Skip to main content

Grandes Culturas - Cultivar 189

Page 1

Cultivar Grandes Culturas • Ano XVI • Nº 189 • Fevereiro 2015 • ISSN - 1516-358X Destaques

Nossa capa

Convivência hostil...............................22

Pedro Jacob Christoffoleti

Como enfrentar a preocupante presença do capim-camalote nos canaviais

Ofensiva ampliada......................16 Com qualidade...........................34 Mancha zonada..........................40 A importância de mais opções de fungicidas no manejo antirresistência da ferrugem asiática

Que fatores demandam especial atenção na busca por alta produtividade e por qualidade na safrinha de milho

Índice

Os cuidados necessários contra Drechslera gigantea, doença que tem afetado a cultura do arroz nas últimas safras

Expediente

Diretas 04 Bactérias na cultura do trigo

08

Carboxamidas contra doenças em soja

14

Fundadores: Milton Sousa Guerra e Newton Peter

REDAÇÃO

• Vendas

Sedeli Feijó José Luis Alves

• Editor

Gilvan Dutra Quevedo

Rithieli Barcelos

• Redação

Fungicidas contra ferrugem asiática

16

Manejo de lagartas em soja

20

Nossa capa - Capim-camalote nos canaviais

22

Ferrugem no café 26 Helicoverpa em milho 30 Qualidade e produtividade no milho safrinha

34

Mancha zonada em arroz

40

Coluna ANPII 42 Coluna Agronegócios 44 Mercado Agrícola

46

Karine Gobbi Rocheli Wachholz

CIRCULAÇÃO

• Design Gráfico e Diagramação

• Coordenação

• Revisão

• Assinaturas

Cristiano Ceia

Simone Lopes Natália Rodrigues Clarissa Cardoso Aline Borges Furtado

Aline Partzsch de Almeida

MARKETING E PUBLICIDADE • Coordenação

• Expedição

Charles Ricardo Echer

Edson Krause

GRÁFICA: Kunde Indústrias Gráficas Ltda. Grupo Cultivar de Publicações Ltda. CNPJ : 02783227/0001-86 Insc. Est. 093/0309480 Rua Sete de Setembro, 160, sala 702 Pelotas – RS • 96015-300 Diretor Newton Peter www.grupocultivar.com cultivar@grupocultivar.com Assinatura anual (11 edições*): R$ 204,90 (*10 edições mensais + 1 edição conjunta em Dez/Jan)

Números atrasados: R$ 22,00 Assinatura Internacional: US$ 150,00 Euros 130,00 Nossos Telefones: (53) • Geral 3028.2000 • Comercial: • Assinaturas: 3028.2065 3028.2070 3028.2066 • Redação: 3028.2067 3028.2060

Por falta de espaço não publicamos as referências bibliográficas citadas pelos autores dos artigos que integram esta edição. Os interessados podem solicitá-las à redação pelo e-mail: cultivar@grupocultivar.com Os artigos em Cultivar não representam nenhum consenso. Não esperamos que todos os leitores simpatizem ou concordem com o que encontrarem aqui. Muitos irão, fatalmente, discordar. Mas todos os colaboradores serão mantidos. Eles foram selecionados entre os melhores do país em cada área. Acreditamos que podemos fazer mais pelo entendimento dos assuntos quando expomos diferentes opiniões, para que o leitor julgue. Não aceitamos a responsabilidade por conceitos emitidos nos artigos. Aceitamos, apenas, a responsabilidade por ter dado aos autores a oportunidade de divulgar seus conhecimentos e expressar suas opiniões.


Diretas Nitrogênio

A Associação Nacional dos Produtores e Importadores de Inoculantes (ANPII) assinou em Campinas, em dezembro, contrato com a Embrapa para a divulgação do uso do inoculante no plano ABC (Agricultura de Baixa Emissão de Carbono). Para o presidente da ANPII, Roberto Berwanger Batista, a assinatura desse contrato é muito importante, uma vez que conseguirá aperfeiçoar a maneira de orientar os agricultores sobre o uso dessa tecnologia sustentável, esclarecer dúvidas e, com isso, maximizar os resultados obtidos com o inoculante. “Teremos uma participação mais efetiva nos eventos promovidos pela Embrapa e com isso estreitaremos as relações e as trocas Roberto Berwanger Batista de informação”, projeta.

Antifalsificação

A Basf lançou em janeiro Dispositivo Antifalsificação (DAF) para linha de defensivos agrícolas. O sistema permite enxergar estrelas e espirais com efeitos 2D e 3D em cores que variam de acordo com o ângulo de visão. Além disso, a utilização de um laser point possibilita o aparecimento da palavra Basf de forma sombreada em uma superfície plana. Sua aplicação ocorre inicialmente nos fungicidas Opera, Opera Ultra, OrkestraTM SC e nos inseticidas Standak, Standak Top, Regent 800WG, Regent Duo e Tuit Florestal. “Nosso objetivo é oferecer uma forma simples e rápida de identificar a autenticidade dos produtos, proporcionando mais tranquilidade e segurança aos agricultores no momento da compra”, explica o gerente de Relações Governamentais e Sustentabilidade da Unidade de Proteção de Cultivos da Basf, Redson Vieira.

Nematoides

Participação

A DuPont Pioneer e a DuPont CropProtection deram início ao seu ano agrícola em janeiro, com participação no Dia de Campo C. Vale, em Palotina, Paraná. A DuPont Pioneer apresentou o portfólio de produtos para a safra Verão e a Safrinha, e a nova plataforma de Tratamento de Sementes Industrial. Já a DuPont CropProtection mostrou o Programa DuPont Soja, um novo conceito para o controle de pragas e manejo preventivo de doenças. Os produtos Avatar e Demarcor estiveram entre os destaques da empresa. “Avatar age como bloqueador de canais de sódio e paralisa a alimentação dos insetos-praga”, ressalta André Moraes, líder de marketing da DuPont do Brasil. Já o inseticida Dermacor, para tratamento de sementes de soja, tem sido utilizado no combate à Helicoverpa.

A Semear, consultoria especializada em solos, com apoio da FMC Agricultural Solutions, da Spaço Agrícola e de outras empresas do setor, realizou levantamento de populações de nematoides em 13 municípios de Goiás. O estudo destaca a importância do levantamento das espécies e população de fitonematoides. “A FMC sempre apoiará estudos como esse, que leva conhecimento prático sobre a incidência de doenças para que o produtor tenha mais produtividade e rentabilidade nas lavouras e principalmente contribui para o manejo mais sustentável. A identificação desses microrganismos é fundamental para um manejo mais responsável”, comentou o coordenador de Desenvolvimento de Mercado da FMC Felipe Faria Felipe Faria. André Moraes

Desenvolvimento

Ricardo Miranda é o novo diretor de Desenvolvimento da Bayer CropScience para o Brasil e a América Latina. O executivo é responsável por três subáreas: Segurança de Produto, Registro e Desenvolvimento Agronômico. “Estou certo de que temos excelentes profissionais e, juntos com a organização, contribuiremos para a empresa atingir os seus objetivos em toda a região”, afirma. O novo diretor possui mais de 25 anos de experiência na indústria agrícola, com passagens por empresas internacionais, onde foi responsável pelo desenvolvimento de produtos e pelas áreas comerciais, marketing e Ricardo Miranda novas tecnologias.

04

Redson Vieira

Divisão Bio

A Ihara anunciou a criação da divisão Bio, específica para o desenvolvimento de produtos biológicos de proteção de cultivos. “Hoje a comercialização de produtos biológicos já representa cerca de 10% do faturamento da Ihara. Isso nos motivou a avançar ainda mais nesse setor, buscando parcerias de empresas e universidades, nacionais e estrangeiras, para o desenvolvimento de novas pesquisas e produtos”, afirmou o gerente da recém-criada divisão Bio, Evandro Sasano.

Fevereiro 2015 • www.revistacultivar.com.br

Evandro Sasano


ShowTec

Em janeiro a Ihara participou da 19ª edição do ShowTec e apresentou soluções do portfólio para as culturas de soja e milho. Em campo, foram demonstradas ferramentas para controle de percevejo e Spodoptera na cultura de milho, e manejos de pragas e doenças para cultura da soja. Dentre um portfólio com mais de 60 produtos, a Ihara destacou o Certeza no tratamento de sementes e o Danimen e Agree para o manejo de pragas no milho. Para a soja, apresentou os produtos Flumyzin, Targa, Certeza, Pirâmide, Incrível, Pirephos e Agree. “Nosso objetivo é oferecer tecnologias de parceiros japoneses, apresentando novidades para o controle das principais pragas e doenças dessas culturas”, afirmou o gerente comercial distrital da Ihara, Márcio Sasso.

Algodão

A Monsanto conta a história dos desafios da cotonicultura brasileira em websérie inédita para o YouTube, com seis vídeos produzidos durante a última safra do algodão. O conteúdo “Histórias de Fibra” resulta do trabalho do Clube de Excelência, iniciativa de relacionamento da Monsanto. “Compilamos em vídeo os dados e as interações realizadas durante as visitas e apostamos na websérie para facilitar o acesso às informações. Desta forma, o público poderá conhecer mais sobre o trabalho dos cotonicultores e sobre a dedicação e os investimentos da Monsanto no algodão brasileiro”, afirmou a coordenadora de Marketing da Monsanto, Érica Franco.

Érica Franco

Biotecnologia

Aprovado

A Syngenta recebeu das autoridades regulatórias da China o certificado de segurança do Agrisure Viptera, que lhe concede formalmente a aprovação de importação. A aprovação abrange grãos e processamento de subprodutos do milho, tais como grãos secos de destilaria (DDGS), para alimentação humana e animal. O Agrisure Viptera é um componente-chave das soluções de controle de insetos da Syngenta, que oferece proteção contra um amplo espectro de pragas de milho e permite ganho de produtividade para as culturas. Agrisure Viptera tem aprovação nos EUA para cultivo desde 2010 e também foi aprovado para cultivo no Brasil, Argentina, Canadá, Colômbia, Paraguai e Uruguai. Além da China, o Agrisure Viptera foi aprovado para importação na Austrália, Nova Zelândia, Bielorrússia, União Europeia, Indonésia, Japão, Cazaquistão, Coreia, México, Filipinas, Rússia, África do Sul, Taiwan e Vietnã.

Uso seguro

A Iniciativa 2,4-D, grupo formado pelas empresas Adama, Atanor, Dow AgroSciences e Nufarm com o objetivo de gerar informação técnica sobre o uso correto e seguro de defensivos agrícolas, realizou 74 treinamentos em 2014 em todas as macrorregiões do Brasil. “O 2,4-D desempenha um papel fundamental no manejo de plantas de difícil controle, como buva, leiteiro, picão-preto e nabiça. É essencial que os agricultores conheçam as formas corretas de utilização desta importante ferramenta”, explica o pesquisador Mauro Rizzardi, da Universidade de Passo Fundo e parceiro da Iniciativa. Mauro Rizzardi

A Dow AgroSciences LLC acaba de anunciar o Conkesta, primeira biotecnologia da empresa em resistência a insetos para a cultura da soja. O novo trait foi submetido à aprovação das autoridades regulatórias como o primeiro que expressa duas proteínas Bt. Será oferecido como um pacote de eventos da soja Enlist, solução integrada que fornecerá o controle necessário de insetos, bem como a tolerância a vários grupos de herbicidas para a melhoria do manejo de plantas daninhas. "A tecnologia Conkesta ajudará os agricultores a controlar de forma significativa os lepidópteros", garante o líder global da Divisão de Sementes da Dow AgroSRolando Meninato ciences, Rolando Meninato.

Aplicativo

A Microquímica apresentou em janeiro, na 19ª edição do ShowTec, o Check Folha Mobile para soja. O aplicativo está disponível de forma gratuita para dispositivos com sistema Android ou iOS. Com a ferramenta o produtor pode cadastrar os resultados numéricos de laboratório e obter gráficos que indicam os nutrientes que requerem maior atenção e ações corretivas. O Check Folha Mobile apresenta também modo para análises antecipadas, oriundas de lavouras jovens (com quatro trifólios ou cerca de 20 dias após o plantio). “A prática permite constatar problemas nutricionais com um grau de precisão muito elevado e geralmente antes de haver dano irreversível à produção”, afirma o gerente de Marketing da Microquímica, Anderson Nora Ribeiro, para quem a tecnologia móvel e os serviços que resultem em agilidade e organização para os produtores serão cada vez mais importantes para a Anderson Nora Ribeiro tomada de decisão.

www.revistacultivar.com.br • Fevereiro 2015

05


Daninhas

A Dow AgroSciences participou do SafraTec 2015, em janeiro, no município de Floresta, Paraná, e apresentou o novo herbicida Tricea, pós-emergente para a cultura do trigo. Com amplo espectro, o produto é indicado contra o azevém e outras plantas daninhas de folhas largas e estreitas que comprometem a produtividade das lavouras. Tricea estará disponível a partir da safra de inverno de 2015 nas redes distribuidoras da Dow AgroSciences em toda a Região Sul.

Livro

O pesquisador Luís Azevedo, do Instituto de Biologia, Departamento de Entomologia e Fitopatologia, lança no XXXVIII Congresso Paulista de Fitopatologia o livro "Misturas de Tanque de Produtos fitossanitários: Teoria e Prática". Trata-se de uma publicação de 232 páginas, composta por dez capítulos que abordam o assunto dentro da proteção de plantas no País e no mundo. O livro foi editado pela Imos Gráfica Editora do Rio de Janeiro, teve prefácio de Vicente Gongora, diretor de Markenting da UPL Brasil e apresentação de Nestor Gabriel da Silva, diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Syngenta América Latina. Foi patrocinado pelas empresas Syngenta, Bayer, Produquímica, UPL Brasil, Basf, Nufarm, Sumitomo, Rotam e Oxiteno.

Cultivares

A Tropical Melhoramento e Genética (TMG) esteve presente no ShowTec 2015, em Maracaju, Mato Grosso do Sul, onde apresentou seu portfólio de cultivares de soja. De acordo com o Desenvolvimento de Mercado da região, Josivaldo Amarila, participar de eventos como esse é importante. “Podemos mostrar quais são os diferenciais das nossas cultivares, com destaque para as tecnologias Inox e Ipro na TMG 7062 Ipro Inox, TMG 7060 Ipro Inox e TMG 2158 Ipro. O pacote tecnológico presente nestas cultivares contribui para o aumento de produção e economia no uso de fungicida, proporcionando assim maior segurança e rentabilidade ao produtor.”

Manejo

Luís Azevedo

Solução

A Syngenta destaca o Avicta Completo, primeiro nematicida para tratamento profissional de sementes de milho, soja e algodão. O produto é a combinação de Avicta 500 FS, Cruiser 350 FS e Maxim Advanced 195 FS, disponível exclusivamente para sementes tratadas industrialmente. “O diferencial do Avicta Completo é a conveniência do tratamento profissional de sementes como solução completa contra nematoides, insetos e doenças. É o parceiro ideal da semente de alta tecnologia e dos agricultores que buscam altas produtividades”, afirmou o gerente de Marketing André Negreiros da Syngenta, André Negreiros.

06

Linha completa

A Adama apresentou soluções no ShowTec 2015, com a exposição de inseticidas, fungicidas, herbicidas e bioestimulantes, com foco nas culturas de soja e milho. “Pretendemos fortalecer e posicionar nossa marca que veio para facilitar a vida do produtor”, disse o gerente de Desenvolvimento de Mercado, Leandro Garcia. Foram apresentados os inseticidas Shelter, recomendado para tratamento de sementes, e Galil SC, reconhecido para o controle de percevejos sem causar desequilíbrio de ácaros. Em fungicidas foram destaques Azimut e Horos. Outro produto exposto foi o herbicida Poquer, para controle de gramíneas resistentes ao glifosato, especialmente o capim amargoso. Foi destaque da marca, também, o ExpertGrow, bioestimulante Leandro Garcia de 3ª geração.

A FMC Agricultural Solutions participou do ShowTec 2015 e apresentou suas soluções contra doenças e pragas no campo. “Trouxemos pela primeira vez no ShowTec uma solução combinada para soja, entre o nematicida/inseticida Rugby 200 CS e o sistema de aplicação Pulvereasy, um aplicador especialmente desenvolvido para oferecer precisão e uso em larga escala no campo para controle dos nematoides. Para milho, o inseticida Talisman para o controle de percevejos com dois modos de ação, também é usado para a cultura da soja com alta performance, além de possuir efeito complementar no controle de lagartas. Todas essas soluções dentro de uma proposta de manejo mais equilibrado, composto por inseticidas biológicos e a linha Fertís, com fertilizantes especiais que promovem a melhor absorção e assimilação de nutrientes pela planta”, explicou o gerente de Marketing Culturas Sul da FMC, Eduardo Menezes.

