apresentava eficácia de 95% e recentemente obteve média de 61% sobre o controle da doença. Mas quando utilizado o fungicida registrado, em associação com outro grupo químico (azoxistrobina + difenocozol) novamente apresentou melhor estabilidade em sua eficácia (Gráfico 4). As carboxamidas foram recentemente introduzidas na cultura, por isso pouco se sabe sobre a questão de durabilidade dessa tecnologia ao longo dos anos. No entanto, é possível afirmar a sua importância para compor um programa de fungicidas utilizado no controle da mancha de ramulária. Na área experimental da Fundação Chapadão, este grupo de fungicidas está sendo acompanhado desde a safra 2012/13, conforme apresentado no Gráfico 5. Utilizou-se como exemplo a mistura comercial de estrobilurina e triazol (piraclostrobina + metconazol) em comparativo com estrobilurina e carboxamida (piraclostrobina + fluxapiroxade). É valido ressaltar a importância de trabalhos regionais, para avaliar individualmente os fungicidas, em aplicações sequenciais, para assim determinar a eficiência. Essas informações devem ser utilizadas na determinação de programas de controle, priorizando sempre a rotação de fungicidas com diferentes modos de ação. Sendo assim, para um programa de fungicidas na cultura do algodoeiro atualmente se faz necessário utilizar produtos comerciais que possuam dois modos de ação. Também é importante, devido ao grande número de pulverizações em função do ciclo da cultura, adotar programas com todos os grupos químicos disponíveis (triazóis, estrobilurinas, carboxamidas e multissítios), a fim de evitar a seleção de isolados de fungos menos sensíveis ou resistentes. No Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) está disponível a listagem de vários produtos químicos registrados e recomendados para a cultura do algodoeiro, com informações detalhadas sobre princípio ativo e dosagens, no endereço eletrônico http://extranet.agricultura.gov.br/agroC fit_cons/principal_agrofit_cons(AGROFIT, 2017). Alfredo Riciere Dias Nathana da Cruz Krug Suzany Santos de Moura Fundação Chapadão 46

Maio 2018 • www.revistacultivar.com.br

Área experimental de fungicidas na cultura do algodoeiro e Índice de Vegetação por Diferença Normalizada


Coluna Agronegócios

Os dois desafios da mão de obra no campo

O

primeiro desafio é quantitativo: está cada vez mais difícil encontrar cidadãos que aceitem enfrentar o repto de trabalhar no campo. Muitos dos que lá se encontram almejam migrar para as cidades. Quem já está na cidade, dificilmente retorna ao campo, mesmo em um quadro de desemprego, e não obstante ofertas de remuneração maior. O segundo desafio é o da qualidade. A acelerada evolução tecnológica do agronegócio impõe a necessidade de conhecimentos cada vez mais especializados. E a dinâmica acentuada da evolução exige permanente reciclagem. A imposição de regras de sustentabilidade para o agronegócio – seja ambiental, social ou econômica – exige uma qualificação ainda maior de quem aceita o trabalho no campo. O fenômeno não é apenas brasileiro. As estatísticas da FAO mostram que, desde 2010, há mais pessoas nas cidades que nos campos, revertendo uma condição milenar da Humanidade. E a tendência é inexorável, pois as projeções do Banco Mundial indicam que haverá 3,4 bilhões de habitantes na área rural do mundo em 2020, contra estimados 3,1 bilhões para 2050. Ou seja, 40% das pessoas viverão no campo em 2020 e apenas 32% em 2050. A redução do contingente de habitantes nas áreas rurais confere um impulso adicional à automação e à mecanização das lavouras, criando um círculo retroalimentador, em que a menor oferta de mão de obra obriga a um incremento acentuado na automação, o que, por sua vez, reduz a demanda de trabalhadores. Por outro lado, as tecnologias de automação exigem profissionais cada vez mais qualificados. Somando os dois termos da equação, temos que os salários médios no campo, para funções equivalentes, serão maiores que os da cidade, com o bônus do menor custo de habitação e alimentação no campo. A explanação teórica acima é ratificada por números da economia brasileira, como os dados da Pnad contínua do IBGE. Conforme Felippe Serigatti, economista do GV Agro que se debruçou sobre a Pnad, em 2017 a mão de obra empregada no cultivo da soja recebeu, em média, R$ 2.610,48 mensais, salário 26% maior que a remuneração média da população ocupada em todas as atividades no país, naquele ano. Obviamente, tanto em um caso quanto em outro, há uma amplitude a considerar, com os maiores salários associados com maiores exigências de formação, conhecimento, treinamento, habilidade e experiência. No caso do trabalho no campo, as tecnologias da nascente “agronomia digital” são as que exigem maior qualificação, portanto com remuneração mais elevada. Isto inclui diversos processos de agricultura de precisão, gestão de fatores de produção, levantamentos e previsões e a operação de sofisticadas máquinas agrícolas, como as modernas colhedoras, plantadoras e os autopropelidos. O economista Felippe Serigatti elaborou um estudo sobre a mão de obra no agronegócio. Ele observou que, entre 2012 e 2017, o número de empregos no agronegócio reduziu 1,9% ao ano. Pelo censo do IBGE, eram 19,7 milhões em 2012 e 18 milhões em 2017. Renato Conchon, coordenador do Núcleo de Economia da CNA, ilustra com outros números, mostrando que a parcela da mão de obra empregada no agronegócio diminuiu de 32% (2014) para 19% (2017). Especificamente

