LOUIS BÉRIOT
Um café com Voltaire Conversas com as grandes mentes de seu tempo
tradução:
Fernando Scheibe
LOUIS BÉRIOT
Um café com Voltaire Conversas com as grandes mentes de seu tempo
tradução:
Fernando Scheibe
Copyright © Allary Éditions 2016 Copyright © 2017 Autêntica Editora Publicado por acordo especial com a Allary Éditions em conjunto com a 2 Seas Literary Agency, sua agente devidamente designada, e com a Villas-Boas & Moss Agência e Consultoria Literária, sua coagente. Título original: Un café avec Voltaire Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora. editora responsável
Rejane Dias editora assistente
Cecília Martins revisão
Miriam de Carvalho Abões capa
Diogo Droschi (Capa: Os filósofos na ceia, de Jean Huber, gravura em papel, século XVIII; Verso da capa: Os filósofos na ceia, de Jean Huber, pintura a óleo, século XVIII.) diagramação
Waldênia Alvarenga
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Bériot, Louis Um café com Voltaire : conversas com as grandes mentes de seu tempo / Louis Bériot ; tradução Fernando Scheibe. -- 1. ed. -- Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2017. Título original: Un café avec Voltaire ISBN 978-85-513-0196-8 1. Ficção francesa I. Título. 17-02359
CDD-843
Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura francesa 843
Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500
www.grupoautentica.com.br
Rio de Janeiro Rua Debret, 23, sala 401 Centro . 20030-080 Rio de Janeiro . RJ Tel.: (55 21) 3179 1975
São Paulo Av. Paulista, 2.073, Conjunto Nacional, Horsa I 23º andar . Conj. 2301 . Cerqueira César . 01311-940 São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468
007 Intenção 009 O exílio inglês 013 Conversa com Newton 029 De exílio em exílio 039 Voltaire e Montesquieu: o confronto 071 Último jantar no salão de madame de Pompadour 089 Émilie e Voltaire: últimos momentos 099 Voltaire na corte de Frederico II 133 ECRLINF (Écraser l’Infâme – Esmagar a infame) 145 Voltaire e Rousseau: irreconciliáveis 187 Ferney: um modelo 193 Conversa com Buffon: naturalmente 217 A despedida de Ferney 221 Voltaire e Diderot: finalmente 245 E a luz do século se propagou 249 Epílogo 251 Agradecimentos
Intenção
Quando eu tinha doze anos, meu pai me repreendeu por causa de um ato que eu julgava legítimo, e eu disse a ele que não tinha pedido para nascer e que, até onde sabia, ele não tinha solicitado minha opinião. Ele, que já estava criando seu décimo filho, ficou pasmo com minha resposta e, daquele dia em diante, me apelidou de “Voltaire”. Foi assim que resolvi saber tudo o que pudesse sobre esse personagem, cujo pensamento me acompanha desde então. Voltaire, o poeta, o escritor, o dramaturgo, o filósofo, o polemista. Para prestar homenagem a esse talento multifacetado, confrontei-o com as grandes figuras de seu século: Newton, Montesquieu, madame de Pompadour, Frederico II da Prússia, Jean-Jacques Rousseau, Buffon e Diderot. A maior parte desses encontros realmente ocorreu. Outros foram inventados. Mas todos refletem o pensamento de seus personagens e, inclusive, foram compostos, em grande parte, com suas próprias palavras, extraídas de seus ensaios, romances ou correspondências. Essas discussões nos fazem mergulhar nesse caldeirão fervente de ideias que foi o século XVIII, ao qual nossa época tanto deve, e com o qual tanto ainda tem a aprender. Elas tratam de poder, religião, superstição, fanatismo e 7
intolerância. As ideias expostas aqui permitem revisitar as questões eternas sobre a vida, a morte, o amor ou a moral. Este não é um livro de história, nem um ensaio filosófico, nem um romance. É um passeio por um passado que nunca esteve tão presente, tendo por guia aquele que melhor encarna as luzes do Iluminismo: Voltaire.
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O exílio inglês
O sol brilhava sobre o estuário do Tâmisa. Longas fileiras de navios atracados, nesse mês de maio de 1726, atestavam aos olhos de Voltaire o poderio marítimo da Inglaterra. Fazia tempo que o escritor francês sonhava em visitar esse país, estimulado pelos constantes elogios que seu poderoso e rico amigo, lorde Bolingbroke, fazia ao clima de liberdade, tolerância e respeito democrático que ali reinava. Sendo assim, o exílio a que o rei Luís XV acabava de obrigálo estava mais para um prazer do que para uma aflição. Não era seu primeiro exílio. E ele também já tinha passado algumas temporadas na Bastilha, a régia prisão, em 1718, por ter fustigado com panfletos e poemas, tão injuriosos quanto talentosos, os costumes do duque de Orleans, regente do reino, acusando-o de manter relações incestuosas com sua filha “Messalina”, a duquesa de Berry. Na verdade, a libertinagem de ambos tinha se tornado de notoriedade pública, mas com seus escritos sobre o Regente, Le Bourbier e Regnante Puero,1 Voltaire foi longe demais. A lettre de cachet2 não tardou, e o impertinente François-Marie Arouet desfrutou por nove meses das hospitaleiras masmorras da Bastilha. Tinha 24 anos. Já da segunda vez, foi preso por ordem do cavalheiro de Rohan-Chabot. Os dois tinham trocado insultos no O lamaçal e Reinante menino (o segundo escrito em latim). (N.T.) Carta com o selo do rei contendo ordem de prisão ou exílio imediatos. (N.T.)