Fevereiro 2015 • www.revistacultivar.com.br

Eduardo Menezes


Agronegócio em foco

Fertilizantes

A DuPont Pioneer lançou o Agronegócio em Foco, um blog para quem vive o campo no dia a dia. O blogespaço age como canal de comunicação, onde os produtores poderão entrar em contato para dar opinião e tirar dúvidas com os técnicos. O blog busca trazer assuntos relacionados às culturas do milho e da soja, com conteúdo exclusivo,focado na implementação de soluções para o aumento dos níveis de produtividade das lavouras. Com essa ferramenta a empresa quer ampliar a comunicação, tornando-a mais dinâmica, rápida e efetiva. O acesso pode ser realizado pelo endereço virtual www.pioneersementes.com.br/blog.

A Arysta LifeScience levou suas principais soluções de Proteção de plantas e BioSolutions à 6ª edição do Dia de Campo Cooatol, em janeiro. “Um evento desse porte contribui para intensificar uma eficaz troca de informações. É muito positivo também porque possibilita ao agricultor observar o resultado e a eficiência das tecnologias a campo”, ressaltou o gerente de Nutrição da Arysta, Fábio Bueno. A empresa destacou o lançamento do fertilizante Podset, à base de algas, que nutre a planta e promove o efeito FisioAtivador, aliviando o estresse causado pelo ambiente de aplicações de agroquímicos. Podset pode ser usado em qualquer tipo de cultura.

Fábio Bueno

Nutrição

Os programas nutricionais da Yara para milho e soja foram os destaques da empresa no 19º ShowTec. O especialista agronômico Ademílson Palharin explicou que os programas nutricionais trazem recomendações para os agricultores, como a escolha correta de fertilizantes e nutrientes nos momentos adequados à planta. “A aplicação correta dos nutrientes nos períodos propícios resulta no aumento do desempenho e da produtividade da cultura”, conta Palharin. O Programa Nutricional para Milho requer, ainda, a aplicação da linha de fertilizantes YaraMila no plantio e a utilização das linhas YaraBela e YaraVita na cobertura. Já para a cultura da soja, a Yara exibiu o TopMixEvolution, Ademílson Palharin que contém a tecnologia Procote.

Encontro técnico

A Basf promoveu no final de janeiro o encontro técnico InCampo, na região de Formosa, para demonstrar soluções de seu portfólio a agricultores, técnicos, cooperativas, revendas agrícolas, consultores, pesquisadores e estudantes. Ao todo, oito tendas foram preparadas para apresentar os produtos e serviços da marca para as diversas culturas. A programação também contou com palestras técnicas e demonstração de resultados práticos.

Ampliação

A Microquímica concluiu investimentos de R$ 1,7 milhão em sua fábrica de inoculantes. Em 2014 houve ampliação na estrutura que elevará em 44% a capacidade de produção. A empresa é a única no Brasil com fábrica dedicada à produção de aminoácidos exclusivamente para uso agrícola, através de processo fermentativo controlado. Para 2015 a empresa pretende verticalizar a produção de alguns inoculantes, que atualmente contam com parceiros industriais. A empresa continua avançando no mercado de produtos biológicos, com projetos para a produção de diferentes opções e formulações de inoculantes.

Novos rumos

Vicente Gongora assume a Presidência da UPL nos Estados Unidos. O executivo foi transferido do cargo de Diretor de Marketing, Desenvolvimento e Registro para a UPL do Brasil. “Meu objetivo como presidente será trazer inovação à UPL, lançar novos produtos, ampliando o portfólio da empresa com qualidade e dobrar a UPL de tamanho nos próximos quatro anos”, projeta Gongora.

Vicente Gongora

No milho

A Cheminova recebeu das autoridades regulatórias a inclusão de recomendação de uso do fungicida Authority para a cultura do milho. Segundo o fabricante ensaios e campos conduzidos nas principais regiões produtoras do Brasil mostraram ganhos de produtividade variando de 17,6 sacos/ha a 51 sacos/ha em relação a área não tratada com fungicidas. Além da recente autorização para milho o produto é recomendado para as culturas de soja, trigo, algodão e café.

www.revistacultivar.com.br • Fevereiro 2015

07


Trigo

Risco silencioso

Bactérias são inimigos discretos, que costumam permanecer na superfície das plantas de trigo, sem produzir qualquer sintoma visível, mas podem se aproveitar de algum tipo de condição ambiental favorável para penetrarem nas plantas e começarem um processo infeccioso. É o caso de Pseudomonas syringae e de Xanthomonas translucens, que exigem atenção e cuidado por parte dos produtores Fotos Flávio Martins Santana

sintoma visível, mas podem se aproveitar de algum tipo de condição ambiental favorável, como o excesso de umidade, para penetrarem nas plantas e começarem um processo infeccioso. Esta é uma característica especialmente relevante para Pseudomonas syringae pv. syringae, o agente causal da doença conhecida no Brasil por queima da folha de trigo, uma das duas doenças bacterianas relatadas no país como causadoras de danos importantes em lavouras. A outra espécie bacteriana descrita como sendo causadora de danos elevados na cultura do trigo no Brasil é Xanthomonas translucens pv. translucens, agente causal de um quadro sintomatológico diferenciado, ou seja, produz sintomas tanto em folhas como em espigas de trigo. Quando atinge a folha, causa o sintoma conhecido por estria bacteriana ou mancha estriada. Quando ataca as espigas produz o sintoma denominado de espiga preta, sendo que existe o termo black chaff, em inglês, que é internacionalmente consagrado para se referir a esse tipo de sintoma na espiga. Embora em menor número que os já realizados com P. syringae pv. syringae, existem trabalhos bem estabelecidos que demonstram que X. translucens pv. translucens também se desenvolve de forma epifítica e que este recurso e/ou estratégia é importante para a sua sobrevivência e posterior infecção em plantas de trigo. Nas condições brasileiras tem-se observado que os sintomas causados por X. translucens pv. translucens em lavouras de trigo têm ocorrido com mais frequência em regiões mais quentes do país. No entanto, mesmo no Rio Grande do Sul, esporadicamente ocorrem surtos epidêmicos da doença, embora seja um estado de clima mais frio em relação a regiões como o norte do Paraná e o sul de São Paulo, onde a ocorrência da doença tem sido muito mais frequente.

A

s bactérias estão sempre presentes na superfície das plantas e dos animais. Retiradas as devidas exceções, esta situação representa uma condição de risco natural que as plantas de culturas agrícolas estão sujeitas quando instaladas no

08

campo. Ocorre que uma das características mais importantes que bactérias associadas às plantas apresentam é o fato de desenvolverem-se de forma epifítica, isto é, permanecem na superfície das plantas, nutrindo-se de seus exsudatos naturais, sem produzir qualquer

Fevereiro 2015 • www.revistacultivar.com.br

QUEIMA DA FOLHA DE TRIGO

Pseudomonas syringae pv. syringae Pseudomonas syringae pv. syringae é uma bactéria que, praticamente, está sempre presente na superfície das folhas de plantas de trigo. Vive epifiticamente, especialmente nas


folhas localizadas na parte superior das plantas. Assim, o simples isolamento dessa bactéria a partir de plantas de trigo não significa que esteja ocorrendo um processo infeccioso. Por outro lado, os surtos epidêmicos da queima da folha de trigo são esporádicos, e esta condição deve ser uma das razões pelas quais não se tem informações consistentes sobre o dano que a doença produz na cultura do trigo. Sintomas Os sintomas iniciais da queima da folha de trigo, geralmente, aparecem próximos ao início do espigamento, nas folhas superiores, e sob a forma de numerosas e pequenas manchas aquosas. Após dois ou três dias, estas lesões se expandem e coalescem (juntam-se), formando lesões maiores, acinzentadas e de aspecto desidratado. Na Figura 1 é possível verificar esse tipo de sintoma. Quando a umidade é elevada, exsudatos bacterianos, eventualmente, podem ser observados em tais lesões. Epidemiologia A bactéria tem um número muito grande de espécies hospedeiras, o que inclui milho, sorgo, macieira, pessegueiro, diversas plantas daninhas e muitas outras espécies. Sobrevive nestas plantas, predominantemente, de forma epifítica. As condições ambientais que favorecem a doença são temperaturas amenas (15ºC a 25°C) e alta umidade relativa. Sob temperaturas entre 15ºC e 18°C, combinadas com alta umidade, em 2010, foi observado um surto epidêmico da doença no Rio Grande do Sul. Na Figura 2 são apresentados os dados de temperatura e umidade registrados em Passo Fundo naquele período. Todas estas circunstâncias confirmam as indicações de que a presença do patógeno não representa o aspecto mais importante para o desenvolvimento de infecções causadas por P. syringae pv. syringae. Condições ambientais favoráveis, representadas especialmente por temperatura e umidade, é que são determinantes para o desenvolvimento da bactéria e o aparecimento dos surtos epidêmicos.

Figura 1 - Sintomas de queima da folha de trigo causada por Pseudomonas syringae pv. syringae

ESTRIA BACTERIANA OU MANCHA ESTRIADA DA FOLHA

Xanthomonas translucens pv. translucens Esta bactéria sobrevive em sementes, que são os principais agentes disseminadores deste patógeno, condição esta que representa um problema para intercâmbio internacional de germoplasma. Os danos no rendimento da cultura do trigo causados por X. translucens pv. translucens podem variar de 8% a 40%. Sintomas Nas folhas, os primeiros sintomas aparecem como pequenas manchas ou estrias lineares, marrom-claras e aquosas. Nos estágios iniciais, a lesões se desenvolvem longitudinalmente entre as nervuras, após, podem se expandir e coalescer, produzindo manchas marrom-acinzentadas de forma irregular. Nas Figuras 3A e 3B é possível observar os sintomas causados pela estria bacteriana em folhas de trigo. Em condições de alta umidade, um abundante crescimento bacteriano aparece na forma de exsudato (gotículas viscosas). A espiga preta (black chaff) refere-se ao escurecimento das espigas e das hastes das espigas. Estrias escuras, lineares e aquosas nas glumas são os principais sintomas. Estas lesões nas glumas podem coalescer. Em ataques se-

veros, os grãos podem se tornar manchados e enrugados. Existem, pelo menos, dois tipos de sintomas de natureza abiótica que podem ser confundidos com os sintomas da espiga preta causados por X. translucens pv. translucens. Um é o melanismo e o outro é o “pseudo-black chaff”. O melanismo é um processo de concentração do pigmento preto nas espigas e suas hastes, sendo causado, muito provavelmente, devido à combinação de fatores genéticos e de adaptação ambiental. O pseudo-black chaff representa a expressão fenotípica de genes de resistência à ferrugem do colmo (Sr2) quando a planta é submetida a algum tipo de estresse. Epidemiologia O patógeno sobrevive tanto interna como externamente às sementes, mas sua principal localização é externa. Sabe-se que a taxa de transmissão do patógeno das sementes para parte aérea é baixa, embora não seja conhecida a dimensão que essa baixa taxa de transmissão possa representar no desenvolvimento dos surtos epidêmicos da doença. A bactéria pode sobreviver por um longo período nas sementes armazenadas. Existe alguma controvérsia sobre quanto é exatamente esse período. A variação nesse sentido é de 36 meses a 81 meses, mas todos os trabalhos confirmam que a população bacteriana nas sementes vai sendo reduzida à medida que o tempo de armazenagem aumenta. Xanthomonas translucens pv. translucens sobrevive no solo, em diversos hospedeiros alternativos, sementes e restos culturais. No entanto, atribui-se às sementes o papel de mais importante fonte de inóculo primário para a doença. Água livre na superfície das plantas permite a dispersão do patógeno na folha, aumentado o número de lesões. A bactéria entra pelos estômatos e multiplica-se no tecido parenquimático. A chuva e o vento encarregam-se de dispersá-la pela lavoura, a

Figura 2 - Precipitação e temperaturas mínimas e máximas registradas em Passo Fundo (RS), entre o período de 10 a 27 de setembro de 2010

Controle Uma alternativa para o controle da doença é o uso de cultivares resistentes. Entretanto, devido à sua condição de ocorrência esporádica, os programas de melhoramento de trigo no Brasil não têm utilizado procedimentos rotineiros de avaliação de seus genótipos em resposta à doença. Dessa forma, não existem informações consistentes sobre a reação das cultivares brasileiras de trigo à queima da folha. Apesar disso, durante o surto epidêmico que ocorreu em 2010, no Rio Grande do Sul, verificou-se que existem diferenças consideráveis entre as cultivares atualmente utilizadas no Brasil em relação à reação à doença.

www.revistacultivar.com.br • Fevereiro 2015

09


Fotos Flávio Martins Santana

A

B

Figura 3A e B - Sintomas de estria bacteriana em folhas de trigo causada por Xanthomonas translucens pv. translucens

partir dos exsudatos bacterianos formados nas lesões das folhas e glumas. A bactéria também tolera uma ampla faixa de temperaturas, que vai de 15ºC a 30°C, mas, dentro dessa faixa, desenvolve-se melhor quando a temperatura está acima de 26°C. Sabe-se que a temperatura tem um impacto significativo sobre as epidemias da doença. A multiplicação do patógeno nos tecidos foliares é diretamente dependente da temperatura, sendo que condições do ar seco (Umidade Relativa <30%) não limitam o progresso da doença. Controle A utilização de sementes livres da bactéria deve ser vista como a principal medida para evitar a entrada de X. translucens pv. translucens na lavoura. O sucesso dessa medida depende do controle da origem da semente, que deve ter sido produzida em lavouras onde não se constatou a presença de sintomas da bacteriose. Além disso, as sementes produzidas em tais lavouras devem ser submetidas a testes de sanidade que também comprovem a ausência de contaminações com X. translucens pv. translucens. A rotação com culturas não suscetíveis à bactéria é uma estratégia importante para o controle da doença. Nesse sentido, as espécies de plantas de culturas agrícolas passíveis de infecção virulenta da bactéria, cuja confirmação já ocorreu, são as seguintes: aveia, centeio, cevada, trigo e triticale. A utilização de cultivares resistentes à bacteriose também é uma prática

10

indicada, embora se considere que a maioria das informações disponíveis sobre a reação das cultivares à doença não seja consistente.

