Alguns g ar ot o s nu nc a p er d o a m . . .
Títulos da Vestígio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . SETE DIAS EM RIVER FALLS | Alexis Aubenque
Algumas garotas escondem terríveis segredos... Tradução: Fernando Scheibe
MEU PRIMEIRO ASSASSINATO | Leena Lehtolainen
Uma estreia de tirar o fôlego para Maria Kallio... Tradução: Salma Saad
OS SETE CRIMES DE ROMA | Guillaume Prévost
Roma, 1514. Leonardo da Vinci conduz a investigação...
Tradução: Fernando Scheibe
A FERA INTERIOR | Lotte & Søren Hammer
Podemos fazer justiça com as próprias mãos?
Tradução: Márcia Guimarães
ESTAVA ESCRITO | Gunnar Staalesen
O que realmente sabemos sobre nossos filhos?
Tradução: Elisa Nazarian
NA MENTE, O VENENO | Andrea H. Japp
Diane Silver inicia sua caça ao serial killer...
Tradução: Vinicius Carneiro
VESTIDO DE NOIVO | Pierre Lemaitre
Ninguém está a salvo da loucura...
Tradução: Zéfere
ASSASSINATO NA TORRE EIFFEL | Claude Izner
Crimes em série transformam livreiro em detetive
Tradução: Elisa Nazarian
UM OUTONO EM RIVER FALLS | Alexis Aubenque
Alguns garotos nunca perdoam...
Tradução: Fernando Scheibe
Alguns garotos nunca perdoam...
Tradução
Fernando Scheibe
Copyright © Calmann-Lévy, 2009 Copyright da tradução © 2014 Editora Nemo/Vestígio
Título original: Un automne à River Falls Todos os direitos reservados pela Editora Nemo. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora. DIRETOR DA COLEÇÃO
Arnaud Vin PREPARAÇÃO
Sonia Junqueira REVISÃO
Amanda Pavani CAPA
Ricardo Furtado
(Imagens: Kevin Teague e shutterstock.com) DIAGRAMAÇÃO
Christiane Morais Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
Aubenque, Alexis Um outono em River Falls : alguns garotos nunca perdoam... / Alexis Aubenque ; tradução Fernando Scheibe. -- Belo Horizonte : Vestígio, 2014. Título original: Un automne à River Falls ISBN 978-85-8286-088-5 1. Ficção policial e de mistério (Literatura francesa) I. Título. 14-00925
CDD-843.0872
Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção policial e de mistério : Literatura francesa 843.0872
A VESTÍGIO É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA
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Pr贸logo
Domingo, 30 de setembro de 2007
Com uma última estocada, Robert Gordon atingiu o orgasmo que adiara por tanto tempo. Soltou um gemido característico e se abandonou sobre o corpo de sua Dulcineia. Ela sorriu e passou a mão no cabelo dele. Não tivera tempo de chegar ao seu, mas isso não tinha importância. Estava tão feliz por estar com ele. Gordon correspondera a todas as suas expectativas. Acabara de viver uma verdadeira noite dos sonhos. Uma mesa num dos restaurantes mais chiques da cidade, um passeio romântico em Garden State e, como chave de ouro, tinham terminado a noite em sua residência em Golden Hill, o bairro residencial mais alta classe de River Falls. – Foi maravilhoso – murmurou ela, quando retomaram o fôlego. Gordon ergueu a cabeça e depositou um longo beijo nos lábios de Samantha Ridley. – Você que é maravilhosa – respondeu ele, com sua voz quente que o tornara célebre. Um frisson de prazer percorreu o corpo de Samantha. Ele tinha trinta e cinco anos, e ela, apenas vinte. Sabia que muita gente questionaria com ironia a diferença de idade deles, mas não estava nem aí. Estava certa de ter encontrado o homem de seus sonhos. Um dos advogados mais célebres de River Falls. Ele rolou para o lado, pegou seu maço de cigarros e acendeu um. Era o único defeito que via nele, mas iria aguentá-lo até que, num dia próximo, conseguisse convencê-lo a parar. Gordon se levantou e atravessou o quarto, envolvido pela 6
