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Vozes Negras em Comunicação - Mídia, racismos, resistências

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VOZES NEGRAS EM COMUNICAÇÃO Mídia, racismos, resistências Laura Guimarães Corrêa (Org.) Angélica M. Souza Cristiano Rodrigues Edilene Lopes Elton Antunes Francisco Leite Laura Guimarães Corrêa Lucianna Furtado Márcia Maria Cruz Maria Aparecida Moura Mayra Bernardes Pablo Moreno Fernandes Rodrigo Ednilson de Jesus Rosane Borges Shakuntala Banaji Viviane Gonçalves Freitas


VOZES NEGRAS EM COMUNICAÇÃO Mídia, racismos, resistências Laura Guimarães Corrêa Organizadora Angélica M. Souza Cristiano Rodrigues Edilene Lopes Elton Antunes Francisco Leite Laura Guimarães Corrêa Lucianna Furtado Márcia Maria Cruz Maria Aparecida Moura Mayra Bernardes Pablo Moreno Fernandes Rodrigo Ednilson de Jesus Rosane Borges Shakuntala Banaji Viviane Gonçalves Freitas


Copyright © 2019 Laura Guimarães Corrêa Copyright © 2019 Autêntica Editora Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

coordenadora da coleção

revisão

Nilma Lino Gomes

Bruna Emanuele Fernandes Mariana Faria

conselho editorial

Marta Araújo (Universidade de Coimbra); Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva (UFSCAR); Renato Emerson dos Santos (UERJ); Maria Nazareth Soares Fonseca (PUC Minas); Kabengele Munanga (USP)

capa

Alberto Bittencourt (Sobre imagem de Freepik) diagramação

Waldênia Alvarenga

editoras responsáveis

Rejane Dias Cecília Martins

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Vozes negras em comunicação : mídias, racismos, resistências / Laura Guimarães Corrêa, organizadora. -- 1. ed.-- Belo Horizonte : Autêntica, 2019. -- (Coleção Cultura Negra e Identidades) Vários autores. Bibliografia. ISBN 978-85-513-0722-9 1. Brasil - Relações raciais 2. Comunicação - Aspectos sociais 3. Comunicação social 4. Feminismo - Brasil 5. Mídia 6. Negros - Brasil - Condições sociais 7. Negros - Brasil - Identidade racial 8. Racismo I. Corrêa, Laura Guimarães. II. Série. 19-31499

CDD-302.2381

Índices para catálogo sistemático: 1. Brasil : Vozes negras : Comunicação social : Sociologia 302.2381 Maria Alice Ferreira - Bibliotecária - CRB-8/7964

Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500 www.grupoautentica.com.br

São Paulo Av. Paulista, 2.073 . Conjunto Nacional Horsa I . 23º andar . Conj. 2310-2312 Cerqueira César . 01311-940 . São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468


SUMÁRIO

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Prefácio Claudia Bernard

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Por um olhar opositor e um agir impedante Laura Guimarães Corrêa

PARTE 1 APROXIMAÇÕES PARA O ESTUDO DE COMUNICAÇÃO E RAÇA

Mídias, racismos e outras formas de destituição: elementos para o reposicionamento do campo da comunicação Rosane Borges

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Racismo e orientalismo: o papel da mídia Shakuntala Banaji

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PARTE 2 TRANSVERSALIDADES ESTÉTICAS E POLÍTICAS

Semioses decoloniais: afrofuturismo, performance e o colapso do privilégio branco Maria Aparecida Moura

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As vozes de mulheres negras em três tempos Cristiano Rodrigues e Viviane Gonçalves Freitas

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Jornalistas negros: como a experiência da negritude pauta a atuação nas redações em Minas Gerais Márcia Maria Cruz e Edilene Lopes

113 O amor tem cor? O uso do Facebook como estratégia de letramento racial e de reexistência Rodrigo Ednilson de Jesus

PARTE 3 RACISMOS MIDIATIZADOS E POSSÍVEIS RESISTÊNCIAS 133 “É a representação da miscigenação, parem de problematizar”: o racismo na circulação midiática da campanha de natal Chester Perdigão Pablo Moreno Fernandes 153 Publicidade “tombamento”: entre as tentativas de refletir e refratar a realidade racial brasileira na mídia Francisco Leite e Angélica M. Souza 183 “Feminismo das preta”: tensões, conflitos e negociações nas enunciações do rap Lucianna Furtado e Elton Antunes 203 “Quem tem um não tem nenhum”: solidão e sub-representação de pessoas negras na mídia brasileira Laura Guimarães Corrêa e Mayra Bernardes 221 Sobre as autoras e os autores


