C
Cultivar Grandes Culturas • Ano XVIII • Nº 221 • Outubro 2017 • ISSN - 1516-358X
Cultivar
Destaques
Nossa capa
Pequena devastadora - 29
Como enfrentar de modo racional e sustentável o complexo mosca branca, responsável por serveros prejuízos à cultura da soja
Cecília Czepack
Índice Diretas
04
Ácaro-vermelho do cafeeiro
08
Aumento da produtividade da soja no RS 12
Inimigo vermelho - 08
O manejo correto de Oligonychus ilicis, ácaro favorecido por períodos secos, de estiagem prolongada, nos cafezais
Informe Dupont
15
Importância do Índice de Área Foliar
18
Desafios da antracnose
24
Capa - Complexo mosca branca
29
Manejo correto de percevejos
36
Plantas daninhas em cana
42
Informe - Manejo nutricional
46
Eventos - VIII Sintag
48
Tecnologia de Aplicação
50
Coluna Agronegócios
51
Coluna Mercado Agrícola
52
Coluna ANPII
54
Trio agressivo - 42
Como controlar mamona, mucuna-preta e Merremia cissoides, três plantas daninhas agressivas que afetam os canaviais
Expediente Fundadores: Milton Sousa Guerra e Newton Peter
REDAÇÃO • Editor
Gilvan Dutra Quevedo
• Redação
Rocheli Wachholz Karine Gobbi
• Design Gráfico e Diagramação
Cristiano Ceia
• Revisão
CIRCULAÇÃO
Aline Partzsch de Almeida • Coordenação Simone Lopes
COMERCIAL • Coordenação
Charles Ricardo Echer
• Vendas
Sedeli Feijó
Rithieli Barcelos José Luis Alves
• Assinaturas
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• Expedição
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Por falta de espaço não publicamos as referências bibliográficas citadas pelos autores dos artigos que integram esta edição. Os interessados podem solicitá-las à redação pelo e-mail: cultivar@grupocultivar.com Os artigos em Cultivar não representam nenhum consenso. Não esperamos que todos os leitores simpatizem ou concordem com o que encontrarem aqui. Muitos irão, fatalmente, discordar. Mas todos os colaboradores serão mantidos. Eles foram selecionados entre os melhores do país em cada área. Acreditamos que podemos fazer mais pelo entendimento dos assuntos quando expomos diferentes opiniões, para que o leitor julgue. Não aceitamos a responsabilidade por conceitos emitidos nos artigos. Aceitamos, apenas, a responsabilidade por ter dado aos autores a oportunidade de divulgar seus conhecimentos e expressar suas opiniões.
DIRETAS Participação
Jeimes Arruda
A equipe da Cibra Fertil participou do Congresso Brasileiro de Algodão, em agosto, em Maceió. "Nosso principal objetivo foi estar em contato direto com os produtores e clientes para divulgar a marca e a parceria da empresa com a cadeia produtiva do algodão", explicou o gerente de contas, Jeimes Arruda.
Lançamentos
A FMC Agricultural Solutions lançou no 11º Congresso Brasileiro do Algodão o nematicida microbiológico Presence, com registro para o tratamento de sementes e o inseticida para controle de bicudo-do-algodoeiro Nordik. “Além de proporcionar conhecimento técnico, o evento possibilita a integração de toda a cadeia do algodão, gerando resultados que fortalecem a rentabilidade de todo o setor”, destacou o diretor comercial da FMC, Marcelo Magurno.
Relacionamento
O presidente da FMC, Ronaldo Pereira, avaliou a importância do Congresso Brasileiro de Algodão para a marca. “É uma excelente oportunidade para incrementar ainda mais o relacionamento com os cotonicultores, trocar conhecimento e firmar parcerias como o projeto Sou de Algodão, que tem o objetivo de aumentar o consumo de algodão, porque acreditamos muito no agronegócio e na capacidade de nossos extraordinários clientes.”
Pesquisa
Ronaldo Pereira
Identidade
A Monsanto aproveitou o 11º Congresso Brasileiro do Algodão para apresentar sua nova identidade na cultura. “Nosso estande já foi configurado nos novos padrões de identidade visual, com infraestrutura para atender bem o público e favorecer a difusão de informações e reafirmar o nosso compromisso com o setor”, explicou o líder de Negócios em Algodão da Monsanto no Brasil, Márcio Boralli.
Márcio Boralli
04 Outubro 2017 • www.revistacultivar.com.br
A Bayer deu ênfase à importância da pesquisa durante o 50° Congresso Brasileiro de Fitopatologia, em agosto, em Uberlândia, Minas Gerais. “Há 50 anos este congresso reúne os principais nomes da pesquisa de doenças em plantas e a Bayer entende que esta é uma oportunidade de propagar nossos estudos e disseminar o conhecimento que temos como empresa de ciências da vida. Participar desta ocasião é tornar cada vez mais real a aproximação que queremos estabelecer entre academia e campo”, avaliou o diretor de Fungicidas da Bayer, Jean Zonato.
Jean Zonato
De Primeira
Marcos Dallagnese
Durante o 50° Congresso Brasileiro de Fitopatologia a Bayer fez questão destacar o programa De Primeira, Sem Dúvida. “Nossa participação no Congresso teve por objetivo gerar conhecimento e oportunidades de aprendizado. O De Primeira, Sem Dúvida é uma porta de comunicação, que possibilita visualizar os benefícios que a decisão de pulverização na hora correta poderá trazer ao produtor rural”, explicou o gerente de Fungicidas da Bayer, Marcos Dallagnese.
Equipe
A Basf esteve presente no 50º Congresso Brasileiro de Fitopatologia com o seu portfólio completo para o cultivo da soja, com destaque para o novo fungicida Versatilis. “Este fungicida possui um diferenciado mecanismo de ação e excelente performance no controle de doenças, além de oferecer facilidade e flexibilidade de aplicação nas diferentes fases da cultura da soja”, explicou o gerente sênior de Desenvolvimento de Mercado da Basf, Sérgio Zambon.
Manejo de doenças
A UPL Brasil levou ao 50º Congresso Brasileiro de Fitopatologia sua experiência no controle de doenças e manejo de resistência. “A preocupação da companhia é lançar produtos que contribuam com esse tema e fortalecer o posicionamento do fungicida multissítio Unizeb Gold”, explicou o gerente de Fungicida da UPL, Marcelo Figueira. A empresa prepara também duas novidade para a safra de soja 2017/2018, com o lançamento dos fungicidas Tridium e Trizimax, ambos em fase de registro com o foco na ferrugem-asiática.
Marcelo Figueira
Programa
Pesquisadores
Durante o Workshop Brasileiro de Ferrugem na Soja, paralelo ao Congresso Brasileiro de Fitopatologia, em agosto, em Uberlândia, Minas Gerais, palestraram o especialista em Manejo de Resistência da Basf, Gerd Stammler, e a Chairwoman of Global Frac SDHI Group, Kristin Klappach.
Durante o 50º Congresso Brasileiro de Fitopatologia a Syngenta destacou o Programa Manejo Consciente. O gerente de Marketing de Fungicida, Rafael Pereira Oliveira, enfatizou que a empresa tem o objetivo de disseminar as melhores práticas agrícolas de forma efetiva, com o apoio de técnicos, pesquisadores e demais entidades do agronegócio. Por meio de treinamentos, workshops e outras iniciativas o Programa prevê o compartilhamento de informações sobre o comportamento dos fungos, a evolução das doenças, os diversos fatores que podem causar resistência e perdas, tanto para a produtividade da soja quanto para o ambiente.
Cultivares
Painel
A FMC esteve presente no 50º Congresso Brasileiro de Fitopatologia. A equipe técnica da companhia apresentou aos participantes um painel de soluções para o manejo de doenças nas diversas culturas, com destaque para os fungicidas Locker, Battle e Authority. “Esse é o principal evento de fitopatologia do País e é uma excelente oportunidade para estreitar ainda mais nosso relacionamento com pesquisadores, produtores e estudantes”, comentou o gerente de Marketing da FMC, Vinícios Faria.
A TMG lançou a cultivar TMG44B2RF no 11º Congresso Brasileiro do Algodão. Qualidade de pluma, alto rendimento e resistência a doenças como a ramulária são algumas das características da variedade transgênica, com tecnologia Bolgard II RR Flex da Monsanto, que estará disponível para os cotonicultores na safra 2017/18. No evento, o público pôde conhecer suas características, com assessoria de técnicos e executivos da empresa. "Esta é a vantagem de estar presente em um acontecimento que reúne toda a cadeia produtiva. Podemos divulgar intensamente e de forma personalizada os nossos produtos para um público estratégico para os nossos negócios", avaliou o diretor-presidente da TMG, Francisco José Soares Neto.
www.revistacultivar.com.br • Outubro 2017
05
Fibra
Novos rumos
O 11º Congresso Brasileiro do Algodão contou com a presença da Bayer com o tema “A Fibra Mais Rentável do Mercado”. O diretor executivo de Negócios, Cassio Greghi, ressaltou a importância dessa troca de conhecimentos por meio de palestras e minicursos, além de reforçar a campanha Sou de Algodão, cujo objetivo é fomentar a qualidade e a importância do produto brasileiro.
Cassio Greghi
Sementes tratadas
A UPL apresentou o inseticida Start para tratamento de sementes, durante o 11º Congresso Brasileiro de Algodão. “A cada dia estamos ampliando o portfólio em algodão e aproveitamos o evento para mostrar nosso primeiro lançamento em tratamento de sementes na cultura”, comemorou o gerente de Tratamento de Sementes da UPL, Wagner Seara. O produto se destina ao controle das principais pragas de solo.
Wagner Seara
Fernando Arantes, com larga experiência no mercado, é o mais novo integrante do time da UPL, na gerência de Marketing Portfólio Inseticidas. Durante o 11º Congresso Brasileiro, Arantes destacou o inseticida Sperto, que controla importantes pragas, além de agir sobre ácaros e possuir grande seletividade a inimigos naturais. “O Sperto é uma combinação única de dois ingredientes ativos, que juntos proporcionam excelente controle sobre insetos em vários cultivos. Nas culturas de soja, milho e algodão o produto completa o portfólio de inseticidas da UPL, que já conta com Perito, que é um grande sucesso entre os agricultores”, opinou Arantes
Novos posicionamentos
Tecnologia
A Dow AgroSciences levou ao 11º Congresso Brasileiro de Algodão a tecnologia Exalt, que recebeu recentemente o registro para ser utilizada no combate a pragas que afetam a contonicultura. “O Exalt chega às plantações de algodão para combater a lagarta Helicoverpa armigera. Isso significa que os cotonicultores passam a contar com uma tecnologia que elimina pragas com muito mais eficiência e rapidez”, opinou o Desenvolvimento de Mercado da Dow AgroSciences Brasil, Ednaldo Marinho.
Fernando Arantes
Wagner Janjacomo
Com três novos posicionamentos a Syngenta participou de mais uma edição do Congresso Brasileiro do Algodão. As novidades apresentadas ao público incluem tratamento de sementes completo para a cultura do algodão (Fortenza Duo), duas opções voltadas para o controle do bicudo-do-algodoeiro (Polytrin), e o Programa Cotton Solution focado no controle de doenças. "O Congresso reúne a maioria dos produtores de algodão e a cadeia de influenciadores do setor no País. É a oportunidade de demostrarmos todas as tecnologias que oferecemos a nossos clientes e parceiros de negócios do setor da cotonicultura", avaliou o gerente de cultura da Syngenta, Wagner Janjacomo.
Controle fitossanitário
Ednaldo Marinho
Comunicação
A agência Projeta Propaganda, localizada em Sorocaba, São Paulo, lança sua campanha “Comunicação que Completa” e reforça o quanto a publicidade e a propaganda são ferramentas importantes na estratégia para um bom resultado no agronegócio. A empresa está há mais de 18 anos no mercado Agro, com oferta de trabalhos on e off-line para empresas do segmento.
06 Outubro 2017 • www.revistacultivar.com.br
A Basf levou ao 11º Congresso Brasileiro do Algodão sua oferta completa para o controle fitossanitário na cultura. Durante os quatro dias de evento, pesquisadores estiveram à disposição dos visitantes no estande da empresa, com dicas de manejo para produção sustentável. “A Basf oferece ao produtor um portfólio completo, com reguladores de crescimento, inseticidas, fungicidas, herbicidas e soluções para o tratamento de sementes no cultivo de algodão. Nossa oferta é focada em uma maior produtividade e rentabilidade para as lavouras de algodão, por meio de produtos e serviços de alto desempenho e qualidade”, destacou o gerente de Cultivo de Algodão da Basf, Luiz Fernando Straioto.
Luiz Fernando Straioto
Fotos Epamig Sul – EcoCentro, Lavras, MG
Café
Inimigo vermelho
De tamanho diminuto e de difícil visualização a olho nu, o ácaro Oligonychus ilicis é uma das pragas que limitam a cultura do cafeeiro. Favorecido por períodos secos, de estiagem prolongada, não costuma demandar medidas de controle em épocas de chuvas intensas e constantes. Contudo, quando necessário o uso de produtos químicos, deve ser realizado através de pulverizações com defensivos específicos ou inseticidas-acaricidas, seletivos aos inimigos naturais
O
ácaro-vermelho do cafeeiro (Oligonychus ilicis) foi descrito pela primeira vez na Carolina do Sul (EUA), em azevim ou azevinho americano (Ilex opaca, Ait.) em 1917. Posteriormente foi encontrado atacando plátano. É considerado praga de coníferas, azaleia, camélia e nogueira (EUA), chá, arroz, loureiro e azevinho (Japão), cafeeiro (Brasil), entre muitas outras culturas. Sua origem é provavelmente a região extremo Leste dos EUA. No Brasil, a primeira referência ao ataque de ácaro-vermelho em cafeeiro (Coffea arabica L.), ocorreu no estado de São Paulo em 1950, juntamente com o ácaro da mancha-anular (Brevipalpus phoenicis (Gei-
jskes, 1939) (Acari: Tenuipalpidae)). Foi considerado, em 1985, como a segunda praga em importância para o cafeeiro Conillon (Coffea canephora Pierre & Froehner) no estado do Espírito Santo. O cafeeiro Conillon tem se mostrado mais sensível ao ácaro do que o Arábica, à semelhança de sua maior suscetibilidade também para a broca-do-café (Hypothenemus hampei (Ferrari, 1867) (Coleoptera: Scolytidae)). Vive na face superior das folhas, que atacadas apresentam-se recobertas por uma delicada teia, tecida pelos próprios ácaros, onde aderem detritos e poeira, dando às folhas um aspecto de sujeira (Figura 1). Podem ser observados facilmente com o
08 Outubro 2017 • www.revistacultivar.com.br
auxílio de uma lente com aumento de dez vezes, ou mesmo a olho nu. Para se alimentar, na página superior das folhas, perfuram as células e absorvem parte do conteúdo celular que extravasa. Em consequência, as folhas perdem o brilho natural, tornam-se bronzeadas, dando um péssimo aspecto às plantas (Figura 1). O ataque ocorre geralmente em reboleiras e se as condições forem favoráveis ao ácaro e o controle não realizado no início da infestação, poderá atingir toda a lavoura.
DESCRIÇÃO E ASPECTOS BIOLÓGICOS
Os ovos são de formato arredondado quando vistos de cima, de coloração vermelho-escuro a rósea,
Figura 1 - Folhas de cafeeiro com sintomas de ataque do ácaro-vermelho do cafeeiro (Oligonychus ilicis (McGregor, 1917)) em Lavras (MG)
brilhantes, com um filamento saindo da parte superior e quase invisíveis a olho nu (Figura 2). Medem em média 0,13mm de diâmetro por 0,10mm de altura. As fêmeas os colocam próximos às nervuras (Figura 2, à direita), na página superior da folha, e o período de incubação é de seis dias e dez dias dependendo da temperatura, sendo mais rápida em temperaturas mais altas. As larvas recém-eclodidas apresentam coloração rósea, são piriformes, hexápodes (três pares de pernas) e locomovem-se com dificuldade. A fase de larva tem duração média de 1,6 dia. Nos estágios que sucedem o de larva, até atingir a fase adulta, o ácaro recebe a denominação de ninfa. Antes de cada fase ninfal passam por um estádio quiescente (‘crisálida’), inativo e sem atividade ou movimentação. No estágio de ninfa o ácaro sempre apresenta quatro pares de pernas (octópodes). Como protoninfa (1ª fase ninfal), o ácaro vive cerca de 1,2 dia. O estágio de deutoninfa (2ª fase ninfal) dura também 1,2 dia. Após sua fase quiescente, ocorre a eclosão dos adultos. Todos os estágios entre ovo e adulto apresentam durações semelhantes tanto para machos como para fêmeas. O ciclo de ovo a adulto dura entre dez dias e 30 dias (11,7 dias em média), sem apresentar diferença relevante entre machos e fêmeas. Essa
variação também é uma função da temperatura (quanto maior, menor a duração do ciclo). Os machos são mais ativos que as fêmeas, andam rapidamente pela folha, pouco se alimentando. Sua diferenciação com a fêmea é notada na forma e no tamanho do corpo. O macho é menor que a fêmea, com um idiossoma (corpo) menos volumoso, afilando acentuadamente para a parte posterior, dando-lhe um aspecto cuneiforme e aparentando ter pernas mais longas (Figura 3). A fêmea é de formato quase oval, idiossoma volumoso e coloração vermelha no terço anterior e pardo-escuro nos dois terços posteriores, onde podem ocorrer duas manchas escuras, porém sendo bastante semelhante ao macho. As fêmeas medem 0,37mm de comprimento
por 0,24mm de largura. Apresentam maior longevidade que os machos, e as acasaladas apresentam menor longevidade que as não acasaladas, sendo o inverso verificado para os machos. Fêmeas acasaladas colocam em média 2,9 ovos/dia e as não acasaladas, 1,6 ovo. Embora ocorra a reprodução sexuada, o principal tipo de reprodução de O. ilicis é a assexuada do tipo partenogênese, podendo ocorrer a partenogênese arrenótoca (descendência das fêmeas não acasaladas é constituída apenas de machos) e mais comumente a partenogênese telítoca (descendência das fêmeas não acasaladas é constituída de fêmeas). A proporção sexual é em média de 9,6 fêmeas para um macho, razão pela qual a predominância de fêmeas em cafeeiros é acentuada.
Figura 2 - Ovos do ácaro-vermelho (Oligonychus ilicis (McGregor, 1917)) sobre folhas de cafeeiro em Lavras (MG)
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Fotos Epamig Sul – EcoCentro, Lavras, MG
Figura 3 - Adultos do ácaro-vermelho do cafeeiro (Oligonychus ilicis (McGregor, 1917)) em Lavras (MG)
A população de O. ilicis é estimada em aumentar cerca de 20 vezes no período médio de duração de uma geração, que gira em torno de 20 dias. A população do ácaro cresce 1,2 vez por dia e dobra a cada 4,8 dias. Sua dispersão é realizada principalmente pelo vento, através do ácaro pendurado em fio de seda, processo conhecido como balonismo (aerostação).
DANO
Embora os danos ainda não te-
nham sido quantificados, em consequência do ataque ocorre redução da área de fotossíntese das folhas em virtude da destruição de células do mesófilo foliar, resultando em prejuízo ao desenvolvimento das plantas e redução da produção de café. Períodos de seca, com estiagem prolongada, são condições propícias ao desenvolvimento do ácaro. Quando ocorrem, os ataques mais intensos são observados no período seco, com temperatura não muito
baixa (Figura 5), podendo causar desfolha das plantas, sendo que lavouras novas, em formação, têm seu desenvolvimento retardado. Devido à localização da maioria dos ácaros desta espécie se dar na superfície superior das folhas, chuvas intensas e constantes podem exercer um controle físico, reduzindo sua população, e propiciando às plantas condições de vegetação e recuperação, não sendo necessária a utilização de nenhuma outra medida de controle.
MANEJO
Figura 4 - Ácaro fitoseídeo (Iphiseiodes zuluagai) predando o ácaro-vermelho (Oligonychus ilicis)
10 Outubro 2017 • www.revistacultivar.com.br
Períodos de chuvas intensas e constantes exercem controle físico, reduzindo sua população, e propiciando às plantas condições de vegetação e recuperação, não sendo necessária a utilização de nenhuma outra medida de controle. Em condições normais de clima e manejo da cultura do cafeeiro, o ácaro-vermelho se encontra em equilíbrio devido à presença de agentes de controle biológico. Entre os principais inimigos naturais do ácaro estão os coleópteros do gênero Sthetorus (minúsculas joaninhas de coloração escura), larvas de crisopídeos e principalmente os ácaros fitoseídeos (predadores pertencentes à família Phytoseiidae) (Figura 4), abundantes em cafeeiros. O controle químico, se necessário, deve ser realizado através de pulverizações de acaricidas específicos ou inseticidas-acaricidas, de preferência seletivos aos inimigos naturais, em especial aos ácaros fitoseídeos, no sentido de conservar
e mesmo propiciar aumento de suas populações na lavoura. O controle deve ser direcionado às plantas das reboleiras atacadas, com sintomas do ataque do ácaro (bronzeamento das folhas), abrangendo também uma faixa ao seu redor. As demais plantas livres de ataque não devem ser pulverizadas, para melhor preservação dos inimigos naturais no cafezal e menor custo de controle. Alguns produtos empregados no controle do bicho-mineiro, Leucoptera coffeella (Guérin-Mèneville & Perrottet, 1842) (Lepidoptera: Lyonetiidae), que também ocorre em períodos de seca prolongada, podem exercer controle do ácaro e neste caso sua infestação passar despercebida. O uso em excesso de fungicidas cúpricos para o controle da ferrugem-do-cafeeiro, Hemileia vastatrix (Berket Br.), e de alguns piretroides (principalmente os primeiros sintetizados e lançados no mercado) utilizados no controle do bicho-mineiro, também tem causado
Figura 5 - Flutuação populacional do ácaro-vermelho do cafeeiro (Oligonychus ilicis (McGregor, 1917)) em cafeeiro orgânico, cultivar Catucaí amarelo, em Santo Antônio do Amparo (MG). 2004 a 2007. Fonte: Epamig Sul – EcoCentro, Lavras (MG)
acentuado aumento no número de ácaro-vermelho em plantas de cafeeiro, causando ressurgência. A ressurgência é um aumento do número de ácaros causado pela melhoria nas condições fisiológicas da planta provocadas pelo produto (trofobiose) ou pelo estímulo direto na reprodução do ácaro por dosagens subletais do produto (hormoligose) (o cobre aumenta a média de ovos/fêmea/dia no pico de postura). Suspeita-se que
os neonicotinoides também podem causar ressurgência, entretanto há necessidade de mais estudos em relação a esta hipótese. Os casos mais conhecidos de ressurgência são especialmentede espécies de ácaros pertencentes Mauricio Sergio Zacarias, à mesma família Embrapa Café do ácaro-vermelho C (família Tetranychidae). Nathan Jhon Silva Lopes, Universidade Federal de Lavras Mauricio Sergio Zacarias, Embrapa Café Nathan Jhon Silva Lopes Universidade Federal de Lavras
Soja
Soma de fatores
Paulo Lanzetta
Apesar de indiscutível que novas variedades tenham contribuído para os ganhos de produtividade da soja no Rio Grande do Sul, aspectos de manejo como época de semeadura, arranjo de plantas adequado, adubação, melhores defensivos, técnicas de irrigação, drenagem e efetiva adoção de tecnologias por parte dos produtores estão entre os pilares do incremento produtivo
S
em sombra de dúvidas, a produtividade média de soja no Rio Grande do Sul teve significativo aumento nos últimos 40 anos. Importantes mudanças nos padrões e sistemas de cultivo e no manejo da adubação proporcionaram ambiente mais adequado ao desenvolvimento da cultura. Isso, associado à oferta de genótipos de soja mais adaptados e responsivos aos fatores de produção, com maior resistência a pragas e doenças, elevou a produtividade média da cultura, que era de 1.000kg/ha a 1.600kg/ha no final dos anos 1970, para 2.300kg/ha a 3.000kg/ha nos últimos anos (safras 2013/14 – 2016/17);
ou seja, a produtividade média da soja no Rio Grande do Sul praticamente dobrou nos últimos 40 anos (Figura 1; série histórica da Conab). A valorização da soja e a percepção dos benefícios da rotação de culturas têm cada vez mais promovido o avanço dessa cultura. Se o mercado da soja despontou, também o de sementes e de matérias-primas para sua produção foi ampliado, criando espaços para que diversas empresas de melhoramento genético e insumos se desenvolvessem, ofertando, a cada ano, uma gama de novas variedades de soja e novos produtos. Insumos esses que, nas últimas safras, representaram parte importante
12 Outubro 2017 • www.revistacultivar.com.br
do custo de produção de soja, principalmente no que diz respeito aos fertilizantes. Entre os custos relacionados ao processo produtivo da soja, o custo variável (que inclui sementes, fertilizantes e pesticidas, entre outros), partiu de valores inferiores a R$ 20,00 por saca de 60kg na safra 2007/08, para mais de R$ 40,00 por saca de 60kg, na safra 2015/16 (Conab, 2016). Sem se detalhar o aumento de custos, fica evidente que o produtor rural tem maior necessidade de investir em tecnologias que efetivamente o ajudem a produzir mais – ou a manter a estabilidade produtiva, para continuar economicamente viável
na atividade de cultivo de soja. O maior apelo comercial para adoção de novas tecnologias, que é o foco de numerosos eventos técnicos, como dias de campo, se dá no incentivo ao produtor para que adote novos genótipos de soja a cada safra. Se for comparado o potencial produtivo de variedades com 40 anos de idade em campos experimentais com os níveis médios atuais de produtividade em lavouras comerciais, é possível observar que essas variedades, consideradas arcaicas para os padrões atuais, como a linhagem Pel_71017, apresentavam níveis potenciais de produtividade semelhantes às atuais (Vernetti et al, 1986). Na Figura 1 observa se que o potencial de produtividade mínimo esperado para a linhagem Pel_71017 nos anos 1970, em condições edafoclimáticas e de manejo adequadas, era de 2.500kg/ ha em anos com condições ambientais favoráveis (extremidade esquerda da linha azul, na Figura 1), como se supõe que tenha sido o caso da safra 1975/76. Comparativamente, os níveis médios de produtividade de soja no Rio Grande do Sul só atingiram patamares equivalentes a esse na safra 2009/10 (extremidade direita da linha azul, na Figura 1). Os ganhos de produtividade de soja nos últimos 40 anos parecem ser mais atribuídos aos ajustes no manejo (época de semeadura e arranjo de plantas adequados, adubação refinada, melhores pesticidas, técnicas de irrigação e drenagem) e à efetiva adoção das tecnologias disponíveis por maior parte dos produtores, do que a incrementos no potencial genético de variedades. É indiscutível, no entanto, que as novas variedades tenham contribuído para os ganhos de produtividade apresentados na Figura 1. Dall’Agnol (2015) esclarece os motivos que provavelmente fizeram com que variedades antigas tenham sido retiradas do mercado: problemas para além da produtividade, como tolerância deficiente às pragas da época e a outros fatores de estresses bióticos ou abióticos. Na agricultura contemporânea, no entanto, há que se estudar se as dezenas de novas variedades oferecidas a cada safra não contemplam principalmente aspectos de competição
mercadológica. Às vezes, o produtor terá mais vantagem ao manter a variedade mais adaptada ao seu microclima, cujos manejo, deficiências e vantagens já lhe são familiares. Na Figura 1, pode-se observar que a produtividade média de soja no Rio Grande do Sul não aumenta efetivamente desde a safra 2009/10 (extremidades da linha preta, Figura 1), porém a taxa de aumento na média de produtividade do estado parece ser um pouco maior a partir da safra 2003/04. Alguns alegam que a taxa de aumento de produtividade é contínua e gira em torno de 96kg/ha/ano nos últimos dez anos no Rio Grande do Sul. Essa afirmação, embora correta, baseia-se em um aumento linear teórico e desconsidera o intervalo de confiança dos dados anuais – somente os valores observados. Assim, no atual patamar de inovações, e considerando-se intervalo de confiança de 95%, uma possível substituição de cultivar comprovadamente adaptada às condições do produtor poderia ser reavaliada a cada período de aproximadamente cinco anos; os ajustes no manejo da lavoura, no entanto, devem ser constantes, pois são os grandes responsáveis pelos ganhos de produtividade. Aplicando se a tradicional “Lei dos Mínimos”, não adianta investir alto em um determinado fator (como nível de adubação, por exemplo), se algum outro aspecto (aeração do solo, por exemplo) não propiciar condições para aproveitamento dos demais.
