JOHN PRESTON
UM ESCÂNDALO BEM BRITÂNICO SEXO, MENTIRAS E UMA TRAMA DE ASSASSINATO NO PARLAMENTO INGLÊS
TRADUÇÃO: RODRIGO SEABRA
Copyright © 2016 John Preston
Título original: A Very English Scandal: Sex, Lies, and a Murder Plot at the Heart of the Establishment Todos os direitos reservados pela Editora Vestígio. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
editor responsável
revisão
Arnaud Vin
Júlia Sousa Mariana Faria
editor assistente
Eduardo Soares
capa
assistente editorial
Diogo Droschi (sobre imagem de Sony Pictures)
Pedro Pinheiro
diagramação
preparação
Larissa Carvalho Mazzoni
Eduardo Soares
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
Preston, John Um escândalo bem britânico : sexo, mentiras e uma trama de assassinato no parlamento inglês / John Preston ; tradução Rodrigo Seabra. -- 1. ed. -São Paulo : Vestígio, 2020. Título original: A Very English Scandal : Sex, Lies and a Murder Plot at the Heart of the Establishment ISBN 978-85-8286-446-3 1. Escândalos - Inglaterra - História - Século XX 2. Grã-Bretanha - Política e governo - 1964-1979 3. Julgamentos (conspiração) - Inglaterra - Londres 4. Políticos - Grã-Bretanha - Biografia 5. Thorpe, Jeremy, 1929-2014 - Comportamento sexual 6. Thorpe, Jeremy, 1929-2014 - Julgamentos, litígios, etc. I. Título. 18-14258
CDD-364.1523092 Índices para catálogo sistemático:
1. Políticos : Assassinatos : Escândalos sexuais : Biografia 364.1523092
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Para Milly e Joseph
“Sr. Holmes, eram as pegadas de um cão gigantesco!” – Arthur Conan Doyle, O cão dos Baskerville
SUMÁRIO
Um › Parte 1. Um jantar na Câmara dos Comuns 2. O cartão-postal 3. O olho de Urse 4. Coelhinhos 5. O Sr. Bessell vai a Dublin 6. A criatura 7. Esse assunto vil 8. Bessell tira outro coelho da cartola 9. As bênçãos da vida em família 10. Dois juramentos 11. Desdobramentos inesperados 12. Uma ocasião alegre e festiva 13. Atirando em um cachorro doente Dois › Parte 14. A Solução Definitiva 15. Fadado à destruição 16. De volta à escuridão 17. O preço de um título vitalício 18. De mal a pior 19. O grande pântano 20. Uma morte imprevista 21. Um plano simples 22. As coisas desmoronam 23. Bessellisado 24. O homem do Canadá 25. Morte na charneca
13 22 29 35 51 58 66 75 81 85 90 102 111
121 126 132 138 147 154 161 180 194 205 215 223
Três › Parte 26. Vive les trois mousquetaires! 27. Uma confusão dos diabos 28. Malditas mentiras 29. Judas 30. Frio como gelo em Minehead 31. Esperando nos bastidores 32. Abertura e preparativos Quatro › Parte 33. Feito em pedacinhos
229 236 251 256 265 273 284
34. O maior espetáculo da Terra 35. O julgamento de Cantley 36. Cumprimentos constrangedores
295 311 322 335
Agradecimentos
347
PARTE UM
1
Um jantar na Câmara dos Comuns
Em uma noite de fevereiro de 1965, um homem com uma predileção especial por ternos de mohair, um rosto estranhamente vincado e uma vaga semelhança com Humphrey Bogart entrou no salão de jantar destinado apenas aos membros da Câmara dos Comuns. Seu nome era Peter Bessell, um parlamentar do Partido Liberal pela cidade de Bodmin, na Cornualha. Bessell vinha atuando como parlamentar havia apenas seis meses, e por isso ainda ficava meio maravilhado com aquele lugar. Como tinha poucos amigos ali, já havia se acostumado a fazer suas refeições sozinho. Entretanto, naquela noite, ouviu uma voz vinda de trás que perguntava se ele gostaria de companhia para jantar. A voz pertencia a outro parlamentar do Partido Liberal, Jeremy Thorpe. Muito embora fosse oito anos mais novo que Bessell, Thorpe já vinha ocupando um lugar no Parlamento desde 1959. Aos 36 anos de idade, era uma estrela em ascensão em seu partido, largamente considerado como forte candidato a próximo líder dos Liberais. Mesmo que alguns dos parlamentares mais velhos o considerassem um pouco imprudente e exaltado, ninguém duvidava de seu apelo junto aos eleitores. Também bastante vivaz e até bonitão de um jeito meio cadavérico, Thorpe tinha uma quantidade aparentemente inesgotável de charme, já utilizado com muito sucesso no eleitorado de Devon do Norte. Com suas extensas charnecas e seus vales profundos, aquela região pode ter ficado famosa pelas belas paisagens, mas sua população costumava ter empregos de baixa renda, fosse em trabalhos na terra ou na indústria pesqueira. Thorpe não podia estar mais longe desse perfil: era um ex-aluno do Colégio Eton com um gosto bastante refinado em 13
