C
Cultivar
Cultivar Máquinas • Edição Nº 200 • Ano XVII - Outubro 2019 • ISSN - 1676-0158
Índice
Destaques
04 Rodando por aí 10 Drones
Como interpretar e usar corretamente os dados coletados
16 Tratores
Desempenho de tração dianteira com diferentes tipos de pneus
20 Nossa capa
Alemã Hydac inaugura nova unidade da fábrica de filtros no Brasil
25 Tecnologia
Equipamento para mapeamento de variações nutricionais do solo
28 Irrigação
Cuidados necessários para evitar danos nas tubulações
30 Irrigação
20
Principais métodos de irrigação, suas características e aplicações
Estudo do uso da movimentação de solo em arroz irrigado
www.aerofotos.com.br
Nossa capa
34 Pneus
Empresa alemã Hydac inaugura fábrica no Brasil
36 Plantadoras
Como projetar adequadamente uma frota de plantadoras de cana
40 Colhedoras
Avanços da colheita semimecanizada de café
Grupo Cultivar de Publicações Ltda. Direção Newton Peter
• Editor Gilvan Quevedo • Redação Rocheli Wachholz Karine Gobbi Cassiane Fonseca • Revisão Aline Partzsch de Almeida • Design Gráfico Cristiano Ceia
www.revistacultivar.com.br
Assinatura anual (11 edições*): R$ 269,90 www.revistacultivar.com.br cultivar@revistacultivar.com.br (*10 edições mensais + 1 conjunta Dez/Jan) Números atrasados: R$ 22,00 CNPJ : 02783227/0001-86 Assinatura Internacional: US$ 150,00 Insc. Est. 093/0309480 € 130,00
• Coordenador Comercial Charles Echer • Vendas Sedeli Feijó Miriam Portugal
/revistacultivar
• GERAL
• ASSINATURAS
• REDAÇÃO
• MARKETING
3028.2000
3028.2070
3028.2060
3028.2065
• Assinaturas Natália Rodrigues • Expedição Edson Krause
• Coordenação Circulação Simone Lopes
NOSSOS TELEFONES: (53)
• Impressão: Kunde Indústrias Gráficas Ltda.
/revistacultivar
@RevistaCultivar
Por falta de espaço, não publicamos as referências bibliográficas citadas pelos autores dos artigos que integram esta edição. Os interessados podem solicitá-las à redação pelo e-mail: contatos@revistacultivar.com.br Os artigos em Cultivar não representam nenhum consenso. Não esperamos que todos os leitores simpatizem ou concordem com o que encontrarem aqui. Muitos irão, fatalmente, discordar. Mas todos os colaboradores serão mantidos. Eles foram selecionados entre os melhores do país em cada área. Acreditamos que podemos fazer mais pelo entendimento dos assuntos quando expomos diferentes opiniões, para que o leitor julgue. Não aceitamos a responsabilidade por conceitos emitidos nos artigos. Aceitamos, apenas, a responsabilidade por ter dado aos autores a oportunidade de divulgar seus conhecimentos e expressar suas opiniões.
RODANDO POR AÍ Investimento
O Presidente Institucional da Mahindra Américas, Dilip Sundaram, participou do Brasil Investment Forum, maior evento de atração de investimentos na América Latina, realizado em São Paulo. O executivo foi um dos painelistas, e chamou a atenção para a inconstância de recursos para financiamento nos programas Pronaf e Moderfrota, o que causou queda de mais de 20% nos resultados da indústria de tratores nos nove primeiros meses de 2019, além da exigência de 50% de índice de nacionalização de máquinas agrícolas para acesso aos financiamentos via BNDES. “Entendemos a necessidade de ter uma indústria forte no Brasil, mas alguma flexibilização nos custos de importação de tecnologias e componentes poderia ser avaliada, de forma a não onerar o custo final para o produtor rural brasileiro”, explicou.
Telemetria
Atenta às tendências de adoção de diferentes tecnologias pelo seu cliente, a concessionária LS Tractor, Terra Café, com atuação no Sul de Minas Gerais, investiu na estruturação de uma Unidade de Controle de Telemetria, dentro da própria loja. O objetivo é de prestar um serviço de acompanhamento a distância, de tudo o que o equipamento está fazendo no seu período de trabalho. “Podemos ver quanto está gastando de combustível, orientar o operador caso esteja usando o equipamento de forma errada, ver se ele está trabalhando na rotação certa, quais as condições do trator, e ir reportando ao administrador da fazenda para que tome as decisões necessárias em cada situação”, afirmou o gerente-geral da concessionária, Flávio Scalioni. Atualmente já são cerca de 300 tratores monitorados pela unidade.
Gestão Estratética
A AGCO participou no final de outubro do IV Congresso Internacional de Gestão Estratégica, promovido pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI), em Santo Ângelo (RS). Werner Santos, vice-presidente de Marketing e Vendas da AGCO América do Sul, palestrou sobre “Perspectivas para o futuro da indústria 4.0”. “Debates são importantes para discutirmos soluções inovadoras como foco no aumento da produtividade em todos os setores da sociedade. É uma honra para a empresa poder dialogar com pessoas tão especializadas e estar no meio acadêmico, novamente, sempre agregando novas ideias”, afirma Werner.
Drones
A partir de outubro, a Arpac, startup prestadora de serviços especializada em pulverização por meio de drones, iniciou operações em Porto Alegre (RS). Após rodada de investimentos, a startup captou R$ 1,3 milhão - com o aporte, inicia o plano de expansão no País. Além de Porto Alegre (RS), Piracicaba e Jaú (SP), Jataí (GO) e Sorriso (MT) estão na rota de expansão da empresa. “A pulverização com drones é uma nova maneira de aplicar insumos e já está trazendo resultado ao produtor rural”, afirmou o fundador da Arpac, Eduardo Goerl, que prevê atender mais de 200 mil hectares em serviços, para a próxima safra. A startup espera faturar mais de R$ 1 milhão até 2020.
04
Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
Expansão
No ínicio de outubro, a Mahindra inaugurou a concessionária autorizada Vetrasa em Goiânia, Goiás. O evento reuniu autoridades e entidades ligadas ao agronegócio, parceiros, profissionais da imprensa e produtores rurais da região. Segundo o sócio-proprietário da Vetrasa, Moacir Alves de Meneses, este é um momento especial para a empresa. “Estamos expandindo negócios, aumentando os desafios e temos a certeza que vamos colher belos resultados com a parceria Mahindra-Vetrasa”, comentou. Para a Mahindra, a parceria com a nova unidade Vetrasa é uma oportunidade de atender os produtores rurais da região do Planalto Central.
Premiação
Pesquisa sobre qualidade e segurança de aplicações aéreas fica em 1º lugar em premiação durante o IX Simpósio Internacional de Tecnologia de Aplicação (Sintag). O projeto, da AgroEfetiva no Brasil, aponta ações para melhorar a qualidade, o rendimento e a uniformidade das aplicações aéreas para trazer mais sustentabilidade na aplicação dos defensivos agrícolas. No dia 10 de setembro, em Campo Grande (MS), durante o Simpósio, os pesquisadores Fernando Kassis Carvalho, Rodolfo Glauber Chechetto, Alisson A. B. Mota e Ulisses R. Antuniassi receberam a primeira colocação no V Prêmio Boas Práticas Agrícolas de Tecnologia de Aplicação, fomentado pela Corteva Agriscience. O concurso contou com mais de 110 artigos inscritos.
Sul do Brasil
A Case IH reforçou sua presença no Sul do Brasil com a inauguração de quatro novas concessionárias. Duas das novas lojas estão localizadas no Rio Grande do Sul, nos municípios de Cachoeira do Sul e Carazinho, e as demais estão em Santa Catarina, em Mafra e Araranguá. “A região Sul é uma das principais produtoras agrícolas do País. Por isso, a Case IH expande sua presença na região, levando soluções para todas as etapas e culturas, desde o plantio até a colheita”, afirmou o responsável pelo Desenvolvimento de Rede da Case IH, Diogo Melnick. Além do portfólio completo de máquinas, a Case IH conta com o pacote de Soluções Avançadas que inclui um ano de garantia para as peças genuínas adquiridas e instaladas nos concessionários, disponibilidade de peças da linha Nexpro, linha de Embreagens Reman, suporte avançado Max Case IH, entre outros.
Tratores
A New Holland Agriculture entregou 20 tratores do modelo TL75E cabinado para o Governo do Estado de São Paulo. Os tratores serão usados no programa Patrulha Agrícola, que atende pequenos produtores rurais na prestação de serviços. O TL75E pode ser utilizado nas mais diversas atividades no campo: agricultura familiar, em pequenas ou médias propriedades, pecuária, olericultura, produção de milho e soja, frutas e cana-de-açúcar. “A New Holland é referência no atendimento ao pequeno e médio agricultor, e o nosso portfólio completo oferece a tecnologia ideal para facilitar o trabalho nas lavouras”, disse o gerente de Marketing Brasil da New Holland Agriculture, Juliano Mendonça.
Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
05
NOTÍCIAS AGRÍCOLAS
Fendt inaugura divisão brasileira em Sorriso (MT)
Anunciada em maio, durante a Agrishow 2019, a Divisão Fendt no Brasil foi inaugurada em setembro, em Sorriso, no Mato Grosso. Estiveram presentes na inauguração o prefeito de Sorriso, Ari Lafin, o COO global da AGCO, Eric Hansotia, o vice-presidente da AGCO para as Américas, Robert Crain, e o presidente da AGCO América do Sul, Luis Felli, além de outros diretores da companhia e autoridades da região. A nova estrutura está preparada para receber todos os clientes da região com serviços como manutenção e venda de produtos. A partir de Sorriso, a Fendt iniciará a expansão para todo o território nacional, por meio de concessionárias, que focarão em vendas, atendimento e disponibilidade de peças. “A agricultura profissio06
Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
nal tem demandado máquinas cada vez mais tecnológicas e por isso é fundamental oferecer um suporte excepcional aos produtores rurais. Fornecer um serviço do mais alto padrão é marca da Fendt, e isso está traduzido neste nosso centro de operações e serviços”, afirmou o diretor Fendt para a América do Sul, José Galli. Vale ressaltar que a divisão não será responsável pela fabricação dos produtos presentes no mercado brasileiro. A série de tratores Fendt 1000 Vario é importada da Alemanha, enquanto a colheitadeira Fendt Ideal e a plantadeira dobrável com fertilizante em linha Fendt Momentum estão sendo produzidas, respectivamente, nas plantas de Santa Rosa e de Ibirubá, ambas no Rio Grande do Sul.
Causa nobre A Valtra esteve presente no 4º Congresso Nacional das Mulheres no Agronegócio, que ocorreu em outubro, em São Paulo. Em apoio ao movimento do “Outubro Rosa”, que coloca em foco a prevenção do câncer de mama, a marca pintou um dos seus tratores de rosa: o TCVT 250. O modelo é o primeiro do Brasil com câmbio CVT e as participantes puderam tirar fotos no trator pintado especialmente para o congresso. No estande da empresa também foi possível ter conhecimento sobre os sintomas e sinais, dicas de prevenção, hábitos saudáveis e formas de combater a doença. Além dessas ações, durante o evento as congressistas que doavam R$ 50,00 em apoio à causa, podiam participar de sorteios com itens da Valtra Store como presente. A iniciativa teve apoio da Femama – Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde de Mama.
Fusões e aquisições de concessionárias são tendência no setor de máquinas
Massey no CNMA A Massey Ferguson marcou presença na 4ª edição do Congresso Nacional das Mulheres do Agronegócio, em São Paulo, por meio de ações em prol da ONG Hospitalhaços, especializada na humanização do ambiente hospitalar, e do Grupo Primavera, que atende crianças e jovens com programas educacionais e profissionais. Quem passou pelo estande da marca no congresso teve a oportunidade de participar de iniciativas interativas. Com apoio do Grupo Primavera, as participantes que captavam os batimentos cardíacos através de um aplicativo, descobriam quais palavras as descreviam; depois era só escolher uma delas e imprimir em uma ecobag personalizada, exclusiva da Massey Ferguson. Além disso, foi possível participar da cabine de fotos 360° e experimentar cafés especiais em copos personalizados. Para as mulheres que desejassem realizar doações a partir de R$ 50,00 em apoio às ONGs, participavam de sorteios com brindes do catálogo da grife da marca, com roupas e calçados, chapéus, chaveiros e miniaturas de máquinas.
