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Três guinéus

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Virginia Woolf Três guinéus

organização, tradução e notas: Tomaz posfácio: Naomi

Black

Tadeu


Virginia Woolf Três guinéus

O RG A N I Z AÇ ÃO, T R A DU Ç ÃO E NO TA S

Tomaz Tadeu P O SFÁC I O

Naomi Black


7 9 49 95 155

Ilustrações Um Dois Três Notas e referências

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.6.


Ilustrações 26 28 30 72 130

Um general Arautos Um cortejo universitário Um juiz Um arcebispo

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Um

Três anos é muito tempo para deixar uma carta sem resposta, e a sua ficou aqui à espera de uma resposta por um tempo maior ainda. Tinha a esperança de que ela se respondesse por si só ou que outras pessoas a respondessem por mim. Mas aqui está ela com sua pergunta – como, em sua opinião, vamos evitar a guerra? – ainda sem resposta. É verdade que muitas respostas se insinuaram, mas nenhuma que não exigisse explicação, e as explicações tomam tempo. Neste caso, além disso, há razões pelas quais é particularmente difícil evitar mal-entendidos. Uma página inteira poderia ser preenchida com desculpas e justificativas; proclamações de inépcia, incompetência, falta de conhecimento e experiência: e elas seriam verdadeiras. Mas, mesmo após terem sido expostas, restariam ainda algumas dificuldades tão fundamentais que poderiam perfeitamente se revelar, para o senhor, impossíveis de compreender, ou, para nós, de explicar. Mas não se quer deixar uma carta tão notável quanto a sua – uma carta talvez única na história da correspondência humana, pois quando, antes, um homem instruído perguntou a uma mulher como, em sua opinião, a guerra pode ser evitada? – sem resposta. Façamos, pois, a tentativa; ainda que ela esteja fadada ao fracasso. Façamos, em primeiro lugar, aquilo que todas as cartas instintivamente fazem, um esboço da pessoa a quem a carta é endereçada. Sem alguém cálido e respirando do outro lado da página, as cartas são inúteis. O senhor, pois, que faz a pergunta, é um pouco grisalho nas têmporas; o cabelo do alto de sua cabeça não é mais espesso. Atingiu a meia-idade exercendo, não sem algum esforço, a advocacia; mas, em geral, sua jornada tem sido próspera. Não há nada de empedernido, .9.


mesquinho ou desgostoso em sua expressão. E sem querer lisonjeá-lo, sua prosperidade – esposa, filhos, casa – é merecida. O senhor nunca sucumbiu à satisfeita apatia da meia-idade, pois, como mostra sua carta, enviada de um escritório do centro de Londres, em vez de ficar dando voltas na cama e aguilhoando seus porcos, podando suas pereiras – pois o senhor possui alguns acres em Norfolk – o senhor escreve cartas, frequenta reuniões, preside isso e aquilo, faz perguntas, com o som das metralhadoras nos ouvidos. Quanto ao mais, iniciou sua educação num dos grandes internatos privados, concluindo-a na universidade. É aqui que surge a primeira dificuldade de comunicação entre nós. Indiquemos rapidamente a razão. Nós dois viemos do grupo que, nesta época híbrida, na qual, embora a descendência seja mista, as classes ainda permanecem fixas, é conveniente chamar de classe instruída. Quando nos encontramos pessoalmente, falamos com o mesmo sotaque; usamos os talheres da mesma maneira; esperamos que as criadas preparem o jantar e lavem a louça depois; e durante o jantar podemos conversar sem muita dificuldade sobre a política e as pessoas; a guerra e a paz; o barbarismo e a civilização – questões todas, na verdade, sugeridas por sua carta. Além disso, ganhamos ambos a vida com nosso trabalho. Mas... esses três pontos assinalam um precipício, um abismo tão profundamente cavado entre nós que por mais de três anos tenho estado aqui sentada, do meu lado, me perguntando se vale a pena tentar falar com o outro lado. Peçamos, pois, a uma outra pessoa – trata-se de Mary Kingsley – que fale por nós. “Não sei se alguma vez lhe revelei o fato de que poder estudar a língua alemã foi toda a educação paga que jamais tive. Duas mil libras foram gastas na de meu irmão, espero que não inutilmente.”1 Mary Kingsley não fala apenas por ela; fala também por muitas das filhas dos homens instruídos. E não se limita a falar por elas; ela também aponta um fato muito importante sobre elas, um fato que deve influenciar profundamente tudo o que segue: o fato do Fundo Educacional de Arthur. O senhor, que leu Pendennis, se lembrará da frequência com que as misteriosas letras F. E. A. apareciam nos registros contábeis domésticos. Desde o século treze as famílias inglesas têm depositado dinheiro nessa conta. Dos Pastons aos Pendennises, todas as famílias educadas, do século treze ao presente, têm posto dinheiro nessa conta. Trata-se de um receptáculo voraz. Onde havia muitos filhos homens a serem educados, era necessário um grande esforço de . 10 .


parte da família para mantê-lo cheio. Pois a educação de vocês não provinha apenas da cultura livresca; os jogos educavam-lhes o corpo; os amigos ensinavam mais que os livros ou os jogos. Conversar com eles alargava sua perspectiva e enriquecia sua mente. Nas férias vocês viajavam; adquiriam o gosto pela arte; certo conhecimento da política de outros países; e então, antes que pudessem ganhar a vida por conta própria, seu pai lhes dava uma quantia com a qual era possível viver enquanto vocês aprendiam a profissão que agora lhes dá o direito de apor as iniciais K. C. ao seu nome. Tudo isso provinha do Fundo Educacional de Arthur. E para isso, suas irmãs, como sugere Mary Kingsley, davam sua contribuição. Salvo pequenas quantias como as que serviam para pagar a professora de alemão, não era apenas a sua própria educação que ia para o fundo; mas muitos daqueles luxos e extras que são, no fim das contas, parte essencial da educação – viagens, vida social, privacidade, um aposento separado da casa da família – também eram depositados no fundo. Tratava-se de um receptáculo voraz, um fato sólido – o Fundo Educacional de Arthur – um fato tão sólido, na verdade, que ensombrecia toda a paisagem. E o resultado é que, embora olhemos para as mesmas coisas, nós as vemos de forma diferente. O que é aquele conjunto de edifícios ali, com uma aparência semimonástica, com capelas e residências universitárias e verdejantes campos esportivos? Para o senhor é sua antiga escola; Eton ou Harrow; sua antiga universidade, Oxford ou Cambridge; fontes de lembranças e de tradições inumeráveis. Mas para nós, que o vemos através da sombra do Fundo Educacional de Arthur, é uma carteira escolar; um ônibus para ir à aula; uma mulherzinha de nariz vermelho que não é, ela própria, muito instruída, mas que tem uma mãe inválida para sustentar; uma quantia de 50 libras por ano com a qual deve comprar roupas, dar presentes e pagar pelo transporte ao se aproximar da maturidade. É esse o efeito que o Fundo Educacional de Arthur tem tido sobre nós. Ele transforma a paisagem tão magicamente que, para as filhas dos homens instruídos,2 os nobres pátios e quadrângulos de Oxford e Cambridge com frequência revelam-se como anáguas cheias de buracos, pernas de cordeiro frias, e como o trem que leva ao cais, rumo ao exterior, enquanto o guarda lhes fecha a porta na cara. O fato de que o Fundo Educacional de Arthur transforma a paisagem – as residências universitárias, os campos esportivos, . 11 .


os edifícios sagrados – é um fato importante; mas deixemos esse aspecto para uma discussão futura. Aqui estamos preocupados tão somente com o fato óbvio, quando se trata de considerar a importante questão de como podemos ajudá-lo a evitar a guerra, de que a educação faz toda a diferença. Algum conhecimento de política, de relações internacionais, de economia é obviamente necessário para entender as causas que conduzem à guerra. A filosofia, até mesmo a teologia, podem proveitosamente dar sua contribuição. Ora, a pessoa sem instrução, a pessoa com uma mente pouco treinada, não poderia, possivelmente, tratar dessas questões de maneira satisfatória. A guerra, como resultado de forças impessoais, está, o senhor concordará, além da compreensão da mente pouco treinada. Mas a guerra como resultado da natureza humana é outra coisa. Não acreditasse o senhor que a natureza humana, as razões, as emoções do homem e da mulher comum conduzem à guerra, não teria escrito pedindo nossa ajuda. O senhor deve ter argumentado, homens e mulheres, aqui e agora, são capazes de fazer valer sua vontade; não são fantoches e marionetes controlados por mãos invisíveis. Podem agir e pensar por si próprios. Talvez possam até mesmo influenciar os pensamentos e as ações de outros. Algum raciocínio desse tipo deve tê-lo levado a recorrer a nós; e justificadamente. Pois felizmente há um ramo da educação classificado como “educação sem custo” – aquele entendimento dos seres humanos e suas motivações que, desde que a palavra seja expurgada de suas associações científicas, se pode chamar de psicologia. O casamento, a única profissão importante acessível à nossa classe desde o começo dos tempos até o ano de 1919; o casamento, a arte de escolher o ser humano com o qual se vai viver bem a vida, deve ter nos ensinado a desenvolver alguma habilidade nisso. Mas aqui, novamente, outra dificuldade se nos apresenta. Pois embora muitos instintos sejam tidos, em maior ou menor grau, como comuns a ambos os sexos, guerrear tem sido, desde sempre, hábito do homem, não da mulher. As leis e a prática desenvolveram essa diferença, seja ela inata ou acidental. Raramente, no curso da história, um ser humano foi abatido pelo rifle de uma mulher; os pássaros e os animais foram e são, em sua grande maioria, mortos por vocês, não por nós; e é difícil julgar aquilo de que não fazemos parte.3 Como, pois, vamos compreender o seu problema, e, se não conseguirmos, como poderemos responder a sua pergunta sobre como . 12 .


evitar a guerra? A resposta baseada em nossa experiência e nossa psicologia – por que lutar? – não é uma resposta que tenha qualquer valor. Obviamente, há para vocês alguma glória, alguma necessidade, alguma satisfação na luta, que nós nunca sentimos ou de que nunca extraímos prazer. Uma compreensão total só poderia ser alcançada por transfusão de sangue e transfusão de memória – um milagre ainda fora do alcance da ciência. Mas nós, que vivemos agora, temos um sucedâneo para a transfusão de sangue e a transfusão de memória que deve servir, em caso de necessidade. Há aquele maravilhoso, perpetuamente renovado e até agora amplamente inexplorado recurso para compreender as motivações humanas que é proporcionado em nossa época pela biografia e pela autobiografia. Há também o jornal diário, a história nua e crua. Não há mais nenhuma razão, portanto, para nos restringir ao diminuto espaço de tempo da experiência direta que ainda é, para nós, tão estreita, tão circunscrita. Podemos complementá-la observando a descrição da vida de outras pessoas. Trata-se, naturalmente, apenas de uma descrição, no momento, mas, como tal, deve servir. É à biografia, pois, que nos voltaremos, em primeiro lugar, rápida e brevemente, para tentar compreender o que a guerra significa para vocês. Destaquemos umas poucas frases de uma biografia. Em primeiro lugar, isto, da vida de um soldado: Tive a mais feliz das vidas que se pode ter, e sempre trabalhei em prol da guerra, e agora entrei na maior de todas, na flor da idade, para um soldado... Graças a Deus, partimos dentro de uma hora. Que regimento magnífico! Que homens, que cavalos! Dentro de dez dias, espero, Francis e eu estaremos cavalgando lado a lado contra os alemães.4

Ao que o biógrafo acrescenta: Desde o primeiro momento, ele fora supremamente feliz, pois encontrara sua verdadeira vocação.

