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Virginia lê Joyce (Capa Dura)

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Virginia lê Joyce

Org. e trad. Tomaz Tadeu

Virginia lê Joyce

organização e tradução Tomaz Tadeu

II. No rastro da leitora

I. Introdução

Virginia leu Joyce? O que sabemos sobre isso? Se James Joyce e suas obras, sobretudo Ulysses, aparecem com frequência no diário e nas cartas, a referência ao escritor irlandês é bem menor em seus ensaios. Ele figura, centralmente, no ensaio “Os romances modernos” (“Modern Novels”), que foi publicado em The Times Literary Supplement de 10 de abril de 1919. Ele aparece novamente, em 1925, no ensaio “A ficção moderna” (“Modern Fiction”) – no livro O leitor comum (The Common Reader I) – que é uma versão ligeiramente modificada de “Os romances modernos”. Mais adiante, Joyce e Ulysses são mencionados no ensaio “A personagem na ficção” (“Character in Fiction”), publicado na revista The Criterion, em julho de 1924. Joyce aparece aí como um dos escritores que ela chama de georgianos, ou seja, modernos, que se centram na interioridade de seus personagens, em contraste com os antigos, ou seja, os eduardianos, que enfatizam a exterioridade. Ela não deixa, entretanto, de chamar a atenção para o seu alvo preferido, a suposta indecência do irlandês: “Assim, se for ler o sr. Joyce ou o sr. Eliot, você ficará chocado pela indecência de um e pela falta de clareza do outro”. E ela vai adiante, qualificando a acusação mais séria e repetitiva

de Deus, faça amizade com Joyce. Eu, em particular, quero saber como ele é” (carta de 20 de fevereiro de 1922).

O que era Joyce para Virginia? Um objeto de amor e ódio. De amor, pela obra admirável que ele estava criando, embora ela não conseguisse confessá-lo diretamente. De ódio, porque ele estava escrevendo algo que ela não podia escrever, não por faltar-lhe capacidade literária, obviamente, mas porque se tratava de outra maneira, não maior, nem melhor, de deixar a era eduardiana para trás e entrar na georgiana, para usar sua nomenclatura. Joyce, por sua vez, se comprazia em reproduzir, em seus livros, sobretudo em Ulysses, trechos de seus críticos, transcritos ao seu bel prazer. Virginia foi contemplada com pelo menos uma frase de Joyce, ou, talvez, mais frases, como quer Kelly Anspaugh (ver a seção “Joyce leu Virginia?”). Dois grandes do romance moderno, afinal, aqui se encontram.

Quanto à leitura de Joyce por Virginia, restrita a Ulysses, sabemos por um de seus cadernos de anotações, conhecido como “Os romances modernos (Joyce)” (“Modern Novels (Joyce)”), reproduzido neste livro, que ela lera os sete primeiros episódios, na versão publicada na revista americana The Little Review, entre março de 1918 (episódio 1) e outubro de 1918 (episódio 7).

E também sabemos que ela leu o livro inteiro, na edição de 1922, de Shakespeare and Company, como ela registra no diário, em 16 de agosto de 1922: “Eu deveria estar lendo Ulysses e preparando minha causa, a favor e contra. Li, até agora, 200 páginas – menos de um terço; e fui entretida, estimulada, cativada e atraída pelos 2 ou 3 primeiros episódios – até o fim da cena do Cemitério; e, depois, desconcertada, entediada, irritada e decepcionada

[...]. Cravo uma estaca no chão para marcar a página de número 200”. Em 6 de setembro do mesmo ano, ela registra: “Terminei Ulysses e acho que é um tiro falho”. Eis aqui, pois, o intenso debate interior que Virginia teve com Joyce. No fundo e no fim, eles tinham mais em comum do que apenas as suas datas, quase coincidentes, de nascimento e morte. Foram, os dois, centrais – no que tange aos países de língua inglesa da Europa – na passagem da narrativa antiga para a moderna.Virginistas, joycistas ou ambos, temos nós o privilégio de desfrutar do gênio e da inventividade dos dois.

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