PSIQUIATRA COM 40 ANOS DE PRÁTICA CLÍNICA, MARK EPSTEIN MOSTRA QUE TERAPIA E MEDITAÇÃO PODEM TRABALHAR JUNTAS PARA AVIVAR A GENTILEZA QUE EXISTE NO ÍNTIMO DE TODOS NÓS.
© Larry Bercow
E
m um mergulho notável nas bases do relacionamento terapêutico, o renomado psiquiatra Mark Epstein reflete sobre um ano de sessões de terapia com seus pacientes para observar como sua formação em psicoterapia ocidental e suas décadas de estudo sobre o budismo podem, em conjunto, trazer mais conscientização e gentileza – para seus pacientes e para ele mesmo.
DR. MARK EPSTEIN é psiquiatra formado em Harvard, mas mora em Nova York, onde atende seus pacientes em terapia. É autor de vários livros sobre a relação entre o budismo e a psicoterapia, como Thoughts without a Thinker (1995), Going to Pieces without Falling Apart (1998), The Trauma of Everyday Life (2014) e Advice Not Given (2018).
“Tanto pacientes de terapia quanto praticantes de meditação vão gostar da opinião de Epstein sobre a complexa interação de ensinamentos espirituais e psicológicos.” Publishers Weekly
ISBN 978-65-86551-80-8
9 786586 551808
DR . MARK EPSTEIN
“A meditação tornou-se cada vez mais popular para o autoconhecimento nos últimos anos; o livro de Epstein é recomendado para qualquer pessoa interessada em explorar os potenciais benefícios de uma prática de meditação.” Gary Medina, Library Journal
“Um dos melhores livros sobre psicoterapia e meditação dos últimos anos.” Kirkus
TERAPIA ZEN
o quanto estejamos frágeis ou estressados. Quando percebemos o quanto interpretamos mal a nós mesmos, quando paramos de nos apegar a uma autoimagem falsamente construída, quando entramos em contato com o âmago do ser, aí, sim, podemos relaxar.
DR. MARK EPSTEIN
TERAPIA
ZEN Quando a psicologia e o budismo se encontram no divã
Durante anos, o psiquiatra e escritor best-seller Mark Epstein manteve suas crenças no budismo separadas de seu trabalho em consultório. Um dia, lembrou-se de alguns ensinamentos do dalai-lama e usou-os para aconselhar um paciente. A recepção foi boa, e Mark passou a compartilhar suas inclinações espirituais durante as sessões. Ficou surpreso ao ver que muitas pessoas estavam ansiosas para aprender mais sobre meditação e budismo. Foi aí que notou que a separação entre o psicológico, o emocional e o espiritual não era tão distinta quanto se poderia pensar. Neste livro, Mark Epstein mostra como, no decorrer de um ano, sua formação budista influenciou a maneira como conversou e cuidou de seus pacientes. Entre uma sessão e outra, o autor percebeu que tanto a meditação quanto a psicoterapia favorecem nossa disposição para enfrentar as dificuldades da vida com uma coragem e um equilíbrio que podem ser difíceis de obter. Neste recorte da vida em seu consultório, Mark Epstein mostra que a terapia, uma ferramenta da medicina ocidental, pode de fato ser considerada uma meditação em dupla. A atenção plena, assim como um bom terapeuta, pode ancorar nossa consciência, mostrar o caminho para nossos sentimentos e nos ajudar a encontrar a paz interior. Em um relato profundamente pessoal, que une a sabedoria de dois mundos, Mark Epstein nos ajuda a cultivar a sensação de que na vida sempre há algo com que se maravilhar e no que confiar, não importa
DR. MARK EPSTEIN
TERAPIA
ZEN Quando a psicologia e o
budismo se encontram no divã
Tradução Elisa Nazarian
Copyright © 2022 Mark Epstein
Título original: The Zen of Therapy: Uncovering a Hidden Kindness in Life
Esta edição é publicada mediante acordo com Anne Edelstein Literary Agency LLC, New York c/o Ayesha Pande Literary Agency através da Villas Boas & Moss Agência Literária, Rio de Janeiro.