A isso acrescentemos estas palavras da vida de um piloto de guerra: Falamos da Liga das Nações e das perspectivas de paz e desarmamento. Sobre esse assunto, ele não era propriamente militarista mas marcial. A dificuldade para a qual não conseguia encontrar nenhuma resposta era que, se a paz permanente fosse

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alguma vez alcançada, os exércitos e as marinhas deixariam de existir, não haveria nenhuma válvula de escape para as características viris que a luta desenvolveu, e a constituição humana e o caráter humano acabariam por se deteriorar.5

Aqui, imediatamente, estão três razões que levam o sexo que o senhor representa a guerrear; a guerra é uma profissão; uma fonte de felicidade e grandes emoções; e é também uma válvula de escape para as características viris, sem as quais os homens se deteriorariam. Mas o fato de que esses sentimentos e opiniões não são, de modo algum, universalmente partilhados pelo sexo que o senhor representa é demonstrado pelo seguinte extrato de outra biografia, a vida de um poeta que foi morto na guerra europeia: Wilfred Owen. Tive uma iluminação que nunca será absorvida pelo dogma de nenhuma igreja nacional: a saber, que um dos mandamentos essenciais de Cristo era: Passividade a qualquer preço! Padeça desonra e desgraça, mas nunca recorra a armas. Seja maltratado, ultrajado, deixe-se matar; mas nunca mate... Vê-se, assim, que o puro cristianismo nunca combinará com o puro patriotismo.

E entre algumas notas para poemas que ele não viveu para escrever estão estas: A artificialidade das armas... A desumanidade da guerra... A insuportabilidade da guerra... A horrível bestialidade da guerra... A insensatez da guerra.6

A julgar por essas citações, é óbvio que o mesmo sexo sustenta opiniões diferentes sobre a mesma coisa. Mas é óbvio também, a julgar pelos jornais de hoje, que, não importa quantos dissidentes haja, os de seu sexo são, hoje, em sua grande maioria, a favor da guerra. A Conferência de Scarborough, de homens instruídos, a Conferência de Bournemouth, de homens da classe operária, chegaram ambas à conclusão de que gastar 300.000.000 de libras por ano é uma necessidade. Eles são da opinião de que Wilfred Owen estava equivocado; de que é melhor matar do que se deixar matar. Entretanto, uma vez que a biografia mostra que são muitas as diferenças de opinião, é evidente que deve haver alguma razão preponderante na gênese dessa esmagadora unanimidade. Devemos . 14 .


chamá-la, a bem da brevidade, de “patriotismo”? Em que, então, devemos perguntar em seguida, consiste esse “patriotismo” que leva vocês à guerra? Deixemos que o Lorde Chefe de Justiça da Inglaterra interprete isso para nós: Os ingleses se orgulham da Inglaterra. Para aqueles que foram educados nas escolas e universidades inglesas e trabalharam a vida toda na Inglaterra, há poucos amores mais fortes que o amor que temos por nosso país. Quando consideramos outras nações, quando julgamos os méritos da condução dos negócios públicos deste ou daquele país, é o nosso próprio país que tomamos como referência... A liberdade construiu sua morada na Inglaterra. A Inglaterra é o lar das instituições democráticas... É verdade que há em nosso meio muitos inimigos da liberdade – alguns deles, talvez, em locais um tanto inesperados. Mas nos mantemos firmes. Tem-se dito que a casa de um inglês é seu castelo. A casa da Liberdade situa-se na Inglaterra. E é, de fato, um castelo – um castelo que será defendido até o fim... Sim, somos imensamente abençoados, nós, os ingleses.7

Trata-se de uma declaração geral e clara sobre o que significa o patriotismo para um homem instruído e sobre quais deveres ele lhe impõe. Mas para a irmã do homem instruído – o que o “patriotismo” significa para ela? Tem ela as mesmas razões para se orgulhar da Inglaterra, para amar a Inglaterra, para defender a Inglaterra? Tem sido ela “imensamente abençoada” na Inglaterra? A história e a biografia, quando inquiridas, parecem mostrar que o lugar dela na morada da liberdade tem sido diferente do lugar de seu irmão; e a psicologia parece sugerir que a história não deixa de produzir seu efeito sobre a mente e o corpo. Portanto, a interpretação que ela faz da palavra “patriotismo” pode muito bem diferir da dele. E essa diferença pode fazer com que seja extremamente difícil para ela compreender a definição de patriotismo dada por ele e os deveres que ele impõe. Se, pois, nossa resposta à sua pergunta, “Como, em sua opinião, vamos evitar a guerra?”, depende de compreendermos as razões, as emoções, as lealdades que levam os homens à guerra, seria melhor rasgar esta carta ao meio e jogá-la na lata de lixo. Pois parece óbvio que não podemos compreender um ao outro por causa dessas diferenças. Parece óbvio que pensamos diferente por termos . 15 .


nascido diferentes; há o ponto de vista de um Grenfell; o ponto de vista de Knebworth; o ponto de vista de Wilfred Owen; o ponto de vista do Lorde Chefe de Justiça e o ponto de vista da filha de um homem instruído. São todos diferentes. Mas não existe nenhum ponto de vista absoluto? Não podemos encontrar, em algum lugar, gravado em letras de ouro ou fogo, “Isto é certo. Isto é errado”? – um julgamento moral que devemos todos, quaisquer que sejam nossas diferenças, aceitar? Vamos, então, remeter a questão sobre se é certo ou errado ir à guerra àqueles que fazem da moral a sua profissão – o clero. Seguramente, se fizermos aos membros do clero a simples pergunta: “Ir à guerra é certo ou ir à guerra é errado?”, eles nos darão uma resposta óbvia que não podemos negar. Mas, não – a Igreja da Inglaterra, que supostamente poderia ser capaz de desenredar a questão de suas complicações mundanas, também se divide entre duas opiniões. Os próprios bispos estão em desacordo. O bispo de Londres afirmou que “o verdadeiro perigo para a paz mundial hoje são os pacifistas. Por mais maléfica que seja a guerra, a desonra é ainda pior”.8 Por outro lado, o bispo de Birmingham9 se descreveu como um “pacifista extremado... Não posso conceber que a guerra possa ser vista como estando em consonância com o espírito de Cristo”. Assim, a própria Igreja nos dá conselhos divergentes – sob algumas circunstâncias é certo guerrear; sob nenhuma circunstância é certo guerrear. É aflitivo, desconcertante, desorientador, mas a verdade deve ser enfrentada; não há nenhuma certeza lá em cima no céu nem aqui embaixo na terra. Na verdade, quanto mais biografias lemos, quando mais discursos ouvimos, quanto mais opiniões consultamos, maior se torna a confusão e, ao que parece, menor se torna a possibilidade, uma vez que não conseguimos compreender os impulsos, os motivos ou a moralidade que levam vocês à guerra, de dar qualquer sugestão que ajude a evitar a guerra. Mas além dessas imagens da vida e das opiniões de outras pessoas – dessas biografias e dessas histórias – há também outras imagens – imagens de fatos atuais; fotografias. Fotografias não são, obviamente, argumentos dirigidos à razão; elas são simplesmente asserções factuais dirigidas aos olhos. Mas justamente por sua simplicidade elas podem ser de alguma ajuda. Vejamos, pois, se quando olhamos para as mesmas fotografias sentimos as mesmas coisas. Aqui, na mesa à nossa frente, há algumas fotografias. O governo espanhol as envia com paciente . 16 .


pertinácia mais ou menos duas vezes por semana.* Não são fotografias agradáveis de olhar. São fotografias de cadáveres, na maior parte. A coleção desta manhã contém uma que pode ser o corpo de um homem, ou de uma mulher; está tão mutilado que poderia ser, por outro lado, o corpo de um porco. Mas essas são certamente de crianças mortas, e aquilo é, sem dúvida, parte de uma casa. Uma bomba pôs a parede abaixo; ainda se vê uma gaiola de passarinho balançado onde ficava, supostamente, a sala de visitas, mas o resto da casa mais parece um punhado de varetas suspensas no ar. Essas fotografias não constituem um argumento; são simplesmente asserções factuais dirigidas aos olhos. Mas o olho está conectado com o cérebro, o cérebro com o sistema nervoso. Esse sistema envia suas mensagens como um raio, atravessando cada uma das lembranças do passado e cada uma das sensações do presente. Quando olhamos para estas fotografias alguma fusão se dá dentro de nós; por mais diferentes que possam ser a educação e as tradições que nos embasam, nossas sensações, entretanto, são as mesmas; e elas são violentas. O senhor as chama de “horror e asco”. Nós também as chamamos de horror e asco. E as mesmas palavras nos vêm aos lábios. A guerra, diz o senhor, é uma abominação, um barbarismo; a guerra deve ser interrompida a qualquer preço. E nós ecoamos suas palavras. A guerra é uma abominação, um barbarismo; a guerra deve ser interrompida. Pois agora estamos, ao menos, olhando para a mesma imagem; estamos vendo com o senhor os mesmos cadáveres, as mesmas casas destroçadas. Renunciemos, pois, por enquanto, ao esforço para responder à sua pergunta, sobre como podemos ajudá-lo a evitar a guerra, pela via da discussão das razões políticas, patrióticas ou psicológicas que levam vocês a guerrear. Essa emoção é forte o bastante para merecer uma demorada análise. Concentremo-nos, por enquanto, nas sugestões práticas que o senhor traz à nossa consideração. Há três delas. A primeira consiste em assinar uma carta que será enviada aos jornais; a segunda, em filiar-se a uma certa sociedade; a terceira, em contribuir para seus fundos. Nada, à primeira vista, poderia soar mais simples. Rabiscar um nome numa folha de papel é fácil; participar de uma

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Escrito no inverno de 1936-1937.