O mercado de revendas de máquinas e implementos agrícolas começa a ganhar novos contornos, com a forte tendência de concessionárias de maior porte e faturamento, investindo na compra estratégica de concessionárias menores, que atinjam áreas produtoras mais específicas. A StoneCapital Investimentos, especialista em fusões e aquisições, já participou de duas operações envolvendo concessionárias John Deere, no Rio Grande do Sul, e vem acompanhando de perto este movimento crescente e que seguirá presente no ano que vem. Conforme Fernando Magalhães, sócio da StoneCapital, 2019 está sendo marcado por negociações que devem ser anunciadas até o final do ano
ou já no início de 2020. Iniciadas no Rio Grande do Sul, as aquisições devem se estender para Santa Catarina e Paraná, envolvendo inclusive outras bandeiras. O mesmo processo de consolidação já é percebido em outras regiões de diferentes vocações agrícolas do País. Magalhães observa que a intenção das montadoras, ao apoiarem os movimentos de consolidação das concessionárias, é fortalecer o canal de vendas, viabilizando maior fôlego financeiro, além de aprimorar atendimento a clientes e facilitar o relacionamento com a fábrica. O realinhamento também está relacionado à necessidade de melhora de performance do setor e ao incremento de serviços de pós-venda das montadoras.
Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
07
Recorde mundial A dupla formada pelo trator John Deere 6250R e o Enleirador GA 15131 da Kuhn quebrou o recorde mundial, enleirando uma área de feno de 188,9 hectares em oito horas de trabalho ininterrupto. O desafio, validado pelo Centro de Testes da Sociedade Agrícola Alemã (DLG), aconteceu no final de agosto em uma fazenda de gado leiteiro na região montanhosa da Jutlândia Central, na Dinamarca, com o proprietário da fazenda, Mikael Skeldal, no banco do operador. O trator JD 6250R estava equipado com piloto automático Auto Trac, console Gen4 CommandCenter e Joystick CommandPR e tracionou o enleirador Kuhn GA 15131, de quatro rotores, que alcança uma largura de trabalho de 14,7 metros. O conjunto atingiu a velocidade máxima de trabalho de 22km/h e obteve um rendimento médio de 23,6 hectares/hora, com rendimento máximo durante o trabalho de 32 hectares/hora.
Leia o QR Code com seu smartphone e assista o vídeo
08
Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
LS Tractor assina convênio com a Cooxupé A fabricante de tratores LS Tractor e a Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé (MG), a Cooxupé, firmaram um convênio para fornecimento de máquinas agrícolas, com o objetivo de oferecer toda a linha de tratores da marca aos mais de 15 mil cooperados. Conforme afirmou o gerente comercial da Cooperativa, José Geraldo Junqueira, a Cooxupé oferta uma linha de produtos diversificados em suas lojas, permitindo a aquisição destes produtos a preços diferenciados. Para o vice-presidente da LS Mtron Brasil, detentora da marca LS Tractor, André Rorato, ter a Cooxupé como parceira tem um significado além da questão comercial. “A cooperativa é muito criteriosa na escolha dos seus fornecedores e se nós, da LS Tractor, fomos escolhidos por eles, podemos dizer que ganhamos um aval
importantíssimo para os nossos produtos”, ressaltou Rorato. “Os cooperados terão possibilidade de adquirir uma tecnologia diferenciada nos tratores via linhas de financiamento como o banco de fábrica LS Finance, o Consórcio LS Tractor, as linhas do BNDES e um modelo já consagrado pela cooperativa que é a troca de produto por café, o barter”, lembrou Rorato. Conforme o vice-presidente, o convênio só foi possível porque houve uma negociação que possibilitou a participação das concessionárias da região no atendimento da demanda - elas que farão treinamento, entrega técnica e todo o suporte de pós-venda ao cliente que vem indicado pela Cooxupé. “Desta forma nós damos mais consistência ao negócio entre o processo de venda, entrega e atendimento posterior”, assegurou o executivo.
Deere adquire empresa fornecedora de peças para colhedoras de cana A Deere & Company assinou um contrato para adquirir a Unimil, uma empresa brasileira de capital fechado do ramo de peças de serviço pós-venda para colhedoras de cana-de-açúcar. “A decisão de adquirir essa empresa enfatiza nosso compromisso com os clientes”, declarou o presidente da Divisão Mundial de Agricultura e Turf da Deere nas Américas, Cory Reed. “A Unimil conquistou a confiança dos clientes no setor de peças de equipamentos que lidam com cana-de-açúcar ao oferecer excelentes serviços e produtos”, finalizou. A Unimil, localizada em Piracicaba, São Paulo, foi fundada em 1999 e tem aproximadamente 430 funcionários. Reed diz que a aquisição da Unimil ilustra o compromisso da John Deere com o
Vendas de máquinas
setor de cana-de-açúcar no Brasil e com a realização de investimentos que ajudem os clientes a reduzir os custos de produção. A Unimil manterá seu atual nome da marca. A Deere também planeja continuar utilizando o atual modelo de negócio direto com o cliente para as vendas de produtos da Unimil, ao mesmo tempo em que oferece aos A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) divulgou novas projeções para o fechamento do ano, com expectativa de queda na produção e nas vendas de máquinas agrícolas em relação ao mesmo período do ano passado. O único aumento registrado foi no comparativo com o mês de agosto, em que as vendas internas de máquinas agrícolas registraram crescimento de 11,4%, passando de 4.200 unidades vendidas, para 4.700. Apesar desse aumento em vendas internas, a exportação registrou queda de 20% no mesmo comparativo.
concessionários uma oportunidade de fornecer serviços e suporte adicionais aos clientes do setor de cana-de-açúcar. Os detalhes financeiros do acordo não serão divulgados ao público. A Deere informou que a transação exige uma análise regulatória do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Na comparação com setembro de 2018, o mercado interno de máquinas agrícolas teve uma queda de 5,2%. Já o estudo de janeiro, até setembro, marcou 5,7% de queda. A produção apresentou a mesma tendência, com diminuições de mais de 10% em todos os comparativos. Apesar da diminuição no mercado de máquinas agrícolas, de acordo com o levantamento da equipe econômica da entidade, as vendas internas gerais de automóveis deverão fechar o ano com 2,8 milhões de unidades vendidas, um crescimento de 9,1% sobre 2018.
Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
09
Lucas Rios do Amaral
DRONES
Coletar, interpretar e agir Os drones são sinônimos de tecnologia e precisão, mas a sua aplicação só gera resultados se os procedimentos de interpretação e avaliação de dados coletados forem feitos de forma adequada e aplicadas as soluções que cada caso exige
10
Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
O
s drones, também chamados de Vants (veículos aéreos não tripulados), estão presentes sempre que falamos do futuro. Mas em que ponto de fato estamos com essa ferramenta no agronegócio? Algumas aplicações já são praticadas e tantas outras estão em estudo em lavouras do mundo inteiro. O uso de imagens coletadas por meio de drones é, tecnicamente, denominado como sensoriamento remoto. É um campo desafiador para o uso da ferramenta no agronegócio em condições de mostrar resultados imediatos para o agricultor ou pecuarista. Há muito já se dizia que o olho do dono é que engorda o gado e não é menos verdadeiro para o agricultor, que sabe que sem monitoramento de sua lavoura, dificilmente alcançará a melhor produtividade. Valendo-se dessa verdade popular, a grande maioria das aplicações atuais de drones é baseada na aerofotogrametria, ou seja, no uso de imagens aéreas para coleta de dados qualitativos e quantitativos da lavoura. Do alto e em tempo quase real, pode-se medir talhões, planejar linhas de plantio, contar a população de plantas, inspecionar a lavoura etc. Até técnicos de futebol já perceberam que a visão de um plano mais alto facilita a gestão. Existem inúmeras possibilidades de utilização agrícola das imagens obtidas por drones e podemos voltar o monitoramento com drones para três alvos principais: terreno, solo e vegetação. Existem ainda muitas outras aplicações abrangendo áreas como pecuária (exemplo: contagem de animais, demarcação de piquetes), ambiental (exemplo: demarcação de áreas de proteção, monitoramento de barragens, mensuração de danos ambientais), entre outras. O uso de drones tem se popularizado nos últimos anos e rapidamente alcançará um estágio em que sistemas automatizados fornecerão resultados finais para a análise do produtor. Mas até que esse dia chegue, a observação de certos procedimentos auxilia o correto uso desta ferramenta. Alguns procedimentos mínimos são fundamentais para utiliza-
ção de drones, conforme é possível ver na Figura 2. A melhor decisão produzida a partir de um monitoramento somente ocorrerá quando aplicarmos fielmente um bom passo a passo, com especial atenção à escolha da câmera.
APLICAÇÕES
Existe muito interesse sobre o monitoramento de pragas, doenças e plantas daninhas com o uso de sensores embarcados em drones, principalmente porque exige resolução de imagem dificilmente alcançada por outros tipos de plataformas, como as imagens de satélite. A despeito de várias dificuldades ainda existentes, de fato há grande potencial de uso dessa tecnologia. A maior parte das soluções utiliza o método de análise das faixas do espectro da luz, por meio de medidas diretas ou indiretas, para avaliar aspectos biofísicos da vegetação. Doenças e deficiências nutricionais podem ser detectadas indiretamente através de sensores (câmeras) que captam mudança fisiológica da planta antes que os sintomas se tornem visíveis ao olho humano. Mapeamento da ocorrência de plantas daninhas na área, e especialmente a diferenciação das espécies, é uma tarefa complexa, especialmente se as plan-
tas são similares e ocorrem no mesmo estádio de desenvolvimento das culturas de interesse econômico, mas sendo bastante estudada mundo a fora. Contudo, quando o objetivo é a dessecação de plantas daninhas na entre linha da cultura, a tarefa é facilitada antes do fechamento da cultura, pois a identificação direta da presença de qualquer tipo de planta nas entre linhas remete a uma classificação de planta invasora. Contudo, todas essas utilidades proporcionadas pelos drones nada mais são do que o aumento do nosso campo de visão. A propósito, é preciso dizer que o drone é apenas o veículo para essas tarefas, já que os dados são coletados por sensores, tais como as câmeras fotográficas comuns (RGB), câmeras multiespectrais, termais e hiperespectrais, as quais captam informações espectrais além da capacidade do olho humano de enxergar, assim como também pode transportar sensores a laser, ultrassom, radar, entre outros.
FAIXAS ESPECTRAIS
Em agricultura, frequentemente os alvos do sensoriamento remoto são as plantas, o solo ou a água. A forma com que cada alvo interage com as diferen-
Figura 1 - Aplicações de imagens geradas por drones. Fonte: Autores
Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
11
Figura 2
tes faixas espectrais permite inferências sobre eles. Assim, estudos científicos utilizam em sua maior parte respostas das faixas espectrais do visível e do infravermelho (próximo e médio) refletido, de forma individual ou combinada (índices de vegetação), para elucidar condições encontradas no campo. Para a maioria das aplicações prevalece o uso de câmeras que trabalham com a refletância da luz em determinadas faixas espectrais. Nesse caso, as informações são registradas em faixas específicas da radiação eletromagnética que é, em sua maior parte, fornecida pelo sol. A sigla RGB é o acrônimo em inglês das palavras vermelho (red), verde (green) e azul (blue), o que indica as faixas de luz ou tecnicamente ondas eletromagnéticas, perceptíveis ao olho humano. Estas três faixas geram toda a infinidade de composição de cores que percebemos diretamente com nossos olhos. Por isso, dizemos que sensores RGB trabalham com a faixa do visível. Porém, note pela Figura 3 quão pequena é a faixa de luz que nossos olhos enxergam em comparação aos outros tipos de energia eletromagnética emitida pelo sol que nossos olhos não conseguem detectar sem o auxílio de instrumentos.