Todos os direitos reservados pela Editora Vestígio. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
direção editorial
capa
Arnaud Vin
Diogo Droschi (sobre imagens de Sachin Adsul / Shutterstock e StudioJInc / istock)
editora responsável e preparação de texto
Bia Nunes de Sousa
diagramação
Waldênia Alvarenga
revisão
Rosi Ribeiro Melo Julia Sousa
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
Epstein, Mark Terapia Zen : quando a psicologia e o budismo se encontram no divã / Mark Epstein ; tradução Elisa Nazarian. -- São Paulo : Vestígio, 2022. Título original: The Zen of Therapy: Uncovering a Hidden Kindness in Life. ISBN 978-65-86551-80-8 1. Budismo e psicanálise 2. Psicoterapia - Aspectos religiosos - Budismo I. Título. 22-110250
CDD-294.33615 Índices para catálogo sistemático: 1. Budismo e psicanálise 294.33615 Eliete Marques da Silva - Bibliotecária - CRB-8/9380
A VESTÍGIO É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA São Paulo Av. Paulista, 2.073 . Conjunto Nacional Horsa I . Sala 309 . Cerqueira César 01311-940 . São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468 www.editoravestigio.com.br SAC: atendimentoleitor@grupoautentica.com.br
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Para Arlene, Sonia e Will.
Um monge perguntou: “Qual é a mensagem dos anciãos?”. O Mestre disse: “Ouça com atenção! Ouça com atenção!”.
CHAO-CHOU, “Recorded Sayings”, #220
NOTA DO AUTOR
Para proteger a privacidade dos pacientes, mudei os nomes deles e outros detalhes identificadores, mas as particularidades das sessões de psicoterapia constam da maneira mais fiel possível a como aconteceram. Todos os pacientes leram e aprovaram o material baseado em suas sessões.
Introdução.................................................................................................................. 13
PARTE UM
Penetrando na mística................................................................................. 27 1. Paz interior............................................................................................................ 29 2. O caminho da investigação........................................................................... 51
PARTE DOIS
Um ano de terapia........................................................................................... 65 3. Inverno.................................................................................................................... 67 Apego........................................................................................................................ 72 4. Primavera............................................................................................................ 115 Mindfulness........................................................................................................ 121 5. Verão..................................................................................................................... 159 Insight................................................................................................................... 164 6. Outono................................................................................................................ 211 Agressão................................................................................................................. 219
PARTE TRÊS
A passagem para a unicidade........................................................... 267 7. Benevolência...................................................................................................... 269 Agradecimentos..................................................................................................... 293 Notas.......................................................................................................................... 295
INTRODUÇÃO
A
ntes de sua iluminação, o Buda era protegido por seu pai para que jamais visse a velhice, a doença e a morte, após o inesperado falecimento de sua mãe, uma semana após seu nascimento. Décadas depois, ao se casar e ter seu próprio filho, ele enfim deparou-se com uma pessoa doente, com um velho e com um cadáver. Reagindo com horror, rapidamente replicou seu trauma de infância e abandonou a própria família amorosa, buscando a liberdade (ou fuga) através das atividades espirituais disponíveis em sua época. Após passar vários anos na floresta à procura de uma ajuda significativa, o Buda voltou-se à prática da mortificação como veículo para o despertar que ansiava havia tanto tempo. Na antiga Índia, já existia uma forte tradição ascética, e o aspirante a Buda, em sua busca incessante por paz interior, viu na austeridade o