Adaptação às áreas de arroz irrigado O alto valor da soja, associado à possibilidade de utilizá la em rotação ao arroz irrigado para facilitar o manejo de plantas daninhas, como o arroz vermelho e o capim arroz, faz com que essa cultura seja cada vez mais implantada nas áreas de terras baixas, um ambiente adequado ao arroz, mas nem tanto à soja. Para implantação da cultura nesse ambiente, segue se extenso e importante trabalho de adaptabilidade de variedades. A euforia do produtor com a cultura da soja é perceptível e uma análise crítica retrata fragilidades, como a perda da área de outras culturas e pastagens, bem como a ocupação de áreas inadequadas para cultivos anuais. Muitas das variedades usadas são pouco tolerantes ao encharcamento do solo, muito dependentes de insumos externos e carecem de informações sobre o desempenho nos distintos tipos de solo, e sobre a resposta a algumas pragas de ocorrência regional e nacional. Há demanda por avaliações regionais isentas de interesse comercial, com o objetivo de subsidiar os produtores. É primordial, ainda, na racionalização de custos e riscos, identificar genótipos com tolerância a fatores restritivos bióticos, como insetos e doenças, e abióticos, principalmente o encharcamento e a compactação. Nessa fase inicial da adaptação da soja às terras baixas, supõe se que cada nova variedade deva ser avaliada em intervalos mais curtos, sempre com testes em menores talhões da propriedade, de
Figura 1 - Evolução da produtividade média da soja no estado do Rio Grande do Sul, entre as safras 1976/77 e 2016/17
Linhas com pontos: produtividades/médias do ano; Linhas suavizadas: regressões quadráticas, método Loess; Região colorida: intervalo de confiança da média a 95%; Fonte: médias históricas: Conab (diversos documentos); linhagem Pel_71017: Vernetti et al (1986).
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Fotos Ana Viégas
A produtividade média de soja no RS teve significativo aumento nos últimos 40 anos
forma a avaliar se é inferior, equivalente ou superior à principal variedade cultivada na propriedade. A troca só é válida se a nova cultivar for superior à atual, ou então se apresentar algum tipo de facilidade no manejo (como tolerância a herbicidas), ou maior resistência a pragas e doenças. Salienta se, no entanto, a importância dos ajustes no manejo para que a soja seja viável em terras baixas, especialmente relacionados à física do solo e à adaptação ao estresse hídrico. Diversas empresas privadas e públicas, como, por exemplo a Embrapa, trabalham para oferecer aos produtores de soja do Rio Grande do Sul genótipos de soja mais tolerantes ao encharcamento. Os sojicultores, no entanto, não devem esperar que as novas cultivares de soja que serão indicadas para essas condições sejam “imunes” ao excesso hídrico. A cultura que suporta excesso de água é o arroz. Para se obter altas produtividades com soja, além das variedades adaptadas às áreas de arroz, o produtor terá que adotar tecnologias que condicionem maior tolerância aos estresses hídricos. A resistência em adotar novas tecnologias historicamente tem limitado a taxa de aumento da produtividade da soja no estado gaúcho, como demonstrado na Figura 1. O aprimoramento das novas tecnologias vem ocorrendo a cada ano,
mas nem sempre recebem o mesmo destaque, comparando-se à oferta de novas variedades. Assim, técnicas de cultivo como os microcamalhões, por exemplo, embora desacreditados por alguns produtores e não recomendados por alguns técnicos, podem ser uma das chaves para produtividades altas e consistentes. A adoção de toda nova tecnologia sistematicamente sofre resistência por grande parte dos produtores e técnicos, mas deve se evitar a conduta de desconsiderar tecnologias sem antes testá-las. De fato, grande parte das maiores e mais consistentes produtividades de soja em terras baixas é obtida em cultivos sobre microcamalhões, ou com tecnologias como sistematização e drenagem adequados. Além disso, as áreas de arroz muitas vezes não estão adequadamente corrigidas para a implantação da soja. Por exemplo, a calagem não é importante para a cultura do arroz, porque a simples presença da lâmina d’água durante o cultivo tende a neutralizar a acidez do solo e aumentar a oferta de nutrientes, mas isso não ocorre na mesma área durante o cultivo da soja. Para garantir a produtividade da soja em áreas de arroz, também recomenda-se atenção ao correto manejo de pragas, doenças e plantas daninhas – muitas espécies invasoras companheiras do cultivo do arroz, portanto com alta frequência de ocorrência, são infestantes importantes na soja. Salienta se que a introdução da soja em áreas de arroz
14 Outubro 2017 • www.revistacultivar.com.br
acaba por criar um sistema de produção bastante simples e moderadamente frágil, embora essa associação apresente vantagens, como a possibilidade do manejo das plantas daninhas da área durante o cultivo da soja. Outro grande inimigo da produtividade da soja, em áreas de arroz, é a exigência por alto rendimento operacional no plantio e em tratos culturais. As terras baixas apresentam algumas características físicas desfavoráveis ao uso intensivo, portanto as operações devem ser realizadas considerando-se a efetividade da prática cultural. A velocidade excessiva da plantadeira pode ocasionar inadequado fechamento da linha de plantio, expondo as sementes a agentes bióticos e abióticos. Por fim, além do manejo e genótipo adequados, as condições edafoclimáticas locais podem limitar o teto de produtividade para a região, e nesse caso investimentos no cultivo com expectativa de produtividade além do teto teórico podem, no curto prazo, significar desperdício de recursos, por não haver a esperada resposta em produtividade. Nesse contexto, intensidade e duração da radiação solar, altas temperaturas noturnas e profundidade do perfil do solo, dentre outros, são fatores preponderantes para C a produtividade da cultura. Germani Concenço, Lilia Sichmann He. Del Aguila e Francisco de Jesus V. Júnior, Embrapa Clima Temperado
Vernetti e Lilia abordam os aspectos que influenciaram o aumento da produtividade da soja no Rio Grande do Sul
Informe
Fabio Lima Santos
Foco nas flores O florescimento da soja com tecnologia Bt é um dos momentos mais sensíveis da cultura, por conta da menor expressão da proteína inseticida nas plantas nesse período, o que aumenta os riscos de danos às estruturas reprodutivas. Por isso a importância de que métodos de manejo de insetos-praga sejam direcionados a essa fase
A
cultura da soja apresenta várias espécies de insetos-praga que podem danificá-la, alimentando-se de suas raízes e folhas. Danos nestas estruturas podem, indiretamente, diminuir a produtividade da cultura, uma vez que é possível prejudicar o seu estabelecimento, principalmente quando a infestação ocorre em plântulas, podendo haver uma redução do estande, além de prejudicar de certa forma o desenvolvimento das plantas. Entretanto, perdas mais expressivas ocorrem quando os danos causados por aqueles insetos acontecem em estruturas reprodutivas, como flores, vagens e grãos. Considerando que estes últimos são as estruturas comerciais da cultura da soja, os danos nas estruturas reprodutivas provocam perdas diretas à
produção. Assim, a fase reprodutiva da cultura também merece grande atenção por parte do produtor. A tecnologia da soja Bt (Intacta®) apresenta excelente controle para um grande número de espécies de insetos-praga (Anticarsia gemmatalis – lagarta-da-soja, Chrysodeixis includens – lagarta-falsa-medideira, Helicoverpa armigera – lagarta-Helicoverpa, entre outras) durante todo o ciclo da cultura, devido à expressão de uma proteína de efeito inseticida (Cry1Ac). Apesar desta proteção conferida pela tecnologia Bt, cada fase da cultura da soja merece especial atenção devido ao potencial dos danos provocados pelas pragas. A fase de florescimento da soja com esta tecnologia é um momento mais delicado, pois há uma menor expressão da proteína
inseticida nas plantas, podendo deixar um espaço de tempo para que as novas oviposições de diferentes espécies de insetos-praga e larvas eclodidas durante esta fase da cultura possam danificar as estruturas reprodutivas. Como toda nova tecnologia, estudos devem ser realizados para comprovar a sua eficiência, bem como do melhor manejo a ser adotado para cada tecnologia. Neste sentido, estudos vêm mostrando que a proteção das estruturas reprodutivas da soja com tecnologia Bt, bem como da soja convencional, contra insetos-praga, é fundamental para garantir uma produtividade satisfatória. As flores da soja são as estruturas reprodutivas mais sensíveis ao ataque de insetos, com destaque para as lagartas, que são comumente encontradas nas lavouras,
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Fotos Fabio Lima Santos
As flores da soja são as estruturas reprodutivas mais sensíveis ao ataque de insetos, com destaque para as lagartas
como as do gênero Spodoptera (S. frugiperda, S. cosmioides e S. eridania), que não são controladas pela soja Bt, e a lagarta-Helicoverpa (H. armigera), que apesar de ser controlada pela tecnologia, apresenta um alto potencial de dano e hábito de se alimentar vorazmente das estruturas reprodutivas. É importante ressaltar que danos durante a fase de florescimento (estádio fenológico de R1 e R2), principalmente aqueles danos diretos nas flores, impactam significativamente na produção final da cultura. Indivíduos de ínstares iniciais se adentram na flor e se alimentam de estruturas internas, como o ovário, inviabilizando a formação da vagem. Ínstares mais avançados costumam consumir a flor por completo. Na soja com tecnologia Bt, H. armigera é suprimida, mas este fato não impede que a lagarta consiga causar alguns danos nas flores, pois as lagartas podem demorar até cinco dias para morrer com a tecnologia Bt. Já as lagartas Spodopteras, que não são controladas pela tecnologia, são mais propensas a atacar as flores. A soja atacada durante esta fase teria um período de recuperação menor do que se ela fosse atacada previamente. A perda de flores pela planta pode promover um processo de compensação, fazendo com que tente se recuperar do ataque
com a emissão de novos botões florais, utilizando assim mais de seus recursos energéticos para este fim. Considerando o menor tempo até a maturação e a colheita, a consequência seria em perda de quantidade e qualidade de grãos. Não obstante, vagens em formação (estádios fenológicos R3 e R4) também são suscetíveis ao ataque das lagartas-praga. Em vagens de soja Bt, a H. armigera, em geral, não tem apresentado potencial de dano; porém, é bastante agressiva em vagens da soja convencional. As Spodopteras, ao contrário, apresentam maior potencial de prejudicar as estruturas na soja Bt. Lagartas de ínsta-
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res iniciais já são capazes de causar dano nestas estruturas, mas, diferentemente das flores, nem todos os indivíduos conseguem causar um dano significativo, indicando que a vagem é uma estrutura mais resistente que as flores. Já lagartas de ínstares mais avançados são capazes de consumir vagens em formação e em estádio de granação (estádio fenológico R5), sendo que algumas vezes esses insetos podem penetrar nas vagens e consumir os grãos em formação internamente. A habilidade de compensação da soja nestes estádios se torna menos eficiente, principalmente quando a soja tem hábito de crescimento determinado. A consequência do ataque nestas estruturas é, novamente, perda direta de produtividade. Desta forma, é importante que os métodos de manejo de insetos-praga que apresentem hábito de consumo de estruturas reprodutivas sejam direcionados ao início do florescimento, pela menor expressão da proteína da soja BT nesta fase da cultura, bem como pela maior suscetibilidade da cultura ao ataque de lagartas, quando as perdas de estruturas reprodutivas (flores e vagens) afetam diretamente a produtividade. Assim, perdas de maiores proporções C são evitadas. João Paulo Ziotti Narita e Fábio Maximiano de A. Silva, Engenheiros Agrônomos/DuPont™
Danos durante a fase de florescimento impactam duramente a produção final da cultura
Soja
Foco nas folhas
Fotos Fundação Chapadão
O conhecimento sobre o Índice de Área Foliar (IAF) cada vez ganha maior importância na busca pelo aumento de produtividade e das melhores práticas de manejo de pragas e doenças na cultura da soja. Seus reflexos são distintos em cultivares de hábito de crescimento determinado e indeterminado
U
m dos pilares para a garantia de altas produtividades na cultura da soja [Glycinemax (L.) Merrill] é a otimização da capacidade da planta em interceptar a radiação solar, processo pelo qual a planta converte fotossíntese em acúmulo de massa de matéria seca (Heiffig et al, 2006). Segundo Thomé (1985), aproximadamente 90% a 95% do total de massa de matéria seca das plantas consiste em
compostos carbonados provenientes da fotossíntese. Este aspecto de enorme importância para os vegetais pode ser limitado por vários fatores, por exemplo, a luz disponível. A radiação solar incidente em uma área tem a capacidade de influenciar diretamente no rendimento produtivo das culturas. O índice de área foliar (IAF) é a relação entre a área da folhagem da planta e a superfície do solo que ocupa, sendo variável
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entre as espécies vegetais e seus diferentes genótipos (Müller, 1981). O valor de IAF também muda em função da fertilidade do solo, da cultivar, da população utilizada e do espaçamento da soja (Borges, 2017), além das épocas de semeadura, estações do ano, estádio fenológico de cada cultura e das condições climáticas, que por sua vez determinam o período de crescimento vegetativo e emissões de ramos produtivos na cultura da soja (Setiyono et al, 2011).
A área foliar foi estimada manualmente com o auxílio de uma régua milimetrada pelo método de medição das dimensões foliares
Com o aumento do IAF, a interceptação da radiação solar se torna mais eficiente, garantindo um aumento na fotossíntese líquida da planta. O IAF crítico para a cultura da soja pode ser definido como a quantidade de folhas necessárias para que 95% da radiação solar incidente seja interceptada ao meio-dia. A partir do momento em que o excedente de folhas não contribua de forma efetiva para o acúmulo de fotossintatos, o IAF passa a ser chamado de ótimo (Müller, 1981). O estádio fenológico mais crítico para a perda de área foliar é o R5 (início do enchimento de grãos), portanto, cultivares que aumentem ou que mantenham o IAF por um período de tempo maior podem apresentar vantagem em ganho de produtividade, uma vez que há um possível maior aproveitamento na fotossíntese, convertendo isso em enchimento de grãos (Fontoura, 2005).
Além da questão da interceptação solar, o IAF tem sido utilizado para aprimorar o manejo fitossanitário das lavouras de soja, indicando a melhor época para se realizar aplicação de defensivos, aumentando o índice de aproveitamento das aplicações em uma melhor cobertura da folhas, obtendo o índice de gotas por cm2 desejada para cada aplicação, a fim de aumentar a sanidade do sistema de produção. Dessa maneira, o produtor pode ter à sua disposição uma nova técnica para auxiliá-lo nas tomadas de decisões em sua propriedade, o que se denomina monitoramento do IAF. Para averiguar a importância do índice de área foliar no manejo de pragas e doenças e na produtividade da soja e entender a dinâmica deste parâmetro durante o desenvolvimento da cultura foi desenvolvido um ensaio em área experimental pertencente à Fundação de Apoio à Pesquisa
Agropecuária de Chapadão, localizada no município de Chapadão do Sul, Mato Grosso do Sul, com altitude de 810m. O experimento foi conduzido durante os anos agrícolas de 2015/16 e 2016/17 em área em sistema plantio direto. O clima da região, segundo classificação de Kopen, é do tipo Aw, com estação chuvosa no verão e seca no inverno e precipitação média anual de 1.800mm. Foram utilizadas seis cultivares de soja (NA5090 RR, Anta 82 RR, NA7337 RR, P98Y30 RR, Desafio RR e CD 2737 RR), amplamente cultivadas na região, sendo avaliados mediante mudança nos estádios fenológicos. Foram semeados em 1º de outubro de 2015 e de 2016, respectivamente. Foi utilizada para ambos os anos a adubação de base com 150kg/ ha de MAP (11-52-00) e 150kg/ha de KCl em cobertura. Foram obtidas qiatro repetições individualmente por cultivar,
Figura 1 - Índice de Área Foliar (IAF) de cultivares de soja, em vários estádios fe- Figura 2 - Dinâmica do Índice de Área Foliar (IAF) de cultivares de soja, por estádio nológicos (média de dois anos), safras 2015/16 e 2016/17. Chapadão do Sul-MS, fenológico (média de 2 anos), safras 2015/16 e 2016/17. Chapadão do Sul-MS, Fundação Chapadão, 2017 Fundação Chapadão, 2017
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Tabela 1 - Média (dias) de dois anos de estudo dos estádios de desenvolvimento de cultivares de soja, semeados em 01/10/2015 e 01/10/2016 no Centro de Pesquisa da Fundação Chapadão (CP). Chapadão do Sul-MS, Fundação Chapadão, 2017 Cultivares NA5909 RR1
ANTA82 RR1
DESAFIO RR1
NA7337 RR1
CD2737 RR1
P98Y30 RR2
V1 13 R5.1 57 V1 13 R5.1 57 V1 13 R5.1 61 V1 13 R5.1 57 V1 13 R5.1 61 V1 17 R5.1 86
V2 17 R5.2 63 V2 18 R5.2 63 V2 20 R5.2 66 V2 18 R5.2 63 V2 22 R5.2 69 V2 20 R5.2 95
V3 25 R5.3 69 V3 22 R5.3 71 V3 25 R5.3 78 V3 22 R5.3 69 V3 27 R5.3 79 V3 24 R5.3 99
V4 27 R5.4 76 V4 27 R5.4 81 V4 32 R5.4 83 V4 25 R5.4 81 V4 31 R5.4 84 V4 27 R5.4 103
V5 32 R5.5 81 V5 32 R5.5 84 V5 36 R5.5 88 V5 32 R5.5 83 V5 34 R5.5 91 V5 37 R5.5 107
ESTÁDIOS VEGETATIVOS
Estádios Fenológicos (Dias) V6 36 R6 R7.1 R7.2 84 88 92 V6 34 R6 R7.1 R7.2 87 91 101 V6 38 R6 R7.1 R7.2 91 97 107 V6 36 R6 R7.1 R7.2 87 103 110 R6 R7.1 R7.2 97 101 106 V6 V7 V8 41 44 47 R6 R7.1 R7.2 114 123 129
R7.3 100 R7.3 110 R7.3 110 R7.3 114 R7.3 109 V9 53 R7.3 132
R1 38 R8.1 103 R1 38 R8.1 113 R1 41 R8.1 113 R1 38 R8.1 116 R1 38 R8.1 112 R1 61 R8.1 136
R2 41 R8.2 106 R2 41 R8.2 117 R2 44 R8.2 117 R2 41 R8.2 119 R2 44 R8.2 117 R2 66 R8.2 138
R3 46 R9 110 R3 46 R9 120 R3 51 R9 120 R3 46 R9 123 R3 49 R9 122 R3 71 R9 140
R4 52 CO 112 R4 53 CO 122 R4 57 CO 123 R4 52 CO 126 R4 55 CO 126 R4 81 CO 142
ESTÁDIOS REPRODUTIVOS
1Cultivares de ciclo indeterminado; 2Cultivar de ciclo determinado.
sendo avaliados número de vagens por planta, massa de 100 grãos e produtividade de grãos, exemplificando um ensaio comparativo de cultivares e também, mensurado o índice de área foliar, segundo metodologia anteriormente descrita. Foi verificado, ainda, o tempo de duração de cada estádio fenológico durante o ciclo de todas as cultivares, a fim de caracterizar
cada um deles. O IAF foi mensurado segundo metodologia sugerida por Dirceu Gassen e pela empresa Bayer CropScience. Quatro plantas por cultivar foram selecionadas e separadas em folíolos e pecíolos. Estes foram ainda separados em folíolos do terço inferior, médio e superior da planta. A área foliar foi estimada manualmente
com o auxílio de uma régua milimetrada pelo método de medição das dimensões foliares, em que foi mensurado o maior comprimento e a maior largura de cada folha, desconsiderando o pecíolo das folhas. Multiplicou-se a altura pela largura e foi possível obter a área da folha em questão, sendo que o valor obtido foi multiplicado pelo fator de correção 0,70 (desconsiderou-se 30% do valor, pelo fato de a folha apresentar forma obovada). O mesmo foi feito para todos os trifólios selecionados e calculado para a planta toda. O IAF corresponde à relação entre a área das folhas e a área de solo que ocupam. Para número de vagens por planta, massa de 100 grãos e produtividade de grãos realizou-se análise estatística a fim de demonstrar a diferença entre cultivares, fazendo uso do programa estatístico Sisvar. Na Tabela 1 verifica-se o tempo de duração de cada estádio fenológico para todas as variedades estudadas. Na Tabela 3 encontram-se os valores médios de IAF para cada cultivar em cada estádio fenológico, compreendendo desde a fase vegetativa até o fim da reprodutiva. Em relação à dinâmica do IAF (Figura 1), é possível verificar que a partir do estádio R5.1, este parâmetro começa a entrar em declínio, uma vez que a planta começa a remobilizar os fotoassimilados para o enchimento de grãos. O IAF torna-se menos importante a partir de R7 (maturidade fisiológica), já que neste estádio a planta cessa o enchimento de grãos e começa a senescência das folhas. O fato de o IAF máximo apresentar-
Figura 3 - Número de vagens por planta de seis cultivares de soja em duas safras Figura 4 - Massa de cem grãos de seis cultivares de soja em duas safras (2015/16 e (2015/16 e 2016/17) consecutivas. Chapadão do Sul-MS, Fundação Chapadão, 2017 2016/17) consecutivas. Chapadão do Sul-MS, Fundação Chapadão, 2017
Letras minúsculas iguais não diferem entre si pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade para a safra 2015/16. Letras maiúsculas iguais não diferem entre si pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade para a safra 2016/17.