luz opalina do abajur colocado sobre uma escrivaninha projetada por um designer famoso. Pela vidraça, podia contemplar a cidade a seus pés, lá embaixo. Golden Hill, a colina dos milionários. Embora essa reputação fosse um pouco exagerada, Gordon sabia que diversas fortunas da cidade estavam domiciliadas naquela colina verdejante, protegida do frenesi dos bairros mais populares. – O que você está olhando? – perguntou Samantha. Ela estava descalça sobre o carpete, ele não a ouvira chegar. – Nada, estava apenas dizendo a mim mesmo que sou o homem mais sortudo do mundo. Sentiu dois braços o cingirem ternamente por trás e um pequeno queixo pousar sobre seu ombro. Enquanto sentia um início de excitação, um estranho sentimento se apoderou dele. Samantha correspondia a todas as suas expectativas: bonita, culta, elegante, jovem e ambiciosa. No entanto, ele sabia muito bem que faltava alguma coisa. – Em que está pensando? – soprou ela em seu ouvido. Ele deu mais uma tragada no cigarro antes de responder. – Em nós – disse, sem mentir. Viu um sorriso crescer no rosto de Samantha pelo reflexo da vidraça. Sorriu também. Mesmo com o passar dos anos, ele não mudara. Mais uma vez, compreendia que não estava pronto para uma relação duradoura. A paixão que ardera em suas veias naquelas duas últimas semanas já começava a esfriar. Não se deixava enganar. Notara que ela não atingira o orgasmo – e que mesmo assim não dissera nada. Um sinal de afeição, ou de falta de caráter... Como a cada nova conquista, assim que o jogo da sedução terminava e o prazer dos sentidos era atingido, ele começava a achar defeitos em sua parceira. Virou-se e depôs mais um afetuoso beijo nos lábios dela. – Amo você – disse Samanta, com o olhar mergulhado no dele. Ele percebeu que teria que partir mais um coração. – Eu também – respondeu, em tom convincente. Levaria 7
semanas, alguns meses talvez, mas terminaria aquela relação em menos de um ano. Samantha agarrou seu membro revigorado e, com um sorriso safado nos lábios, puxou-o pelo órgão até a grande Jacuzzi do banheiro. Gordon acordou sobressaltado. O coração batendo à toda. O corpo encharcado de suor. Com o olhar perdido na escuridão do quarto, ficou por muito tempo imóvel na cama, até recuperar o fôlego, então passou a mão na testa e enxugou as gotas de suor que ali estavam. Sempre o mesmo pesadelo. Fechou os punhos e ergueu o corpo. Cuidando para não acordar Samantha, jogou as pernas para fora da cama e ficou de pé no quarto. Guiando-se pela fraca luz que se infiltrava pela persiana metálica, saiu dali, fechou a porta e acendeu a luz do corredor. Com o espírito ainda perturbado pelos vestígios de seu pesadelo, dirigiu-se para a sala, acendeu um abajur, serviu-se um uísque duplo, o qual tomou de um só gole; depois de um segundo, foi se sentar na grande poltrona de couro, de frente para a varanda. Colocou o copo na mesa de centro e pegou o controle remoto do home theater. Baixou o volume para não acordar Samantha e ligou o aparelho. A voz de Maria Callas se espalhou pela grande sala. Logo um sorriso desabrochou em seus lábios. O álcool começava a surtir efeito, afastando os resquícios de angústia. Era apenas um pesadelo. Um simples pesadelo. Não havia razão alguma para ter medo. Havia apenas uma única realidade: ele era um dos advogados mais brilhantes de River Falls. Um homem bonito, sedutor, espirituoso, esportivo – e riquíssimo. O que mais podia esperar da vida? Suspirou, sacudindo a cabeça. Erguendo o copo, divertiu-se observando os reflexos luminosos que ondulavam no líquido translúcido. 8
Decididamente, a vida era danada de bela. Havia ainda tantas coisas para descobrir, tantas mulheres para conquistar. Não era um simples pesadelo que ia fazê-lo perder seu otimismo característico. De repente, seu sorriso se fechou. Gordon pensou ter visto uma forma se mover para além da varanda. Com a testa franzida, o olhar atento, largou o copo e se dirigiu lentamente até a porta de vidro. O abajur na entrada da sala emitia apenas uma luz fraca e ele não distinguia nada além das formas das árvores. Deixou seu posto de observação e, enquanto ressoavam as vocalizações da diva, achou o controle remoto da iluminação e acendeu as luzes da varanda e do terraço. O jardim todo se iluminou instantaneamente e revelou... Nada. Gordon se deu conta então de que prendera a respiração durante toda a operação. Imbecil! Está ficando completamente paranoico! Ia desviar o olhar quando seus olhos perceberam uma folha de papel sobre a grande mesa do terraço. Nada demais. Ela poderia ter chegado ali levada pelo vento. Mas não havia nem uma brisa. Instintivamente, olhou para a parede da direita, onde estava pendurado seu fuzil de caça. Não era um grande caçador, mas sabia que era capaz de atingir um alvo a menos de dez metros. – Deixe de paranoia – disse para si mesmo em voz alta. Contudo, um sentimento de opressão o torturava. Tinha muitos inimigos e recebera inúmeras ameaças em seguimento aos processos que ganhara. No entanto, era extremamente raro que elas fossem executadas. Matar um homem é a coisa mais difícil do mundo. A necessária sobrevivência da espécie impede, na maioria das vezes, que se chegue a esse ponto. Pelo menos, ele gostava de pensar assim. Foi pegar o fuzil e certificou-se de que os dois cartuchos estavam no cano. Imaginando por um instante Samantha 9