método mais seguro para se desprender de seu corpo e de sua alma, humanos demais. Tomado pelo desgosto e por uma aversão a si próprio, como acontece com muitas pessoas em nossa era, que se odeiam ou estão constrangidas pela vergonha, ele tentou durante um bom tempo desligar-se de si mesmo renunciando deliberadamente a todas as formas de prazer. Saiu-se melhor nisto do que qualquer um até que, à beira da autoextinção (muito como os que hoje sofrem de anorexia, passando fome trágica e heroicamente, até que os órgãos comecem a falhar), desconfiou de que algo estava errado com sua postura básica. Uma lembrança inesperada veio-lhe à mente: ele mesmo, enquanto menino, sentado com alegria debaixo de um jambeiro, enquanto seu pai arava o campo à distância. Ficou comovido com a lembrança, 13
mas surpreso com o desconforto que ela o fez sentir. Percebeu que tinha medo de algo trazido pela recordação, medo da alegria que sentira um dia. Por quê?, perguntou-se. Por que a lembrança viera naquele exato momento, e por que fez com que sentisse medo? Uma resposta veio-lhe à mente de modo espontâneo, um exemplo prematuro do poder da livre associação. Percebeu que andara buscando felicidade e liberdade fora de si mesmo, quando, talvez, apenas talvez, aquilo já estivesse dentro dele, da maneira como estava sob o jambeiro quando ele era menino. Essa possibilidade perturbou-o e ele começou a pensar nisso a sério. “Talvez esteja lidando com isso de um jeito totalmente errado”, pensou.1 “Talvez esteja tentando dizer algo a mim mesmo. Será que a iluminação que procuro está nessa direção, voltada para a lembrança da alegria da minha infância? Isto iria contra tudo que andei pensando, tudo que já pensei. É por isso que a alegria me assusta; ela me força a repensar toda a minha orientação.” Saboreando a lembrança e iluminado por esse novo entendimento, o Buda percebeu que com seu corpo tão enfraquecido não haveria como manter uma sensação tão prazerosa. Concluiu que, se fosse para levar a sério tal constatação, seria melhor achar algo para comer. Nesse momento, uma jovem chamada Sujata, de uma aldeia vizinha, aproximou-se dele trazendo uma vasilha dourada contendo mingau de arroz. Era um caso de confusão de identidade. Na verdade, ela estava levando sua oferenda para um espírito de uma árvore local, pois acreditava que a tinha ajudado a conceber um bebê. Sua criada estivera na floresta mais cedo e vira o enfraquecido Buda definhando sob a própria figueira cujo espírito sua patroa havia aplacado anteriormente. Correu de volta à aldeia para, com grande entusiasmo, contar a Sujata o que vira. Sujata partiu na mesma hora, empolgada por poder agradecer pessoalmente à divindade. Confundindo o debilitado Buda com seu venerado espírito, ela o alimentou, trouxe-o de volta à vida e, sem saber, deu-lhe a força para continuar sua missão. O arroz ao leite era tão nutritivo que dizem que o sustentou pelos 49 dias seguintes, intervalo crítico em que ele realizou o trabalho 14
interno necessário para sua iluminação. Penso nesses 49 dias como uma espécie de período limítrofe na vida do Buda, uma época de intensa terapia em que conseguiu dar um sentido ao seu passado e penetrar em seu futuro, tornando-se a pessoa que deveria ser. Claro, Sujata não fazia ideia de quem era de fato o Buda ou quem ele se tornaria, mas tomada de gratidão por ter dado à luz pouco tempo antes, alimentou a alma faminta que surgira em suas imediações. Não existe registro da conversa entre eles, mas ao que parece o Buda segurou a vasilha dourada por um tempo, usando-a, enfim, como uma espécie de talismã para verificar se agora ele estava no caminho certo. Algum tempo depois, jogando a vasilha em um rio próximo, ele declarou para si mesmo, segundo um relato antigo, que, se a vasilha flutuasse rio acima, contra a correnteza, seria um sinal de que a mudança do seu coração estava certa. Ela flutuou rio acima, antes de ir a fundo, pousando sobre as vasilhas de três Budas anteriores, tendo os três recebido um alimento crucial no mesmo lugar. O som do clangor das vasilhas acordou uma naga local, ou serpente-rei, que vivia no fundo do rio, inteirando-se de que estava surgindo um novo Buda. Essa cobra, a meu ver, representa o submundo, a energia inconsciente que o Buda agora potencializava para usar em seu despertar. Penso nesse encontro do acaso entre Sujata e o Buda como uma metáfora para a psicoterapia. O simbolismo é impressionante. O Buda, como a maioria das pessoas que busca a terapia, teve a sensação de que estava fazendo algo errado; que, de certo modo, estava se impedindo de prosseguir. A estratégia de enfrentamento que ele havia desenvolvido para lidar com o próprio trauma não estava, de fato, funcionando; em certo sentido, ela só perpetuava as próprias sensações de carência que ele lutava para eliminar. Tendo deixado a esposa e o filho, com a ideia equivocada de que a renúncia ao entrelaçamento mundano fosse fundamental para seu progresso espiritual, não conseguiu prosseguir sem restabelecer os vínculos dos quais havia se desligado. Esses vínculos eram tanto internos quanto externos. Precisou se lembrar da alegria da infância e precisou se alimentar, por assim dizer, no seio de Sujata, 15