20 Outubro 2017 • www.revistacultivar.com.br
Letras minúsculas iguais não diferem entre si pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade para a safra 2015/16. Letras maiúsculas iguais não diferem entre si pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade para a b safra 2016/17.
Tabela 2 - Média (dias) de dois anos de estudo dos estádios fenológicos para cada cultivar o período de desenvolvimento de V1 a V6 ou V9 (Vegetativo), R1 a R3 (Florescimento) R4 a R6 (Enchimento de grãos) e R7.1 a R8.2 (Maturação). Fundação Chapadão, 2017 Cultivar NA5909 RR1 ANTA82 RR1 DESAFIO RR1 NA7337 RR1 CD2737 RR1 P98Y30 RR2
Vegetativo (V1-V6) 25 dias 25 dias 28 dias 25 dias 25 dias 41 dias
Florescimento (R1-R3) 14 dias 15 dias 16 dias 14 dias 17 dias 20 dias
Enchimento de grãos (R4-R6) 36 dias 38 dias 40 dias 51 dias 46 dias 42 dias
Maturação (R7.1-R8.2) 22 dias 29 dias 23 dias 20 dias 21 dias 17 dias
Colheita 112 dias 122 dias 123 dias 126 dias 126 dias 142 dias
1Cultivares de ciclo indeterminado; 2Cultivar de ciclo determinado.
doenças deve ser iniciado mais cedo, de modo a permitir uma melhor deposição de gostas no baixeiro, por onde a maioria das doenças começa. Ao mesmo tempo estas características devem ser evitadas para plantio em áreas com predominância de mofo branco, antracnose e/ou outras doenças que atacam predominantemente hastes e pecíolos. Cabe ressaltar que apenas o IAF não implica maiores produtividades, ou seja, trata-se de apenas um dos pilares que garantem o sucesso produtivo das culturas. Quanto aos parâmetros produtivos (Tabela 4), verifica-se que houve diferença significativa entre as cultivares estudadas. Em ambas as safras a cultivar P98Y30 RR apresentou maior NVP em relação às demais (Figura 3). Para massa de 100 grãos (Figura 4), foi possível verificar que a cultivar Desafio RR apresentou o maior valor em relação às demais, sendo uma das que apresentaram maior IAF em ambos os anos de estudo. Para a cultivar P98Y30 RR verificou-se, nos dois anos estudados, um dos
menores IAF, sendo esta mesma tendência obtida para o enchimento de grãos, resultando em menor massa. Também pode-se inferir que pelo fato desta cultivar apresentar maior NVP, houve efeito diluição, com menos fotoassimilados carreados para os grãos. Em contrapartida, esta cultivar apresenta a menor população em relação às demais, sendo assim, proporciona maior espaço entre plantas, podendo ramificar mais e produzir mais vagens. Aspecto que também influi em menor IAF, uma vez que apresenta menor número de plantas por metro quadrado. Cultivares com maior população são mais dependentes de IAF, pois geralmente apresentam ciclo de cultivo menor. Em relação à produtividade de grãos (Figura 5), a cultivar com maior média foi a que apresentou menor IAF, porém, este fato justifica-se por esta cultivar apresentar um ciclo médio a tardio, obtendo a maturação próxima aos 140 dias, o que lhe confere maior tempo vegetativo. Diferentemente das demais cultivares que apresentam ciclos de superprecoce a precoce, Fundação Chapadão
-se no estádio R5 é de alta importância fisiológica para a cultura da soja. Quando se inicia a granação das vagens, ocorre aumento significativo na necessidade de água, nutrientes e luz pela planta, sendo que parte disso é convertida em fotoassimilados. Estes fatores essenciais à produção são direcionados ao enchimento dos grãos além de proporcionar maior teor de óleo e proteína (Heiffig et al, 2006). De maneira geral é possível notar que de R1 para R4 e deste para R5 se encontram os períodos onde ocorre aumento significativo do IAF, ou seja, o início da fase reprodutiva não cessa seu crescimento, uma vez que todas as cultivares utilizadas, com exceção do P98Y30 RR, apresentam hábito de crescimento indeterminado, sendo esta característica presente na maioria das cultivares modernas. Para a cultivar P98Y30 RR, observa-se um acréscimo nos valores de IAF de R4 para R5, porém, é o menos acentuado em relação aos demais, por apresentar hábito de crescimento determinado, ou seja, reduz o crescimento vegetativo na fase reprodutiva. Cultivares indeterminadas e geralmente de ciclos menores apresentam a capacidade de continuar vegetando durante a fase reprodutiva, o que garante aumento na área foliar e possibilita maior interceptação da radiação solar, proporcionando maiores produtividades. As cultivares NA7337 RR, Desafio RR e Anta 82 RR foram as que apresentaram maior IAF dentre os materiais estudados. Assim, cabe salientar que em cultivares com esta característica o manejo de
Figura 5 - Produtividade de seis cultivares de soja em duas safras (2015/16 e 2016/17) consecutivas. Chapadão do Sul-MS, Fundação Chapadão, 2017
Letras minúsculas iguais não diferem entre si pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade para a safra 2015/16. Letras maiúsculas iguais não diferem entre si pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade para a safra 2016/17.
O o Indice de Área Foliar (IAF) corresponde à relação entre a área das folhas e a área de solo que ocupam
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Tabela 3 - Média do Índice de Área Foliar (IAF) de dois anos de estudo de cultivares de soja, semeados em 01/10/2015 e 01/10/2016 no Centro de Pesquisa da Fundação Chapadão (CP). Chapadão do Sul-MS, Fundação Chapadão, 2017 Cultivares NA5909 RR1
ANTA82 RR1
DESAFIO RR1
NA7337 RR1
CD2737 RR1
P98Y30 RR2
V1 0,13 R1 2,81 V1 0,05 R1 2,37 V1 0,05 R1 1,61 V1 R1 2,82 V1 0,04 R1 1,60 V1 0,03 R1 1,10
V2 0,23 R2 2,91 V2 0,13 R2 3,42 V2 0,09 R2 1,67 V2 0,15 R2 2,91 V2 0,07 R2 1,81 V2 0,05 R2 1,16
V3 0,34 R3 3,39 V3 0,43 R3 3,86 V3 0,31 R3 2,34 V3 0,45 R3 3,14 V3 0,30 R3 2,27 V3 0,14 R3 1,97
V4 0,79 R4 4,32 V4 0,94 R4 4,48 V4 0,66 R4 3,37 V4 0,97 R4 4,12 V4 0,50 R4 3,02 V4 0,31 R4 2,37
V5 1,61 R5.1 3,26 V5 1,38 R5.1 3,36 V5 1,03 R5.1 3,88 V5 1,53 R5.1 3,90 V5 0,98 R5.1 2,90 V5 0,80 R5.1 3,25
IAF POR ESTÁDIO FENOLÓGICO V6 1,78 R5.2 R5.3 R5.4 R5.5 3,23 3,12 2,98 2,91 V6 1,56 R5.2 R5.3 R5.4 R5.5 3,36 3,32 3,21 3,14 V6 1,32 R5.2 R5.3 R5.4 R5.5 3,88 3,88 3,76 3,51 V6 1,98 R5.2 R5.3 R5.4 R5.5 3,76 3,62 3,25 3,08 R5.2 R5.3 R5.4 R5.5 2,81 2,76 2,55 2,41 V6 V7 V8 V9 0,83 0,89 0,92 1,07 R5.2 R5.3 R5.4 R5.5 3,25 3,14 3,05 2,98
ESTÁDIOS VEGETATIVOS
R6 2,85 R6 3,08 R6 3,49 R6 2,76 R6 2,36 R6 2,90
R7 1,78 R7 1,13 R7 2,89 R7 1,98 R7 1,72 R7 2,01
R8 0,53 R8 0,55 R8 1,72 R8 0,88 R8 0,57 R8 1,38
R9 0,10 R9 0 R9 0,72 R9 0,32 R9 0 R9 0,72
ESTÁDIOS REPRODUTIVOS
1Cultivares de ciclo indeterminado; 2Cultivar de ciclo determinado.
Tabela 4 - Resultados da análise da variância (ANOVA) para as variáveis número de vagens por planta (NVP), massa de cem grãos (M100G) e produtividade (PROD) de soja, em função dos diferentes cultivares utilizados. Chapadão do Sul-MS, Fundação Chapadão, 2017 Ano Agrícola 2015/16
2016/17
Variáveis NVP M100G PROD NVP M100G PROD
Unidade n° g sc ha-1 n° g sc ha-1
DMS 19,11 1,40 2,88 7,64 1,30 12,25
CV (%) 15,10 2,79 4,53 5,97 2,70 5,96
Média Geral 44,62 17,71 66,31 45,14 16,88 72,56
esta demora um tempo maior para entrar em senescência, fazendo com que (mesmo com um menor IAF), permaneça fazendo fotossíntese por mais tempo. A procura por cultivares mais precoces tem sido cada vez maior, portanto, a escolha da variedade ideal, com maior IAF, ganha importância na busca por altas produtividades. Como pôde ser observado, cultivares de ciclo maior podem apresentar menor IAF, dependendo menos deste parâmetro que aqueles de ciclo precoce. Merece destaque a necessidade de uma maior área de captação da radiação solar por estas cultivares, pois, dessa maneira, conseguem captar mais luz em um menor tempo. Nas duas últimas safras, a Fundação
Fotos Fundação Chapadão
ns, * e ** são, respectivamente, não significativo, significativo a 5% e a 1% pelo Teste F.
22 Outubro 2017 • www.revistacultivar.com.br
Teste F 33987** 20,960** 367,145** 189,542** 12,036** 16,298**
Valdeir Fernandes de Oliveira, "In Memoriam", 1993-2017
Chapadão tem investido no conhecimento sobre Índice de Área Foliar (IAF) de diversas cultivares de soja, entendendo cada vez melhor sobre este parâmetro tão importante e pouco discutido entre os pesquisadores, consultores e produtores. O domínio deste conhecimento e de outras ferramentas auxilia o produtor na escolha de variedades mais adaptadas às suas condições, fazendo com que aumentem as chances de sucesso no manejo de pragas e doenças, tornando o cultivo da soja mais seguro quanto ao manejo de resistência e C a ganhos produtivos. Jefferson Luis Anselmo e Edson Pereira Borges, Fundação Chapadão João William Bossolani Unesp Ilha Solteira Valdeir Fernandes de Oliveira, “In memoriam” 1993 – 2017 Fundação Chapadão
Soja
Entenda e evite
Monica Debortoli
Doença silenciosa, responsável por danos severos e irreversíveis à cultura da soja, a antracnose tem crescido de importância nas lavouras brasileiras. Conhecer como essa enfermidade incide e evolui no campo, bem como o momento de adotar medidas de manejo, é essencial para prevenir prejuízos. Adotar a primeira aplicação de fungicidas na fase vegetativa e a segunda no início da floração constitui ferramenta importante no correto posicionamento do controle químico
24 Outubro 2017 • www.revistacultivar.com.br
A
antracnose, causada pelo fungo Colletotrichum truncatum, é uma doença que vem crescendo nas últimas duas safras no país. É uma das principais doenças do Cerrado brasileiro, que tem se destacado no Sul do Brasil, com redução na população de plantas, na qualidade de semente e no rendimento de grãos. A diminuição no rendimento é estreitamente relacionada à infecção nos legumes ou sob condições de infecção severa nas folhas durante o estádio de enchimento de grãos, sendo uma das principais doenças que afetam a fase inicial de formação de legumes. A disseminação da antracnose ocorre a partir de sementes infectadas e restos culturais, sendo auxiliada pelo vento e pela chuva. Alta população de plantas ou após o fechamento das linhas, associada ao molhamento foliar e à temperatura entre 18ºC e 25ºC, é condição favorável para o estabelecimento da doença. A esporulação do fungo é observada com temperaturas inferiores a 35ºC. Infecções em cotilédones, haste e folhas ocorrem predominantemente no estádio vegetativo com o inóculo inicial oriundo da semente ou restos culturais contaminados. Com o início da floração há transmissão do inóculo para a flor, impedindo a nutrição e a formação dos grãos, ou para o legume, contaminando o grão já formado. O atraso na colheita e muita chuva no final do ciclo promovem a contaminação massiva dos grãos. Para que ocorra a doença é necessária a interação do patógeno Colletotrichum truncatum, hospedeiro suscetível e ambiente
Figura 1 - Triângulo da doença – Fatores que influenciam a ocorrência de antracnose
soja. Quando o legume e os pedicelos são infectados precocemente, não há formação de sementes (legume vazio) ou se desenvolvem sementes menores que as normais (Figura 6). Com alta redução no número de legumes, a planta apresenta retenção foliar e haste verde. Com atraso da colheita, pode causar queda de legumes ou deterioração da semente.
ESTRATÉGIAS DE MANEJO
A
Com o início da floração há transmissão do inóculo da folha para a flor. A flor infectada pelo patógeno é impedida de ser fecundada, resultando em abortamento de legumes e originando legumes sem grãos (Figura 4A). As folhas e flores infectadas também podem servir de inóculo para os legumes, contaminando os grãos em formação (Figura 4B). Através da infecção do patógeno nos legumes poderá haver abertura dos legumes (Figura 4C). Assim, é necessário permanecer muito atentos a essa doença, pois muitas vezes passa despercebida, mas vem causando danos significativos na quantidade e qualidade dos grãos colhidos. O monitoramento deve ser realizado com cautela, pois é uma doença silenciosa, que ocorre no interior do dossel. Quando percebida na lavoura, a doença já causou danos às plantas e o seu manejo é bastante dificultado. A Figura 5 apresenta a disseminação e a evolução de antracnose em diferentes estádios fenológicos da
C
B
D
Fotos Marlon Stefanello
Caroline Gulart
favorável, gerando o triângulo da doença (Figura 1). A doença começa com inóculo oriundo da semente ou dos restos culturais (Figura 2 - A e B). Plântulas originadas de sementes infectadas podem morrer durante a germinação (Figura 2C) ou germinar com necrose nos cotilédones (Figura 2D) que se estende para o hipocótilo e radícula, provocando tombamento. Os sintomas da doença podem ser visualizados desde os cotilédones. Em lavouras comerciais, geralmente os primeiros sintomas são visualizados nas folhas (Figura 3A). As lesões são deprimidas, com coloração marrom-escura e presença de acérvulos com setas longas. Em casos mais severos, a doença pode causar estrangulamento dos trifólios, causando o seu secamento (Figura 3B). Esses danos nos trifólios não são tão evidentes porque ocorrem no interior do dossel, porém a maior contribuição desse sintoma é por servir de fonte de inóculo para o dano mais severo que é diretamente nos legumes.
Para o manejo de antracnose, uma das primeiras medidas de controle é o uso de sementes sadias, livres do patógeno. Recomenda-se o tratamento das sementes com fungicidas para reduzir os riscos de introdução do patógeno em lavouras por sementes infectadas ou contaminadas superficialmente. Em lavouras contaminadas, recomenda-se realizar a rotação com culturas não hospedeiras ao patógeno. Dentre as medidas de controle da antracnose, podem ser citados também a adequação da população de plantas, o manejo adequado do solo e o uso de variedades resistentes. Existem no mercado algumas cultivares menos suscetíveis à antracnose, que servem como alternativa para o manejo da doença, devendo ser associada às demais práticas de manejo (Figura 7). Em condições adequadas de clima, como chuvas constantes durante o período de floração da cultura da soja (como o ocorrido no experimento) e presença de inoculo nos restos culturais é importante estabelecer um programa de manejo para a doença (Figura 8). Neste caso, além do tratamento de sementes torna-se essencial a aplicação de fungicidas em parte aérea da cultura, bem como
Figura 2 – Restos culturais com inóculo de Colletotrichum truncatum (A, B), plântulas originadas de sementes infectadas (C), plântulas com necrose nos cotilédones causada pelo patógeno (D)
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Marcelo G. Madalosso
Fotos Marlon Stefanello
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Figura 4 - Abortamento de legumes (A), sintomas (B) e abertura (C) devido à infecção de C. truncatum Figura 3 – Sintomas de antracnose em folhas (A) e estrangulamento de trifólios em casos mais severos da doença (B)
levar em consideração o momento das aplicações na fase vegetativa. O objetivo principal é realizar cedo a primeira aplicação de fungicida, ainda no estádio vegetativo, para o produto atingir o dossel inferior das plantas (por exemplo, aplicação no estádio V8 da cultura da soja, como demonstrado no experimento). É importante que a segunda aplicação se dê no início da floração (R1), e uma terceira 15 Dias Após a Aplicação 2 (DAA2). Nessa situação, a
boa cobertura do dossel, através da primeira aplicação, contribui para manter um baixo nível de inóculo de Colletotrichum truncatum. Desse modo, permite reduzir o avanço da doença após o fechamento do dossel da cultura. Entretanto, é importante salientar que esse posicionamento é pensando em antracnose e que eventuais surtos de ferrugem no meio ou final do ciclo da cultura poderiam exigir uma aplicação adicional, podendo ser posicionada 14
Dias Após a Aplicação 3 (DAA3). Recomenda-se trabalhar com residuais não superiores a 15 dias entre as aplicações, para garantir uma cobertura homogênea de toda a planta, bem como manter o ingrediente ativo em concentrações necessárias para o controle do patógeno. A Figura 9 apresenta os programas de aplicações com fungicidas para o manejo de antracnose. Para todos os programas, as aplicações foram iniciadas no estádio V8, seguidas da segunda aplicação em R1 (início do florescimento), terceira aplicação aos 15 Dias Após a Aplica-
Figura 5 – Disseminação e evolução de antracnose em diferentes estádios fenológicos da soja
26 Outubro 2017 • www.revistacultivar.com.br
Figura 6 – Representação esquemática da evolução de severidade da antracnose em legumes de soja (%)
ção 2 (DAA2) e quarta aplicação aos 14 Dias Após a Aplicação 3 (DAA3). A utilização de uma mistura de fungicida com triazolitiona (Tzt) e estrobilurina (St) reduziu a incidência de antracnose em legumes. Quando foi associado o fungicida multissítio mancozebe (Mz) à mistura Tzt + St, aumentou significativamente a eficácia de controle de antracnose em legumes. O programa de aplicação que apresentou a mistura de mancozebe na primeira e na quarta aplica-
ção e carboxamida (Cx) na segunda e na terceira aplicação, associado ao Tzt + St, foi mais eficaz no controle de antracnose em legumes, em relação ao tratamento que somente apresentava Tzt + St. Analisando os dados, fica evidente o incremento de controle da doença pela associação do fungicida sítio-específico (Tzt + St) com o fungicida multissítio Mz. A Figura 10 apresenta os programas de aplicações com fungicidas para o manejo de Doenças de
Figura 7 - Suscetibilidade de cultivares de soja ao fungo C. truncatum causador da antracnose da soja
Final de Ciclo (DFCs), incluindo Cercospora kikuchii e Septoria glycines. A utilização de uma mistura de fungicida com triazolitiona (Tzt) e estrobilurina (St) reduziu a severidade das DFCs. O programa de aplicação que apresentou a associação do fungicida multissítio mancozebe (Mz) à mistura Tzt + St na primeira aplicação, Tzt + St + carboxamida (Cx) na segunda e na
Figura 8 – Acumulado de chuva (mm) entre as aplicações dos fungicidas. *Escala fenológica segundo Ritchie et al (1982)
Figura 9 – Eficácia no controle de antracnose em legumes de soja (%) em função de diferentes programas de aplicação com fungicidas. Tzt = triazolitiona; St = estrobilurina; Cx = carboxamida; Mz = mancozebe
Figura 10 – Eficácia no controle de Doenças de Final de Ciclo (DFC) em plantas de soja (%) em função de diferentes programas de aplicação com fungicidas. Tzt = triazolitiona; St = estrobilurina; Cx = carboxamida; Mz = mancozebe
Figura 11 – Produtividade de soja (sc ha-1) em função de diferentes programas de aplicação com fungicidas. Tzt = triazolitiona; St = estrobilurina; Cx = carboxamida; Mz = mancozebe
terceira aplicação, e Tzt + St + Mz na quarta aplicação, obteve o maior
PRÁTICAS DENTRO DO MANEJO INTEGRADO DE DOENÇA (MID) PARA CONTROLE DE ANTRACNOSE • Utilização de sementes livres do patógeno • Tratamento de sementes • Aumento do espaçamento entre linhas e redução da densidade de plantas • Rotação de culturas com plantas não hospedeiras • Início do programa de aplicação de fungicidas no período vegetativo • Utilização de fungicidas sítio-específicos com fungicidas multissítio
incremento na eficácia de controle de DFCs em folhas. Novamente, fica evidente o incremento de controle da doença pela associação do fungicida sítio-específico com o fungicida multissítio. A produtividade da soja, em função de diferentes programas de aplicação com fungicidas, pode ser visualizada na Figura 11. A produtividade é reflexo do manejo do complexo das doenças antracnose, crestamento foliar e septoriose, causadas pelos patógenos Colletotrichum truncatum, Cercospora kikuchii e Septoria glycines, respectivamente. Pode-se observar maior produtividade da cultura quando utilizados os programas de aplicação com a associação do fungicida multissítio (Mz) ao fungicida sítio-específico (Tzt + St). A utilização de programas de aplicação com mancozebe e carboxamida, associado à triazolitiona + estrobilurina, auxilia no manejo das doenças com reflexos positivos na produtividade e qualidade dos grãos
28 Outubro 2017 • www.revistacultivar.com.br
colhidos. No mercado de agroquímicos existem diversos fungicidas recomendados para o manejo de antracnose e DFCs, e se bem posicionados na cultura, com o início da aplicação na fase vegetativa e a segunda no início da floração, apresentam-se como importantes ferramentas para o manejo, com sucesso no controle e redução das perdas pelas doenças. A associação de fungicidas com modo de ação sítio-específico com multissítio contribui para aumentar o espectro de controle das doenças e auxilia na redução do risco de aparecimento de formas do patógeno C resistentes aos fungicidas. Marlon Tagliapietra Stefanello, Leandro Nascimento Marques, Marcelo Gripa Madalosso, Mônica Debortoli, Carol Gulart, Nédio Tormen e Ricardo S. Balardin, Instituto Phytus
Capa
Pequena devastadora Cecília Czepak
O complexo de moscas brancas tem causado graves prejuízos no Brasil, em cultivos como a soja. Além dos problemas gerados pela ação direta destes insetos, extremamente agressivos, também ocorre a incidência indireta como transmissores de vírus. Medidas de controle, sempre que necessárias, devem ser adotadas com critério, com objetivo não somente de combater a praga, mas também com foco em sustentabilidade, respeito ao ambiente e na melhoria da qualidade da produção agrícola como um todo
O
complexo de moscas brancas (Bemisia tabaci) é, atualmente, uma das mais importantes pragas da agricultura mundial, devastando plantios tanto nas regiões tropicais como temperadas de inúmeros países. Com origem provável no Oriente, mais precisamente no subcontinente indiano, porém foi descrita pela primeira vez, na Grécia, em 1889, como Aleurodes tabaci em plantas de fumo (Nicotina sp.). Atualmente, com exceção da Antártida e dos ambientes salinos, está mundialmente distribuída. A comercialização e o transporte de plantas, principalmente ornamentais, são os grandes facilitadores da sua disseminação entre os continentes Europeu, Asiático e Americano. Com certeza a distribuição generalizada desta praga está relacionada principalmente a fatores como: intensi-
ficação dos cultivos agrícolas, expansão dos monocultivos e uso indiscriminado de agroquímicos. Sua habilidade em se adaptar a inúmeros hospedeiros, independentemente das condições ambientais, tem facilitado a sobrevivência. Além disso, a fácil adaptação a regiões de climas tropical, subtropical e temperado a transformou também em um vetor de mais de uma centena de viroses descritas em diferentes partes do mundo. Bemisia tabaci é conhecida no Brasil desde 1923, mas só foi relatada como praga em 1968, quando grandes populações foram detectadas em lavouras de algodão no Norte do estado do Paraná e a partir de 1972 novas populações surgiram no Sul do estado de São Paulo e em outras partes do País. A praga reapareceu na década de 1990, com altos níveis populacionais no
Sudeste (São Paulo e Minas Gerais), no Centro-Oeste (Distrito Federal e Goiás) e no Nordeste (Pernambuco, Bahia, Rio Grande do Norte, Paranaíba, Ceará e Piauí) com enormes prejuízos à agricultura destas regiões. Essa população foi verificada primeiramente em Campinas, São Paulo, em meados de 1991, atacando inicialmente plantas ornamentais, e depois se difundindo rapidamente pelas demais áreas agrícolas de São Paulo, o que levou muitos pesquisadores à conclusão de que se tratava de um novo “biótipo” introduzido no Brasil. Em relação a biótipos, há uma polêmica ainda a ser esclarecida para finalmente ser aceita por toda a comunidade científica a respeito dessa praga. Isso se deve ao fato de que a princípio o referido “biótipo” foi considerado, na década de 1990 como uma nova espécie, denominada Bemisia
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Fotos Cecília Czepak
-chave de culturas como feijão, algodão, tomate e outras hortaliças em geral. E nesses últimos anos também os cultivos de soja têm sofrido devido à sua presença em altas populações, principalmente nas fases reprodutivas da planta. Transformando-a em um dos insetos de maior impacto na entomologia agrícola mundial, daí o motivo para chamá-la de “a praga do século 20”, porém nota-se que esta denominação se manterá também neste século 21.
