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Um cometa na terra dos Moomins

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TRADUÇÃO Ana Carolina Oliveira

UM COMETA NA Terra DOS MOOMINS TOVE JANSSON

UM COMETA NA Terra DOS MOOMINS

2ª EDIÇÃO

TRADUÇÃO Ana Carolina Oliveira

Copyright © Tove Jansson 1946

Publicado originalmente por Schildts Förlags Ab, Finland. Todos os direitos reservados. Edição em português publicada através de acordo com Schildts & Söderströms e Vikings of Brazil Agência Literária e de Tradução Ltda.

Título original: Kometjakten

Traduzido do inglês Comet in Moominland por Ana Carolina Oliveira

Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora Ltda. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

edição geral

Sonia Junqueira

diagramação

Carol Oliveira

revisão

Maria Theresa Tavares

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Jansson, Tove

Um cometa na terra dos Moomins / Tove Jansson ; tradução Ana Carolina Oliveira. – 2. ed. – Belo Horizonte : Editora Yellowfante, 2020.

Título original: Kometjakten

ISBN 978-65-86040-18-0

1. Literatura infantojuvenil I. Título.

20-34719

CDD-028.5

Índices para catálogo sistemático:

1. Literatura infantil 028.5

2. Literatura infantojuvenil 028.5

Maria Alice Ferreira - Bibliotecária - CRB-8/7964

A YELLOWFANTE É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA

Belo Horizonte

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Belo Horizonte . MG

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www.editorayellowfante.com.br

GALERIA DOS MOOMINS

CAPÍTULO 1

Que conta como Moomin e Sniff, seguindo uma trilha misteriosa para o mar em busca de pérolas, descobrem uma caverna e como Muskarato evitou pegar uma gripe.

CAPÍTULO 2

Que conta sobre estrelas com cauda.

CAPÍTULO 3

Que conta como lidar com crocodilos.

CAPÍTULO 4

Que conta sobre o encontro com Snufkin e a terrível experiência com um lagarto gigante.

CAPÍTULO 5

Que conta sobre o rio subterrâneo e sobre o resgate por Hemulen.

CAP Í TULO 6

Que conta sobre a aventura com a águia e a descoberta do Observatório.

CAP Í TULO 7

Que conta como Moomin salva Miss Snob de um arbusto venenoso e que um cometa aparece no céu.

CAPÍTULO 8

Que conta sobre as Lojas da Vila e uma festa na floresta.

CAPÍTULO 9

Que conta sobre a fantástica travessia do mar, que tinha secado, e como Miss Snob salvou Moomin de um polvo gigante.

CAPÍTULO 10

Que conta sobre a coleção de selos de Hemulen, uma nuvem de gafanhotos e um terrível tornado.

CAPÍTULO 11

Que conta sobre uma festa de boas-vindas, o voo para a caverna e a chegada do cometa.

CAPÍTULO 12

Que conta o fim da história.

GALERIA DOS MOOMINS

Aqui estão alguns dos personagens que você vai encontrar neste livro.

Moomin Mãe

O centro da família, extremamente correta e de cabeça aberta.

Moomintrol, ou Moomin, para os amigos

Tão inocente quanto entusiasmado, é também ingênuo e muito amável.

Moomin Pai

Contador de histórias, sonhador, muito leal à família e aos amigos.

Miss Snob

Snork Irmão de Miss Snob e grande amigo de Moomin. Acredita no poder da ciência e gosta de solucionar problemas.

Amiga de Moomin, muito ocupada com suas fantasias românticas.

Snufkin

Sniff

Um boêmio, músico e melhor amigo de Moomin.

Um amigo adotivo da família cujo interesse principal é conseguir riquezas, como pedras preciosas.

Muskarato

Diz ser filósofo; gosta de ficar em paz.

Hemulen

Colecionador apaixonado de selos.

O macaco-seda

Um macaquinho de pelo escuro e aveludado que mora na montanha perto do Vale e adora se divertir às custas dos outros.

CAPÍTULO 1

Que conta como Moomin e Sniff, seguindo uma trilha misteriosa para o mar, em busca de pérolas, descobrem uma caverna e como Muskarato evitou pegar uma gripe.