dois acontecimentos críticos que, a meu ver, eram evocativos do trauma da morte de sua mãe, sete dias após seu nascimento. Sem a recuperação de sua natureza relacional, o Buda jamais poderia ter despertado; ele se extenuaria em uma busca heroica de autonegação. Sujata, como “amiga espiritual” do Buda, deu de si, como mãe recente que era, sem ao menos saber o quanto sua contribuição seria significativa. E o Buda, impelido pela recuperação de sua lembrança e alimentado pela oferenda agradecida de Sujata, por fim, colocou-se no caminho certo. Quando estou no meu melhor, vejo a psicoterapia sob a mesma luz. Muitas pessoas que vêm à terapia estão desgostosas consigo mesmas por um ou outro motivo. Esse desgosto pode assumir várias formas: vergonha, medo, ansiedade, ou sentimentos de desmerecimento, são expressões comuns, mas as possibilidades são infinitas. Algumas pessoas chegam a desenvolver o que é chamado de “disposição reativa”, e parecem o oposto de desgostosas. Surgem como se fossem orgulhosas ou prepotentes, avessas a admitir erros ou inseguranças, mas com frequência estão apenas se escorando, criando uma falsa aparência para mascarar suas vulnerabilidades e lá no fundo estão incomodadas por saber que não estão sendo verdadeiras. Em comum com todas essas variantes está uma dificuldade com a vida emocional. As emoções são ameaçadoras. Elas se movem por vias nervosas que são mais rápidas do que o pensamento; podem nos pegar de surpresa e oprimir as defesas mentais que construímos com tanto cuidado. Por sua própria natureza, as emoções estão fora do nosso controle. Em nossos esforços por nos adequar e corresponder a todas as exigências que nos são colocadas conforme amadurecemos, a vida emocional, com frequência, recebe pouca atenção. Aprendemos a sufocar sentimentos que se interpõem a uma adequação “saudável” e negamos aqueles que desafiam as identidades que construímos para conviver bem no mundo. Superficialmente, as coisas podem parecer bem, mas no íntimo o resultado é confusão e conflito. O indivíduo que apresentamos ao mundo e o que reside dentro de nós nem sempre estão alinhados. 16
Na história do Buda, seu esforço para se isolar de sua experiência interior manifestou-se em uma adesão ao ascetismo. Mas não temos que ser ascéticos para estar em desacordo conosco. A tendência a negar nossa verdadeira experiência interior, ou a estar na defensiva em relação a ela, é generalizada. Ao percebê-la em seus pacientes, Freud deu a isso o nome de “resistência”, entendendo que uma maneira de superá-la era torná-la o objeto principal do escrutínio terapêutico. Expor a própria resistência a um terapeuta é o que permite que ela seja removida aos poucos. De maneira semelhante, o Buda, em seguida a seu despertar, ensinou seus seguidores a apaziguar a própria mente. Para seguir nessa direção, o Buda precisou de Sujata. Muitos de nós precisam da terapia. O cerne deste livro é um ano de sessões selecionadas de psicoterapia. No início da minha vida, tive um encontro ao acaso com o budismo, que me fisgou, me nutriu e moldou a maneira como passei a praticar a psiquiatria. Esse encontro prematuro ajudou-me da maneira que Sujata ajudou o Buda, colocou-me no caminho que tem me guiado desde então. Foi a influência mais importante no meu trabalho, mas nunca algo que pudesse descrever com facilidade. Como exatamente o budismo se mostra nas minhas sessões diárias? O que, das minhas experiências de meditação, se infiltra nas conversas com os pacientes? Neste livro, tentei analisar, nos detalhes incidentais de uma determinada hora, de que forma minha formação budista influencia a maneira como pratico terapia. O resultado é um corte transversal da vida no meu consultório, uma visão pontilhista que, quando bem-sucedida, expressa a imagem de como as preocupações e os conflitos da vida comum podem ser vistos à luz espiritual. Uma conversa telefônica com minha mãe, que tem 95 anos, me ofereceu outra forma de enxergar tudo isso. De certa maneira, foi uma reminiscência de muitas das sessões de terapia em torno das quais estruturei este livro, mas não foi uma sessão de terapia, e sim uma conversa com minha mãe e, sendo assim, apresentou um conjunto de desafios diferentes, embora relacionados. Ligo para minha mãe todos os domingos, e na maior parte do tempo falamos sobre as novidades da família, o que ela leu ultimamente na New 17