12
Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
A ciência já ratificou o comportamento esperado para as plantas na faixa espectral do visível, do infravermelho próximo e do infravermelho médio. Na região do visível sabemos que as plantas absorvem a maior parte da radiação recebida, porém absorvendo mais na faixa do vermelho e do azul e refletindo mais a faixa do verde; esta é a razão pela qual enxergamos as plantas na cor verde. A absorção nas faixas azul e vermelha está diretamente ligada à fotossíntese, através da absorção pela clorofila. É através da fotossíntese que a planta se desenvolve, transformando elementos mais simples como água, gás carbônico, sais minerais e a energia que vem do sol, em compostos para seu crescimento. Logo, a resposta capturada por um sensor na faixa do visível pode nos dar uma ideia do desenvolvimento e da sanidade da vegetação. O infravermelho próximo é uma faixa que tem relação bastante íntima com a estrutura física das plantas. A constituição celular vegetal faz com que a energia na faixa do infravermelho próximo seja em sua maior parte refletida. Isto se faz necessário devido a uma medida natural de proteção dos vegetais contra o aumento excessivo da temperatura. Quan-
to mais desenvolvidas estiverem as plantas, maior intensidade de reflexão do infravermelho próximo é esperada. Já a absorção da energia na faixa do infravermelho médio está associada ao conteúdo de água nas plantas, sendo que quanto mais água nas folhas, mais energia é absorvida e, por consequência, menor a refletância nessa região espectral, indicando situações de estresse hídrico ou turgidez das folhas. Mas como essas respostas captadas pelo sensoriamento remoto poderiam nos ajudar na agricultura? O verde percebido por nossos olhos não permite diferenciar pequenas alterações na plantação, mas com o uso de um sensor adequado, outras faixas podem auxiliar a detectar mínimas mudanças no comportamento da lavoura. A combinação de faixas aprofunda a leitura que fazemos em uma imagem. Se pretendemos monitorar a lavoura, temos que associar as respostas da reflexão emitida pela vegetação com parâmetros de interesse, ou seja, com o que estamos preocupados ou interessados em monitorar. Na Figura 4, o índice de vegetação calculado a partir de duas faixas espectrais mostra, pela variação de tonalidade verde da imagem, a diferença de vigor entre as plantas que a imagem RGB não permitiu.
ÍNDICES DE VEGETAÇÃO
Muitos estudos científicos são realizados para estabelecer relação entre faixas espectrais e parâmetros biofísicos da vegetação. Parâmetros como altura, volume de copa, estimativas de produtividade, entre outros, fazem parte da necessidade de informação do agricultor. Para tais necessidades foram desenvolvidos indicadores chamados de índices de vegetação. Eles nada mais são do que a resposta combinada de diferentes faixas espectrais, buscando uma melhor compreensão do estado da vegetação ao destacar o parâmetro de interesse do analista. Talvez o mais conhecido deles seja o NDVI (Normalized Differentiated Vegetation Index), o qual faz uma combinação entre as faixas do infravermelho próximo e do vermelho. Este índice de vegetação tem sido amplamente utilizado, pois fornece informação sobre o
Figura 3 - Espectro eletromagnético. Fonte: Autores
desenvolvimento e o acúmulo de biomassa das culturas, o que, em última análise, tem relação com o vigor das plantas. A maior parte do monitoramento mundial de produção de alimentos, o que inclui o Glam (Global Agricultural Monitoring), realizado pelo Departamento de agricultura americano (USDA), utiliza o índice NDVI para monitorar as condições de lavouras ao redor
do mundo, de forma a antever eventuais quebras de safra e riscos associados à segurança alimentar. Muitos outros índices são utilizados para estudo da vegetação e sua razão de escolha está normalmente relacionada ao propósito da observação. Você já imaginou como seria útil poder estimar a produtividade de um piquete de pastagem para poder planejar com me-
Fotos Lucas Rios do Amaral
lhor exatidão o número de animais que seriam alocados? Ou como uma usina de cana-de-açúcar poderia saber antecipadamente o quanto de matéria-prima seria colhida em uma área? O sensoriamento remoto pode potencialmente auxiliar nesse sentido, substituindo coleta de amostras no campo que demandariam levantamentos exaustivos e custosos. Utilizamos o termo “potencialmente” porque ainda temos inúmeras variáveis que precisam ser ajustadas em modelos de estimativa para afirmarmos categoricamente que sempre obteremos alta exatidão. Estimativas confiáveis de biomassa por meio de modelos matemáticos que utilizam dados de sensoriamento remoto ainda não são triviais. Influências como tipo de cultura agrícola, horário de aquisição das imagens, orientação das linhas de cultivos, detalhamento espacial das imagens, precisão dos sensores, dentre muitos outros, são fontes de inconsistência nos resultados. Um grande desafio está em utilizar os melhores indicadores de sensoriamento remoto para uma relação mais assertiva
14
Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
com o que queremos elucidar no campo. Por essa razão, ainda não se pode dispensar as inspeções em campo, tanto utilizando-se de imagens orbitais, aéreas ou mesmo coletadas por drones.
DESAFIOS
Mas então qual o benefício do uso do drone? Ele permite um acompanhamento mais frequente e detalhado da lavoura, apresentando alta flexibilidade quanto ao momento de coleta das imagens e
da seleção do melhor sensor para a finalidade desejada. Além disso, permite cobrir áreas extensas de forma mais eficiente do que se fosse feito unicamente com a visita em campo. Ao longo de uma série de avaliações com o drone é possível identificar anomalias no desenvolvimento da cultura que, uma vez identificadas, o trabalho de ida a campo se torna mais eficiente, dirigindo-se diretamente para o foco do problema. Porém, ao mesmo tempo, também precisamos destacar os principais desafios, que são baixa autonomia de voo (principalmente dos multirrotores) e demanda computacional para processamento das imagens obtidas. Quanto mais avançarmos nas pesquisas, melhor será nossa assertividade nas atividades agrícolas passíveis de utilização de drones. O maior conhecimento auxiliará no desenvolvimento seguro da tecnologia na qual todos nós depositamos alguma expectativa. Sem dúvidas, o avanço nessa área tornará esse processo prático, rápido e amigável, permitindo maior acesso aos produtores e pres.M tadores de serviço interessados. Lucas Rios do Amaral e Gleyce Figueiredo, Feagri - Unicamp Rafael Pereira, Ifal Isabela Simões e Rodrigo Greggio de Freitas, Feagri-Unicamp
Figura 4 - Pastagem: - à esquerda, imagem de coloração natural (RGB) de uma área de pastagem; - à direita, índice de vegetação, indicando a variação do vigor e falhas do pasto que tem sua visualização dificultada na imagem de coloração natural. Fonte: autores
TRATORES
Reforço dianteiro Avaliação em campo mostra o desempenho de trator agrícola 4x2 TDA atuando com três diferentes tipos de pneus dianteiros
C
om a crescente utilização da mecanização na agricultura, busca-se cada vez mais a melhoria na eficiência das operações. Um dos insumos que representam maior custo durante todo o ciclo da lavoura é o óleo diesel, e por isso procura-se adequar os conjuntos motomecanizados para alcançar maiores níveis de eficiência energética, levando assim ao menor consumo
16
Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
de combustível por área trabalhada. Outro fator que vem ganhando importância dentro do ambiente agrícola é o modelo do pneu utilizado, sendo os diagonais os mais tradicionais neste meio, que têm um menor custo, contudo causam maior dano ao solo quando se tratando de compactação. Esse modelo vem aos poucos sendo substituído pelos radiais, que possuem maior área
Fotos Charles Echer
de contato, causando menores danos ao solo e proporcionando maior capacidade de tração em relação ao diagonal. Apesar de uma preocupação crescente com a questão de preservação do solo, ainda existe uma certa resistência na adesão ao modelo radial de pneus, devido ao preço mais elevado. As máquinas e os tratores agrícolas também estão sendo aperfeiçoados, porém vale lembrar que é preciso fazer a utilização correta das tecnologias já conhecidas, um exemplo claro disso é a tração dianteira auxiliar (4x2 TDA). Com a tração dianteira acionada o trator ganha a capacidade de tração no eixo dianteiro, podendo sobrepor alguns obstáculos, aumentando sua aderência ao solo. Dessa maneira, é necessária maior preocupação com a qualidade e as características do rodado dianteiro do trator, justificando estudos e pesquisas acerca desse assunto.
TESTE EM CAMPO
Com o objetivo de avaliar a influência da largura da banda de rodagem do pneu radial dianteiro no desempenho da barra de tração de um trator 4x2 TDA, pesquisadores da
Universidade Federal do Paraná realizaram experimento em campo, em que mensuraram velocidade, potência e rendimento na barra de tração, além do consumo horário de combustível sob três diferentes forças na barra de tração. O experimento ocorreu na Fazenda Experimental Canguiri, pertencente à Universidade Federal do Paraná, no município de Pinhais, aliado à estrutura física e de recursos humanos do Laboratório de Adequação de Tratores Agrícolas. Foi utilizado trator New Holland T7 260 de potência nominal 234cv, 4x2 com Tração Dianteira Auxiliar (que permaneceu ligada durante todo o estudo), transmissão Full PowerShift com 18 marchas à frente e seis à ré. A primeira configuração de pneus foi de Firestone 520/85R42 duplados na traseira (pressões de 18 PSI e 14 PSI, nos pneus interno e externo, respectivamente) e dianteiro Firestone 420/90R30 com pressão de 24 PSI, que promoveu uma antecipação de 2,5%. Para a segunda configuração, mantiveram-se os pneus traseiros (com a mesma pressão de insuflagem) e substituiu-se o pneu dianteiro pelo Trelleborg 600/65R28, com
Tabela 1 - Síntese dos valores de análise de variância e do teste de médias para as variáveis Velocidade Operacional (VO), Potência na Barra de Tração (PBT), Rendimento na Barra de tração (RBT), Consumo Horário de Combustível (CHC) e Consumo Específico de Combustível (CEC) Pneu Dianteiro (PD) 420/90R30 600/65R28 Carga (C) 2.000 kgf 4.500 kgf 6.000 kgf P C PD * C CV (%)
VO (m.s-1) PBT (kW) 2,02 B 2,10 A 2,24 A 2,09 B 1,84 C 51,92 ** 507,52** 70,79** 1,24
90,02 A 82,6 B
RBT (%)
RBT (%)
52,5 A 49,5 B
52,5 A 49,5 B
27,87 C 27,87 C 46,34 C 58,25 B 58,25 B 96,74 B 66,87 A 66,87 A 115,83 A 130,66 ** 44,182 ** 44,182 ** 4074,25 ** 2746,94 ** 2746,94 ** 65,14** 65,14** 186,57 ** 2,17 2,17 1,94
NS: não significativo (P>0,05); *: significativo (P<0,05); **: significativo (P<0,01); C.V.: coeficiente de variação.