Há algumas semanas, a família Moomin estava morando no vale onde tinha encontrado sua casa,* depois do terrível dilúvio (que é outra história).** Era um vale maravilhoso, cheio de bichinhos felizes e árvores floridas, com um estreito rio de águas claras que descia da montanha, contornava a casa dos Moomins e desaparecia em direção a outro vale, onde, sem dúvida, outros animaizinhos se perguntavam de onde ele vinha.

* Ela era pintada de azul. Normalmente, casas de moomins são azuis. A autora.

** Ver Os Moomins e o dilúvio, nesta coleção. (N. E.)

Uma manhã – foi a manhã em que Moomin Pai terminou de construir a ponte sobre o rio –, o pequeno Sniff fez uma descoberta. (Ainda havia muitas coisas para serem descobertas no vale.)

Ele estava vagando pela floresta, quando, de repente, notou uma trilha misteriosamente sinuosa entre as sombras verdes, uma trilha que nunca tinha visto. Sniff ficou lá, hipnotizado, olhando para aquelas curvas por vários minutos.

– É engraçada essa coisa de trilhas e rios – refletiu. – A gente os vê e, de repente, se sente triste e quer estar em outro lugar, talvez o lugar aonde a trilha ou o rio esteja indo. Tenho de comentar isso com Moomin, e nós podemos explorar juntos esse caminho, porque seria um pouco arriscado eu ir sozinho. – Gravou, com seu canivete, um símbolo secreto no tronco de uma árvore, para que pudesse encontrar o lugar de novo, e pensou, orgulhoso: “Moomin vai ficar surpreso!”.

Depois, correu para casa, o mais rápido que pôde, para não se atrasar para o almoço.

Moomintrol, ou Moomin, como era chamado pela família e pelos amigos, estava acabando de dependurar um balanço quando Sniff chegou. Ficou muito interessado na trilha misteriosa, e, logo depois do almoço, os dois partiram para dar uma olhada nela.

Na metade do caminho, subindo a montanha, floresciam várias árvores azuis com grandes peras amarelas – e, claro, foi impossível os dois passarem

por elas sem que Sniff decidisse que estava com fome.

– É melhor pegarmos só as que caíram com o vento – observou Moomin –, porque mamãe faz geleia com elas. – Mas tiveram de balançar um pouco a árvore, para que algumas caíssem “com o vento”.

Sniff ficou muito contente com a aquisição.

– Você pode carregar as provisões, porque não tem mais nada a fazer, tem? Estou ocupado demais para pensar nessas coisas, já que sou o pioneiro da trilha.

Quando chegaram ao topo da montanha, eles se viraram e olharam para o vale lá embaixo. A casa dos Moomins não passava de uma bolinha azul, e o rio, de uma fita verde fininha; o balanço eles nem conseguiam ver.

– Nunca estivemos tão longe assim de casa – observou Moomin, e

um arrepio de animação passou pelos dois amigos, ao pensarem nisso.

Sniff começou a vasculhar o local. Olhou para o Sol, sentiu a direção do vento, cheirou o ar e realmente se comportou como um verdadeiro pioneiro de trilha.

– Deve ser em algum lugar por aqui – disse, ocupado. – Fiz um símbolo secreto com meu canivete, em uma ameixeira, exatamente onde a trilha começa.

– Poderia ser aqui? – perguntou Moomin, apontando para um desenho encaracolado, em um tronco à esquerda.

– Não! Está aqui! – gritou Sniff, quando encontrou outro desenho encaracolado, à direita.

Ao mesmo tempo, os dois viram um terceiro desenho encaracolado bem diante deles, mas esse estava muito alto, pelo menos a um metro do chão.

– É esse, tenho certeza – disse Sniff. – Devo ser mais alto do que imaginei!

– Bem, estou impressionado! – exclamou Moomin. – Há desenhos encaracolados por toda parte! E alguns deles estão a quase 30 metros de altura. Acho que você encontrou uma trilha assombrada, Sniff, e agora os fantasmas estão tentando nos impedir de usá-la. O que você acha?