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reunião onde opiniões pacíficas são mais ou menos retoricamente reiteradas a pessoas que já acreditam nelas também é fácil; e preencher um cheque em favor dessas opiniões razoavelmente aceitáveis, embora não tão fácil, é uma maneira barata de tranquilizar aquilo que pode convenientemente ser chamado de nossa consciência. Há, entretanto, razões que nos fazem hesitar; razões que devemos examinar, menos superficialmente, mais adiante. Aqui é suficiente dizer que, embora as três medidas que o senhor sugere pareçam plausíveis, também parece que, se fizéssemos o que o senhor pede, a emoção causada pelas fotografias ainda não teria sido apaziguada. Essa emoção, essa fortíssima emoção, exige algo mais forte que um nome escrito numa folha de papel; uma hora desperdiçada ouvindo discursos; um cheque preenchido com uma quantia qualquer que possamos nos permitir gastar – digamos, um guinéu. Algum método mais enérgico, algum método mais ativo de expressar nossa crença de que a guerra é bárbara, de que a guerra é desumana, de que a guerra, como disse Wilfred Owen, é insuportável, horrível e brutal, parece ser necessário. Mas, retórica à parte, de que método ativo dispomos? Consideremos as possibilidades e as comparemos. Vocês, naturalmente, poderiam, uma vez mais, pegar em armas – na Espanha, tal como antes na França – em defesa da paz. Mas esse, supostamente, é um método que, tendo experimentado, vocês rejeitaram. De qualquer maneira, esse método não está disponível para nós; tanto o Exército quanto a Marinha estão vedados ao nosso sexo. Não nos é permitido ir à guerra. Tampouco nos é permitido participar da Bolsa de Valores. Assim, não podemos usar nem a pressão da força nem a pressão do dinheiro. As armas menos diretas, mas ainda assim efetivas, que nossos irmãos, como homens instruídos, possuem no serviço diplomático, na Igreja, também nos são negadas. Não podemos pregar sermões nem negociar tratados. E também, embora seja verdade que podemos escrever artigos ou enviar cartas para a imprensa, o controle da imprensa – a decisão sobre o que imprimir, o que não imprimir – está inteiramente nas mãos dos que pertencem ao seu sexo. É verdade que há vinte anos passamos a ser aceitas no Serviço Público e na Ordem dos Advogados; mas nossa posição ali é ainda muito precária e nossa autoridade, mínima. Assim, todas as armas com as quais um homem instruído pode fazer valer sua opinião estão fora de nosso alcance ou tão perto disso que, ainda que as usássemos, dificilmente poderíamos infligir um arranhão que . 18 .


fosse. Se os homens de sua profissão se unissem em torno de qualquer reivindicação e dissessem: “Se isso não for concedido, vamos parar de trabalhar”, as leis da Inglaterra deixariam de ser aplicadas. Se as mulheres de sua profissão dissessem a mesma coisa, isso não faria absolutamente nenhuma diferença no que diz respeito às leis da Inglaterra. Não apenas somos incomparavelmente mais fracas do que os homens de nossa própria classe; somos mais fracas do que as mulheres da classe operária. Se as operárias do país dissessem: “Se forem à guerra, nós nos recusaremos a fabricar munições ou ajudar na produção de bens”, a dificuldade de entrar em guerra aumentaria consideravelmente. Mas mesmo que todas as filhas dos homens instruídos deixassem, amanhã, de utilizar seus instrumentos de trabalho, nada de essencial, seja na vida da comunidade, seja no esforço bélico, seria perturbado. Nossa classe é a mais fraca de todas as classes do estado nacional. Não temos nenhuma arma com a qual fazer valer nossa vontade.10 A resposta a isso é tão familiar que podemos facilmente antecipá-la. As filhas dos homens instruídos não têm nenhuma influência direta, isso é verdade; mas elas possuem o maior de todos os poderes; ou seja, a influência que podem exercer sobre os homens instruídos. Se isso for verdade, ou seja, se a influência ainda é a mais forte de nossas armas e a única que pode ser eficaz em ajudá-lo a evitar a guerra, discutamos, antes de assinarmos o seu manifesto ou nos filiarmos à sua sociedade, o que essa influência acarreta. Ela é, claramente, de uma importância tão grande que merece um escrutínio profundo e prolongado. O nosso não pode ser profundo; tampouco pode ser prolongado; deve ser rápido e imperfeito – ainda assim, vamos tentar. Que influência, pois, tivemos no passado sobre a profissão que está mais claramente ligada à guerra – sobre a política? Temos aí, novamente, as inumeráveis, inestimáveis biografias, mas extrair das copiosas vidas de políticos aquela passagem particular que é a influência das mulheres sobre eles seria um desafio para um alquimista. Nossa análise só pode ser ligeira e superficial; ainda assim, se restringirmos nossa pesquisa a limites manipuláveis e repassarmos as memórias de um século e meio, dificilmente poderemos negar que houve mulheres que influenciaram a política. As famosas duquesa de Devonshire, Lady Palmerston, Lady Melbourne, madame de Lieven, Lady Holland, Lady Ashburton – para pular de um nome famoso para o outro – exerceram . 19 .


todas, sem dúvida, grande influência política. Suas famosas casas e os grupos que nelas se reuniam exerceram um papel tão grande nas memórias políticas da época que dificilmente podemos negar que a política inglesa, talvez até mesmo as guerras inglesas, teriam sido diferentes se essas casas e essas festas nunca tivessem existido. Mas há uma característica que todas essas memórias têm em comum; os nomes dos grandes líderes políticos – Pitt, Fox, Burke, Sheridan, Peel, Canning, Palmerston, Disraeli, Gladstone – cobrem todas as páginas; mas o senhor não encontrará, quer no topo das escadas recebendo os convidados, quer nos aposentos mais privados da casa, nenhuma filha de um homem instruído. Pode ser que elas fossem desprovidas de encanto, de espirituosidade, de grau hierárquico ou de vestes. Seja qual for a razão, o senhor pode percorrer uma página atrás da outra, um volume atrás do outro, e embora vá encontrar os irmãos e os maridos delas – Sheridan na Devonshire House, Macaulay na Holland House, Matthew Arnold na Lansdowne House, e até mesmo Carlyle na Bath House – os nomes de Jane Austen, Charlotte Brontë e George Eliot não aparecem; e ainda que a sra. Carlyle tenha estado presente, a sra. Carlyle, isolada, parece ter se sentido pouco à vontade. Mas, como o senhor destacará, as filhas dos homens instruídos podem ter tido outro tipo de influência – uma influência que era independente da riqueza e do status, do vinho, da comida, da roupa e de todas as outras comodidades que tornam as grandes casas das grandes damas tão sedutoras. Aqui, na verdade, estamos em terreno mais firme, pois houve, naturalmente, uma causa política em que as filhas dos homens instruídos estiveram muito envolvidas nos últimos cento e cinquenta anos: o direito ao voto. Mas quando pensamos no tempo que levaram para vencer essa causa, e com que esforço, só podemos concluir que a influência tem que ser combinada com a riqueza para ser eficaz como arma política e que a influência do tipo que pode ser exercida pelas filhas dos homens instruídos é, quanto à força, muito pequena, quanto ao efeito, muito lenta, e quanto à utilização, muito penosa.11 Certamente a grande conquista política da filha do homem instruído custou-lhe mais de um século do mais exaustivo e humilde trabalho; manteve-a marchando em protestos, trabalhando na retaguarda, discursando em esquinas; finalmente, por ter usado a força, levou-a à prisão, e muito provavelmente ainda a manteria lá, não fora o fato, por paradoxal que seja, de que a ajuda que ela deu a . 20 .


seus irmãos, quando eles finalmente usaram a força, garantiu-lhe o direito de se chamar, se não uma filha em toda a plenitude do nome, pelo menos uma enteada da Inglaterra.12 A influência, pois, quando posta à prova, pareceu ser plenamente eficaz apenas quando combinada com status, riqueza e grandes casas. Influentes são as filhas dos nobres, não as filhas dos homens instruídos. E essa influência é da espécie descrita por um distinto membro da mesma profissão que a sua, o falecido Sir Ernest Wild. Ele sustentava que a grande influência que as mulheres exercem sobre os homens sempre foi, e sempre deverá ser, uma influência indireta. O homem gostava de pensar que estava fazendo sua tarefa por iniciativa própria quando, na verdade, estava apenas fazendo o que a mulher queria, mas a sábia mulher sempre deixava que ele pensasse estar no controle da situação quando, na verdade, não estava. Qualquer mulher que decidisse se interessar pela política tinha um poder imensamente maior sem o voto do que com ele, porque ela podia influenciar muitos votantes. Seu sentimento era de que não era certo rebaixar as mulheres ao nível dos homens. Ele admirava as mulheres e queria continuar a admirá-las. Ele desejava que a era do cavalheirismo nunca tivesse acabado, porque todo homem que tinha uma mulher para se preocupar com ele gostava de brilhar diante de seus olhos.13

E assim por diante. Se essa é a natureza real de nossa influência, e todos nós reconhecemos a sua descrição e temos observado os seus efeitos, ela ou está fora de nosso alcance, pois muitas de nós somos simples, pobres e velhas; ou nem sequer merece nossa consideração, pois muitas de nós prefeririam simplesmente ser chamadas de prostitutas e se estabelecer abertamente sob as lâmpadas do Piccadilly Circus do que se utilizar dessa influência. Se essa é a real natureza, a indireta natureza dessa celebrada arma, devemos passar sem ela; acrescente nosso ímpeto minguado a suas forças mais substanciais e lance mão, como o senhor sugere, dos abaixo-assinados, da filiação a associações e do preenchimento de um ocasional e exíguo cheque. Essa pareceria ser a inevitável, ainda que deprimente, conclusão de nosso exame sobre a natureza da influência, não fora o fato de que, por alguma razão, nunca satisfatoriamente explicada, o direito ao voto,14 em si de modo . 21 .


algum desprezível, estivesse misteriosamente associado a outro direito, de um valor tão grande para as filhas dos homens instruídos, que quase todas as palavras do dicionário foram por ele transformadas, inclusive a palavra “influência”. O senhor não julgará que essas palavras são exageradas se explicarmos que elas se referem ao direito de ganhar a própria vida. Esse, senhor, foi o direito que nos foi conferido há menos de vinte anos, no ano de 1919, por uma lei que franqueou o ingresso às profissões. A porta da casa privada foi escancarada. Em cada bolsa havia, ou podia haver, uma nova e brilhante moeda de seis pênis, sob cuja luz, cada pensamento, cada vista, cada ação parecia diferente. Vinte anos não é, em retrospecto, muito tempo; uma moeda de seis pênis tampouco é muito dinheiro; tampouco podemos, por enquanto, lançar mão da biografia para nos fornecer uma imagem da vida e da mente das novas proprietárias de moedas de seis pênis. Mas talvez possamos ver, em imaginação, a filha do homem instruído saindo da sombra da casa privada e se postando na ponte que fica entre o velho e o novo mundo, e perguntando, ao fazer rodopiar a sagrada moeda na mão, “O que farei com ela? O que vejo eu com ela?” Através dessa luz, podemos adivinhar, tudo que ela via parecia diferente – homens e mulheres, carros e igrejas. Inclusive a lua, marcada como ela é, na verdade, por cicatrizes de crateras esquecidas, parecia-lhe uma imaculada moeda de seis pênis, uma casta moeda de seis pênis, um altar sobre o qual ela jurou nunca ficar do lado dos servis, dos conformistas, uma vez que tinha o direito de fazer o que quisesse com ela – a sagrada moeda de seis pênis que ganhara com as próprias mãos. E se, moderando a imaginação com o prosaico bom senso, o senhor alega que depender de uma profissão é apenas outra forma de escravidão, o senhor admitirá, partindo de sua própria experiência, que depender de uma profissão é uma forma menos odiosa de escravidão do que depender de um pai. Lembre-se da alegria com que o senhor recebeu seu primeiro guinéu por seu primeiro processo, e do profundo ar de liberdade que aspirou quando se deu conta de que seus dias de dependência do Fundo de Educação do Arthur tinham chegado ao fim. Daquele guinéu brotara, como que de uma daquelas bolinhas mágicas às quais as crianças põem fogo e uma árvore se ergue, tudo o que senhor mais valoriza – a esposa, os filhos, a casa – e, acima de tudo, aquela influência que agora lhe permite influenciar outros . 22 .