Rodado dianteiro com configuração adequada eleva o rendimento do trator
Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
17
Charles Echer
pressão de 12 PSI, que gerou uma antecipação de 2%. Em ambas as configurações, não foi adicionado lastro líquido ao trator, apenas o lastro sólido de 22 maletas de 45kg na dianteira e oito anéis de 227kg na traseira, promovendo ao trator uma massa total de 11.400kg distribuídos 60% no eixo traseiro e 40% no eixo dianteiro. Adotou-se a marcha de trabalho número 10, com rotação no motor de 2.200rpm, que segundo o manual do operador, gera 8,9km/h. Foram simuladas três cargas na barra de tração (2.000kgf, 4.500kgf e 6.000kgf), monitoradas através de célula de carga, e obtidas através de frenagens controladas pelo do método de comboio com trator de 340cv atrelado por cabo de aço à barra de tração. O trator teste foi instrumentado com sensores que forneceram dados sobre a velocidade real de deslocamento, a força na barra de tração e o consumo horário de combustível. Em posse destes dados, podem ser
18
Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
calculados a potência e o rendimento na barra de tração para avaliação da eficiência energética operacional do conjunto. O delineamento adotado para o experimento foi em faixas, em arranjo fatorial duplo 2x3 (com dois diferentes pneus na dianteira e três cargas na barra de tração) e quatro repetições, totalizando 24 unidades experimentais. Após a coleta, os dados foram submetidos à Anova, e quando significativos realizou-se o teste de médias “t-Student” considerando os níveis de 1% e 5% de significância. Na Tabela 1 observa-se que os modelos de pneu avaliados diferiram estatisticamente para as variáveis velocidade operacional, potência, rendimento na barra de tração e consumo horário de combustível. O uso do pneu 600/65R28 promoveu maior velocidade operacional, ao custo de maior consumo horário de combustível. Como era de se esperar, o aumento da força na barra de tração ge-
rou redução na velocidade operacional e aumento em potência e rendimento na barra de tração, todavia a carga intermediária apresentou menor gasto de combustível em relação à carga de 6.000kgf. Alguns estudos já realizados demonstraram que a largura da banda de rodagem dos pneus reduz a patinagem do conjunto mecânico, podendo desenvolver maior velocidade. Essa relação pode ser observada na Tabela 2, onde na maior carga estudada, o pneu do tipo 600/65R28 conseguiu promover maior velocidade de deslocamento, o que irá influenciar diretamente na potência na barra de tração. Já na menor carga tracionada não se observaram diferenças nas velocidades, mas sim entre as potências na barra, devido a variações na força na barra de tração. Nas duas menores cargas pode-se perceber que o rendimento de tração foi superior, fazendo o uso do pneu 420/90R30. Já na carga de 6.000kgf
o pneu de maior banda de rodagem se saiu melhor. Esta relação é esperada, pois a uma maior área de contato tem-se uma maior capacidade de tração do conjunto devido à menor patinagem e, portanto, maior facilidade em manter a velocidade alvo da operação. Quando se trata no consumo horário de combustível, não houve diferença entre os pneus na menor carga estudada, contudo nas duas maiores ficou evidente que a maior área de contato obtida com o pneu 600/65R28, aliada à maior capacidade de tração do equipamento, demandou mais combustível. Com o experimento pôde-se concluir que o pneu 420/90R30 no eixo dianteiro apresentou melhor desempenho em potência e rendimento na barra de tração, quando foram submetidos 4.500kg na barra de tração, sendo que nesta carga houve
Tabela 2 - Interação nos parâmetros Velocidade Operacional (VO), Potência na Barra de Tração (PBT), Rendimento na Barra de tração (RBT), Consumo Horário de Combustível (CHC) e Consumo Específico de Combustível (CEC) 420/90R30 600/65R28
2.000 kgf 2,23 Aa 2,25 Aa
420/90R30 600/65R28
2.000 kgf 28,5 Ac 27,3 Ac
VO (m.s-1) 4.500 kgf 2,12 Ab 2,08 Ab RBT (%) 4.500 kgf 63,3 Ab 53,3 Bb
PBT (kW) 6.000 kgf 2.000 kgf 4.500 kgf 6.000 kgf 1,72 Bc 48,50 Ac 108,79 Ab 112,76 Ba 1,97 Ac 44,19 Bc 84,69 Bb 118,91 Aa CHC (L.h-1) 6.000 kgf 2.000 kgf 4.500 kgf 6.000 kgf 65,8 Ba 23,0 Ab 36,9 Ba 35,3 Ba 68,0 Aa 24,0 Ac 42,3 Aa 45,9 Ab
Médias seguidas de mesma letra maiúscula na coluna e minúsculas na linha, não diferem, entre si, pelo teste t a 5% de probabilidade
menor consumo horário. Já o pneu 600/65R28 no eixo dianteiro proporcionou maiores velocidade, potência e rendimento na barra de tração na carga de 6.000kg na barra, porém apresentou maior consumo horário de combustível. Portanto, existe uma necessidade de averiguar as operações realizadas pelo conjunto mecânico e a possível carga na bar-
ra de tração para que possa ser feita a escolha apropriada de um pneu e .M sua adequação no conjunto. Eduardo Alves Gracietti, Leonardo Leonidas Kmiecik e Samir Paulo Jasper, UFPR Guilherme Luiz Parize, New Holland Agriculture
CAPA
www.aerofotos.com.br
Hydac inicia operações de sua fábrica de filtros no Brasil Com investimento de R$ 60 milhões apenas na primeira fase, a nova unidade em Indaiatuba (SP) deve ajudar a empresa a triplicar o seu faturamento no País em dois anos
I
magine que uma equipe de técnicos e engenheiros especialistas vai até a sua empresa, analisa suas máquinas sem tirá-las do local e desenvolve um filtro específico para atender as suas necessidades, ajudando-o a aumentar a rentabilidade e a vida útil dos seus equipamentos. Com a sua nova fábrica de filtros hi-
20
Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
dráulicos, em Indaiatuba (SP), é isso que a Hydac será capaz de oferecer: mais do que produzir no Brasil os filtros que são líderes globais de mercado, a empresa alemã pode agora prestar um serviço ainda mais personalizado aos seus clientes. Com capacidade anual de produção de 500 mil elementos filtrantes por tur-
no, a nova fábrica entrou em operação em setembro e trouxe para o Brasil a versão mais moderna do maquinário desenvolvido pela matriz, na Alemanha. São equipamentos com PLC programável em português, controle de velocidade por servo motores e conexão com a internet para monitoramento remoto.
Para operar essas máquinas modernas, uma equipe de sete pessoas foi treinada na Alemanha. “O treinamento na matriz é parte da cultura da empresa, que investe nos funcionários para replicar a excelência adquirida ao longo de mais de 50 anos”, afirma Jody Haibara, gerente de Produção. “O investimento é alto, mas o resultado é um produto padrão em qualquer lugar do mundo - mesmas máquinas, mesma filosofia e mesma qualidade.” A implantação da nova fábrica será realizada em duas fases. A primeira delas teve investimento de R$ 60 milhões para a construção da planta de fabricação das unidades de filtros e elementos, em uma área com mais de 40 mil metros quadrados, sendo sete mil metros quadrados de área produtiva. Por enquanto, teve início a operação de elementos filtrantes; a partir do início do próximo ano começam a ser produzidos filtros de processo, filtros de retrolavagem, filtros de linha e sistemas de filtração. “Além dos filtros para óleo hidráulico, produzimos filtros também para óleo lubrificante, diesel, gás e água”, diz Jody. “O Brasil tem um potencial imenso, com um mercado agrícola em constante crescimento e necessidade de investir em infraestrutura. Esse cenário cria a demanda ideal para a ampliação do número de máquinas que dependem dos nossos componentes”, comenta Kurt Dannegger, diretor executivo da Hydac, sobre a decisão da empresa investir no Brasil. Atualmente, o mercado de filtros representa 40% do faturamento da Hydac no país, mas a estimativa da empresa é de que seja 20 vezes maior.
Saiba mais sobre a Hydac
F
undada em Sulzbach, na Alemanha, em 1963, a Hydac está presente em 53 países e emprega mais de nove mil pessoas em todo o mundo. A empresa presta consultoria para projetos hidráulicos, serviços de filtração e análise de fluidos, além de fornecer acessórios e equipamentos hidráulicos para os mais diversos segmentos. No Brasil, a empresa está presente desde 1997, com sede em São Bernardo do Campo (SP) e uma unidade industrial em Pomerode (SC), filiais nas regiões Sul e Sudeste e uma rede de distribuidores que cobre todo o território nacional.
A unidade de Indaiatuba não é apenas uma nova fábrica de filtros hidráulicos. Ela representa também o início de uma nova fase para a Hydac Brasil, que poderá a partir de agora desenvolver soluções customizadas para seus clientes com muito mais agilidade. “Com os equipamentos que temos na fábrica somos capazes de analisar as máquinas do nosso cliente, verificar se elas têm contaminação sólida ou líquida, checar a sua necessidade de filtragem, enfim, analisar tudo isso no campo e desenvolver um filtro específico para a sua máquina aqui no Brasil”, afirma Kurt. Para auxiliar nesse desenvolvimento, a Hydac conta com laboratório e bancadas de testes. O laboratório é munido com equipamentos de medições capazes de realizar testes em elementos filtrantes e óleos hidráulicos - permitindo uma análise mais apurada das novas tecnologias que estão sendo desenvolvidas. A bancada CTU (Contamination Test Unit) certifica o processo de limpeza dos componentes utilizados na produção. Já as bancadas de testes de fadi-
Divulgação Hydac
TESTES EM CAMPO E CUSTOMIZAÇÃO DE PRODUTOS
Diretores e colaboradores da Hydac comemoram a produção do primeiro lote de elementos na nova fábrica Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
21
ga verificam a durabilidade das carcaças e dos cabeçotes. “Esses testes eram todos feitos na Alemanha e demoravam muito tempo. Ganhamos agilidade”, comenta o diretor. Outro serviço diferenciado da nova fábrica é a calibração dos contadores de partícula. Única na América Latina, a bancada de calibração realiza a aferição dos sensores de contaminação oferecidos pela Hydac ao mercado - como CS1000, FCU2000, FCU 1310 e outros. A Hydac é a única fabricante que faz a calibração no Brasil, reduzindo o lead time de entrega dos componentes calibrados e certificados para os clientes. A calibração é requisito da norma ISO nos segmentos que necessitam de um sistema hidráulico de alta performance.
MAIOR EFICIÊNCIA E DURABILIDADE PARA MOTORES A DIESEL
Máquinas móveis e veículos comerciais estão sujeitos às mais difíceis condições de trabalho. Para garantir o bom funcionamen-
O 2025 tem motor modelo MDI 1365 de dois cilindros (acima) e sistema de filtragem de ar que fica na parte superior do motor, facilitando a entrada de ar limpo
22
Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
to dos veículos e proteger o motor contra danos, a filtragem e a remoção de umidade do diesel são fatores cruciais. O Hydac Diesel PreCare (HDP) é um sistema moderno de filtragem para o diesel, que protege a bomba e o sistema de injeção de combustível contra falhas e intervenções caras. Por meio do uso de mídias sintéticas, o HDP mantém o diesel livre de água e contaminação sólida, melhorando o desempenho do equipamento. Exemplos desse ganho de eficiência podem ser vistos no dia a dia junto aos clientes. O gerente de Produto, Gabriel Souza, lembra de dois casos - um trator e uma colhedora - que tinham problemas de produtividade. “As duas máquinas tinham curta vida útil do elemento diesel - em muitos casos, não atingiam 200 horas de operação. Além disso, precisavam de reparos constantes de bomba e bico injetor, gerando parada do equipamento e, consequentemente, perda de produção. Com a instalação do filtro diesel Hydac, o período de troca foi ampliado de 250 horas para mil horas e o cliente eliminou os custos com reparo de bomba e bico
Divulgação Hydac
injetor por causa de contaminação”, comenta. Vale lembrar que não é somente dentro da máquina que o diesel necessita ser filtrado. O aumento da porcentagem de biodiesel neste combustível traz um efeito adicional: a necessidade de adaptar os sistemas de armazenamento de diesel. Já não é suficiente armazenar o diesel imediatamente antes do uso na máquina. O combustível deve ser filtrado e desidratado a cada estágio da cadeia de transporte - da produção na refinaria até o usuário final. Para cumprir os altos requisitos de qualidade, é essencial monitorar a contaminação por partículas sólidas e teor de água. A linha de produtos Hydac inclui sistemas de armazenamento, sistema de filtragem, sistemas de desidratação, unidades de monitoramento com sensores para determinação de partículas sólidas e água, necessários para cada etapa do processo.