Sniff não disse nada, mas seu rosto ficou muito pálido. Nesse momento, um cacarejo de gargalhada fantasmagórica quebrou o silêncio, e uma grande ameixa azul caiu e quase acertou o olho de Moomin. Sniff soltou um guincho de terror e correu

para se esconder, mas Moomin estava só com raiva e tinha resolvido procurar o inimigo; de repente, viu quem era. Pela primeira vez na vida, estava frente a frente com um macaco-seda!

Ele estava agachado no galho de uma árvore: uma pequena bola escura e aveludada. Seu rosto era redondo e mais claro do que o resto do corpo (mais ou menos da cor do nariz de Sniff, quando ele o lavava de qualquer jeito), e seu sorriso era dez vezes maior do ele mesmo.

– Pare com esse cacarejo horrível! – gritou Moomin quando viu que o macaco era menor do que ele. – Esse vale é nosso. Vá rir em outro lugar.

– Miserável! Infeliz! – murmurou Sniff, fingindo não ter se assustado. Mas o macaco-seda só se dependurou pelo rabo e riu mais alto ainda. Depois, jogou mais algumas ameixas nos dois e desapareceu floresta adentro, com um riso maldoso de despedida.

– Ele está fugindo! – gritou Sniff. – Venha, vamos segui-lo! – E saíram correndo, atropelando-se nos arbustos e espinheiros, sob uma chuva de frutos maduros e pinhas, enquanto todos os bichinhos

do chão fugiam para suas tocas o mais rápido que podiam.

O macaco-seda se balançava de árvore em árvore, à frente deles: havia muitas semanas que não se divertia tanto.

– Você não acha que é ridículo (puff...) correr atrás de um macaquinho bobo desse jeito? – perguntou Sniff, depois de um tempo. – Não acho que (puff...) ele valha a pena.

Moomin concordou, e os dois se sentaram sob uma árvore e fingiram estar pensando em algo importante. O macaco-seda se acomodou em um galho da árvore acima deles e tentou parecer importante também: estava se divertindo quase tanto quanto antes.

– Não ligue pra ele – sussurrou Moomin. E, em voz alta: – Bom lugar esse aqui, não, Sniff?

– É. Trilha interessante também – concordou Sniff.

– Trilha – repetiu Moomin, pensativo. E, de repente, notou onde estavam. – Ah, essa deve ser a trilha misteriosa – suspirou.

Ela realmente parecia muito misteriosa. Os galhos das ameixeiras, carvalhos e álamos prateados se uniam no alto e formavam um túnel escuro, que levava ao desconhecido.

– Agora temos de levar isso a sério – disse Sniff, lembrando que era o pioneiro da trilha. – Vou procurar atalhos, e você bata três vezes, se vir alguma coisa perigosa.

– No que devo bater? – perguntou Moomin.

– No que quiser – respondeu Sniff. – Só fique calado. E o que você fez com as provisões? Imagino que tenha perdido. Oh, minha nossa! Eu tenho de fazer tudo sozinho?

Moomin franziu a testa, desanimado, mas não respondeu.

Caminharam, então, para dentro do túnel verde: Sniff, procurando atalhos; Moomin, procurando intrusos perigosos; e o macaco-seda, saltando de galho em galho acima de suas cabeças.

A trilha seguia em curvas para dentro e para fora das árvores, ficando cada vez mais estreita, até que desapareceu de vez. Moomin parecia intrigado:

– Bem, parece que é isso. Ela deve ter chegado a algum lugar muito especial.

Os dois ficaram parados e se olharam, desapontados. Mas, enquanto estavam lá, em pé, uma rajada de vento salgado bateu no rosto deles, e ouviram um leve suspiro bem longe.

– Deve ser o mar! – exclamou Moomin, com um grito de alegria, e começou a correr na direção

do vento. Seu coração batia de emoção, pois não há nada que os moomins adorem mais do que um mergulho no mar.

– Espere! – gritou Sniff. – Não me deixe pra trás!

Mas Moomin não parou até chegar à praia. Sentou-se na areia, sério, observando as ondas quebrarem, uma após outra, com sua crista de espuma branca. Depois de um tempo, Sniff apareceu na beirada do bosque e se juntou a ele.