homens. O que seria dessa influência se o senhor ainda estivesse tirando 40 libras ao ano da carteira da família e, para qualquer acréscimo àquela renda, estivesse na dependência do pai, ainda que ele fosse o mais benevolente deles? Mas é desnecessário entrar em detalhes. Seja qual for a razão, se por orgulho, ou amor à liberdade, ou ódio à hipocrisia, o senhor entenderá o entusiasmo com que, em 1919, suas irmãs começaram a ganhar não um guinéu mas uma moeda de seis pênis, e não desprezará esse orgulho, ou negará que era justamente fundado, uma vez que significava que elas não precisavam mais usar a influência descrita por Sir Ernest Wild. A palavra “influência”, portanto, se modificara. A filha do homem instruído tem agora ao seu dispor uma influência que é diferente de qualquer influência que tenha antes possuído. Não é a influência que a grande lady, a Sereia, possui; tampouco é a influência que a filha do homem instruído possuía quando não tinha direito ao voto; tampouco é a influência que possuía quando obteve o direito ao voto mas estava excluída do direito de ganhar a própria vida. É diferente porque é uma influência da qual o elemento da sedução foi removido; é uma influência da qual o elemento do dinheiro foi removido. Ela não precisa mais usar a sedução para obter dinheiro do pai ou do irmão. Uma vez que está fora do alcance do poder de sua família puni-la financeiramente, ela pode expressar suas próprias opiniões. Em vez de admirações e antipatias, que eram muitas vezes inconscientemente ditadas pela necessidade do dinheiro, ela pode declarar seus genuínos afetos e desafetos. Em suma, ela não precisa aquiescer; ela pode criticar. Ela está, finalmente, na posse de uma influência que é desinteressada. Essa é, em linhas muito gerais, a natureza de nossa nova arma, a influência que a filha do homem instruído pode exercer agora que ela é capaz de ganhar a própria vida. A questão que a seguir, portanto, tem de ser discutida é: como pode ela usar essa nova arma para ajudá-lo a evitar a guerra? E fica imediatamente claro que, se não existe nenhuma diferença entre homens que ganham a própria vida nas profissões e mulheres que ganham a própria vida, então esta carta pode terminar; pois se nosso ponto de vista é igual ao seu, então devemos juntar nossa moeda de seis pênis ao seu guinéu; seguir seus métodos e repetir suas palavras. Mas, feliz ou infelizmente, isso não é verdade. As duas classes ainda diferem enormemente. E, para provar isso, não . 23 .


precisamos recorrer às arriscadas e incertas teorias dos psicólogos e dos biólogos; podemos apelar aos fatos. Considere o fato da educação. Sua classe tem sido educada nas escolas privadas e nas universidades por quinhentos ou seiscentos anos, a nossa, por sessenta. Considere o fato da propriedade.15 Sua classe possui, por direito próprio e não pelo casamento, praticamente, todo o capital, toda a terra, todos os objetos de valor e todo o poder político da Inglaterra. Nossa classe não possui, por direito próprio e não pelo casamento, praticamente, nada do capital, nada da terra, nada dos objetos de valor e nada do poder político da Inglaterra. Que essas diferenças acarretam consideráveis diferenças na mente e no corpo é algo que nenhum psicólogo ou biólogo negaria. Parece seguir-se, pois, como fato indisputável, que “nós” – “nós” significando um todo composto de corpo, cérebro e espírito, influenciado pela memória e pela tradição – devemos ainda diferir, em alguns aspectos essenciais, de “vocês”, homens, cujo corpo, cérebro e espírito têm sido tão diferentemente treinados e são tão diferentemente influenciados pela memória e pela tradição. Embora vejamos o mesmo mundo, nós o vemos através de olhos diferentes. Qualquer ajuda que possamos dar deve ser diferente daquela que vocês podem dar, e talvez o valor dessa ajuda possa estar no fato dessa diferença. Portanto, antes de concordarmos em assinar seu manifesto ou nos filiar à sua sociedade, talvez seja acertado descobrir onde reside a diferença, porque, então, poderemos também descobrir onde reside a ajuda. Vamos mostrar-lhe, pois, como uma introdução muito elementar, uma fotografia – uma fotografia grosseiramente colorida – de seu mundo tal como ele aparece para nós, que o vemos, através da sombra do véu que São Paulo ainda faz baixar sobre nossos olhos, desde a soleira da casa privada, desde a ponte que liga a casa privada com o mundo da vida pública. Seu mundo, pois, o mundo da vida pública, profissional, visto desse ângulo parece, sem dúvida, estranho. À primeira vista, é muitíssimo impressionante. Num espaço bem pequeno se aglomeram a Catedral de St Paul, o Banco da Inglaterra, a Residência do Prefeito, as maciças, ainda que funéreas, ameias da Suprema Corte; e, do outro lado, a Abadia de Westminster e as Casas do Parlamento. Ali, dizemos para nós mesmas, nos detendo, neste momento de transição, sobre a ponte, nossos pais e nossos irmãos têm passado suas vidas. Por todas essas centenas de anos, eles têm se dedicado a galgar esses degraus, entrar e sair por essas portas, subir nesses púlpitos, a pregar, a fazer . 24 .


dinheiro, a ministrar a justiça. É desse mundo que a casa privada (em algum ponto, genericamente falando, do West End) tem extraído seus credos, suas leis, suas roupas e seus tapetes, sua carne bovina e sua carne ovina. E, então, como é agora permitido, cautelosamente empurramos as folhas da porta de vaivém de um desses templos, entramos nas pontas dos pés e inspecionamos a cena mais detalhadamente. A primeira sensação, do tamanho colossal, da majestosa alvenaria, fragmenta-se numa miríade de pontos em que se misturam espanto e interrogação. Suas roupas, antes de tudo, nos deixam boquiabertas de admiração.16 Quão numerosas, quão esplêndidas, quão extremamente ornadas elas são – as vestes trajadas pelos homens instruídos em sua função pública! Ora vocês trajam roxo; um crucifixo cravado de joias balança-lhes no peito; ora seus ombros estão cobertos de passamanaria; ora forrados de arminho; ora enlaçados com muitas correntes interligadas e engastadas com pedras preciosas. Ora vocês carregam uma peruca na cabeça; fileiras de cachos graduais descem-lhes até o pescoço. Ora seu chapéu tem formato de barco ou é de abas viradas; ora ele se eleva em cones de pele preta; ora é de metal e toma a forma de balde de carvoeiro; ora é encimado por um penacho de penugem vermelha, ora por um penacho de penugem azul. Às vezes, uma toga lhes cobre as pernas; às vezes, polainas. Um tabardo com enfeites de leões e unicórnios pende de seus ombros; objetos de metal talhados em forma de estrela ou de círculo resplandecem e cintilam em seu peito. Fitas de todas as cores – azul, roxo, carmesim – vão de um ombro ao outro. Em contraste com a comparativa simplicidade de suas vestes em casa, o esplendor de seus trajes públicos é ofuscante. Mas bem mais estranhos são dois outros fatos que se revelam gradualmente à medida que nossos olhos se recobram de seu primeiro assombro. Não apenas todo o corpo dos homens se veste de forma igual no inverno e no verão – uma característica estranha para um sexo que muda suas roupas de acordo com a estação e por razões de gosto pessoal e de conforto – mas cada botão, roseta ou faixa parece ter algum significado simbólico. Alguns têm o direito de usar apenas botões simples; outros, rosetas; alguns podem usar uma única fita; outros, três, quatro, cinco ou seis. E cada faixa ou cacho é afixado a uma distância precisa do outro; pode ser dois dedos para um, dois dedos e meio para outro. De novo, regras regulam o fio de ouro sobre os ombros, o galão nas calças, o emblema no chapéu – mas nenhum . 25 .


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par de olhos sozinho consegue enxergar todas essas distinções, quanto mais explicá-las acuradamente. Ainda mais estranhas, entretanto, que o esplendor simbólico de suas roupas são as cerimônias que se realizam quando vocês as vestem. Aqui vocês se ajoelham; ali vocês se curvam, aqui vocês avançam em procissão atrás de um homem carregando um atiçador de prata; aqui vocês sobem numa cadeira entalhada; aqui vocês parecem render homenagem a um pedaço de madeira pintada; aqui vocês se prosternam diante de mesas cobertas com tapeçaria ricamente trabalhada. E seja lá o que essas cerimônias signifiquem, vocês sempre as executam juntos, sempre em concerto, sempre no uniforme apropriado ao homem e à ocasião. Para além das cerimônias, tal vestuário decorativo nos parece, à primeira vista, estranho ao extremo. Pois a roupa, tal como nós a usamos, é comparativamente simples. Além da função primária de cobrir o corpo, ela tem dois outros papéis – o de produzir beleza para os olhos e o de atrair a admiração dos que pertencem ao seu sexo. Uma vez que o casamento até 1919 – há menos de vinte anos – era a única profissão disponível para nós, a enorme importância do vestuário dificilmente pode ser exagerada. Era para ela o que os clientes são para o senhor – o vestuário era o principal método, talvez o único, de ela se tornar Lorde Chanceler. Mas o vestuário de vocês, em sua imensa complexidade, tem, obviamente, outra função. Ele não apenas cobre a nudez, gratifica a vaidade e deleita os olhos, mas também serve para anunciar a posição social, profissional ou intelectual de quem o traja. Se o senhor perdoar a pobre ilustração, seu vestuário cumpre a mesma função que os rótulos numa mercearia. Mas, aqui, em vez de dizer “Isso é margarina; isso é manteiga pura; essa é a melhor manteiga do mercado”, ele diz “Este homem é um homem inteligente – ele é Mestre em Artes; este homem é um homem muito inteligente – ele é Doutor em Letras; este homem é um dos mais inteligentes – ele é Membro da Ordem do Mérito”. É essa função – o anúncio da função – de seu vestuário que nos parece a mais singular. Na opinião de São Paulo, esse anúncio, ao menos para o nosso sexo, era impróprio e impudico; até poucos anos atrás seu uso nos era interditado. E ainda agora persiste entre nós a tradição, ou a crença, de que expressar o valor de qualquer tipo, intelectual ou moral, pelo uso de peças de metal ou de fitas, de toucas ou vestidos coloridos, é um barbarismo que merece o escárnio que conferimos aos rituais dos . 27 .


