BOILEAU-NARCEJAC
( UM CORPO QUE CAI )
Este instigante e sinistro roman noir foi adaptado por Alec Coppel e Samuel A. Taylor e filmado por Alfred Hitchcock em 1958. Um corpo que cai é considerado um dos melhores filmes de todos os tempos.
( UM CORPO QUE CAI )
VERTIGO
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VERTIGO
BOILEAU-NARCEJAC
A
pedido de Gévigne, um antigo colega dos tempos de faculdade, o detetive Flavières passa a seguir Madeleine, a bela e jovem esposa de seu cliente. Ele logo se vê perdidamente apaixonado pela moça, mas essa impropriedade não o impede de investigar os temores do amigo a respeito da mulher: suas ausências, seus mistérios, uma melancolia que a leva a olhar para as águas do Sena por horas a fio... Nenhum amante, nenhuma simulação, nenhuma doença. Apenas uma estranha relação com a bisavó, morta em circunstâncias terríveis, que Madeleine não chegou a conhecer... No cenário da Paris da Segunda Guerra Mundial, o destino de cada um dos personagens nunca seguirá o caminho previsto, e o leitor só poderá discernir claramente os fios dessa intriga nas últimas páginas do livro. Um clássico de Pierre Boileau e Thomas Narcejac, especialistas na arte de conduzir a história – e o leitor – até onde menos se espera.
O LIVRO QUE DEU ORIGEM AO CLÁSSICO DO MESTRE DO SUSPENSE
ISBN 978-85-8286-289-6
9 788582 862896
COLEÇÃO
HITCHCOCK
Copyright © Éditions Denoël,1958 Copyright © 2016 Editora Nemo/Vestígio
Título original: D’entre les morts Todos os direitos reservados pela Editora Nemo. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
GERENTE EDITORIAL Arnaud Vin
CAPA Carol Oliveira Diogo Droschi
EDITOR ASSISTENTE Eduardo Soares
DIAGRAMAÇÃO Larissa Carvalho Mazzoni
PREPARAÇÃO Eduardo Soares
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
Boileau, Pierre, 1906 -1989 Vertigo / Pierre Boileau, Thomas Narcejac ; tradução de Fernando Scheibe. -- 1. ed. -- São Paulo : Vestígio, 2016. Título original: D’entre les morts. ISBN 978-85-8286-289-6 1. Ficção policial e de mistério (literatura francesa) 2. Romance francês I. Narcejac, Thomas. II. Título 16-00574
CDD-843.0872
Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção policial e de mistério: Literatura francesa 843.0872 A VESTÍGIO É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA São Paulo Av. Paulista, 2.073, Conjunto Nacional, Horsa I 23º andar . Conj. 2301 . Cerqueira César . 01311-940 São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468 www.editoravestigio.com.br
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BOILEAU - NARCEJAC
VERTIGO ( UM CORPO QUE C AI )
tradução
Fernando Scheibe
PRIMEIRA PARTE
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I
– É isso mesmo – disse Gévigne. – Quero que você vigie minha mulher. – Diabo!... Ela está traindo você? – Não. – Então, por quê? – Não é fácil explicar. Ela anda estranha... Estou preocupado. – O que você teme exatamente? Gévigne hesitava. Olhava para Flavières, que percebia o que o detinha: Gévigne não confiava. Continuava o mesmo que Flavières tinha conhecido quinze anos antes na Faculdade de Direito: cordial, disposto a se abrir, mas, no fundo, fechado, tímido e infeliz. Pouco antes, por mais que tivesse exclamado abrindo os braços: “Meu velho Roger... que alegria reencontrar você!”, Flavières logo notara, instintivamente, que o gesto era meio desajeitado, um pouco forçado, um pouco duro. Gévigne se agitava um pouco demais, ria um pouco demais. Não conseguia apagar os quinze anos que tinham se passado e transformado ambos fisicamente. Gévigne estava quase careca e com um queixo duplo. Suas sobrancelhas tinham ficado ruivas, e, perto do 9