SOLUÇÕES EFICIENTES PARA O MERCADO AGRÍCOLA
Os comandos hidráulicos estão localizados no lado direito
A seleção de marchas fica do lado esquerdo do operador
A Hydac conta com o mais completo portfólio de sistemas de controle destinado ao mercado agrícola. Além da linha completa de filtros (sucção, pressão e retorno), a empresa coloca à disposição de seus clientes blocos hidráulicos, acumuladores e trocadores de calor. “A Hydac é a única empresa do mercado que consegue oferecer a solução completa para uma máquina, incluindo eletrônica, agricultura de precisão e hidráulica”, comenta Carlos Augusto de Souza, diretor executivo. “Isso facilita para o cliente, que pode comprar todos os componentes de um único fornecedor.” “A capacitação das equipes das áreas de Produtos torna esses componentes em sistemas cada vez mais seguros, eficientes e inteligentes. Nosso foco é gerar aos clientes ganhos operacionais, maior disponibilidade de máquina e eficiência energética por meio de soluções criativas e eficientes”, afirma Juliano Liprandi, gerente do segmento Mobil. A linha de filtros hidráulicos Hydac é líder mundial de vendas, sucesso replicado no Brasil principalmente por conta da grande capacidade de retenção em massa de partículas sólidas para tamanhos nomi-
Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
23
Redução tanque hidráulico Otimização do tanque - Plataforma de tecnologia
nais diversos, robustez estrutural e tecnologia de ponta. “Existe uma tendência de utilização de componentes hidráulicos cada vez mais compactos e, portanto, mais vulneráveis à contaminação sólida”, diz Gabriel Souza. “A tecnologia aplicada aos nossos filtros, atrelada à eficiência de remoção, garante que os componentes não sofram desgastes prematuros ocasionados por partículas extremamente pequenas, próximas a 3µm.” Outro benefício para o cliente Hydac é a simulação do seu circuito hidráulico (imagem acima), a fim de otimizar o volume do tanque: “Conseguimos, em média, reduzir o volume em 30% - chegando a 50% em alguns casos -, o que reduz o peso e, consequentemente, o consumo da máquina”, afirma Kurt Dannegger. A filosofia da Hydac é otimizar o Total Cost of Ownership (TCO) dos equipamentos de seus clientes, contribuindo para que os mesmos tenham maior vida útil com o menor custo de manutenção. “Nosso time de engenheiros realiza um estudo minucioso do sistema hidráulico da máquina por meio de software CFD. Além do dimensionamento correto do filtro, analisamos a estrutura do tanque, sugerindo modificações com o objetivo de reduzir a formação de bolhas de ar dentro do reservatório”, explica Gabriel, lembrando que essas bolhas trazem inúmeros problemas ao equipamento, como aquecimento do sistema, cavitação e envelhecimento prematuro do óleo. Em relação ao fluido lubrificante - elemento essencial para manter o sistema hidráulico funcionando perfeitamente
24 26
Outubro Setembro2019 2019• •www.revistacultivar.com.br www.revistacultivar.com.br
-, a Hydac oferece a possibilidade de análise em campo e até mesmo on-line. “Munidos de equipamentos portáteis verificamos a contaminação do óleo por partículas e água e fornecemos o resultado de imediato”, explica Reginaldo Sanches, gerente de Sistemas de Filtragem. “Já a análise on-line é feita por meio do monitoramento de sensores incorporados ao sistema hidráulico ou de lubrificação. Assim que ocorrer alguma alteração no óleo, a área de Manutenção recebe a informação e pode tomar as ações necessárias - esse é o modelo que vem sendo adotado pelas empresas que seguem o conceito de Indústria 4.0”, diz o gerente. Por fim, um ganho mais óbvio para os clientes Hydac proporcionado com as operações da nova fábrica de Indaiatuba é a agilidade no prazo de entrega, que pode ser reduzido de até 90 dias para dez dias, em alguns casos. “Com a nova fábrica, os filtros e elementos filtrantes Hydac estarão ainda mais competitivos, com maior disponibilidade e rapidez nas entregas e, ao mesmo tempo, mantendo a qualidade e a garantia que somente um produto líder de mercado pode oferecer”, .M finaliza Carlos Augusto Souza.
AGRICULTURA DE PRECISÃO Eduardo Bottega
Zonas de manejo Entre as ferramentas utilizadas na Agricultura de Precisão, o mapeamento das variações do comportamento elétrico do solo pode auxiliar na identificação de locais no talhão que apresentam diferentes teores de nutrientes
A
adoção de técnicas de Agricultura de Precisão (AP) pode contribuir no alcance do máximo potencial produtivo das lavouras. No Brasil, a utilização destas ferramentas é cada vez mais frequente. Atual-
mente, o produtor pode adquirir no mercado agrícola, máquinas equipadas com sistemas para o mapeamento da produtividade das culturas, aplicação de insumos a taxa variada, piloto automático, controle do processo de
semeadura e pulverização. Empresas prestadoras de serviços de assistência técnica e consultoria têm utilizado, em seus levantamentos, sensores que identificam plantas invasoras, falhas no estande de plantas, quantificam o teor de nitrogênio, mensuram a resistência do solo à penetração e a condutividade elétrica aparente do solo, com o objetivo de que seus clientes produzam mais, utilizando menos insumos, o que acaba por reduzir o custo de produção e os impactos ao meio ambiente causados pela atividade agrícola. Das ferramentas utilizadas pelos prestadores de serviços em AP, os sensores que mensuram a condutividade elétrica (CE) aparente do solo merecem destaque. Diversas pesquisas já comprovaram a relação existente entre a variação da CE do solo e a variação da produtividade das culturas. Este comportamento pode ser explica-
Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
25
Figura 1 - Mapa de pontos de leitura da CE do solo
do, pois os atributos do solo (químicos e físicos) que influenciam a condutividade elétrica, são também os responsáveis por variações na produtividade das culturas, desta forma, pode-se dizer que a CE do solo serve como indicador indireto da variabilidade espacial dos atributos de solo em um campo agrícola. O mapeamento das variações do comportamento elétrico do solo pode auxiliar na identificação de locais no talhão que apresentam diferentes teores de nutrientes. Estas variações nos valores de condutividade elétrica podem ser organizadas em um mapa de zonas, delimitando os locais de alto e baixo valor, constituindo assim as zonas de manejo. De acordo com o doutor Thomas A. Doerge, agrônomo de Agricultura de Precisão da Pioneer Hi-Bred International, zonas de manejo “são sub-regiões do campo que apresentam uma combinação de fatores limitantes de produtividade para a qual uma mesma taxa de aplicação de insumos é apropriada” (Doerge, s.d.). O manejo do solo por zonas possibilita redução nos custos com análises, uma vez que a utilização de grids amostrais não é mais necessária. Desta forma, reduz-se o número de amostras, sendo necessária apenas uma amostra de solo composta por amostras simples, coletadas em cada zona, para caracterização. O professor e pesquisador da UFSM
26
Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
campus de Cachoeira do Sul, doutor Eduardo Leonel Bottega, em parceria com a Campear Engenharia Agronômica e a Falker Automação Agrícola Ltda, realizaram um estudo em uma área comercial destinada ao cultivo de grãos em sistema de plantio direto, cujo objetivo foi identificar quais atributos do solo a delimitação de zonas de manejo, a partir da mensuração da CE, foi capaz de diferenciar. O trabalho foi realizado no município de Cachoeira do Sul (RS), em uma área de 25,8ha, irrigada com pivô central. A coleta de dados foi realizada no dia 13 de novembro de 2018, após a colheita da cultura do trigo. As leituras de CE do solo foram realizadas utilizando o equipamento comercial Terram, produzido pela empresa Falker Automação Agrícola Ltda. O equipamento é constituído por um chassi onde são montados quatro discos de corte de palhada igualmente espaçados em 0,25 metro. Os discos internos atuam como eletrodos potenciais e os externos como eletrodos de corrente. A condutividade elétrica do solo é obtida a partir do inverso da resistividade elétrica do solo mensurada pela diferença potencial entre a corrente emitida e aquela recebida. Os dados coletados foram gravados no sistema Fieldbox, de fabricação da mesma empresa. O equipamento foi tracionado pela área utilizando um quadriciclo, sendo obtidas 4.485 leituras de CE do solo.
Após as leituras, os dados foram submetidos à análise de outliers, com o objetivo de eliminar valores discrepantes, originados pela falta de contato ocasional dos discos com o solo. Posteriormente, procedeu-se análise geoestatística a fim de quantificar a variabilidade espacial da CE do solo e produzir um mapa, indicativo de sua variação. O mapa temático da distribuição espacial da CE do solo foi produzido por meio de krigagem ordinária (Figura 2a). Após a realização da krigagem ordinária, os dados foram agrupados em duas classes, para produzir o mapa de zonas de manejo. O agrupamento foi realizado utilizando o algoritmo fuzzy k-means. O mapa de pontos de coleta de solo foi sobreposto ao mapa de zonas de manejo (Figura 2b), assim foi possível identificar pontos pertencentes às classes 1 e 2 (ZM 1 e ZM 2). O solo foi amostrado na profundidade de 0,0 - 0,2 metro e enviado para análise laboratorial de rotina. Em cada um dos 24 pontos foram coletadas cinco amostras simples, em um raio de três metros do ponto amostral. As amostras foram misturadas e foi retirada uma amostra composta, que caracterizou o solo no respectivo ponto. Foi realizado teste de médias t (p < 0,05) entre os valores de atributos do solo, em função das zonas de manejo onde cada ponto amostral foi localizado. Na Figura 3 são apresentados os
Figura 2 - Mapa temático da variabilidade espacial da condutividade elétrica aparente do solo (A). Zonas de manejo e pontos amostrais de coleta de solo (B)
gráficos Box-Whisker plot dos valores de atributos do solo que apresentaram diferença estatística em função da zona de manejo que pertencem. As zonas de manejo delimitadas com base na variabilidade espacial da CE do solo, mensurada com o equipamento comercial Terram, foram capazes de diferenciar os seguintes atributos do solo: Argila, Potássio (K), Cálcio (Ca), Soma de bases (SB), CTC efetiva (t) e CTC a pH 7 (T). Foi observado que a zona de manejo com maior valor médio de CE do solo apresentou também as maiores médias para os valores de atributos do solo, demonstrando o potencial do mapeamento da CE em diferenciar, dentro do mesmo talhão, áreas com diferença nos valores de atributos do solo. Na prática, estes resultados poderiam ser empregados, por exemplo, na tomada de decisão quanto à população de plantas a ser estabelecida na área, podendo variar a densidade populacional em função do teor de argila em cada ZM. Outro fator a ser destacado trata-se da amostragem de solo, que poderia ser realizada a fim de caracterizar cada zona de manejo, sendo necessárias apenas duas análises de amostras compostas de solo, representativas de cada ZM delimitada. Isso reduziria o custo com análises se comparado ao método tradicional de amostragem de solo por grid. Os resultados obtidos neste estudo demostraram ser promissora a utilização da CE do solo como fator delimitador de zonas de manejo, contudo, é recomendada a condução de mais estudos, para que se possa, efetivamente, consolidar esta nova ferramenta de .M manejo da fertilidade do solo.
Figura 3 - Box-Whisker plot para atributos do solo que apresentaram diferença estatística em função da zona de manejo que pertencem
Eduardo Leonel Bottega, UFSM Rodrigo Franco Dias Eder Luís Sari, Campear Engenharia Agronômica Alicia Baumhardt Dorneles, Cristielle König Marin e Zanandra Boff De Oliveira, UFSM
Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
27
IRRIGAÇÃO
Golpe de aríete O golpe de aríete é um problema comum em tubulações pressurizadas, aplicadas na irrigação. Saber como prevenir este problema é a garantia de evitar paradas e gastos desnecessários
O
uso de sistemas de bombeamento em áreas agrícolas é comum devido à necessidade de mover a água contra a ação da gravidade com a utilização de tubulações pressurizadas. Porém, para que o sistema apresente bom desempenho durante sua operação, é de extrema importância o dimensionamento de forma correta e sua execução deve ser monitorada ao longo do tempo, para não haver a ocorrência de problemas que possam ocasionar danos em seu funcionamento e estar ciente de que o sistema esteja operando como planejado e de forma eficiente. As tubulações utilizadas em sistemas de bombeamento trabalham com água sob pressão, onde, no decorrer do tempo, pode ocorrer alterações nas condições de escoamento da água devido a variações de velocidade e pressão. Além do mais, em casos de alteração no fluxo da água gerado pela paralisação eventual de determinado elemento no sistema, podem ocorrer certos efeitos danosos ao processo de condução com a ocorrência de determinados fenômenos como, por exemplo, do golpe de aríete. O fenômeno chamado de golpe de aríete ou martelo hidráulico é comum em situações onde há escoamento no interior de conduto forçado, caracterizado pela ocorrência de ondas de pressão, que são propagadas ao longo da tubulação, associadas a uma mudança de velocidade súbita, na qual, por algum motivo, o esco-
amento sofre aceleração ou desaceleração, causando um choque violento que se produz sobre as paredes da tubulação. Em outras palavras, é a subpressão ou a sobrepressão que os condutos forçados recebem quando, por exemplo, há uma parada no sistema elétrico com uma paralisação instantânea do acionamento do motor das bombas, ou quando se fecha ou abre um registro ou válvula, interrompendo o escoamento. Mesmo sendo um fenômeno que pode ocorrer com determinada frequência, muitos usuários de sistemas de bombeamento em atividades agrícolas têm pouco ou nenhum conhecimento sobre o fenômeno do golpe de aríete, sendo, além disso, importante identificar as causas do mesmo e realizar medidas que contribuem para que este efeito possa ser evitado. Em estações de recalque, a principal causa do golpe de aríete é a falta de energia durante o funcionamento do sistema de recalque. Com a falta de energia, a água que estava sendo bombeada tende a voltar pela tubulação, ocasionando um choque violento que se produz sobre as paredes de um conduto forçado e, se a bomba não possuir um sistema de proteção, poderão ocorrer sérios danos ao sistema. Este fenômeno, além de provocar altos ruídos, semelhantes a marteladas em metal, pode provocar ruptura de tubulações por sobrepressão, avarias em bombas, colapso de tubos, entre ou-
Figura 1 - Ilustração do golpe de aríete em tubulações. (Fonte: adaptado de Rodrígues, 2015)
Figura 2 - Ilustração da válvula de retenção. Fonte: (Camargo, 1989)
28
Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
CNA
tros danos à instalação que podem trazer custos na manutenção destes equipamentos afetados.
