TRA DU Ç Ã O DE F E RN A NDO SCHEI B E
Copyright © 2008 Éditions Gallimard Copyright da tradução © 2015 Editora Nemo/Vestígio
Título original: Zulu Todos os direitos reservados pela Editora Nemo. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora. Cet ouvrage, publié dans le cadre du Programme d’Aide à Ia Publication 2013 Carlos Drummond de Andrade de la Médiathèque de la Maison de France, bénéficie du soutien du Ministère français des Affaires Etrangères et Européennes. Este livro, publicado no âmbito do programa de auxílio à publicação 2013 Carlos Drummond de Andrade da Mediateca da Maison de France, contou com o apoio do Ministério francês das Relações Exteriores e Europeias.
GERENTE EDITORIAL Arnaud Vin
CAPA © Europa Filmes
EDITOR ASSISTENTE Eduardo Soares
DIAGRAMAÇÃO Christiane Morais Guilherme Fagundes
PREPARAÇÃO Cristina Antunes
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
Férey, Caryl Zulu / Caryl Férey ; tradução Fernando Scheibe. -- 1. ed. -- São Paulo : Vestígio, 2015. Título original: Zulu ISBN 978-85-8286-186-8 1. Ficção francesa I. Título. 15-04145
CDD-843
Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura francesa 843
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PRIMEIRA PARTE
A Mテグ QUENTE
1 – Está com medo, homenzinho?... Diga: está com medo? Ali não respondia – víboras demais na boca. – Está vendo o que está acontecendo, zuluzinho? Está vendo?! Não, não via nada. Tinham-no agarrado pela raiz dos cabelos e puxado até a frente da árvore do jardim para forçá-lo a olhar. Ali, teimoso, enfiava a cara entre os ombros. As palavras do gigante encarapuçado mordiam sua nuca. Não queria levantar os olhos. Nem gritar. O barulho das tochas crepitava em seus ouvidos. O homem apertou o escalpo de Ali em sua mão calejada: – Está vendo, zuluzinho? O corpo balançava, trapo mole, no galho do jacarandá. O torso luzia debilmente sob a lua, mas Ali não reconhecia o rosto: aquele homem pendurado pelos pés, aquele sorriso ensanguentado acima dele, não era o de seu pai. Não, não era ele. Realmente não. Verdadeiramente, não mais. O sjambock1 estalou de novo. Estavam todos ali, reunidos para a lição, os “Feijões verdes” formados para manter a ordem nas townships2, esses negros pagos pelos prefeitos comprados pelo poder, os senhores da guerra, os outros também, que tinham infringido os boicotes e a quem tinham cortado as orelhas: Ali quis implorar, dizer para eles que aquilo não servia para nada, que eles estavam errados, mas sua garganta aspirava o vazio. O gigante não o havia soltado. – Olhe, pequeno: olhe! Seu hálito fedia a cerveja e à miséria do bantustão3: ele bateu ainda, duas vezes, golpes violentos que rasgavam a carne de seu pai, mas o homem pendurado na árvore não reagia mais. Sangue demais perdido. A pele descolada em todos os cantos. Irreconhecível. O real fissurado. Ali, suspenso, visava o outro extremo do céu: não era seu pai, aquilo... Não. 1
Chicote.
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Townships: assentamentos residenciais para negros, localizados fora das cidades. [N.R.]