nariz, várias sardas tinham se formado. Flavières tampouco era o mesmo. Sabia que tinha emagrecido e se encurvado desde aquela história, e sentia as mãos umedecerem só de pensar que talvez Gévigne fosse lhe perguntar por que tinha se tornado advogado se cursara Direito para entrar na polícia. – Não temo nada em particular – retomou Gévigne. Estendeu a Flavières um rico estojo cheio de charutos. Sua gravata também era chique, e seu terno, de corte impecável. Anéis brilhavam em seus dedos enquanto destacava um fósforo rosa de uma caixinha em que estava inscrito o nome de um dos melhores restaurantes de Paris. Ele contraiu as bochechas antes de soltar lentamente um pouco de fumaça azul. Então disse: – É só um clima estranho no ar. Sim, ele tinha mudado muito. Tinha conhecido o poder. Adivinhavam-se, por trás dele, comitês, sociedades, uma complexa rede de relações e influências. Contudo, seus olhos continuavam inquietos, prestes a se amedrontar e se esconder atrás das pesadas pálpebras abaixadas. – Um clima! – disse Flavières com uma ponta de ironia. – Sim, acho que essa é a palavra – insistiu Gévigne. – Minha mulher é perfeitamente feliz. Estamos casados há quase quatro anos, faltam dois meses para completar... Temos mais do que precisamos para viver. Minha fábrica em Le Havre está a pleno vapor desde a mobilização. Foi, aliás, por causa dela que não fui convocado... Em suma, dadas as circunstâncias, somos privilegiados, não há dúvida. – Não têm filhos? – interrompeu Flavières. – Não. – Continue. – Madeleine tem tudo para ser feliz. Mas esta é a questão, sinto que alguma coisa está errada. Ela sempre 10
teve um temperamento um pouco esquisito, oscilações de humor, períodos de depressão, mas, de alguns meses para cá, seu estado se agravou bruscamente. – Você a levou a um médico? – É claro. Consultamos as maiores sumidades. Ela não tem nada. Nada. – Nada orgânico – admitiu Flavières. – E do ponto de vista psíquico? – Nada... Nada... Nem mesmo isto! – estalou os dedos e limpou as cinzas que tinham caído em seu colete. – Ah! É uma longa história. No começo, eu também pensei que se tratava de uma ideia fixa, de um medo irracional provocado pela guerra. Ela caía em bruscos silêncios. Se alguém falava com ela, mal escutava. Ou senão, ficava imóvel, olhando para alguma coisa na frente dela... Isso eu garanto a você que era impressionante. Parecia que ela estava vendo... sei lá... coisas invisíveis. E quando recomeçava a viver normalmente, guardava uma espécie de expressão extraviada, como se tivesse que fazer um esforço para reconhecer sua casa... para me reconhecer... Deixou apagar seu charuto e ficou olhando, ele também, para o vazio, com aquela expressão de frustração que já tinha na época da faculdade. – Se ela não está doente, está simulando – disse Flavières impaciente. Gévigne ergueu sua mão gorda, como para deter aquela objeção. – Pensei nisso, e passei a vigiá-la, discretamente. Um dia, eu a segui... Ela foi até o Bosque de Boulogne, sentou-se diante do lago e ficou ali, sem se mexer, por mais de duas horas... contemplando a água... – Isso não parece muito grave. 11
– Mas... é que ela contemplava a água, como explicar, com atenção, com uma seriedade enorme. Como se aquilo fosse de extrema importância... À noite, ela me garantiu que não tinha saído. Eu não quis dizer que a segui, você entende. Flavières voltava a encontrar e a perder sucessivamente a antiga imagem de seu condiscípulo, e esse jogo começava a se tornar irritante. – Escute – disse ele –, sejamos lógicos. Ou sua mulher está enganando você, ou está doente, ou, por alguma razão desconhecida, está simulando. Só pode ser uma dessas opções. Gévigne estendeu o braço para o cinzeiro do escritório e, com o mindinho, desprendeu do charuto um longo cilindro de cinza branca. Então sorriu tristemente. – Você está raciocinando exatamente como eu fiz. A questão é que estou absolutamente seguro de que Madeleine não está me traindo... e o professor Lavarenne me garantiu que ela é normal... E por que ela simularia?... A troco de quê?... Afinal, ninguém simula simplesmente por simular. Ninguém vai perder duas horas no bosque por nada... e olha que esse foi apenas um detalhe entre muitos outros. – Você falou com ela? – Sim, é claro... Perguntei o que sentia quando se punha bruscamente a devanear. – E o que ela respondeu? – Que eu não devia me preocupar... que ela não estava devaneando... que apenas andava preocupada com a situação, como todo mundo. – Mas a pergunta pareceu aborrecê-la? – Sim... na verdade, ela pareceu sobretudo constrangida, embaraçada. 12