roupas – apreciava particularmente um sobretudo de lã de caxemira com colarinho de veludo e, em um viés mais excêntrico, um chapéu-coco marrom. Mesmo assim, não demorou nada para que ele conquistasse os eleitores de sua região. Thorpe era carismático e simpático. Tinha também uma habilidade extraordinária de se lembrar dos nomes das pessoas e de fazer parecer que os problemas delas fossem muito especiais para ele. Sempre com os braços abertos e um sorriso enorme, se encurvava nos abraços com os eleitores como se a mera visão de cada pessoa ali fosse uma realização de um sonho. Poucos conseguiam resistir. Adoravam até mesmo quando ele, um brilhante imitador desde a infância, fazia graça com o sotaque carregado da região. Na eleição de 1959, foi eleito com uma margem apertada de apenas 362 votos a mais. Já em 1964, esse número tinha subido para 5.136. Como recompensa por seu sucesso, Thorpe tinha sido nomeado portavoz de seu partido no Secretariado da Commonwealth, a comunidade de nações britânicas. Ele e Bessell tinham se encontrado pela primeira vez dez anos antes nas eleições suplementares de Torquay, nas quais Bessell tinha concorrido e perdido. Ainda que eles não se conhecessem direito, Bessell tinha se convencido desde o primeiro instante de que os dois tinham algum tipo de ligação. Fisicamente, eram quase da mesma altura, ambos com cabelos escuros e feições sérias, meio fechadas. Politicamente suas concepções coincidiam em muito também. Mas o que mais chamava a atenção aos olhos de Bessell eram as semelhanças nas personalidades de ambos: “Éramos os dois inflexíveis, ficávamos ofendidos por pouca coisa, capazes de muita arrogância e ambos irremediavelmente sentimentais”. E eles tinham algo mais em comum, algo que logo ficaria bem aparente: cada um a seu modo, ambos eram extremamente oportunistas. Bessell tinha largado a escola aos 16 anos para se tornar pastor protestante sem formação clerical. Depois de abrir um pequeno negócio de alfaiataria na cidade de Paignton, em Devon, acabou indo parar na política e no Partido Liberal, em parte por razões ideológicas, mas, talvez mais provavelmente, por um desejo de apimentar ainda mais sua já caótica vida amorosa. Bessell não parecia um conquistador convencional. Certa vez, comparou seu próprio rosto a “um piso mal revestido”, e os ternos de mohair de que 14
tanto gostava faziam com que ele brilhasse levemente todas as vezes em que se punha ao lado de alguma lâmpada elétrica. Esse efeito ainda era complementado pela voz extraordinariamente rascante, que o fazia soar como um frequentador de bares sujos em algum melodrama da era eduardiana. Ainda assim, fazia um sucesso considerável entre as mulheres. Logo depois da morte de sua primeira esposa, por tuberculose, Bessell se casou de novo. Junto da segunda mulher, Pauline, teve dois filhos, um menino e uma menina, mas o casamento e a paternidade nada fizeram para diminuir seu apetite de mulherengo. Por mais caótica que fosse a vida amorosa de Bessell, ela não era páreo para a confusão de sua vida profissional. Ao longo dos anos, tinha se envolvido em um sem-número de esquemas furados, convencido de que o levariam à fortuna, incluindo uma negociação de máquinas de vender bebidas quentes e uma cadeia de motéis que ele pretendia abrir por toda a Inglaterra. Mas a fortuna de Bessell teimava em não se materializar. Em vez disso, a maioria de seus negócios acabava fracassando terrivelmente, sempre deixando um rastro de dívidas. De acordo com o relato de Bessell sobre o que aconteceu logo após aquele encontro, os dois homens se sentaram à longa mesa reservada para os parlamentares Liberais. Naquela noite, o lugar estava quase deserto, e não havia ninguém por perto que pudesse bisbilhotar o que os dois estavam conversando. O salão de jantar não era exatamente um lugar onde as pessoas se reuniam para fofocar. Tudo nele – o teto dividido em placas