Prefácio Claudia Bernard Tradução: Cristiano Rodrigues e Laura Guimarães Corrêa

Vozes negras em comunicação: mídia, racismos, resistências é um livro inovador que oferece uma exploração interdisciplinar da relevância da raça, do racismo e da hierarquia racial nos estudos de comunicação e mídia no Brasil. Este oportuno livro torna visíveis vozes e temas invisibilizados e marginalizados, propostos por acadêmicos(as) e pesquisadores(as) negros(as) no campo dos estudos de comunicação. A obra questiona aspectos amplos da comunicação através de lentes antirracistas e está ancorada no paradigma interseccional, convidando leitoras e leitores a interrogar como sistemas interligados de desigualdades se manifestam para uma compreensão mais complexa e matizada das práticas comunicacionais. A principal característica distintiva deste livro é que ele articula uma análise sobre raça e suas interseções com outros eixos de identidades, como classe social, gênero e sexualidade, para auxiliar a iluminar os debates sobre uma ampla gama de tópicos, incluindo feminismos negros e ativismo, o Oriente, raça e identidades, midiatização do consumo, imprensa negra, afrofuturismo, representação de pessoas negras na mídia brasileira – para citar apenas alguns. Cada capítulo oferece ricas fontes de conhecimento, que trazem insights críticos que poderão trazer contribuições para o trabalho de intelectuais, estudantes e profissionais da área de comunicação. Ao enfatizar a importância das análises interseccionais, autoras e autores deste livro fornecem algumas ferramentas críticas que investigam o contexto social, cultural e político dos estudos de comunicação. Além disso, políticas de gênero, teorias e ativismos antirracistas são desvendados para ampliar o entendimento acerca das construções raciais no campo dos estudos da comunicação no Brasil. As contranarrativas desenvolvidas neste 7


livro são dignas de nota por dar visibilidade a questões significativas que se manifestam nas realidades cotidianas das pessoas negras, que precisam percorrer um terreno desigual, no qual ou são representadas de maneira racialmente estereotipada ou definidas como o Outro. Este livro é importante e inspirador não apenas por abrir um espaço discursivo, mas também por propiciar que profissionais de mídia e comunicação desafiem e resistam, além de propor discussões sobre formas alternativas de produção de conhecimento e compreensão dos sistemas de desigualdades que estruturam as experiências vividas por negras e negros no Brasil. Por fim, o mais importante: ao examinar vários fatores que são essenciais para o desenvolvimento de perspectivas críticas sobre raça e racismo nos estudos de comunicação, Vozes negras em comunicação subverte discursos dominantes e amplia o conhecimento acadêmico. Em suma, cumprimento os(as) autores(as) reunidos(as) neste livro por sua importante contribuição para a crescente literatura sobre essa temática, que desempenhará um papel fundamental para as análises e estudos de comunicação. Os(as) intelectuais presentes nesta obra certamente farão avançar a pesquisa na área, ao desempenhar um papel crítico e ao cultivar perspectivas interseccionais para os estudos de comunicação e mídia, o que é essencial para se descolonizar o currículo escolar e o ensino.

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Por um olhar opositor e um agir impedante Laura Guimarães Corrêa

A publicação deste livro busca fomentar e aprofundar discussões no campo da pesquisa em comunicação, raça e interseccionalidade, por meio de reflexões de intelectuais negras e negros envolvidos na investigação sobre questões raciais e práticas comunicativas midiatizadas. As autoras e os autores cujos textos compõem esta publicação vêm também de áreas próximas e afins à comunicação social, como a ciência política, a pedagogia, a sociologia, entre outras. Ao longo dos capítulos, esses(as) intelectuais e/ ou profissionais nos apresentam perspectivas, teorias, estudos de caso e ferramentas conceituais para o pensamento sobre a mídia e as interações sociais contemporâneas, com foco nas questões raciais. Seus textos tratam de temas e conceitos diversos, como identidades e representações, pensamento decolonial, paradigma interseccional, racismos e antirracismos, táticas criativas, políticas e estéticas de resistência, imprensa negra, ambivalências das imagens e representações na mídia tradicional. Não só as perspectivas são diversas, mas também os lugares e as plataformas para onde esses(as) pesquisadores(as) olham são variados: as redes sociais on-line, como o Facebook, os noticiários televisivos, as redações da imprensa comercial, a cena artística global, a arte, a publicidade, a moda, a música, o clipe. A discussão sobre comunicação e mídia tem figurado, há décadas, em reflexões de pioneiros(as) dos estudos sobre raça no Brasil; intelectuais e ativistas têm atuado fortemente na denúncia do racismo nas construções midiáticas. O pensamento de mulheres negras brasileiras sobre a sociedade, assim como a crítica às construções de sentido midiatizadas, não começa hoje: é anterior, inclusive, à invenção do conceito de interseccionalidade. Reconhecido esse legado, um olhar para o contemporâneo mostra um crescimento 9