entrando na sala, sorriu de maneira estranha: o que ela pensaria se o visse daquele jeito? Do terraço, River Falls brilhava com mil luzes. A noite escura rodeava a mansão. Nenhum vizinho por perto. Nenhum barulho. Gordon se aproximou da mesa e apanhou a folha de papel. Era uma página do Daily River. Seu rosto empalideceu ao ler o artigo. Dessa vez, o medo, mas também a raiva, invadiram todo seu ser. Não se deixaria pegar. – Apareça! – gritou. Já não se importava em acordar Samantha. Pelo contrário, queria que ela se juntasse a ele. Com o fuzil em riste, recuou para dentro da casa, na esperança de pegar seu celular antes que o desconhecido tentasse alguma coisa contra ele. Entretanto, quando estava quase chegando à varanda, percebeu movimento à esquerda, bem atrás da reprodução de uma estátua antiga. Antes que pudesse se virar, uma mão enfiara em sua boca um lenço encharcado de clorofórmio. Apesar do esforço, não conseguiu se soltar e logo desmaiou. Samantha despertou lentamente de um sono agradável, lembrando ainda do sexo na véspera. Virou-se langorosamente e ficou decepcionada ao constatar que seu homem já estava de pé. Olhou para o relógio e ficou surpresa com o avanço da hora. 10h24min. O dia começara havia muito. Sem perda de tempo, levantou-se com um pulo e acionou a abertura das cortinas elétricas. Um sol radiante a acolheu. Uma visão paradisíaca se oferecia a ela. Samantha adorava aquele panorama: a floresta e, ao pé da colina, toda a cidade, onde os cidadãos comuns se viravam para sobreviver. Tinha uma sorte imensa, e adorava isso. – Robert? – exclamou, pegando sua calcinha. 10
Mas logo a soltou. O que pode agradar mais um homem do que encontrar sua bela nua desde o despertar? Sorriu diante do pensamento safado e saiu do quarto. Naquela segunda-feira, teriam o dia inteiro para eles; uma semana de férias que começava da melhor maneira possível. Iam aproveitar bem. – Robert? – chamou de novo, saindo do quarto. Ficou decepcionada ao não sentir o cheirinho de café quente. Só faltava ele ter saído sem ela! A menos que tivesse ido comprar uma daqueles cafés da manhã franceses da Rua Strutter. Mas era pouco provável: o trajeto levava mais de uma hora. Que homem estaria disposto a perder tanto tempo apenas para embelezar o despertar de sua companheira? Entrou na sala e ficou ofuscada pelo sol já alto no céu. Piscou os olhos. A porta que dava para a varanda estava aberta. Ele devia estar no jardim. Mesmo sabendo que não havia vizinhos por perto, ela não ia correr o risco de sair nua, ainda mais com o ar frio daquele início de outono. Resolveu, finalmente, tomar um banho na Jacuzzi. Quando ele voltasse, o barulho da água o levaria até ela. Com um sorriso matreiro nos lábios, atravessou de novo a sala, o corredor principal e o corredor que dava no banheiro. Abriu a porta. Gordon estava sentado de costas para ela na Jacuzzi, numa escuridão que a luz proveniente da janela de persianas fechadas não chegava a vencer. Uma estranha sensação se apoderou dela. – Robert? – disse, entrando no banheiro. Pressionou o interruptor. Nada de luz. Os fusíveis queimaram, disse para si mesma enquanto se dava conta de que Robert permanecia estranhamente imóvel. O sangue gelou em suas veias. O mau pressentimento se transformou numa terrível certeza. Com as pernas bambas, avançou sobre os azulejos frios, fechando os punhos, prestes a cair no choro. – Robert, responda – conseguiu articular. 11
Mas ele não reagiu. Foi quando viu o fio de um aparelho elétrico mergulhado na água. Contornou a Jacuzzi. O rosto morto de Robert a fixava. Samantha levou a mão à boca, mas não pôde reprimir o grito animal que lhe escapou.