Yorker, ou o que há de interessante no New York Times daquele dia. Raramente sirvo de ajuda com as palavras cruzadas de domingo, mas conseguimos arrumar outros assuntos sobre os quais conversar. Desde o falecimento do meu pai, há mais de uma década, ela mora sozinha, próximo a Boston, em um condomínio de apartamentos com serviço de apoio, habitado por um grupo de aposentados idosos que, antes da pandemia, jantavam juntos e compartilhavam atividades. Embora esteja lúcida, com o passar dos anos minha mãe foi se tornando fisicamente mais frágil, e tem que passar períodos de tempo cada vez maiores nos ambientes mais restritos e confinados da comunidade. Com frequência, ela se irrita com as restrições, mas para nós, seus quatro filhos, o lugar tem sido uma bênção. – Tenho uma pergunta para te fazer – minha mãe interpôs após quinze minutos de meu telefonema mais recente. – Tenho uma nova amiga aqui, de quem gosto muito. Temos muita coisa em comum, menos o fato de que dois dos três filhos dela morreram. Não consigo nem imaginar. Ela diz que é espiritualizada, mas não religiosa. Meus ouvidos se aguçam. Uma nova amiga. Não ouço falar em uma nova amiga há muito tempo! E “espiritualizada, mas não religiosa”. – Como eu! – exclamo, interrompendo-a. – É, “como o seu filho”, foi o que ela disse. Ela leu os seus livros. – Houve uma pausa muito breve. – O que significa isto, “ser espiritualizada, mas não religiosa”? Por um momento, fiquei atônito. Como assim, o que aquilo quer dizer? Após todos esses anos do meu envolvimento com meditação concentrada e budismo, estaria ela tão alheia a isso quanto parecia? É verdade que nunca tinha tido curiosidade sobre as minhas buscas, mas é uma mulher inteligente, e lhe dei exemplares de todos os meus livros. Mas, por dentro, eu sabia que, como a nova amiga estava interessada, agora minha mãe podia abrir espaço para algo que até então lhe era de pouca importância. Ela sempre tivera boas amigas, e a esta altura a maioria delas deve ter morrido, e sempre fora uma boa amiga. Decidi me dar menos importância e tentar responder à pergunta. 18
De início, fiquei dando voltas. Pensei na amiga dela que havia perdido os filhos – não sei ao certo se morreram adultos ou quando crianças – e imaginei que ela tivesse algum pressentimento de que a vida continuasse de algum jeito após a morte física. Seria uma maneira de torná-la espiritualizada; uma aceitação da vida da alma como distinta da vida do corpo. Tentei verbalizar isto para a minha mãe e enviei-lhe um link para um livro sobre reencarnação de que achei que ela pudesse gostar.2 – Se fosse esse o caso, após milhares de anos, era de se pensar que haveria alguma prova – minha mãe respondeu, dispensando minhas primeiras tentativas de explicação. Tentei outro caminho. – Sabe os retiros de meditação que frequento há quarenta anos? É disso que eles tratam. No começo, você fica sozinho com seus pensamentos e preocupações diários, mas depois de um tempo, começa a perceber coisas em relação a si mesmo que não sabia que estavam ali. – Eu estava pisando num chão ligeiramente mais firme, e continuei. – Você pensa que sabe quem é, mas podem começar a surgir outras coisas misteriosas. – Que outras coisas?, pensei. Como fazer isso ter sentido para a minha mãe? Silêncio, quietude, amplitude, amor? Ela levaria alguma dessas coisas a sério? Queria falar sobre a alma, em contradição com o ego, mas fiquei sem palavras e recuei para uma posição mais defensável. – Acontece alguma coisa ali – eu disse, tornando a me referir aos retiros de meditação. – Você vai além de si mesmo, vê todas as suas preocupações e pensamentos costumeiros, mas eles vêm e vão, algumas vezes você toca em pontos que não sabia que estavam ali, e isso lhe dá uma sensação de fazer parte de algo maior, de algo que não morre quando o corpo morre, de algo mais significativo, que te ajuda a entender seu verdadeiro propósito. – Juntei tudo em uma frase, e enquanto falava sabia que não estava me fazendo entender. – Bom, continuo não entendendo – ela suspirou. Mais tarde, naquela noite, mandei para minha mãe um artigo do New York Times daquela semana intitulado “Tomando ayahuasca quando você é uma pessoa idosa”.3 Esperava que o Times se saísse 19