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selvagens. Uma mulher que anunciasse sua maternidade por um tufo de crina de cavalo no seu ombro esquerdo dificilmente seria, o senhor há de concordar, um objeto venerável. Mas que luz nossa diferença lança, nesse caso, sobre o problema em tela? Qual é a ligação entre os esplendores indumentários do homem instruído e a fotografia das casas destroçadas e dos cadáveres? Obviamente não é preciso ir muito longe para encontrar a ligação entre a vestimenta e a guerra; suas roupas mais refinadas são as que vocês usam como soldados. Uma vez que o vermelho e o dourado, o metal e as plumas são descartados no serviço ativo, é evidente que seu dispendioso e, pode-se supor, nada higiênico esplendor, é inventado, em parte, para impressionar o espectador com a grandiosidade do ofício militar, em parte com a finalidade de induzir, por meio da vaidade, os homens jovens a se tornarem soldados. Aqui, pois, nossa influência e nossa diferença podem ter algum efeito; nós, que estamos proibidas de usar essas vestimentas, podemos manifestar a opinião de que aquele que as traja não é, para nós, um espetáculo agradável ou impressionante. Ele é, ao contrário, um espetáculo ridículo, bárbaro, desagradável. Mas, como filhas dos homens instruídos, podemos utilizar nossa influência com mais eficácia em outra direção, sobre nossa própria classe – a classe dos homens instruídos. Pois aí, nas cortes e nas universidades, encontramos a mesma adoração pela vestimenta. Aí também estão o veludo e a seda, a pele e o arminho. Podemos dizer, no que toca aos homens instruídos, que enfatizar sua superioridade sobre outras pessoas, por razão de nascimento ou de intelecto, ao se vestirem de maneira diferente, ou adicionarem títulos antes de seus nomes ou letras maiúsculas depois deles, são atos que incitam a competição e a inveja – emoções que, nem precisamos apelar à biografia para prová-lo ou à psicologia para demonstrá-lo, contribuem para estimular a disposição para a guerra. Se expressamos, então, a opinião de que tais distinções tornam os que as possuem ridículos e o saber desprezível, devemos, indiretamente, fazer alguma coisa para desestimular os sentimentos que conduzem à guerra. Felizmente podemos, agora, fazer mais do que expressar uma opinião; podemos rejeitar todas essas distinções e todos esses uniformes para nós mesmas. Essa seria uma pequena mas decisiva contribuição para o problema com que nos defrontamos – como evitar a guerra; e uma contribuição que um treinamento diferente . 29 .


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e uma tradição diferente põem mais facilmente ao nosso alcance que ao de vocês.17 Mas a visão ampla que temos do exterior das coisas não é nada encorajadora. A fotografia colorida que estivemos olhando apresenta alguns aspectos notáveis, é verdade; mas ela serve para nos lembrar que há muitos compartimentos internos e secretos em que não podemos penetrar. Que influência real podemos exercer sobre a justiça ou os negócios, a religião ou a política – nós, às quais muitas portas estão ainda fechadas ou, na melhor das hipóteses, apenas entreabertas, nós, que não temos nem capital nem força em que nos apoiar? Temse a impressão de que nossa influência deve se deter na superfície. Tendo expressado uma opinião na superfície, fizemos tudo o que podemos fazer. É verdade que a superfície pode ter alguma ligação com as profundezas, mas se vamos ajudá-lo a evitar a guerra devemos tentar penetrar mais fundo sob a crosta. Olhemos, pois, numa outra direção – numa direção natural às filhas dos homens instruídos, na direção da educação em si. Aqui, afortunadamente, o ano sagrado de 1919 vem mais uma vez em nosso socorro. Uma vez que esse ano pôs ao alcance das filhas dos homens instruídos o direito de ganhar a vida, elas têm, finalmente, alguma influência verdadeira sobre a educação. Elas têm dinheiro. Elas têm dinheiro para fazer contribuições a causas. Tesoureiras honorárias pedem sua ajuda. Para prová-lo, eis aqui, oportunamente, bem ao lado da sua, uma carta de uma delas, pedindo dinheiro para reconstruir uma faculdade feminina. E quando tesoureiras honorárias pedem ajuda, é evidente que elas estão abertas à negociação. Temos o direito de dizer a ela: “Só terá o seu guinéu para ajudá-la a reconstruir a sua faculdade se a senhora ajudar esse cavalheiro, cuja carta também está diante de nós, a evitar a guerra”. Podemos dizer-lhe “A senhora deve educar as jovens a odiar a guerra. A senhora deve ensiná-las a sentir a desumanidade, a brutalidade, a insuportabilidade da guerra”. Mas que tipo de educação devemos barganhar? Que tipo de educação ensinará as jovens a odiar a guerra? É uma questão, por si só, bastante difícil; e pode muito bem parecer irrespondível para aquelas que pertencem à categoria de Mary Kingsley – para aquelas que não tiveram, elas próprias, nenhuma experiência direta da educação universitária. Contudo, o papel que a educação tem na vida humana é tão importante e o papel que ela . 31 .


pode ter em responder à sua pergunta é tão considerável que se esquivar a qualquer tentativa de examinar como podemos influenciar as jovens, por meio da educação, a se posicionarem contra a guerra seria covardia. Voltemo-nos de nosso posto na ponte sobre o Tâmisa em direção a outra ponte sobre outro rio, desta vez em uma das grandes universidades; pois ambas têm rios, e ambas também têm pontes sobre as quais podemos nos posicionar. Uma vez mais, como parece estranho, visto de nosso posto de observação, esse mundo de cúpulas e agulhas, de auditórios e laboratórios! Quão diferente da nossa é a impressão que o senhor deve ter desse mundo! Para aquelas que o contemplam do ângulo de Mary Kingsley – “ser autorizada a aprender alemão foi toda a educação paga que eu jamais tive” – pode muito bem parecer um mundo tão remoto, tão grandioso, tão complexo em suas cerimônias e tradições que qualquer crítica ou comentário pode muito bem parecer fútil. Aqui também nos maravilhamos com o esplendor de suas vestes; aqui também vemos cetros se elevando e procissões se formando, e observamos com olhos demasiadamente ofuscados para registrar, que dirá para explicar, as diferenças, as sutis distinções de chapéus e capelos, de roxo e carmesim, de veludo e pano, de borla e beca. É um espetáculo solene. As palavras do poema de Arthur, em Pendennis, nos vêm aos lábios: Embora eu não entre, Contudo em volta do local Às vezes eu pairo, Com olhos ávidos espero, Ansioso...

e ainda: Não entrarei lá, Para macular sua pura prece Com pensamentos rebeldes. Mas permita-me andar a passo Em volta do local proibido, Pairando um minuto, Como espíritos proscritos à espera Espiando pelo portão do Paraíso Os Anjos lá dentro.

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Mas, uma vez que tanto o senhor quanto a tesoureira honorária do fundo de reconstrução da faculdade estão aguardando respostas às suas respectivas cartas, devemos deixar de nos debruçar sobre velhas pontes sussurrando velhos poemas; devemos tentar tratar, ainda que imperfeitamente, do tema da educação. O que é, pois, essa “educação universitária” sobre a qual a irmandade de Mary Kingsley tem ouvido tanto falar e para a qual tem contribuído tão arduamente? O que é esse misterioso processo que leva cerca de três anos para ser concluído, custa uma vultosa soma em dinheiro vivo e transforma um ser humano tosco e em estado bruto num produto acabado – uma mulher ou um homem instruído? Não há nenhuma dúvida, para começar, sobre seu supremo valor. O testemunho da biografia – aquele testemunho que qualquer um capaz de ler na língua inglesa pode consultar nas estantes de qualquer biblioteca pública – é unânime sobre esse ponto; o valor da educação está entre os maiores de todos os valores humanos. A biografia prova isso de duas formas. Primeiro, há o fato de que, em sua grande maioria, os homens que governaram a Inglaterra durante os últimos 500 anos, que agora governam a Inglaterra no Parlamento e no Serviço Público, tiveram uma educação universitária. Depois, há o fato, que é ainda mais impressionante, se levamos em conta o esforço, a privação que ele implica – e isso também é amplamente demonstrado na biografia – há o fato da imensa soma de dinheiro que foi gasta na educação nos últimos 500 anos. A receita da Universidade de Oxford é de 435.656 libras (1933-1934), a receita da Universidade de Cambridge é de 212.000 libras (1930). Além da receita da universidade, cada faculdade tem a própria receita, a qual, a julgar apenas pelas doações e pelos legados anunciados de tempos em tempos nos jornais, deve, em alguns casos, alcançar proporções fabulosas.18 Se acrescentarmos, ainda, as receitas obtidas pelos grandes internatos privados – Eton, Harrow, Winchester, Rugby, para listar apenas os maiores – atinge-se uma soma tão imensa que não há nenhuma dúvida sobre o enorme valor que os seres humanos dão à educação. E o estudo da biografia – as vidas dos pobres, dos obscuros, dos pouco instruídos – prova que eles farão qualquer esforço, qualquer sacrifício para obter uma educação numa das grandes universidades.19 Mas talvez o maior testemunho do valor da educação com que nos brinda a biografia é o fato de que as irmãs dos homens instruídos . 33 .


não apenas sacrificavam o conforto e o prazer, sacrifícios que eram necessários para educar seus irmãos, mas também, na verdade, desejavam, elas próprias, se beneficiar da educação. Quando consideramos a doutrina da Igreja sobre esse tema, uma doutrina que, sabemos pelas biografias, estava em vigor até poucos anos atrás – “...disseram-me que, nas mulheres, o desejo de estudar era contra a vontade de Deus...”20 – devemos admitir que seu desejo deve ter sido forte. E se refletimos que todas as profissões para as quais uma educação universitária preparava seus irmãos estavam interditadas para ela, sua crença no valor da educação deve parecer ainda mais forte, uma vez que ela deve ter acreditado na educação pelo seu valor intrínseco. E se refletimos, ainda, que se julgava que a única profissão que estava disponível para ela – o casamento – não exigia nenhuma educação e, na verdade, era de tal natureza que a educação tornava as mulheres inapropriadas para praticá-la, então não teria sido nenhuma surpresa descobrir que ela tinha renunciado a qualquer desejo ou tentativa de ser ela própria educada, mas tinha se contentado em contribuir para a educação de seus irmãos – a imensa maioria das mulheres, as anônimas, as pobres, por meio da redução das despesas domésticas; a diminuta minoria, as detentoras de títulos de nobreza, as ricas, por meio da instituição de faculdades para os homens ou de sua manutenção. Foi isso que, na verdade, elas fizeram. Mas é tão inato à natureza humana o desejo por educação que o senhor descobrirá, se consultar as biografias, que o mesmo desejo, apesar de todos os empecilhos que a tradição, a pobreza e o escárnio podiam pôr em seu caminho, existia também entre as mulheres. Para prová-lo, examinemos apenas uma vida – a vida de Mary Astell.21 Pouco se sabe sobre ela, mas o suficiente para mostrar que há quase 250 anos esse obstinado e talvez irreligioso desejo estava vivo nela; ela, na verdade, propôs instituir uma faculdade para mulheres. O que é mais notável, a princesa Anne estava pronta a lhe dar 10.000 libras – na época e, na verdade, ainda agora, uma soma considerável, para qualquer mulher, ter à sua disposição – para as despesas. E então – então nos chocamos com um fato de extremo interesse, tanto histórica quanto psicologicamente: a Igreja interveio. O bispo Burnet era da opinião de que educar as irmãs dos homens instruídos significaria encorajar o ramo errado, ou seja, o ramo católico romano, da fé cristã. O dinheiro teve outro destino; a faculdade nunca foi instituída. . 34 .


