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A União da alma e do corpo

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Este livro transcreve o curso que Merleau Ponty ofereceu, em 1947-1948, na Escola Normal Superior (Paris).

FILO

OS TRADUTORES: Sílvio Rosa Filho é professor de Filosofia na Unifesp e traduziu obras de Jean Hyppolite e de Gerard Lebrun, entre outras. Coordena o grupo de pesquisa Filosofia, Literatura e Sociedade. Thiago Martins é estudante de Filosofia na Unifesp. Traduziu, com Silvio Rosa Filho, O primado da percepção (de Merleau-Ponty) e A ideologia e a utopia (de Paul Ricœur), ambos pela Autêntica.

MAURICE MERLEAU-PONTY A união da alma e do corpo

MAURICE MERLEAU-PONTY (1908-1961), filósofo francês, lecionou na Universidade de Lyon a partir de 1945 e, nessa época, fundou com Jean-Paul Sartre a revista Les Temps modernes. Em 1949 passou a atuar na Universidade de Paris I (Panthéon-Sorbonne), vindo a ocupar a cadeira de Filosofia no Collège de France em 1952, onde lecionou até a sua morte. Entre suas obras mais significativas, vale mencionar A estrutura do comportamento (1942) e Fenomenologia da percepção (1945).

“A história da filosofia é uma confrontação, uma comunicação com os sistemas, análoga à que podemos ter com os homens. Por mais que os filósofos escolham, a sua escolha é sempre acompanhada, como à margem, de uma suspeita daquilo que a escolha deixa de lado. Toda consciência de uma coisa é, ao mesmo tempo, consciência do que não é esta coisa. Cada escolha filosófica se destaca sobre o fundo do que não foi escolhido, e é por aí que os filósofos se comunicam; é este resíduo que mantém o diálogo entre os homens, e, por conseguinte, com a história da filosofia. Nesse espírito, consideraremos os textos de Malebranche sobre a alma e o corpo como tão significativos quanto os outros. Buscaremos o que Malebranche preferiu ver, sem desdenhar o que nele não está na linha reta do cartesianismo.”

MAURICE

MERLEAU-PONTY A união da alma e do corpo

ISBN 978-85-8217-800-3

9 788582 178003

www.autenticaeditora.com.br

Tradução Sílvio Rosa Filho Thiago Martins

Para muito além do aspecto oficial de aulas preparatórias com vistas à seleção de professores no ensino público francês, o leitor tem em mãos um texto de primeira grandeza. Nele se ouve a dicção do professor que reflete com Malebranche, por exemplo, a entrada do irrefletido na cena filosófica; com Maine de Biran, o papel da dúvida na gênese da evidência; com Bergson, o começo de uma precisa delimitação da criatividade em história da filosofia. Assim, apresenta-se um pensamento orgânico sobre a união da alma e do corpo, sem descuidar do campo temático cartesiano, especialmente pelo que este comporta de “mítico”, no sentido platônico do termo, e de “histórico”, em acepção bastante peculiar. Já na primeira aula, Merleau-Ponty dirá: “Toda a história da filosofia é uma retomada pessoal pelo filósofo do problema que ele estuda”. De modo que “a objetividade da história da filosofia só se encontra no exercício da subjetividade”, fórmula que anuncia questões retomadas em Elogio da filosofia (aula inaugural no Collège de France). Mas importa salientar que neste livro se ouve principalmente a voz do filósofo. Na unidade da reflexão, Merleau-Ponty pratica um estilo de interrogação singular em que o pensamento, longe de se apreender como “coisa”, é, em certo sentido, um “ato”. Se o leitor é convidado a satisfazer o seu gosto pela evidência e aprimorar o seu senso para ambiguidades fecundas, é porque, no fundo, “pensar é captar os resultados dos quais não temos todas as premissas”. Também para o leitor-ouvinte é preciso, portanto, fundar o pensamento possível sobre o pensamento atual, e não o inverso.


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ANTIFILŌ A Razão Pascal Quignard


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MAURICE

MERLEAU-PONTY A união da alma e do corpo em Malebranche, Biran e Bergson

Notas tomadas no curso de Maurice Merleau-Ponty na Escola Normal Superior (1947-1948). Recolhidas e redigidas por Jean Deprun