CLASSIFICAÇÃO, MORFOLOGIA, BIOLOGIA E PLANTAS HOSPEDEIRAS
Por sugar de forma contínua a planta, a mosca branca ejeta uma substância adocicada que facilita o crescimento da fumagina, o que interfere na atividade fotossintética das folhas
argentifolli. Entretanto, esta denominação não foi aceita por toda a comunidade científica, que passou a tratá-la como um complexo de espécies com cerca de 20 biótipos. (Exemplo biótipos A, B, Q, entre outros) e que apenas os biótipos A e B estavam presentes no Brasil. Contudo, em estudos recentes relacionados a essa hipótese, um grupo de pesquisadores concluiu, após comparar o DNA de todos estes conhecidos “biótipos”, que a diferença genética entre eles era de aproximadamente 5%, indicando serem espécies distintas, já que para serem da mesma espécie estes supostos biótipos deveriam apresentar diferenças genéticas de no máximo 3,5%. Sendo assim, no Brasil atualmente, segundo esse grupo de pesquisadores, se está diante de quatro espécies: MEAM1 (MiddleEast-AsiaMinor1), anteriormente biótipo “B”; MED (Mediterranean), anteriormente biótipo “Q”, e NW1 (New World 1) e NW2 (New World 2), conhecidas como biótipo “A”. Importante saber também que morfologicamente são espécies idênticas. Isso significa que diferenças a campo serão impossíveis de serem percebidas por enquanto. Contudo, mesmo com todas essas justificativas baseadas em características genéticas, ainda assim muitos persistem na antiga classificação e, provavelmente,
o tempo dirá qual será a melhor forma de abordar este pequeno sugador que tem causado tantas preocupações ao produtor rural e que atualmente está presente em todos os estados brasileiros, com prejuízos superiores a R$ 10 bilhões. Espécies ou biótipos, enfim, para o produtor o importante é esclarecer que são populações com potenciais de maximizar seus papéis e melhorar sua capacidade de virulência mais rápido que a capacidade das plantas hospedeiras de melhorarem seus sistemas de defesa, levando, de certo modo, a pequenas mutações entre indivíduos, diferenciando-os e muitas vezes isolando-os geograficamente. Este complexo de moscas brancas vem causando, nos cultivos agrícolas brasileiros, vários problemas, primeiramente relacionados à sua ação direta como sugadores de seiva e injeção de toxinas, que induzem desordens fisiológicas, reduzindo o vigor das plantas e a produção, e por sugarem de forma contínua a planta, ejetam uma substância adocicada que facilita o crescimento da fumagina, que interfere na atividade fotossintética das folhas, alterando a qualidade da produção de inúmeros cultivos. E de forma indireta, como transmissores de várias espécies de vírus, potencializando o efeito devastador da praga e transformando-a em praga-
30 Outubro 2017 • www.revistacultivar.com.br
A mosca branca é um inseto da ordem Hemiptera, subordem Sternorryncha e família Aleyrodidae, apresentando em torno de 126 gêneros e mais de 1.200 espécies, sendo a B. tabaci a mais importante e amplamente distribuída. O adulto da mosca branca mede de 0,8mm a 2mm de comprimento, sendo as fêmeas maiores que os machos, com quatro asas membranosas recobertas por uma pulverulência branca, olhos vermelhos e antenas longas em relação ao tamanho da cabeça. Dependendo da alimentação e das condições climáticas os machos vivem de nove dias a 17 dias e as fêmeas podem viver de 38 até 74 dias e estão quase sempre em pares. Tanto o adulto como as ninfas possuem aparelho bucal do tipo “picador-sugador”. Quando em repouso, as asas são mantidas levemente separadas, com um dos lados paralelos e na forma de um telhado, podendo-se visualizar o abdome, cuja coloração é amarela. A reprodução se dá por via sexuada, e ocorre de duas a quatro horas após a emergência, originando machos e fêmeas, mas pode apresentar reprodução assexuada gerando apenas machos. Os ovos da mosca branca têm formato de pera, coloração amarela nos primeiros dias e marrom quando próximos à eclosão e são colocados na face inferior das folhas, ficando presos por um pedúnculo curto, podendo ser depositados isoladamente, em grupos separados ou ainda em semicírculos. Uma fêmea pode colocar em média 300 ovos dependendo do hospedeiro e da temperatura, sendo que a eclosão das ninfas se dá em média após seis dias. Em situações de estresses provocados por doses elevadas de inseticidas, as fêmeas, na tentativa de preservar a espécie, podem intensificar a oviposição e aumentar a
proporção de fêmeas em sua prole. E na falta de alimento podem interromper a postura. Segundo as pesquisas a região de maior preferência para oviposição da mosca branca é a apical. Plantas com 30 a 40 dias após a emergência são preferidas para a colocação de seus ovos, pois as folhas mais novas são mais finas, macias e possuem maior quantidade de nutrientes e água disponíveis, facilitando não só a oviposição como também a alimentação do adulto e da geração que virá em seguida. As ninfas, medem cerca de 0,3mm a 0,6mm, com duração de 12 dias dependendo das condições ambientais e da planta hospedeira. Passam por quatro estágios ninfais, sendo que logo após a eclosão as ninfas do primeiro instar caminham pela folha à procura de um local adequado para começarem sua alimentação. Nesta fase possuem formato elíptico, coloração branca-esverdeada, plana ventralmente e convexa dorsalmente e apresentando pernas bem desenvolvidas. As ninfas do segundo e do terceiro instar são fixas na planta e se alimentam de forma contínua, sendo que as pernas e as antenas são atrofiadas, com asas desenvolvidas internamente. Já no quarto estágio a ninfa ainda se alimenta, porém apenas no início, cessando a alimentação quando aparentemente sofre mudanças morfológicas para se transformar em “pupário”, onde é possível verificar uma diferenciação morfológica de ninfa de quarto instar para “pseudopupa”, sendo essa última bastante destacada por apresentar características como o aparecimento de olhos vermelhos
Tabela 1 - Apresentação de alguns ingredientes ativos presentes no mercado para controle de mosca branca conforme seu grupo químico, modo de ação e estágio(s) mais apropriado(s) da praga para utilização Ingrediente Ativo Acetamiprido Azadiractina Beauveria bassiana Buprofezina1 Ciantraniliprole Diafentiuron Espiromesifeno Varios Imidacloprido Pyriproxyfen2 Thiametoxam
Grupo Químico Neonicotinóide Tetranortriterpenóide Biológico Tiadiazinona Diamida Feniltiouréia Cetoenol Piretróide Neonicotinóide Juvenóide Neonicotinóide
Onde atua Sistema nervoso Desconhecido Colonizam o inseto Crescimento do inseto Sistema muscular Metabolismo respiratório Afetam o crescimento Sistema nervoso Sistema nervoso Crescimento do inseto Sistema nervoso
Qual estágio apropriado para utilização Adultos e Ninfas Ninfas e Adultos Ninfas Ninfas Adultos e ninfas Adultos e Ninfas Ninfas Adultos Adultos e Ninfas Ninfas Adultos e Ninfas
1Buprofezina: apesar de não controlar adultos reduz a viabilidade dos ovos das fêmeas que entrarem em contato com o inseticida. 2Pyriproxyfen: também pode afetar o desenvolvimento dos ovos, bem como a próxima geração também pode ser afetada uma vez que fêmeas ao entrarem em contato com o produto podem ter a viabilidade de seus ovos comprometida.
e coloração de um amarelo mais intenso, com duração em torno de 1,5 dia a dois dias. A emergência do adulto se realiza por meio de uma abertura em forma de “T” invertido, na região anterior dorsal do pupário (vide Figura 1). As colônias se estabelecem na face inferior das folhas. Quando em altas infestações é possível encontrar todas as fases da praga: ovos, quatro estágios ninfais e adultos. Em temperaturas de 25ºC, completam o ciclo, de ovo a adulto, em três a quatro semanas em média e somente o adulto é capaz de migrar até novas plantas. Os estágios imaturos permanecem fixos à planta hospedeira. Os adultos apresentam pouca habilidade para dirigir seus voos, que ocorrem de forma passiva numa corrente de ar, podendo ser encontrados a 7km do foco de infestação. O vento e as condições locais para a sobrevivência da prole determinam
o voo desta praga. Geralmente podem voar cerca de 3m a 4m de altura, sendo que certos adultos foram encontrados até a 300m de altura, provavelmente guiados pelas correntes de ar. A temperatura pode definir efetivamente o ciclo de vida desta praga, que pode variar de 15 dias a 24 dias, bem como a fertilidade, o desenvolvimento embrionário e a longevidade do adulto. Assim sendo, quanto maior a temperatura, maior o número de gerações da mosca branca, podendo alcançar até 15 gerações por ano. Entretanto, a precipitação pluviométrica contribui de forma negativa neste inseto, reduzindo suas populações, principalmente nas fases em que ainda é móvel ou pseudopupa, pois se encontra destacada da folha e passível de ser levada pela água das chuvas. Este “complexo de moscas brancas”, segundo as pesquisas, adaptou-se à alimentação em diferentes plantas, agrupando, atualmente, cerca de 700 espécies de plantas hospedeiras, predominantemente anuais e herbáceas, pertencentes a mais de 80 famílias botânicas, de grande importância agrícola como soja, ervilha, feijão, algodão, tomate, batata, berinjela, pimenta, fumo, repolho, couve, brócolis, melão, melancia, pepino, mamão, uva, poinsétia, roseira, entre outras.
TÁTICAS DE MANEJO DO COMPLEXO MOSCA BRANCA EM CULTIVOS DE SOJA
Tigueras de soja infestadas pela mosca branca, o que demonstra a importância de eliminar essas plantas para evitar que sirvam de abrigo e alimento da praga
É necessario entender que esta praga deve ser controlada dentro do sistema produtivo e isso significa que não só o sojicultor deve estar atento, mas todos os produtores que compõem a cadeia agrícola produtiva do país.
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Fotos Cecília Czepak
do manejo como culturas alternativas para quebra de ciclo da praga, pois não são hospedeiras preferenciais da mosca branca além do que podem ajudar a impedir ou retardar a entrada de adultos do inseto na área. As barreiras vivas devem ser posicionadas perpendicularmente à direção dos ventos e se possível circundando todo o cultivo. Controle biológico
Plantas espontâneas podem favorecer a formação de foco de sobrevivência para ovos, ninfas e adultos da mosca branca
Portanto, a conscientização dos produtores, sobre as medidas de controle a serem tomadas antes, durante e no final dos cultivos agrícolas é essencial para a redução dos problemas ocasionados por essa praga. Em linhas gerais as táticas de manejo integrado para a mosca branca podem ser assim descritas: Destruição dos restos de cultura, tigueras e plantas espontâneas
Os restos culturais de plantas hospedeiras da praga devem ser destruídos ou incorporados ao solo logo após a colheita, para evitar a formação de um foco de sobrevivência para ovos, ninfas e adultos da mosca branca. Caso o produtor, após a colheita, tenha sua área coberta por tigueras de soja, estas plantas devem ser eliminadas antes que a praga conclua um ciclo na planta, pois sua manutenção ocasionará a perpetuação do inseto ou mesmo sua disseminação para outras culturas e áreas circunvizinhas. Preparo do solo antecipado
Como a mosca branca depende de hospedeiros para sua sobrevivência, preparar o solo com antecedência, evitando que as plantas daninhas cresçam sobre ele e perpetuem a praga na área é uma boa opção. Também se deve proceder a eliminação das plantas daninhas no estabelecimento da cultura, o que pode ter um
efeito positivo, diminuindo as populações iniciais da praga. Evitar a proximidade de hortas caseiras às culturas
Hortas caseiras são um dos principais focos, tanto da mosca branca quanto dos vírus por ela transmitidos. Pode-se dizer que lá estão as fontes permanentes da praga. Assim, evitá-las ou se possível pelo menos monitorá-las seria um procedimento correto para produtores, principalmente aqueles que cultivam além da soja, tomate e feijão. Evitar o escalonamento do plantio e adotar, se possível, barreiras vivas
Plantios escalonados e próximos a áreas infestadas devem ser evitados. Quando isto não for possível a atenção deve ser redobrada, pois nestes casos as migrações da praga são mais frequentes. Também é importante que se observem as direções do vento, evitando que as primeiras áreas plantadas se iniciem ao seu favor, já que a praga utiliza esse mecanismo como principal meio de dispersão e seguramente se alastrará de forma escalonada por entre os talhões. A adoção de barreiras vivas pode ser também implantada com culturas como o sorgo, o milho, o milheto e outras plantas similares e mesmo sabendo que a mosca branca pode vir a infestar essas gramíneas, ainda sim podem ser consideradas dentro
32 Outubro 2017 • www.revistacultivar.com.br
Muitas espécies de insetos, ácaros e aranhas alimentam-se de ninfas e adultos de mosca branca. Dentre os insetos predadores, é possível citar o bicho-lixeiro, as joaninhas e os percevejos (Orius e Geocoris sp.). Apesar de esta praga estar há muitos anos causando danos aos agricultores, pouca informação existe sobre a biologia e o impacto da maioria dos predadores de B. tabaci. Para o caso dos parasitóides, Encarsia formosa e Eretmocerus californicus já são utilizados amplamente na Europa e nos Estados Unidos. São liberados em cultivos de hortaliças, protegidos ou não, cerca de dois meses após o plantio, totalizando cinco liberações (uma por semana) na proporção de 1,5 vespa/planta, porém, segundo pesquisadores, é muito importante que a praga esteja em baixa população, para que haja tempo do inimigo natural se estabelecer. Muitos fungos estão associados à mosca branca, Verticillium sp., Paecilomyces spp., Aschersonia aleyrodis e Beuveria bassiana, sendo que este último tem sido comercializado por algumas empresas no Brasil para controle da praga em questão. Contudo, mais estudos sobre sua eficácia precisam ser desenvolvidos, pois a tática pode ser viável sob o ponto de vista de controle da praga, mas se não utilizada de forma adequada pode vir a falhar, pois além das condições climáticas o controle biológico exige conhecimento da bioecologia do inseto-alvo. Monitoramentos constantes nas lavouras
O monitoramento consiste no acompanhamento da ocorrência da praga na cultura, assumindo o critério de que as medidas de controle sejam adotadas apenas com o objetivo de diminuir a densidade populacional do inseto para níveis que não causem danos de importância econômica. Como ainda não há dados conclusivos
sobre os níveis de controle para a tomada de decisão nas aplicações de inseticidas para mosca branca em soja, medidas de controle estão sendo utilizadas com base apenas na observação da presença da praga nas folhas da cultura e, o que é pior, muitas vezes a tomada de decisão é baseada na presença de fumagina nas folhas, o que já se torna um problema, pois significa que se está controlando a referida praga “às cegas” ou tardiamente. Portanto, é imprescindível que o produtor ou o técnico responsável pela área faça inspeções pelo menos uma vez por semana na cultura, com o intuito de identificar focos de infestações, tendo em vista que depois da primeira migração de adultos, a colonização pode aumentar drasticamente. Também são importantes estas vistorias para identificar a presença das formas jovens na parte inferior das folhas, pois devem ser controladas na medida do possível, mas são frequentemente ignoradas pelo produtor, talvez por desconhecimento ou mesmo porque o agricultor não as visualize devido, principalmente, ao seu pequeno tamanho e localização. Quando o produtor se dá conta, a população deste inseto já se estabeleceu e com grande possibilidade de que esteja em percentuais muito altos nos baixeiros das plantas de soja, como já descrito anteriormente, o que pode inviabilizar ou mesmo comprometer qualquer aplicação de inseticida, já que estarão protegidas por um emaranhado de folhas da própria cultura e, provavelmente, no último estágio de ninfa, em que possivelmente não se alimente mais. Portanto, as fases da praga devem ser consideradas na tomada de decisão, pois dependendo da proporção de ovos, ninfas, pseudopupas e adultos, é possível optar por inseticidas de diferentes modos de ação, sendo que a escolha errada
Caso o produtor, após a colheita, tenha sua área coberta por tigueras de soja, deve eliminá-las antes que a praga conclua um ciclo na planta
pode acarretar em gastos desnecessários, onerando ainda mais o custo de produção da cultura. O nível de infestação de mosca branca (adultos/planta) cresce linearmente com o tempo devido à migração dos adultos provenientes de outros cultivos, portanto, essa fase da praga pode ser monitorada de duas formas: utilizando armadilhas confeccionadas com materiais plásticos pintados de amarelo e untados com uma substância oleosa. O inseto atraído pela cor ficará aderido ao substrato oleoso, permitindo que se constatem os primeiros adultos. Outra forma seria o caminhamento em ziguezague de modo a percorrer todo o plantio, quantificando o número de adultos em 50 folíolos do terço superior, considerando-se infestadas as plantas que apresentarem dez ou mais adultos/folíolo. Para ovos e ninfas deverá ser realizada uma estratificação vertical da planta. A observação e a quantificação poderão ser feitas utilizando-se uma lupa de bolso com aumento mínimo de 60 vezes. Deve-se iniciar o caminhamento em ziguezague
pelo talhão a ser amostrado, escolher o primeiro ponto aleatoriamente e neste coletar três folíolos (um no ponteiro, outro no terço médio e por fim no baixeiro, separando-os em sacos plásticos devidamente etiquetados). Para padronizar a coleta, sempre escolher nas folhas de soja o foliolo do meio. Assim, o procedimento deverá ser repetido até que atinja no mínimo 12 pontos coletados. A quantificação deverá ser realizada em apenas 2cm²/folíolo, sempre separando as fases em: ovo, ninfa móvel, ninfa clara e pseudopupa (conforme a Ficha de Avaliação) para que possa, segundo a quantidade média encontrada de cada fase, tomar uma decisão assertiva em relação a controlar ou não a praga e também na escolha do produto (seja químico ou biológico) mais apropriado para a fase predominante naquele talhão. Com certeza a real constatação da predominância de ninfas claras (aquelas de segundo até início do quarto instar), pode determinar o bom desempenho de produtos sistêmicos ou translaminares de
Cecília Czepak
Ficha de campo para avaliação das diferentes fases da mosca branca
Plantas mais novas são preferidas pela praga para a colocação de ovos, pois possuem maior quantidade de nutrientes e água disponíveis
ação ninficida, pois como a alimentação nesta fase é contínua, a ação de tais produtos será otimizada. Estes monitoramentos devem ser realizados preferencialmente pela manhã, tentando não afugentar os adultos e 24 horas após precipitações intensas. Também é importante que o produtor saiba que o intervalo crítico de estabelecimento da praga se dá nos primeiros 60 dias da cultura, pois a partir do fechamento da soja, as dificuldades de controle aumentam e a probabilidade de se ter uma redução na população sem grandes prejuízos na produção final diminuem bastante e os custos no controle aumentam consideravelmente. Optar por espécies e cultivares resistentes ou tolerantes
O uso de cultivares resistentes ou tolerantes seria uma das formas mais baratas de controle. Porém, isso dependerá de cada produtor, pois nem sempre existe um ajuste perfeito entre a cultivar favorita e a resistente. Um exemplo disso seria o uso de cultivares glabras (desprovidas de pelos), pois em geral, são menos preferidas
pela mosca branca para oviposição que as de folhas pilosas Culturas armadilhas
A cultura armadilha ou planta-isca é uma prática muito antiga, que se baseia no plantio antecipado ou não de uma cultivar ou mesmo espécie diferente mais atrativa para a praga que a cultivar de interesse, onde se pode plantar em áreas marginais ou em faixas intercaladas à cultura, com o objetivo de estimular a praga em preterir ou retardar a colonização da cultura definitiva. Tal prática foi utilizada em cultivos de algodão com o gergelim como cultura armadilha, sendo que essa cultura foi capaz de reduzir o número de aplicações de inseticidas contra a praga-alvo. Porém, segundo os autores, para se ter sucesso nesta prática deve-se levar em conta alguns pontos, como, por exemplo: a escolha da variedade de gergelim e o plantio do gergelim nas bordaduras utilizando três a cinco fileiras para áreas pequenas (até 5ha) e dez fileiras para áreas maiores (a partir de 10ha). Os mesmos autores ressaltam que a
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cultura-armadilha de gergelim deve ser monitorada constantemente, para que não se torne um foco de disseminação da praga, para a cultura principal. Se o gergelim for abandonado, poderá causar um problema maior que o previsto, principalmente se as condições forem favoráveis ao desenvolvimento da mosca branca, ou seja, clima seco e quente. Medidas fitossanitárias obrigatórias
O vazio sanitário, já estabelecido em alguns estados do Centro-Oeste para culturas como tomate e feijão, é uma ferramenta “auxiliar” para a redução desta praga e das doenças que transmite, porém deveria ser seguido por todos os estados produtores e em outras culturas hospedeiras para que se iniciasse um processo de quebra generalizada do ciclo desta praga tão importante para o País. Controle químico do complexo de moscas brancas
O controle da mosca branca em soja e também em outras culturas ainda é realizado quase que exclusivamente por meio de produtos sintéticos, portanto, é importante que as empresas produtoras de
agroquímicos possam oferecer ao produtor compostos mais modernos, que apresentem eficiência no controle da praga em seus diferentes estágios, sem, contudo, provocar efeitos indesejaveis. Assim, o uso de produtos seletivos, ou seja, aqueles com potencial para controlar a praga a níveis aceitáveis, sem, no entanto, causar efeitos deletérios aos inimigos naturais é uma importante estratégia dentro do Manejo Integrado tanto para a cultura da soja como para outros cultivos hospedeiros da praga em questão. A adoção de agroquímicos de forma indiscriminada, com o objetivo de controlar a mosca branca, pode acarretar inúmeros problemas tanto para o meio ambiente como para o homem. Além disso, segundo a pesquisa o problema fitossanitário criado por B. tabaci é muito complexo por estar relacionado a diversos fatores, tais como a grande plasticidade genética, partindo do princípio que seja um complexo de moscas brancas; a ampla variedade de hospedeiros; a capacidade de transmitir vírus pertencentes a vários grupos, principalmente geminivírus; a presença de enorme variabilidade genética para a evolução de resistência a inseticidas e, por fim, a facilidade com que se movimenta de forma constante entre plantas da mesma área, entre áreas cultivadas e entre hospedeiros. Portanto, não é surpreendente que esse complexo de espécies tenha causado uma crise de proporção mundial. O uso de agroquímicos, dentro de um programa de manejo integrado da mosca branca, pode apresentar uma resposta imediata se forem estabelecidos alguns cuidados, como usar inseticidas em função da eficiência, da fase da praga (Tabela 1), da seletividade sobre inimigos naturais e insetos polinizadores, do poder residual e do grau de toxidade sobre o homem e os animais. Antes das aplicações e sempre que possível, o produtor ou técnico responsável deve monitorar as áreas de cultivo e suas imediações, observando a planta em diferentes pontos e avaliando a incidência de adultos, ninfas e ovos da mosca branca. Em situações em que se constata a presença de ninfas, optar por inseticidas que possam controlar esta fase também. Isto porque muitas vezes o aumento da incidência de adultos na lavoura é reflexo de um controle inadequado de ninfas, pois
se desenvolvem, frequentemente, livres de qualquer tipo de controle por parte do produtor. Portanto, o manejo adequado de mosca branca exige conhecimento de sua biologia, bem como o conhecimento de como cada inseticida pode afetá-la. Além disso, para aperfeiçoar o controle da mosca branca, ao contrário do que normalmente tem sido feito, as pulverizações devem ser iniciadas, primeiramente nas bordaduras ou ao redor das áreas plantadas e depois em seu interior, pois deste modo será formada, na própria lavoura, uma pequena barreira de contenção, evitando que os adultos da mosca branca migrem para áreas não pulverizadas. Também se recomendam aplicações de inseticidas em volumes de calda adequados e nas horas mais frescas do dia, para atingir a face inferior das folhas e se possível sem vento. Torna-se importante para um efetivo controle a rotação de inseticidas, levando-se em conta o sítio de ação de cada produto utilizado. Isto porque pesquisas realizadas em diversos países, inclusive no Brasil, têm comprovado a evolução da resistência de B. tabaci aos principais