PROTEÇÃO
Deste modo, é de extrema importância o conhecimento de medidas que possam evitar problemas causados pelo fenômeno. Entre os meios de controle que podem ser realizados está o uso de dispositivos de proteção como, por exemplo, a válvula de alívio e a válvula de retenção (Figura 2). Ambas têm a finalidade de proteger contra as sobrepressões formadas no interior de tubulações e recomenda-se a instalação destes dispositivos em tubulações de recalque. A válvula de alívio atua por meio de mecanismos de regulagem, na qual se abrem quando a pressão excede valores prefixados. Evitando que as pressões internas ultrapassem os limites das pressões de trabalho permitidas e também o rompimento de tubulações ou danos nos equipamentos da instalação. A válvula de retenção apresenta mecanismo interno com função de prevenir a reversão do fluxo de água em tubulações. Trata-se de um mecanismo interno do tipo portinhola, que consiste em um
disco, em que sua abertura e fechamento é diretamente influenciada pelo escoamento da água. Percebe-se que o fenômeno do golpe de aríete pode causar danos em sistemas de bombeamento, e o uso de dispositivos de proteção nas tubulações pode ser considerado uma alternativa para evitar os efeitos do mesmo. É de suma importância estar atento nestes detalhes desde o momento do dimensionamento das estações de bombeamento. Assim, é necessário que os produtores e demais profissionais da área agrícola busquem conhecimento sobre os fenômenos presentes em sistemas de condução de água para que se evitem problemas em seu funcionamento e, dessa forma, diminuam custos com a manutenção .M dos mesmos. Juciano Gabriel da Silva, Marcia Xavier Peiter, Adroaldo Dias Robaina, Laura Dias Ferreira, Bruna Dalcin Pimenta, Jhosefe Bruning, Anderson Crestani Pereira, Jéssica Dariane Piroli, Wellington Mezzomo e Ricardo Boscaini, Laboratório de Engenharia de Irrigação - UFSM
As principais causas do golpe de aríete • Rompimento ou obstrução súbita de uma determinada seção do tubo; • Fechamento ou abertura de válvulas, onde na prática o fechamento sempre leva algum tempo, por pequeno que seja, e a energia absorvida transforma-se em esforços de compressão de água e deformação das paredes da tubulação; • A colisão da superfície da água dentro de um tubo com a ventosa quando termina o escape de ar, se for muito rápido; • A parada brusca dos motores que acionam a bomba (Interrupção de energia).
Antunes, 2006
Exemplo de válvula de alívio operando em sistema de irrigação
Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
29
IRRIGAÇÃO
Irrigação racional
A
expansão da agricultura irrigada é uma forma de aumentar a produtividade por área, mas para isto a eficiência almejada do uso de água deve ser alta, já que este recurso é limitado. Segundo o Informe 2016, sobre uso de recursos hídricos no Brasil, elaborado pela Agência Nacional das Águas (ANA), a irrigação representa 75% do consumo total de água no Brasil. Nos últimos anos, no Brasil, as áreas irrigadas aumentaram, graças a incentivos governamentais. Associado ao aumento das áreas irrigadas, também há o aumento das pressões sociopolíticas para o uso eficiente do recurso hídrico, uma vez que
30
Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
Entender os principais métodos de irrigação nas culturas agrícolas e seu correto manejo ajuda o produtor a maximizar a eficiência dos sistemas utilizados
a eficiência média de irrigação no Brasil é de 59%. Diante disto, o manejo da irrigação deve ser um fator crucial para que o sistema de irrigação atinja a sua máxima eficiência, uma vez que não adianta ter um sistema de irrigação de alta eficiência se o manejo da irrigação é deficiente. É de suma importância que o produtor esteja ciente do desempenho do seu sistema, haja vista que políticas de fiscalizações de desempenho dos sistemas de irrigação estão sendo estudadas por órgãos governamentais, com o objetivo de reduzir o desperdício de água na atividade agrícola e multar quem pratica. A seguir, vamos descrever os prin-
Gabriel Ganancine Zimmermann
cipais métodos de irrigação utilizados nas culturas agrícolas e o manejo adequado, de forma a maximizar a eficiência dos sistemas de irrigação, servida de fonte de informação ao agricultor.
PRINCIPAIS MÉTODOS DE IRRIGAÇÃO
Ao se considerar somente a participação no mundo, pode-se dizer que existem três tipos de métodos de irrigações principais: aspersão, sendo a água aplicada sobre o dossel da cultura e acima do solo; superfície, quando a água é aplicada diretamente na superfície do solo de forma parcial ou total, seguindo o potencial gravitacional; e localizada, em que a água é aplicada
Fotos Divulgação
na área onde as raízes das plantas se concentram, formando uma faixa úmida. A Cada método de irrigação e sistema correlacionado apresenta uma eficiência máxima se a implantação do sistema de irrigação for correta. Agora, para que o sistema trabalhe com a máxima eficiência, é necessário que o manejo da irrigação seja correto e eficiente. Estudos apontam que a irrigação utilizada de forma racional pode promover uma economia de aproximadamente 20% da água e 30% da energia consumida. Esses benefícios permitirão maior competitividade e lucros aos agricultores.
xas. Em contrapartida, as desvantagens são: água parada pode prejudicar as plantas, principalmente pela diminuição da respiração das raízes, e baixa eficiência do uso de água em comparação a outros métodos de irrigação.
IRRIGAÇÃO POR ASPERSÃO
O sistema por aspersão é o mais utilizado na irrigação. Este sistema tenta imitar o efeito da chuva. Vantagens deste sistema são: baixo custo de mão de obra, alta eficiência de aplicação, melhor controle da lâmina de irrigação, e pode ser utilizado para a aplicação de fertilizantes (fertirrigação).
IRRIGAÇÃO POR SUPERFÍCIE
Os sistemas de irrigação por superfície, também chamados de irrigação por gravidade, podem ser divididos em dois grandes grupos: sistema de irrigação por sulcos e sistema de irrigação por inundação. No primeiro, a água é aplicada nos sulcos existentes nas entre linhas da cultura, de modo que esta escoe no sulco por efeito da gravidade. Neste sistema somente parte da superfície do solo recebe água. Já no segundo sistema de irrigação por inundação, toda a superfície do solo cultivado recebe água diretamente. As principais vantagens dos sistemas de irrigação por superfície são: baixo custo de implantação, baixo consumo de energia, reduzido custo de manutenção e favorecimento do aumento da fotossíntese nas folhas, principalmente as bai-
Um dos meios mais eficientes de irrigação é o localizado, que leva a quantidade necessária de água ao local certo
Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
31
Lucas Viana
O Irrigâmetro auxilia a identificar o momento e a quantidade exata de água que o solo está precisando
Já entre as desvantagens pode-se destacar que ele favorece o desenvolvimento de doenças, devido às folhagens úmidas, tem altos custos iniciais de investimento, maior gasto de energia elétrica e com manutenção. Estudiosos dividem o sistema de irrigação por aspersão em dois grandes grupos: sistema convencional e sistema mecanizado. O Sistema convencional é composto pelos componentes básicos dos sistemas de irrigação por aspersão (tubulações, bomba e aspersores). Pode ser fixo, cobrindo toda a área cultivada, ou móvel, quando não cobre toda a área ao mesmo instante. Já entende-se por sistema mecanizado aqueles sistemas que são montados sobre estruturas mecânicas móveis, que se movimentam sobre a área irrigada de forma linear ou circular, como o pivô central.
IRRIGAÇÃO LOCALIZADA
Os sistemas de irrigação localizada são os mais eficientes dentre todos, podendo atingir eficiências acima de 90%. Este sistema visa irrigar somente a faixa de solo explorada pelas raízes da cultura. Por isso, o sistema é montado abaixo do dossel, bem próximo à base de crescimento da planta, daí o nome de localizado. Podemos separar o sistema de irrigação localizado nos seguintes tipos: microaspersão, gotejamento e subsuperficial. O sistema de irrigação por gotejamento leva a água até a zona radicular da planta e a distribui por meio de gotas localizadas de baixa intensidade, porém alta frequência. O custo de implantação é elevado, sendo utilizado principalmente em culturas com alto retorno econômico, tal como frutíferas e flores. A microaspersão é um sistema de irrigação localizado semelhante à aspersão convencional. As principais diferenças são o tamanho dos aspersores, miniaturas, e sua localização, que é bem próxima à base da cultura. Este sistema apresenta vazões e áreas de aplicação maiores que o sis-
32
Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
tema de gotejamento. Por fim, o sistema de irrigação subsuperficial é semelhante ao sistema de gotejamento, a diferença é o fato dos dutos condutores serem enterrados, o que reduz a evaporação da água em comparação aos outros sistemas de irrigação localizada, atingindo a maior eficiência dentre todos os sistemas. As principais vantagens dos sistemas de irrigação localizada são: elevada eficiência de aplicação, acima de 91%, grande adaptação aos diferentes tipos de solo e declividades e baixo custo de mão de obra e de energia. Já como pontos negativos podem ser citados o alto custo inicial de implantação e a facilidade de entupimentos dos emissores por meio de acúmulo de matéria orgânica e partículas minerais.
IRRIGAÇÃO DE PRECISÃO
Irrigação de precisão é um termo usado para definir o sistema de irrigação amparado com uma gama de equipamentos tecnológicos que possibilitam irrigar em taxas variáveis, de acordo com a necessidade da cultura e a variabilidade espacial, isto é, irrigar no momento preciso e exato. Pode ser um sistema que monitora planta por planta e irriga estas de acordo com o necessário ou pode monitorar zonas de manejo definidas. Além disto, a irrigação de precisão pode utilizar o Sistema de Navegação Global por Satélites (GNSS), possibilitando irrigar somente áreas que apresentam culturas em desenvolvimento, evitando irrigar área sem produção no meio do talhão. A irrigação de precisão apresenta alta eficiência de irrigação e maior automatização da irrigação, com a mínima atuação do agricultor. Um ponto negativo deste sistema é o alto custo de implantação e a necessidade de um manejo de irrigação bem organizado e detalhado, além de um usuário que apresente bom conhecimento tecnológico. Neste sistema, é possível, através de monitores, identificar a variabilidade espacial dentro de um perímetro irrigado, onde o sistema de irrigação aplicará somente a quantidade de água necessária em cada espaço.
MANEJO ADEQUADO DA IRRIGAÇÃO
O manejo correto da irrigação da cultura contempla a aplicação de água na quantidade e no momento adequados. Deste modo, os sistemas de irrigação com manejo certo atingem a máxima eficiência e favorecem a planta a obter o máximo potencial produtivo, portanto possibilitando a economia de água e a elevação dos lucros do produtor. Um dos motivos que mais contribuem para a eficiência da irrigação ser inferior ao seu potencial máximo é o fato que uma grande parte dos irrigantes possui pouco conhecimento a respeito da eficiência do sistema e sobre as vantagens do manejo adequado, o que dificulta entender que o manejo da irrigação não pode ser trata-
Fotos Divulgação
do com natureza fixa, conforme colocado no projeto, mas deve ser flexível, ou seja, variável de acordo com a necessidade da cultura.
A
B
C
IRRIGÂMETRO
Levando em consideração a dificuldades encontradas em transferir informação e tecnologia para o agricultor, diferentes métodos foram criados para facilitar o manejo da irrigação por parte do agricultor. Um método de manejo correto e de simples operação e administração por parte do agricultor foi inventado na Universidade Federal de Viçosa, chamando-se Irrigâmetro. Com o Irrigâmetro é possível responder ao agricultor as seguintes perguntas: quando irrigar? Qual a quantidade de água necessária à cultura? Qual o tempo de irrigação? E o que fazer no caso de ocorrência de chuva? Outros equipamentos para manejo de irrigação, tal como Tanque Classe A e estação automática, implica conhecimentos técnicos bem familiarizados pelo agricultor e cálculos de maiores dificuldades de execução, o que dificulta sua utilização. O agricultor, para irrigar de forma racional, precisa saber quando e quanto de água a cultura necessita em um dado momento. Sabendo isto e aplicando, os benefícios vão desde redução com os gastos de produção a menores impactos ambientais. .M Lucas de Arruda Viana, Laércio Zambolim, Fernando Ferreira Lima dos Santos, Rodrigo Nogueira Martins, Jorge Tadeu Fim Rosas e Samira Luns Hatum de Almeida, UFV Tabela 1 - Eficiência dos métodos de irrigação Método de Eficiência de Irrigação Irrigação (%) Superfície 40 a 75 Aspersão 60 a 85 Localizada 80 a 95 Fonte: Marouelli; Silva (1998).