T R A D U Ç Ã O Sílvio Rosa Filho, Thiago Martins


Notas tomadas durante cursos ministrados na Escola Normal Superior (1947-1948), coletadas e redigidas por J. Deprun © Librairie Philosophique J. Vrin, Paris, 1978, 2002. http://www.vrin.fr Copyright © 2016 Autêntica Editora Título original: L’union de l’âme et du corps chez Malebranche, Biran et Bergson Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora. coordenador da coleção filô

editora assistente

Gilson Iannini

Cecília Martins

conselho editorial Gilson Iannini (UFOP); Barbara Cassin (Paris); Carla Rodrigues (UFRJ) Cláudio Oliveira (UFF); Danilo Marcondes (PUC-Rio); Ernani Chaves (UFPA); Guilherme Castelo Branco (UFRJ); João Carlos Salles (UFBA); Monique David-Ménard (Paris); Olímpio Pimenta (UFOP); Pedro Süssekind (UFF); Rogério Lopes (UFMG); Rodrigo Duarte (UFMG); Romero Alves Freitas (UFOP); Slavoj Žižek (Liubliana); Vladimir Safatle (USP)

revisão

Lúcia Assumpção leitura final

Jean D. Soares projeto gráfico

Diogo Droschi capa

Alberto Bittencourt (sobre reprodução de Leda e o Cisne, c. 1880-1882, de Paul Cézanne) diagramação

Larissa Carvalho Mazzoni

editora responsável

Rejane Dias Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Merleau-Ponty, Maurice, 1908-1961. A união da alma e do corpo em Malebranche, Biran e Bergson / Maurice MerleauPonty ; notas tomadas no curso de Maurice Merleau-Ponty na Escola Normal Superior (1947-1948) ; recolhidas e redigidas por Jean Deprun ; tradução Sílvio Rosa Filho, Thiago Martins. -- 1. ed. -- Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2016. -- (Filô) Título original: L’union de l’âme et du corps chez Malebranche, Biran et Bergson Bibliografia. ISBN 978-85-8217-800-3 1. Bergson, Henri, 1859-1941 2. Maine de Biran, Pierre, 1766-1824 3. Malebranche, Nicolas, 1638-1715 4. Mente e corpo 5. Monismo I. Deprun, Jean. II. Título III. Série. 15-11032 CDD-128.2 Índices para catálogo sistemático: 1. Alma e corpo : Relações : Filosofia 128.2

Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500

www.grupoautentica.com.br

São Paulo Av. Paulista, 2.073, Conjunto Nacional, Horsa I 23º andar . Conj. 2301 . Cerqueira César . 01311-940 São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468

Rio de Janeiro Rua Debret, 23, sala 401 Centro . 20030-080 Rio de Janeiro . RJ Tel.: (55 21) 3179 1975


Sumário

7. Prólogo da primeira edição

9. Nota sobre a reedição 11. Primeira aula Nota sobre a história da filosofia a propósito de Malebranche, Biran e Bergson 15. Segunda aula A união da alma e do corpo em Descartes 19. Terceira aula A consciência de si em Malebranche 19. O cogito no sentido estrito, como experiência de mim mesmo 21. O cogito no sentido amplo, compreendendo os objetos de pensamento

29. Quarta aula Os juízos naturais e a percepção 37. Quinta aula Extensão sensível e extensão inteligível 43. Sexta aula A causalidade nas relações da alma e do corpo 45. Sétima aula Teologia e união da alma e do corpo 57. Oitava aula De Malebranche a Maine de Biran 77. Nona aula Biran e as filosofias do cogito 87. Décima aula Biran e as filosofias do cogito (fim)


99. Décima primeira aula Matéria e memória: o novo e o positivo nas análises do primeiro capítulo 109. Décima segunda aula O segundo capítulo de Matéria e memória 115. Décima terceira aula Comentário de texto: o inconsciente 115. O texto 119. Comentário

123. Décima quarta aula Comentário de texto: “A definição da existência” 123. O texto 125. Comentário

129. Décima quinta aula Comentário de texto: “Buscar a experiência em sua fonte” 129. O texto 133. Comentário

139. Décima sexta aula As relações entre a intuição e a construção em metafísica: Bergson 139. A intuição-coincidência 142. A intuição como compreensão

147. Apêndice Os sentidos e o inconsciente (Aula inédita do Curso de Lyon, redigida por Michel Jouhaud) 153. Nota complementar Malebranche, Biran e Bergson na obra de Maurice Merleau-Ponty 157. Índice onomástico 159. Índice analítico


Prólogo da primeira edição Jean Deprun

Em 1947-1948, os nomes de Malebranche, Biran e Bergson se encontraram no programa de agregação de filosofia.1 Maurice Merleau-Ponty, que ensinava então na Faculdade de Letras de Lyon e na Escola Normal Superior, consagrou ao problema da união da alma e do corpo nesses três filósofos um curso proferido paralelamente em Lyon e em Paris. O curso compreendia (ao menos na versão parisiense) aulas magistrais, devolutivas de exposições (nossos capítulos IV a VIII) e devolutivas de explicações de textos (nossos capítulos XIII a XV). Como as notas do autor não foram encontradas, tampouco as dos ouvintes de Lyon, tentou-se aqui restabelecer a substância desse curso com a ajuda dos ouvintes de Paris que as conservaram. Às suas próprias anotações, o redator pôde juntar as de André Doazan, Jean-Louis Dumas, Jean Jolivet, François Ricci, Etienne Verley. Somos gratos por sua fraternal generosidade. 1