Mas esses fatos, como frequentemente ocorre com os fatos, se revelam ambíguos; pois, embora demonstrem o valor da educação, eles também provam que a educação não é, de modo algum, um valor positivo; não é boa em todas as circunstâncias e não é boa para todas as pessoas; é boa apenas para algumas pessoas e para alguns propósitos. É boa se instila a crença na Igreja da Inglaterra; má, se instila a crença na Igreja de Roma; é boa para um sexo e algumas profissões, porém má para o outro sexo e para outras profissões. Essa, ao menos, parecia ser a resposta dada pela biografia – o oráculo não é mudo, mas é dúbio. Como, entretanto, é muito importante usarmos nossa influência por meio da educação para sensibilizar os jovens contra a guerra, não devemos nos deixar confundir pelas evasivas da biografia ou nos seduzir por sua atração. Devemos tentar ver que tipo de educação a irmã do homem instruído recebe atualmente, para que possamos nos esforçar ao máximo para usar nossa influência nas universidades, que é o seu lugar apropriado, e onde ela terá mais chance de penetrar além da superfície. Agora, felizmente, não precisamos mais depender da biografia, que, inevitavelmente, uma vez que se preocupa com a vida privada, está repleta de inumeráveis conflitos de opinião privada. Temos, agora, para nos ajudar, aquele registro da vida pública que é a história. Até mesmo outsiders podem consultar os anais dos órgãos públicos que registram não as opiniões cotidianas das pessoas privadas, mas utilizam um discurso mais abrangente e expressam pelos canais dos Parlamentos e dos Senados as opiniões ponderadas dos grupos de homens instruídos. A história logo nos informa que há agora, e tem havido desde cerca de 1870, faculdades para as irmãs dos homens instruídos tanto em Oxford quanto em Cambridge. Mas a história também nos relata, a respeito dessas faculdades, fatos de uma tal natureza que todas as tentativas para influenciar as jovens contra a guerra por meio da educação que elas recebem ali deve ser abandonada. Em razão deles, é pura perda de tempo e esforço falar em “influenciar as jovens”; inútil estabelecer condições antes de a tesoureira honorária ter seu guinéu; melhor pegar o primeiro trem para Londres do que rondar os sagrados portões. Mas, o senhor intervirá, quais são esses fatos, esses históricos porém deploráveis fatos? Vamos, pois, colocá-los à sua frente, alertando-o de que eles são extraídos apenas daqueles registros que estão disponíveis para uma pessoa de fora e dos anais da . 35 .


universidade que não é a sua – Cambridge. Seu julgamento, portanto, não estará sujeito à distorção inerente à lealdade a antigos laços ou à gratidão por benefícios recebidos, mas será imparcial e desinteressado. Para começar, pois, por onde paramos: a rainha Anne morreu e o bispo Burnet morreu e Mary Astell morreu; mas o desejo de instituir uma faculdade para o seu sexo não morreu. Na verdade, tornou-se cada vez mais forte. Pela metade do século dezenove, tornou-se tão forte que uma casa foi adquirida em Cambridge para alojar as estudantes. Não era uma casa bonita; era uma casa sem jardim, no meio de uma rua barulhenta. Depois, uma segunda casa foi adquirida, uma casa melhor desta vez, embora seja verdade que a água jorrava pelo refeitório em caso de temporal e não havia pátio de recreio. Mas essa casa não era suficiente; o desejo por educação era tão premente que era preciso mais quartos, um jardim para caminhar, um pátio de recreio para espairecer. Assim, era preciso outra casa. Agora a história nos diz que, para construir essa casa, era preciso dinheiro. O senhor não questionará esse fato, mas pode muito bem questionar o próximo – o de que o dinheiro era emprestado. O senhor achará ser mais provável que o dinheiro tenha sido dado. As outras faculdades, dirá o senhor, eram ricas; todas obtinham suas receitas indiretamente, outras diretamente, de suas irmãs. Temos a Ode de Gray para prová-lo. E o senhor citará a canção com a qual ele saúda as benfeitoras: a condessa de Pembroke que fundou Pembroke; a condessa de Clare que fundou Clare; Margaret de Anjou que fundou o Queen’s College; a condessa de Richmond e Derby que fundou o St John’s College e o Christ’s College. O que é a grandeza, o que é o poder? Labuta mais árdua, maior sacrifício. Que radiante recompensa obtemos? A grata lembrança do bem. Doce é o murmúrio do chuvisco primaveril, Doces os tesouros colhidos pela abelha, Doce a suave cadência da música, porém mais doce ainda A mansa e débil voz da gratidão.22

Aqui, dirá o senhor em sóbria prosa, estava uma oportunidade para saldar a dívida. Pois que soma era necessária? Miseráveis 10.000 libras – exatamente a soma que o bispo negara anteriormente, dois séculos atrás. Essas 10.000 libras foram, de fato, vomitadas pela Igreja . 36 .


que as engolira? Mas as igrejas não vomitam facilmente aquilo que engoliram. Então, dirá o senhor, as faculdades que tinham se beneficiado, deviam elas tê-las doado em memória de suas nobres benfeitoras? O que 10.000 libras poderiam significar para o St John’s College ou para o Clare ou para o Christ’s College? E a terra pertencia ao St John’s College. Mas a terra, diz a história, era arrendada; e as 10.000 libras não foram dadas; elas foram laboriosamente arrecadadas de bolsas privadas. Entre elas uma dama deve ser para sempre lembrada porque deu 1.000 libras; e Anon. deve receber seja lá qual for o agradecimento que Anon. consinta em receber, porque ela deu somas que vão de 20 a 100 libras. E outra dama pôde, graças à herança da mãe, oferecer seus serviços como diretora sem receber salário. E as próprias estudantes também contribuíram – tanto quanto pode uma estudante – fazendo camas e lavando louça, renunciando a certas comodidades e levando uma vida modesta. Dez mil libras não é, de forma alguma, uma soma miserável quando tem que ser arrecadada das bolsas das pobres, dos grupos das jovens. Exige tempo, energia, cérebros, para arrecadá-la, sacrifício para doá-la. Naturalmente, vários homens instruídos foram muito generosos; deram aulas para suas irmãs; outros não foram tão generosos; se recusaram a dar aulas para suas irmãs. Alguns homens instruídos foram muito generosos e encorajaram suas irmãs; outros não foram tão generosos, eles desencorajaram suas irmãs.23 Não obstante, por mal ou por bem, finalmente chegou o dia, nos diz a história, em que alguém passou num exame. E então as presidentes, diretoras ou seja lá como elas chamavam a si mesmas – pois o título que deve ser usado por uma mulher que não receberá salário deve ser objeto de dúvida – perguntaram aos chanceleres e aos presidentes, sobre cujos títulos, pelo menos no que diz respeito ao salário, não cabe nenhuma dúvida, se as moças que tinham passado nos exames podiam anunciar esse fato, tal como fizeram aqueles próprios homens, pela aposição de letras maiúsculas aos seus nomes. Isso era aconselhável, porque, como nos informa o atual presidente do Trinity, Sir J. J. Thompson, OM, FRS, após fazer uma brincadeira nada justificável quanto à “perdoável vaidade” dos que apõem letras maiúsculas ao seu nome, “as pessoas pertencentes ao público geral que não obtiveram um grau universitário dão muito mais importância ao BA após o nome de alguém do que aquelas que obtiveram. As diretoras de escolas, portanto, preferem um corpo docente dotado de letras maiúsculas, . 37 .


de forma que as estudantes de Newnham e Girton, uma vez que não podiam apor o BA após os seus nomes, estavam em desvantagem na obtenção de emprego”. E, pelos céus, podemos ambos perguntar, que razão concebível poderia haver para impedi-las de apor as letras BA aos seus nomes se isso as ajudasse na obtenção de emprego? A essa pergunta a história não fornece qualquer resposta; devemos buscá-la na psicologia, na biografia; mas a história nos fornece o fato. “A proposta, entretanto”, continua o presidente do Trinity – isto é, a proposta de que aquelas que passarem nos exames possam se intitular BA – “encontrou a mais firme das oposições... No dia da votação houve uma grande afluência de não-residentes, e a proposta foi rejeitada pela esmagadora maioria de 1.707 a 661. Creio que o número de votantes nunca foi equiparado... O comportamento de algumas das graduadas depois que o resultado foi anunciado no Senado foi excepcionalmente deplorável e vergonhoso. Um grande grupo delas deixou o Senado, seguiu para Newnham e danificou os portões de bronze que tinham sido erguidos como um memorial à srta. Clough, a primeira diretora.”24 Isso não é o bastante? Precisamos reunir mais fatos da história e da biografia para provar nossa afirmação de que todas as tentativas para influenciar as jovens contra a guerra, por meio da educação que recebem nas universidades, deve ser abandonada? Pois não provam eles que a educação, a melhor educação do mundo, não ensina as pessoas a odiar a força, mas a usá-la? Não provam eles que a educação, longe de ensinar a generosidade e a magnanimidade aos que a recebem, os torna, ao contrário, tão ansiosos para conservar o que possuem, aquela “grandeza e poder” de que fala o poeta, em suas próprias mãos, que eles usarão não a força mas métodos muito mais sutis que a força quando forem solicitados a partilhar aquilo que possuem? E não estão a força e a possessividade estreitamente conectadas com a guerra? De que serve, pois, uma educação universitária quando se trata de influenciar as pessoas a evitar a guerra? Mas a história não para, é claro; um ano se segue ao outro. Os anos mudam as coisas; leve, mas imperceptivelmente, eles as transformam. E a história nos diz que, por fim, após gastar tempo e energia, cujo valor é incomensurável, em solicitar repetidamente às autoridades, com a humildade esperada de nosso sexo e própria de suplicantes, o direito de impressionar diretoras de escola, o direito de apor as letras BA ao nome foi concedido. . 38 .


Mas esse direito, a história nos diz, era apenas um direito nominal. Em Cambridge, no ano de 1937, as faculdades femininas – o senhor vai custar a acreditar, porém, uma vez mais, é a voz do fato que está falando, não a da ficção – as faculdades femininas não podiam fazer parte da universidade;25 e o número de filhas de homens instruídos às quais é permitido receber uma educação universitária é ainda estritamente limitado; embora ambos os sexos contribuam para os fundos universitários.26 Quanto à pobreza, o jornal The Times nos fornece números; qualquer ferragista pode nos fornecer uma régua de trinta centímetros; se compararmos o dinheiro disponível para bolsas nas faculdades masculinas com o dinheiro disponível para suas irmãs nas faculdades femininas, nos pouparemos o trabalho de fazer cálculos; e chegaremos à conclusão de que as faculdades para as irmãs dos homens instruídos são, comparadas com as faculdades de seus irmãos, inacreditável e vergonhosamente pobres.27 A prova desse último fato está, a propósito, na carta da tesoureira honorária pedindo dinheiro para reconstruir sua faculdade. Ela vem pedindo dinheiro por algum tempo; ela ainda está pedindo, ao que parece. Mas não há nada, após o que foi dito acima, que ainda deva nos surpreender, seja no fato de ela ser pobre, seja no fato de sua faculdade precisar ser reconstruída. O que é difícil, e tem se tornado, em vista dos fatos fornecidos acima, ainda mais difícil, é o seguinte: Que resposta devemos dar-lhe quando ela nos pedir ajuda para reconstruir sua faculdade? Juntos, a história, a biografia e o jornal tornam difícil responder a carta da tesoureira ou ditar-lhe condições. Pois, juntos, eles levantaram muitas questões. Antes de mais nada, que razão há para crer que uma educação universitária fará com que as pessoas instruídas se posicionem contra a guerra? Mais uma vez, se ajudarmos a filha do homem instruído a ir para Cambridge não estaremos forçando-a a pensar não sobre a educação, mas sobre a guerra, não sobre como ela pode aprender, mas sobre como pode lutar para conseguir conquistar as mesmas vantagens de seus irmãos? Além disso, uma vez que as filhas dos homens instruídos não fazem parte ativa da Universidade de Cambridge, não tendo nem voz nem voto na educação ali ministrada, como podem elas alterar essa educação mesmo que lhes pedíssemos que o fizessem? E, depois, surgem, naturalmente, outras questões – questões de natureza prática, que poderão facilmente ser compreendidas por um homem ocupado, um tesoureiro honorário, tal como o senhor. . 39 .