AS BACTÉRIAS E O FRIO

As baixas temperaturas registradas durante o inverno também podem produzir efeitos negativos à cultura do trigo não somente sob a forma de geadas durante a floração. Esses efeitos podem ser verificados especialmente nas folhas onde se observa manchas claras e translúcidas. Apesar desse tipo de dano ser essencialmente de origem abiótica, relacionado a um fenômeno físico que ocorre na natureza, já foi comprovado que a sua ocorrência conta com a participação efetiva de alguns microrganismos. No trigo, os principais agentes biológicos associados com esse quadro sintomatológico são as chamadas bactérias nucleadoras de gelo. Tais bactérias representam uma porção da comunidade de bactérias epífitas que naturalmente habitam a superfície das folhas em regiões de clima temperado, geralmente sem parasitar as plantas, mas que potencializam a ação prejudicial do frio e/ou geadas. Ocorre que, embora o gelo derreta a 0°C, a água líquida e pura, sob certas condições, pode atingir temperaturas de até –40 °C sem se solidificar. Normalmente a água permanece líquida até –10°C, entretanto, existem vários tipos de partículas no ambiente, entre as quais, as bactérias epífitas, que podem servir de núcleo de orientação das moléculas

Fevereiro 2015 • www.revistacultivar.com.br

de água e proporcionar o seu alinhamento em cristais de gelo sob temperaturas não tão baixas. O efeito nocivo provocado pelos cristais de gelo, formado pelo congelamento da água presente nos espaços internos e externos das células das plantas, se deve ao rompimento que essas estruturas provocam em membranas celulares, causando a perda do conteúdo interno e morte das células. Nesse sentido, já foi comprovada a ação nucleadora de bactérias como Pseudomonas fluorescens, Erwinia herbicola e de variantes (patovares) de P. syringae, que conseguem catalisar a formação de gelo em temperaturas próximas a –2°C. Algumas bactérias, como P. syringae pv. syringae e X. translucens pv. translucens, além de exercerem ações de parasitismo sobre as plantas, são ativas no processo de nucleação de gelo. Além disso, existe a possibilidade destas bactérias aproveitarem os ferimentos nas células vegetais, provocados pela formação dos cristais de gelo, como um meio de acesso ao interior das plantas, passando, então, a atuar como agentes infecciosos. Todas estas circunstâncias indicam que a maior sensibilidade das plantas de trigo à ação das geadas ou das baixas temperaturas depende da densidade e da diversidade de bactérias C presentes na sua superfície. João L. Nunes Maciel e Flávio Martins Santana, Embrapa Trigo


Soja

Posicionamento correto

Novo grupo químico a ser posicionado em aplicação foliar em soja, as carboxamidas representam importante aliado no combate a doenças que limitam a cultura. A utilização desses produtos, principalmente de modo preventivo e em mistura com estrobilurinas e triazóis, minimiza o risco de tolerância/resistência dos fungos, além de aumentar a eficácia e a vida útil desta ferramenta

A

inovação tecnológica especialmente no mercado de fungicidas tem proposto produtos cada vez mais seletivos, efetivos em doses menores, com modos e mecanismos distintos de ação, mais ágeis, com alto potencial protetor, formulações resistentes à ação de chuvas, menos tóxicos ao homem e ao ambiente e com menor risco de selecionarem raças resistentes. O processo de descoberta de um novo ingrediente ativo demanda tempo e investimento, uma vez que o lançamento de uma nova molécula necessita no mínimo dez anos entre sua síntese, desenvolvimento do processo, produção, formulação, melhoramento, testes laboratoriais, pesquisa de campo para posicionamento e registro, métodos de aplicação, análises de resíduos e toxicidade. Para isso, o investimento é alto, sem contar que são analisadas mais de 140 mil substâncias por ano para se chegar a uma molécula comercial. É o caso do grupo químico das carboxamidas, que objetiva atender a todos os requisitos anteriormente descritos. Como grupo químico carboxamida não é novo e seu primeiro ingrediente ativo foi descoberto em 1966 (carboxina). Há alguns anos, este grupo possui fungicidas posicionados para algumas culturas, como a carboxina em tratamento de semente e boscalida (2003) em HF. Em grandes culturas como a soja, não existia nenhum representante recomendado

pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para aplicação foliar. Deste modo, o trabalho das empresas em buscar novos ingredientes ativos chegou ao desenvolvimento dos pyrazoles-4-carboxamidas (a partir de 2010), subgrupo das carboxamidas. Seus representantes possuem o mesmo arranjo molecular que os caracterizam, com variações nos radicais formando os ingredientes ativos diferentes (Figura 1 A e B). Assim, representam um novo grupo químico a ser posicionado em aplicação foliar para cultura da soja. Na mitocôndria do patógeno, a respiração promove o fluxo de elétrons entre os complexos proteicos, que é fundamental para o movimento da ATP sintase, promovendo a ligação de um terceiro grupo fosfato aos dois fosfatos da adenosina (Figura 1). O produto desta ligação é o ATP (Adenosina TriPhosphato), encontrado universalmente nos sistemas vivos e tem como função essencial armazenar energia para as atividades vitais básicas das células. O ATP libera uma grande quantidade de energia utilizável quando é desdobrado pela adição de uma molécula de água (hidrólise). Os ingredientes ativos do grupo das carboxamidas, assim como as estrobilurinas, atuam interrompendo este processo em complexos proteicos diferentes, privando o patógeno do principal produto, o ATP. Tecnicamente, o mecanismo de ação das carboxamidas apresenta efeito inibidor sobre a produção da enzima

Figura 1 – Arranjo molecular característico do subgrupo pyrazoles-4-carboxamida (A) e os representantes (B) (adaptado de Frac, 2014)

14

Fevereiro 2015 • www.revistacultivar.com.br

Succinato Desidrogenase (SDHI), atuante no Complexo II da cadeia de transporte de elétrons na mitocôndria do fungo, impedindo a oxidação de Succinato para Fumarato (Figura 2). A estrutura da Succinato Desidrogenase (SDHI) é formada por quatro proteínas, CII-1 (flavoproteína) e CII-2 (proteína enxofre ferroso) e as proteínas CII-3 eCII-4 que são formadoras de polipeptídeos ligados às membranas (Figura 3). A proteína CII-2 é responsável pelo transporte de elétrons da cadeia respiratória do Complexo I para o Complexo III. Já a proteína CII-3 é o principal local de ação das carboxamidas, na ubiquinona da enzima. Assim, qualquer surgimento de resistência aos SDHI depende de um novo arranjo dos aminoácidos dentro da proteína. Em âmbito celular, estudos do mecanismo de ação das carboxamidas ainda indicam seu efeito na biossíntese de proteínas, lipídeos, DNA e RNA, além de ser observada maior transformação de glicose ou acetato em succinato e uma diminuição na transformação de citrato, malato e fumarato. O espectro de ação sobre os patógenos é normalmente variável. Alguns fungicidas pertencentes ao subgrupo dos pyrazoles apresentam boa ação em deuteromicetos, ascomicetos e basidiomicetos (ferrugens), já outros ficam restritos a estes últimos. Além disso, podem ter sua eficácia potencializada a partir da adição de ativos dos grupos químicos estrobilurinas e triazóis, conferindo maior espectro de controle, acrescentando consistência ao residual e reduzindo o risco de tolerância/ resistência. Além disso, a ação dos ativos deste grupo sobre a fisiologia das plantas é notória e em maior magnitude que o apresentado pelo grupo das estrobilurinas, quando posicionados preventivamente, permitindo assim a absorção pelo tecido foliar. A lifofilicidade que alguns ativos deste grupo apresentam define-os como produtos de elevada mobilidade. Após a deposição dos fungicidas sobre os tecidos da planta, podem ser mobilizados através de transporte acropetal


Fotos Divulgação

Figura 2 – Membrana mitocondrial (Complexo 1, 2, 3, 4 e 5) e os sítios de inibição da fosforilação oxidativa responsáveis pelo colapso celular dos fungos

Madalosso e Balardin detalham comportamento do grupo químico das carboxamidas

(xilema), episistêmico (adsorção na camada cerosa e redistribuição na fase vapor – grande quantidade do ativo mantém-se nestes tecidos), de forma translaminar, acumulando-se na face oposta da folha e mesostêmico (episistêmico e translaminar) (Figura 4). Existem diferenças entre ativos deste grupo químico quanto à lifofilicidade, mas alguns podem apresentar os quatro padrões de mobilidade. Além de atuar nos esporos, micélio primário e secundário, uma redução na taxa de progresso da doença é observada de forma significativa. Contudo, embora pudesse ser atribuído efeito curativo eficaz, dados de campo demonstram uma ação fortemente pre-

ventiva – fato suportado tecnicamente, pois a fase de maior demanda de energia (ATP) pelo patógeno está no momento pré-infecção. Em ensaios conduzidos com aplicações curativas ou ainda erradicativas ficou evidente uma perda significativa de residual (Figura 5). Todos os representantes do grupo das carboxamidas atuam sobre o mesmo sítio de ação mencionado anteriormente. Assim, o posicionamento tardio de qualquer ingrediente ativo do grupo poderá exercer uma pressão de seleção sobre a população do patógeno, acelerando o processo de queda de sensibilidade a todos os outros ingredientes ativos do mesmo grupo, caracterizando risco médio a alto de re-

sistência cruzada (Frac, 2014). Portanto, o uso tardio de um produto pode vir a comprometer todo funcionamento deste novo grupo para manejo na cultura da soja (Figura 6). A utilização de produtos com ingredientes ativos do grupo das carboxamidas, principalmente quando posicionados preventivamente e em mistura com estrobilurinas e triazóis, minimiza o risco de tolerância/resistência dos fungos a estes grupos químicos, aumenta a C eficácia e a vida útil desta ferramenta. Marcelo G. Madalosso, Inst. Phytus/Univ. Reg. Int. Santiago Ricardo Balardin, Univ. Federal de Santa Maria

Figura 3 – Arranjo de proteínas formando a enzima Succinato Desidrogenase (SDHI) Figura 5 – Variações na eficiência do controle, devido a variações no momento de no Complexo II da cadeia respiratória na mitocôndria (adaptado de Basf, 2013) controle das fases do patógeno

Figura 4 – Diagrama representativo da mobilidade de fungicidas: acropetal (A), Figura 6 – Alguns casos catalogados de resistência de patógenos ao grupo das carboxamidas (Frac, 2014) episistêmico (B), translaminar (C) e mesostêmico (D)

B

D

A C

Fonte Organismo Ocorrência Mutação de SDHKeon et al. 1991 Ustilago maydis Lab B (H253L) Skinner et al. 1998 Mycosphaerella graminicola Lab B (H267Y, L) Ito et al. 2004 Coprinus cinereus Lab C (N80K) Basf 2007 Botrytis cinerea Lab + Campo B (P225L,T,F; H272Y,R) Basf 2007 Botrytis elliptica Campo B (H272Y,R) Alternaria alternata Campo B (H277,R) C (H134R) Avenot + Michaelidis 2007; Basf 2007 Corynespora cassiicola Campo B (H278Y), C (S83P), D (S89P) Ishii + Miyamoto 2007; Basf 2007 Stevenson 2007; Basf 2007 Didymella bryoniae Campo B (H->Y) Basf 2007 Podosphaera xanthii Campo B (H->Y)

www.revistacultivar.com.br • Fevereiro 2015

15


Fotos Carolina Deuner

Soja

Ofensiva ampliada Com o registro do grupo químico carboxamida para auxiliar no combate à ferrugem asiática, produtor passa a contar com mais opções de mistura para manejar a doença, o que constitui excelente estratégia antirresistência para evitar ou retardar a perda de sensibilidade de fungos à aplicação de fungicidas

A

pesar da ampla expansão, os sistemas de exploração da cultura da soja, em geral, ainda não são estáveis. Entre os diversos fatores que contribuem para as variações no rendimento, merecem destaque as doenças. Aproximadamente 40 doenças causadas por fungos, bactérias, nematoides e vírus já foram identificadas no Brasil. Nesse contexto, a ferrugem asiática constitui-se na principal doença foliar da cultura da soja em todo o mundo. O primeiro relato da presença do fungo no continente Americano ocorreu no Paraguai em 2001, seguido de Argentina e Brasil na safra 2001/02, sendo que atualmente encontra-se presente em todos os estados produtores de soja. Os sintomas iniciam-se nas folhas inferiores e são caracterizados pelo aparecimento de pontos de coloração cinza-

16

-esverdeada mais escuros que o tecido sadio da folha. No lado abaxial da folha, no local correspondente observam-se protuberâncias que são as urédias, onde encontram-se as estruturas propagativas do fungo, os uredosporos. Esses necessitam de seis a dez horas de molhamento foliar com temperaturas entre 15ºC e 30°C, sendo a ótima de 22°C para penetrar na planta. As urédias formam-se após o período de incubação do fungo de aproximadamente nove dias, enquanto os uredosporos são formados em três semanas. O controle das doenças de plantas mais eficiente, duradouro e econômico é obtido pelo somatório de medidas de manejo disponíveis e nunca de uma prática isolada, sendo que para essa doença, as estratégias recomendadas são: a utilização de cultivares de ciclo precoce, as semeaduras no início da época recomendada, a

Fevereiro 2015 • www.revistacultivar.com.br

eliminação de plantas de soja voluntárias, a ausência de cultivo de soja na entressafra (vazio sanitário), o plantio de cultivares resistentes e a utilização de fungicidas preventivamente ou no início dos sintomas. O controle químico de ferrugem asiática teve início no Brasil na safra agrícola de 2002/03, utilizando-se mistura de triazol + estrobilurina ou triazol isoladamente. A mistura de fungicidas, de forma geral, apresentava melhor eficiência de controle e maior rendimento da cultura quando comparada com fungicidas isolados. A partir da safra 2007/08 foi observada menor eficiência dos triazóis em ensaios realizados em semeadura tardia no estado do Mato Grosso. Isso ocorreu devido à seleção de população menos sensível do fungo a esse grupo químico, que provavelmente foi ocasionado pelo uso de fungicidas isolados, pela redução de dose do fungicida e pela


Figura 1 - Valores da Concentração Inibitória (CI50) dos fungicidas (A) azoxistrobina + benzovindiflupyr e (B) azoxistrobina (mg/L). UPF, Passo Fundo (RS), 2014

aplicação com alta severidade da doença. A perda de sensibilidade do fungo causador da ferrugem asiática também já foi confirmada para as estrobilurinas na safra 2013/14, sendo que isso pode ser monitorado determinando-se a Concentração Inibitória (CI50) do fungicida, que é a quantidade em mg/L capaz de inibir 50% da germinação do esporo ou do crescimento micelial de um fungo. Comparando-se o valor da CI50 do fungicida azoxistrobina e da azoxistrobina + benzovindiflupyr (Figura 1), verificou-se que o primeiro apresentou valor 39 vezes maior do que para o fungicida contendo carboxamida. Isso é bastante preocupante, uma vez que muitos fungicidas registrados estão em mistura com o grupo químico estrobilurina, por isso o uso racional de fungicidas é fundamental. Atualmente, o Brasil dispõe de 114 fungicidas de uso comercial com registro para a ferrugem asiática, sendo que 68% são triazóis isolados, 35% misturas de triazol + estrobilurina, 3% estrobilurinas isoladas, 2% de mistura de estrobilurina + carboxamida e os demais são mistura de triazol + estrobilurina + benzimidazol, triazol + benzimidazol. Apesar de registrada recentemente pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), o grupo químico carboxamida (ISDH) não é novo, sendo comercializado desde a década de 1960. Porém, as moléculas registradas para a cultura da soja são novas e, nos últimos anos, a pesquisa tem lhes dedicado atenção especial, devido à necessidade urgente de novos grupos químicos. Essa necessidade ocorre principalmente devido à perda de sensibilidade do fungo causador da ferrugem asiática aos grupos químicos de fungicidas utilizados por décadas. Quanto ao mecanismo de ação dos fungicidas, o grupo químico triazol (IDM) atua na integridade da membrana plasmática, alterando sua permeabilidade, sendo conhecido como

inibidor da desmetilação do C-14 (IDM). De forma análoga, a triazolintiona inibe a biossíntese do ergosterol na propriedade intrínseca das membranas, sendo que inibe a síntese do ergosterol e possui em sua composição uma molécula de enxofre em ligação dupla ao anel aromático. Fungicidas do grupo das estrobilurinas e das carboxamidas interferem em diferentes processos na respiração. A estrobilurina atua no complexo III da cadeia de elétrons, esse se dá através da inibição da quinona externa da mitocrôndia (IQe), sendo que dessa forma, ocorre o bloqueio da respiração mitocondrial, paralisando a produção de ATP. Já a carboxamida (ISDH) inibe a oxidação da enzima succinato desidrogenase indisponibilizando a respiração, no entanto, age no complexo II da cadeia de elétrons na mitocôndria. Nos últimos anos, em experimentos

na Universidade Federal de Passo Fundo (UPF), foram avaliados programas de controle da ferrugem asiática tradicionais (contendo somente triazol + estrobilurinas) e novos (contendo triazol + estrobilurinas alternado com estrobilurinas + carboxamida) (Tabela 1). Devido à ausência de grupos químicos para fazer a rotação com o triazol e estrobilurina, o produtor somente poderia optar por utilizar um desses grupos químicos ou a mistura dos dois em todas as aplicações. Com o registro da carboxamida, o produtor agora tem a opção de usar a mistura de triazol + estrobilurina alternada com estrobilurina + carboxamida, sendo uma excelente estratégia antirresistência, podendo evitar ou retardar a perda de sensibilidade de fungos a fungicidas, análogo ao que ocorreu com o triazol e a estrobilurina. Com relação à severidade da doença

A ferrugem asiática é a principal doença foliar que afeta a cultura da soja

www.revistacultivar.com.br • Fevereiro 2015

17


Tabela 1 - Características dos fungicidas utilizados em ensaio de eficácia agronômica de fungicidas no controle de doenças na cultura da soja, cultivar NS 5445 Ipro. UPF, Passo Fundo (RS), 2014 Trat. 1 2 3 4 5 6 7 8 9

Princípio ativo e dose (pc/ha) Testemunha Testemunha Testemunha 1 1 1 Piraclostrobina + epoxiconazol (500 mL) Piraclostrobina + epoxiconazol(500 mL) Piraclostrobina + epoxiconazol (500 mL) 2 2 2 Azoxistrobina + ciproconazol (300 mL) Azoxistrobina + ciproconazol (300 mL) Azoxistrobina + ciproconazol (300 mL) Azoxistrobina + ciproconazol (300 mL) Azoxistrobina + ciproconazol + difeconazol (300+300 mL) Azoxistrobina + ciproconazol + difeconazol (300+300 mL) 2 2 2 Azoxistrobina + ciproconazol + difeconazol Azoxistrobina + ciproconazol (300 mL) Azoxistrobina + ciproconazol + difeconazol + propiconazol (300+150 mL) + propiconazol (300+150 mL) 2 2 2 Picoxistrobina + ciproconazol (300 mL) Picoxistrobina + ciproconazol (300 mL) Picoxistrobina + ciproconazol (300 mL) 1 1 1 Piraclostrobina + fluxapiroxade (500 mL) Piraclostrobina + epoxiconazol (500 mL) Piraclostrobina + fluxapiroxade (500 mL) 3 3 3 Trifloxistrobina + protioconazol (400 mL) Trifloxistrobina + protioconazol (400 mL) Trifloxistrobina + protioconazol (400 mL) 2 2 2 Azoxistrobina + benzovindiflupyr (200 g) Azoxistrobina + ciproconazol (300 mL) Azoxistrobina + benzovindiflupyr (200 g)

Testemunha Piraclostrobina + epoxiconazol (500 mL) 2 Azoxistrobina + ciproconazol (300 mL) Azoxistrobina + ciproconazol (300 mL) 2 Azoxistrobina + ciproconazol (300 mL)

1

Picoxistrobina + ciproconazol (300 mL) Piraclostrobina + metconazol (500 mL) 3 Trifloxistrobina + ciproconazol (150 mL) 2 Azoxistrobina + ciproconazol (300 mL) 2

1

Assist 0,5% v/v; 2Nimbus 600 mL/ha; 3Aureo 0,25% v/v; Estádios de aplicação dos fungicidas V4 (terceira folha expandida), R2 (Florescimento pleno), R5.2 (Vagens entre 11 e 25% de granação) e R5.5 (Vagens entre 76 e 100% de granação).