Métodos de irrigação: (A) aspersão; (B) superfície; (C) localizada A
B
Sistema de irrigação por sulcos (A) e sistema de irrigação por inundação (B) A
B
Sistema de irrigação por aspersão do tipo mecanizado (A) e do tipo convencional (B) A
B
C
Sistema de irrigação localizado do tipo: (A) gotejamento; (B) microaspersão; e (C) subsuperficial Tabela 2 - Eficiência dos principais sistemas de irrigação Método de irrigação Superfície
Aspersão
Localizada
Sistema de irrigação Bacias em nível Sulcos Pulso (“Surge flow”) Faixas Sulcos corrugados “Linear move” Pivô central de baixa pressão Aspersão fixo Pivô central de alta pressão Aspersão portátil Alto propelido Gotejamento superficial Gotejamento enterrado Microaspersão
Eficiência (%) 60 - 80 60 - 80 65 - 80 55 - 75 40 - 55 75 - 90 75 - 90 70 - 85 65 - 80 60 - 75 60 - 70 85 - 95 85 - 95 85 - 90
Fonte: Coelho; Silva (2013).
Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
33
PNEUS
Tração comprom
Avaliação mostra a variação de patinagem de um trator agrícola operando em solo com diferentes teores de umidade e diversos implementos
O
desempenho dos tratores agrícolas pode ser influenciado pelo tipo de solo, preparo, implemento dimensionado, patinagem, entre outros. Dentre os itens citados, a patinagem é um grande comprometedor do desempenho, ocasionada pela falta de interação entre o rodado e o solo, resultando em perda de velocidade e eficiência. A patinagem é a denominação que se dá ao deslizamento entre a superfície da banda de rodagem e o solo, sendo ela um fator determinante para que ocorra a tração. Nos tratores agrícolas a patinagem dos rodados ocorre devido a diversos fatores, entre eles o esforço de tração necessário para deslocar determinado implemento e o tipo de superfície que está em contato. Este problema ocorre diariamente em propriedades agrícolas, mostrando-se presente em diversas operações de atividades agrárias. Com relação a estes problemas, vários pesquisadores apontam como principais causas a condição do solo solto ou firme, outros ressaltam causas relacionadas à condição do pneu com lastragem adequada a situação, calibração etc. Em vista destas causas, a verificação da patinagem é de grande importância, para economizar gastos futuros com equipamento, combustível e perda do desenvolvimento de transporte. Um grupo de pesquisadores do Instituto Federal Catarinense, Campus Rio do Sul, realizou um trabalho para avaliar a influência do teor de umidade nos solos da região do Alto Vale do Itajaí no índice de patinagem dos rodados motrizes de um trator agrícola
18 34
Setembro2019 2019••www.revistacultivar.com.br www.revistacultivar.com.br Outubro
em diversas operações e teores de água no solo.
PROVA NO CAMPO
Para a realização do experimento foi fundamental a ocorrência significativa de chuva na área, para fornecer condições de saturação no solo de alta, média e baixa umidade, considerando como precipitação significativa neste trabalho aquelas acima de 20mm. Realizou-se na área experimental a coleta de amostras de solo para serem determinados os parâmetros da umidade gravimétrica e a densidade do solo, por meio de anéis, que foram encaminhados para o Laboratório de Física do Solo. Foi utilizado o trator agrícola (4x2) Valmet, modelo 785, com potência de 55,16kW (75cv) e 3.750kg (lastragem leve). A rotação de trabalho foi de 1.900rpm e a velocidade de 5km/h, na primeira marcha da gama simples em todas as operações. Os sensores encoders foram instalados individualmente nos rodados do trator e ligados na central de leitura dos dados, chamada de CLP (Controlador Lógico Programável), realizando o teste de testemunha sem carga num percurso de 15m de distância em piso firme. Em seguida, foram selecionados os implementos em relação à determinação de um implemento de operações pesada, média e leve. O implemento escolhido para a operação pesada foi o subsolador (cinco hastes, largura e profundidade de trabalho de 2,55m e 0,60m), na operação média foi selecionado a grade inter-
etida
mediária “off-set” (32 discos, diâmetro 22” x 4mm, largura de trabalho de 2,74m), e a grade leve niveladora “Tandem” (24 discos, diâmetro 20” x 4mm), respectivamente. O experimento foi escalonado após a chuva em alta umidade (dois dias após a chuva), média umidade (quatro dias após a chuva) e baixa umidade (dez dias após a chuva). A primeira e a segunda avaliações dos dias sucedem a chuva de 39,84mm, já a terceira avaliação ocorreu dez dias após a chuva, acumulando um total de 30mm, respectivamente. A área experimental possuía faixas de 15x2m, onde para cada implemento foram realizadas cinco repetições, totalizando 15 ensaios. As coletas de amostras de solo nas áreas experimentais foram realizadas a cada dia de ensaio, gerando dados de umidade gravimétrica e densidade do solo. Os resultados em relação aos dias que ocorreram os testes a campo com a umidade do solo e a densidade do mesmo mostraram que na primeira avaliação (dois dias após a chuva) o solo possuía umidade, o que resultou em densidade do solo alta
comparada aos outros dias de avaliação, devido ao tráfego de máquinas das operações realizadas. Seguindo esta lógica, relacionamos as outras umidades do solo e sua densidade, conforme a relação direta que quanto mais dias se passam após a chuva, menor teor de água no solo causa redução na densidade do solo, conforme a Tabela 1. Em relação à patinagem, os dados referentes aos implementos apresentaram valores altos na maior umidade e, consequentemente, resultou na menor patinagem com o terreno menos úmido. O subsolador obteve maior patinagem quando o solo estava mais úmido, como também na umidade média. A grade tanden, quando em trabalho com o solo em alta umidade, igualou-se à grade off-set trabalhando com o solo de média e baixa umidade. A grade off-set obteve valores estatisticamente iguais em média e baixa umidade. Por fim, quando em trabalho em solo com baixa umidade a grade tandem apresentou a menor patinagem da avaliação, conforme a Tabela 2. Conclui-se que a operação de gradagem leve aos dez dias após a chuva obteve os menores e ideais resultados de patinagem, aproximadamente 13%, enquanto a subsolagem trabalhando
Trator instrumentado para avaliação em campo
em um solo com alto teor de água (dois e quatro dias após a chuva) obteve valores de patinagem elevados, acima de 20%. De modo geral, os trabalhos realizados em um solo mais seco tiveram menor patinagem. Tais resultados devem-se também à relação de atrito existente entre solo e pneu ser maior nesta condição. Como esperava-se, os valores de patinagem foram maiores nas operações com grade intermediária e subsolador e menores com a grade leve. É importante destacar que para um melhor preparo do solo, este deve estar em uma condição friável, nem muito seco nem muito úmido. .M Gabriel Ganancini Zimmermann, Fabrício Campos Masiero, Leonardo Düsterhöft, João Célio de Araújo e Ricardo Kozoroski Veiga, IFC – Campus Rio do Sul
Fotos Gabriel Ganancini Zimmermann
Tabela 1 - Relação dias após chuva com umidade gravimétrica e densidade do solo Dias após a chuva 2 4 10
Umidade gravimétrica (%) 27,3 26,9 24,3
Densidade do solo (g cm-3) 1,46 1,40 1,33
Fonte: Zimmermann, 2019.
Tabela 2 - Valores médios de patinagem dos rodados motrizes do trator em diferentes operações e teores de água no solo
As avaliações de patinagem foram realizadas com o terreno com diferentes índices de umidade
Implemento Grade leve Grade leve Subsolador Grade leve Grade intermediária Grade intermediária Grade intermediária Subsolador Subsolador
Teor de água (%) 24,3 26,9 24,3 27,3 24,3 26,9 27,3 26,9 27,3
Patinagem (%) 13,2 14,7 15,1 17,0 17,3 18,3 19,7 22,0 22,9
Fonte: Zimmermann, 2019.
Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
35
PLANTADORAS
Processo complexo Estudo mostra a importância do planejamento do plantio de cana-de-açúcar e de analisar as variáveis críticas do processo que interferem no tempo necessário para realizar a operação
O
plantio de cana-de-açúcar é uma etapa do processo de produção que necessita de bastante atenção do produtor agrícola, pois além dos aspectos qualitativos da implantação da cultura e seus impactos nas operações e safras subsequentes, ela é classificada como um investimento a ser retornado no longo prazo, depois de cinco ou seis safras. Com os atuais preços recebidos pelo produtor e os aumentos do custos de produção, a gestão do processo torna-se relevante para
36
Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
otimizar os desembolsos realizados. Para gerenciar as operações agrícolas e tomar decisões, se faz necessário trabalhar com base em informações geradas no processo, buscando e interpretando corretamente as informações disponíveis como forma de eliminar análises empíricas. Uma das técnicas de gestão de processos é o método PDCA (Plan - planejar, Do - executar, Check - controlar, Action - agir), utilizado pelas empresas para gerenciar os processos para garantir o alcan-
ce de metas estabelecidas, tomando as informações como fator de direcionamento das decisões. A Figura 1 ilustra o ciclo PDCA e a etapa do planejamento para o plantio. Tendo em vista estes parâmetros, pretende-se mostrar neste texto um estudo de caso com a análise do planejamento do plantio com enfoque no dimensionamento do número de plantadoras de cana-de-açúcar necessário de acordo com o tamanho, o formato e a capacidade de produção (plantabilidade da área).
COMO FOI REALIZADO O PLANEJAMENTO?