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Segunda-feira, 1ยบ de outubro de 2007
1 O despertador ressoou no quarto. Logan tirou um braço das cobertas, desligou-o e, virando-se de lado, viu a hora na tela luminosa. Sete horas. Acendeu o abajur na cabeceira. Como de costume, Hurley já estava de pé. Podia escutar a água do chuveiro. Esticou-se e ficou ainda algum tempo enrolando na cama. Uma nova semana estava começando e ele se sentia em plena forma. Tinham passado o sábado percorrendo as lojas de móveis do centro comercial. Hurley finalmente conseguira convencer Logan a trocar uma parte da mobília da sala. Gastaram três mil e quinhentos dólares e passaram o domingo inteiro montando, desmontando e remontando móveis. Logan sentou na cama e olhou o pequeno curativo enrolado em seu polegar. Sorriu pensando em seu jeito de manejar a chave de fenda. Decididamente, nenhum dos dois era um gênio do “faça você mesmo”. O que não os impedira de passar uma tarde deliciosa e saborear, à noite, o fruto de seus esforços. No geral, a sala guardara a mesma tonalidade, mas com um toque bem mais elegante. Hurley realmente tinha o olho de uma decoradora. Ela bem que poderia mudar de ramo se decidisse não voltar a seu posto no FBI! Com esse pensamento agradável, ele se levantou e abriu as persianas. A luz matinal penetrou no quarto. Logan esfregou o rosto; embora soubesse que Hurley 14
gostava de sua barba de três dias, não podia se dar ao luxo de mantê-la. Para ele, uma barba bem feita inspirava respeito. O barulho do chuveiro cessou. Logan se espreguiçou mais uma vez e saiu do quarto. Era sua vez no banheiro. – Dormiu bem? – perguntou ao ver Hurley se secando. – Como sempre – respondeu ela, sorrindo, antes de enrolar a toalha em volta dos cabelos molhados. Aproximou-se dela e beijou furtivamente seus lábios antes de entrar no chuveiro. Naquele início de semana, sentia-se extremamente tranquilo. Tudo ia bem. E não era apenas pela visão paradisíaca do corpo de Hurley. Para Logan, o outono era a mais bela das estações. Aquela em que as árvores ficam avermelhadas, como se as folhas, sentindo seu fim próximo, fizessem questão de incendiar o céu antes de se espalharem pelas calçadas. Aquela em que as nuvens vêm colocar um véu sobre essa incandescência, logo afastadas por ventos carregados com a fumaça das primeiras lareiras acesas. Adorava aquele perfume de nostalgia que se desprendia de toda a natureza no começo de outubro. Ficou bastante tempo sob o chuveiro antes de sacrificar a barba do fim de semana. Banhado e vestido, desceu ao térreo, seguindo o cheiro do café até a cozinha. – Você se cortou – disse Hurley. Instintivamente, Logan passou o dedo no cortezinho. – Juro que você fica muito melhor mal barbeado – continuou Hurley. Logan sentou-se à mesa e sacudiu a cabeça sem responder. Olhou pela janela, parecendo perdido na contemplação das imensas bétulas plantadas ao longo da avenida residencial. – Ei, estou aqui – interpelou-o Hurley, diante de seu mutismo matinal. – O que está havendo? Logan virou a cabeça e mergulhou seu olhar no dela. – Não quero que você vá embora – disse, finalmente. Hurley deixou escapar um sorriso e colocou a mão sobre a dele. – Ainda temos um mês. Não acha que é cedo para começar a falar disso? 15