1

além de ter um ótimo controle da doença é uma excelente estratégia antirresistência, podendo evitar ou retardar a perda de sensibilidade de fungos a fungicidas. C

Carolina Cardoso Deuner, Gustavo Visintin e Giovani Pastre Universidade de Passo Fundo

Carolina Deuner

(Figura 2) avaliada no estádio R.5.5 (vagens entre 76% e 100% de granação), verificou-se que a menor severidade da doença foi para o tratamento 9, em que duas das quatro aplicações foram compostas pela carboxamida benzovindiflupyr. Para o controle da doença, os tratamentos contendo duas aplicações de carboxamida alternadas com triazol + estrobilurina, o 9 (benzovindiflupyr) e o 8 (fluxapiroxade) destacaram-se dos demais com os maiores valores de controle. Para rendimento (Figura 3), verificou-se que o tratamento 9 (benzovindiflupyr) foi estatisticamente superior a todos os demais, seguido do tratamento 8 (fluxapiroxade) que não diferiu estatisticamente dos demais tratamentos com fungicidas. O menor valor para os tratamentos com fungicidas foi o 2 (quatro aplicações de piraclostrobina + epoxiconazol), fungicida em uso desde 2001. Portanto, devido aos valores baixos da CI50, valores elevados de controle e rendimento da cultura da soja, os novos programas de controle químico da ferrugem asiática devem conter o grupo químico carboxamida alternado com os grupos químicos triazol + estrobilurina, pois,

Visão aérea do campo experimental da Universidade de Passo Fundo (UPF)

Figura 2 - Severidade (%) e controle (%) de ferrugem asiática na soja, cultivar NS 5445 Figura 3 - Rendimento da soja (kg/ha) cultivar NS 5445 Ipro. UPF, Passo Fundo, RS, Ipro. UPF, Passo Fundo, RS, 2014. 1Médias seguidas de mesma letra na coluna não 2014. 1Médias seguidas de mesma letra na coluna não diferem significativamente entre si pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade do erro diferem significativamente entre si pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade do erro

18

Fevereiro 2015 • www.revistacultivar.com.br


Fotos Bayer CropScience

Soja

Manejo abrangente A combinação de estratégias racionais e integradas, aliada à capacitação técnica e à qualificação profissional para sua adequada aplicação, é ação-chave para o sucesso na luta contra lagartas que limitam a produtividade e os lucros dos produtores de soja

N

o Brasil, a cultura da soja é a que mais tem crescido nas últimas três décadas. Atualmente a área plantada corresponde a, aproximadamente, 50% do cultivo de grãos no país. Junto com este crescimento também estão os problemas fitossanitários, como a ocorrência de um complexo de espécies de lagartas, que causam danos em todo o ciclo da cultura. São exemplos os cortes de plântulas logo após a emergência, folhas e até grãos. O manejo deste complexo de lagartas deve ser considerado nos sistemas de produção agrícola das regiões, visto que uma mesma espécie está presente em diferentes culturas. A identificação correta destas espécies - um dos principais pontos que levam ao sucesso -, o monitoramento para conhecimento da dinâmica populacional no tempo e espaço, o conhecimento os fatores ambientais que facilitam ou dificultam o seu desenvolvimento, as plantas resistentes e hospedeiras, o controle cultural, biológico e químico são fatores que precisam ser levados em consideração. Entre as principais espécies de lagartas na cultura da soja estão a lagarta da soja (Anticarsia gemmatalis), as lagartas do complexo Plusiinae, cuja principal espécie é Chrysodeixis

20

(=Pseudoplusia) includens, ambas atacam folhas. Já as espécies do gênero Spodoptera (S. eridania, S. cosmioides, S. frugiperda entre outras) e as lagartas do complexo Heliothinae (Helicoverpa armigera e Heliothis virescens) principalmente, estão presentes nas lavouras atacando plântulas, hastes, folhas, flores, vagens e grãos. Algumas espécies são facilmente identificadas no campo pela morfologia dos adultos e lagartas como Anticarsia, Chrysodeixis e as espécies de Spodoptera. Para outras, como o complexo Heliothinae, existe a necessidade de confirmação por exames de características morfológicas dos adultos, como genitálias, e moleculares (via DNA mitocondrial), pois há grandes variações de cores, características e comportamentos, que, dependendo da fase de desenvolvimento, impossibilitam a identificação segura deste grupo no campo. O monitoramento deve compreender não somente lagartas, mas todas as fases de desenvolvimento da praga: ovos, lagartas, pupas e adultos. Para a observação de adultos podem ser empregadas armadilhas de feromônio e luminosas. A captura destes adultos indicará a presença futura na lavoura, geralmente de um a três dias após a captura. Existem

Fevereiro 2015 • www.revistacultivar.com.br

algumas recomendações regionalizadas para os níveis de captura e estratégia de manejo, mas ainda há necessidade de mais estudos para a comprovação e recomendação. Ovos e lagartas são monitorados por amostragem visual das plantas e utilizando o método do pano de batida. O monitoramento de pupas deve ser estimado através de amostragens de solo. A infestação, nestas amostragens deve ser gerenciada para posterior decisão de manejo, de acordo com o nível de ação. Atualmente, há regionalização dos níveis de ação utilizados, de acordo com os cultivos empregados, mas também são necessários mais estudos para que se adaptem aos novos sistemas agrícolas as cultivares atuais, espécies emergentes e mudança na dinâmica das pragas. Uma das bases do manejo é o uso de plantas resistentes, sejam transgênicas ou não. As plantas transgênicas Bt constituem uma tecnologia eficiente para a maioria das espécies de lagartas na soja, excetuando as do gênero Spodoptera. É importante ressaltar que para que esta tecnologia permaneça por um longo período, é necessário manejar a resistência das lagartas a estes materiais e, para isso, é imprescindível a utilização de áreas de refúgios. A recomendação é de 20% da área cultivada


Adulto de lagarta da soja sobre folha da oleaginosa

Massa e ovos de lagartas Spodoptera

Ovos de Helicoverpa, lagarta causadora de sérios prejuízos

com transgênicos Bt e a utilização de materiais convencionais (não Bt), que apresentem ciclo e fenologia semelhante aos materiais transgênicos Bt. Na área de refúgio a recomendação é o controle das lagartas de acordo com o nível de ação de cada espécie. Também para o manejo de resistência, o cultivo de outra espécie de planta hospedeira das espécies de lagartas em soja seria recomendado, podendo realizar ou não o controle nesta cultura alternativa. O controle cultural se baseia em práticas relacionadas ao ambiente da cultura ou do solo, de maneira a torná-lo desfavorável para as lagartas e favorável aos benéficos, ou inimigos naturais, deve ser usado para o manejo das lagartas. Entre estas práticas existem: o vazio sanitário (ausência de plantas hospedeiras em um período determinado de tempo); o plantio de plantas armadilhas, onde estas apresentam estímulos ou recebem pulverizações de atraentes, para que as pragas permaneçam nelas em detrimento à cultura principal ou mesmo após a atração para estas plantas, realizando pulverizações de inseticidas, principalmente os seletivos, com o objetivo de reduzir a população das pragas e a conservação dos inimigos naturais; calendário regional de plantio, com o objetivo de se estreitar a janela de plantio; eliminação de plantas tigueras na pós-colheita e, no caso de altas infestações de pupas de Helicoverpa, o revolvimento de solo para o controle destas pupas. Existem muitos estudos que comprovam que o controle biológico do complexo de lagartas na cultura da soja ocorre naturalmente pela grande ocorrência de inimigos naturais, entre eles: predadores, parasitoides e doenças. Assim, é necessário utilizar táticas de conservação ou incremento da população destes benéficos. Além dessa ocorrência natural, hoje há possibilidades de liberação de parasitoides, como exemplo o Trichogramma, que é um parasitoide de ovos. Também estão disponíveis no mercado os vírus (Baculovirus) para o controle de lagartas de Heliothinae e Anticarsia, e de bactérias (Bacillus) para a maioria das espécies de lagartas. Uma das principais táticas de conservação e aumento da

população destes benéficos é o uso de produtos químicos seletivos. Hoje o controle químico é a ferramenta de manejo mais segura e eficiente, principalmente no aspecto de rapidez e economia, sendo amplamente utilizado. A recomendação é a utilização desde o tratamento de sementes, assegurando a população de plantas ideal da cultura através do controle de lagartas com hábito de cortar as plântulas, e através do controle das primeiras infestações de lagartas desfolhadoras até a utilização em aplicações foliares, respeitando os níveis de ação para cada espécie de lagarta. O tratamento de sementes é um uso seguro ao ambiente, pois os compostos não ficam expostos. Assim, os benéficos são preservados e há o controle das pragas iniciais e a consequente redução de aplicações nos primeiros estágios do desenvolvimento da cultura. Um exemplo é o uso do tratamento de semente com um composto cuja combinação possui dois princípios ativos, o thiodicarbe e o imidacloprido, onde se verifica uma proteção em média de 15 a 20 dias contra as lagartas, além dos efeitos positivos já descritos. Nas aplicações foliares, além da observação do nível de ação como determinante para a decisão de aplicação e seletividade do

inseticida, deve-se considerar o aspecto do manejo de resistência do inseto. Assim, quando há necessidade de aplicações sequenciais, a recomendação é a utilização de janelas de aplicações, com inseticidas de diferentes modos de ação sobre o inseto, para que a pressão de seleção seja reduzida e a resistência retardada. Um exemplo de recomendação atualmente utilizado com sucesso são janelas com emprego de diferentes grupos químicos de produtos: benzoilureias, diamidas e carbamatos, como exemplo destes grupos, representados pelos princípios ativos triflumuron, flubendiamida e thiodicarbe, respectivamente. Nesta sequência, empregados no desenvolvimento da cultura, apresentam maior eficácia dos produtos pelo perfil, pelo estágio de desenvolvimento dos alvos, seletividade e manejo de resistência do inseto. A combinação das diferentes estratégias abordadas leva ao sucesso no manejo das lagartas da soja. No entanto, as maiores dificuldades atualmente em algumas regiões do Brasil para a realização deste manejo são a capacitação técnica e a qualificação profissional. C Francisco Lozano Leonel Junior e Felipe Sulzbach, Bayer CropScience

www.revistacultivar.com.br • Fevereiro 2015

21


Fotos Pedro J. Christoffoleti

Nossa capa

Convivência hostil

Agressividade, rápido desenvolvimento inicial e elevado potencial de disseminação fazem do capim-camalote uma preocupação adicional na gestão agrícola dos canaviais. Responsável por perdas de produtividade de 80% em áreas de cana soca e de até 100% em cana planta, sua incidência é altamente desafiadora. Conhecer os aspectos relacionados à biologia dessa planta é fundamental para prevenir o ataque e contribuir na urgente ampliação de estratégias de controle

O

capim-camalote (Rottboellia exaltata L.f.), originário da Ásia, provavelmente Índia, está disseminado em mais de 28 países, infestando 18 culturas ou mais, dentre elas a cana-de-açúcar. A maior incidência está entre 23° N e 23° S de latitude, porém, ocorre também na Austrália e nos Estados Unidos da América do Norte, onde atinge 75% a 100% do seu potencial de crescimento. Estima-se que na América Central e no Caribe infesta mais de 3,5 milhões de hectares. Na canavicultura da Guatemala é considerada um dos principais desafios no manejo de plantas daninhas atualmente. Também é considerada importante planta daninha no oeste da África. No Brasil, sua infestação em lavouras agrícolas passou a ser observada no final da década de 1950, sendo introduzida no país

22

provavelmente contaminando lotes de sementes de arroz importadas da Colômbia. Atualmente infesta com maior frequência a região norte, porém, com focos de ocorrência em São Paulo e na região Centro-Oeste. Devido à alta agressividade, ocasiona redução significativa na produção de colmos industrializáveis de cana e no número de cortes economicamente viáveis do canavial. É considerada uma das 12 piores espécies de plantas daninhas infestantes dos canaviais no mundo, devido a sua alta agressividade que lhe confere vantagens competitivas. Em infestações superiores a dez plantas por metro quadrado, não permite o desenvolvimento pleno das plantas de cana-de-açúcar, impossibilitando o “fechamento” das entre linhas. As plantas são de formato ereto, com bainhas foliares densamente revestidas por rígidas

Fevereiro 2015 • www.revistacultivar.com.br

cerdas de 1m a 2,5m de altura. Pertencente à família botânica Poaceae (gramíneas), possui ciclo de vida anual ou perene, dependendo das condições ambientais. Reproduz-se através de sementes, podendo, também, ser multiplicada por pedaços de caule, os quais possuem gemas em seus nós. Apresenta alta adaptabilidade ecológica, facilitando sua disseminação, sendo que uma planta pode emitir até 100 perfilhos e produzir mais de 16 mil sementes, estimando-se uma produção de até 6.500 sementes por m2. Isso lhe confere o nome popular de planta “caminhadora” em alguns países. A dormência das sementes é variável em função das condições climáticas e agronômicas, podendo chegar a vários anos. Em épocas do ano com temperaturas médias menores, as sementes entram em estado de dormência. Por conseguinte, sementes posicionadas em


senvolvimento do capim-camalote, resultando em maior germinação dessa planta daninha e, consequentemente, maior competição com a cultura da cana-de-açúcar. Sendo assim, essa convivência do capim-camalote com a cana-de-açúcar provoca perdas significativas no rendimento. O capim-camalote é uma planta de ciclo C4, portanto, apresenta alta eficiência fotossintética, logo, essa planta daninha apresenta uma série de características que lhe conferem vantagens ao colonizar determinadas áreas, sobretudo em ambientes quentes e úmidos. Dentre essas características podem-se citar o baixo ponto de compensação de CO2, a elevada taxa de fotossíntese quando em ambiente de alta disponibilidade de luz e a baixa taxa de fotorrespiração. Em virtude dessas características, o capim camalote, apresenta um vigoroso crescimento vegetativo e rápido ciclo reprodutivo. O fato de o capim-camalote realizar fotossíntese por meio do ciclo C4 favorece a presença da espécie em áreas de produção de cana-de-açúcar. Essa cultura também apresenta ciclo fotossintético C4, o que a torna uma espécie altamente competitiva com a comunidade daninha. Dessa forma, as plantas daninhas mais aptas à competição com a cana-de-açúcar, em geral, possuem alta eficiência fotoquímica e rápida ocupação do espaço, como é o caso de diversas espécies ciperáceas e gramíneas, dentre estas o capim-camalote. Por apresentar essa alta habilidade competitiva, a dispersão nas várias regiões agrícolas brasileiras está se tornando também um problema crescente para a agricultura do país, sobretudo quando da infestação da espécie em culturas menos competitivas, com ciclo fotossintético do tipo C3, como as culturas da soja e do feijão, por exemplo.