melhor do que eu para explicar “espiritualizada, mas não religiosa”, ao descrever como essa substância vegetal para expansão da mente estava sendo usada com propósitos terapêuticos. A história começa com um investidor de risco, que tinha 4 anos quando seu pai sumiu de casa, sem se despedir. O garoto se culpou, atribuindo o desaparecimento do pai ao fato de ser um “mau menino”, e nunca mais o viu. Era 1942, em Budapeste, e o mais provável é que o pai tenha sido morto pelos nazistas. A jornada com a ayahuasca colocou-o em contato com o pai falecido, que lhe garantiu que andara zelando por ele, do lado de lá, durante toda a vida. Contou ao filho que tivera certeza de que escaparia das autoridades alemãs, e, portanto, não quisera acordá-lo para se despedir. Essa conversa, na imaginação psicodélica do homem, aliviou-o de um fardo que carregara a vida toda. O artigo citava o autor Michael Pollan da seguinte maneira: “Os psicodélicos parecem ser especialmente bons em nos arrancar do que temos entranhado como força do hábito e permitir que tenhamos uma nova perspectiva sobre coisas familiares. Conforme a pessoa envelhece, fica atolada em hábitos”. O artigo fechava com outro exemplo. Um homem de 70 anos viajou ao Peru para múltiplas cerimônias com ayahuasca. “Sabia que minha infância, embora não tivesse sido abusiva, tinha sido muito, muito fria”, ele disse. “Havia pouca aprovação e pouco afeto. O que vi naquela noite foi como uma pirâmide de cabeça para baixo. A ponta dela foi o primeiro pensamento, de solidão e necessidade de afeto e aprovação. E a pirâmide que subia de lá era toda a minha vida. Portanto, toda a minha vida baseava-se naquele determinado momento, na busca por afeto e aprovação.” Como no primeiro caso, essa visão libertou o homem de sua identificação exclusiva com um único aspecto da sua personalidade. Ele viu sua solidão não como um aspecto intrínseco da sua natureza, mas como uma consequência contingente e relacional de um conjunto específico de circunstâncias, não a definição de quem ele era. Mais tarde naquela noite, li o artigo em voz alta para a minha mulher, depois de contar a ela a conversa que tive com a minha mãe. Ela se lembrou de uma experiência sua do mesmo teor, só que sem 20
drogas. Durante a palestra de um mestre espiritual a que eu a levara, minha mulher percebeu que as preocupações constantes da mãe dela – chegar aos lugares pontualmente, limpar coisas, comprar os sapatos certos, ser saudável – não tinham, necessariamente, um valor intrínseco. Fazia muito tempo que ela rejeitava as maneiras notórias da mãe se agitar, e para todos os efeitos ela não se parece em nada com a mãe, mas no estado mental flutuante, incentivado pela palestra, descobriu um fio, ou uma semente, de convicção ainda ativo em seu subconsciente que sugeria que a preocupação fosse um pré-requisito para uma atuação perfeita. Em algum lugar bem no íntimo, minha mulher ainda acreditava que, sem isso, as coisas desmoronariam. Ela entendeu que essa suposição se baseava no modo de ser da mãe e que era uma maneira de estar próxima dela, mas, depois que percebeu isso claramente, deixou de ter poder sobre ela. A preocupação não era intrínseca à maneira de ser da minha mulher, nem era necessária. Poderia viver sem ela. Havia outras maneiras de prestigiar a mãe! Reconheceu isso como uma percepção “espiritual”, embora, com certeza, não houvesse nada declaradamente religioso. Naquela noite, li um artigo do poeta Gary Snyder, que uma amiga havia me enviado mais cedo, sobre a relação entre poesia e zen.4 Escrito em 1991, de alguma maneira havia ressurgido na internet. Minha amiga achou que eu gostaria dele tanto quanto ela. Logo no começo, o artigo parecia expressar o que tentava dizer à minha mãe: Embora, para muitas pessoas, o termo meditação tenha conotações místicas e religiosas, trata-se de uma atividade simples e natural. Atenção: quietude e silêncio deliberados. Como qualquer pessoa que tenha praticado meditação sabe, a mente relaxada tem muitos caminhos, a maioria deles tediosa e comum. Depois, às vezes, bem no meio do processo, podem afluir imagens ou sentimentos totalmente inesperados, e há um caminho para uma transparência vívida... Ninguém – guru, roshi ou padre – pode programar por muito tempo o que uma pessoa pensa ou sente quando em reflexão individual. Aprendemos que não podemos controlar nossa 21
mente em nenhum sentido literal. A meditação não pode servir a uma ideologia. Um professor de meditação só pode ajudar um aluno a entender o fenômeno que surge de seu próprio mundo interior – depois do fato – e dar sugestões sobre caminhos a seguir... Dentro de uma estrutura budista tradicional de valores éticos e insight psicológico, a mente fundamentalmente se revela.