Concurso nacional francês para seleção de professores na rede pública de ensino médio. (N.T.) 7


A palavra de Merleau-Ponty, sóbria e firme, deixara, frequentemente, ecos estritamente idênticos nos cadernos dos estudantes. A tarefa do redator foi fácil, então. Quando as versões divergiam, ele escolheu aquela que lhe parecia mais clara e explícita. Como nenhuma divergência afetou o fundo das ideias e das interpretações, o leitor pode ao menos estar certo de que o pensamento de Merleau-Ponty não sofreu deformação. Nem sempre se ouvirá Merleau-Ponty falar, mas se seguirá sempre o movimento de sua meditação. Ao mesmo tempo em que observa uma atitude de historiador objetivo, Maurice Merleau-Ponty não podia fazer abstração das suas preocupações filosóficas pessoais. Ao mesmo tempo em que é uma retrospectiva histórica, este curso é uma meditação sobre a insuficiência do idealismo intelectualista e sobre a necessidade, pressentida em vários aspectos por Malebranche, Biran e Bergson, de um “primado da percepção”. Com vistas a facilitar a tarefa do leitor, normatizaram-se as referências dos textos citados remetendo às edições críticas mais recentes: para Malebranche, à edição das obras completas (Paris: Vrin, 1962-1968); para 8 Bergson, à edição | do Centenaire (Paris: PUF, 1959). As citações de Maine de Biran remetem à edição Tisserand, publicada enquanto Merleau-Ponty estava vivo.2 Este trabalho foi empreendido graças à amigável instigação de André Robinet. A senhora Merleau-Ponty aprovou o nosso desígnio. Que ela nos permita endereçarlhe a expressão de nossa respeitosa gratidão. Como a edição Tisserand está esgotada, oferecemos, também, as referências dos textos citados na edição de Maine de Biran por F. Azouvi (Paris: Vrin, 1984-2002).

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Nota sobre a reedição

Posteriormente à primeira publicação (1968) deste curso, as notas tomadas em Lyon, em 1947-1948, por Michel Jouhaud, nos foram comunicadas por seu autor. Nem em sua substância nem em sua ordem, os dois cursos diferem de modo essencial. Todavia, na versão lionesa, a aula sobre Malebranche e Maine de Biran era acompanhada por um excurso intitulado: “Os sentidos e o inconsciente”, formando uma aula independente. Esta última será reencontrada em apêndice. Agradecemos vivamente Michel Jouhaud por ter autorizado a sua publicação.3 O curso de Paris foi reproduzido tal como se pôde ler em 1968. Limitamo-nos a corrigir os deslizes. A nota sobre Malebranche, Biran e Bergson foi completada tendo em conta as mais recentes publicações de inéditos.

Na margem, as referências são as da paginação original, indicada no texto por uma barra vertical.

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| Primeira aula

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Nota sobre a história da filosofia a propósito de Malebranche, Biran e Bergson

Malebranche pertence a uma série inteiramente outra daquela de que fazem parte Biran e Bergson. Para Malebranche, as relações da alma e do corpo não podem nos ensinar nada de positivo; elas são esclarecidas de fora pela relação da alma com Deus: é a série cartesiana. Para Biran e Bergson, elas introduzem, ao contrário, à relação da alma com Deus: é a série pascaliana. Em Spinoza et ses contemporains, Léon Brunschvicg interpreta Malebranche na perspectiva de Espinosa. Reconhece nele um adepto lúcido do idealismo cartesiano, para quem a geometria representa o saber mais próximo da consciência de Deus. “A inteligência é preferível à fé”.4 “A razão só se incarnou para introduzir, pelos sentidos, os homens à razão”.5 Segundo Brunschvicg, Malebranche teria renunciado simplesmente – diferentemente de Espinosa – a conduzir tal idealismo às suas últimas consequências, ao superar o problema da alma e do corpo. Em Espinosa, o Traité de morale, I, II, III; Œuvres complètes [O.C.], t. XI, p. 34; citado em Spinoza et ses contemporains, 3. ed., Paris: 1923, p. 336. 5 Ibid., I, II, XII; O.C., t. XI, p. 35; citado em Spinoza et ses contemporains, ed. cit., p. 336.