SUA AGRESSIVIDADE TORNA-A TEMIDA ENTRE OS AGRICULTORES DO MUNDO TODO

Quando presente em áreas agrícolas, o capim-camalote interfere diretamente pela competição por água, luz, nutrientes e espaço. Em estudo relativo ao crescimento e desenvolvimento do capim-camalote foi observado que durante todo o desenvolvi-

mento da pesquisa as plantas de Rottboellia exaltata mantiveram-se bastante vigorosas e com rápido crescimento inicial. Aos 28 dias após a semeadura (DAS) já se encontravam em estádio de perfilhamento, permanecendo sob pleno desenvolvimento vegetativo até os 45 DAS, quando teve início a fase reprodutiva com a definição do estádio fenológico de emborrachamento/pré-florescimento. O florescimento ocorreu aos 49 DAS com a emissão dos primeiros racemos florais; as plantas mantiveram-se em florescimento, por meio da emissão contínua de novos racemos pelo colmo principal e posteriormente pelos perfilhos, até o fim do experimento. Na mesma pesquisa também foi constatado que há um grande acúmulo de massa fresca, demostrando assim elevada capacidade em produzir fitomassa. Aos 49 DAS, na ocasião do florescimento, as plantas possuíam, em média, valores próximos de 26,5g de massa fresca total, sendo, aproximadamente, 20g correspondentes à participação da massa fresca da parte aérea e os demais 6,5g correspondentes à participação da massa fresca das raízes. Esses dados são relevantes, pois demostram que essa planta apresenta um rápido desenvolvimento inicial atrelado à capacidade de explorar um considerável volume do solo, esses dados são importantes, pois plantas que germinam primeiro em um ambiente agrícola e colonizam de forma pioneira o espaço destinado à produção agrícola irão levar vantagens em relação à competição com culturas de interesse agronômico, como por exemplo a cana-de-açúcar. Na Figura 3 podem ser observados o vigor das plantas de capim-camalote e a sua agressividade como planta daninha. O acúmulo total dos macronutrientes é crescente ao longo do ciclo de desenvolvimento da planta do capim-camalote, sendo que o período no qual se observa o maior acúmulo de nutrientes é antes do florescimento, demostrando, dessa forma, que essa espécie daninha apresenta alta capacidade de extrair recursos do ambiente agrícola, o que pode resultar em severa matocompetição com as culturas de interesse agronômico. Nas regiões canavieiras, o capim-camalote se destaca por causar perdas significativas de

Patrícia A. Monquero

maiores profundidades no perfil do solo permanecem mais tempo viáveis no ambiente, resultando nas futuras infestações. Na Figura 2 podem ser observadas as características morfológicas de uma plântula, bem como o alto potencial de emergência de plântulas em área coberta de palha de cana-de-açúcar. Em estudo sobre a viabilidade de sementes enterradas a diferentes profundidades, em áreas cultivadas com a cultura do milho nos Estados Unidos da América do Norte, foi constatado que de 40% a 60% das sementes permanecem viáveis durante um ano, sendo viáveis mesmo a 45cm de profundidade. Este aspecto pode influenciar no controle químico, uma vez que os herbicidas são ativados normalmente na camada de 10cm do perfil do solo. Na Costa Rica foi verificado que em condições de campo, após 18 meses, 43% das sementes posicionadas na superfície do solo germinam; já para a profundidade de 5cm observou-se 49,33%, e aos 20cm a germinação foi de 59,33%. Dessa forma, constatou-se que as maiores profundidades favorecem a germinação do capim-camalote. No entanto, resultados distintos obtidos em outros trabalhos de pesquisa demonstram que as sementes podem permanecer dormentes no solo até quatro anos. Da mesma forma, contatou-se menor germinação em maiores profundidades de enterrio, sendo que as sementes posicionadas na superfície ou enterradas a 5cm e 10cm de profundidade perdem a longevidade substancialmente, sendo que a 20cm de profundidade, menos de 10% das sementes continuam viáveis. Outro trabalho de pesquisa constatou que em solo arenoso, a maior emergência ocorre a 5cm de profundidade. Em solo argiloso o padrão de emergência é semelhante, entretanto, há redução mais acentuada na emergência com o aumento na profundidade de semeadura. A maior taxa de germinação é observada no solo com pH variando de 6,8 a 7, verificando-se menor germinação em solo não corrigido, com pH de 5,3. Em estudo da emergência através da observação da interação quantidade de palha na superfície do solo e profundidade de enterrio das sementes, constatou-se que a emergência (1cm, 3cm e 5cm de profundidade) e densidades de palha (0, 8ton/ha e 16 ton/ha) não influenciaram a emergência de forma diferencial. Analisando a literatura sobre a biologia do capim-camalote, verifica-se que a planta prefere as mesmas condições ecológicas que a cana-de-açúcar, tais como alta temperatura (27ºC) e alta umidade (> 1.500mm de chuva por ano). Dessa forma, as condições ambientais que proporcionam melhor formação dos canaviais também proporcionam melhor de-

Figura 1 - Detalhes dos segmentos dos racemos da inflorescência e dos frutos do tipo cariopses de capim-camalote (esquerda) e detalhes da formação do banco de sementes a partir da “chuva de sementes” sobre o solo (direita)

www.revistacultivar.com.br • Fevereiro 2015

23


Figura 2 - Detalhe da plântula de capim-camalote evidenciando a longa região do coleóptilo que possibilita a emergência das plântulas oriundas de sementes enterradas a profundidades maiores que 10cm

devido à necessidade de se utilizar até seis aplicações de herbicidas durante o ciclo da cultura. Essa situação contribui para que o capim-camalote torne-se uma planta de difícil controle, pois não existem muitos produtos recomendados para seu manejo e a maior parte dos herbicidas que controlam esta planta pode causar toxicidade à cultura da cana-de-açúcar. Outro aspecto pertinente reside no fato de que o capim-camalote pode germinar o ano todo (com pico máximo em setembro), fazendo com que haja necessidade de várias aplicações para o seu controle. O manejo do capim-camalote deve ser realizado com base nos conhecimentos do crescimento e desenvolvimento da espécie, ou seja, as medidas de controle devem ser administradas em período anterior a, aproximadamente, 40 dias de desenvolvimento das plantas, pois a partir deste ponto, pode ocorrer o florescimento com rápida dispersão de sementes ao solo. Da mesma forma, o crescimento inicial rápido exige que medidas de manejo sejam realizadas sobre plantas jovens para que os melhores resultados sejam obtidos, uma vez que o desenvolvimento da

planta dificulta o controle e, também, para que a competição entre a planta daninha e a cana-de-açúcar não ocorra ou mesmo que não seja significativa sobre a produção. Sendo assim, nota-se que o capim-camalote é uma planta com diversas características de agressividade, rápido desenvolvimento inicial e elevado potencial de disseminação, o que contribui para que seja cada vez mais recorrente em áreas cultivadas com cana-de-açúcar e outras culturas de interesse agronômico. Dessa forma, conhecer os aspectos relacionados à biologia dessa planta possibilita uma prevenção da sua disseminação, além de contribuir na elaboração de estratégias de controle. É necessário o desenvolvimento urgente de novas tecnologias, principalmente herbicidas, caso contrário, a importância relativa desta planta daninha será grande e a canavicultura C terá um grande desafio pela frente. Pedro Jacob Christoffoleti, Esalq Paulo Vinicius da Silva e Patrícia Andrea Monquero, Univ. Federal de São Carlos

Fotos Pedro J. Christoffoleti

produtividade. Estudos demonstram reduções na produtividade nos canaviais de até 80% para áreas de cana soca, e de até 100% em cana planta. A interferência causada pela presença das plantas daninhas na cultura da cana-de-açúcar pode reduzir a quantidade de colmos colhidos ou mesmo o número de cortes economicamente viáveis. Além dos danos diretos, o capim-camalote também pode causar transtornos relacionados aos tratos culturais, pois os trabalhadores muitas vezes se recusam a entrar em talhões de cana-de-açúcar com alta infestação de capim-camalote, pois essa planta apresenta tricomas simples, pluricelulares silicosos (joçal) que, em contato com a pele, penetram como agulhas de vidro, quebram-se e causam reações alérgicas. A sua dispersão torna-se extremamente preocupante para os produtores de cana-de-açúcar, em áreas ainda não infestadas, uma vez que as plantas poderiam se adaptar às novas condições, provocando redução na produtividade, principalmente por essa espécie ser de difícil controle. Nesse sentido, já existem relatos da adaptação de biótipos de capim-camalote nas mais variadas condições ambientais brasileiras, o que pode resultar, em algumas ocasiões, em pequenas alterações morfológicas na estrutura da planta. Essas ocorrências estão relacionadas ao intenso polimorfismo da espécie, correlacionado com a existência de poliploidia. A consequência prática é maior agressividade das infestações de capim-camalote nas culturas de interesse agronômico e nos canaviais em virtude da adaptação dessa planta daninha às condições de produção, o que pode resultar no agravamento do problema. A competição entre populações de capim-camalote e a cultura da cana-de-açúcar é algo que vem ganhando destaque, principalmente pela rápida disseminação e agressividade que essa planta representa. O manejo é oneroso,

Figura 3 - Detalhe da agressividade do capim-camalote em cana planta avaliada em área experimental (esquerda) e detalhe do capim-camalote já florescido infestando cana soca, onde pode ser observado que pode atingir altura de mais de 1,5m (direita)

24

Fevereiro 2015 • www.revistacultivar.com.br


Café

Coexistência forçosa Fotos Elisa Barbutti

Desde a chegada da ferrugem do café ao Brasil são buscadas formas de harmonizar o convívio com a doença e a manutenção da produção. Contudo, tem prevalecido a busca por reduzir a zero sua incidência no campo, forma de pensamento nem sempre mais econômica e sustentável. Por isso, o monitoramento é uma ferramenta técnica de grande valor, que pode ser utilizado tanto na criação de área de manejo como na avaliação das estratégias de controle utilizadas

A

ferrugem do café, causada pelo fungo Hemileia vastatrix, chegou ao Brasil na década de 70. Seu principal sintoma é a ocorrência de pústulas com esporos alaranjados na face inferior das folhas. O principal dano causado é a queda prematura das folhas, que causa danos à planta e reduz a produção. Desde a chegada da ferrugem no Brasil procurou-se estabelecer técnicas de convívio com a doença e garantir a manutenção da produção nacional. O controle da ferrugem normalmente envolve uma série de ferramentas como o uso de variedades resistentes, fungicidas protetores, especialmente à base de cobre, e produtos sistêmicos aplicados na parte aérea e no solo. O uso destas ferramentas, associado ao manejo de adubação, espaçamento entre plantas e irrigação, dentre outras técnicas agronômicas, fez com que o Brasil não só

26

convivesse com a ferrugem, como aumentasse sua produção. O fato é que a ferrugem do café está presente em praticamente todos os plantios brasileiros, aumentando de importância de acordo com os tratos culturais, clima, produtividade, espaçamento e até mesmo falhas em lidar com ela. Não é incomum vê-la causando forte impacto em situações específicas ao longo do Brasil. Ou seja, tratar deste tema é sempre importante e há algo mais a ser aprendido. Sem dúvida, o controle químico é fundamental quando as condições são favoráveis à ferrugem. Existem diversas formas de combinar os produtos disponíveis no mercado. É o que se denomina manejo químico da doença. Cada indústria tem seu pacote tecnológico e os agrônomos consultores também desenvolvem suas estratégias. As medidas utilizadas também dependerão da forma como o produtor

Fevereiro 2015 • www.revistacultivar.com.br

conduz sua lavoura, é claro. Logicamente, é o produtor quem tem a decisão final. Cabe ao produtor a escolha de quais métodos de controle e de que forma irá adotar as ferramentas disponíveis. Alguns princípios devem ser seguidos para garantir a melhor eficiência dos fungicidas na cultura do café, como o uso de produtos à base de cobre, que são os óxidos ou hidróxidos de cobre. Estes produtos isoladamente são menos eficientes que os fungicidas sistêmicos, como os triazóis, porém, são importantes na melhoria do controle e na redução da resistência da doença a determinado produto. Os fungicidas sistêmicos são mais eficientes no controle da ferrugem, contudo, o uso contínuo do mesmo ingrediente ativo pode favorecer a seleção de populações resistentes, levando à perda de sua eficácia. Isto não é o desejo nem da indústria que investiu no desenvolvimento do produto, nem do produtor, que acaba perdendo uma ferramenta a mais para controlar a doença. Existem no mercado algumas caldas contendo micronutrientes e cobre, recomendadas para o controle da ferrugem. A vantagem destas caldas é que associam o controle da doença com a correção de pequenas deficiências nutricionais da lavoura. Cada produto químico tem sua vantagem e desvantagem, por isso devem ser utilizados com critério, aproveitando o que cada um tem de melhor. Os produtos à base de cobre não conseguem eliminar a doença já estabelecida na folha, por isso, seu uso é recomendado preventivamente, em mistura com sistêmicos ou no início da epidemia, quando a doença atinge pelo menos 5% das folhas do terceiro ou quatro par nos ramos produtivos. Por agirem como barreira química, protegendo as folhas do ataque do fungo, produtos protetores não devem ser aplicados em dias chuvosos. Durante sua aplicação, a calda deve atingir a parte inferior das folhas. Já os fungicidas sistêmicos apresentam menor ou maior capacidade de penetrar nas folhas e eliminar a ferrugem após a doença se estabelecer. É o conhecido efeito curativo. Estes tipos de produtos permitem que o agricultor possa esperar o momento certo da


Figura 1 - Evolução da ferrugem do cafeeiro (H. vastatrix), medida pela incidência de folhas de café doentes. No gráfico A estão representados os tratamentos que receberam a aplicação de fungicida sistêmico quando havia as seguintes quantidades de ferrugem: 2,5% (T1); 5% (T2), 10% (T3); aplicação preventiva via solo (T7) e a testemunha (sem controle químico). No gráfico B é apresentada a evolução da ferrugem em plantas que receberam a aplicação de fungicida sistêmico quando a ferrugem atingia 15% (T4) e 20% (T5); calendário de aplicação (T6) e testemunha (sem controle químico)

Gráfico: Olivério Poltronieri Neves

para saber se havia condições favoráveis à doença. O gráfico A da Figura 1 mostra que a aplicação de fungicida sistêmico, quando o número de folhas doentes variou de 2,5% a 10%, proporcionou o melhor nível de controle da ferrugem. Resultado semelhante foi obtido com a aplicação do produto via solo no mês de março daquele ano. No ano em que foi conduzido o experimento, as chuvas foram irregulares, o que ocasionou a baixa eficiência do controle feito com base em datas predefinidas (Figura 1, B). O mesmo ocorreu no caso de aplicação dos fungicidas com 15% e 20% de folhas doentes. A vantagem de esperar o início da ferrugem para dar início ao controle químico com fungicidas sistêmicos é realizar a aplicação no momento correto e evitar aplicações desnecessárias. Esse sistema demanda uma presença no campo maior por parte do produtor e condições de equipamento e mão de obra para a rápida aplicação dos produtos. Em propriedades muito grandes o monitoramento pode ser adotado juntamente com outros métodos, como a aplicação preventiva ou via solo.