evidente do interesse em pesquisa sobre comunicação, racismo e antirracismo no Brasil, resultado de árduas batalhas e de políticas públicas no âmbito da educação. Cada vez mais, tem-se considerado a interseccionalidade das categorias de poder como articulação estruturante das desigualdades brasileiras. Podemos ver, nos últimos anos, sinais de que o interesse na relação entre comunicação e raça tem crescido: observamos com alegria que essa articulação, tão crucial para compreender a realidade brasileira, emerge com potência em eventos acadêmicos, em cursos de graduação e pós-graduação, nas discussões em sala de aula, em publicações recentes. Há, no país, importantes autores, negros(as) e brancos(as), com trajetórias consolidadas e reflexões sobre raça, mas essas questões têm sido tratadas com certa timidez nos lugares estabelecidos para a pesquisa em comunicação, como as associações e os eventos da área. É importante lembrar que ainda não existem, por exemplo, grupos de trabalho nos principais congressos e eventos de comunicação que se dediquem de maneira mais específica às questões étnico-raciais. Ainda há muito a se fazer, pensar e produzir. A formalização, em 2018, no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq, do Coragem (Grupo de Pesquisa em Comunicação, Raça e Gênero da UFMG), vem marcar um dos lugares dedicados à pesquisa das práticas comunicativas, principalmente as midiáticas, a partir do paradigma interseccional, de teorias e conceitos propostos por autores(as) pertencentes ou advindos(as) de grupos subalternizados da sociedade. A publicação deste livro, inclusive, é uma das ações do Coragem. Para a escrita deste livro, que é uma das realizações do Coragem, os(as) autores(as) foram convidados(as) a pensar sobre questões raciais e sua relação com a comunicação em suas várias facetas. A diversidade de abordagens e temáticas é reveladora da riqueza epistemológica e da potência desse campo de conhecimento, ainda pouco explorado. Acreditamos que esta publicação irá contribuir para enriquecer a bibliografia de cursos de graduação em Comunicação, Jornalismo, Publicidade, Relações Públicas, Audiovisual, Pedagogia, Sociologia, Ciência Política, Ciência da Informação, Artes, entre outros. Este livro pretende trazer, também, contribuições para estudantes que empreendem pesquisas de pós-graduação relacionadas a questões raciais, além de dialogar com docentes interessados(as) nas reflexões sobre raça, racismo, sexismo e outras formas de opressão. Com esta publicação, queremos dialogar também com profissionais da área que desejem refletir sobre as práticas discursivas no campo da comunicação midiática. Nesse 10


trabalho conjunto, pretendemos fomentar a observação de sentidos circulantes na sociedade, refletir sobre desigualdades, racismo, violências físicas e simbólicas; assim como olhar para as necessárias e potentes transformações. O importante geógrafo e intelectual Milton Santos disse uma vez que a “luta dos negros só pode ter eficácia se envolver todos os brasileiros, inclusive os negros, mas não só os negros”.1 Nilma Lino Gomes, professora emérita da UFMG e figura de destaque na luta antirracista, afirma que “refletir sobre a questão racial brasileira não é algo particular que deve interessar somente às pessoas que pertencem ao grupo étnico/racial negro”. Ela defende que a questão racial é social, política e cultural, de interesse de todos(as) os(as) brasileiros(as). Pensando de forma global, a questão é “[…] também mundial quando ampliamos a nossa reflexão sobre as relações entre negros e brancos, entre outros grupos étnico-raciais, nos diferentes contextos internacionais. Enfim, ela é uma questão da humanidade”.2 Com abordagens e objetos variados e, ao mesmo tempo, convergentes, este conjunto de textos é dividido em três partes: 1) “Aproximações para o estudo de comunicação e raça”; 2) “Transversalidades estéticas e políticas”; e 3) “Racismos midiatizados e possíveis resistências”. Menos do que uma divisão, essa organização tem o objetivo de traçar relações e sugerir conexões entre os capítulos que compõem essas partes, mas não constituem obrigatoriamente uma ordem de leitura. Seja por afinidade teórica, por referências em comum, seja pela proposta argumentativa, essas vozes negras estão em comunicação, em diálogo. A Parte 1, “Aproximações para o estudo de comunicação e raça”, traz discussões teórico-epistemológicas relacionadas ao campo da comunicação, que buscam refletir sobre as implicações e a importância de se pensar as conexões entre mídia e racismo. O primeiro texto da seção, “Mídias, racismos e outras formas de destituição: elementos para o reposicionamento do campo da comunicação”, consiste numa instigante reflexão da pesquisadora Rosane Borges, que se/nos pergunta sobre a (im)possibilidade de pensarmos em vínculos na contemporaneidade sem a adoção de perspectivas plurais. 1