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Encrave “reservado” aos negros no tempo do apartheid. 11
Torceram-lhe a cabeça como um parafuso, antes de jogá-lo de cara no chão. Ali caiu na grama seca. Não reconhecia os homens a sua volta, os gigantes vestiam meias, capuzes, via apenas a raiva que transpirava dos olhares, suas veias saltadas como rios de sangue. Escondeu a cabeça nas mãos para se refugiar, se encolher, se amarrotar, voltar a ser líquido amniótico... A dois passos dali, Andy fraquejava a olhos vistos. Vestia ainda seu short vermelho de dormir, todo encharcado de urina, e seus joelhos batiam. Tinham amarrado suas mãos nas costas e colocado um pneu em seu pescoço. Os ogros o empurravam, cuspiam em seu rosto, se insultavam entre si; buscavam a fórmula certa, a melhor justificativa para o massacre. Andy olhava para eles, com os olhos fora da órbita. Ali nunca tinha visto seu irmão fraquejar: Andy tinha quinze anos, era o mais velho. É claro que os dois brigavam frequentemente, para o desespero de sua mãe, mas Ali era decididamente pequeno demais para se defender. Preferiam ir pescar, brincar com os carrinhos de arame que construíam. Peugeot, Mercedes, Ford... Andy era um perito. Tinha até montado um Jaguar que eles viram numa revista, um carro inglês que os fazia sonhar. Agora seus joelhos tortos tremiam à luz das tochas, o jardim para onde o tinham arrastado fedia a gasolina e os gigantes brigavam em volta dos galões. Mais adiante, pessoas gritavam na rua, os Amagoduka que vinham do campo e não compreendiam o que estava acontecendo com seus vizinhos – o suplício do colar. Andy chorava, lágrimas negras sobre sua pele de ébano, com seu short vermelho encharcado de medo... Ali viu seu irmão cambalear quando jogaram o fósforo no pneu embebido de gasolina. – Está vendo o que está acontecendo, homenzinho? Está vendo? Um grito, os respingos de petróleo em seu rosto, a silhueta desmantelada de seu irmão que corre, que derrete como um soldado de borracha, e aquele horrível cheiro de queimado... Os pássaros traçavam diagonais impossíveis entre os ângulos da falésia; lançavam-se ao oceano, inventavam suicídios, voltavam, a toda velocidade... Empoleirado no terrapleno que dominava o lugar, Ali Neuman contemplava os cargueiros passando no horizonte. A aurora despontava no cabo da Boa Esperança, laranja e azul no espectro índico. As baleias eram apenas um pretexto de passeio para suas insônias – baleias-corcundas, que, a partir de setembro, vinham brincar na ponta da África... Ali viu uma vez um casal copulando no ar antes de mergulhar junto para uma longa apneia amorosa, depois sair cheio de espuma... A presença das baleias lhe proporcionava um pouco de paz, como se a força delas chegasse até ele. Mas a estação dos amores havia passado – para sempre. A luz do dia varava a bruma sobre o mar e elas não viriam, nem esta manhã nem amanhã. 12
As baleias se escondiam dele. As baleias tinham desaparecido nas águas geladas: elas também tinham medo do zulu... Abandonando o abismo que lhe estendia os braços, Neuman desceu o caminho. O cabo da Boa Esperança estava deserto àquela hora – nem ônibus nem turistas chineses posando comportadamente diante do letreiro mítico. Não havia mais do que a brisa atlântica sobre a mata baixa, os fantasmas familiares que o obsedavam ao amanhecer e a vontade de romper com o mundo. Uma cólera negra. Até os babuínos do parque se mantinham a distância. Neuman caminhou através da mata até a entrada do Table Mountain National Park. O carro esperava do outro lado da barreira, poeirento. O vento do alto-mar o acalmara um pouco. Isso não duraria. Nada durava. Deu a partida sem pensar mais. O importante era aguentar.
2 – Bass! Bass4! Os negros de alpargatas rotas que tinham invadido as muretas de segurança espreitavam uma desaceleração para vender suas mercadorias. A N2 ligava Cape Town a Khayelitsha, sua maior township. Para além de Mitchell’s Plain, construída outrora por mestiços expulsos das zonas brancas, estendia-se uma zona de dunas: foi sobre essa planície de areia que o governo do apartheid decidiu edificar Khayelitsha, “nova casa”, modelo do urbanismo de controle à maneira sul-africana: bem longe do centro da cidade. Apesar da superpopulação crônica, Josephina se recusava a se instalar em outro lugar, nem mesmo nas áreas viabilizadas do Mandela Park, no sul da township, construídas para a classe média negra emergente – por trás de seus sorrisos de cega e de sua bondade crônica, a mãe de Ali era uma terrível cabeça-dura. Foi ali que os dois tinham se refugiado, vinte anos antes, nos velhos bairros que formavam Khayelitsha propriamente dita. Josephina morava numa das core-houses5 de Lindela, o eixo que atravessava a township, e não se queixava disso: muitas vezes, eles eram cinco ou Bass: de boss, chefe.