Folha de café com severos sintomas de ferrugem

A desvantagem é que, muitas vezes, no campo deseja-se o nível zero de doença. Esta forma de pensamento não é a mais econômica e sustentável, porém, continua prevalecendo. Outro fator que dificulta a adoção deste sistema é a falta de treinamento para o produtor. A certificação de café no Brasil tem crescido e um dos quesitos é a adoção de boas práticas agrícolas nas áreas certificadas. O monitoramento da doença no campo é uma ferramenta técnica de grande valor, podendo ser utilizada também na criação de área de manejo e na avaliação das estratégias de controle utilizadas. O gráfico apresentado é parte da dissertação de mestrado em Agricultura Tropical da Ufes, campus de São Mateus, defendida por Olivério Poltronieri Neves. O experimento integra projeto financiado com recursos do Consórcio Brasileiro de Café, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e da Fundação de Amparo à Pesquisa do C Espírito Santo. Marcelo Barreto da Silva, Univ. Federal do Espírito Santo Alice Barbutti

pulverização, caso queira obter um controle eficiente da doença com menor número de pulverizações. Para isto, o produtor precisa de um acompanhamento técnico e critérios para intervir quimicamente em sua lavoura. O produtor sabe melhor que ninguém que a importância da ferrugem varia a cada ano, de acordo com a produtividade da lavoura, nutrição das plantas e o clima, que especialmente nos últimos tempos tem sido fator predominante. Logo, é importante definir quais produtos serão utilizados, como e quando serão aplicados. O produtor pode decidir quando aplicar um produto sistêmico com base em um sistema de aviso fitossanitário, aplicação em épocas predeterminadas (calendário de aplicação) e a aplicação conforme a amostragem da doença na lavoura. Em experimento conduzido no norte do Espírito Santo, em uma lavoura de café Conilon, procurou-se identificar comparativamente a melhor época de aplicação de fungicidas sistêmicos (com efeito curativo) com base na quantidade de folhas doentes. Para amostrar a ferrugem na lavoura de Conilon, 60 folhas foram coletadas mensalmente, três folhas de cada lado da planta, em dez plantas por parcela. A coleta foi feita no terceiro ou quarto par de folhas dos ramos produtivos. Posteriormente, contou-se a porcentagem de folhas com pelo menos uma pústula de ferrugem. O experimento foi realizado de janeiro a julho de 2012. A pulverização de fungicidas sistêmicos foi efetuada quando o número de folhas doentes atingia 2,5% (T1), 5% (T2), 10% (T3), 15% (T4), 20% (T5) do total de folhas coletadas. Foi feita a aplicação conforme um calendário recomendado para a região (T6). Realizou-se também o controle por meio da aplicação de um fungicida sistêmico via solo (T7). Uma parcela não recebeu controle químico para a ferrugem, sendo considerada a testemunha,

Silva destaca a importância do monitoramento da doença

www.revistacultivar.com.br • Fevereiro 2015

27


Milho

Espécies danosas

Cecília Czepack

Helicoverpa zea e Helicoverpa armigera são insetos-praga responsáveis por prejuízos severos à cultura do milho. Conhecer a biologia, o ciclo, a preferência alimentar, bem como mapear o comportamento destas lagartas é importante para determinar estratégias adequadas de manejo

U

m dos fatores que podem afetar a produção de milho reside na incidência de insetos-praga, capazes de acarretar prejuízos à lavoura. Nos últimos anos produtores agrícolas têm enfrentado esse tipo de problema, com destaque para as lagartas do gênero Helicoverpa que estão atacando intensamente a cultura do milho, independentemente se as plantas são transgênicas ou convencionais. Duas espécies de lagartas deste gênero têm causado danos no milho: Helicoverpa zea e Helicoverpa armigera. O desenvolvimento biológico destas

30

pragas passa pelas fases de ovo, lagarta, pupa e adulto. O ciclo de vida de H. zea dura em torno de 40 a 45 dias. O adulto deste inseto é uma mariposa de coloração cinza-esverdeada com aproximadamente 40mm de envergadura, com as asas anteriores de coloração amarelo-parda, com uma faixa transversal mais escura, apresentando também manchas escuras dispersas sobre as asas. As asas posteriores são mais claras, com uma faixa nas bordas externas. A fêmea oviposita em qualquer parte da planta, porém, sua preferência é para os estilo-estigmas. Os ovos são esféricos com saliências laterais

Fevereiro 2015 • www.revistacultivar.com.br

e colocados individualmente. Após três a quatro dias, eclodem as lagartas que possuem coloração variável, de verde a preto com listras longitudinais. À medida que se desenvolvem, penetram no interior da espiga e começam a destruição dos grãos em formação. Desenvolvem-se em um período de 13 a 25 dias. No final do período larval, as lagartas deixam a espiga e vão para o solo, onde se transformam em pupa. Este período dura aproximadamente dez a 15 dias dependendo da temperatura. Após, emerge o adulto, sendo que esta fase dura de 12 a 15 dias. Cada fêmea tem capacidade de ovipositar,


Casuya Consultoria

Presença da lagarta Helicoverpa Zea na cultura do milho

mente, os orifícios deixados pelas lagartas nas espigas, por ocasião da fase de pupa, facilitam a penetração de microrganismos que podem causar podridões. Já as lagartas de H. armigera se alimentam de brotos, inflorescências, frutos, vagens, espigas, folhas e caules, causando injúrias tanto na fase vegetativa quanto reprodutiva de várias espécies de plantas de importância econômica. H. armigera e H. zea são insetos extremamente polífagos, com capacidade de desenvolver e se alimentar em uma ampla gama de hospedeiros, tais como solanáceas, leguminosas, frutíferas e hortaliças. Esta característica tende a favorecer o sucesso desta praga. Além disso, H. armigera possui alta mobilidade local das lagartas, migração das mariposas e alta fecundidade. Estas características biológicas permitem a sobrevivência dessa praga em ambientes instáveis e a adaptação a mudanças sazonais do clima. Na safrinha de milho de 2013 foi registrado um grande surto de lagartas de H. armigera nas principais regiões produtoras. Talvez a maior já registrada desde o início da comercialização das sementes

de milho geneticamente modificado (Bt) no Brasil. Na região de Campo Mourão, no oeste do Paraná, foi verificada alta incidência de lagartas de Helicoverpa spp provocando danos em plantas de milho Bt. Em algumas regiões dos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, vários produtores de milho safrinha também relataram a ocorrência de lagartas de Helicoverpa spp sendo observada certa preferência do inseto por materiais que apresentavam espigas com estigmas claros. Vale ressaltar que a perda mundial provocada pelo ataque de lagartas de H. armigera, nas diferentes culturas incluindo o milho, atinge anualmente cinco bilhões de dólares. Estima-se que as perdas causadas por H. zea superem os 10% (embora ainda sem comprovação). Flávio Lemes Fernandes e Flávia Maria Alves, Universidade Federal de Viçosa Divulgação

em média, mil ovos. Já o ciclo de vida deste inseto varia de 35 dias a 75 dias, dependendo da temperatura. A postura é realizada, preferencialmente, na face adaxial das folhas ou sobre flores, frutos e brotações terminais com superfícies pubescentes, de forma isolada ou em pequenos grupos de ovos, normalmente durante o período noturno. Os ovos recém-ovipositados apresentam coloração que varia de branco-amarelado com aspecto brilhante (possui forma de nervuras longitudinais) a marrom-escuro próximo da eclosão. A incubação do ovo é de três dias com temperatura de 25°C e até 11 dias para temperaturas baixas. Na fase larval H. armigera passa por seis distintos instares. O período larval pode variar de 14 a 21 dias. As lagartas possuem coloração variável. As pupas geralmente são encontradas no solo, mas podem também ser localizadas em espigas de milho. Apresenta coloração marrom-mogno e superfície arredondada nas partes terminais. O período pupal é de aproximadamente dez a 14 dias. No entanto, a fase de pupa pode prolongar-se por vários meses, pois este inseto pode entrar em diapausa devido às condições climáticas. Os adultos machos de H. armigera possuem asas dianteiras cinza-esverdeadas com uma banda ligeiramente mais escura no terço distal e uma pequena mancha escurecida no centro da asa. Já as fêmeas apresentam asas dianteiras amareladas. Nas asas posteriores é possível observar uma borda marrom no ápice, além de serem mais claras. O tamanho dos insetos adultos é de aproximadamente 35mm a 40mm. Os adultos vivem cerca de 9,2 a 11,7 dias, sendo que as fêmeas vivem mais que os machos. Uma fêmea pode colocar até três mil ovos e a oviposição ocorre entre dois e seis dias após a emergência. As lagartas de H. zea atacam os estigmas, impedindo a fertilização e, em consequência, surgirão falhas. Alimentam-se de grãos leitosos, os destruindo, e, final-

Importância do milho

O

milho é o terceiro cereal mais cultivado no mundo. Sua importância econômica se deve às diversas formas de sua utilização, que vai desde a alimentação animal até a indústria de alta tecnologia. Aproximadamente 70% da produção mundial de milho é destinada à alimentação animal, podendo este valor chegar a 85%, em países desenvolvidos. Logo, 15% de toda a produção mundial destina-

32

-se ao consumo humano. Além da sua importância econômica a cultura do milho é importante para a viabilidade de outras culturas por meio da rotação de culturas (CIB, 2006). No Brasil, a área anual cultivada com milho é de aproximadamente 15,5 milhões de hectares e a produção brasileira atinge 80,5 milhões, o que coloca o país como o terceiro no ranking mundial de área colhida (FAO, 2013).

Fevereiro 2015 • www.revistacultivar.com.br

Fernandes destaca comportamento de lagartas em milho


Milho

Com qualidade Fernando Fávero

A obtenção de altas produtividades em milho, sem perda de qualidade, passa pelo manejo correto durante todo o ciclo da cultura. Híbrido adequado para a condição de clima da região e época de semeadura, o ajuste populacional, o manejo de pragas, a escolha de fungicidas, as épocas e o número de aplicações são alguns fatores que podem contribuir para melhores resultados na segunda safra

34

Fevereiro 2015 • www.revistacultivar.com.br

O

milho é o cereal de maior volume de produção no mundo. O Brasil ocupa posição entre os principais produtores e exportadores mundiais. Por ser uma planta C4, o milho é um dos cereais com maior potencial de produção de grãos. Esta característica, aliada às suas propriedades bromatológicas, o torna de grande importância como fonte de energia para alimentação humana e principalmente animal. A estimativa da produção brasileira na safra 2013/14 é de 79 milhões de toneladas (Conab, 2014) e o principal destino desta produção é o consumo animal, correspondendo a 58% deste volume e 78% do mercado interno de milho (Figura 1). Dentre os segmentos consumidores de milho no Brasil, os que mais consomem são a avicultura e a suinocultura (Figura 1). Estes setores são exigentes com a qualidade do milho, pois o cereal é responsável por aproximadamente 2/3 dos ingredientes usados na alimentação e tem efeito direto nos índices produtivos dos animais. A produção brasileira de milho tem aumentado nos últimos anos, principalmente pela ampliação das áreas de cultivo e incremento de produtividade na 2ª safra, também conhecida como “safrinha”. A partir da safra 2011/12 a produção de milho 2ª safra superou a 1ª safra (Figura 2). O cultivo do milho na 2ª safra tem alguns benefícios, como: possibilidade de realização de duas safras por ano, redução do custo da adubação pelo aproveitamento dos nutrientes disponibilizados pela soja (principalmente N), aproveitamento de máquinas da propriedade, diluindo os custos fixos, rentabilidade quando comparada com outras culturas de inverno e garantia de comercialização da produção. Porém, esse sistema de cultivo em monocultura, aliado ao ambiente favorável, promove aumento nas doenças necrotróficas, como helmintosporiose (Exserohilum turcicum), cercosporiose (Cercosporazeae-maydis), pinta-branca (Pantoea ananatis), fusariose (Fusarium


Figura 1 - Demanda brasileira de milho por segmento, safra 2013/14. (Fonte: Abimilho)

moniliforme e F. verticillioides) e diplódia (Stenocarpella macrospora e S. maydis), causando lesões em folhas, podridões em espigas e colmos. Os estados de Mato Grosso e Paraná são os dois principais produtores de milho na 2ª safra. Porém, o Paraná tem enfrentado problemas relacionados à qualidade de grãos de milho, em função da instabilidade climática e a possibilidade de ocorrência de geadas e chuvas na fase de pré-colheita dos grãos. A maior parte da produção de milho paranaense é destinada à alimentação animal. A Cooperativa Agroindustrial Consolata (Copacol), localizada no oeste do Paraná, tem sofrido com a instabilidade da 2ª safra de milho, 100% do milho produzido pelos seus associados é consumido nas integrações de aves, suínos, bovinos e peixes. Da necessidade de melhorar a qualidade do milho, a Copacol desenvolveu nos últimos anos uma série de experimentos em seu Centro de Pesquisa Agrícola (CPA Copacol) para identificar as causas da má qualidade do milho recebido na 2ª safra. Os principais fatores de manejo que interferem na produtividade e na qualidade de grãos na 2ª safra estão relacionados à genética, ao manejo de doenças, ao ajuste populacional e ao manejo de pragas. Na Tabela 1 estão sumarizados os

Figura 2 - Produção brasileira de milho em função das safras. (Fonte: Abimilho)

Figura 3 - Produtividade e teor de grãos avariados de dois híbridos de milho em função da aplicação de fungicida, médias geradas a partir de cinco populações de plantas, Cafelândia (PR), 2013

resultados de um experimento conduzido com 49 híbridos distintos em função do manejo com fungicidas. Nas parcelas com fungicida, foram realizadas três aplicações dos produtos azoxistrobina + ciproconazol + propiconazol, nas doses de 80g de ingrediente ativo/há + 32g de ingrediente ativo/ha + 100g de ingrediente ativo/ha, respectivamente, nas fases de desenvolvimento da cultura: V8, VT e VT+20 dias.

Pode-se observar na Tabela 1 uma redução no peso de mil grãos (PMG) superior a 10%. A redução do PMG tem efeito direto sobre a redução de produtividade e ocorre devido à morte prematura das folhas das plantas pelo ataque dos patógenos. As folhas são o local em que ocorre a produção de fotoassimilados, que seriam translocados e resultariam no completo enchimento de grãos. Com a morte das folhas, a produção cessa e o en-

Figura 4 - Produtividade e grãos avariados do híbrido P 3161 H em razão da popula- Figura 5 - Produtividade e grãos avariados do híbrido AG 9030 PRO em razão da popução de plantas, média de três locais (Cafelândia, Jesuítas e Goioerê), 2ª safra, 2013 lação de plantas, média de três locais (Cafelândia, Jesuítas e Goioerê), 2ª safra, 2013

www.revistacultivar.com.br • Fevereiro 2015

35


Tabela 1 – Efeito da aplicação de fungicida sobre produtividade, peso de mil grãos (PMG), teor de grãos avariados, falência de colmo e características bromatológicas de grãos de milho. Médias geradas a partir de ensaio com 49 híbridos semeados na segunda safra em Cafelândia (PR), 2014 Variável Produtividade (kg/ha) Umidade dos grãos (%) PMG (g) Avariados (%) Falência de colmo (%) Proteína bruta (%) Extrato etéreo (%) E.M. (Kcal/kg)

Sem fungicida 6248,70 B 22,3 B 291,3 B 8,0 A 68,9 A 8,7 A 3,9 B 3547,8 B

Com Fungicida 7675,97 A 23,8 A 328,1 A 4,7 B 39,7 B 8,4 B 4,0 A 3561,0 A

Média 6962,3 23,1 309,7 6,4 54,3 8,6 4,0 3554,4

Variação 1427,3 1,5 36,8 3,3 29,2 -0,3 0,1 13,2

C.V. (%) 11,2 6,2 5,6 41,7 31,8 3,5 4,2 1,4

Médias seguidas da mesma letra na horizontal não diferem entre si pelo teste de Tukey (P<0,05); C.V. = Coeficiente de variação; E.M. Energia metabolizável.

água e nutrientes às espigas. Além do incremento de produtividade, houve uma redução do teor de grãos avariados, reduzindo de 8% para 4,7% com a aplicação de fungicida, na média dos 49 híbridos. Em termos de redução percentual, isso significa um decréscimo superior a 40%. Neste ensaio houve também grande variação quanto aos híbridos, como pode ser observado na Figura 9. No ensaio conduzido em 2013 (Figura 3), ocorreu redução de 5,7% (19,4% para 13,7%) e 1,9% (5,8% para 3,9%) com aplicação de fungicida para os híbridos AG 9010 PRO e P 3340 H, respectivamente. A avaliação do teor de grãos avariados tem sido utilizada para caracterizar a qualidade do milho, pois teores elevados resultam em perda de valor comercial do milho para os produtores, além de complicações posteriores para produção de rações. A presença de grãos avariados aumenta as chances da presença de micotoxinas nos grãos. A produção de micotoxinas pelo fungo depende das condições climáticas enfrentadas durante a colonização dos grãos. Quando ocorrem, as micotoxinas não podem ser eliminadas por processos industriais, re-

Fotos Fernando Fávero

chimento dos grãos fica comprometido. Observa-se ganho médio dos 49 híbridos de 1.427kg/ha, sendo que para alguns híbridos esse acréscimo foi superior a 3.000kg/ha. Em outro experimento realizado em 2013 com dois híbridos e cinco populações de plantas com e sem fungicida (Figura 3), os ganhos em produtividade foram de 1.250kg/ha e 1.630kg/ha para os híbrido AG 9010 PRO e P 3340 H, respectivamente. A consistência dos resultados observados com a aplicação do fungicida pode ser explicada por ser a única estratégia adotada para o manejo de doenças no sistema de produção de milho na segunda safra. A falência de colmo foi reduzida em 30% com a aplicação de fungicida no ensaio. Com o colapso das folhas, na tentativa de garantir a sobrevivência da espécie, a planta de milho realoca as reservas do colmo para suprir a demanda dos grãos. Com isso, os colmos ficam frágeis e suscetíveis ao tombamento, que pode resultar em perdas no momento da colheita. Ainda observa-se a menor umidade dos grãos no momento da colheita na área sem aplicação do fungicida. Isso ocorre devido à morte prematura das plantas, que interrompe antes o fluxo de

correndo à utilização de adsorventes que aumentam o custo das rações. As principais micotoxinas presentes em grãos de milho são aflatoxinas (Aspergillus flavus), fumonisinas, micotoxinaT-2 e zeralenona (Fusarium spp.). Quando ingeridas pelos animais ocorre redução de ganho de peso, diarreia, problemas hepáticos, problemas reprodutivos e aumento da conversão alimentar, resultando em diminuição dos índices produtivos e perdas econômicas. Apesar do teor de avariados ser utilizado para caracterizar a qualidade no momento da entrega dos grãos pelo produtor, não há correlação com bromatologia dos grãos, que tem implicação direta na fabricação de rações. Na Tabela 1 encontram-se os valores destas características, ocorrendo maiores teores de energia metabolizável e extrato etéreo (gorduras) e menor teor de proteína bruta nos grãos em que foi aplicado fungicida. Isso se explica com a morte prematura e o incompleto enchimento de grãos. A parte do grão que apresenta maiores perdas é o endosperma, pois tem formação posteriormente ao embrião. A concentração de proteína no embrião fica em torno de 18% contra 7% do endosperma. Quanto ao amido, as concentrações variam de 8% para o embrião e 80% para o endosperma. Assim, uma redução da relação endosperma/embrião resulta em aumento do teor de proteína e diminuição do teor de amido, principal contribuinte para a energia metabolizável do grão. Além do efeito da aplicação de fungicida, observou-se grande variação das características bromatológicas em função dos híbridos estudados. Os dados na íntegra podem ser acessados no site da Copacol/Agricultura/CPA. Como implicação industrial, grãos de milho com menor quantidade de energia metaboli-