O senhor será o primeiro a concordar que pedir a pessoas tão intensamente ocupadas em levantar fundos com os quais reconstruir uma faculdade que analisem a natureza da educação e que efeitos ela pode ter sobre a guerra significa um fardo a mais para vidas já sobrecarregadas. Vindo de uma outsider, além disso, que não tem qualquer direito a se expressar, um tal pedido pode muito bem merecer, e talvez receba, uma resposta demasiadamente forte para ser reproduzida. Mas juramos que faríamos tudo que pudéssemos para ajudá-lo a impedir a guerra pelo uso de nossa influência – a influência do dinheiro que ganhamos. E a educação é a maneira óbvia. Uma vez que ela é pobre, uma vez que ela está pedindo dinheiro e uma vez que quem doa tem o direito de impor condições, vamos correr o risco e esboçar uma carta para ela, estabelecendo as condições pelas quais ela terá o nosso dinheiro para ajudar a reconstruir sua faculdade. Eis aqui, pois, uma tentativa: “Sua carta, senhora, tem estado à espera, sem resposta, por algum tempo. Mas surgiram algumas dúvidas e perguntas. Será que podemos apresentá-las à senhora, com a ignorância a que está sujeita uma outsider, mas com a franqueza que se espera de uma outsider quando solicitada a contribuir monetariamente? A senhora diz, pois, que está tentando arrecadar 100.000 libras com as quais pretende reconstruir sua faculdade. Mas como pode a senhora ser tão insensata? Ou está a senhora tão isolada, entre os rouxinóis e os salgueiros, ou tão ocupada com profundas questões sobre capelos e becas, ou qual deles deve entrar primeiro na sala da reitoria – o pug do diretor ou o lulu-da-pomerânia da diretora – que não tem tempo de ler os jornais diários? Ou está tão atormentada com o problema de extrair delicadamente 100.000 libras de um público indiferente que só consegue pensar em apelos e comitês, feiras beneficentes e sorvetes, morangos e creme? Permita-nos, pois, informá-la: estamos gastando trezentos milhões anualmente com o exército e a marinha; pois, de acordo com uma carta que está bem ao lado da sua, há um grave risco de guerra. Como pode, pois, nos pedir seriamente que lhe dê dinheiro com o qual reconstruir sua faculdade? Se a senhora retrucar que a faculdade foi construída com pouco dinheiro e que ela precisa ser reconstruída, isso pode ser verdade. Mas quando, em seguida, a senhora diz que o público é generoso, e que o público ainda é capaz de dar grandes somas para reconstruir faculdades, permita-nos chamar sua atenção . 40 .


para uma passagem significativa nas memórias do diretor do Trinity. Ei-la: ‘Afortunadamente, entretanto, logo após o início deste século, a Universidade começou a receber uma sucessão de generosos legados e doações que, complementados por uma liberal subvenção por parte do governo, têm colocado as finanças da Universidade em tão boa posição que tem sido praticamente desnecessário solicitar qualquer aumento na contribuição por parte das faculdades. A receita da Universidade, considerando todas as fontes, aumentou de 60.000 libras, aproximadamente, em 1900, para 212.000 libras em 1930. Não é uma hipótese muito disparatada supor que isso se deve, em grande parte, às importantes e muito interessantes descobertas que têm sido feitas na Universidade, e Cambridge pode ser citada como um exemplo dos resultados práticos que resultam da pesquisa pura’. “Considere apenas a última frase: ‘Cambridge pode ser citada como um exemplo dos resultados práticos que resultam da pesquisa pura’. Que tem feito a sua faculdade para incentivar os grandes fabricantes a patrociná-la? Têm vocês assumido papel de liderança na invenção de implementos de guerra? Quão bem-sucedidas têm sido suas alunas em seu ramo, como capitalistas? Como, então, pode a senhora esperar que ‘legados e doações consideráveis’ lhe sejam aportados? De novo, é sua faculdade parte efetiva da Universidade de Cambridge? Não é. Como pode, então, legitimamente reivindicar ter qualquer voz em sua distribuição? Não pode. É claro, portanto, que a senhora deve se postar à porta, de chapéu na mão, promovendo festas, consumindo sua força e seu tempo na solicitação de contribuições. Isso é claro. Mas é também claro que as outsiders que a encontram assim ocupada devem se perguntar, quando recebem um pedido de contribuição para reconstruir sua faculdade: devo enviá-la ou não? Se a enviar, que devo pedir-lhes para fazer com ela? Devo pedir-lhes para reconstruir a faculdade de acordo com os princípios antigos? Ou devo pedir-lhes para reconstruí-la, mas de maneira diferente? Ou devo pedir-lhes para comprar estopa e gasolina e fósforos Bryant & May e reduzir a faculdade a cinzas? “Essas são as perguntas, senhora, que deixaram sua carta por tanto tempo sem resposta. São perguntas de grande dificuldade e talvez sejam perguntas inúteis. Mas devemos deixá-las sem resposta em vista das perguntas desse senhor? Ele está perguntando como podemos ajudá-lo a evitar a guerra. Ele está perguntando como podemos . 41 .


ajudá-lo a defender a liberdade; a defender a cultura. Considere também estas fotografias: são imagens de cadáveres e casas destroçadas. Com certeza, em vista dessas perguntas e imagens, a senhora deve examinar muito cuidadosamente, antes de começar a reconstruir sua faculdade, qual é o objetivo da educação, que tipo de sociedade, que tipo de ser humano ela deve procurar produzir. De qualquer maneira, lhe enviarei um guinéu para a reconstrução de sua faculdade apenas se a senhora puder me convencer de que ele será usado para produzir o tipo de sociedade, o tipo de pessoa que ajudará a evitar a guerra. “Discutamos, pois, tão brevemente quanto possível, o tipo de educação de que precisamos. Ora, uma vez que a história e a biografia – a única evidência disponível para quem é uma outsider – parecem provar que a antiga educação das faculdades não produz nem respeito especial pela liberdade nem aversão particular à guerra, fica claro que vocês devem reconstruir a sua faculdade de maneira diferente. Ela é jovem e pobre; deixem, portanto, que ela tire vantagem dessas características e seja alicerçada na pobreza e na juventude. Obviamente, ela deve ser, portanto, uma faculdade experimental, uma faculdade ousada. Que seja construída de acordo com diretrizes próprias. Deve ser construída não com pedra esculpida e vitrais, mas com algum material barato, facilmente combustível, que não acumule poeira nem perpetue tradições. Não tenham capelas.28 Não tenham museus e bibliotecas com livros acorrentados e primeiras edições trancadas em armários envidraçados. Façam com que os quadros e os livros sejam novos e estejam sempre mudando. Deixem que ela seja redecorada por cada geração com suas próprias mãos, de forma barata. O trabalho das internas é barato; com frequência trabalham de graça simplesmente porque se lhes permite trabalhar. Depois, o que deveria ser ensinado na nova faculdade, a faculdade pobre? Não a arte de dominar outras pessoas; não a arte de mandar, de matar, de acumular terra e capital. Essas artes exigem muitíssimas despesas extraordinárias; soldos e uniformes e cerimônias. A faculdade pobre deve ensinar apenas as artes que possam ser ensinadas de maneira barata e praticadas por pessoas pobres; tais como a medicina, a matemática, a música, a pintura e a literatura. Deve ensinar as artes das relações humanas; a arte de compreender a vida e a mente de outros povos, e as pequenas artes da conversação, do vestir-se, da culinária que a elas estão associadas. O objetivo da nova faculdade, a faculdade . 42 .


barata, não deve ser segregar e especializar, mas combinar. Ela deve explorar as formas pelas quais a mente e o corpo podem ser postos a cooperar; a descobrir que combinações novas produzem totalidades novas na vida humana. As professoras devem ser recrutadas tanto entre as pessoas que sabem viver quanto entre as que sabem pensar. Não deve haver nenhuma dificuldade em atraí-las. Pois não haveria nenhuma das barreiras da riqueza e da cerimônia, da publicidade e da competição que agora fazem das antigas e ricas universidades lugares de habitação tão desagradáveis – cidades de discórdia, cidades onde isto está trancado a chave e aquilo está acorrentado; onde ninguém pode caminhar ou falar livremente por receio de ultrapassar alguma marca de giz, de desagradar algum dignitário. Mas se a faculdade fosse pobre não teria nada a oferecer; a competição seria abolida. A vida seria livre e simples. As pessoas que gostam de aprender por aprender iriam para lá com prazer. Musicistas, pintoras, escritoras ensinariam lá porque elas iriam aprender. O que poderia ser de maior auxílio para uma escritora do que discutir a arte da escrita com pessoas que não estivessem pensando em exames ou diplomas ou na honra ou no lucro que a literatura poderia lhes trazer, mas na arte pela arte? “E do mesmo modo com as outras artes e artistas. Elas viriam para a faculdade pobre e praticariam sua arte porque esse seria um lugar no qual a associação entre as pessoas seria livre; não dividida de acordo com as deploráveis distinções entre rico e pobre, inteligente e estúpido; mas no qual todos os diferentes graus e tipos de mente, corpo e alma seriam considerados dignos de dar sua contribuição. Fundemos, pois, esta faculdade nova; esta faculdade pobre; na qual se busca aprender por aprender; na qual a publicidade foi abolida; e não há diplomas; e aulas não são dadas e sermões não são pregados, e as antigas e intoxicantes pompas e ostentações que produzem a competição e a inveja... Aqui a carta foi interrompida. Não foi por falta do que dizer; a peroração, na verdade, estava apenas começando. Foi porque o rosto do outro lado da folha – o rosto que quem está escrevendo a carta sempre vê – parecia estar fixado, com melancolia, numa passagem do livro que já havia sido citado. “As diretoras de escola preferem, portanto, um corpo docente com nomes seguidos de títulos pomposos em letras maiúsculas, de forma que as estudantes de Newnham e Girton, uma vez que não podiam apor um BA a seu nome, ficavam . 43 .