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Casinhas de alvenaria destinadas a serem aumentadas.
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seis a se amontoar naquele espaço: um quarto, uma cozinha e um banheiro que ela tinha, com o passar dos anos, consentido em ampliar. Josephina era feliz à sua maneira. Tinha água corrente, luz e, graças a seu filho, “todo o conforto com que uma cega de setenta anos podia sonhar”. Josephina jamais sairia de Khayelitsha, e sua obesidade colossal não tinha nada a ver com isso. Ali acabara desistindo. As pessoas do lugar precisavam da experiência dela (Josephina era diplomada em enfermagem), de seus conselhos, de sua fé. A equipe do centro de saúde onde ela trabalhava como voluntária fazia o que podia para cuidar dos doentes e, apesar do que dizia, Josephina não estava completamente cega: embora não visse mais os rostos com precisão, ainda distinguia as silhuetas, que chamava de suas “sombras”... Uma maneira de dizer que estava lentamente deixando a superfície deste mundo? Ali não podia se conformar com isso. Eles eram os únicos sobreviventes da família e não haveria outros. Sua estaca – seu pai – explodiu em pleno voo. Ele só podia contar com sua base – a mãe. Ali trabalhava demais da conta, mas vinha ver Josephina todos os domingos. Ele a ajudava a preencher seus documentos e lhe dava broncas acariciando sua mão: desse jeito iam encontrá-la morta por aí, se ela continuasse a atravessar a township da manhã até a noite. A opulenta mulher ria. Dizia entre duas gargalhadas que estava ficando velha, um verdadeiro estorvo, que logo seria preciso um guindaste para carregá-la, então ele acabava rindo também. Para agradá-la. Um vento quente entrava pelo vidro aberto do carro; Neuman passou o terminal de ônibus de Sanlam Center e entrou na Lansdowne Street. Telhas de amianto, tábuas, portas estragadas, tijolos, ferro-velho, construía-se com aquilo que aparecia no chão, que se encontrava, roubava, trocava; os casebres pareciam montar uns sobre os outros e as antenas emaranhadas sobre os telhados se entredevorar sob um sol de chumbo. Neuman seguiu a estrada de asfalto que levava ao velho bairro de Khayelitsha. Pensava nas mulheres que nunca tinha levado à casa de sua mãe, em Maia, que encontraria depois do almoço dominical, quando um movimento fora do seu ângulo de visão o arrancou de seus devaneios. Freou na frente de um vendedor de cigarros, que não teve tempo de abordá-lo: Neuman recuou uns vinte metros, até o terreno baldio. Atrás das fitas bicolores que delimitavam o canteiro de obras do futuro ginásio, dois rapazes batiam num garoto, um pequeno miserável descarnado que mal conseguia ficar de pé... Neuman suspirou – estava adiantado para a saída da igreja – e abriu a porta do carro. O moleque tinha sido jogado no chão, os outros o enchiam de chutes e tentavam puxá-lo em direção às fundações. Neuman avançou, na esperança 14
de fazê-los fugir, mas os rapazes continuavam a espancá-lo violentamente – dois tatuados de bandana na cabeça, com toda cara de tsotsis6. O menino estava estatelado no chão, corria sangue de sua boca, e não eram seus braços famélicos que iam protegê-lo. O mais velho ergueu a cabeça, vendo Neuman desembarcar no terreno baldio. – O que você quer aqui?! – Deem o fora. O zulu era maior do que os dois tsotsis juntos, mas o mais velho tinha um revólver embaixo de sua camiseta amarelo Brasil. – É você que vai dar o fora – gritou – e rapidinho! O jovem negro apontou a arma para o rosto de Ali, uma Beretta M92 semiautomática, semelhante às da polícia. – Onde arranjou essa pistola? A mão do tsotsi tremia. Os olhos translúcidos. Drogado, decerto. – Onde arranjou essa arma? – repetiu Neuman. – Fora daqui, já disse, ou vou te furar o couro! – Isso mesmo – reforçou seu acólito –, não te mete, sacou?! No chão, o menino segurava a boca, recontando os dentes. – Sou oficial de polícia: entreguem essa arma antes que eu resolva prendê-los. Os dois rapazes trocaram um olhar sulfuroso e algumas palavras em dashiki, o dialeto nigeriano. – Vou explodir tua cabeça, isso sim! – ameaçou o mais velho. – E passar o resto da vida na cadeia bancando a mulherzinha para os chefões – prosseguiu Neuman. – Com essa carinha bonitinha vai engolir muito caralho... Irritados, os dois mostraram os dentes, duas fileiras sujas que mais pareciam trincheiras. – Babaca! – gritou o líder, antes de sair correndo. Seu acólito desapareceu na sequência, mancando acentuadamente... dois drogados visivelmente. Neuman se virou para a vítima deles, mas já não havia mais do que uma papa no chão. O garoto tinha aproveitado para rastejar até as fundações da obra: recuava agora o mais rápido que podia, o nariz ranhento de sangue. – Não tenha medo! Espere! A essas palavras, o menino lançou um olhar aterrorizado para Neuman, tropeçou no cascalho com suas sandálias de pneu e se enfiou num tubo de Gângsteres das townships.