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teatro. O senhor de Rohan, arrogante e estúpido, ao cruzar com Voltaire no camarote de uma atriz, teria dito com a maior empáfia: “Senhor de Voltaire ou senhor Arouet? Afinal qual é o seu verdadeiro nome?”. O escritor, que queria romper com seu nome de família por execrar suas origens burguesas – embora seu pai fosse conselheiro do rei e responsável pela importação de especiarias na Câmara de Contas –, se fazia chamar agora “de Voltaire”, com a partícula enobrecedora. A resposta, naturalmente, foi à altura, com a mordacidade que lhe era habitual: “Pelo menos, estou começando o meu nome, enquanto o senhor está acabando com o seu!”. O que denotava coragem ou um espírito temerário, já que Voltaire não ignorava que, desde a morte de Luís XIV, a alta nobreza, desprezada nos tempos do Rei Sol,3 tinha reconquistado seus poderes e sua influência perante a regência. E que os Rohan-Chabot ocupavam o alto da pirâmide. Dois dias depois dessa altercação, o jovem escritor foi surrado em plena rua pelos lacaios do cavalheiro que, estando presente, gritou: “Não batam na cabeça! Talvez ainda saia algo de bom dela!”. Essa humilhação, que não mobilizou nenhum de seus nobres amigos influentes – afinal, Voltaire não pertencia realmente ao mundo deles –, mergulhou-o numa cólera surda. Jurou se vingar e matar Rohan-Chabot. Chegou até a tomar lições de manejo da adaga e da espada com bandidos. Foi então que o Secretário de Estado Maurepas mandou “embastilhá-lo” sob o pretexto de assim protegê-lo de Rohan. Voltaire foi libertado duas semanas depois, sob a condição de se exilar. 3
Devido ao poder absoluto que exerceu e à alta imagem que fazia e impunha de si mesmo, Luís XIV ficou conhecido como o Roi Soleil, o Rei Sol. (N.T.) 10
Sua primeira estadia em Londres começou bastante mal. Confiou sua fortuna de nove mil libras – acumulada graças às suas obras e aos seus talentos de especulador – a um banqueiro da capital, um tal de Mendès, que logo perdeu toda essa soma em operações duvidosas e saiu de fininho. Voltaire ficou indignado, mas resolveu não processá-lo; é de se notar que, ao longo de sua vida, o filósofo diversas vezes manifestou certa complacência para com aqueles que abusaram de sua confiança. Foi então que teve a sorte de ser acolhido por um riquíssimo comerciante de especiarias a quem conhecera em Paris, Everard Fawkener, que o introduziu na boa sociedade londrina e lhe permitiu encontrar a nata das artes e das finanças. E assim foi apresentado a Alexander Pope, poeta, escritor e tradutor célebre, que nutria uma admiração ilimitada por Newton e seu principal discípulo, o cientista Samuel Clarke, pároco de St. James. Entusiasmado com a erudição deste último, Voltaire se aventurou a afirmar: – Clarke certamente é maior do que Newton! Ao que Pope retorquiu: – Talvez seja verdade, mas é como se você dissesse que um joga bola melhor do que o outro. O poeta ironizava assim sobre a inanidade daquela comparação. E Voltaire foi obrigado a admitir seu engano. Como tinha escutado elogios e mais elogios a Isaac Newton, que muitos cientistas europeus já consideravam o maior filósofo de todos os tempos, insistiu que William Cheselden, médico particular do cientista, a quem encontrara graças a Fawkener, lhe arranjasse uma conversa com a celebridade. O médico argumentou que seu paciente estava muito doente, para não dizer à beira da morte. Newton ia fazer 85 anos, não era exatamente o que se podia chamar de uma pessoa simpática, e certamente não estaria disposto a 11
receber um escritor que nunca lera, ainda por cima francês. Contudo, seduzido e até mesmo fascinado pela inteligência de Voltaire, sua curiosidade e sua impressionante cultura, Cheselden prometeu tentar obter aquele encontro. Informou Newton de que o jovem intelectual francês já era célebre em toda Europa, que era um rebelde no reino da França, que seus escritos, especialmente seu famoso poema Henríada, escrito à glória do rei Henrique IV, iam ser traduzidos na Inglaterra. Contou-lhe também que, para sua grande surpresa, Voltaire tinha aprendido a língua de Shakespeare em menos de seis meses, e que já escrevia com desenvoltura em inglês. Newton compreendeu então que talvez pudesse utilizar a notoriedade daquele fenômeno para difundir seu pensamento naquela parte da Europa onde ainda reinavam absolutos os dogmas da Igreja de Roma, hostil a qualquer ideia nova, qualquer descoberta ou teoria que pudesse questionar a Bíblia. O encontro foi marcado na casa de campo do cientista, em Kensington, numa manhã de inverno de 1727. E teve grande repercussão na vida do escritor francês. Pope também quis participar da conversa. Voltaire teria preferido ir sozinho, mas não teve como recusar aquilo a seu amigo, assim como não pôde impedir que o autor de Gulliver, Jonathan Swift, a quem ele chamava o Rabelais inglês, se juntasse a eles. Swift tinha sido acusado de zombar de Newton com seu romance satírico, e era por isso que queria encontrá-lo, a fim de explicar que se tratava de um equívoco e lhe testemunhar sua admiração. Voltaire aproveitou o trajeto para saber mais sobre a vida pessoal do cientista. Pope lhe contou que Newton nunca tinha se casado e que sempre vivera sozinho, o que parecia convir melhor a seu caráter e aos trabalhos de pesquisa que levava incansavelmente adiante havia quase setenta anos.
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