– Teve a impressão de que ela estava mentindo? – Não. Pelo contrário, de que estava assustada... Vou até confessar uma coisa que talvez o faça rir de mim: lembra daquele filme alemão que vimos no cinema Ursulines por volta de 1923 ou 24?... Jacob Boehme... – Sim. – Lembra da expressão do personagem quando o surpreendiam em meio a uma crise mística e ele tentava negar, desculpar-se, esconder suas visões... Pois bem, Madeleine... tem às vezes o mesmo rosto que o ator alemão... aquele rosto meio extraviado, meio ébrio, aqueles olhos que tateiam... – Por favor, menos! Não vai me dizer que acha que sua mulher está sujeita a crises místicas! – Sabia que você ia reagir assim... Exatamente como eu, meu velho!... Também me insurgi... também me recusei a me render à evidência. – Ela é praticante? – Como todo mundo... Vai à missa domingo, mas não é nenhuma beata. – Por acaso não é como essas mulheres que dizem prever o futuro? – Não. Simplesmente, repito, acontece algo nela, como se um botão fosse apertado e ela partisse para outro mundo. – Acha que é involuntário da parte dela? – Com toda certeza. Já faz algum tempo que a observo. Ela sente a crise vir, esforça-se para evitar, para se mexer, falar... levanta-se, às vezes vai abrir a janela, como se lhe faltasse ar, ou liga o rádio, aumenta o volume... Se, nesse momento, eu entro no jogo, faço alguma graça, falo disso ou daquilo, então sua mente consegue se controlar, reter-se... Desculpe minha prolixidade, mas não é fácil 13
tornar inteligível o que se passa com ela... Se, ao contrário, eu também pareço estar preocupado, distraído, absorto, não dá outra. Ela logo fica parada, seus olhos seguem no espaço um ponto misterioso que se mexe... quer dizer, eu suponho que ele se mexe... e então ela solta um suspiro, passa a mão na testa e, por cinco ou dez minutos, raramente mais do que isso, assemelha-se a um sonâmbulo... – Seus movimentos são bruscos? – Não. Na verdade, nunca encontrei sonâmbulos. Mas não parece que ela esteja realmente dormindo. Fica distraída, como alguém que não se pertence mais. É outra pessoa. Sei que isso tudo soa idiota! No entanto, não tenho como dizer melhor. É outra pessoa. Havia uma verdadeira angústia nos olhos de Gévigne. – Outra pessoa – resmungou Flavières. – Isso não quer dizer nada. – Não acredita que possa haver certas influências?... Gévigne abandonou seu charuto mascado na beira do cinzeiro e apertou fortemente uma mão na outra. – Já que comecei, o jeito é ir até o final... Houve, na família de Madeleine, uma mulher estranha... Chamava-se Pauline Lagerlac... Era a bisavó de Madeleine... Um parentesco relativamente próximo... Essa mulher, por volta dos 13 ou 14 anos, não sei explicar muito bem como, ficou doente; tinha convulsões estranhas e as pessoas que cuidavam dela ouviam ruídos incompreensíveis em seu quarto... – Batidas nas paredes? – Sim. – Barulhos de móveis arrastados? – Sim. – Entendo – disse Flavières. – São fenômenos frequentemente constatados ao redor de uma garota dessa 14
idade. Que, aliás, ninguém sabe explicar... Em geral, duram pouco. – Não sou muito entendido nessas questões – prosseguiu Gévigne. – O que é certo é que Pauline Lagerlac ficou meio perturbada. Quis se tornar freira, mas acabou desistindo. Então se casou e, alguns meses depois, se suicidou. – Que idade ela tinha? Gévigne tirou o lenço e limpou os lábios. – Ela tinha 25 anos – murmurou. – A idade de Madeleine. – Diabo! Os dois ficaram em silêncio. Flavières refletia. – Naturalmente, sua mulher conhece essa história? – perguntou. – Não, e é isso o mais estranho... Soube desses detalhes pela minha sogra. Foi pouco tempo depois do casamento que ela me falou dessa Pauline Lagerlac... Na hora, não dei muita atenção a esse papo. Se eu soubesse!... Agora, minha sogra está morta e ninguém mais pode me informar. – Teve a impressão de que ela lhe fez essas confidências com uma intenção determinada? – Não. Quer dizer, acho que não. Pareceu vir ao acaso, no embalo de uma conversa. Mas lembro muito bem que ela me fez jurar que não repetiria aquilo para Madeleine. Ela não gostava muito da ideia de ter tido uma avó meio louca. Preferia que sua filha não soubesse disso... – E essa tal de Pauline Lagerlac, ao menos se suicidou por um motivo preciso? – Não, parece que não. Ela estava feliz; tinha um filhinho de alguns meses, e todos acreditavam que a maternidade acabaria de restabelecer seu equilíbrio. Então, de repente, um dia... 15