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concreto, onde desapareceu. Neuman se aproximou e avaliou a circunferência do tubo de esgoto – a abertura era estreita demais para que um adulto de sua corpulência pudesse entrar ali... Será que levava a algum lugar? Seu chamado no escuro não teve resposta. Levantou-se, tentando afastar o cheiro de mijo velho. Afora um cão sarnento farejando a água parada das fundações, a obra estava deserta. Não restava mais do que o sol e aquelas gotas de sangue na poeira. A township de Khayelitsha havia mudado desde a ascensão de Mandela ao poder: além de água, luz e ruas asfaltadas, casinhas de tijolo tinham crescido com os prédios administrativos, e as redes de transporte permitiam hoje ir até o centro da cidade. Muitos criticavam a política do “pequeno passo” inaugurada pelo ícone nacional, centenas de milhares de moradias continuavam na miséria, mas era o preço a pagar pelo “milagre sul-africano” – o advento pacífico da democracia num país à beira do caos... Neuman estacionou o carro na frente do pedaço de terra rachada que constituía o jardim de sua mãe. As mulheres do bairro voltavam da missa, faceiras dentro dos vestidos com as cores de suas congregações: procurou Josephina entre os frufrus, só encontrou crianças debaixo das sombrinhas. Bateu empurrando a porta da casa e logo viu a blusa rasgada sobre a cadeira. – Entre! – disse ela adivinhando seu passo na entrada. – Entre, campeão. Ali encontrou sua mãe na cama desfeita do quarto, uma enfermeira debruçada sobre ela. Grandes pérolas de suor escorriam sobre sua testa, mas Josephina sorriu ao ver sua silhueta na porta. – Você está aqui... Ele pegou a mão que ela lhe estendia e sentou na beira da cama. – O que houve? – perguntou ele, preocupado. Os olhos de sua mãe cresceram como se ele estivesse em toda parte. – Não faça essa cara – disse ela com doçura. – Fica menos bonito quando está bravo. – Pensava que estivesse cega... Então? – Sua mãe teve um desmaio – anunciou a enfermeira do outro lado da cama. – A pressão está boa, mas não a excite: ainda está sob o efeito do choque. Myriam era uma jovem beleza de vinte anos, uma xhosa de olhos de cedro. Mas Neuman mal reparou em sua presença: – Vai me dizer o que aconteceu, sim ou não? Josephina tinha trocado seu vestido chique por uma velha túnica de usar dentro de casa, perfeitamente indigna de um domingo na igreja. – Foi agredida? – Pfff. 16
A matrona fez um gesto de enfado, como se sua mão enxotasse moscas. – Sua mãe foi atacada esta manhã – retomou Myriam –, quando estava indo para a igreja: o agressor a derrubou ao puxar sua bolsa. Encontraram-na desmaiada no meio da rua... – Fiquei acima de tudo surpresa – confirmou a interessada, batendo de leve na mão de seu filho. – Mas não esquente a cabeça: mais medo que dor! Myriam cuidou de tudo... Ali suspirou. Entre suas múltiplas atividades, Josephina fazia parte de um comitê de rua encarregado de resolver problemas familiares, de arbitrar as brigas, substituindo em parte as autoridades locais. Todos sabiam que seu filho era o chefe da polícia criminal de Cape Town: atacá-la era estender a garganta para aquele tigre do seu filho. Enquanto isso, Josephina repousava sobre os lençóis brancos da cama com dossel – velha extravagância de princesa zulu. O rosto de um preto desbotado e o pobre sorriso no meio da cara suada não o convenceram muito. – Esse imbecil podia ter quebrado seus ossos – disse ele. – Sou gorda, mas sólida. – Uma força da natureza, especializada em desmaios – comentou ele. – Onde está