Com fungicida

Sem fungicida

Efeito de perda de área foliar fotossinteticamente ativa em função de doenças, Híbrido Sprint TL, Cafelândia (PR), 2012

36

Sem fungicida

Com fungicida

Efeito das doenças sobre o peso de mil grãos e diminuição da relação endosperma/embrião, Híbrido Sprint TL, Cafelândia (PR), 2012

Fevereiro 2015 • www.revistacultivar.com.br


Fotos Tiago Madalosso

Diferença de grãos avariados em dois híbridos conduzidos sob as mesmas condições de manejo (efeito genético), Cafelândia (PR), 2014

os principais problemas. O ataque de percevejos gera plantas dominadas, que ficam mais suscetíveis a produzirem grãos avariados. O uso de ferramentas como a biotecnologia trouxe avanços importantes na melhoria da qualidade de grãos por evitar danos às espigas de milho. São porta de entrada para umidade e fungos na espiga. Devido à destinação do milho brasileiro, o mercado tem penalizado os produtores que não atingem os padrões de qualidade, pois produto com baixa qualidade é um complicador para os cerealistas brasileiros. A obtenção de altas produtividades de milho sem perda

de qualidade passa pelo manejo correto durante todo ciclo da cultura e é fundamental para o sucesso econômico na atividade. A escolha do híbrido adequado para a condição de clima da região e época de semeadura, o ajuste populacional, o manejo de pragas, a escolha dos fungicidas, as épocas e o número de aplicações são alguns fatores que podem contribuir significativamente para a melhoria da qualidade dos grãos de milho cultivados C na segunda safra. Tiago Madalosso e Fernando Fávero, Copacol

Fotos Divulgação

zável aumentam os custos para produção de rações em função da necessidade de complementação dessa energia com outros ingredientes como óleo de soja. O ajuste populacional para cada híbrido é um importante fator de manejo para obtenção de altas produtividades de milho. Porém, o aumento da população de plantas eleva linearmente o teor de grãos avariados (Figuras 4 e 5). Este experimento foi conduzido em três locais, com dois híbridos diferentes pela equipe do CPA Copacol. O incremento do número de plantas por área favorece o estabelecimento de patógenos por criar um microclima mais favorável para o estabelecimento de doenças, além de aumentar a competição interespecífica (entre as plantas de milho), o que deixa o hospedeiro mais vulnerável à infecção. A elevação dos teores de grãos avariados ocorre também devido à formação de grãos menores na ponta da espiga, com enchimento incompleto, grãos estes que normalmente ficam mais sensíveis ao brotamento em condições de umidade e também ao ataque de fungos. Às vezes é necessário abrir mão da máxima produtividade em prol de grãos com padrão de qualidade.

MANEJO DE PRAGAS

O adequado manejo das pragas na 2ª safra é fundamental para obtenção de altas produtividades com qualidade de grãos. Os percevejos (Dichelops sp.) e lagartas (Spodoptera frugiperda) são

Madalosso e Fávero abordam a correta condução da safrinha de milho

www.revistacultivar.com.br • Fevereiro 2015

37


Arroz

Mancha zonada Fotos Caroline Gulart

Detectada nas últimas safras na cultura do arroz durante a fase de plântula e perfilhamento, Drechslera gigantea exige atenção redobrada por parte dos orizicultores e pesquisadores para prevenir prejuízos

A

ocorrência de pragas e doenças na lavoura orizícola vem ganhando importância nos últimos anos. Tomada por referência a produção de arroz há 12 anos, o manejo de doenças era considerado secundário. Com o aumento na produtividade de grãos, a proteção da lavoura ganhou importância. Vários pesquisadores destacam que a ocorrência de epidemias, bem como o surgimento e a agressividade das doenças, está diretamente relacionada com o tipo de cultivar utilizada, a densidade de semeadura e as práticas de manejo de maneira geral. Nesse sentido, é importante dar atenção àquelas doenças que geralmente causam danos todos os anos, caso da bruzone (Pyricularia grisea) e da mancha parda (Bipolaris oryzae), queima das bainhas (Rhizoctonia solani) e escaldadura das folhas (Gerlachia oryzae), assim como monitorar aquelas com importância secundária. A partir da safra agrícola de 2014, técnicos e produtores, tanto da região central, quanto da fronteira do Rio Grande do Sul, têm observado a presença de uma mancha atípica atacando a cultura já na fase de plântula e perfilhamento. Desde então, diversas plantas de arroz foram trazidas ao laboratório de microbiologia do Instituto Phytus para identificação de doença.

40

DESCRIÇÃO DOS SINTOMAS

As lesões da doença normalmente são pequenas manchas ovais ou circulares de cor marrom ou pardas com centro acinzentado e contorno marrom-avermelhado. Em algumas lesões são observadas estruturas globosas de coloração escura, possivelmente peritécios. Quando em estágio mais avançado, estas manchas coalescem, formando “zonas” nas folhas, comprometendo dessa forma a área fotossinteticamente ativa. O início da doença pode ser facilmente confundido com a mancha circular (Alternaria padwickii) e a bruzone (Pyricularia grisea).

IDENTIFICAÇÃO DO AGENTE CAUSAL

Inicialmente foram utilizadas duas metodologias para identificação do patógeno - isolamento em meio de cultura Batata-dextrose-ágar (BDA) com incubação a 22°C e fotoperíodo de 12 horas por cinco dias e câmara úmida utilizando folhas com sintomas, nas mesmas condições já citadas. No quarto dia de incubação foi possível perceber estruturas escuras arredondadas no centro das manchas, assemelhando-se a um peritécio. Ao examinar a estrutura com auxílio de um microscópio óptico, constatou-se que se tratava da fase teleomórfica (sexual)

Fevereiro 2015 • www.revistacultivar.com.br

de um fungo. Baseado nas características dos ascósporos, bem como dos sintomas, excluiu-se a possibilidade da doença estar sendo causada por Bipolaris oryzae, Drechslera oryzae ou Alternaria padwickii. Após consulta na literatura, concluiu-se que se tratava provavelmente da fase sexual de Drechslera gigantea (Pyrenophora gigantea). Após realizar o isolamento de diversas amostras de arroz, desde o perfilhamento até a planta adulta, verificou-se que, dependendo da cultivar e do local, era possível identificar tanto a fase teleomórfica, quanto a fase anamórfica (Drechslera gigantea syn. Helminthosporium giganteum) do fungo, não havendo, porém, uma tendência para ocorrência de um ou outro. Para confirmação do agente causal foi realizado o Postulado de Koch, procedimento que auxilia na identificação a partir da patogenicidade do fungo sobre um hospedeiro suscetível. O postulado basicamente consiste em promover condições de crescimento do organismo associado aos sintomas e, posteriormente, manter a cultura pura do organismo em meio artificial. Para o isolamento foram selecionadas as áreas de transição entre o tecido infectado e o tecido sadio das folhas de onde foram retirados fragmentos com auxílio de um bisturi. Posteriormente, estes fragmentos foram submetidos à desinfestação superficial, sendo imersos em álcool 70%, hipoclorito de sódio 1% e três lavagens em água destilada estéril, por um minuto em cada solução. Após, os fragmentos foram postos sobre papel filtro estéril na câmara de fluxo laminar, por aproximadamente dez minutos, para secagem. Finalmente, os fragmentos foram depositados

Plantas de arroz com manchas circulares


Peritécios sobre as lesões em meio de cultura

Manchas formando "zonas" nas folhas

Visão geral e detalhe dos conídios de D. gigantea

em placas de petri contendo meio de cultura BDA e incubados em temperatura de 23°C e fotoperíodo de 12 horas, por aproximadamente cinco dias. Após este período, as estruturas foram observadas em lupa e microscópio óptico para identificação do patógeno. O reisolamento dos sintomas observados nas plantas inoculadas confirmou o agente causal como sendo Drechslera gigantea. O fungo apresentava conidióforo marrom com um a sete septos, conídios medindo 166-485 x 10-29µm, sendo que a germinação do esporo ocorre ou na base ou no ápice do esporo, mas raramente no meio. Em meio de cultura V8, a cultura apresentava aspecto cotonoso de coloração cinza-escura a olivácea, de acordo com o que está descrito na literatura (Shoemaker, 1959; Ahn, 1980).

fase anamórfica se deu em 1979 em arroz selvagem na Colômbia, Panamá e Peru (Ahn, 1980). Posteriormente, a doença foi identificada causando danos em campos experimentais de arroz selvagem da Universidade de Minessota (USA). Na safra 2003 D. gigantea foi identificada em plantas de trigo, provocando inúmeras lesões circulares e ovais com margem marrom e centro cinza (Chowdhury et al, 2005). Em plantas de arroz cultivado, foi identificado na Venezuela (Rodriguez & Nass, 1990). Na safra de 2006/2007 o patógeno foi localizado causando manchas nas cultivares BRS Querência e BRS Atalanta em lavouras de Capão do Leão, no Rio Grande do Sul, sendo que, na safra seguinte a doença demonstrou alta severidade nos estádios finais do desenvolvimento de arroz no mesmo local (Nunes, 2008). O patógeno provoca mancha zonada em bananeira e espécies de gramas, sendo também utilizado como agente bio-herbicida no controle de Setaria viridis da família Poaceae, erva daninha comum no Canadá, resistente aos herbicidas inibidores da Acetyl-CoACarboxylase e Digitaria sanguinalis na Flórida. Drechslera gigantea pode provocar mancha zonada em: Agropyron, Agrostis, Anthephora,

Bambusa, Bromus, Cenchrus, Commelina, Cynodon, Dendrocalamus, Echinochloa, Eleusine, Elymus, Eragrostis, Festuca, Glyceria, Hilaria, Lasiagrostis, Leersia, Melinis, Musa, Oryza, Panicum, Pennisetum, Phalaris, Poa, Saccharum, Sporobolus, Teramnus, Trichachne, Uniola, Zinnia (Sivanesan, 1992). Tendo em vista a grande incidência dessa doença na safra 2014/2015 e também considerando o grande número de hospedeiros alternativos de Drechslera gigantea, é de grande importância conhecer melhor esse patossistema, bem como estudar o seu comportamento frente a práticas culturais que possam interferir no ciclo da doença. Além disso, é necessário investigar a respeito do controle químico, tanto via tratamento de sementes, quanto em parte aérea, bem como conhecer o nível de sensibilidade à doença das principais cultivares utilizadas no estado. Apesar de não se ter ainda conhecimento sobre nível de danos econômicos causados pela doença, sua ocorrência e severidade nas últimas duas safras demonstram ser necessária maior atenção para evitar surpresas no futuro. C

EPIDEMIOLOGIA

Pelo fato de ter sido identificada em plântulas de arroz, é provável que, à semelhança de Bipolaris oryzae, haja transmissão via sementes da doença. A germinação de conídios do patógeno ocorre entre 15ºC e 23°C, sendo que, quanto maior o período de orvalho, maior será a severidade da doença (Green et al, 2004).

HISTÓRICO E IMPORTÂNCIA DA DOENÇA

A primeira ocorrência da doença na sua

Ascas e ascósporos de Drechslera gigantea (Pyrenophora gigantea)

Caroline Gulart, Julia Mantelli e Mônica P. Debortoli, Instituto Phytus Marcelo G. Madalosso, Inst. Phytus/Univ. Reg. Int.-Santiago Leonardo Gulart, IFSC Drechslera gigantea Clasificação cientifica Reino: Fungi Filo: Ascomycota Classe: Dothideomycetes Subclasse: Pleosporomycetidae Ordem: Pleosporales Família: Pleosporaceae Gênero: Drechslera Espécie: D. gigantea Sinonímia Helminthosporium giganteum Heald & F.A. Wolf, (1898)

www.revistacultivar.com.br • Fevereiro 2015

41


Coluna ANPII

Uso correto Tal qual na Fórmula 1 ou na culinária, no emprego de inoculantes não basta apenas dispor de alta tecnologia, mas saber utilizá-la de modo adequado

Q

uem acompanha as corridas de Fórmula 1 ou mesmo de outras categorias tem se deparado com máquinas de excepcional qualidade, com tudo o que existe de mais moderno em tecnologia, mas que, na pista, não apresenta um desempenho à altura do poder do equipamento. Seja por direção deficiente, por um trabalho inadequado dos mecânicos, que faz com que falhas ocorram e muitas vezes a corrida acabe, para aquele carro, antes da bandeirada final ou, se chegar ao final, o faz nos últimos lugares. Pode-se usar a culinária também como exemplo: não adianta

de inoculantes desenvolveram suas unidades de produção para fazer estas bactérias crescerem em elevadas quantidades e conduzi-las em veículos adequados para proporcionar inoculantes de qualidade e com uma margem de segurança muito grande para poder atender às necessidades de nitrogênio necessárias para elevadas produtividades das leguminosas. Com pessoal altamente qualificado, com equipamentos de primeira linha e com inúmeros testes de qualidade, os inoculantes oferecidos ao agricultor brasileiro satisfazem aos mais rígidos controles e às mais severas exigências dos agricultores.

turfa, isso fica mais fácil, pela coloração escura do produto. No inoculante líquido é necessário um pouco mais de cuidado para fazer esta observação. Muito importante, também, é verificar que produtos estão sendo utilizados nas sementes, para o tratamento contra doenças e pragas. É necessário consultar os fabricantes dos inoculantes para saber quais produtos são mais compatíveis com as bactérias. Praticamente todos os produtos químicos têm algum grau de incompatibilidade, matando em maior ou menor quantidade as bactérias, o que pode causar baixa nodulação. Entretanto, esta mortalidade ge-

O inoculante é um produto vivo e, portanto, deve ser manuseado com muito mais cuidado que aqueles empregados com produtos inertes uma excelente picanha se o assador a manusear mal, resultando em um mau churrasco. Como conclusão, não basta um bom equipamento ou uma boa matéria-prima. Tem que ser bem usado! Podemos comparar os inoculantes utilizados no Brasil a um carro de Fórmula 1 ou a outra máquina de elevada qualidade, seja um avião, um navio, um computador ou mesmo, no já citado exemplo da culinária, uma carne de excelente qualidade. Para que tenha todo seu efeito, é indispensável que seja usado corretamente. Os inoculantes utilizados nas lavouras brasileiras são produtos de excelente qualidade. Foram pesquisadas e selecionadas bactérias com elevado potencial de fixação de nitrogênio. Anos e anos de testes em laboratório e campo resultaram em cepas bacterianas que podem fixar todo o nitrogênio necessário para as mais elevadas produtividades da soja e mesmo do feijão, bem como de outras leguminosas. Por outro lado, os produtores

42

Entretanto, tudo isto pode ser posto a perder se, na ponta final, na hora do plantio, o inoculante for mal utilizado. O inoculante é um produto vivo e, portanto, deve ser manuseado com muito mais cuidado que aqueles empregados com produtos inertes. Desde o transporte da revenda até a fazenda, passando pelo armazenamento, uma série de atenções deve ser dada ao produto. Não deixar exposto ao sol, não armazená-lo em locais demasiadamente quentes, não guardar em ambientes com resíduos químicos devem ser os cuidados básicos para fazer com que o produto chegue em boas condições na lavoura. A mistura do inoculante com as sementes é um dos pontos cruciais para o sucesso de uma lavoura de soja. O que significa inocular? É grudar 1.200.000 bactérias em cada semente de soja ou outra leguminosa que for semear. E para obter isto é preciso fazer uma mistura adequada, cuidadosa, verificando que cada semente fique recoberta pelo inoculante. No caso do inoculante em pó, à base de

Fevereiro 2015 • www.revistacultivar.com.br

ralmente não ocorre de choque, mas de forma lenta através de algumas horas. Assim, é importante respeitar um tempo máximo entre a inoculação e a semeadura. Este intervalo nunca deve exceder 12 horas. Uma prática que nunca deve ser usada é a de misturar em uma mesma calda o inoculante com os defensivos que serão utilizados nas sementes. Esta mistura, popularmente chamada de “sopão”, causa danos irreversíveis às bactérias e prejudica seriamente a nodulação. Desta forma, é importante que os agricultores leiam as instruções de uso do produto, que consultem o fabricante ou seu assistente técnico, para que possam tirar todo o proveito de um produto que tem fundamental importância para que se obtenham elevadas produtividades nas culturas C de leguminosas. Solon de Araujo Consultor da ANPII


Coluna Agronegócios

Mais energia limpa

O

preço do petróleo está despencando. Meia boa notícia: se, por um lado, a energia fica mais barata, por outro vamos emporcalhar ainda mais a atmosfera do nosso planeta. Um amigo meu sempre lembra: tudo o que é bom também é caro. Vamos cair nesta de desincentivar o uso de energia limpa por que o petróleo (e junto com ele o gás e o carvão) ficou mais barato? Há outras considerações que precisamos fazer. Para o agricultor, movimentar as máquinas ou o custo do frete pode ficar mais barato, agora. Mas, basta uma daquelas secas duradouras, que têm na origem as emissões da queima do óleo diesel, para que o pequeno lucro se transforme em grande prejuízo.