– Continuo sem entender que relação isso tem com sua mulher – observou Flavières. – A relação?... – repetiu Gévigne com uma expressão aflita. – Logo vai entender. Com a morte dos seus pais, Madeleine herdou, naturalmente, certo número de bibelôs e joias que vêm de sua bisavó; especialmente um colar de âmbar... Pois bem, ela não para de olhá-los e tocá-los... com uma espécie de... como dizer?... uma espécie de nostalgia. Temos lá em casa um autorretrato de Pauline Lagerlac, pois ela também era pintora! Madeleine é capaz de ficar horas contemplando esse quadro, como se estivesse fascinada. E o que é pior: esses dias, eu a surpreendi na sala: ela tinha posto o quadro sobre a mesa, ao lado de um espelho. Tinha posto o colar de âmbar no pescoço e estava tentando se pentear como a mulher no retrato... Aliás, agora ela só usa esse penteado – concluiu Gévigne visivelmente contrariado: – um pesado coque sobre a nuca. – E ela se parece com Pauline? – Talvez... muito vagamente. – Pergunto mais uma vez: o que você teme exatamente? Gévigne suspirou, pegou de volta seu charuto e o examinou distraidamente. – Nem ouso lhe confessar tudo o que passa pela minha cabeça... O que é certo é que Madeleine não é mais a mesma. Pior! Chego a pensar que a mulher que vive comigo não é Madeleine. Flavières levantou e se forçou a rir. – Calma lá! E quem você quer que seja?... Pauline Lagerlac?... Você é que está delirando, meu pobre amigo Paul... O que posso lhe oferecer? Porto? Cinzano? Cap Corse? – Um porto. 16
Flavières foi até a copa preparar uma bandeja com a bebida. Gévigne gritou: – E você? Sequer lhe perguntei: não se casou? – Não – respondeu a voz abafada de Flavières. – E nem pretendo fazê-lo. – Soube por acaso que você tinha deixado a polícia – continuou Gévigne. Fez-se um momento de silêncio. – Quer uma ajudinha aí? Gévigne levantou por sua vez e avançou até a porta aberta. Flavières estava tirando a rolha de uma garrafa. Gévigne encostou o ombro na forra da porta. – Bacana a sua casa... Desculpe-me por incomodá-lo com minhas histórias. Estou muito contente em vê-lo de novo. Deveria ter telefonado para avisar que vinha, mas ando tão ocupado com os negócios... Flavières voltou a se erguer e desatarraxou calmamente a rolha. O momento difícil já tinha passado. – Você falou em construções navais, é isso? – retomou enchendo os copos. – Sim. Nesse momento, estamos fabricando cascos de torpedeiros. Uma encomenda enorme. Parece que o pessoal do Ministério está com medo de um golpe duro. – Caramba! Mais cedo ou mais tarde será preciso sair dessa guerra enrustida. Já estamos quase em maio... À sua saúde, Paul. – À sua, Roger. Beberam, olhos nos olhos. De pé, Gévigne era baixinho e quadrado. Estava diante da janela, e a luz desenhava seu rosto romano, de orelhas carnudas e testa cheia de nobreza. No entanto, Gévigne não era nenhuma águia. Bastou um pouco de sangue provençal 17
para esculpir aquele perfil enganador de procônsul. Depois da guerra, aquele desgraçado estaria milionário... Flavières culpou-se por esse pensamento... Ele próprio não estava tirando proveito da ausência dos outros? Era verdade, tinha sido reformado, mas talvez isso não fosse desculpa. Pôs o copo de volta na bandeja. – Já vi que não vou conseguir tirar essa história da cabeça... Sua mulher tem alguma pessoa próxima no front? – Alguns primos distantes com que não temos o menor contato. Não, ninguém próximo de verdade. – Como você a conheceu? – De uma maneira bastante romanesca. Gévigne olhava para o copo, procurando as palavras. Sempre aquele temor de parecer ridículo que o paralisava na faculdade e o fazia ir mal em seus exames orais. Finalmente prosseguiu. – Encontrei-a em Roma, durante uma viagem de negócios. Estávamos no mesmo hotel. – Qual? – O Continental. – O que ela estava fazendo em Roma? – Estudando pintura. Ela pinta muito bem, ao que parece. Eu, você sabe, a pintura... – Ela queria se tornar professora, dar aulas de pintura? – Que nada!... Era só por prazer. Ela nunca precisou ganhar a vida. Imagine só que, aos 18 anos, já tinha seu próprio carro. Seu pai era um grande industrial... Gévigne deu meia-volta e retornou ao escritório. Flavières notou seu passo leve e seguro. Antigamente, ele tinha um jeito de andar meio sincopado, como se o seu corpo inteiro gaguejasse. A fortuna de sua mulher o transformou. – Ela continua a pintar? 18