48

Maio 2018 • www.revistacultivar.com.br

na agricultura, houve uma retração de 5% ao ano nas contratações. No período 2014/17, a safra de grãos aumentou 45%, passando de 161 para 234 milhões de toneladas, de acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o que demonstra um enorme avanço na produtividade da mão de obra. Desde a década passada que a tendência de melhoria da qualificação da mão de obra era percebida no seio das cadeias do agronegócio, enquanto a informalidade reduzia-se acentuadamente. Foi o que comprovou a análise da Pnad efetuada por Serigatti, com queda de 3,4% ao ano no número de empregos informais, entre 2012 e 2017, ao passo que os empregos formais reduziram-se 1,4% a.a. Essa tendência auxiliou a consolidar a melhoria do salário médio real no período, que cresceu 7% acima da inflação, enquanto a remuneração dos empregos urbanos aumentou 4,6%. Em 2014, 33,6% dos empregados no agronegócio recebiam um salário mínimo, índice que foi reduzido para 29,8%, em 2016. No mesmo período, houve uma redução dos empregados com dois ou menos anos de estudo, passando de 34,4% para 32,3%. Os números mostram que o desemprego é, cada vez mais, um fenômeno urbano – no campo vige o fenômeno inverso, a falta de mão de obra. E a tecnificação acelerada do campo exige cada vez mais qualificação. De forma consentânea, verifica-se que o desempenho da economia do interior do País, em regiões com maior peso do agronegócio, o PIB cresceu 3,7% ao ano. No mesmo período, o crescimento do PIB das regiões metropolitanas foi de 2,5% a.a. O que reafirma outra máxima: é o agronegócio que está mantendo o Brasil à tona e foi quem evitou o naufrágio durante a profunda recessão do último triênio. As modificações no perfil da mão de obra no campo estão diretamente associadas com as exigências da sociedade moderna, emolduradas pela busca de sustentabilidade na agricultura. O atendimento às questões ambientais e trabalhistas passa a ser um pré-requisito para a produção agrícola. Em especial, persegue-se o aumento da produtividade, pela necessidade de maior eficiência econômica e pelas restrições para expansão de áreas para produção. Esse conjunto de requerimentos remete as demandas para diferentes instituições da sociedade. As lideranças do agronegócio clamam alinhamento das instituições de pesquisa e desenvolvimento com a nova realidade e a dinâmica do agronegócio, ao tempo em que, mais do que nunca, são sentidas as deficiências de instituições de assistência técnica oficiais. A evolução tecnológica exige adaptação urgente do currículo e das ementas disciplinares dos cursos de Ciências Agrárias das nossas universidades, para colocar no mercado os profissionais que são exigidos pelo novo patamar tecnológico, cujo ícone é a Agronomia Digital. A qualificação da mão de obra do campo é o fulcro da missão do Senar, de quem se espera que seja uma estaca basilar do sucesso do agronegócio. Da adequação institucional depende o equacionamento dos dois grandes desafios da mão de obra no campo, ao longo das C próximas décadas.

Decio Luiz Gazzoni, O autor é Engenheiro Agrônomo, pesquisador da Embrapa Soja


Coluna Mercado Agrícola MILHO

Safrinha terá as primeiras colheitas em maio

Os produtores do Oeste e Médio Norte do Mato Grosso devem registrar fluxo das primeiras colheitas de milho no final de maio, o que tende a pressionar a oferta do grão e dar fôlego aos consumidores, que sofrem com a pressão de alta desde fevereiro. O setor de carnes sofreu com o bloqueio das importações pela União Europeia, que colocou 20 das maiores indústrias brasileiras na lista de proibição de compra, trazendo nova pressão negativa ao segmento, que perdeu ritmo nas exportações e também sente os efeitos da calmaria na demanda interna. Haverá reflexos na produção de ração. As entidades representativas do setor apostavam em produção de 70 milhões de toneladas e crescimento de 3% neste ano, mas agora ajustam a expectativa para patamares mais singelos, o que, se confirmado, limitará as cotações do milho aos níveis de exportação nos portos (no mês de abril girava ao redor de R$ 37,00 a saca). Esse deverá ser o balizador dos negócios a partir de final de maio, quando chegará a safrinha, que sofreu um pouco com seca no Mato Grosso do Sul e no Paraná e registra perdas na produtividade destes locais. Apesar deste cenário, a estimativa é de colheita na faixa de 60 milhões de toneladas e sobras frente à demanda interna.