– Está frio aqui – ele disse. – Por falar nisso, você se lembra de quando navegamos com os Amperinos naquela tempestade horrível, e eu fiquei muito enjoado?*

– Essa é outra história, bem diferente – respondeu Moomin. – Agora, vou nadar. – E correu direto para o mar, sem parar para tirar a roupa (porque, claro, moomins não usam roupas, exceto, às vezes, para dormir).

O macaco-seda tinha descido da árvore e estava sentado na praia arenosa, observando os dois.

– O que vocês estão fazendo? – gritou. – Não estão vendo que está úmido e frio?

– Parece que, agora, conseguimos chamar sua atenção! – exclamou Sniff.

– Verdade. Ouça, Sniff, você sabe mergulhar com os olhos abertos? – perguntou Moomin.

– Não! E não pretendo tentar. Nunca se sabe o que se pode ver lá no fundo. Se você fizer isso, não me culpe se algo horrível acontecer!

* Aconteceu em Os Moomins e o dilúvio. (N. E.)

– Ah! – disse Moomin, saltando em uma grande onda e nadando entre as bolhas verdes de luz.

Depois foi mais para o fundo e encontrou florestas de algas enrugadas, balançando de leve na correnteza – algas decoradas com lindas conchas brancas e rosa – e, mais no fundo ainda, as águas verdes escureceram, até que ele só conseguiu ver um buraco negro que parecia não ter fim.

Moomin se virou e ganhou velocidade na direção da superfície, onde uma onda grande o carregou direto até a praia. Lá estavam Sniff e o macaco-seda, gritando por socorro na maior altura.

– Pensamos que você tinha se afogado! – disse Sniff. – Ou que um tubarão tivesse comido você!

– Ah! – exclamou Moomin. – Estou acostumado com o mar. Enquanto estava lá embaixo, tive uma ideia, uma boa ideia. Mas me pergunto se um forasteiro deveria ouvi-la – e olhou, sem rodeios, para o macaco-seda.

– Vá embora! – Sniff ordenou. – Isso é particular.

– Oh, por favor, conte! – suplicou o macaco-seda, pois era a criatura mais curiosa do mundo. – Juro que não vou contar pra ninguém.

– Devemos fazê-lo jurar? – perguntou Moomin.

– Bem, por que não? – respondeu Sniff. – Mas tem de ser um juramento de verdade.

– Repita depois de mim – ordenou Moomin. –

Que o solo me engula, que bruxas velhas chacoalhem meus ossos secos e que eu nunca mais tome sorvete se não guardar esse segredo com minha vida. Ande.

O macaco-seda repetiu o juramento, mas foi meio descuidado ao fazê-lo, porque não conseguia manter nada na cabeça por muito tempo.

– Bom! – disse Moomin. – Agora, posso contar. Vou caçar pérolas e, depois, vou enterrar todas em uma caixa aqui na praia.

– Mas onde vamos encontrar uma caixa? – perguntou Sniff.

– Vou deixar essa tarefa por sua conta e do macaco-seda – respondeu Moomin.

– Por que eu sempre tenho de fazer as coisas difíceis? – reclamou Sniff, triste. – Você sempre se diverte.

– Você acabou de inaugurar a trilha – disse Moomin. – E, além disso, você não sabe mergulhar. Então, não seja bobo.

Sniff e o macaco-seda partiram para procurar uma caixa ao longo da praia.

– Miserável! Infeliz! – resmungou Sniff. – Ele mesmo podia procurar sua caixa velha.

Eles procuraram um pouco, mas, depois de um tempo, o macaco-seda esqueceu o que estavam fazendo e começou a caçar caranguejos. Havia um que sempre fugia, com seu andar de lado, e se escondia debaixo de uma pedra, e eles só conseguiam ver seus olhos, que pulavam para fora e os seguiam, ameaçadores. Sniff e o macaco o seguiram por muito tempo, até que ele entrou em um buraco na pedra e construiu uma parede de areia à sua volta, para que eles não conseguissem se aproximar.

– Bem, não vamos conseguir pegá-lo de jeito nenhum – disse o macaco-seda. – Venha! Vamos escalar as rochas!

Era uma parte deserta da costa; as rochas eram altas e irregulares. Depois de escalar por um tempo, eles se viram em uma borda estreita acima do mar, com uma parede de pedra escarpada, de um lado, e uma queda acentuada para o mar, do outro.