rebaixadas de madeira, o brasão real sobre a porta, os sisudos retratos vitorianos nas paredes – parecia especialmente projetado para conferir um ar solene. Condizendo com o ambiente que os cercava, os dois começaram uma conversa um tanto convencional. Falaram sobre o partido e em especial sobre o líder de então, Jo Grimond. Liderança do Partido Liberal nos últimos oito anos, Grimond tinha sido o principal responsável pela restituição da importância do partido. Em 1964, os Liberais tinham conseguido mais de três milhões de votos, um aumento de 5% desde a eleição geral anterior. As eleições de 1964 foram vencidas pelo Partido Trabalhista, liderado por Harold Wilson. Com seu visual pálido e seu sotaque monótono de Yorkshire, Wilson não parecia nem soava como um fervoroso visionário. Mas a Inglaterra, segundo ele declarava, estava à beira de uma nova era de prosperidade, na qual os privilégios econômicos e a pobreza seriam 15
abolidos. E não apenas isso: “Os britânicos tomarão novamente a dianteira entre os povos com a melhor noção de um objetivo comum para todo o país”. Mas essa utopia tão atraente parecia na verdade estar muito distante. Depois de conquistar uma maioria com apenas quatro cadeiras e com a economia afundando, os Trabalhistas se viram em uma constante luta para se agarrar ao poder. Para sua sorte, os Conservadores tinham acabado de eleger um novo líder, o nada carismático e nem um pouco atraente Edward Heath. Como terceiro maior partido, os Liberais ficaram em uma posição ideal para tomar aqueles eleitores desiludidos de ambos os lados. Havia até quem acreditasse que, pela primeira vez em mais de cinquenta anos, o poder estava finalmente ao alcance deles. Jo Grimond tinha apenas 51 anos, mas, desde a eleição para a Câmara dos Comuns, circulavam rumores de que ele estaria próximo da aposentadoria. Ainda que Bessell pensasse que Thorpe pudesse ser um substituto ideal, ficava surpreso e até um pouco chocado com os rumores sobre a vida pessoal do colega. Na posição de único outro parlamentar do sudoeste inglês, Bessell imaginava que poderia ser inquirido dali a algum tempo a respeito de Thorpe, na iminência de uma troca de lideranças. Sob tais circunstâncias, seria prudente ele se municiar com o máximo de informações possível. Pelo menos era assim que ele vinha racionalizando a coisa para si mesmo. Mas, como de costume, Bessell tinha outros motivos bem menos nobres à espreita. Como colecionador inveterado de “disse-me-disse”, estava curioso mesmo era para saber se os tais rumores tinham algum fundo de verdade. Na tentativa de levar Thorpe a falar de sexo, Bessell começou a comentar a respeito de sua secretária, Diana Stainton. Claramente desinteressado pela mudança de assunto, Thorpe perguntou se ela era boa. “Ah, sim”, Bessell respondeu. “Especialmente na cama.” Thorpe olhou bem para ele por intermináveis segundos e então desatou a rir. Disse a Bessell que o tinha imaginado como um homem muito feliz no casamento. Bessell confirmou que seu casamento era mesmo muito feliz, mas que aquilo era outra coisa. “Acredito que você possa considerar como um hobby”, disse. “Algumas pessoas colecionam selos ou jogam golfe ou criam cavalos. Eu gosto de transar.” 16
Àquele ponto, Bessell já tinha conquistado toda a atenção de Thorpe. Mas também sabia que Thorpe se entediava facilmente. Se quisesse atrair uma conversa mais indiscreta, teria de planejar com cuidado seu próximo passo. “Mas é claro que quando eu era jovem”, Bessell continuou, “era tudo mais difícil. Anos atrás, as boas moças não iam para a cama com a gente se não se casassem antes”. “E o que você fazia então?”, Thorpe perguntou. “Ah, bem”, Bessell disse pensativo. “Naquela época eu ainda tinha tendências homossexuais.” Só que não havia verdade alguma naquilo. Bessell nunca tinha sido nada além de um inveterado heterossexual; estava apenas jogando uma isca para ver que resposta teria do colega. Bessell não poderia ter sido mais apelativo, mas Thorpe ficara extasiado. Chegando para a frente, perguntou: “Tinha mesmo? Me conta mais sobre isso”. Um pouco tomado de surpresa, Bessell tagarelou alguma coisa sobre um caso homossexual certa vez em um