grupos químicos de inseticidas, que vão desde organofosforados, piretroides, carbamatos, reguladores de crescimento, neonicotinoides, até a própria resistência à sua combinação. E somente a implantação de programas de manejo da resistência no Brasil poderia diminuir ou mesmo resolver estes problemas, como já estão fazendo países como EUA, Israel e Espanha. Enfim, seja qual for a cadeia produtiva em que a praga esteja presente torna-se necessário que as medidas a serem adotadas tenham por objetivo não somente o controle da praga, mas também a sustentabilidade do que se produz, sempre respeitando o meio ambiente e consequentemente melhorando a qualidade da C produção agrícola como um todo. Cecilia Czepak, Matheus Le Senechal, Karina C. A. Godinho, Humberto O. Guimarães, Matheus F. J. Barbosa, Matheus R. de M. Lima, Rafael F. Silvério, Igor D. Weber e Alexandre S. G. Coelho, Universidade Federal de Goiás
Figura 1 - Fases da mosca branca
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Soja
Presença antecipada Gilvane Luis Jakoby
Em geral a presença de percevejos na cultura da soja está diretamente relacionada à existência de vagens nas plantas. Contudo, nas últimas safras, esses insetos têm chegado mais cedo e com maior intensidade às lavouras, o que demanda atenção. O manejo da praga continua a exigir monitoramento, de modo a permitir a correta tomada de decisão de controle e a aplicação de inseticidas no momento adequado
O
s percevejos representam um dos grupos mais importantes de insetos-praga da cultura da soja, devido à alimentação direta nas vagens. Várias são as espécies que ocorrem nessa cultura. A espécie de maior frequência e importância econômica é Euschistus heros (percevejo-marrom) seguido de Piezodorus guildinii (Percevejo-verde-pequeno). Outras como Nezara viridula, Acrosternum sp., Edessa meditabunda, Neomegalotumus parvus e Dichelops melacanthus são consideradas espécies secundárias,
porém, formam um complexo de percevejos que devem ser observados com muita atenção pelos produtores, por apresentarem os mesmos hábitos e causarem danos semelhantes às principais espécies. Dentro do comportamento dos percevejos, é interessante conhecer seus hábitos para facilitar o controle. O conhecimento da dinâmica populacional e preferência alimentar dos percevejos é de grande importância para as tomadas de decisões no manejo, com o objetivo de reduzir a população destes insetos nas próximas safras e
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compreender o aumento substancial de suas populações nos últimos anos. Os primeiros insetos que chegam à soja são normalmente percevejos velhos, cujo vigor já está comprometido, com baixa capacidade reprodutiva e curta longevidade. Em geral, sua presença na cultura está diretamente relacionada à presença das vagens nas plantas, cujo período entre o começo da frutificação e o ponto de acúmulo máximo de matéria seca no grão é o de maior sensibilidade da soja ao ataque desses insetos sugadores. Entretanto, atualmente, devido às altas popula-
Figura 1 - População de Euschistus heros em diferentes manejos durante a fase reprodutiva da cultura da soja. As setas indicam o momento das aplicações em cada manejo. Safra 2015/16
ções, os percevejos estão chegando com maior intensidade, mais cedo nas lavouras e populações elevadas podem ser observadas ainda no período vegetativo da cultura. Fato que tem gerado muitas dúvidas aos produtores quanto à necessidade de se realizar o manejo ainda na fase vegetativa. Dados científicos demonstram que na fase de desenvolvimento vegetativo até a floração, os percevejos não causam danos à cultura da soja. No entanto, frente às elevadas populações de percevejos observadas nas últimas safras no período vegetativo, o tema merece atenção especial, principalmente por parte da pesquisa, a fim de acompanhar a evolução da praga na lavoura. A manutenção desses percevejos presentes na fase final do período vegetativo e do florescimento, se não realizada, possivelmente pode gerar um aumento populacional no início da formação das vagens, com dificuldades de controle em função do processo de multiplicação desses insetos dentro da lavoura, que se alimentaram das vagens em formação, podendo provocar seu abortamento. No vegetativo, a colonização ocorre principalmente por percevejos velhos, em fase final de seu ciclo biológico e com baixa atividade alimentar e reprodutiva. Por falta de alimento preferencial (grãos) no vegetativo, as ninfas não conseguem chegar à fase adulta, geralmente morrem antes do período crítico, não causando danos à cultura. No entanto, em função dos diferentes ciclos de desenvolvimento das variedades de soja presentes no
mercado, com presença de cultivos em diferentes estádios de desenvolvimento, pode ocorrer o processo de deslocamento desses insetos de áreas mais tardias para as mais novas, gerando maiores danos à cultura em função da viabilidade e alta taxa alimentar e reprodutiva dos percevejos. Portanto, cabe uma decisão particular para cada área de cultivo de controlar ou não os percevejos na fase final do vegetativo e do florescimento, levando em conta a época de colonização, o grupo de maturação da variedade presente e o estádio de desenvolvimento das plantas, bem como a densidade populacional de percevejos. O maior problema ocasionado pelos percevejos fitófagos na cultura da soja está na fase de enchimento de grãos e se estende até a colheita. A partir do início da floração os percevejos começam a reprodução na soja (R1), época em que as populações, principalmente de ninfas, começam
a aumentar (chamado de período de alerta). Com o início da formação das vagens (R3) é que os danos de percevejos se tornam importantes, necessitando de vistorias constantes nas lavouras (com auxílio de pano de batida) por parte dos produtores até a fase de maturação. Ao final do desenvolvimento das vagens (R4) e início de enchimento de grãos (R5) se dá a fase mais suscetível ao ataque dos percevejos. É quando são observados os maiores danos nas sementes, provocando redução no rendimento. Próximo à maturação, no final da fase de enchimento de grãos (R6), as populações atingem picos máximos, principalmente por percevejos migratórios vindos de lavouras vizinhas em fase de colheita. O monitoramento dos percevejos na fase final do estádio reprodutivo, a partir do estádio R7, é fundamental, visto que podem provocar danos à cultura principalmente quanto à qualidade dos grãos. Este monitoramento e controle das populações de percevejos na fase final do reprodutivo da cultura da soja se torna ainda mais importante quando a área é destinada ao cultivo de milho safrinha. Grande parte da população de percevejos, principalmente as ninfas, após a colheita da soja, permanece na área, abrigada na palhada e nas plantas daninhas. Após a emergência do milho, esses percevejos irão se alimentar das plantas de milho provocando danos através da injeção de toxinas no colo das plântulas durante a alimentação, causando redução de vigor, estande e perfilhamento nas plantas. Desta forma, o controle dos
Figura 2 - Gráfico evidenciando o período de desproteção da cultura e o aumento populacional de E. heros durante a fase de enchimento de grãos no manejo calendarizado
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Fotos Jurema Rattes
Figura 3 - Qualidade de grãos de soja em função do manejo adotado para o controle de E. heros na cultura da soja. Safra 2015/16
percevejos no final do ciclo da soja auxilia na redução da praga, evitando danos e quebra no rendimento em função dos danos provocados na fase inicial de desenvolvimento da cultura do milho. Os danos causados por esses insetos na cultura da soja vão desde o chochamento e má-formação dos grãos até o abortamento das vagens. Além da redução da qualidade, da viabilidade e do vigor, as sementes de soja danificadas por percevejos sofrem alterações nos teores de proteínas e de óleo, e aumento na porcentagem de ácidos graxos livres. Os grãos atacados ficam menores, enrugados, chochos e com cor mais escura que o normal. Os danos dos percevejos ocorrem através da inserção de seus estiletes (aparelho bucal do inseto), onde injetam substâncias histolícas, extraindo porções líquidas e nutritivas para a alimentação. Os danos são observados ao cortar os grãos no sentido transversal ao cotilédone e no local da punctura. Na película do grão são observadas desde manchas bem claras a manchas escuras que podem se apresentar, no local, também em forma de depressões ou em relevos. Na polpa dos cotilédones, as manchas características mais comuns são as brancas, mas podem se apresentar, também, com coloração verde e até preta. No local da picada no grão pelo percevejo, provocada pela penetração do estilete, há uma ruptura do tegumento que serve como porta de entrada para micro-organismos. O monitoramento dos percevejos através do uso do pano de batida é o método mais eficaz de amostragem e captura desses insetos. De forma alguma, a tomada de decisão quanto ao controle deve ser tomada com base na análise visual da praga na lavoura.
No entanto, o monitoramento tem sido deixado de lado por parte de produtores e consultores, optando pela aplicação “calendarizada” ou aplicação de carona junto a herbicidas e fungicidas, sem o conhecimento da população de percevejos presentes no campo. Muitas das vezes, as aplicações calendarizadas são realizadas sem a presença da praga ou em baixas populações, ou com índices populacionais muito altos, comprometendo a performance dos inseticidas aplicados. O monitoramento bem realizado, com o auxílio do pano de batida, proporciona ao produtor realizar as aplicações de inseticidas nos momentos certos, com presença do inseto na área e em populações controláveis através da aplicação dos inseticidas. Na safra 2015/16 foi realizado um trabalho pela equipe da Rattes Consultoria e Pesquisa Agronômica em parceria com a Universidade de Rio Verde (UniRV), comparando o manejo de E. heros, realizado com base no monitoramento e com base nas aplicações calendarizadas. No manejo 1 (Man. 1), com base no monitoramento, as aplicações de inseticidas foram realizadas com população de 0,5 percevejo a 1 percevejo por metro. Para o manejo 2 (Man. 2), as aplicações de inseticidas
foram realizadas sem levantamento populacional da praga, levando em consideração as aplicações de fungicidas programas da fazenda. Após maturação da cultura foi realizada a colheita manual das plantas de soja para posterior debulha manual, a fim de se obter o rendimento e a qualidade dos grãos. Os grãos foram classificados em sadios, danificados (manchados e com característica de picada de percevejo) e chochos. Independentemente do manejo utilizado, seja com base no monitoramento ou calendarizado, foram realizadas três aplicações de inseticidas durante a fase reprodutiva da cultura da soja para o controle do percevejo marrom E. heros. Embora os manejos adotados não tenham apresentado números diferentes de aplicações, estas foram realizadas em diferentes estádios de desenvolvimento da cultura (Tabela 1). No Man. 2 (calendarizado) a primeira aplicação de inseticida para o controle de percevejos foi realizada no estádio R3, com ausência da praga, conforme Figura 1. Como já mencionado, as aplicações calendarizadas para o controle de percevejo têm ocorrido de forma frequente entre os produtores, sem levar em consideração o nível populacional da praga, implicando baixo controle da praga e grande impacto sobre a população de inimigos naturais. Como os inseticidas disponíveis no mercado têm apresentado um baixo período nocivo aos percevejos, as aplicações realizadas com a ausência dos insetos nas lavouras não apresentaram nenhum efeito sobre as populações que possam infestar a lavoura em alguns dias após a aplicação. Portando, as aplicações calendarizadas, em grande parte das vezes, são des-
Figura 4 - Momento da colheita e retirada das amostras para verificar o número médio de percevejos coletados na descarga da colhedora, em função do manejo adotado
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Tabela 1 - Número de aplicações e inseticidas utilizados para o controle de E. heros na cultura da soja de acordo com cada manejo. Safra 2015/16 Manejo Man. 1
Man. 2
Data da aplicação Estádio de desenvolvimento da cultura R5.2 14/02/16 R5.5 04/03/16 R6 11/03/17 R3 24/01/16 R5.5 24/02/16 R5.5 04/03/16
perdiçadas, provocando desequilíbrio no ecossistema, aumentando o custo de produção e agravando ainda mais o processo de resistência já comprovada aos principais inseticidas indicados para o controle. A infestação de percevejo se iniciou a partir do estádio R5.1/R5.2, com índice populacional para a primeira aplicação no Manejo 1 (monitoramento). Ao se analisar a Figura 1, verifica-se que a primeira aplicação no Manejo 1 proporcionou uma redução na população de E. heros, e em contrapartida, no Manejo 2, houve um aumento crescente da população, deixando as vagens e os grãos desprotegidos durante a fase crítica ao ataque de percevejo, de R5.1 a R5.4 (Figura 2). Ao realizar a comparação dos dois manejos, verifica-se que no Manejo 1 houve menor densidade de percevejos na cultura durante a fase reprodutiva, em função do controle na fase inicial de infestação, impedindo e/ou reduzindo o processo de multiplicação dentro da lavoura. Já no Manejo 2 (aplicação calendarizada), em função da falta de monitoramento da população, as aplicações não proporcionaram um bom controle sobre a população da praga, possivelmente em função das épocas das aplicações, seja com
Inseticidas (i.a) Imidacloprido & Betaciflutrina Imidacloprido & Betaciflutrina Acefato Imidacloprido & Bifentrina Imidacloprido + Bifentrina Imidacloprido + Bifentrina
Doses i.a ha 100 & 12,5 100 & 12,5 750 75 & 15 175 + 25 175 + 25
ausência desses insetos na primeira aplicação ou pelas populações altas já estabelecidas. As aplicações de inseticidas, realizadas no momento correto, obtido através do monitoramento, refletiram em maior rendimento da cultura, assim como proporcionaram maior qualidade de grãos, com menor peso de grãos danificados e chochos em função do ataque de E. heros (Figura 3). A perda de rendimento em função da qualidade de grãos nem sempre é contabilizada pelo produtor, em função do descarte dos grãos (chochos) durante o processo de colheita, junto à palhada. O manejo Monitoramento (Man. 1) obteve um rendimento superior a quatro sacas de soja por hectare em relação ao manejo calendarizado, com o mesmo número de aplicações de inseticidas, porém, aplicado no momento correto. No momento da colheita, durante o processo de descarga dos grãos para o caminhão, foram coletadas 20 amostras (pote com peso médio de 3,5kg de soja) em cada manejo, para contagem do número de percevejos presentes.
Tabela 2 - Rendimento e qualidade de grãos em função do manejo utilizado para o controle de E. heros na cultura da soja. Safra 2015/16 Manejo Man. 1 Man. 2
Qualidade de grãos1 Rendimento Kg/ha Sacas/ha Sadios Danificados Chochos 2,02* 4.395 73,25 980,23* 16,62* 36,54 3,75 4.143 69,05 901,36
1 Média de 50 plantas. *Significativo pelo teste F.
Extrapolando o número de percevejos coletados nas amostras para um rendimento de quatro mil quilos de soja por hectare, foi obtida uma média de 4.628 percevejos por hectare no manejo Monitoramento, contra uma população média de 39.600 no manejo calendarizado. Esses dados reforçam a necessidade do monitoramento e do controle de percevejos na fase final do ciclo de desenvolvimento da soja, contribuindo para uma menor pressão desses insetos na fase inicial de desenvolvimento da cultura do milho semeado em safrinha. Os resultados mostram a importância do monitoramento no manejo de percevejos na cultura da soja para a tomada de decisão, visto que a aplicação calendarizada ou associada a fungicidas em função do critério operacional pode ocorrer em momentos não adequados para a tomada de C decisão e população da praga. Jurema F. Rattes, Universidade de Rio Verde-UniRV Rattes Cons. Pesq. Agronômica Gilvane Luis Jakoby, Rattes Cons. Pesq. Agronômica
Figura 5 - Número médio de percevejos coletados na descarga da colhedora, em função do manejo adotado. Dados extrapolados para um rendimento médio de 4.000 quilos de soja ha-1. Safra 2015/2016
Jurema e Jakoby ressaltam a importância do monitoramento para tomada de decisão de controle
40 Outubro 2017 • www.revistacultivar.com.br
Cana
Trio agressivo Fotos Carlos Alberto Azania
Batizadas de “3Ms”, mamona, mucuna-preta e Merremia cissoides são plantas daninhas caracterizadas por extrema agressividade ao canavial por conta de aspectos como pouca exigência por luz, dormência e tamanho das sementes, além de rápido crescimento inicial. Seu controle químico exige escolha correta de herbicidas e aplicação no momento adequado
O
termo “3Ms” é usado para representar as espécies daninhas de mamona (Ricinus communis), mucuna-preta (Mucuna aterrima) e cipó-cabeludo (Merremia cissoides). Juntas, formam um “time agressivo” que impacta negativamente o estabelecimento e a produtividade da cana-de-açúcar. Merremia cissoides é conhecida como corda-de-viola, campainha, merremia, cipó-cabeludo. São plantas que possuem ciclo
anual, são herbáceas com hábito trepador (envolve-se nos colmos da cana-de-açúcar) e seus ramos atingem entre 2m e 4m de comprimento, além de possuírem folhas largas. A reprodução se dá por sementes. Sem manejo, seus ramos crescem sobre a copa do canavial, o que diminui a passagem de luz solar às plantas de cana-de-açúcar. Com isso, o processo de fotossíntese é prejudicado, interferindo na produtividade do canavial, no acúmulo de sacarose nos
42 Outubro 2017 • www.revistacultivar.com.br
colmos e na operacionalidade da colhedora mecânica. Ricinus communis é conhecida como mamona, carrapateira, rícino, mamoeira, palma-de-cristo e carrapato. Suas plantas são arbustivas e seus caules formam troncos lenhosos quando muito adultas. Possuem folhas e sementes grandes, que são lançadas a longas distâncias e colaboram com a disseminação da espécie. Na cana-de-açúcar, suas folhas grandes atrapalham o desenvolvimento da cultura devido a interferirem na absorção de luz solar pela cana-de-açúcar. Também seus caules lenhosos prejudicam o rendimento operacional da colheita mecânica. Mucuna aterrina é conhecida como mucuna-preta devido à cor de suas sementes e pode ser usada como adubo verde devido à capacidade em fixar nitrogênio atmosférico ao solo (fixa entre 170kg/ha e 210kg/ha de N), também fornece matéria orgânica após a decomposição de sua massa vegetal (até 40t/ha). Devido à dormência das sementes, passou a enriquecer os bancos de sementes no solo e a se estabelecer em meio aos canaviais, interferindo negativamente, sendo considerada planta daninha. Sua elevada massa vegetal acama os colmos da cultura, podendo até mesmo levá-los à morte. Também dificulta a operacionalidade da colheita mecânica porque seus ramos travam constantemente as partes internas da colhedora. BIOLOGIA DAS ESPÉCIES E O IMPACTO NO MANEJO As características de agressividade dessas espécies podem ser observadas desde as sementes, que têm um espesso tegumento que protege o embrião das variações de temperatura, luz e umidade do meio externo. Como consequência, a semente protegida pelo tegumento mantém os tecidos internos íntegros, particularmente o embrião. Assim, enquanto “durar” a proteção conferida pelo tegumento, a semente fica no estado conhecido como dormência, ou seja, permanece com o embrião vivo, porém, não entra no processo de germinação. Na prática, a característica de agressividade “dormência da semente” dificulta o controle químico das 3Ms, seja em pré ou pós-emergência. Na pré-emergência, os herbicidas aplicados no solo somente serão eficazes no controle das espécies se suas sementes entrarem no processo de germinação. Ocorre que a molécula que está disponível na solução do solo “caminha” com a água absorvida pela semente assim que sai do
estado de “dormência”. Com isso, moléculas de herbicidas atingem os tecidos no interior da semente e exercem o controle esperado. Ao contrário, as sementes que continuaram dormentes permanecem no solo sem que o herbicida aplicado exerça o controle. Posteriormente, as sementes que entrarem no processo de germinação depois da degradação da molécula no solo poderão estabelecer as plântulas sem interferência do herbicida. Situação conhecida na prática como “escape de controle”. Além da “dormência” nas sementes e da pouca exigência em luz para germinação e estabelecimento das plantas, as 3Ms possuem outra característica de agressividade
que dificulta o controle químico: o tamanho necessária ao desenvolvimento passa ser das sementes. As sementes de mamona e a produzida pelo aparato fotossintético. mucuna-preta conseguem germinar de até Na prática, a molécula herbicida precisa 20cm de profundidade no solo, enquanto estar em quantidade suficiente na solução o cipó-cabeludo até de 10cm (Figura 1). do solo, até 20cm de profundidade, para que Como possuem tamanho maior, co- seja absorvida no processo de germinação. nhecidas por sementes grandes, possuem Com isso, o produtor precisa estar atento maior quantidade de material de reserva no ao posicionamento do herbicida, que deve interior da semente. Durante o processo de ficar em profundidade no solo, facilitando germinação e estabelecimento, as plântulas a absorção pelas sementes que saírem da retiram energia do material de reserva con- dormência. Geralmente, herbicidas com tido na semente. Assim que as plântulas solubilidades intermediárias possuem maior atinjam a superfície do solo, o proces- Figura 2 - Merremia cissoides em diferentes profundidades de semeadura sem a so de fotossíntese é influência de herbicidas aplicados em pré-emergência aos 60 dias após semeadura. iniciado e a energia Instituto Agronômico, 2017
Figura 1 - Número de plantas de Merremia cissoides, Mucuna aterrima e Ricinus communis em diferentes profundidades de semeadura e influenciadas por aplicação em pré-emergência dos herbicidas amicarbazone (1.400g/ha) e sulfentrazone (800g/ha) aos 60 dias após aplicação. Instituto Agronômico, 2017
Figura 3 - Mucuna aterrima em diferentes profundidades de semeadura sem a influência de herbicidas aplicados em pré-emergência aos 60 dias após semeadura. Instituto Agronômico, 2017
Figura 4 - Ricinus communis em diferentes profundidades de semeadura sem a influência de herbicidas aplicados em pré-emergência aos 60 dias após semeadura. Instituto Agronômico, 2017
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Carlos Alberto Azania
facilidade de manejo para essas espécies. Na pós-emergência, o controle químico também é dificultado porque a emergência das 3Ms pode ocorrer quando o canavial está mais desenvolvido. Nesse caso, outra característica de agressividade é observada: a capacidade de germinar e desenvolver-se mesmo em restrita condição de luz. Situação comum em canaviais após os 90 dias do plantio, quando a cana-de-açúcar sombreia parte significativa do solo. Também ocorre com frequência logo após a colheita no sistema de cana-crua, por deixar depositada camada de palha de até 12t/ha, o que altera a qualidade de luz na superfície do solo. Entretanto, a aplicação do herbicida em pós-emergência exige mais infraestrutura por parte do produtor, como o uso de pingentes na barra de pulverização, tratores mais elevados (trâmpulos) ou ainda recursos humanos treinados para catação química com uso de bombas costais. Também há menor portfólio de herbicidas para uso em pós-emergência e, devido à ausência ou ao curto efeito residual no solo, precisam ser manejados em duas ou até três aplicações ao longo do ciclo do canavial. Além das características de agressividade, pouca exigência em luz, dormência e tamanho das sementes, as 3Ms também possuem o rápido crescimento inicial como outra característica de agressividade. Na prática, o rápido estabelecimento impacta em dificuldade no controle químico pós-emergente, pois à medida que a planta se desenvolve, seus tecidos internos se tornam especializados, sendo uma barreira à absorção e translocação dos herbicidas. Com isso, poucos herbicidas pós-emergentes conseguem controlar eficazmente as 3Ms. A massa vegetal que as 3Ms produzem é tamanha que pode até mesmo matar o canavial. Suas plantas têm hábito trepador e ao envolver-se nos colmos da cultura os acamam sobre o solo, levando-os muitas vezes à morte. Por conseguirem entrar no processo de germinação em qualquer estágio do canavial (devido à dormência das sementes associada à pouca exigência de luz no processo de germinação) e associadas às dificuldades de controle em pós-emergência, as 3Ms têm sido consideradas plantas agressivas e impactantes ao estabelecimento e à produtividade do canavial. Simultaneamente ao seu desenvolvimento, a produção de sementes é evidente, sendo a elevada capacidade de produção outra característica de agressividade que se soma às demais (tamanho, dormência, rápido crescimento). À medida que as
R. communis a 10cm de profundidade de semeadura sem herbicidas aplicados em pré-emergência