– Você está com medo demais pra continuar? –perguntou o macaco-seda, que achava tudo aquilo muito fácil, já que tinha quatro patas.

– Nunca tenho medo – respondeu Sniff. – Mas acho que a vista é melhor daqui.

O macaco-seda sorriu, irônico, e saiu, cheio de si, com o rabo levantado. Depois de algum tempo, Sniff ouviu sua gargalhada.

– Ei! – gritou o macaco. – Encontrei uma casa pra mim, e bem boa!

Sniff hesitou por um momento, mas não conseguiu resistir à ideia da casa. (Ele sempre adorou casas em lugares estranhos.) Então, fechou os olhos bem apertados e saiu andando pela borda. Os respingos de água o atingiam, e ele ofereceu uma oração ao Protetor-de-Todas-as-Pequenas-Criaturas. Nunca em sua vida tinha sentido tanto medo, ou tanta coragem, quanto naquele momento, rastejando pela beirada da rocha. De repente, tropeçou no rabo do macaco-seda e abriu os olhos. O macaco estava deitado de bruços, com a cabeça enfiada num buraco no chão, conversando e rindo sem parar.

– Então? – perguntou Sniff. – Onde é a tal casa? – Aqui dentro! – guinchou o macaco-seda, e desapareceu dentro da rocha.

Sniff viu que era uma caverna, uma caverna de verdade, do jeito que sempre tinha sonhado encontrar. Sua entrada era bem pequena, mas no interior ela se abria em uma área grande. As paredes de pedra subiam suavemente até uma abertura no topo, que deixava a luz do Sol entrar, e o chão era coberto de areia fina e branca.

O macaco-seda correu para uma rachadura em um canto da caverna e começou a farejar e remexer a areia.

– Deve haver muitos caranguejos aqui – gritou.

– Venha me ajudar a procurar!

– Não me perturbe! – disse Sniff, sério. – Esse é o momento mais importante da minha vida até agora, e essa é minha primeira caverna. – Alisou a areia com o rabo e suspirou. “Vou morar aqui pra sempre”, pensou. “Vou dependurar umas pequenas prateleiras e cavar um buraco na areia pra dormir, e vou ficar com um lampião aceso durante a noite. E talvez faça uma escada de corda, pra poder subir até o topo e ver o mar. Moomin vai ficar surpreso.”

Então, lembrou-se da caça às pérolas de Moomin e da caixa.

– Ouça, macaco-seda – disse –, e a tal caixa?

Você acha que Moomin realmente precisa dela?

– Que caixa? – perguntou o macaco-seda, cuja memória era extremamente curta. – Venha! Acho que está começando a ficar chato aqui. – E, num piscar de olhos, estava fora da caverna, voltando ao longo da borda e para a areia, lá embaixo.

Sniff o seguiu devagar. Várias vezes, virou-se e olhou orgulhoso para a caverna. Estava tão cheio de si, que até se esqueceu de ficar com medo da perigosa borda, e ainda estava perdido em pensamentos quando se arrastou pela praia até o lugar onde tinham deixado Moomin caçando pérolas.

Já havia uma fileira de pérolas brilhantes, e, na rebentação, Moomin subia e descia, como uma rolha, enquanto o macaco-seda estava sentado na areia muito ocupado, se coçando.

– Sou o tesoureiro – decidiu ele, sentindo-se importante. – Olhe, já contei essas pérolas cinco vezes, e cada vez chego a um número diferente. Não é esquisito?

Moomin saiu da água com os braços cheios de ostras; trazia várias, até penduradas no rabo.

– Fiuuuu!... – suspirou, balançando a cabeça para tirar as algas dos olhos. – Chega, por hoje. Onde está a caixa?

– Não havia caixas boas na praia – respondeu Sniff. – Mas fiz uma descoberta incrível.

– O que foi? – perguntou Moomin, pois descobertas (junto com trilhas misteriosas, nadar e segredos) eram do que ele mais gostava. Sniff fez uma pausa e em seguida disse, dramático: – Uma caverna!

– Uma caverna de verdade?! – admirou-se Moomin. – Com um buraco pra gente rastejar pra dentro, paredes de pedra e chão de areia?