Logan pegou a xícara de café e tomou um golinho antes de responder. – Estou feliz com você. Não tenho a mínima vontade de ver você voltar para Seattle. Mesmo sabendo controlar suas emoções, Hurley se sentiu profundamente tocada por aquela declaração. Algum tempo antes, quando um ferimento terrível quase custara a vida de seu homem, ela pedira uma licença não remunerada de seis meses para cuidar dele. E continuou lá mesmo depois de ele retomar suas funções de xerife. – Escute, falaremos disso mais tarde. Temos um mês só para nós. Não o estrague, por favor. Logan colocou sua mão sobre a de Hurley e eles se olharam longa e amorosamente. Hurley não sabia mais o que pensar. Nunca fora tão feliz. Logan era o homem com quem sonhara, mesmo com seu caráter difícil: contudo, a vida de dona de casa não era para ela. Tinha que voltar a seu trabalho, reencontrar o gosto da ação e da investigação. Tinha aquilo no sangue e, por mais apaixonada que estivesse, não estava disposta a sacrificar isso por Logan. Esperava apenas que ele a compreendesse e aceitasse dividi-la com seu trabalho de profiler no FBI. De um gole, Logan terminou o café e se levantou. – Preciso ir – disse, fixando o relógio de parede. Sabe como é, segunda-feira de manhã... Hurley assumiu um ar compreensivo. – Almoçamos juntos? – propôs ela. Logan se aproximou e se inclinou para beijá-la na boca. – É claro. Quando ele saiu, Hurley, com a xícara nas mãos, foi até a janela da cozinha. Viu-o entrar no Cherokee, dar a partida e desaparecer na avenida. Depois de soltar um profundo suspiro, saiu da cozinha, subiu ao primeiro andar e se instalou no escritório contíguo ao quarto. Colocou a xícara num canto da mesa, ligou o computador e abriu sua caixa de e-mails. Embora estivesse afastada do FBI durante aqueles seis 16
meses de licença, continuava a dar sua opinião como especialista aos colegas de Seattle e participava ativamente das investigações da delegacia de River Falls, quando Logan o permitia. Eram quase 11 horas e Logan já começava a pensar em seu almoço com Hurley quando a telefonista o chamou na linha interna para lhe passar um chamado de urgência. Imediatamente, ele foi tomado por um mau pressentimento. – Xerife Logan, em que posso ajudar? Escutou um choro, seguido de uma frase incompreensível. Logan inclinou-se para a frente em sua poltrona e apoiou os cotovelos na escrivaninha. – Acalme-se, respire, eu lhe peço – disse com a maior gentileza possível. O choro só fez aumentar. Logan segurou o telefone entre o rosto e o ombro, tirou um cigarro do maço e o acendeu enquanto a jovem retomava fôlego. – Ele está morto, meu Deus, ele está morto! – gritou ela, completamente descontrolada. – Quem está morto? Onde você está? Peço que tente manter a calma – respondeu Logan. Não estava gostando daquilo. A mulher parecia à beira do pânico; ora, o homem que ela acreditava morto podia ainda ter alguma chance. Ela não podia desligar. – Na mansão Hard Stone, em Golden Hill – ela conseguiu dizer. Logan percebeu que ela tentava controlar a respiração. – Sou a namorada de Robert Gordon. Ele se eletrocutou na banheira. Meu Deus, por quê? – concluiu, gemendo. – Senhorita, não toque em nada. Estou enviando uma equipe médica ao local. Apesar de sua dor, tente manter a calma – disse, sentindo que aquelas frases soavam vazias. Nunca tivera as manhas de Hurley e lamentava isso particularmente em momentos como aquele. 17
– Ele está morto! Você não entende? Samantha estava perto de uma crise de histeria. Logan apertou os lábios, buscando desesperadamente as palavras que a acalmariam. – Não fique sozinha. Telefone para algum amigo e lhe diga para ir até aí – conseguiu finalmente dizer. Com um pouco de sorte, aquilo a ocuparia e ela não tocaria no corpo. Ela voltou a soluçar. Logan não tinha tempo a perder. – Tenho que desligar. Por favor, não toque em nada, isso é muito importante. Escutou um fraco “sim” no aparelho. – Já estamos chegando – concluiu Logan, antes de desligar o telefone. Apagou no cinzeiro o cigarro pela metade e se levantou de um salto. Saindo do escritório apressadamente, atravessou o corredor que levava à ampla sala onde ficava a maioria de seus agentes. – Alguém conhece bem Golden Hill? Olhares interrogativos viraram-se para ele. Portnoy tomou a palavra. – Eu conheço – respondeu, antes de se sentir obrigado a acrescentar: – Tenho uma tia-avó que mora lá. – Muito bem, você será meu guia. Vamos até a mansão de Robert Gordon, sabe qual é? – Sim, uma casa enorme lá em cima. – Ele foi assassinado? – interveio a sargento Martinez, realmente preocupada, sentada diante da tela do computador. Sempre admirara aquele advogado com seus modos de cavalheiro. – É o que tentaremos descobrir – respondeu Logan, lembrando-se. – Já ia esquecendo: liguem para o hospital e peçam que eles enviem uma ambulância e uma equipe de paramédicos, nunca se sabe. A moça que constatou a morte estava tão descontrolada que talvez não tenha percebido que ele ainda estava vivo. 18