doendo? – Nenhum lugar... Sério! Ela agitava seus galhos como uma velha árvore ao vento. – Seu filho tem razão – disse Myriam, guardando seus utensílios. – Agora faria melhor em descansar. – Pfff... – Foi só um ou foram vários agressores? – perguntou ele. – Oh! Ah! Só um: e já foi mais do que suficiente! – O que ele roubou? – Só minha bolsa... Também arrancou minha blusa, mas não importa: era uma velha! – Muita sorte a sua! Pela janela, a meninada do bairro olhava com admiração o carro do policial e ria. Myriam fechou as cortinas, mergulhando o quartinho na penumbra. – A que horas foi isso? – continuou Neuman. – Pelas oito – respondeu Josephina. – É um pouco cedo para ir à igreja. – É que... ia primeiro na casa dos Sussilu, para nossa reunião mensal... Eu é que estava com a tontina... Sessenta e cinco rands7. 7
Um rand = quarenta e cinco centavos de real aproximadamente. 17
Sua mãe colaborava ainda com diversas associações, círculos de poupança, ajudas ao financiamento de enterros, a associação das mães da paróquia... – tantas que ele se perdia. Neuman franziu as sobrancelhas – já passava das dez da manhã: – E como é que ninguém me avisou? – Sua mãe não deixou – respondeu a enfermeira. – Não queria alarmá-lo por nada – justificou-se Josephina. – Nunca ouvi algo mais estúpido... Falou ao menos com os policiais da township? – Não... não, tudo aconteceu muito rápido, sabe. O agressor chegou por trás, puxou minha bolsa e eu caí desmaiada... Foi um vizinho que me encontrou. Mas já fazia tempo que o outro tinha ido embora. – Isso não explica por que nenhum policial veio interrogá-la. – Eu não prestei queixa. – Ora essa! – Ela não escuta nada do que lhe dizem – confirmou Myriam. – Conhece-a um pouco, não? Na verdade, era Ali que não escutava: – Posso saber por que não prestou queixa? – Olhe para mim: estou bem! A risada de Josephina sacudiu a cama, fazendo tremer seus enormes seios. A agressão, a queda, o desmaio, tudo lhe parecia já um outro continente. – Talvez haja testemunhas – prosseguiu Neuman. – E seu depoimento a ser tomado. – O que uma velha cega pode dar como indício à polícia?! Além disso, sessenta e cinco rands, não vale a pena todo esse trabalho. – Isso não é mais caridade cristã, é inconsequência. – Querido – enterneceu-se a matrona. – Meu pequeno... Ali a cortou: – Não é porque é cega que não vejo suas manhas – insinuou ele. Sua mãe tinha radares nas pontas dos dedos, captadores sensoriais nas orelhas e olhos atrás da cabeça. Morava no bairro havia mais de vinte anos, conhecia as pessoas, as ruas, os becos: certamente tinha uma ideia da identidade de seu agressor e sua propensão a minimizar a agressão de que havia sido vítima lhe dizia que ela tinha uma boa razão para isso... – Então? – Eu não queria ser chata, senhor Neuman – disse a enfermeira –, mas sua mãe acaba de tomar um sedativo e ele vai começar a fazer efeito. – Falo com você lá fora – disse ele para ejetá-la. 18
Myriam ergueu suas sobrancelhas, impecáveis arabescos, e empunhou sua sacola. – Voltarei à noite – disse para Josephina. – Até lá, trate de descansar: entendeu? – Obrigada, minha filha – agradeceu a velha de sua cama com dossel. Era a primeira vez que Myriam encontrava seu filho adorado. Um corpo esbelto, forte, traços finos e regulares sob um crânio quase raspado, um olhar elegante, sombrio e penetrante, lábios maravilhosos: exatamente o retrato que sua mãe fazia dele... Ali esperou que a jovem xhosa saísse para acariciar a mão de sua cabeça-dura preferida. – O cara que agrediu você – disse ele, seguindo a linha