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problema desaparece quando a ilusão da individualidade é suprimida. “Não se tem mais de explicar como o perfeito 10 tornou-se imperfeito; | pois, na realidade absoluta, não há, diante de Deus, um indivíduo que diga sim e um indivíduo que diga não”.6 Brunschvicg interpreta Malebranche (e Descartes) em relação ao princípio espinosano de que toda determinação é negativa, e o malebranchismo aparece, então, como uma resistência ao espinosismo (no sentido freudiano da palavra “resistência”). A relação da alma com o corpo deveria, então, ser negligenciada como sendo apenas a constatação de um estado de fato. Ora, Malebranche distingue muito conscientemente – como nota o próprio Brunschvicg – dois tipos de saber: o saber matemático, as “ciências exatas tais como a aritmética e a geometria”, às quais “o receio de cair em erro” nos faria “dar-lhe a preferência”, e um saber adquirido unicamente pela experiência, que nos faz conhecer “não as relações das ideias entre si, mas as relações que se tem com elas, e conosco, as obras de Deus pelas quais vivemos”.7 Malebranche se pergunta, então, se é preciso procurar ter ideias claras ou se é preciso compreender as coisas tais como elas são, e a oposição que ele estabelece nos interdita considerá-lo um Espinosa fracassado. O historiador da filosofia oscila entre dois perigos: o de estar cego, ao comentar literalmente os textos (ele se dispensa então de repensá-los), mas também o de julgar mais como filósofo do que como historiador e então apreciar uma obra através de nossas interpretações. O Op. cit., p. 356. Entretiens métaphysiques, VI; ed. Cuvillier, t. I, p. 181; O.C., t. XII, p. 131; citado por Brunschvicg, op. cit., p. 339.

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historiador do cartesianismo é tentado a definir uma lógica do cartesianismo que atravessa e transborda Malebranche para ir até Espinosa, e negligenciar, devido ao mesmo problema, as relações da alma e do corpo em Malebranche. Mas esta lógica objetiva da história da filosofia é obrigatória somente em aparência. O fato é sempre interpretado. O Espinosa que julga Malebranche não é o Espinosa histórico, mas Espinosa interpretado por Brunschvicg. O próprio Brunschvicg admite que há um além do espinosismo, no sentido de que, tanto para Espinosa quanto para Malebranche, “o | problema 11 do idealismo, que se colocará mais tarde para o homem, coloca-se ainda mais [...] unicamente para Deus”.8 Espinosa viu, portanto, o idealismo no espelho de Deus. Seria possível dizer também que Malebranche viu, no espelho de Deus, o problema da existência enquanto esta não é redutível à idealidade. A objeção posta de início é um veredito de Brunschvicg, não um veredito da história. Será preciso concluir daí que não há nada de objetivo na história da filosofia e que não se pode jamais comparar dois filósofos? Não: pode-se estabelecer objetivamente se Malebranche tinha uma concepção positiva da união da alma e do corpo ou se ele se acomodou como pôde na passagem. Em Descartes, somente três textos insistem na união e um grande número de textos, na distinção. Em Malebranche, o setor das relações da alma e do corpo se torna toda uma região, a do conhecimento por via do sentimento. Toda a história da filosofia é uma retomada pessoal pelo filósofo do problema que ele estuda; retomada subjetiva, portanto, doutrina e filosofia, narração e Op. cit., p. 347.

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MAURICE MERLEAU-PONTY A UNIÃO DA ALMA E DO CORPO

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reflexão – mas não reflexão livre. É preciso dar conta das relações empíricas, dos documentos existentes, e extrair, ao mesmo tempo, uma verdade que não se oferece ao puro método objetivo. A verdade de Descartes não é o que ele foi empiricamente, tampouco, o resumo dos textos cartesianos; é, conjuntamente, a totalidade do que ele escreveu e o modo pelo qual ele viveu, religados pela intuição que podemos ter de uma verdade que ele procurou expressar. Por exemplo, Descartes se colocou o problema da união da alma e do corpo e afirmou sua distinção; mas pensou, também, que essa distinção devia ser esquecida na vida cotidiana. A objetividade da história da filosofia só se encontra no exercício da subjetividade. O meio de compreender um sistema é colocar-lhe as questões de que cuidamos nós mesmos: é assim que os sistemas aparecem com suas diferenças, que eles atestam se as nossas questões são idênticas às que os seus autores se colocaram. | A história da filosofia é uma confrontação, uma 12 comunicação com os sistemas, análoga à que podemos ter com os homens. Por mais que os filósofos escolham, a sua escolha é sempre acompanhada, como à margem, de uma suspeita daquilo que a escolha deixa de lado. Toda consciência de uma coisa é, ao mesmo tempo, consciência do que não é esta coisa. Cada escolha filosófica se destaca sobre o fundo do que não foi escolhido, e é por aí que os filósofos se comunicam; é este resíduo que mantém o diálogo entre os homens, e, por conseguinte, com a história da filosofia. Nesse espírito, consideraremos os textos de Malebranche sobre a alma e o corpo como tão significativos quanto os outros. Buscaremos o que Malebranche preferiu ver, sem desdenhar o que nele não está na linha reta do cartesianismo. 14

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