clube noturno em Viena. Quando terminou, Thorpe não disse nada logo de princípio. Em vez disso, fez sinal para o garçom. “Peter, a situação pede uma bebida. O que você vai querer?” Bessell disse que queria vinho do porto. “Nada mais apropriado”, Thorpe respondeu. “Quero o mesmo.” Enquanto esperavam por suas bebidas, Bessell decidiu usar sua momentânea vantagem para apertar mais um pouco o colega. “E quanto a você?”, perguntou. “Estou certo de que não vive como um monge trapista.” Thorpe pareceu um pouco tenso, e, por um momento, Bessell se perguntou se não teria dado um passo maior que as pernas. “Quando estava em Oxford, tive tendências homossexuais”, Thorpe foi admitindo com cuidado. “Mas é claro que isso já faz muito tempo.” Foram interrompidos pelo garçom trazendo as bebidas. Depois de erguerem as taças um para o outro, Bessell disse: “Acho que pessoas como nós nunca perdem esse traço, não é?”. Fez-se nova pausa, e então o rosto de Thorpe se desdobrou em um sorriso. “Peter”, ele disse em um meio-sussurro, “somos só um casal de 17
bichas velhas... Me diga aqui”, continuou, enquanto ambos bebericavam seus portos, “como você classificaria essa sua fase? 50/50? “Não”, Bessell disse sem demora. “Diria mais como 80/20.” “E você quer dizer 80% ou 20% gay?”, Thorpe quis saber. Bessell nunca tinha ouvido a palavra gay antes e por isso levou um segundo ou dois para entender bem o que Thorpe queria dizer. “Eu quis dizer 80% para as mulheres”, respondeu. “Sério? É o contrário para mim”, Thorpe disse. “Sou 80% gay.” Naquele momento, Bessell já sentia que ele e Thorpe tinham ainda mais em comum do que ele teria imaginado em qualquer momento anterior. Como ele depois se lembraria em traços grandiosos tão característicos, “assim como acontecia com Jeremy, minhas extraordinárias energias mentais e físicas se combinavam em um desejo de conquista em diversas áreas”. Ou, para dizer de outro modo, quando confrontados com a menor possibilidade de tentação sexual, ambos se viam incapazes de resistir. Thorpe continuou a conversa falando de como seria desastroso se seus eleitores algum dia soubessem de sua homossexualidade. Além de isso significar o fim imediato de sua carreira política, a revelação ainda poderia levá-lo à cadeia, uma vez que a homossexualidade ainda era considerada crime em 1965. “Mas nos viramos bem até agora”, disse. “Ninguém na Câmara sabe a meu respeito.” “E alguém ligaria?”, Bessell perguntou. “Ah, com certeza”, Thorpe respondeu pesaroso. “Nenhum de nós dois poderia ser líder do partido se alguém descobrisse.” Naquele momento, o salão já estava fechando e Thorpe então pediu a conta. “Muito bem dito”, Bessell disse. “Então, devemos cuidar para que ninguém jamais descubra.” “Você tem razão”, Thorpe disse em um súbito arroubo passional. “E, em nome de Jesus Cristo, Peter, vamos cuidar para que eles nunca descubram.” Quatro semanas depois, Bessell estava de manhã em seu escritório na Rua Clarges quando o telefone tocou. Era Thorpe. Queria saber se 18
poderiam almoçar juntos. Bessell percebeu que Thorpe parecia mais tenso e menos vivaz que de costume. Claramente, alguma coisa estava errada. Por sugestão de Thorpe, eles foram ao Ritz. Também aquilo pareceu estranho a Bessell, já que ambos eram membros do Clube Nacional Liberal, que era bem mais perto da Câmara dos Comuns, mas ele não disse nada. Na hora em que Bessell chegou, Thorpe andava impaciente de um lado para o outro pelo lobby. Depois de saudá-lo de maneira formal, foram os dois até o salão de jantar, onde conseguiram uma mesa com vista para o Parque Green. As flores da primavera começavam a desabrochar, e Bessell, que se vangloriava de ter um bom olho para a beleza em todas as suas formas, pensou que, naquele dia, o parque estava particularmente lindo. No entanto, a bela vista era certamente a coisa mais distante dos pensamentos de Thorpe. Apenas passando os olhos pelo cardápio, pediu um bife ao molho tártaro. Assim que o garçom se afastou, Thorpe tirou uma carta do bolso interno do paletó e a entregou a Bessell. “Leia”, disse. Bessell notou que o envelope estava endereçado à mãe de Thorpe, Ursula, moradora de Oxted, em Surrey. A carta estava