sementes são produzidas, caem no solo, enriquecendo-o com mais propágulos. MANEJO O manejo cultural da cana-de-açúcar que permita o rápido sombreamento do solo pela cultura não é suficiente para conter as espécies 3Ms. Ressalta-se que essas espécies, mesmo em condições de restrição de luz, conseguem entrar no processo de germinação e estabelecimento. Tal manejo pode até dificultar a aplicação do herbicida em pré-emergência das 3Ms, se na ocasião da aplicação a cana estiver muito desenvolvida (efeito “guarda-chuva”). Nos canaviais, herbicidas como sulfentrazone e amicarbazone têm proporcionado controle interessante quando aplicados em pré-emergência. Esses produtos possuem solubilidade intermediária, o que facilita o “caminhar” das moléculas no solo. Também possuem baixa força de adsorção aos coloides do solo, o que colabora para que considerável parte dos herbicidas fique disponível na solução do solo. Devido às suas características físico-químicas, esses herbicidas têm sido ferramenta importante no manejo das 3Ms. Para o manejo no plantio dos canaviais (plantados por colmos de cana-de-açúcar), uma estratégia interessante é usar um dos herbicidas antes do plantio (20 dias a 15 dias de antecedência), em aplicações em pré-plantio e incorporado. Com isso, a molécula do herbicida ficará em profundidade mais adequada no solo, pois não se pode esquecer que mucuna-preta e mamona germinam até de 20cm de profundidade (Figura 1). Com o preparo do solo, sementes das 3Ms são revolvidas e o estímulo à germinação é mais comum, sendo que nesse momento, se houver herbicidas em quantidade suficiente na solução do solo, o controle é
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favorecido. Essa prática pode, inclusive, minimizar o banco de sementes do solo. Após o plantio do canavial, há necessidade de outra aplicação de herbicida, pois o revolvimento para a abertura dos sulcos de plantio pode trazer dificuldade de controle nas linhas da cultura. A nova aplicação em pré-emergência da cultura de 3Ms garante o controle até próximo aos 70 dias após plantio (Figura 1). Nessa ocasião, há necessidade de se fazer o nivelamento do canavial, ou seja, retirar o solo da entre linha e colocá-lo na linha da cultura (“quebra lombo”), operação que facilita a colheita mecânica. Caso o histórico de plantas daninhas da área indicar elevados percentuais de 3Ms, haverá necessidade de inserir no tratamento após “quebra-lombo” alguma outra molécula herbicida que seja eficaz sobre as 3Ms. Embora possa parecer exagero um manejo de plantio que englobe três tratamentos de herbicidas (antes do plantio, após o plantio na pré-emergência total e após o quebra-lombo), ressalta-se que uma única planta constituinte das 3Ms é suficiente para causar prejuízo ao estabelecimento do canavial, além de depositar no solo grande quantidade de sementes. Com isso, as soqueiras posteriores poderão receber menor quantidade de herbicidas, pois o banco de sementes foi trabalhado no plantio e a pressão de emergência das 3Ms será menor. Nas soqueiras pode-se fazer manejo com no máximo duas aplicações de herbicidas em área total, uma em pré-emergência logo após a colheita e outra antes do total fechamento do canavial. Se houver escapes significativos após o fechamento do canavial as aplicações de herbicidas devem ser feitas por catação química (pessoas treinadas com bomba costal) ou aérea (custo mais elevado). Certamente, é um manejo muito mais oneroso, muitas vezes com custos maiores em relação ao manejo sugerido no plantio. No manejo de soqueiras, há necessidade de posicionar o herbicida de acordo com a época do ano e sua solubilidade, de modo que a molécula transponha a camada de palha e atinja o solo o mais rápido possível. Quando o tempo hábil não permitir a aplicação em pré-emergência total (cana-de-açúcar e 3Ms), será necessário intervir também com aplicações de herbicidas de ação em pós-emergência, seguida dos herC bicidas de ação em pré-emergência. Carlos Alberto Mathias Azania, Venilton Bispo de Oliveira e Matheus Eduardo de Siqueira, IAC
Empresas
Manejo nutricional Divulgação
Entender o dinamismo da demanda de cultivares modernas por nutrientes e também o papel da fertilidade do solo nas principais culturas, em diferentes microrregiões do Brasil e da América do Sul, é etapa importante na busca pela elevação consistente do patamar produtivo
A
ciência do solo avançou muito nas últimas décadas, o que inclui grandes avanços na área de nutrição mineral de plantas. Apesar do progresso, há ainda um grande desafio em aplicar os conhecimentos obtidos no contexto da agricultura atual, considerando particularidades de cada microrregião e até mesmo individualmente nos talhões das fazendas. Frequentemente, muitas conclusões na área das ciências agrárias são baseadas em resultados obtidos em curto prazo, sendo realizada uma extrapolação para o futuro. Há muitas razões para evitar este tipo de abordagem, dentre elas a principal consiste no dinamismo da atividade agrícola, com variações climáticas, de atributos físicos, químicos e biológicos do solo, cultivares, incidência de pragas, doenças e plantas daninhas, entre outros. Em trabalhos relacionados à fertilidade do solo e nutrição de plantas, a avaliação de resultados obtidos com diferentes tipos
de manejo a longo prazo é fundamental. A “construção” da fertilidade de um solo pode ser um processo lento (principalmente em maior profundidade no perfil), com várias etapas de aprendizagem ao longo das safras e possibilidades de ajustes pontuais a cada período. Atualmente, grande parte do foco no manejo das culturas está nos fatores que reduzem a produtividade, como pragas, doenças e plantas daninhas. Isto se deve a vários motivos, por exemplo, o maior impacto visual e a maior facilidade em quantificar as perdas ocasionadas por estes fatores. Por outro lado, aspectos responsáveis por “construir” a produtividade, como o uso de sementes de alta qualidade, escolha correta da cultivar, data de semeadura, arranjo espacial e a precisão no manejo nutricional das plantas, em geral, são menos explorados. A Figura 1 ilustra os conceitos de produtividade atingível e explorável. O primeiro consiste em um valor teórico e
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inviável de ser utilizado na prática para aquela área, considerando as tecnologias e/ ou custos de produção em vigência. O segundo já é baseado em uma produtividade capaz de ser obtida com as tecnologias disponíveis e considera também custos de produção viáveis. Então, com base na produtividade atual e nas médias de produtividade obtidas nas últimas safras, podem ser definidas metas coerentes de aumento do potencial produtivo para as safras subsequentes, com o objetivo de alcançar a produtividade atingível. Nos últimos 20 anos, o agronegócio passou por uma revolução tecnológica, com cultivares de altíssimo potencial, novas biotecnologias, defensivos mais seletivos e máquinas cada vez mais inteligentes. A nutrição de plantas foi por muito tempo negligenciada, e muitas vezes se observam áreas com elevada adoção de tecnologia apresentando produtividades aquém do esperado, inclusive, colocando em risco a longevidade do negócio por menores
R.R. Rufino
rentabilidades com altos investimentos. Com objetivo de auxiliar o produtor a explorar melhor o potencial produtivo, a Agrichem começou em 2004 um projeto na busca por entender o dinamismo da demanda nutricional das cultivares modernas e da fertilidade do solo nas principais culturas, em diferentes microrregiões do Brasil e da América do Sul. Isto é realizado por meio de um trabalho contínuo de monitoramento e interpretação da composição mineral do solo (convencional e extrato de saturação forçada) e dos tecidos vegetais, para sempre aumentar a produtividade de maneira consistente através de adubação equilibrada. Um dos exemplos deste trabalho ocorre na Fazenda Mutuca, no município de Arapoti, Paraná, onde é aplicado um programa de monitoramento da fertilidade associado a recomendações de manejo nutricional há nove anos. A Figura 2 contém dados de uma análise química recente da área (2017), com fertilidade monitorada até 100cm de profundidade, enquanto a Figura 3 apresenta dados de crescimento médio de produtividade da Fazenda desde a safra 2005/2006. O aumento médio de produtividade obtido na Fazenda, apresentado na Figura 3, certamente também está associado a
O manejo nutricional ajuda na elevação consistente de patamar produtivo de culturas como a soja
vários outros fatores além do manejo nutricional; porém, este aspecto com certeza auxiliou em grande parte na elevação consistente de patamar produtivo, atenuando oscilações climáticas, dada a capacidade do solo em suportar a planta com água e oferta de nutrientes em equilíbrio, a partir de interferências precisas. Há dezenas de outras propriedades que adotam o programa de monitoramento nutricional com altos índices de retorno. Outro exemplo é a Fazenda São Carlos, em Unaí, Minas Gerais, onde este programa é aplicado há nove safras, havendo incrementos consistentes de
Figura 1 - Definições de produtividade de uma cultura, divididas em atingível, explorável e atual
produtividade e melhora constante da fertilidade do solo, além de maior equilíbrio nos índices nutricionais das culturas lá estabelecidas. No caso de culturas perenes, como o café, podem-se notar ganhos expressivos por conta do melhoramento progressivo da fertilidade do solo com esta ferramenta de manejo. Como exemplo, na Fazenda Padre Victor, localizada no município de Carmo do Rio Claro, Minas Gerais, a média obtida nas últimas seis safras foi de 106scs/ha, com um dos talhões chegando a 144scs/ha. Além disso, o monitoramento preciso da fertilidade do solo e das necessidades da cultura promoveu redução 15% nos custos com formulações NPK da fazenda. Esses exemplos reforçam que, invariavelmente, áreas com níveis elevados de produtividade dependem em grande parte de um manejo nutricional adequado. O uso das diversas tecnologias e ferramentas desenvolvidas para aperfeiçoar este manejo deve ser incentivado, para maior sustentabilidade e maximização do lucro C ao produtor rural. Marcos Altomani, Felipe Pozzan e Eduardo Rossini, Agrichem do Brasil
Figura 2 - Monitoramento da fertilidade do solo em diferentes profundidades na Fazenda Mutuca, no município de Arapoti (PR)
Figura 3 - Rendimento médio de grãos das culturas de trigo e soja da Fazenda Mutuca, localizada no município de Arapoti-PR
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Eventos
Aplicação aprimorada Fotos Cultivar
VIII edição do Sintag, em Campinas, São Paulo, debate aperfeiçoamento e possibilidades da tecnologia de aplicação de defensivos na era digital
C
om a presença de pesquisadores do Brasil e do exterior ocorreu em setembro, em Campinas, São Paulo, a VIII edição do Simpósio Internacional de Tecnologia de Aplicação (Sintag). O evento debateu o aprimoramento da tecnologia de aplicação de defensivos na era digital, bem como o futuro da agricultura mundial e a crescente demanda global por alimentos. A programação contou com palestras, premiação e exposição de soluções voltadas ao setor. O pesquisador científico do Centro de Engenharia e Automação do Instituto Agronômico (CEA/IAC) e coordenador do Sintag, Hamilton Ramos, lembrou que o Brasil registrou nos últimos 30 anos um salto tecnológico representativo em relação ao manejo de defensivos agrícolas. Para Ramos, a pesquisa agrícola ininterrupta obteve como principal conquista o pleno domínio do conhecimento da relação entre pragas, agroquímicos, máquinas e ambiente. “Até a década de 1990, agrônomos e técnicos aprendiam a manejar esses produtos com os agricultores, uma situação que resultava na repetição de erros e na ocorrência de falhas graves nas lavouras”, recordou. Empresas de defensivos, como a Dow AgroSciences, aproveitaram o evento para expor tecnologias e soluções. A coordenadora de Boas Práticas Agrícolas da companhia, Ana Cristina Pinheiro, reali-
zou um balanço das ações desenvolvidas. Uma das iniciativas reside no Programa de Aplicação Responsável, que de 2010 a 2016 atingiu aproximadamente 16 mil pessoas. O público é formado basicamente por produtores, filhos de agricultores, aplicadores e técnicos, espalhados por 17 estados brasileiros. Entre as ações está o uso de um simulador de deriva, desenvolvido em parceria com a Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp). O equipamento simula condições de aplicação, com diferentes pontas. Também são realizados testes nas propriedades com pulverizadores dos produtores. “Às vezes uma pequena troca ou ajuste pode proporcionar grandes benefícios”, lembra
Ramos destacou o salto tecnológico no manejo de defensivos agrícolas no Brasil nos últimos 30 anos
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Ana Cristina. O Programa de Boas Práticas Agrícolas da Dow AgroSciences é sustentado por quatro pilares: manejo de plantas daninhas, manejo integrado de pragas, tecnologia de aplicação e segurança do trabalhador, através de ações educativas in loco (treinamentos), como o Programa de Aplicação Responsável e Expedição Agricultura para a Vida; e por meio digital. Entre os principais erros cometidos pelo produtor está a tentativa de simplificar os processos, com o uso da mesma ponta para todas as aplicações, equipamentos descalibrados, pontas entupidas e dificuldades no uso do manômetro (ferramenta utilizada para medir a pressão dentro do sistema de pulverização). “Por isso o treinamento é tão importante”, frisou a coordenadora. O manejo de resistência de plantas daninhas é outro ponto focado pelo programa. De acordo com Ana Cristina o público reage de modo diferenciado, em cada região. “No Sul, onde este problema já está presente há mais tempo, os produtores acabam sendo mais sensíveis em relação aos Cerrados, por exemplo, onde a resistência a daninhas é mais recente”, pontuou. A Expedição da Agricultura para a vida em 2017 alcançou a marca de 27 mil quilômetros percorridos. Trata-se de um projeto itinerante que promove o treinamento de profissionais da agricul-
Vencedores do 4º Prêmio Dow AgroSciences de Tecnologia de Aplicação foram anunciados durante o Sintag
tura em boas práticas agrícolas, montado a partir de uma estrutura composta de um caminhão que leva treinamento para todo o Brasil. Achegada ao Brasil da tecnologia EnlistCare, prevista para 2019/2020, a Iniciativa 2,4 D, o Programa Acerte o Alvo, desenvolvido em parceria com o governo do Paraná, e a Plataforma Digital da companhia também estiveram entre as iniciativas destacadas.
PALESTRA
A participação da Dow AgroSciences no Sintag contou, ainda, com a presença da líder global de Pesquisa e Desenvolvimento para Produtos, Melissa Johnson, que palestrou sobre tendências em tecnologias de aplicação associadas às formulações já existentes e outras que serão lançadas pela companhia. Premiação Ainda dentro da programação do Sintag ocorreu a premiação dos melhores trabalhos destacados pelo 4º Prêmio Dow AgroSciences de Tecnologia da Aplicação. Os prêmios foram divididos em três categorias: Ouro, Prata e Bronze, com premiação de R$ 7 mil, R$ 4 mil e R$ 3 mil, respectivamente (veja o box com os premiados). “A premiação é uma importante ferramenta que nos permite a troca de conhecimento entre indústria e academia, o que é bastante relevante para o fomento da sustentabilidade do agronegócio, em termos de tecnologia de aplicação”, explicou a coordenadora de Boas Práticas Agrícolas da Dow AgroSciences, Ana Cristina Pinheiro. “A qualidade dos trabalhos é sempre surpreendente, pois apesar da questão ser bem técnica, a aplicação responsável está muito ligada à adoção de
boas práticas agrícolas. Este olhar tem que estar presente em todos os profissionais da área”, reforça. CLASSIFICAÇÃO DOS TRABALHOS PREMIADOS 1º lugar: trabalho desenvolvido por Vinícius Martins e equipe, da Universidade Estadual do Norte do Paraná (Uenp), campus Luiz Meneghel, sobre “Altura da barra de pulverização e deposição na cultura da soja”. 2º lugar: Fernando Kassis, da Agroefetiva, e equipe desenvolveu estudo sobre a “Taxa de aplicação e caracterização de pulverizadores utilizados no Mato Grosso em 2016” 3º lugar: “Espectro de gotas de caldas com Glyphosate, 2-4D e surfactantes em pontas de pulverização de jato plano com e sem indução de ar”, foi o trabalho desenvolvido pelo estudante de Sorocaba (SP), Mateus Francisco Paes de Queiroz, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), de Botucatu, e equipe.
SYNGENTA
A Syngenta também participou da VIII edição do Simpósio Internacional de Tecnologia de Aplicação (Sintag). Entre os destaques no estande da empresa esteve
Ana Cristina apresentou balanço das ações do Programa de Boas Práticas Agrícolas da Dow
o programa de Certificação Aeroagrícola Sustentável (CAS). “Somos apoiadores desta importante iniciativa”, explicou o coordenador de Tecnologia de Aplicação da Syngenta no Brasil, Caio Moreira. CAS é um programa voluntário de certificação e boas práticas na aviação agrícola que tem como objetivo aumentar a responsabilidade ambiental nas aplicações através do controle dos fatores que levam a uma pulverização eficaz e segura de defensivos. A realização é da Fundação de Estudos e Pesquisas Agrícolas e Florestais (Fepaf) com o apoio da Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef) e do Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag). São entidades coordenadoras a Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp - Botucatu), a Universidade Federal de Lavras (Ufla) e a Universidade Federal de Uberlândia (UFU). A Syngenta também levou ao Sintag o seu líder global em Tecnologia de Aplicação, Ronald Wohlhauser, que abordou o tema “Um produto somente é bom se C aplicado corretamente”. O repórter viajou a convite da Dow AgroSciences
Ronald Wohlhauser, Caio Moreira e Edemilson Marzochi, da Syngenta
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Tecnologia de aplicação
Deriva mitigada Charles Echer
O desenvolvimento de novos sistemas de aplicação de produtos fitossanitários focados em avanços em equipamentos e em formulações tem permitido melhores resultados no controle de plantas daninhas, com benefícios aos produtores e ao ambiente
A
permitem maior controle e otimização nas aplicações no campo, com objetivo de maximizar a eficácia dos produtos. Os avanços em tecnologias de bicos de pulverização para a redução de deriva também contribuem para garantir que os produtos alcancem o alvo desejado, o que minimiza o impacto na vegetação circundante, percursos hídricos e no ecossistema. O VIII Simpósio Internacional de Tecnologia de Aplicação (Sintag), realizado em setembro de 2017, em Campinas, São Paulo, destacou o progresso nessas áreas. Além dos avanços nos equipamentos
Melissa Johnson, Líder Global de Pesq. e Desenvolvimento para Produtos da Dow AgroSciences
Cultivar
Dow AgroScience
s tendências em tecnologia de aplicação na agricultura estão associadas ao desenvolvimento de novos sistemas de aplicação de produtos fitossanitários mais precisos e que, ao mesmo tempo, beneficiem tanto os produtores como o ambiente. Novas tecnologias, como Pulverizadores com Modulação de Largura (PWM – do inglês Pulse Width Modulation) e Pulverização por Injeção Direta
utilizados pelos produtores, as formulações dos produtos fitossanitários e a calda preparada nos tanques de pulverizações também desempenham um papel importante na redução do potencial de deriva. E colaboram, ainda, para que a indústria agroquímica mantenha ou amplie o acesso aos produtos fitossanitários, com comprovada eficácia no controle de ervas daninhas. Por exemplo, Enlist Duo Colex-D é uma nova formulação herbicida à base de sal de glifosato e sal de colina de 2,4-D com a tecnologia Colex-D incorporada na formulação, que confere a mesma ultrabaixa volatilidade, com potencial minimizado para deriva física e baixo odor. Quando aplicadas com um bico de pulverização apropriado para redução de deriva, as gotas finas com potencial de deriva são reduzidas em até 90% em comparação com uma mistura de tanque convencional. Com uma robusta tecnologia de redução de deriva incorporada na formulação, é mais fácil que os produtores sigam os requisitos estabelecidos nos rótulos e atinjam os C resultados esperados.
Melissa enfatiza avanços em equipamentos e nas formulações de defensivos agrícolas
Progressos em tecnologias de bicos de pulverização e aspectos que podem auxiliar a minimizar a deriva estiveram na pauta do VIII Sintag
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COLUNA AGRONEGÓCIOS
Por que o campo está esvaziando?
E
m 2012 fui convidado para ocupar a Secretaria de Agricultura do município de Londrina. Por intransponibilidade burocrática não foi possível aceitar o convite. Mas, como colaboração, elaborei um planejamento estratégico para um horizonte de dez anos, em que o principal indicador de sucesso seria a progressiva redução da taxa de migração campo-cidade, culminando com o seu estancamento. Ao elaborar o planejamento, considerei os múltiplos aspectos que afetam a vida de quem reside no meio rural, onde a rentabilidade da exploração agrícola é um dos seus componentes – por vezes sequer o determinante. Passados quase cinco anos, verifico no estudo do Ipea em colaboração com o Pnud/ONU e a Fundação João Pinheiro , o quanto eu estava na direção correta, e como este é, atualmente, um dos grandes desafios da sociedade brasileira: estancar a sangria populacional do campo rumo à periferia das cidades. Países da Europa, como Suíça e Alemanha, estão obtendo sucesso na empreitada, porém às custas de vultosos e portentosos orçamentos, o que, aparentemente, não é factível cá em Pindorama.
ANSEIOS
ou lá vá a um show ou a uma balada, é picado pela mosca azul e forte candidato a abandonar a vida no campo. Em consequência, vive-se hoje uma realidade em que as moças foram as primeiras a sair do campo, em busca de oportunidades. Seguiram-se os rapazes, não apenas à cata de uma vida melhor, mas de namoradas e futuras esposas. Os pais, quando não mais dispõem de energia suficiente, são forçados a vender a propriedade (quando encontram comprador). Assim, por falta de trabalhadores rurais e de jovens dispostos a suceder os pais nas lides da agricultura, observa-se um esvaziamento do campo. Um dos ícones dessa nova realidade é o outrora aterrorizador MST, que hoje não passa de um grupo de WhatsApp a ser mobilizado por lideranças comprometidas com determinadas ideologias, quando convém promover protestos nas cidades, tendo sido alcunhado pelo ex-presidente Lula como “o exército do Stédile”.
CAMPO x CIDADE
Conforme o Relatório Global de Desenvolvimento Humano (Pnud, 2016), o Brasil ocupa a 10ª posição no ranking da desigualdade (medida pelo coeficiente de Gini), de um total de 143 países estudados, o que o torna altamente desigual. Entre o campo e a cidade, a desigualdade nos indicadores é um destaque à parte. A renda domiciliar per capita, média, da população urbana é quase três vezes maior do que a da população rural (Tabela 1). Quanto à escolaridade da população adulta, 60% da população urbana com mais de 18 anos possui o ciclo Fundamental completo, comparados a
tão somente 26,5% da população rural. Quanto à longevidade, o camponês possui uma expectativa de viver três anos a menos que um citadino, pois a população urbana vive, em média, 74,6 anos, ao passo que a expectativa de vida na área rural é de 71,5 anos. A população rural e urbana no Brasil apresenta a maior desigualdade no IDH-M dentre vários grupos analisados pelo estudo do Ipea. Em 2010, enquanto o IDH-M rural para o país esteve na faixa de Baixo Desenvolvimento Humano (0,586), o IDH-M urbano era de 0,750 (Alto Desenvolvimento Humano), ou seja, 28% mais elevado que o primeiro. Uma razão mais do que suficiente para justificar a migração do campo para a cidade.
DESAFIO
O Brasil vive uma triste realidade, que levará ao esvaziamento progressivo do campo, tendo como consequências o aumento do tamanho médio da propriedade rural (a tal reforma agrária às avessas), a intensificação da mecanização e da automação no campo, e o inchamento da periferia das cidades. Serão cidadãos não preparados para enfrentar os desafios do novo ambiente, em desvantagem competitiva com quem nasceu nas cidades e recebeu educação e formação para melhor enfrentar os desafios desse locus. A solução não é fácil, menos ainda barata, e apenas se soma aos múltiplos desafios do Estado brasileiro para conferir dignidade aos cidadãos do país e prover serviços públicos de qualidade, que justifiquem a sanha tributária dos C diferentes níveis governamentais.
Cidadãos que vivem no campo também anseiam por educação, saúde, transporte, segurança, lazer, comunicação, informação, energia, saneamento, entre outros. A dura realidade é que lá no campo é possível - quando há escolas na região! - cursar apenas o ciclo Fundamental, e com muita dificuldade; a atenção à saúde, quando existe, resume-se a um posto de saúde; o transporte é precário porque as estradas são intransitáveis por longos períodos, Tabela 1 - Parâmetros de Desenvolvimento e Educação, por domicílio, em 2010. Fonte: Desenvolvimento especialmente quando chove; o lazer Humano para Além das Médias, Ipea, 2017 é restrito a um bar e uma cancha de Ambiente IDHM Esperança de Vida ao Nascer Fundamental Completo (a) Médio Completo (b) Renda bocha. Às vezes não é possível sintonizar 26,51 71,5 21,79 Rural 0,586 R$ 312,74 canais de TV, não há acesso ao telefone Urbano 0,750 59,72 74,6 44,64 R$ 882,64 ou à internet, não raro sequer há ener- IDHM: Índice de Desenvolvimento Humano Municipal; (a) Porcentagem de cidadãos com mais de 18 anos com ciclo Fundamental completo; (b) Porcentagem gia. Um jovem que vá estudar na cidade, de jovens de 18 a 20 anos com ciclo Médio completo.