– Tudo! – respondeu Sniff, orgulhoso. – Uma caverna de verdade, que eu mesmo encontrei. – E piscou para o macaco-seda, mas ele estava contando as pérolas pela oitava vez e nem se lembrava mais da caverna.

– Isso é sensacional! – exclamou Moomin. – Que notícia maravilhosa! Uma caverna é muito melhor do que uma caixa. Vamos levar as pérolas pra lá agora.

– É exatamente o que eu tinha pensado em fazer – concordou Sniff.

Carregaram as pérolas para a caverna e as organizaram no chão. Depois, deitaram-se de costas, olhando para o céu através do buraco no topo.

– Sabe de uma coisa? – começou Moomin. – Se viajar quilômetros e quilômetros pra cima, no céu, você chega a um lugar onde não é mais azul. É bem preto. Mesmo durante o dia.

– Por que é assim? – perguntou Sniff.

– Porque sim – respondeu Moomin. – E lá em cima, na escuridão, há monstros enormes, como escorpiões, ursos e carneiros.

– Eles são perigosos? – Sniff quis saber

– Não pra nós – tranquilizou-o Moomin. – Eles só agarram umas estrelas de vez em quando.

Sniff ficou pensando profundamente sobre aquilo. Depois de um tempo, pararam de conversar e ficaram deitados, só observando a luz do Sol, que

entrava pelo teto, espalhava-se pela areia e se refletia nas pérolas de Moomin.

Era tarde da noite quando Moomin e Sniff voltaram para a casa azul, no vale. O rio corria, quase sem ondulação, sob a ponte, que chamava atenção com sua nova camada de tinta, e Moomin Mãe arrumava conchas ao redor dos canteiros de flores.

– Já jantamos – ela avisou. – É melhor verem o que conseguem encontrar na despensa, queridos. Moomin dava pulos de alegria.

– A gente estava a pelo menos cem quilômetros daqui! – contou. – Seguimos uma trilha misteriosa, e eu encontrei uma coisa muito valiosa que começa com P e termina com A, mas não posso contar o que é, porque fiz um juramento.

– E eu encontrei uma coisa que começa com C e termina com A! – gritou Sniff. – E, em algum lugar no meio, tem A, V, E, R e N, mas não vou falar mais nada.

– Olhem só! – exclamou Moomin Mãe. – Duas grandes descobertas em um só dia! Agora corram e tratem de jantar, queridos. A sopa está quente no fogão. E não façam muito barulho, porque papai está escrevendo.

Ela continuou arrumando as conchas, uma azul, duas brancas, uma vermelha, e estava ficando realmente lindo. Ela assoviava baixo, para si mesma, e pensou que o ar era de chuva. Um vento se formava, e, de tempos em tempos, uma rajada balançava as árvores, revirando as folhas. Moomin Mãe notou um exército de nuvens se agrupando no horizonte e começando a marchar no céu. “Espero que não haja outro dilúvio”, pensou, catando algumas conchas que tinham sobrado, e entrou na casa quando as primeiras gotas de chuva começavam a cair.

Na cozinha, encontrou Moomin e Sniff amontoados em um canto, esgotados pelas aventuras do dia. Esticou uma coberta sobre os dois e sentou-se à janela, para cerzir meias de Moomin Pai.

A chuva batia no telhado e sussurrava lá fora, enquanto, ao longe, gotejava na caverna de Sniff. Bem no interior da floresta, o macaco-seda afundou-se mais ainda em sua árvore oca e enrolou o rabo no pescoço para se manter aquecido. Tarde da noite, quando todos já tinham ido dormir, Moomin Pai ouviu um barulho queixoso.

Sentou-se na cama e prestou atenção. A chuva escorria pelas calhas, e, em algum lugar, uma veneziana batia ao vento. Em seguida, ouviu-se o barulho de novo. Moomin Pai vestiu seu roupão e foi dar uma olhada pela casa.

Olhou no quarto azul da cor do céu, no amarelo cor de Sol e no de bolinhas, e por toda parte só havia silêncio. Por fim, levantou a trava pesada da porta e olhou lá fora, na chuva. Sua lanterna iluminou uma faixa do caminho, e gotas de chuva cintilaram como diamantes na luz.

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