Palestra proferida pelo professor Milton Santos e transcrita por Cristiano das Neves Bodart. Sem data. Disponível em: <https://bit.ly/2KxYu6b>. Acesso em: 12 set. 2019.

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GOMES, N. L. Alguns termos e conceitos presentes no debate sobre relações raciais no Brasil: uma breve discussão. In: BRASIL. Ministério da Educação – Secretaria de Educação Continuada (MEC/SECADI). Educação anti-racista: caminhos abertos pela Lei Federal nº 10.639/03. Brasília, MEC/SECADI, 2005. p. 39-62. 11


A autora entende raça e racismo como categorias que renovam as práticas midiáticas e questionam a comunicação em suas múltiplas faces. No segundo capítulo, “Racismo e orientalismo: o papel da mídia”, Shakuntala Banaji apresenta definições para os conceitos de racismo, orientalismo, estereótipos e auto-orientalismo. Adotando uma acepção abrangente de Oriente baseada em Edward Said e articulando aportes teóricos de importantes autores(as), como hooks, Gramsci, Fanon e Foucault, a pesquisadora reflete sobre as implicações e efeitos do racismo na mídia como força que legitima a discriminação e a violência raciais no contexto pós-colonial. A Parte 2 do livro tem como título “Transversalidades estéticas e políticas” e conta com quatro capítulos de autoras e autores que dialogam de forma inter e transdisciplinar com o campo da comunicação, enriquecendo as reflexões sobre raça, gênero e práticas midiáticas. No primeiro texto da seção, o capítulo “Semioses decoloniais: afrofuturismo, performance e o colapso do privilégio branco”, Maria Aparecida Moura, professora titular nas áreas de ciência da informação, semiótica, comunicação, entre outras, reflete sobre fenômenos estéticos de resistência. Ela entende que o esforço empreendido historicamente pelo ativismo negro em escala global permitiu a produção atual de conhecimento contra-hegemônico e a sua transformação em dispositivo reflexivo, dinâmico e decolonial. No segundo capítulo da seção, “As vozes de mulheres negras em três tempos”, Cristiano Rodrigues e Viviane Gonçalves Freitas, pesquisadores da ciência política, analisam os repertórios discursivos e os enquadramentos interpretativos sobre gênero e raça em três experiências e períodos distintos na imprensa feminista negra, discutindo suas continuidades, rupturas, semelhanças e diferenças a partir do paradigma interseccional. O capítulo seguinte, “Jornalistas negros: como a experiência da negritude pauta a atuação nas redações em Minas Gerais”, de autoria das jornalistas e pesquisadoras Márcia Maria Cruz e Edilene Lopes, surge da constatação da inexistência de dados oficiais sobre profissionais negros nas redações. Utilizando-se de entrevistas com profissionais, as autoras apresentam reflexões sobre as formas, desafios e espaços para se pautar a temática racial na imprensa comercial. O capítulo que fecha a Parte 2 é de autoria do sociólogo e pesquisador da educação Rodrigo Ednilson de Jesus. Em “O amor tem cor? O uso do Facebook como estratégia de letramento racial e de reexistência”, o autor utiliza o conceito e letramento racial e parte de um inventivo experimento 12