Décio Luiz Gazzoni O autor é Engenheiro Agrônomo
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COLUNA MERCADO AGRÍCOLA
Produtor não pode errar no plantio para continuar ganhando Os produtores estão plantando a safra de verão de 2017/18, e neste ano com uma a duas semanas de atraso em relação ao ano passado. Isso porque as chuvas demoraram mais para chegar e retardaram a semeadura. Neste ano, em que as cotações internacionais dos grãos estão dentro da média histórica, sem margem para erros, o quadro é um pouco diferente daquele período em que as cotações estavam em forte alta e os produtores podiam colher pouco e mesmo assim lucrar. O sucesso do setor começa agora no plantio, que deve ser realizado de maneira certa, com espaçamento, profundidade, tratamento de sementes e bons insumos. Os produtores brasileiros devem mostrar avanço na produtividade, porque a base dos custos não há como ser mudada. Houve bons momentos para fazer trocas neste ano, como o ocorrido em julho e também agosto e setembro, quando o dólar estava em baixa e permitiu transações até melhores que as realizadas no ano passado. Com isso, os produtores têm grandes chances de novamente obterem lucratividade. Com colheita maior a tendência é de que os custos de produção da saca sejam menores e permitam trabalhar melhor a comercialização. Os produtores negociaram pouco grão antecipado neste ano, com a soja ainda abaixo dos 20% no Brasil, enquanto em outros anos esse percentual estaria acima dos 40%. Como haverá aumento da área, isso deve concentrar colheita nos meses de março e abril, período que registrará pressão de alta nos fretes. Com esse cenário os produtores terão de se programar para não necessitar vender nestes dois meses, que podem ser os mais fracos do novo ano. Se por algum motivo houver alta, poderá ser aproveitada, mas o ideal é não depender de venda na boca da colheita, porque existe pouco grão negociado antecipado e isso tende a forçar as cotações para baixo nesse período. No restante do ano a tendência é de oportunidades melhores. Os dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) apontam que a demanda será maior do que a produção, o que vale para praticamente todos os grãos. Fato que tende a ter peso positivo neste novo ano para que haja uma reversão da onda de baixa das cotações dos últimos cinco anos. É aguardado um novo ciclo e com tendência de ganhos positivos nas cotações. Mas para que o produtor possa aproveitar estes bons momentos futuros, terá de começar com um bom plantio. MILHO
Reação chegou e vem mais alta
O milho em setembro mostrou os primeiros avanços nos indicativos, apoiado na boa demanda interna e no bom ritmo das exportações, que avançam a passos largos e devem seguir fortes. Há muitos navios chegando para carregar milho brasileiro. Junto a isso, os pregões da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) movimentaram grandes volumes do grão do Centro-Oeste e também serviram de alavanca para alta interna, que já está se consolidando e tende a continuar. As indústrias de ração apostavam na sobra de milho e não formaram estoques e agora encontram dificuldades para comprar o cereal. Enquanto isso, a safra de verão teve atraso no plantio, registrou forte queda na área plantada e terá uma produção muito menor que neste último ano. O quadro deverá ser ajustado em 2018 e vai dar mais fôlego aos indicativos neste restante de ano. SOJA
Exportação maior que expectativas
O mercado da soja do Brasil observa as exportações consumirem mais grãos, farelo e óleo do que estava
sendo esperado. Houve recorde histórico de exportação no grão e no complexo soja, com 60,3 milhões de toneladas do grão, embarcadas até o dia 22 de setembro. No complexo soja os negócios fluíram e o Brasil já contabiliza 72 milhões de toneladas. O recorde anterior do grão foi em 2015, com o ano fechando com 70,8 milhões de toneladas no complexo soja e o grão com 54,3 milhões de toneladas. Exportações que devem continuar em ritmo forte, porque o Brasil continua embarcado e há comprador interessado neste grão. Com isso, deve haver o “descasamento das cotações” no interior, principalmente próximo de indústrias, que seguirão trabalhando e terão de pagar mais pelo grão do que liquidaria na exportação. O mercado continuará firme aos produtores, que já negociaram a maior parte da safra e têm pouco volume para venda (que ainda será bastante valorizado pelo setor). FEIJÃO
O feijão está na entressafra e tende a mostrar alta em outubro e novembro O mercado do feijão passou por um período de calmaria, após a segunda e a terceira safra, quando chegou aos menores níveis do ano, entre os R$ 90,00
Vlamir Brandalizze brandalizze@uol.com.br • Twitter@brandalizzecons • brandalizzeconsulting.com.br
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e os R$ 110,00 a saca. Permaneceu nesse patamar até o começo de setembro, quando a demanda voltou a puxar os indicativos, que evoluíram para os R$ 120,00 a R$ 150,00 a saca. Com tendência de mais fôlego positivo em outubro e novembro, quando haverá poucas ofertas do grão e demanda forte no varejo. ARROZ
Esperando e o ano foi passando
O arroz tinha tudo para trabalhar com níveis melhores que os praticados neste ano, mas como os produtores rolaram as dívidas de junho e julho para setembro, houve impacto negativo aos indicativos. E
como grande parte do setor produtivo do arroz carrega grandes dívidas, continuou vendendo e as indústrias levando somente o mínimo necessário. A demanda de gôndola segue forte, mas a oferta também continua grande e desta forma os meses foram passando e os níveis, ao invés de crescerem, caíram em setembro aos menores patamares do ano. Há pouco espaço para grandes evoluções em outubro, porque os produtores continuam endividados e vendendo. Com mais oferta que demanda há dificuldades para reação das cotações. O plantio da safra flui forte e o novo ano tende a ser bem diferente do que foi este, com demanda alta e cotações mais atrativas.
CURTAS E BOAS TRIGO - O mercado do trigo continua lento porque a safra está chegando ao Sul do Brasil e os moinhos seguem em posição de conforto, ainda importando grandes volumes do grão, favorecidos pela cotação baixa do dólar. Os argentinos querem vender mais por aqui e buscar espaço antes ocupado pelo Paraguai, que teve forte queda na safra e não terá trigo para atender a demanda interna. Mas no médio prazo haverá evolução das cotações, em um ano de oferta e demanda ajustadas no cenário internacional e projeção de cotações maiores em 2018. UCRÂNIA - Os produtores estão colhendo a safra de milho, estimada em volume acima de 24 milhões de toneladas, bem abaixo dos 29 milhões de toneladas inicialmente projetados pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Haverá menos grão para exportar em 2018. Já a soja mostra a produção local se confirmando abaixo de quatro milhões de toneladas e a exportação do país estimada em patamar abaixo de três milhões de toneladas.
Ambos afetados pelo verão quente e seco que atingiu as plantações ucranianas neste ano. CHINA - As importações seguem batendo recorde e nos primeiros oito meses do ano o Brasil foi líder com mais de 70% do volume comprado pelos chineses, que superaram a marca de 63 milhões de toneladas. ARGENTINA - O milho já está em plantio e neste final de setembro ainda havia lavouras da safra passada em colheita. O país sofreu com enchentes neste último ano e teme que o ano novo registre clima irregular novamente. O país corre em busca de novos compradores para o biodiesel local devido à taxação que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aplicou no produto portenho e que agora perde o mercado americano. Devendo vender mais na Europa e até pode tentar vender no Brasil. UNIÃO EUROPEIA - Mostra a safra de grãos chegando à colheita e confirmando grandes perdas devido ao clima deste ano e assim com mais importações devendo ocorrer C em 2018.
COLUNA ANPII
Liderança construída Trabalho conjunto de pesquisa, fiscalização, extensão, empresas e agricultores permitiu ao Brasil se tornar líder mundial no uso de inoculantes
O
agronegócio cresceu enormemente no Brasil durante os últimos anos, tornando-se um dos pontos-chave no desenvolvimento do país. De todas as atividades econômicas, é a que menos tem sofrido os efeitos das crises, o que coloca o segmento na posição de uma das alavancas da economia nacional. A geração de novas tecnologias e a sua pronta adoção pelos agricultores fizeram com que a atividade agropecuária tornasse o Brasil um dos líderes mundiais na produção de alimentos. O segmento não somente supre as necessidades alimentares do país, como também exporta alimentos para todos os continentes. Dentre as tecnologias que contribuem fortemente para esta liderança, o uso da Fixação Biológica do Nitrogênio (FBN) para o fornecimento de nitrogênio às leguminosas é uma das mais importantes. Ao lembrar de 33 milhões de hectares de soja, com necessidade de 300kg de N por hectare, é possível ter a dimensão da grandeza da importância do uso da FBN no provimento deste nutriente. Os ganhos que o uso de inoculantes (produtos que provêm o nitrogênio biológico para as plantas) traz para toda a cadeia são enormes e já bem conhecidos: economia de bilhões de dólares para o país, pela menor importação de fertilizantes nitrogenados; uso de um insumo dez vezes mais barato; enormes ganhos ambientais pelo emprego de um produto natural em cuja produção não há emissão significativa de gases de feito estufa e pela não poluição de curso d’água e lençol freático. Atualmente o Brasil produz por ano mais de 50 milhões de doses de inoculantes, um recorde mundial, com expressivo crescimento nos últimos anos. Isto significa a adoção plena da
tecnologia por parte dos agricultores brasileiros, sempre atentos a técnicas que tragam maior rentabilidade em suas lavouras. Mas quais foram os passos para que esta tecnologia se implantasse de forma tão consistente? Claro que foi fruto de muito trabalho de diversos setores da sociedade, que se mobilizaram em torno de um eixo comum: fazer da fixação de nitrogênio uma técnica-chave para a produção de leguminosas, despontando, no caso, a soja. Pesquisa, fiscalização, extensão, empresas e agricultores trabalharam e trabalham em conjunto para aprimorar cada vez mais o uso da fixação biológica do nitrogênio, com objetivo não só da sua eficácia no aporte do nutriente, mas da forma de uso, tornando-a cada vez mais compatível com as modernas práticas agrícolas. Os dois grandes pesquisadores que deram início à seleção de cepas de bactérias fixadoras, J. R., Jardim Freire e Johanna Dobereiner lançaram as bases de um amplo programa, imediatamente adotado pela então Comissão Nacional da Soja como um dos pilares do desenvolvimento da cultura no Brasil. A partir daí, com a criação da Reunião
da Rede de Laboratórios para a Recomendação, Padronização e Difusão de Tecnologia de Inoculantes Microbianos de Interesse Agrícola (Relare), fórum de discussões e criação de balizadores para a atividade, a FBN passou a se desenvolver de forma orgânica. Em um mesmo fórum se traçam as grandes linhas da pesquisa, da legislação, dos parâmetros de qualidade. São criados protocolos para análise de produtos e de formas de aplicação. Os agricultores, por sua vez, trazem sugestões para facilitar o uso do produto, usar com mais eficácia os inoculantes no campo. Neste contexto as empresas produtoras de inoculantes associadas da ANPII, que participam destas discussões, aprimoram cada vez mais seus produtos, para entregar aos agricultores inoculantes com cepas selecionadas, padrões de qualidade sempre atualizados e formas de uso em consonância com as necessidades do agricultor. Por tudo isto, principalmente pela interação entre todos os agentes da cadeia da FBN, esta tecnologia assumiu tal importância no cenário do agronegócio brasileiro e se consolidou como um dos marcos da produção de leguminosas C no Brasil.
Crescimento do uso de inoculantes (incluindo inoculantes para gramíneas. Produção das empresas associadas à ANPII)
Solon C. de Araujo, Consultor da ANPII
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Bayer
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Qualidade de sementes Insumo nobre, de enorme importância no sucesso das lavouras, as sementes possuem protagonismo especial e ocupam posição cada vez mais destacada no planejamento dos produtores. Cenário que tem exigido que sementeiras evoluam através da implementação de sistema de gestão de qualidade para garantir que os agricultores tenham acesso a mais tecnologia e produtividade
O
avanço tecnológico no setor sementeiro tem agregado vários benefícios para a agricultura, como o uso de sementes certificadas, a produção de sementes de alta qualidade, o tratamento de sementes industrial, as cultivares resistentes a pragas, a tolerância a herbicidas e o aumento de produtividade e rentabilidade. Assim, a semente tornou-se nos últimos anos um insumo com alto valor agregado sendo considerado um veículo
de tecnologias, que, associado a novas técnicas de manejo, garante um melhor desempenho no campo, cabendo à semente um protagonismo especial. Diante deste cenário, o agricultor brasileiro está mais exigente com a qualidade das sementes. Mas, afinal, o que é qualidade? A palavra “qualidade” tem um conceito subjetivo e está relacionada com as percepções, as experiências e as necessidades de cada indivíduo. Assim, as sementeiras têm evoluído com
a implementação de um Sistema de Gestão da Qualidade para garantir que os produtores tenham acesso às novas tecnologias, com a mais alta qualidade e o melhor custo-benefício. O Sistema de Gestão da Qualidade (SGQ) emprega uma abordagem de processos, incluindo o ciclo PDCA (Plan-Do-Check-Act), que tem como objetivo promover a melhoria contínua dos processos por meio de um circuito de quatro ações: planejar (plan), fazer (do), checar (check) e agir (act). Assim, esta ferramenta emprega o conceito de que todo o processo deve ser planejado, executado e controlado e ações realizadas para a melhoria contínua da organização. As diferentes etapas do processo de melhoria contínua estabelecem uma relação em que a etapa anterior alimenta as ações da próxima etapa. Esse processo é importante para garantir que, caso necessário, haja o envolvimento de outras áreas ou funções no cumprimento das ações propostas. A Figura 1 sumariza essa relação. É possível listar inúmeras vantagens da utilização de um Sistema de Gestão da Qualidade nos processos de produção, beneficiamento e comercialização de sementes, como garantir a satisfação
04 • Outubro 2017 • Soja • www.revistacultivar.com.br Figura 1 - Diferentes etapas do processo de melhoria contínua
e a fidelização dos clientes, através da pesquisa de satisfação e gestão das reclamações; reduzir o custo de produção, através de melhorias e evitando reprocesso; e gerar um potencial competitivo no mercado de sementes com padrões acima daqueles estabelecidos por lei, pois além de atender aos requisitos regulamentares e estatutários, o foco é a expectativa do cliente. A gestão da qualidade tem uma abordagem no gerenciamento dos processos com foco no cliente. A garantia da qualidade verifica e garante que as políticas e os procedimentos das áreas envolvidas no sistema de gestão da qualidade estão sendo cumpridos. Já o controle de qualidade está relacionado ao produto, é responsável por analisar as matérias-primas e os produtos acabados (os lotes de sementes). Os processos de qualidade - inspeção, controle, garantia e gestão - possibilitam o aumento da produtividade e da qualidade dos produtos. A interação entre essas áreas é primordial para garantir uma produção, beneficiamento e comercialização de sementes de alta qualidade. Torna-se evidente que independentemente da estratégia da empresa, a atenção à qualidade é uma posição decisória em um ambiente complexo e competitivo, pois permite a construção de uma relação de lealdade entre pares e o consumidor final do produto. O sucesso de um negócio deve estar pautado
na Gestão da Qualidade dos produtos e processos e, no caso do segmento sementes, o principal resultado deste trabalho é um produto de qualidade, diminuindo as possibilidades de reclamações e devoluções, e colaborando com a imagem da marca no mercado. Assim, a Qualidade de Sementes em Foco traz a ideia de que é necessário considerar que a qualidade do produto, bem como a gestão da qualidade do processo produtivo, tem como objetivo garantir a satisfação do cliente final e a melhoria contínua dos processos para permitir sua constante adequação às novas demandas. Frente a esta realidade sabe-se que a produção de sementes de soja de alta qualidade é um grande desafio ao setor produtivo. Desta forma, o sistema de produção de sementes deve estar atrelado também a um bom Programa de Controle de Qualidade, seja por meio da oferta de um laboratório interno de análise de sementes ou pela utilização de laboratórios externos, operado por profissionais treinados. A adoção de técnicas de controle de qualidade na produção de semente tem por objetivo suprir de informações que auxiliem no processo de tomada de decisão em cada etapa da produção, devido aos diversos fatores que podem afetar a qualidade da semente, como a umidade de colheita, a temperatura de secagem, os danos mecânicos provocados pelos equipa-
mentos, entre outros. Para estabelecer um bom programa de controle de qualidade deve-se considerar que a perspectiva de sementes de alta qualidade envolve diversos parâmetros, como qualidade genética (pureza genética e varietal), fisiológica (alta germinação e vigor), física (ausência de material inerte e de sementes de outras culturas ou cultivares) e sanitária (ausência de pragas e patógenos). Além disso, outro ponto importante é que estes parâmetros podem ser afetados durante as fases de produção no campo, na operação de colheita, na secagem, no beneficiamento, no tratamento, no armazenamento e no transporte. Assim, conhecer quais parâmetros de qualidade podem ser afetados durante cada etapa do processo de produção é imprescindível na determinação das inspeções a serem realizadas. A Embrapa Soja tem desenvolvido pesquisas e tecnologias há muitos anos para a produção de sementes de soja de alta qualidade no Brasil. Segundo os resultados gerados (Embrapa Soja, Documentos 380 “Tecnologia da produção de semente de soja de alta qualidade”, 2016), entre os principais fatores que afetam a qualidade de semente no campo estão estresses climáticos e nutricionais (frequentemente associados com danos causados por insetos e por micro-organismos), deterioração por umidade, enrugamento de sementes por estresses térmico e hídrico, sementes esverdeadas e dano por percevejo, e na colheita pode ocorrer dano mecânico e mistura varietal. Os principais fatores que afetam a qualidade de sementes na secagem são dano mecânico e dano térmico. No beneficiamento destacam-se mistura varietal e dano mecânico e no armazenamento a deterioração por umidade e por pragas e patógenos. Apesar de serem distintos, a ação e a interação de todos esses fatores fisiológicos, físicos, entomológicos e patológicos contribuirão para um resultado comum: a deterioração da semente. O vigor, dentre os atributos da qualidade fisiológica, é o fator que mais pode ser afetado. Considera-se que o vigor é o
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responsável por determinar a capacidade da semente em formar um estande de plantas uniforme sobre uma ampla variação de condições ambientais, além de afetar a velocidade de emergência a campo (Scheeren et al, 2010), o crescimento inicial das plântulas, o índice de área foliar (Kolchinski et al, 2005) e o potencial de rendimento da cultura (Schuch et al, 2009). Além disso, por este atributo ser cientificamente comprovado como um dos que mais impactam no desempenho da cultura, é então associado a uma das maiores expectativas dos clientes. A fim de superar estas limitações na produção e atender as expectativas dos clientes, o ambiente de aplicação do controle de qualidade deve focar em prevenir e reduzir possíveis problemas ao longo do processo de produção de sementes. Para isso é necessário identificar os pontos críticos de controle e determinar as inspeções a serem realizadas em cada ponto de controle (exemplo ilustrado na Figura 2). É importante também estabelecer os padrões mínimos para cada ponto crítico de controle identificado. A elaboração de toda a estratégia de um controle de qualidade deve estar baseada em fornecer informações capazes de auxiliar nas tomadas de decisão e corrigir possíveis problemas durante a produção. Assim, garante-se o atendimento às normas e aos padrões internos e externos (legais) estabelecidos, mi-
nimizando ocorrências de rejeição de lotes e perda ou prejuízo relacionados a reclamações. Outra questão a ser considerada na definição da estratégia é a utilização de laboratórios de análises de sementes internos ou externos. Na decisão de optar por laboratório interno, é necessário que esse mantenha um sistema de gestão, que deve ser comunicado e entendido por todos os envolvidos e também garantir que o laboratório seja operado por profissionais treinados. No caso da utilização de laboratórios externos é imprescindível o credenciamento no Registro Nacional de Sementes de Mudas (Renasem) e que mantenham um sistema de gestão baseado na norma ISO 17.025/2005, a fim de garantir a confiabilidade dos resultados de análises. Mas como saber se a empresa e seus processos estão nos padrões de qualidade desejáveis? Para tudo isso funcionar é vital estabelecer indicadores para todos os processos, pois, sem isso, torna-se impossível ter certeza se os processos estão funcionando e estipular a melhoria contínua. Perguntas que devem ser respondidas para estabelecer os indicadores: O que de fato é importante para os seus clientes? O que é bom para o seu negócio? E o que você pode fazer sobre isso? E o mais importante, os indicadores precisam estar relacionados ao resultado de um processo e ao valor que
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este processo gera para o negócio, como o dinheiro que o seu negócio ganhou ou deixou de perder. Lembre-se: as pessoas e os processos têm uma parcela de responsabilidade para o seu negócio ganhar ou perder dinheiro. Exemplo: indicadores de controle de qualidade, devolução de produto, ruptura no cliente. Além de garantir o sucesso do seu negócio, estabelecer indicadores demonstra para toda a empresa, gestão e colaboradores, a evolução de um trabalho que depende de todos, para um objetivo comum: a qualidade total. É possível concluir que a produção, o beneficiamento e a comercialização de sementes de soja requerem o foco em qualidade, e isto não somente associado ao controle de qualidade em si, mas a um sistema de gestão da qualidade completo, bem estruturado e direcionado para a melhoria contínua e a excelência em processos. Além de permitir a rastreabilidade e o controle de todos os aspectos operacionais e gerenciais do processo produtivo para que os clientes estejam sempre satisfeitos com os produtos. Desta forma, a qualidade das sementes produzidas tende a ser cada vez mais confiável e garantida, excedendo as expectativas do cliente. O que leva a um reforço da importância de se utilizar sementes certificadas e provindas de empresas que adotam estas ferramentas e os C controles.
Figura 2 - Identificação dos pontos críticos de controle e determinação de inspeções
João Dantas
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União por produtividade
União dos Agrônomos Independentes (UAI) assessora grupo de produtores rurais focados em atingir altas produtividades de soja. Serviço realiza profunda análise do solo aliada a uma série de recomendações técnicas
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União de Agrônomos Independentes (UAI) é um serviço proporcionado pelo programa de pontos da Rede Agroservices* a um grupo de produtores rurais que buscam atingir altas produtividades de soja. Consiste em realizar uma análise profunda do solo e uma série de recomendações técnicas. Para efeitos de exemplificação tomou-se como base uma propriedade de 50 hectares que resgatou o serviço. Os produtores que participam desse grupo recebem, além de um
planejamento individualizado do manejo que será aplicado em sua propriedade, visitas durante a safra para acompanhamento e discussões técnicas para proporcionar o aprendizado. Ao final de cada ciclo são realizadas discussões em grupo, em que o objetivo é estimular a troca de informações e o aprendizado entre os participantes, apresentando os casos que obtiveram os melhores resultados de cada região. Este serviço e o grupo de clientes foram criados por dois prin-
Gráfico 1 - Média de produtividades no Brasil
cipais motivos. O primeiro está ligado ao avanço tímido dos aumentos de produtividades nos últimos dez anos. De acordo com dados de pesquisa (Gráfico 1), as produtividades nos últimos dez anos pouco incrementaram. Têm oscilado entre 2,8 toneladas por hectare a 3,3 toneladas por hectare, portanto os crescimentos de produção de grãos se devem principalmente aos aumentos contínuos da área plantada. Anualmente novas tecnologias são lançadas no mercado, tanto em genética, como
Gráfico 2 - Eventos naturais ao longo dos últimos 30 anos
*Resgate seus pontos do serviço UAI acessando: www.pontos.bayer.com.br/Products?q=UAI
Guilherme Pontiere
traits, fertilidade e defensivos. E a pergunta é: essas tecnologias têm sido utilizadas corretamente e o seu uso auxiliado a obter os melhores resultados? O segundo motivo está ligado às oscilações de produtividade nos últimos anos, associadas tanto aos fatores climáticos quanto a novos desafios com pragas e doenças que acometem a cultura da soja. No Gráfico 2 é possível observar que a quantidade de catástrofes naturais cresceu 128% em 30 anos, sendo a maioria de ordem climática e meteorológica. Os desafios impostos pela agricultura tropical também são diversos. Apenas nesta última safra é possível citar dois exemplos. O primeiro reside no crescimento da população de Dalbulus maidis, a cigarrinha do milho, causando o enfezamento na cultura do milho e necessidade de ajustar o manejo, tanto em controle, na escolha dos híbridos, como em discussões sobre épocas de plantio e possível vazio sanitário, entre outras medidas. Houve também, anunciado e comprovado pelo Fungicide Resistance Action Committee (Frac), o caso de diminuição de sensibilidade do fungo causador da ferrugem-asiática a um importante grupo químico utilizado para o manejo da doença, as carboxamidas.