Martinez balançou a cabeça e pegou imediatamente o telefone. Sob o olhar dos outros policiais, Logan e Portnoy saíram da delegacia. Um vento quente e seco os acolheu. O céu vestia um azul intenso. – O que aconteceu? – perguntou Portnoy. – A moça disse apenas que ele se eletrocutou na banheira. Meio raro, mas não impossível. – Acha que pode se tratar de um assassinato? Logan parou diante do Cherokee e destrancou as portas. Como todo mundo, conhecia o brilhante advogado Robert Gordon e sabia que era um dos melhores partidos da região. Um solteirão empedernido que borboleteava de conquista em conquista. – Quando um homem cheio de dinheiro morre antes dos cinquenta, a morte é de facto suspeita – respondeu, antes de abrir a porta e se instalar no carro. Portnoy sentou ao seu lado e, quando o motor começou a rugir, tratou de indicar o caminho ao xerife.
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2 Stuart andava, olhando para o chão perfeitamente encerado do corredor principal da entrada do prédio B. Era o primeiro dia de aula na universidade, mas ele só tinha um pensamento: sair dali o mais rápido possível. Logo notara que a maioria dos estudantes já se conhecia. É claro, havia alguns isolados aqui e ali no anfiteatro, mas levaria tempo até que fizesse amigos. Sua timidez o forçava a se manter afastado e, além disso, considerava-se fisicamente pouco atraente. Não que fosse particularmente feio, mas sua indiscutível corpulência o complexava e bloqueava todos os seus impulsos de socialização. Sabia que acabaria encontrando companhia, mas a ideia de ter que se ligar a outros rejeitados como ele o deprimia. Nunca deveria ter vindo para esta cidade, disse para si mesmo, antes de transpor uma interseção com outro corredor. Foi naquele momento que um choque violento o fez cair de costas e soltar sua mochila. Estatelou-se no chão, aterrissando sobre os cotovelos. Sentiu uma dor aguda no ombro. – Ei, gorducho, por que não olha por onde anda? – irritou-se um estudante de rosto quadrado que quase caíra ao trombar com Stuart. – Olhe só essa criatura! Realmente, aceitam qualquer um nessa faculdade! – reforçou seu colega. Um pequeno ajuntamento se formara ao redor de Stuart, que se levantou com dificuldade. Cruzou o olhar 20
com o do rapaz em quem esbarrara e só viu ali desprezo e repugnância. Um sentimento misturado de vergonha e raiva o invadiu, mas ficou quieto e avançou para sua mochila caída a dois metros dali. Quando estendeu o braço para pegá-la, com um chute um terceiro fortão a empurrou para mais longe. – Vai ter que aprender a ser mais rápido, saco de banha. A faculdade zela por sua reputação. Não precisamos de hipopótamos como você aqui. Stuart não respondeu. Evitando seus olhares, avançou novamente em direção à sua mochila. Porém, antes que tivesse tempo de chegar a ela, o outro, um tal de Steven, já a pegara. – Vamos ajudá-lo a fazer regime. Ergueu a mochila e, sorrindo, virou-se para o segundo do trio. – Vamos, Carl, como no treino. Assumindo a pose de lançador, Steven jogou-a para cima, enquanto Carl atravessava o ajuntamento para recebê-la, mas, quando ia agarrá-la, uma mão emergiu da multidão e pegou-a antes dele. – Parem com isso, vocês são patéticos! – exclamou uma garota. Todos os olhares se voltaram para ela. Seu