SOJA

Safra fechada e recorde de colheita

O mercado da soja do Brasil revê os números finais da colheita de soja, que fechou em aproximadamente 116 milhões de toneladas frente a 114 milhões de toneladas colhidas no ano passado. Foram cultivados neste ano 34,5 milhões de hectares com a oleaginosa e a expectativa é de aumento no novo plantio, que deverá ultrapassar 35 milhões de hectares. No Sul do País haverá leve avanço do milho em áreas de soja, mas isso ainda não gera grande representatividade. Contudo, há movimento de plantio de um pouco mais de milho no Sul e no Sudeste devido aos bons preços do cereal. A soja caminha para alcançar em 2019 a colheita de 120 milhões de toneladas. Até o momento, as negociações estão muito lentas e é importante que os produtores não deixem os negócios para o futuro, porque se a safra americana fluir bem, os melhores níveis para 2019 podem ser os praticados em maio e junho de 2018. Por isso é fundamental realizar a relação de troca e começar a fechar alguns volumes para garantir boa média.

FEIJÃO

O feijão crescendo via demanda

O mercado do feijão teve a sua fase de baixa encerrada em abril e agora mostra fôlego positivo. Há avanços nos indicativos, que alcançaram a faixa de R$ 140,00 a saca frente a níveis de aproxi-

madamente R$ 120,00 a saca, registrados no mês anterior. E existe espaço para esse patamar se manter firme, porque há forte demanda interna e a oferta seguirá limitada. A crise que o país atravessa, com queda do poder aquisitivo e desemprego, fortalece o apelo para aumento da demanda de alimentos básicos como arroz e feijão.

ARROZ

Colheita fechada e fôlego para crescer

A safra do arroz está colhida no Rio Grande do Sul. Foi o último dos grandes estados produtores a colher. São aproximadamente oito milhões de toneladas no estado gaúcho, 1,1 milhão de toneladas em Santa Catarina, 700 mil toneladas em Tocantins, que, somados a volumes menores de outros estados, resultam em 11 milhões de toneladas colhidas para um consumo de 12 milhões de toneladas a 12,5 milhões de toneladas neste ano. Esse cenário abre espaço para que o mercado comece a reagir já a partir de C final de maio.

Vlamir Brandalizze Twitter @brandalizzecons www.brandalizzeconsulting.com.br

Curtas e boas TRIGO - O mercado do trigo acompanha o plantio da safra brasileira, que pode ter leve avanço na área, com os produtores aproveitando para buscar crescer em função da quebra da safra dos EUA e das altas no mercado internacional, que deverão favorecer o produto nacional. Com o dólar em alta, haverá ajustes no produto nacional, já que o trigo importado tem valores de liquidação acima de R$ 750,00 por tonelada, e em alguns casos, como as importações do Canadá, até acima de R$ 800,00 por tonelada. O país terá de importar aproximadamente sete milhões de toneladas neste ano. EUA - O clima americano irá comandar o mercado de grãos nestes próximos três meses. Assim, as atenções devem se voltar para os campos norte-americanos. Por enquanto, a tendência é de clima favorável, mas há chances de temperaturas altas e de chuvas escassas em julho e agosto. É preciso acompanhar.

CHINA - A China entrou na briga comercial com os EUA e taxou a soja e o milho norte-americanos, além de inúmeros outros produtos. Isso abre espaço para outros fornecedores atenderem este mercado, que segue em crescimento. Há expectativas de que o Brasil ganhe espaço nas novas vendas aos chineses. Com recordes em soja e fôlego também em milho. ARGENTINA - A safra foi fortemente prejudicada pelo clima e assim os argentinos terão menos para exportar em 2018. Em milho havia projeção de colher 42 milhões de toneladas e os números estão fechando em menos de 32 milhões de toneladas. Esperavam 58 milhões de toneladas de soja, mas tendem a não alcançar 38 milhões de toneladas. As perdas somam 30 milhões de toneladas entre soja e milho, produtos que tinham como destino a exportação. Situação que abre espaço para novos fornecedores, o que inclui os grãos brasileiros.

www.revistacultivar.com.br • Maio 2018

49


Coluna ANPII

Graças à ciência A evolução da agricultura brasileira passa principalmente pelo trabalho de pesquisa que possibilita o emprego das tecnologias atualmente disponíveis nas lavouras