didático com dados coletados no Facebook para discutir a tendência endogâmica das relações amorosas, que contradiz a ideia de uma “nação mestiça” apoiada no mito da democracia racial. Já a Parte 3 do livro, “Racismos midiatizados e possíveis resistências”, é composta por quatro capítulos que tematizam e investigam, a partir de material empírico, a relação entre a comunicação midiática e as desigualdades de raça e gênero. No primeiro deles, “‘É a representação da miscigenação, parem de problematizar’: o racismo na circulação midiática da campanha de natal Chester Perdigão”, Pablo Moreno Fernandes, pesquisador da área da publicidade, apresenta um estudo de caso sobre as discussões que circularam em torno da representação de pessoas negras e brancas na publicidade brasileira, observando filmes publicitários, portais jornalísticos e sua reverberação no YouTube. “Publicidade ‘tombamento’: entre as tentativas de refletir e refratar a realidade racial brasileira na mídia”, segundo capítulo dessa seção, consiste em uma reflexão dos pesquisadores Francisco Leite e Angélica M. Souza, apoiada nos estudos teóricos da midiatização do consumo, sobre como a comunicação publicitária vem refletindo e refratando os discursos em circulação da chamada “geração tombamento”, entendida como movimento de valorização da estética negra como ato político. Em “‘Feminismo das preta’: tensões, conflitos e negociações nas enunciações do rap”, Lucianna Furtado e Elton Antunes investigam e discutem, a partir de perspectiva interseccional, o videoclipe de “Mandume”, de Emicida, compreendendo o rap como produção cultural articuladora da multilocalidade da diáspora negra. Furtado e Antunes elegem para análise o solo de Drik Barbosa na música, identificando, em suas falas, reivindicações políticas do feminismo negro. No capítulo que fecha o livro, “‘Quem tem um não tem nenhum’: solidão e sub-representação de pessoas negras na mídia brasileira”, Laura Guimarães Corrêa e Mayra Bernardes tratam do fenômeno da(o) Negra(o) Única(o) em produtos midiáticos, tensionando essa sub-representação com situações relatadas por pessoas negras em lugares geralmente ocupados pela branquitude. As autoras exploram as ideias de representação e representatividade, a fim de pensar práticas e processos discursivos na comunicação. A perspectiva crítica deve considerar que a mídia não está descolada da sociedade, que a comunicação é instância constituinte e, ao mesmo tempo, constituída pela realidade social e, por isso, lugar de embates, de movimentos 13


e de invenções. Essas práticas criativas surgem de um “olhar opositivo”, expressão da feminista negra bell hooks, que afirma que aprendemos a olhar de certo modo como forma de resistência. Contra o racismo na sociedade, que se (re)produz na comunicação midiática, é preciso resistir ativamente, numa espécie de impedância, conceito ressignificado pelo colega pesquisador Pablo Saldanha, da física (UFMG), e que quer dizer “a propriedade de um circuito elétrico que impede uma tensão externa de produzir uma corrente devastadora no circuito, destruindo os seus elementos. A impedância total é uma combinação de suas partes resistiva e reativa”.3 Seguindo com essa apropriação conceitual, Rodrigo Ednilson de Jesus, um dos autores deste livro, diz que a “população negra no Brasil, assim como os grupos populares, o indígena, o quilombola, nunca foi um povo só de resistência, foi um povo de impedância. Porque, se não fosse essa força ativa para superar as desigualdades e para construir alternativas novas, ele não teria resistido”.4 Assim, em tempos de intolerância e de ameaças à humanidade das chamadas “minorias”, propomos uma prática impedante. E esperamos que a leitura deste livro traga reflexões e subsídios para mais conversas e ações que incidam de forma positiva nas transformações das relações raciais, hierarquizadas na mídia e na sociedade, de modo mais abrangente. Por último, mas não menos importante, agradeço a todas as pessoas que viabilizaram e apoiaram a realização deste livro, especialmente: à Lucianna Furtado e à Mayra Bernardes pela contribuição e a parceria de sempre; à Pâmela Guimarães-Silva, pelo auxílio no início do projeto; ao Pablo Moreno Fernandes e ao Cristiano Rodrigues, pelo apoio na leitura e na tradução, à Poliana Pinto. À Nilma Lino Gomes, pela confiança. Às autoras e aos autores, pelas ricas contribuições. E, principalmente, a quem veio antes de nós, abrindo caminhos para essas reflexões.

Trecho retirado de comunicação pessoal entre os pesquisadores Paulo Saldanha e Laura Guimarães Corrêa recebida por guimaraes.laura@gmail em 5 de dezembro de 2018.

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Trecho da fala de Rodrigo Ednilson em: SER NEGRO NO BRASIL. Como é ser negro no Brasil. Belo Horizonte: TV Sinpro Minas, 24 maio 2019. (Programa de TV.). Disponível em: <https://bit.ly/37jggUL> Acesso em: 23 ago. 2019.

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