em desvantagem na obtenção de emprego.” A tesoureira honorária do Fundo de Reconstrução tinha seus olhos fixados nisso. “De que serve pensar em como uma faculdade pode ser diferente”, parecia dizer, “se ela deve ser um lugar onde as estudantes são ensinadas a conseguir emprego?” “Tenham seus sonhos”, ela parecia acrescentar, voltando-se bastante cansada para a mesa que estava decorando para algum evento, uma feira beneficente, presume-se, “mas temos que encarar a realidade.” Esta, pois, era a “realidade” na qual seus olhos estavam fixados: deve-se ensinar as alunas a ganhar a própria vida. E uma vez que essa realidade significava que ela deveria reconstruir sua faculdade na mesma linha que as outras, concluía-se que a faculdade destinada às filhas dos homens instruídos também deveria fazer com que a pesquisa produzisse resultados práticos que atraíssem legados e doações por parte de homens ricos; deveria estimular a competição; deveria aceitar a concessão de graus acadêmicos e o uso de capelos coloridos; deveria acumular uma grande riqueza; deveria excluir outras pessoas da partilha de sua riqueza; e, portanto, em quinhentos anos, mais ou menos, essa faculdade também deveria fazer a mesma pergunta que o senhor está fazendo agora: “Como, em sua opinião, conseguiremos evitar a guerra?”. Parecia um resultado indesejável; por que, então, contribuir com um guinéu para obtê-lo? De qualquer maneira, essa pergunta já foi respondida. Nenhum guinéu, de dinheiro obtido com trabalho remunerado, deveria ser dado para reconstruir a faculdade conforme o antigo projeto; é igualmente certo que nenhum guinéu deveria ser gasto na construção de um prédio para a faculdade conforme um novo projeto; o guinéu deveria ter, portanto, a seguinte destinação: “Estopas. Gasolina. Fósforos”. E esta observação deveria ser-lhe anexada: “Tomem este guinéu e com ele reduzam a faculdade a cinzas. Ateiem fogo às velhas hipocrisias. Deixem que a luz do prédio em chamas espante os rouxinóis e tinja de rubro os salgueiros. E deixem que as filhas dos homens instruídos dancem ao redor da fogueira e empilhem braçadas e mais braçadas de folhas mortas sobre as chamas. E deixem que as mães delas venham às janelas do andar de cima e gritem: ‘Deixem que arda! Deixem que arda! Pois estamos fartas dessa educação!’”. Essa passagem, senhor, não é retórica vazia, pois se baseia na respeitável opinião do antigo diretor de Eton, atual deão de Durham.29 . 44 .


Não obstante, há algo de falso nela, como é demonstrado por um conflito momentâneo com os fatos. Dissemos que a única influência que as filhas dos homens instruídos podem atualmente exercer contra a guerra é a influência desinteressada que elas têm por ganharem a própria vida. Se não houvesse nenhuma maneira de treiná-las para ganhar a vida, essa influência acabaria. Elas não poderiam obter empregos. Se não pudessem obter empregos, elas voltariam a depender do pai e dos irmãos; e se elas voltassem a depender do pai e dos irmãos, elas estariam de novo, consciente ou inconscientemente, a favor da guerra. A história parece não deixar margem para dúvidas. Devemos, pois, enviar um guinéu à tesoureira honorária do fundo de reconstrução da faculdade, e deixá-la que faça o que puder com ele. É inútil, tal como são as coisas, impor condições quanto à maneira como esse guinéu deve ser gasto. Essa é a resposta um tanto canhestra e deprimente à nossa pergunta sobre se podemos pedir às autoridades das faculdades destinadas às filhas dos homens instruídos que usem sua influência através da educação para evitar a guerra. Parece que não podemos pedir-lhes para fazerem coisa alguma; elas devem seguir pela velha estrada em direção ao velho destino; nossa própria influência como outsiders só pode ser das mais indiretas. Se formos solicitadas a lecionar, podemos examinar muito cuidadosamente o objetivo desse ensino e nos recusar a ensinar qualquer arte ou ciência que estimule a guerra. Além disso, podemos expressar certo desprezo às capelas, aos graus acadêmicos e ao valor dos exames. Podemos dar a entender que um poema premiado ainda pode ter algum mérito a despeito de ter obtido um prêmio; e sustentar que um livro ainda pode valer a pena ser lido a despeito do fato de que sua autora se classificou em primeiro lugar com honra nos exames finais de inglês. Se formos convidadas a dar uma conferência podemos nos recusar a promover o vão e vicioso sistema das conferências, recusando-nos a dar conferências.30 E, naturalmente, se nos forem oferecidos títulos e honrarias podemos recusá-los – como, aliás, em vista dos fatos, poderíamos proceder de maneira diferente? Mas não há como ignorar o fato de que, no presente estado de coisas, a maneira mais eficaz pela qual podemos ajudá-lo através da educação a evitar a guerra consiste em contribuir com dinheiro e tão generosamente quanto possível para a manutenção das faculdades das filhas dos homens instruídos. Pois, repetimos, se . 45 .


essas filhas não forem instruídas, elas não poderão ganhar a própria vida, se não puderem ganhar a própria vida, ficarão, mais uma vez, restritas à instrução da casa privada; e se ficarem restritas à instrução da casa privada, irão, uma vez mais, exercer toda a sua influência, tanto consciente quanto inconscientemente, a favor da guerra. Sobre isso há pouca dúvida. Caso o senhor duvide, caso peça demonstração, consultemos, uma vez mais, a biografia. Seu testemunho quanto a isso é conclusivo, mas tão volumoso que devemos tentar condensar muitos volumes numa única história. Eis aqui, pois, a narrativa da vida da filha de um homem instruído, que, na casa privada do século dezenove, dependia do pai e do irmão. O dia estava quente, mas ela não podia sair de casa. “Quantos longos e monótonos dias de verão passei confinada dentro de casa porque não havia lugar para mim na carruagem da família e nenhuma criada de companhia que tivesse tempo para caminhar lá fora comigo.” O sol se pôs; e para fora ela foi por fim, vestida tão bem quanto podia se arranjar com uma quantia, para gastos, de 40 a 100 libras por ano.31 Mas “para qualquer tipo de diversão ela devia estar acompanhada do pai ou da mãe ou de alguma mulher casada”. Quem ela encontrava nessas diversões, assim vestida, assim acompanhada? Homens instruídos – “ministros, embaixadores, militares famosos e outros desse tipo, todos esplendidamente vestidos, ostentando condecorações”. Sobre o que falavam? Sobre o que conversavam? Qualquer coisa que aliviasse a mente de homens ocupados que queriam esquecer seu trabalho – “o mexerico do mundo dançante” caía muito bem. Os dias passavam. O sábado chegou. Aos sábados “membros do Parlamento e outros homens ocupados tinham tempo livre para desfrutar da sociedade”; eles vinham para o chá e vinham para o jantar. O dia seguinte era domingo. Nos domingos, “a grande maioria de nós ia, de manhã, como era natural, à igreja”. As estações mudavam. Era verão. No verão elas entretinham visitantes no campo, “a maior parte, parentes”. Agora era inverno. No inverno, “elas estudavam história e literatura e música, e tentavam desenhar e pintar. Se não produzissem nada notável, aprendiam muito ao fazê-lo”. E, assim, com algumas visitando os enfermos e ensinando os pobres, os anos passavam. E qual era o grande fim e objetivo desses anos, dessa educação? O casamento, naturalmente. “...a questão não era se devíamos casar, mas simplesmente com quem devíamos casar”, diz uma delas. . 46 .


Era com vistas ao casamento que sua mente era treinada. Era com vistas ao casamento que ela teclava o piano, mas não lhe era permitido fazer parte de uma orquestra; esboçava inocentes cenas domésticas, mas não lhe era permitido fazer estudos de nus; lia este livro, mas não lhe era permitido ler aquele, encantava, e conversava. Era com vistas ao casamento que seu corpo era educado; que uma criada lhe era atribuída; que as ruas lhe eram interditadas; que os campos lhe eram interditados; que a solitude lhe era negada – tudo isso lhe era imposto para que ela pudesse conservar seu corpo intacto para o marido. Em suma, a ideia do casamento influenciava o que ela dizia, o que ela pensava, o que ela fazia. Como poderia ser diferente? O casamento era a única profissão que estava disponível para ela.32 O panorama é tão curioso, pelo que mostra tanto sobre o homem instruído quanto sobre sua filha, que é tentador nos prolongarmos. A influência do faisão sobre o amor merece, ela só, um capítulo à parte.33 Mas não estamos, neste momento, fazendo a interessante pergunta sobre qual era o efeito dessa educação sobre a estirpe. Estamos perguntando por que essa educação torna, consciente e inconscientemente, a pessoa assim educada a favor da guerra. Porque conscientemente, é óbvio, ela era obrigada a usar qualquer influência que possuísse para reforçar o sistema que lhe fornecia criadas; carruagens; roupas finas; requintadas festas – era por esses meios que ela conseguia se casar. Conscientemente ela devia usar qualquer encanto ou beleza que possuísse para lisonjear e adular os homens ocupados, os militares, os advogados, os embaixadores, os ministros, que desejavam recreação após seu trabalho diário. Conscientemente ela devia aceitar suas opiniões e concordar com suas decisões porque era apenas assim que ela podia induzi-los a lhe conceder os meios para se casar ou o próprio casamento.34 Em suma, todo o seu esforço consciente devia ser em favor daquilo que Lady Lovelace chamava de “nosso esplêndido Império”... “cujo preço”, acrescentava ela, “é pago principalmente pelas mulheres”. E quem pode duvidar dela ou de que o preço era muito grande? Mas sua influência inconsciente era, ainda mais fortemente, talvez, a favor da guerra. De que outra forma podemos explicar aquela explosão de agosto de 1914, quando as filhas dos homens instruídos que tinham assim sido educadas se precipitaram em direção aos hospitais, algumas ainda ajudadas por suas criadas, dirigiram caminhões, . 47 .


trabalharam nos campos e nas fábricas de munição e usaram todo seu imenso estoque de sedução, de simpatia, para persuadir os homens jovens que lutar era heroico e que os feridos em batalha mereciam todo o seu cuidado e seu louvor? O motivo se encontra naquela mesma educação. Tão profundo era seu ódio pela educação da casa privada, com sua crueldade, sua pobreza, sua hipocrisia, sua imoralidade, sua futilidade, que ela faria qualquer tarefa, por mais humilde que fosse, faria uso de qualquer poder de fascinação, por mais fatal que fosse, que lhe permitisse fugir. Assim, conscientemente, ela desejava “nosso esplêndido Império”; inconscientemente, ela desejava nossa esplêndida guerra. Assim, senhor, se deseja que lhe ajudemos a evitar a guerra, a conclusão parece ser inevitável; devemos ajudar a reconstruir a faculdade que, por imperfeita que seja, é a única alternativa à educação da casa privada. Devemos esperar que, no devido tempo, essa educação possa ser mudada. Esse guinéu deve ser dado antes que lhe demos o guinéu que o senhor pediu para sua própria sociedade. Mas ele está contribuindo para a mesma causa – a prevenção da guerra. Guinéus são raros; guinéus são valiosos, mas enviemos um guinéu sem qualquer condição prévia à tesoureira honorária do fundo de reconstrução, porque ao fazê-lo estamos dando uma contribuição positiva para evitar a guerra.

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