ESTAMOS REGREDINDO

Em 2014 o Painel Intergover-

teor de carbono, estocado no subsolo pela natureza há centenas de milhões de anos. Outros setores com altas emissões são os segmentos industrial (30%) e o de transporte (11%). Em poucas décadas, estamos desenterrando esse carbono e lançando-o à atmosfera, perturbando o equilíbrio obtido ao longo de milhões de anos. O IPCC aponta as consequências do acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera, sendo o mais dramático o aumento da temperatura da Terra em 2100, previsto para variar entre 3,7ºC e 4,8ºC acima dos níveis anteriores à Revolução Industrial. Mas não podemos esquecer das secas, das inundações, das tempestades e dos furacões.

O QUE FAZER?

Deve-se estabelecer uma meta

energia fóssil, terão dificuldades quase insuperáveis de cumprimento da meta, mesmo no médio prazo. Por outro lado, países como o Brasil podem transformá-la em grande oportunidade. O País tem reduzido consistentemente a taxa de desmatamento nos últimos anos, e possui excelentes condições para implantar uma indústria baseada em florestas cultivadas. Apesar do desincentivo recente à produção de bioetanol, o Brasil dispõe de excelentes condições para expandir em escala exponencial a produção de biocombustíveis e de outras formas de energia renovável, como eólica, fotovoltaica ou bioeletricidade. O aproveitamento de resíduos agrícolas ou agroindustriais pode ser uma fonte importante de matéria-prima para geração de bioeletricidade. Outros países deverão investir acen-

Não há como atingir a meta a não ser pela substituição maciça e progressiva de combustíveis fósseis por outras formas de energia, especialmente renováveis namental de Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas divulgou um documento subscrito por 235 autores de 58 países, demonstrando que as emissões de gases de efeito estufa cresceram continuamente, entre 1970 e 2010. A taxa geométrica de aumento das emissões tem sido maior em períodos recentes, relativamente aos anteriores. Entre 1970 e 2000, as emissões incrementaram 1,3% ao ano; já na primeira década deste século, a taxa cresceu para 2,2% ao ano, em plena vigência do Tratado de Kyoto. Pelo Tratado, o compromisso dos signatários era reduzir não apenas a taxa, mas o volume total que cada país lança na atmosfera. Em função do crescimento da taxa, metade das emissões dos últimos 260 anos ocorreu de 1970 a 2010! Cada país entrega, anualmente, o seu balanço de emissões, divididas por setores, como energia, indústria, transporte, construção civil e agropecuária. Em escala global, o setor energético é responsável por quase metade das emissões, pois a maior parte da energia provém de fontes fósseis, que contêm alto

44

factível e que possa ser consensuada globalmente, mediando os interesses dos diferentes países e blocos políticos ou comerciais. O Intergovernmental Panelon Climate Change (IPCC) propõe que a meta seja não superar em 2ºC o aumento médio da temperatura, até o final do século. Atingir a meta será dolorido e demanda visão e coragem política, desprendimento, persistência e soluções de compromisso. Será necessária uma redução dramática das emissões, com início imediato e atingindo um máximo nos próximos 40 anos. Não há como atingir a meta a não ser pela substituição maciça e progressiva de combustíveis fósseis por outras formas de energia, especialmente renováveis – um Proálcool global, abrangendo biocombustíveis e outras energias renováveis. Também é crucial a redução acentuada das taxas de desmatamento, incluindo a sua reversão, ou seja, aumento da área de florestas plantadas. Obviamente que os países serão afetados diferencialmente. Os industrializados, com alto consumo de

Fevereiro 2015 • www.revistacultivar.com.br

tuadamente na mudança do paradigma de transportes e da base da sua indústria automobilística, incentivando o uso da eletricidade (proveniente de fontes renováveis), do bio-hidrogênio e de células de combustível para movimentar os veículos. Igualmente, terão que investir fortemente no desenvolvimento de tecnologias como a captura e o sequestro de CO2 (CCS). Em resumo, não será fácil, rápido e barato enfrentar o problema. Inclusive, é muito difícil estimar o custo econômico das medidas a serem implantadas e aquele decorrente das mudanças no perfil industrial. Entrementes, o IPCC alerta que a alternativa mais cara é a omissão: o laissez-faire pode significar uma catástrofe ambiental, com sérios desdobramentos econômicos e sociais. Mais que nunca, o mundo precisa de estadistas que se preocupem com o futuro da humanidade e não com o resultado C da próxima eleição. Décio Luiz Gazzoni

O autor é Engenheiro Agrônomo, pesquisador da Embrapa Soja


Coluna Mercado Agrícola

Vlamir Brandalizze brandalizze@uol.com.br

2015 exigirá habilidade comercial do produtor brasileiro A safra do Brasil já tem colheita iniciada. Apesar dos problemas climáticos, com seca em setembro, veranicos espalhados no meio de novembro e dezembro e excesso de chuvas em alguns momentos em pontos do Sul do País, o quadro geral é de uma supersafra, com crescimento em plantio e tecnologia. Dessa forma, estima-se que o Brasil colha pelo menos 90 milhões de toneladas de soja. No ano passado a safra foi de pouco mais de 86 milhões de toneladas. Com esse cenário já há sinais de alta nos fretes e congestionamento nos portos. O Brasil terá, ainda, uma safra de mais ou menos 70 milhões de toneladas de milho, sendo que uma fatia deste volume também vai para a exportação e ajudará a pressionar o preço dos fretes. O País colherá perto de 12 milhões de toneladas de arroz e mais de um milhão de toneladas terá como destino a exportação. Por outro lado será necessário importar mais de seis milhões de toneladas de trigo para cobrir o consumo nacional. Ou seja, tanto na venda como na compra de produto do mercado externo, as operações estarão associadas a câmbio. Será um ano de grande necessidade de acompanhamento do dólar frente ao real no Brasil. Tudo sinaliza que o Brasil está em fase de recessão, pois gasta mais que arrecada e permanecerá com a moeda americana bastante valorizada. Desta forma se caminha para um começo de ano com pressão negativa, fruto do avanço dos valores dos fretes e da ausência de grande apoio do mercado externo que ainda vê a safra da América do Sul como recorde, aliada à grande safra ainda restante dos EUA, fazendo com que limite avanços em dólares e internamente em reais (devido aos custos que crescerão para colocar os produtos nos portos). Mas no decorrer do ano é esperada alguma correção nos valores externos, porque há demanda para todo o produto que está sendo colhido. A forte queda dos preços do petróleo, que teve efeito negativo no início do ano sobre os produtos agrícolas, poderá se reverter em fator positivo, porque estimula a economia dos países importadores e também a economia mundial. Desse modo, mais alimentos serão necessários para tender o consumo, que seguirá crescendo. Será um bom ano ao setor de grãos e os produtores devem apostar em vendas escalonadas, sem forçar com excesso de ofertas. A ordem é ficar fora das negociações nos momentos de baixa, porque há tendência de reversão, com números melhores na sequência. MILHO

Safrinha mostra plantio com área menor

O Brasil plantou a maior safra da história da soja, com aproximadamente 32 milhões de hectares. Se o clima tivesse sido perfeito, haveria condições de colher 100 milhões de toneladas. Mas isso não ocorreu, houve seca em setembro e começo de outubro, prejudicando as precoces. Houve estiagem forte no Norte e Nordeste, o que empurrou o plantio até janeiro, com perda de potencial produtivo das lavouras. A safra mostra lavouras de ruins a excelentes, frente aos anos anteriores que registravam lavouras regulares a excelentes. Em anos anteriores havia problemas maiores com pragas como a Helicoverpa e falsa-medideira, além de ataque intenso de doenças como a ferrugem asiática e perdas devido a estes fatores. Agora, esses problemas se mostram menores, sendo o maior gargalo o clima, com calor extremo e chuvas irregulares que resultam em perdas no potencial produtivo. Há indicativos de alcançar 90 milhões de toneladas, mas com produtividade menor em relação aos últimos anos. Cenário que obrigará a venda escalonada, sendo que parte já estaria negociada, com cerca de 40% vendidos ou trocados por insumos, o que dará fôlego para o produtor escalonar o restante da comercialização em momentos melhores no futuro.

O mercado do milho mostra indicativos melhores que os de 2014. Mesmo assim os produtores apontam que plantarão menos neste ano devido ao atraso no plantio da soja, que deixará boa parte das áreas fora da janela recomendada para o milho. Além desta situação de atraso na soja, o trigo no Paraná desponta como uma alternativa aos produtores que vêm apostando no avanço da cultura. O mesmo ocorre com o feijão em quase todas as regiões, como alternativa nesta segunda safra e que se mostra muito estimulante neste começo de ano, com o Carioca na faixa de R$ 200,00 por saca do produto de alta qualidade, o que servirá de apelo para o plantio em parte das áreas do milho. Tudo aponta que haverá queda de 5% a 10% na área do milho safrinha e desta forma se trabalha com perspectiva de uma colheita de 42 milhões de toneladas a 43 milhões de toneladas, frente a 48 milhões de toneladas do ano passado. No milho de verão a queda de quase 25% na área e a seca que pegou o Sudeste e parte do Nordeste tendem a resultar em uma safra de menos de 27 milhões de toneladas contra quase 30 milhões de toneladas colhidas no ano passado. A safra, em excelentes condições no Sul do País, não irá compensar a queda na FEIJÃO área e os estragos da seca do Sudeste. Com isso, a produção Escassez já em janeiro caminha para a faixa das 70 milhões de toneladas, sendo O mercado do feijão vê o ano começar com as que entre consumo e exportações o país deve demandar 75 milhões de toneladas. Com esse cenário haverá estoques de cotações nas alturas. O pouco produto disponível está sendo muito bem valorizado, com indicativos de R$ passagem muito baixos neste novo ano. 200,00 a saca neste final de janeiro, no Paraná e em Minas Gerais. A primeira safra parte sem deixar estoques SOJA e a segunda vem em seguida, sem garantia de que irá ter Clima melhorou em janeiro

bom volume de ofertas, porque o clima é incerto, pragas e doenças são certas e se o produtor não cuidar bem das lavouras terá dificuldade para colher o produto de alta qualidade, que o consumidor exige para levar para casa. O mercado é favorável e deverá permanecer assim na maior parte de 2015. ARROZ

Safra concentrada no Sul e favorável aos produtores

Os produtores do arroz do Sul do País deverão dominar a produção em condições maiores que em anos anteriores, porque pouco se plantou nos estados do Centro-Oeste, Norte e Nordeste. O abastecimento virá do Rio Grande do Sul, que tende a fornecer algo perto de oito milhões de toneladas, com pouco mais de um milhão de toneladas, oriundas de Santa Catarina. O restante não chegará a mais que 2,5 milhões de toneladas e o consumo irá crescer pegando carona na crise econômica brasileira, que deixou a população endividada e agora terá conta de luz 30% mais cara, transporte mais caro com combustíveis mais caros e efeito cascata destes com outros custos em crescimento. O poder aquisitivo, que parecia ilimitado, deixou como saldo centenas de parcelas mensais para serem pagas à frente. Agora, será preciso adequar o consumo e certamente o arroz e o feijão voltarão a frequentar com maior assiduidade os pratos dos brasileiros. Fator positivo para o arroz, que tem como apoio exportações em crescimento e importações em queda devido ao dólar em alta. Isso não mudará e desta forma há apelo para mais um bom ano ao setor arrozeiro. Tende a ser o melhor ano dos últimos tempos, desde que o produtor não se apavore e saia vendendo logo na colheita.

CURTAS E BOAS TRIGO - O mercado do trigo brasileiro já mostra indicativos positivos, com cotações em alta, passada a pressão negativa da safra e das chuvas que prejudicaram as lavouras colhidas depois de outubro no Sul. Os indicativos avançam internamente, atrelados aos custos crescentes do produto importado. Há expectativas de um crescimento de plantio na casa de 10% neste ano. Há apoio em cotações, maiores que as praticadas no ano passado, porque o dólar se apresenta mais forte e também passou a fase negativa do mercado externo. O que tinha para cair, já caiu e agora, se houver movimento nas cotações, será para cima. O Brasil necessitará de importações que poderão alcançar seis milhões de toneladas a sete milhões de toneladas para cobrir o consumo crescente. O País terá de valorizar e remunerar bem o trigo nacional. ALGODÃO - Os produtores plantavam as últimas lavouras em janeiro, neste ano com mais otimismo, porque os valores estão totalmente atrelados ao dólar e como agora há níveis melhores que no ano passado, há bom cenário para o setor, que sobrevive de exportação em boa parte. Os valores são maiores para o produto nacional vendido para a Ásia, país que busca algodão de maior qualidade. Também há uma área limitada, que não deverá trazer excedentes, assim, apelo favorável aos produtores, que certamente terão de ir acompanhando o mercado e fazendo as vendas nos momentos de pico que surgirão ao longo do ano. CHINA - As compras de soja nos EUA, até final de janeiro, já estavam na casa de 35 milhões de toneladas, indo para o “fechamento da feira”, com os chineses começando a olhar para a América do Sul. Como compraram muito mais dos norte-americanos neste ano, já deram sinais de que, de tempos em tempos, poderão cancelar contratos. Isso já ocorreu em janeiro, fazendo com que Chicago leve um susto e recue nestes momentos.

46

Mas este tipo de episódio é comum, porque os chineses normalmente aproveitam para cancelar contratos comprados caros, atrelados a entregas em momentos que os portos estarão congestionados. Assim, para não sobrecarregar os custos de navios parados, cancelam compras isoladas e se reposicionam com entregas à frente. Fato que já ocorreu em janeiro e que pode se repetir novamente. A boa notícia é que com o petróleo em baixa já se aponta que a China irá crescer mais que o previsto e desta forma o apelo será positivo para o mercado de alimentos. Os chineses já compraram mais de 2,5 milhões de toneladas de milho dos EUA e devem avançar para mais de cinco milhões de toneladas a seis milhões de toneladas, certamente com produto de outra origem. O país caminha para comprar mais de 74 milhões de toneladas de soja, mais de sete milhões de toneladas de arroz, além de grandes compras de trigo, sorgo e DDG (subproduto do milho na produção do etanol). Os chineses seguirão como gigantes na importação de alimentos. RÚSSIA - Os russos devem sofrer neste ano com o petróleo em baixa, dificultando a economia local devido às sanções que vem sofrendo devido à crise com a Ucrânia. Mas os alimentos tendem a ser os últimos a ter queda na demanda. EUROPA - O BC europeu anunciou em janeiro a injeção de 60 bilhões de euros mensais na economia do Bloco, comprando títulos de empresas e países para irrigar e fazer girar a economia local, que estava entrando em deflação e crise crescente. Estão copiando a política dos EUA, que agora parou de injetar dólares e viu como resultado a economia crescendo. Desta forma, a Europa espera, com um pouco de inflação e desvalorização da moeda, gerar mais empregos e exportações. Fato que irá obrigar a importar mais alimentos, porque não são autossuficientes. Estimam-se somas próximas de um trilhão de euros, que tendem a movimentar bem a economia do Bloco. Cenário bom para o Brasil, que exporta forte para a região.

Fevereiro 2015 • www.revistacultivar.com.br


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Grandes Culturas - Cultivar 189 by Grupo Cultivar - Issuu