físico agradável, suas roupas elegantes e, sobretudo, sua nobreza de atitude chamavam a atenção. – Prazer em conhecê-la – disse Carl com seu melhor sorriso. Mas a garota o ignorou e andou com passo firme até Stuart. – Tome, acho que isso é seu. O tom de sua voz mudara completamente. De naturalmente autoritária, passara para doce e amigável. – Venha, não vamos ficar aqui. Sob os olhos medusados dos outros estudantes, deixaram o local e saíram para o ar livre. – Caralho, você viu que bunda? – apreciou Garth com um gesto sugestivo. Era o terceiro garoto do trio. O mais musculoso – e o mais vulgar. 21
– Não fale assim dela, é uma princesa – disse Steven. Estava quase arrependido de ter invocado com o gordinho. Sentiu-se de repente bem menos apaixonado por Mary, sua namorada. – De onde ela é? – perguntou Carl em voz alta. – Não é possível que não tenhamos reparado numa maravilha dessas. Como seus dois amigos, Carl entrava aquele ano na universidade. Saídos da classe alta de River Falls, eram filhos de boas famílias que tinham tudo para vencer. – Isso, meu velho, pode deixar que vou descobrir – retomou Steven, salivando de antemão. – Ei, meu caro, fui eu que vi primeiro – replicou Carl, colocando um braço pesado sobre o ombro de seu melhor amigo. Steven balançou a cabeça e o olhou bem nos olhos. Sabia que era melhor pegador do que Carl e não tinha dúvidas de que conseguiria comê-la antes dele. É como no futebol americano: que vença o melhor. O riso sarcástico de Carl ressoou e o dedo do meio de Steven se ergueu em resposta. – Não devia ter se metido nisso, poderia ter apanhado – disse Stuart, quando saíram no alpendre do prédio. Um sol radiante banhava o parque da faculdade. As aulas da manhã tinham terminado e muitos estudantes aproveitavam para tomar sol ou descansar na grama à sombra das imensas sequoias. – Tá brincando, esses caras são uns metidos a macho, nunca bateriam numa garota – retorquiu a estudante, logo acrescentando em um tom menos zombeteiro: – Pelo menos, não em público. Stuart olhou-a pelo canto do olho. Ela era magnífica. Sempre gostara de morenas, mas aquela loira tinha algo de mágico. Pare de sonhar! Essa garota não é para você. Como as outras, aliás, disse para si mesmo, dirigindo o olhar para o parque. 22
– Aliás, meu nome é Judith, mas meus amigos me chamam de Jude. – O meu é Stuart. Sou novo aqui – disse, levantando os ombros. – Obrigado por ter me ajudado. Se não estivesse ali, acho que ainda estaria tentando pegar minha mochila. Apesar do tom leve, ainda estava sob o choque daquela agressão. Ah, se não tivesse vindo para aquela maldita cidade! – De onde você é? – perguntou Jude. Stuart parou e encarou-a por um instante antes de responder. Não podia acreditar que ela ainda estivesse falando com ele. Seria possível que realmente se interessasse por ele? – De Seattle. Sou calouro. Meus pais acham que a universidade de River Falls é a melhor do estado de Washington. Espero que tenham razão. Judith sorriu e pôs a mão delicadamente em seu ombro. – Pode ter certeza. Minha irmã mais velha está aqui há dois anos. Parece que é o lugar ideal para se completar a adolescência – tranquilizou-o, antes de acrescentar: – Ora, é só falar do lobo... Sua irmã estava chegando com duas amigas. Olharam para Stuart com uma curiosidade que logo o deixou sem jeito, ainda mais por serem mais altas do que ele. Se o primeiro complexo de Stuart era sua corpulência, o segundo era sua estatura. – Vou nessa, até mais – disse ele, com voz sumida. Judith esqueceu por um instante a chegada de sua irmã e gratificou-o com um sorriso sedutor que aqueceu seu coração. Stuart sentiu-se corar e se virou rapidamente. Desconfiava que ela nunca mais lhe dirigiria a palavra, mas ao menos aquele fabuloso sorriso ficaria gravado no fundo de sua memória.
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