J

á vai longe o tempo em que o estereótipo do agricultor ram a seguir têm um papel de destaque na modernização brasileiro era o de Jeca Tatu, imortal criação de Monda agricultura. teiro Lobato. Outro estigma que havia sedimentado no A criação da Embrapa em 1973 representou um marco imaginário dos habitantes urbanos era de que a agricultura neste processo evolutivo. Três características a tornaram um era o atraso e a indústria era a modernidade. Talvez até tenha diferencial: uma pesquisa integrada, orgânica, abrangendo feito sentido em alguma época, mas, atualmente, quem ainda todo o País e praticamente todas as culturas; o fato de ser pensa assim está totalmente defasado da realidade. uma empresa parcialmente livre das amarras do serviço A agricultura brasileira é hoje um exemplo de geração público (poder este muito diminuído nos últimos anos) e a e aplicação das mais modernas tecnologias. Da genética à relativa blindagem contra as intromissões políticas, impenutrição, do estudo dos solos e climas ao combate de pragas dindo a nefasta influência nas nomeações e contratações. e doenças, do plantio à colheita, tudo se faz com tecnologias A criação desta entidade, com fartos recursos alocados ao que vão se aprimorando a cada dia. E de onde veio o arcalongo do tempo, resultou em muitas realizações que fazem bouço científico para toda esta evolução? a diferença na agricultura brasileira. Mereceria um longo Acostumou-se a ver que toda a evoartigo somente para listar os feitos lução científica vem de fora, dos países da Embrapa que, juntamente com os “adiantados”, de “primeiro mundo”. demais órgãos de pesquisa, mudou o O marco inicial para De fato, em algumas áreas ainda existe panorama do agronegócio brasileiro. o desenvolvimento grande dependência de conhecimentos Existem muitos estudos, mostrando de ciência e gerados fora do País. Mas se há um setor o excelente retorno dos investimentos com um índice nacional de geração de na pesquisa agrícola. Figueiredo (2008, tecnologia aplicadas ciência e de tecnologia extremamente citado por Castro, 2016) calcula uma à agricultura foi a elevado é a agricultura. Boa parte dos taxa de retorno de R$ 13,67 para cada conhecimentos atualmente aplicados real investido em pesquisa. O balanço criação da Estação na atividade rural foi de eventos gerasocial da Embrapa de 2014 estima um Agronômica de dos pela pesquisa e o desenvolvimento retorno de R$ 8,53 para cada real invesnacionais. tido (Castro, 2016). Campinas, em O marco inicial para o desenvolviNo que se refere à pesquisa em 1887, por ato do mento de ciência e tecnologia aplicadas Fixação Biológica do Nitrogênio (FBN), então imperador à agricultura foi a criação da Estação muitas entidades contribuíram para Agronômica de Campinas, em 1887, por tornar o Brasil o país líder mundial no Dom Pedro II ato do então imperador Dom Pedro II uso desta tecnologia. Começando com (Castro, C. N. (Castro, C. N. 2016), hoje Instituto Agroos trabalhos do IAC, tomando vulto nômico de Campinas. Este foi um marco com a Fepagro no Rio Grande do Sul e 2016) inicial que iria servir de exemplo para crescendo com a Embrapa, os conhecitoda a estrutura de pesquisa desenvolmentos gerados permitiram o notável vida no País. A experiência foi tão promissora, com resultados crescimento da inoculação no Brasil altamente compensadores, que o modelo foi replicado em Assim, por todo o histórico brasileiro, fica muito evidente diversas unidades da federação, com a criação de estruturas a contribuição da pesquisa para a evolução da agricultura ao de pesquisa que mais tarde viriam a ter um papel definitivo país. Sem ciência, sem desenvolvimento, o agricultor não na modernização da agricultura brasileira. teria as condições de que dispõe hoje para pôr em prática Também cabe ressaltar a atuação das universidades neste todas as tecnologias utilizadas nas lavouras. contexto de modernização. Logicamente que o papel priBibliografia citada: Castro, C.N. – Pesquisa Agropecuária mordial das universidades, enquanto escolas, é o de formar Pública Brasileira: Histórico e Perspectivas. Boletim Regional, C profissionais para suas respectivas atividades na sociedade. Urbano e Ambiental | 15 | jul.-dez. 2016 ipea Mas dentro do conceito universalista, também representam Solon Araujo, funções importantes na pesquisa e na extensão. Assim, as Consultor da ANPII diversas escolas fundadas ainda no século 19 e as que vie-

50

Maio 2018 • www.revistacultivar.com.br


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Cultivar 228 by Grupo Cultivar - Issuu