– Não. Pouco a pouco foi parando... Por falta de tempo. Sabe, uma parisiense vive sempre tão ocupada! – Mas... as perturbações de que está falando... devem ter uma causa. Não houve, no início, um incidente preciso? Uma briga, talvez? Uma má notícia? Você deve ter procurado uma causa... – Pode crer que sim! Mas não encontrei nada... Vivo em Le Havre uma parte da semana, não deve perder isso de vista. – Essas distrações ou ausências, como preferir, começaram enquanto você estava fora? – Não. Eu estava aqui. Tinha acabado de voltar. Era um sábado. Madeleine estava alegre, como de costume. Foi naquela noite que ela me pareceu estranha pela primeira vez. Mas, na hora, não dei importância. Eu também estava bastante cansado. – E antes? – Antes?... Ela tinha às vezes alguns acessos de mau humor, só isso. – E tem certeza de que não aconteceu nada de anormal naquele sábado? – Absoluta. Por uma razão bem simples: passamos o dia todo juntos. Cheguei de manhã, pelas 10 horas. Madeleine tinha acabado de levantar. Conversamos... não me pergunte exatamente sobre o quê... esqueci os detalhes, evidentemente... Por que teria prestado atenção? Sei que almoçamos em casa. – Onde vocês moram? – O quê?... Ah! É verdade, nunca cheguei a mencionar... Comprei uma casa na Avenida Kléber, pertinho da Praça da Étoile... Tome meu cartão. – Obrigado. 19
– Depois do almoço, saímos... Lembro que eu tinha que ver alguém, no Ministério... Então passeamos perto da Opéra... E foi isso. Uma tarde como as outras. – E a crise? – Ocorreu no final do jantar. – Quando foi isso exatamente? – Exatamente?... Gévigne pegou a agenda do advogado e começou a folheá-la. – Lembro que foi no fim de fevereiro... Por causa do encontro de que falei... Deve ter sido no dia 26, já que é um sábado. Flavières se sentou no braço de uma poltrona, perto de Gévigne. – Por que veio me ver? Gévigne novamente apertou uma mão na outra. Tinha se libertado de quase todos os seus tiques, menos aquele. Agarrava-se a si mesmo quando estava embaraçado. – Você sempre foi meu amigo... – murmurou – e lembro que era bastante curioso em relação a psicologia, esoterismo... Não ia querer que eu fosse falar com a polícia, né? Percebeu a leve crispação nos lábios de Flavières e acrescentou: – Foi justamente porque saiu da polícia que vim vê-lo. – Sim – disse Flavières acariciando o couro da poltrona –, saí da polícia. Levantou bruscamente a cabeça. – Sabe por quê? – Não, mas... – Vai acabar sabendo. Essas coisas sempre se espalham... Gostaria de sorrir, mostrar-se mestre de si mesmo, mas o rancor já começava a endurecer sua voz. 20
– Sofri um golpe duro... Mais um pouco de porto? – Não, obrigado. Flavières se serviu e continuou segurando o copo. – Aconteceu-me uma coisa idiota... Eu era inspetor. Agora posso dizer: não gostava daquele emprego. Se meu pai não tivesse me obrigado!... Mas ele tinha se tornado um alto comissário e achava que não podia existir outra carreira. Eu devia ter recusado. Ninguém tem o direito de forçar um rapaz a... Em suma, um dia, estava perseguindo um sujeito. Não que fosse muito perigoso, mas teve a ideia de fugir para cima de um telhado... Eu estava com um colega muito gentil, chamado Leriche... Esvaziou o copo, e lágrimas queimaram seus olhos; tossiu e deu de ombros para zombar da própria comoção. – Está vendo – disse, tentando brincar –, assim que essa história volta à tona eu perco as estribeiras... O telhado era inclinado. Dava para ouvir os carros lá embaixo. O sujeito estava atrás de uma chaminé, sem arma. Era só agarrá-lo... Não consegui descer até ele. – Vertigem! – exclamou Gévigne. – Sim, agora lembro... Você já tinha isso antigamente. – Leriche desceu em meu lugar... e caiu. – Essa não! – disse Gévigne. Baixou os olhos e Flavières permaneceu inclinado para ele, sem saber o que o amigo estava pensando. Então continuou em voz baixa: – De qualquer jeito, era melhor você saber. – Os nervos podem fraquejar – disse Gévigne. – Naturalmente – disse Flavières com amargor. Ficaram novamente em silêncio por algum tempo. Gévigne por fim ergueu os braços num gesto vago. – É uma história triste, mas você não teve culpa. 21
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