Nas áreas com intervenção mecânica, plantas de coberturas têm sido usadas com frequência
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João Dantas
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O que determina o potencial de uma planta de alto rendimento é sua capacidade de exploração radicular. Quanto mais profundo, mais água disponível para absorver
Neste cenário é possível concluir que a margem do agricultor de soja está sob pressão, pois em 16 anos o custo de produção aumentou em 123%, enquanto a receita teve acréscimo de 92% (Gráfico 3). Ser protagonista na mudança deste cenário passou a ser o grande objetivo do grupo UAI. Tecnicamente, um dos principais pilares trabalhados é o manejo consciente de solos. Bernardo Van Raij ensina que solo é a parte superficial intemperizada, não consolidada da crosta terrestre, contendo matéria orgânica e organismos vivos. Trata-se de um material poroso, que permite a penetração de raízes e o suprimento de água e de nutrientes para as plantas. Nesse sentido é preciso considerar o solo como um ambiente que esteja quimicamente corrigido, fisicamente adequado e biologicamente ativo. Quimicamente o solo tem como principal problema para o desenvolvimento das plantas a acidez, presente em diversas formas. Acidez ativa - Dada pela concentração de H+ na solução do solo. Acidez trocável - Refere-se ao
alumínio (AI³+) e ao hidrogênio (H+) trocáveis e absorvidos nas superfícies dos coloides minerais ou orgânicos por forças eletrostáticas. Acidez não trocável - Representada por H+ em ligação covalente (mais difícil de ser rompida) com as frações orgânicas e minerais do solo. As principais causas da acidez são: - Regime pluvial que promove a lixiviação das bases; - Material de origem do solo, granitos e arenitos (tendem a originar solos mais ácidos), calcário e basalto (tendem a originar solos menos ácidos); - Fertilizantes. Desse modo, o domínio da calagem no sistema agrícola do Brasil é a principal ferramenta para corrigir essas situações, promovendo a elevação do pH - aumento da Saturação por Bases devido ao fornecimento de Ca + Mg na CTC e diminuição dos teores de alumínio tóxico -, maior oferta de nutrientes e desenvolvimento radicular. Porém, em muitas regiões do Brasil a estiagem tem se tornado um dos principais problemas no sucesso do produtor em extrair o máximo potencial das culturas.
08 • Outubro 2017 • Soja • www.revistacultivar.com.br Desta forma o desenvolvimento de técnicas que melhorem o crescimento radicular é de muita importância para o setor. No geral, as plantas possuem na sua formação de biomassa 45% de C, 45% de O e 6% de H, sendo assim, regidas basicamente por carboidrato, produto oriundo da fotossíntese. A evapotranspiração das plantas de soja é de aproximadamente 3mm a 8mm de água por dia dependendo do seu estádio fenológico, em que 98% são evaporados apenas para a refrigeração da planta e 2% para as funções básicas. Sendo assim, o que determina o potencial de uma planta de alto rendimento é a sua capacidade de exploração radicular, em que quanto mais profundo, mais água disponível terá para absorver. Dado pela equação a seguir: AD = ((CC - PMP)/10)*dg * H No qual H seria a profundidade radicular (fator que pode ser alterado agronomicamente). O perfil de solo, assim chamada a prática de aprofundar os níveis de correção, tem se tornado uma excelente alternativa. Porém, a aplicação de calcário em superfície tem sua profundidade efetiva de correção limitada à sua baixa mo-
É preciso lembrar que o principal ingrediente ativo para a produtividade reside no conhecimento
bilidade, e essa limitação química também limita o aprofundamento radicular. Desta forma, práticas de aplicação de óxidos de Ca e Mg têm sido utilizadas por diversos produtores com o auxílio de implementos adaptados para aplicação em profundidade. Essa prática, apesar de estar começando nas culturas anuais, tem se mostrado muito eficiente na correção do perfil, atingindo camadas de até 45cm de profundidade. Isso se deve não só à correção química, mas também à descompactação que realiza, melhorando os níveis de oxigênio nas camadas
Gráfico 3 - Evolução da receita e dos custos de produção ao longo dos últimos 16 anos
mais profundas. Mas vale lembrar que o principal ingrediente ativo para a produtividade é o conhecimento, e sendo assim, a utilização de “mix” de plantas de coberturas, calibração de doses e desenvolvimento de implementos de alto nível tecnológicos é de muita importância para que as correções química, física e biológica sejam realmente efetivas e tragam rentabilidade para o produtor rural. Nas áreas trabalhadas com intervenção mecânica, as plantas de cobertura têm sido utilizadas com muita frequência, pensando na estruturação de raízes, formação de bioporos e, finalmente, para evitar que a compactação volte ao solo. O Projeto UAI também conta com diversos Dias de Campo, com o objetivo de difundir as técnicas utilizadas para outros produtores. Neste ano o projeto foi fechado com chave de ouro, sendo que cinco campeões estaduais do Comitê Estratégico de Soja Brasil (Cesb) pertencem ao UAI. Em três anos as médias das áreas saíram de 53sc/ ha para 76sc/ha, resultados obtidos graças ao comprometimento de C todos os envolvidos. João Dantas e Marcelo Junqueira Barbosa, Bayer
10 • Outubro 2017 • Soja • www.revistacultivar.com.br
Manejo de daninhas A praticidade oferecida por tecnologias com genes de tolerância ao glifosato no controle de plantas daninhas em soja acabou por resultar na tentativa de simplificação do manejo por parte do agricultor, com uso indiscriminado e consequente aumento da pressão de seleção de resistência. Como alternativa a essa simplificação o uso de genes que conferem tolerância a outros mecanismos de ação tem papel importante, desde que utilizado com racionalidade e observância às recomendações técnicas
O
manejo de plantas daninhas pressupõe a adoção de diferentes estratégias que busquem a diversidade das práticas adotadas para o controle de plantas daninhas. Isso é alcançado quando se consegue integrar práticas preventivas, culturais, mecânicas ou químicas. A inserção de genes de tolerância ao glifosato em culturas como a soja fez com que o agricultor simplificasse o controle de plantas daninhas, focando-o na adoção de um único herbicida. Essa estratégia diminuiu a diversificação de mecanismos de ação de herbi-
cidas e, por consequência, selecionou determinadas espécies daninhas não controladas por este herbicida. Uma alternativa para essa simplificação é o uso de genes que conferem tolerância a outros mecanismos de ação, como o caso da soja LibertyLink (LL), tolerante ao herbicida glufosinato de amônio, que inibe a glutamina sintase (GS). A inibição da GS causa rápido acúmulo nos níveis de NH4+ intracelular, associado à ruptura da estrutura do cloroplasto, resultando na inibição da fotossíntese e na morte das células da planta. Embora a toxicidade de
NH4+ pareça ser o mecanismo de ação primário do glufosinato, NH4+ pode não ser a causa principal da morte da célula na presença do inibidor. Além da toxicidade de NH4+, o efeito do herbicida na fotossíntese pode ser explicado pela inibição na síntese de proteínas. Os herbicidas à base de glufosinato de amônio são usados de forma não seletiva e aplicados em pós-emergência no manejo de áreas, na dessecação de culturas e em aplicações em jato dirigido, em culturas como o milho. Porém, com o advento da transgenia podem ser aplicados seletivamente em culturas
www.revistacultivar.com.br • Soja • Outubro 2017 • Tabela 1 - Representação do controle proporcionado pelo uso do herbicida amônio glufosinato em espécies daninhas de difícil controle
geneticamente modificadas, resistentes ao herbicida glufosinato de amônio, como o caso de soja, algodão e milho. O glufosinato de amônio é um herbicida de contato, que possui amplo espectro de controle de plantas daninhas de folhas largas e estreitas, incluindo espécies de difícil controle como buva e amargoso, desde que aplicado nos estádios iniciais de desenvolvimento destas espécies (Tabela 1). O seu uso passa a ser importante alternativa no controle de espécies resistentes e tolerantes ao glifosato, além de se tratar de um herbicida com ausência de casos de resistência associados ao seu uso no Brasil. O amônio glufosinato (Liberty) é totalmente seletivo às cultivares de soja com a tecnologia LibertyLink, e pode ser aplicado em qualquer fase da cultura. Porém, é fundamental que se considere o estádio da planta daninha e
o período em que pode haver matocompetição, o que normalmente ocorre nos estádios iniciais de desenvolvimento da cultura. O controle de plantas daninhas com a adoção da tecnologia LibertyLink deve ser iniciado antes mesmo da semeadura da cultura, pois um dos seus principais pilares reside na necessidade de semear a cultura no limpo, sem a presença de plantas daninhas. A eliminação das plantas daninhas antes da semeadura da cultura pode ser obtida com a combinação de herbicidas em aplicação única ou, preferencialmente, em sequência. O ideal dentro da perspectiva de sustentabilidade é utilizar herbicidas de diferentes mecanismos de ação, inclusive diversos daqueles usados em pós-emergência. Naquelas situações onde os herbicidas usados na operação de manejo (dessecação) não possuam
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atividade residual sobre as sementes de plantas daninhas e, dependendo do banco de sementes de plantas no solo, é possível que sejam necessárias pelo menos duas aplicações do herbicida Liberty sobre a soja (Figura 1). A primeira aplicação deverá ser realizada logo após a emergência das plantas daninhas e no máximo até o estádio V2 (dois nós) da soja, para que se evite a matocompetição. A segunda aplicação se fará necessária caso ocorram novos fluxos de emergência de plantas daninhas antes do completo fechamento das entrelinhas da cultura. Outra alternativa de manejo é o uso herbicidas com ação residual no solo, antes da emergência das plantas daninhas e cultura, ou associado com a aplicação de dessecação (Figura 2). Entre os herbicidas com ação residual encontram-se diclosulam, flumioxazina, imazetapir, metribuzim, s-metolacloro, sulfentrazona, entre outros. O emprego destes herbicidas atrasa o primeiro fluxo de emergência das plantas daninhas, fazendo com que a cultura permaneça no limpo por um período maior de tempo e, principalmente, diminuindo uma aplicação do herbicida em pós-emergência. A redução de uma aplicação pode aumentar a sustentabilidade da tecnologia Liberty-Link, pela diminuição na pressão de C seleção de plantas daninhas. Mauro Antônio Rizzardi, Universidade de Passo Fundo
Figura 1 - Manejo de plantas daninhas em soja LibertyLink, sem o uso de Figura 2 - Manejo de plantas daninhas em soja LibertyLink, com o uso de herbicidas pré-emergentes residuais herbicidas pré-emergentes residuais
Encarte Técnico • Circula encartado na revista Cultivar Grandes Culturas • nº 221 • Outubro 2017 • Capa - Bayer Reimpressões podem ser solicitadas através do telefone: (53) 3028.2075
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Manejo sustentável Mario Dal Pogetto
A incidência de lagartas em soja desponta entre os principais problemas fitossanitários que limitam a produtividade da cultura. Enfrentar esses insetos exige critério, monitoramento, integração de medidas e correto posicionamento de inseticidas sempre que a densidade populacional justificar sua utilização
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Brasil, com previsão de produção de mais de 113 milhões de toneladas de soja no próximo ano, pode ter a produtividade prejudicada por problemas fitossanitários. As plantas de soja podem ser atacadas por insetos-praga desde a germinação até a fase de maturação fisiológica.
Essas pragas são classificadas como de importância primária, regional ou secundária, em função da frequência de ocorrência, abrangência e do potencial de danos que podem causar na cultura. No entanto, independentemente da região, os problemas com as pragas na soja podem reduzir a produtividade
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dessa cultura, principalmente porque os sistemas de produção de grãos constituem ambiente favorável para o estabelecimento dos insetos. O cultivo da soja prevalece em extensivas áreas no período de verão, tendo normalmente na maior parte das regiões produtoras o milho em sucessão, seguido de uma planta de cobertura, anteriormente ao novo ciclo da soja. Essas culturas, normalmente conduzidas no sistema de plantio direto, aliadas às condições climáticas favoráveis como a alta temperatura durante o período de verão e temperaturas amenas no inverno, proporcionam condições ideais para a multiplicação dos insetos-praga e, consecutivamente, dos danos nos cultivos. A ocorrência de pragas pode ter início através de insetos de solo, como os corós, atacando as sementes ou mesmo as plântulas recém-emergidas. Após a emergência, as plantas de soja podem sofrer o ataque de um grande grupo de insetos-praga. As lagartas cortadeiras, como a lagarta-do-cartucho-do-milho e a lagarta-rosca, ganham destaque nessa fase. Além dessas espécies, a lagarta-elasmo, dependendo da região, pode ser o inimigo principal da soja nesse momento. Em seguida, na fase vegetativa, os besouros e as lagartas que se alimentam de folhas, consideradas o principal problema em toda a fase vegetativa da soja. Quando a cultura atinge o período reprodutivo, os problemas se multiplicam. Nessa fase, as lagartas que atacam as folhas e vagens e, os sugadores, como percevejos e mosca-branca, ganham destaque e é neste momento que os
06 • Outubro 2017 • Soja • www.revistacultivar.com.br Tabela 1 - Principais espécies de lagartas que ocorrem na cultura da soja Nome comum Lagarta-elasmo Lagarta-rosca Lagarta-da-soja Lagarta-falsa-medideira Complexo Spodoptera
Heliothinae Lagarta-enroladeira Broca-das-axilas
Nome científico Elasmopalpus lignosellus (Lepidoptera: Pyralidae) Agrotis ipsilon (Lepidoptera: Noctuidae) Anticarsia gemmatalis (Lepidoptera: Erebidae) Chrysodeixis includens (Lepidoptera: Noctuidae), Spodoptera frugiperda (Lepidoptera: Noctuidae) Spodoptera. cosmioides (Lepidoptera: Noctuidae) Spodoptera eridania (Lepidoptera: Noctuidae) Chloridea virescens (Lepidoptera: Noctuidae) Helicoverpa zea (Lepidoptera: Noctuidae) Helicoverpa armigera (Lepidoptera: Noctuidae) Omiodes indicata (Lepidoptera: Crambidae) Crocidosema aporema (Lepidoptera: Tortricidae)
danos podem causar os maiores prejuízos.
Plântulas, desfolha, flores e vagens
Desfolha, flores e vagens Enrola as folhas Ataca as axilas das folhas
destacado pelo ataque tanto na fase vegetativa (desfolhadores), quanto reprodutiva (atacando as flores e vagens). Da mesma forma, as lagartas da subfamília Heliothinae são relatadas por produtores atacando estruturas reprodutivas da soja. Outros artrópodes que atacam folhas de soja são os besouros da família Chrysomelidae, conhecidos popularmente como vaquinhas, que são pragas desfolhadoras importantes em feijão, mas que vêm ganhando destaque em soja nos últimos anos. Com o início da fase reproMario Dal Pogetto
DINÂMICA DE OCORRÊNCIA DE PRAGAS
Entre os insetos desfolhadores da cultura da soja, a lagarta-falsa-medideira, considerada até a década de 1990 como praga secundária, atualmente tem destaque principalmente pela grande dificuldade de controle, em função da deficiência na tecnologia de aplicação e pela alta capacidade de consumo de área foliar, associado às altas densidades populacionais que podem atingir rapidamente em todas as regiões de soja. Por outro lado, a lagarta-da-soja, que era considerada a principal praga na fase vegetativa da cultura, tem raramente acarretado problemas, principalmente pela supressão causada pelo manejo de outras pragas. O complexo de lagartas do gênero Spodoptera, que não apresentava ocorrência relevante em soja, vem causando preocupação em muitas regiões do País. Essas lagartas ganharam importância principalmente no manejo de soja Bt, pois assumiram o papel do principal grupo de lagartas-praga em cultivares com esta tecnologia. As lagartas do complexo Spodoptera têm se
Injúria/ Dano Plântulas Plântulas Desfolha Desfolha
dutiva, há o aumento da população dos percevejos sugadores, que causam danos desde a formação das vagens até o final do enchimento dos grãos. O percevejo-marrom era uma espécie de pouca importância nos anos 70 e atualmente é o mais abundante em todas as regiões do país. O ataque desses insetos durante a fase de formação de grão pode ocasionar o aborto de grãos ou de vagens. Durante o período de enchimento de grãos pode ocorrer o enrugamento e a deformação destas estruturas, afetando consequentemente a produtividade e a qualidade das sementes. Além disso, pode ocorrer a retenção foliar ou a presença de caules verdes no momento da colheita. A severidade dos danos ocasionados pelos percevejos está relacionada principalmente ao estádio fenológico da planta. Nesta fase, também tem ocorrido em diversas regiões a mosca-branca, Bemisia tabaci biótipo B, que tem potencial de
O controle de pragas em soja é realizado principalmente com uso de inseticidas
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causar danos à soja, grande capacidade reprodutiva, potencial de transmitir viroses e apresentar resistência a alguns inseticidas. Outro dano indireto, mas que provoca perda na produção por ataque da mosca-branca, é a ocorrência de fumagina, que se forma a partir das excretas (“honeydew”) dos insetos e que reduz a taxa fotossintética.
MANEJO DE PRAGAS NA CULTURA DA SOJA
O controle de pragas em soja é realizado principalmente com uso de inseticidas. Nesta cultura esses defensivos têm uma participação de 50% no total de produtos fitossanitários utilizados durante o ciclo da cultura (Imea, 2017, http://www.imea. com.br/imea-site/). O uso de inseticidas é um método rápido de controle e com alta eficácia, porém, se usado irracionalmente, pode resultar em problemas como a seleção de populações resistentes, a contaminação da água da superfície e do subsolo, a contaminação de pássaros, mamíferos (selvagens e domesticados) e impacto sobre polinizadores, entre outros. Em função desse cenário é importante buscar tecnologias que auxiliem ao uso racional de inseticidas, resultando na redução de efeitos adversos ao ambiente. Diante disso, é recomendada a adoção do Manejo Integrado de Pragas (MIP), definido como o “Sistema de decisão para uso de táticas de controle, isoladamente ou associadas harmoniosamente, numa estratégia de manejo baseada em análises de custo/ benefício que levam em conta o interesse e/ou impacto nos produtores, sociedade e ambiente”.
Nas áreas com intervenção mecânica, plantas de coberturas têm sido usadas com frequência
Plantas de soja com folhas severamente atacadas por lagartas
A simples presença do inseto-praga não deve determinar a tomada de decisão de controle. Ao contrário, essa decisão consiste em um dos pontos-chave do MIP, que é controlar a praga se a população estiver em nível que possa causar prejuízo econômico à lavoura. Assim, a tomada de decisão deve ser baseada nas densidades populacionais das pragas através da amostragem. Os programas de MIP requerem determinações precisas e rápidas dos níveis populacionais de insetos nas lavouras. Se não efetuado corretamente e dentro da frequência que acompanhe a ocorrência dos insetos na área, haverá sempre o risco de serem tomadas deci-
sões equivocadas quanto ao uso de inseticidas, antecipando-se aplicações dispensáveis ou dispensando-se aplicações necessárias, gerando prejuízos ao produtor. Assim, a oferta de várias formas de monitoramento e níveis de controle bem estabelecidos para insetos-praga da soja são a base para a tomada de decisão dentro do MIP-Soja.
MANEJO DE LAGARTAS EM SOJA BT E NÃO BT
O manejo de lagartas na cultura da soja deve ser iniciado pela dessecação antecipada das plantas daninhas ou cultura de cobertura anteriormente ao plantio. Quanto maior for o período entre a dessecação e a emergência da cultura da
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Após a emergência, as plantas de soja podem sofrer o ataque de um grande grupo de insetos-praga
benzuilureias, em função do preço acessível e da alta seletividade destes produtos. Nesse caso, a escolha do produto e da dose vai depender da espécie e do tamanho de lagarta. Por exemplo, a lagarta-da-soja tem demostrado a necessidade de doses duas a três vezes menoMario Dal Pogetto
soja, maior será o sucesso dessa estratégia. O uso de inseticidas em dessecação somente se justifica se houver a presença de lagartas e o período entre a dessecação e a emergência da cultura for muito curto. Nesse caso, deve-se ficar atento para os produtos que apresentam registro e respeitar as doses preconizadas para essa modalidade. Além da dessecação antecipada, o manejo inicial deve ser complementado pelo tratamento de sementes. Alguns inseticidas, como as diamidas, têm apresentado um bom nível de controle de lagartas em tratamento de sementes, variando a eficiência em função da espécie e do tamanho da lagarta presente nos primeiros dias após a emergência da cultura da soja. Durante a fase vegetativa da soja, atingindo os níveis de controle, os inseticidas mais empregados para o controle de lagartas têm sido as diamidas e os reguladores de crescimento de insetos dos grupos químicos diacilhidrazinas e
res do que a empregada para a lagarta-falsa-medideira. Outro detalhe importante é o tamanho das lagartas. Os inseticidas desses grupos apresentam boa atividade em lagartas pequenas. Portanto, a correta identificação da espécie e do tamanho das lagartas é fundamental para o sucesso da aplicação desses grupos de inseticidas. No período pós-fechamento das entre linhas da soja e avançando até o final da maturação fisiológica da cultura, os inseticidas diamidas, diacilhidrazinas e benzoilureias não têm, eventualmente, apresentado o mesmo nível de controle observado antes do fechamento. Esse fator se deve principalmente à fase de desenvolvimento das lagartas, pois a aplicação desses produtos ocorre quando as lagartas estão pequenas. Isso associado à deficiente tecnologia de aplicação, em não atingir o alvo, pode resultar em insucessos de controle. Nesse caso,
Medidas de controle devem ser adotadas sempre que a população da praga estiver em nível que possa causar prejuízo econômico à lavoura
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lagartas que se desenvolvem nas partes inferiores do dossel não são atingidas durante o instar adequado por esses grupos de inseticidas, podendo haver a necessidade de se utilizar inseticidas que atuem em lagartas maiores, como, por exemplo, Espinosinas, clorfenapir, indoxacarbe e benzoato de emamectina (nas regiões que tenham liberação de uso). Eventualmente, nesse caso e ainda dependendo da espécie, podem ser utilizados fosforados, carbamatos e piretroides. Além dos inseticidas, outras estratégias podem ser empregadas. Dentre as táticas disponíveis para integrar o manejo de lagartas está o controle
biológico, via liberação massal de parasitoides de ovos. A espécie Trichogramma pretiosum (Hymenoptera: Trichogrammatidae) quando liberada em plantios de soja tem potencial de controlar ovos de lepidópteros, como A. gemmatalis, C. includens e H. armigera e também pode parasitar ovos de Spodoptera spp. Esse agente de controle biológico controla a primeira fase de desenvolvimento das pragas (ovo) impedindo o desenvolvimento das lagartas na cultura. No entanto, para melhor eficiência do controle biológico no manejo devem ser consideradas outras técnicas, como, por exemplo, o uso de inseticidas seletivos, inseticidas
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biológicos (controle microbiano) e, mais recentemente, o cultivo de plantas resistentes aos insetos. A tecnologia de soja Bt foi recentemente introduzida no Brasil com expressão da proteína Cry1Ac (Intacta da empresa Monsanto) e em fase final de liberação com expressão das proteínas Cry1Ac e Cry1F (Conkesta da empresa Dow AgroSciences). A soja Bt (Intacta) atualmente disponível no mercado permite controlar algumas das principais lagartas-pragas da cultura da soja. No entanto, nas principais regiões produtoras brasileiras, outras espécies de lepidópteros, as quais a soja Bt não é eficiente,
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vêm causando danos expressivos à cultura, que são as lagartas do complexo Spodoptera spp. Para esse complexo de lagartas, o controle deve ser realizado via inseticidas, quando os níveis de controle forem atingidos. Além disso, a utilização de variedades de soja Bt requer por parte do produtor o plantio de áreas de refúgio como uma forma de manejar a resistência dos insetos. O plantio e a manutenção das áreas de refúgio representam o principal componente do plano de Manejo de Resistência de Insetos (MRI) das variedades de soja Bt, que expressam a resistência às lagartas 24 horas por dia em sete dias na
semana. A preservação e a sustentabilidade da tecnologia dependem do cumprimento das recomendações de MRI pelos produtores. O MRI nas cultivares Bt prevê que a semeadura das áreas de refúgio com soja não Bt seja na proporção de ao menos 20% da área total. As áreas de refúgio devem estar localizadas à distância máxima de 800 metros da lavoura com soja contendo a tecnologia Bt. As áreas de refúgio deverão ser conduzidas como qualquer área de soja não Bt, com o uso de pulverizações de inseticidas ou adoção de outros métodos de controle sempre que as populações das pragas atingirem o nível de ação. É importante
lembrar que não é recomendada a aplicação de inseticidas formulados à base de Bt nas áreas de refúgio. Recomenda-se que o refúgio seja plantado com uma variedade de soja de ciclo vegetativo similar à variedade da soja Bt.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
É fundamental manejar as pragas para a manutenção da sustentabilidade do agroecossistema e redução dos custos de produção. A estratégia de monitorar o sistema produtivo da soja, avaliando a ocorrência e a flutuação populacional das pragas, a adoção dos níveis de ação para a tomada de decisão e a integração de táticas de
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causados e a população dos insetos-praga para fazer com que as recomendações e as estratégias disponíveis dentro de um plano de manejo cheguem ao produtor, como elemento essencial para revitalizar a adoção
das recomendações do MIP e consequente sustentabilidade C do sistema produtivo. Regiane Cristina O. de F. Bueno, Unesp, Campus Botucatu Juliano Ricardo Farias Instituto Phytus
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controle apresenta resultados positivos, principalmente por posicionar de forma correta as aplicações de protudos fitossanitários. Assim, o principal desafio será encontrar novos canais para identificar os danos
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