das veias dela –, você o conhece, né? Josephina fechou os olhos sem deixar de sorrir. Quis mentir, mas a mão dele estava tão quente na sua... – Conhece, né? – insistiu ele. Ela suspirou no fundo de sua cama, como se o passado fosse presente – Ali tinha as mesmas mãos que seu pai... – Eu conhecia a mãe dele – confessou afinal. – Nora Mceli... Uma amiga da Mary. Mary era a prima que os acolheu em Khayelitsha quando fugiram do bantustão do KwaZulu. Quanto a sua amiga Nora Mceli, ela era uma sangoma, uma curandeira, que o tratara de uma terrível angina: Ali se lembrava de uma africana com olhar de bode furioso que, depois de muitas concocções, arrancou a bola de fogo que consumia sua garganta. – Perdemo-nos de vista quando Mary morreu, mas Nora tinha um filho – prosseguiu Josephina. – Estava com ela no enterro: Simon... Não lembra? – Não... Foi ele, Simon, quem a agrediu? Josephina anuiu, quase envergonhada. – Sua mãe ainda pratica? – Não sei – respondeu ela. – Nora e Simon deixaram a township há alguns meses, pelo que me disseram. A última vez que os vi foi no enterro de Mary. Simon devia ter nove anos naquela época: um menino gentil, de saúde frágil. Cuidei dele uma vez na enfermaria. O coitado tinha um sopro no coração, crises de asma... Nem Nora conseguia curá-lo. Talvez tenha sido por isso que deixaram a township... Ali – retomou ela, apertando mais forte sua grande mão de homem –, Nora Mceli nos ajudou quando precisávamos. Não posso prestar queixa contra seu filho: entende? Além disso, para atacar uma velha como eu, deve-se estar realmente sem recursos, não? – Ou ser o último dos covardes – disse ele entre os dentes. 19
Josephina sempre tinha boas desculpas para todo mundo. Sermões demais a faziam perder a razão. – Tenho certeza de que Simon não se lembra mais de mim. – Isso me surpreenderia. Com seus vestidos brancos de frufrus, sua corpulência e sua bengala, Josephina passava tão desapercebida quanto uma aurora boreal. Olhou para os bibelôs de três tostões na mesa de cabeceira, as fotos dele que só ela tinha, o ossário fumegante que encerrava o mundo deles. – Simon estava sozinho quando a agrediu? – Sim. – Ele faz parte de um bando? – Foi o que me disseram. – O que, exatamente, lhe disseram? – Só que ele andava com outros meninos de rua... – Onde isso? – Não sei. Mas se ele está vagando nas ruas como disseram, é porque deve ter acontecido alguma coisa ruim com sua mãe. Ele concordou suavemente. Josephina bocejou involuntariamente, mostrando seus raros dentes ainda válidos. Os sedativos começavam a fazer efeito... – Bom, vou ver o que se pode fazer... (Ali beijou-a na testa). Agora durma. Passo no fim da tarde para ver como você está. A velha riu, ao mesmo tempo desolada e feliz por receber tanta atenção. Neuman ajeitou as cortinas para deixar o quarto escuro. – A propósito – sussurrou ela –, o que acha da pequena Myriam? A jovem enfermeira esperava na frente da casa, silhueta graciosa no azul pintado. – Um verdadeiro canhão – disse ele.
3 Oscar e Josephina tiveram seu segundo filho logo depois do combate histórico de Kinshasa, em novembro de 1973. Naquela noite, num caos indescritível, Mohamed Ali, o boxeador convertido ao islã, enfrentou George Foreman, julgado invencível por todos. O que estava em jogo no combate não era tanto o cinturão de campeão mundial dos pesos-pesados quanto a afirmação da identidade negra e a prova, pelos punhos, de que a luta pela defesa de seus direitos não era vã. Mohamed Ali, que tinha boxeado muito 20
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