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Vida de Henry Brulard

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o entrar no salão e ver o caixão coberto com o tecido negro onde estava minha mãe, fui tomado do mais violento desespero, eu compreendia enfim o que era a morte.

V I DA D E HENRY BRULARD

STENDHAL, cujo verdadeiro nome era Henri-Marie Beyle, foi um escritor francês nascido em Grenoble em 1783 e falecido em Paris em 1842. Quando jovem, acompanhou o exército napoleônico, em funções administrativas, nas campanhas da Alemanha, Rússia, Áustria e Itália. Viveu a maior parte de sua vida adulta na Itália, apaixonado pela cultura e pela vida no país. É um dos maiores escritores não só da língua francesa, mas de toda a literatura, estando ao lado de autores como Flaubert e Balzac. Suas obras mais conhecidas, suas obras-primas, são os romances O vermelho e o negro (1830) e A cartuxa de Parma (1839). Entre suas outras obras de ficção, estão Crônicas italianas (1837) e Lucien Leuwen (1894, póstumo). Publicou também relatos de viagem, como Roma, Nápoles e Florença (1817), além de obras sobre música, como Vidas de Haydn, Mozart e Metastasio (1815), sobre artes plásticas, como História da pintura na Itália (1817), e sobre literatura, como Racine e Shakespeare (1823).

Minha tia Séraphie já me havia acusado de ser insensível. Pouparei ao leitor o relato de todas as fases de meu desespero na igreja paroquial de Saint-Hugues. Eu sufocava, foram obrigados, penso eu, a me retirar, porque minha dor fazia muito barulho. Nunca pude olhar com sangue-frio essa igreja de Saint-Hugues e a catedral que lhe é contígua. O simples som dos sinos da catedral, mesmo em 1828, quando fui rever Grenoble, deu-me uma tristeza sombria, seca, sem enternecimento, tristeza vizinha da cólera. Chegando ao cemitério, que ficava em um bastião perto da Rue des Mûriers (hoje, pelo menos em 1828, ocupado por um grande prédio, depósito do serviço de engenharia), fiz loucuras que Marion me contou depois. Parece que eu não queria que se jogasse terra sobre o caixão de minha mãe, com o argumento de que a machucaria. [...] Em consequência do jogo complicado dos caracteres de minha família, ocorreu que com minha mãe acabou toda a alegria de minha infância.”

Stendhal

O tradutor: Júlio Castañon Guimarães publicou recentemente Sequências (Círculo de Poemas, 2023). Traduziu, entre outros, Um tempo no inferno & Iluminações, de Rimbaud (Todavia, 2021), e As flores do mal, de Baudelaire (Penguin, 2019, ganhador do Prêmio Literário Biblioteca Nacional na categoria Tradução).

V I D A

D E

HENRY BRULARD

Stendhal

ISBN 978-65-5928-243-2

tr adução Júlio Castañon Guimarães

Vida de Henry Brulard é o relato da infância e da adolescência de Stendhal, um dos maiores escritores franceses, no ambiente repressivo de uma família burguesa no final do século XVIII. A narrativa se estende até a época em que o jovem deixa Grenoble e faz a descoberta da Itália, para ele um acontecimento extasiante e que o marcaria pelo resto de sua vida. O autor começou a escrever estas memórias quando já tinha cerca de 50 anos e estava justamente na Itália. O período vivido em Grenoble é narrado com muitos detalhes, mas também com uma grande dose de imaginação. Escrevendo com emoção e sinceridade, indignação e clareza, o autor acaba por fazer o retrato de um coração rebelde. A mãe, que morreu quando ele tinha 7 anos; o pai, voltado apenas para suas próprias ambições sociais; a tia, que parecia ser dedicada somente a crueldades; o avô, de quem se aproxima – esses são alguns dos muitos personagens da narrativa, que também se ocupa de acontecimentos políticos e históricos tal como percebidos pelo jovem Stendhal. Na busca da reconstituição do que considerava importante para seu relato, o autor valeu-se também do desenho, esboços para registrar cômodos das casas, seus móveis, ruas, construções, elementos da paisagem próxima e assim por diante. O texto permaneceu inacabado, não chegou a adquirir uma forma final, guardando características de um primeiro impulso de escrita, com toda sua espontaneidade. E só foi publicado muito tempo após a morte do autor. Vida de Henry Brulard é colocado por muitos entre as obras-primas de Stendhal, que aqui se apresenta como um personagem melancólico, inteligente, irônico, radical e aristocrático, tal como alguns dos jovens heróis de seus romances.


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