Para a realização deste planejamento, foram utilizados dados referentes ao processo de colheita de uma empresa agrícola, situada no interior do estado de São Paulo. A metodologia foi aplicada em cinco glebas, totalizando 484,10 hectares, ilustrada na Figura 2. Neste trabalho será considerado o plantio das glebas em estudo em sua totalidade. Observa-se na Figura 3 que por meio dos mapas dos trajetos da plantadora por gleba (1) foram determinadas a quantidade de manobras (2) e a quan-
Charles Echer
Figura 1 - Ciclo PDCA e o planejamento do plantio de cana-de-açúcar
tidade de trajetos (3). O plantio é realizado pelo sistema de duas fileiras alternadas com dimensões de 0,9m por 1,5m, que totaliza 2,4m. O valor adotado para o cálculo de tempo unitário de manobra (do tipo reversa) foi de 120 segundos (0,033 hora). A jornada de trabalho é de 12 horas e foi considerado um tempo de 12 horas a cada 24 horas de atividade para os tempos perdidos e auxiliares (4). É válido ressaltar que tais valores são genéricos para todas as áreas, para que tais parâmetros não interfiram nos resultados dos cálculos. A velocidade de trabalho é de 3,64km/h e a capacidade de campo efetiva de 0,87ha/h. Com o tempo unitário de manobras, determinou-se o tempo total de manobras pela somatória do número de manobras com cada tempo unitário (2). O tempo trabalhado (3) foi determinado pela relação entre a velocidade de trabalho e o comprimento total de fileiras. A relação entre o tempo trabalhado e o tempo total determinou a eficiência operacional (5). A partir dos resultados obtidos do cálculo da eficiência foi calculada a capacidade de campo operacional (7). A plantabilidade (9) é definida pelo produto da capacidade de campo operacional (ha/h) pela jornada de trabalho (ha/dia). A plantabilidade é calculada por máquina. A plantabilidade de uma frente de plantio é definida pelo produto da plantabilidade pelo número de conjuntos por frente de plantio (11). Por meio dos dados verificou-se a relação entre as manobras e a eficiência. Posteriormente, foram analisadas as capacidades de campo, a plantabilidade e os dias para plantio para cada gleba, sempre contrastando com a eficiência. Analisaram-se também os dias para plantio, considerando três tipos de frente: uma frente com um, dois e três conjun-
Figura 2 - Glebas do estudo do planejamento do plantio
Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
37
quência de fileiras com comprimento maior que 600m, com um valor de 61,69% dos dados, enquanto a gleba B não possui trajetos superiores a 600m. A Figura 3 mostra a síntese da análise dos trajetos das glebas em estudo. Com estes dados, foi realizada a correlação entre a eficiência operacional e o número de manobras por hectare (Figura 5). Nota-se na Figura 5 que quanto menor o número de manobras por hectare, maior a eficiência operacional, em que as glebas E e C, que possuem o menor número de manobras por hectare (inferior a 7), apresentam as maiores eficiências operacionais (superiores a 61%), enquanto que a gleba B, que possui 25,13 manobras por hectare, a eficiência operacional foi de 51,21%. Não foram encontrados na bibliografia valores de referência para a eficiência operacional para o plantio de cana-de-açúcar utilizando este tipo de processo. Em Asabe (2011) existem valores de referência para a eficiência operacional de plantio/semeadura de grãos que oscilam entre 50% e 80%. A Figura 6 mostra as relações de plantabilidade com as glebas. Há uma correlação positiva entre a eficiência operacional e a plantabilidade, e uma correlação positiva e não linear (na forma de potência) entre as áreas das glebas com a plantabilidade. A relação da plantabilidade por máquina de cada gleba com a área de cada gleba permite identificar o número de dias necessários para realizar o plantio (Figura 7). Observa-se na Figura 7 que as glebas com maiores áreas necessitam de mais dias para o plantio, independentemente do número de máquinas utilizadas. Considerando estes valores de plantabilidade das glebas e a somatória de todas as áreas (484,1ha), observa-se que utilizando uma frente com três plantadoras, ocorre uma redução de 85,27 dias para o plantio de todas as áreas (de 127,9 dias para 42,63 dias). Com isso, considerando o uso de três plantadoras para o processo de plantio, verificou-se o impacto na variação no tempo de manobras nos dias de plantio (Figura 8). Nota-se na Figura 8 que a gleba A, de maior área e eficiência superiores a 60%, possui a maior variação dos dias de plantio com a variação do tempo de manobras na plan-
Figura 3 - Fluxograma dos procedimentos do planejamento do plantio
Figura 4 - Síntese da análise dos trajetos das glebas em estudo. As imagens das glebas não estão em escala
tos trator-plantadora, respectivamente, sempre considerando a proporção de um trator com uma plantadora. Realizou-se posteriormente a análise de sensibilidade dos dados com a oscilação do tempo de manobra com a plantabilidade, verificando o impacto para cada gleba em estudo. Para isso, o tempo unitário de manobra foi oscilado em 10%, tanto para valor superior quanto inferior do padrão calculado.
QUAL FOI O RESULTADO DO PLANEJAMENTO?
Observa-se na Figura 4 que a gleba E possui a maior fre-
38
Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
Charles Echer
Figura 5 - Relação entre a eficiência operacional do conjunto trator plantadora pelo número de manobras por hectare para as glebas
Figura 6 - Correlação entre a eficiência operacional do conjunto trator plantadora e a plantabilidade (ha/dia) (esquerda) e a correlação entre a eficiência operacional do conjunto trator plantadora e a plantabilidade (ha/dia) (direita)
Figura 7 - Plantabilidade e número de dias para o plantio para as glebas em estudo, considerando o uso entre 1 e 3 plantadoras por frente de plantio
tadora. Considerando todas as áreas em estudo, a variação em 10% do tempo de manobras pode acarretar uma variação em 0,7 a um dia de plantio.
Figura 8 - Impacto da variação do tempo de manobras para cada gleba em estudo, considerando a utilização de três plantadoras por frente de plantio
O QUE SE CONCLUIU NESTE PLANEJAMENTO?
Verificou-se para as condições do estudo que as glebas de maiores áreas e eficiências possuem maior plantabilidade. A frente de colheita com três plantadoras reduziu em 85,27 dias o período de plantio (de 127,9 dias para 42,63
dias). A variação de 10% do tempo de manobras da plantadora pode variar o tempo de plantio entre 0,7 e um dia .M para todas as áreas. José V. Salvi, Daniela A. Pinguelo, Renato A. Trajano e Victor Tozette, Fatec “Shunji Nishimura” de Pompeia, SP
Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
39
COLHEDORAS
Colheita semimecanizada As vantagens do sistema de colheita semimecanizada, quando comparado à colheita manual, são muitas. Entre elas, menor dependência de mão de obra e maior rendimento da operação. Neste embalo, cafeicultores de Rondônia estão substituindo cada vez mais o sistema manual pelo semimecanizado
A
questões inerentes ao custo, as fases de colheita e pós-colheita são responsáveis diretas pela manutenção da qualidade do café e, consequentemente, a conquista de novos mercados consumidores, além da manutenção dos tradicionais, como commodities. A evolução que está acontecendo no campo é muito dinâmica e precisa fazer parte de todas as etapas de produção. Isso passa por questões como o momento ideal de colheita e a busca por alternativas à mão de obra manual. É nesse contexto que a colheita semimecanizada pode ser considerada uma nova conquista dos produtores no estado de Rondônia, assim como ocorre em outras regiões. Essa tecnologia tem tudo para se tornar a ajuda que os cafeicultores precisam para reduzir custos e melhorar a qualidade do seu produto. A colheita semimecanizada se adapta bem às lavouras em produção e se baseia no princípio da poda programada ou de ciclo, que já é recomendada e praticada no cultivo dos cafés do tipo canéfora. Na colheita convencional, os frutos são colhidos e, na se-
Fotos Embrapa
cafeicultura tem passado por transformações positivas nos últimos anos. Um exemplo é o estado de Rondônia, onde a área plantada com café canéfora (Robusta e Conilon) foi reduzida em 43%, enquanto a produtividade aumentou aproximadamente 100% nos últimos seis anos. Estas mudanças são o reflexo da renovação gradativa da lavoura cafeeira, que utiliza tecnologias como variedades clonais, irrigação, manejo adequado da poda, solo e nutrição de plantas. Apesar da evolução dos últimos anos, ainda existem muitos desafios a serem superados na produção cafeeira no estado de Rondônia. Os principais gargalos seriam a necessidade constante de melhoria da qualidade dos grãos e a falta de mão de obra no campo, principalmente no período de colheita. A colheita é uma etapa crucial, sendo responsável por aproximadamente 40% do custo de produção. Isto quer dizer que qualquer ação positiva, realizada nessa fase, pode apresentar grande impacto na vida do cafeicultor. Além das
Na colheita semimecanizada os ramos produtivos contendo os frutos são podados e deixados sobre uma lona, colocada nas entre linhas, que é recolhida pela máquina que efetua o processo de trilha, separando os ramos e as folhas dos frutos
40
Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
quência, é efetuada a poda dos ramos que produziram mais de 50% de sua capacidade. Além dos custos, o problema desse método é que a dependência da mão de obra, cada vez mais escassa e onerosa, faz com que os cafeicultores não esperem o ponto ideal de colheita, ou seja, 80% dos frutos maduros. Também é comum a não realização ou o atraso na realização da prática da poda. Como consequência, temos um atraso na recuperação das plantas, ou mesmo um depauperamento com perda gradual de produtividade. Já na colheita semimecanizada existe uma inversão na ordem das operações. Inicialmente, são realizadas as podas dos ramos produtivos contendo os frutos. Estes ramos são deixados sobre uma lona, colocada nas entre linhas, que é recolhida pela máquina que efetua o processo de trilha, separando os ramos e as folhas dos frutos.
As vantagens do sistema de colheita semimecanizada, quando comparado à colheita manual, são muitas. A obrigatoriedade da poda dos ramos produtivos no ato da colheita faz com que a renovação da planta ocorra em tempo hábil e não seja protelada pelo cafeicultor. Existe no sistema semimecanizado menor dependência de mão de obra e o rendimento da operação é muito superior, fazendo com que a colheita possa ser realizada em tempo reduzido. Para se ter uma ideia, a relação de necessidade de mão de obra no sistema semimecanizado é de seis para um, quando comparado ao método manual. Estes fatores reunidos dão ao produtor maior capacidade de gestão do seu tempo durante a colheita e possibilitam que a mesma ocorra no momento ideal. Isto melhora muito o rendimento dos frutos e a qualidade de be-
bida. Além disso, as folhas e os ramos são triturados e descartados durante a colheita, na própria área em produção. Isso possibilita que os nutrientes contidos nessas partes vegetativas retornem ao solo, sejam disponibilizados para as plantas e melhorem as características dos solos por meio do acúmulo de matéria orgânica. Os benefícios da colheita do café no período ideal vão além da qualidade de bebida, dizem respeito ao rendimento dos frutos no momento do beneficiamento. Para se obter uma saca de 60kg de café beneficiado seriam necessários cerca de 22 latões (de 20 litros) de café da roça, se os frutos forem colhidos verdes. Já o produtor que colhe os frutos maduros, precisa de aproximadamente 18 latões para a mesma saca de 60kg. Isso representa um ganho de cerca de 20% em rendimento e peso dos frutos. Considerando-se o
Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
41
Fotos Embrapa
A colheita semimecanizada se adapta bem às lavouras em produção
preço médio de R$ 360,00 para a saca de café beneficiado, representaria um ganho de aproximadamente R$ 72,00 por saca. Do ponto de vista econômico da operação de colheita, nos levantamentos realizados com produtores e em ensaios experimentais, se observou que a diminuição pode variar entre 50% e 70% dos custos obtidos com a colheita manual tradicional no estado. Esta variação está em função dos ajustes das máquinas e das características da lavoura cafeeira como produtividade, arquitetura das plantas, arranjo espacial, entre outros.
COLHEITA SEMIMECANIZADA
Apesar da Embrapa Rondônia ter iniciado trabalhos de pesquisa com a colheita semimecanizada do café em 2013, com pesquisas que envolvem melhoramento de plantas, técnicas de podas e novos arranjos espaciais, a aquisição da primeira máquina para uso em lavoura comercial só ocorreu no final da safra do ano de 2015. Mas o número de adeptos só tem crescido. Atualmente, estão em operação cerca
42
Outubro 2019 • www.revistacultivar.com.br
de 20 máquinas de colheita semimecanizada no estado de Rondônia, sendo consenso entre os usuários de que se trata de uma tecnologia que veio para ficar. Pois são consideradas de preço acessível, variando, de acordo com o modelo, entre R$ 80 mil e R$ 150 mil. E, por não exigir uma adequação prévia da lavoura, possibilita o uso imediato da tecnologia. Se considerarmos que a colheita corresponde a cerca de 40% do custo de produção de uma saca de café beneficiado, e a redução com a colheita semimecanizada de 50%, teríamos uma economia de, aproximadamente, R$ 36,00 por saca (custos baseados no levantamento de Araújo et al, 2017). Isso quer dizer que um produtor, com produção anual de mil sacas pagaria o investimento de aquisição de uma máquina de colheita semimecanizada, no intervalo de dois a quatro anos, apenas com o lucro obtido com a redução de custos. Em Rondônia, são cerca de 22 mil produtores familiares de café, com área média plantada de quatro hectares e produtividade média estimada para a safra de 2017 de 22 sacas por hectare. O uso da colheita semimecani-
zada exige um perfil de produtor mais tecnificado, que não deve corresponder a mais de 10% dos produtores de café no estado. Entretanto, estes produtores poderiam acionar essa tecnologia de colheita de forma terceirizada, ou mesmo por meio da compra coletiva realizada por intermédio de cooperativas, prefeituras e associações. Os ganhos com a aquisição e o uso de tecnologia vão além da redução de custos e fazem parte da evolução contínua da agricultura pela busca de eficiência, qualidade e sustentabilidade. É uma mudança de vida para o produtor, por permitir melhor gestão do seu tempo e induzir o surgimento de novos perfis de trabalhadores rurais, que, até então, não faziam parte do cotidiano da agricultura familiar, como mecânicos, operadores de máquinas, entre outros. O processo de mecanização da lavoura, em seus diversos níveis, é um catalisador da evolução e da busca pela qualidade de vida no campo. Não reduz empregos, gera novas .M possibilidades. Enrique Alves, Embrapa Rondônia
Pesquisador da Embrapa avalia o uso de tecnologia nos cafezais de Rondônia