escrita em um bloco de notas azul. Ainda que fosse bem comprida – dezessete páginas – e que a escrita à mão estivesse difícil de decifrar, Bessell logo entendeu do que se tratava em linhas gerais. O remetente começava se desculpando por perturbar a Sra. Thorpe, mas também lembrava-lhe que já tinha sido um hóspede daquela casa. E então fez a alegação de que ele e Thorpe eram amantes. “Pelos últimos cinco anos, como a senhora provavelmente já sabe, Jeremy e eu vimos mantendo um relacionamento ‘homossexual’. Aprofundar-me nos detalhes disso seria um desserviço a todos nós. Quando estive em Stonewalls [casa da mãe de Thorpe], aquela foi a primeira vez que o vi, muito embora ele tenha dito à senhora algo sobre um programa de TV e Malta. Essa parte não foi verdade. O que permanece de fato é que, por ocasião de meu primeiro encontro com Jeremy naquele dia, eu trouxe ao mundo esse mal que jaz latente em todo homem.” Segundo o homem alegava, Thorpe prometera cuidar dele. Mas o caso tinha terminado e a promessa tinha sido descumprida. Todas as tentativas posteriores de contato com Thorpe tinham falhado. O tal homem agora morava em Dublin e precisava de ajuda. Em especial, queria que Thorpe 19
devolvesse a ele seu cartão de seguridade social, sem o qual, segundo o que estava escrito, o homem não conseguiria arrumar um emprego. Mas, para ajudá-lo a passar o sufoco, ele perguntava se a Sra. Thorpe não poderia fazer a gentileza de lhe emprestar trinta libras. “Odeio pedir porque sei que é um assunto delicado, e sei o quanto a senhora e seu filho são próximos. Na verdade, é por isso mesmo que escrevo agora à senhora. Jeremy não me deve nada, e talvez até eu deva muito a ele, ainda que sinta que estejamos quites. Mas agora, em vez de procurar algum amigo de ocasião, venho apelar aos bons sentimentos dele como homem de bem para que me ajude neste momento de necessidade. Prometo pagar de volta cada centavo assim que me recuperar – e acredite-me quando digo isso.” E ele terminava a carta com um pedido de desculpas e implorando: “A senhora consegue entender minha situação, Sra. Thorpe? Sinto muitíssimo. Por favor, acredite quando lhe digo que estou desesperado por qualquer ajuda”. A carta estava assinada por Norman Lianche Josiffe. Bessell ergueu os olhos novamente e viu Thorpe encarando-o nervosamente. “Isso é verdade?”, Bessell perguntou. Thorpe assentiu positivamente em movimentos lentos. “E o que sua mãe achou disso?” “Ela não acreditou”, Thorpe respondeu. Foi então que Thorpe puxou uma segunda carta. Essa era bem mais curta, com apenas duas páginas. Explicou que era um rascunho da carta que ele pediria a seu assessor para enviar a Josiffe. Nela, Thorpe negava com veemência qualquer envolvimento sexual entre os dois e ameaçava entrar com um processo por difamação caso Josiffe viesse a repetir suas alegações: “Nosso cliente nega de maneira cabal as alegações danosas e sem base que o senhor fez contra ele e nos autoriza a avisá-lo de que ele não hesitará em registrar uma queixa, seja em tribunais ingleses ou irlandeses, para a abertura de um processo por difamação se vier a perceber qualquer traço de evidência de que o senhor tenha repetido sua alegação inteiramente viciosa e mentirosa”. Havia ainda mais, e tudo no mesmo tom. Bessell leu a carta e o aconselhou veementemente a não enviá-la. 20
“Mas por que não?”, Thorpe quis saber. “Já se esqueceu de Oscar Wilde?”, Bessell perguntou. Para a surpresa de Bessell, Thorpe parecia nem ter ideia do que ele falava. Bessell teve de lembrá-lo de que Wilde tivera sua reputação destruída por um processo de difamação, em 1895, contra o Marquês de Queensberry, que alegara que Wilde seria um “sondomita” (sic). “Então o que diabos eu vou fazer?”, Thorpe exclamou. Bessell disse a ele que não poderia aconselhá-lo de outra maneira até que conhecesse melhor todos os detalhes do caso. Thorpe ficou pensativo por um instante, e então avisou que se tratava de uma longa história. Tudo bem, disse Bessell, já que ele não tinha nada para fazer naquela tarde. Bessell não tinha como saber, é claro, mas aquela decisão arruinaria sua vida.
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