Na semana seguinte, minha mãe contou-me o quanto sua amiga havia apreciado o livro cujo link eu lhe enviara. “Ele deve realmente me entender!”, a amiga exclamou, mas minha mãe não disse nada sobre o artigo a respeito da ayahuasca. No entanto, a conversa calou em mim. “Espiritualizada, mas não religiosa” era algo em que eu acreditava; era outra maneira de falar sobre a “transparência vívida” descrita por Snyder. A mente revelando-se substancialmente é algo que faz sentido para mim, algo em que acredito que a terapia possa ajudar a fazer acontecer. Embora não tenha certeza de que a ligação telefônica com minha mãe tenha revelado algo de novo para ela, a conversa me pôs em contato com algo relevante para este livro. Lembrei-me de visitar Ram Dass, um psicólogo de Harvard que se tornou pioneiro em psicodélicos, de quem tive a sorte de me tornar amigo aos 20 e poucos anos, e que não via por muitos anos. Ele sofrera um acidente um acidente vascular cerebral em 1997, e isso aconteceu um ou dois anos depois. Àquela altura, eu já publicara alguns livros e trabalhava como psiquiatra clínico havia mais de uma década. – Então – ele me provocou – agora você é um psiquiatra budista? – Acho que sim – respondi com timidez. Conheci Ram Dass na época da faculdade e sabia que, para ele, eu continuava com cerca de 21 anos, ainda que, então, já estivesse na metade dos 40. Houve uma longa pausa em que ele não disse mais nada. Seu problema de saúde dificultava-lhe encontrar palavras. – Você os vê como já sendo livres? – O tom estranhamente sério e penetrante, as palavras prolongando-se com o passar do tempo. Levei um minuto para entender o que ele estava perguntando. 22
– Já sendo livres? Se vejo meus pacientes como já sendo livres? Mas então entendi. Ele falava sobre a revelação da mente, sobre a coisa vívida e transparente escondida nos fragmentos retorcidos de nossa personalidade individual. Eu via aquela liberdade em meus pacientes? Foi preciso que Ram Dass explicasse isso para mim, e reconheci a verdade no que ele dizia. Realmente vejo meus pacientes como já sendo livres. A semente já está neles, assim como a alegria do Buda debaixo do jambeiro estava ali dentro ele. Meu desafio como terapeuta tem sido ser fiel a essa visão, mesmo quando meus pacientes, como a minha mãe, se opõem. A terapia pode ajudar as pessoas a abrir espaço a essa possibilidade ou, mais precisamente, a conseguir sua própria percepção para isto. Como Ram Dass gostava de dizer em seus últimos anos5: “Estamos todos acompanhando uns aos outros até em casa”. *** Dividi este livro em três partes. A parte 1, “Penetrando na mística”, dá um contexto para os meus esforços em conciliar o pensamento budista com minha formação ocidental em psiquiatria e psicoterapia. Começa com a descrição do meu primeiro encontro, em uma excursão de pesquisa na Índia, quando aluno da Faculdade de Medicina de Harvard, com uma forma de ioga budista esotérica tibetana e depois explica a ideia que respaldava os meus esforços para integrar a meditação com a terapia. Embora tenha mergulhado no budismo antes de aprender a ser psiquiatra, por muitos anos tomei cuidado para não deixar minhas inclinações espirituais interferirem abertamente em meu trabalho como terapeuta. Ficava satisfeito em usar meu treinamento em mindfulness (atenção plena) como um recurso particular, deixando que me orientasse na maneira como escutava meus pacientes, mas esperando que a influência budista fosse invisível para eles. Mas à medida que fui me tornando mais aberto quanto aos aspectos espirituais do meu pensamento, descobri que muitos dos meus pacientes queriam que isso fosse incluído em 23
nosso trabalho. Acabei vendo que as divisões entre o psicológico, o emocional e o espiritual não eram tão distintas como se poderia pensar, e que era possível olhar para a terapia como uma meditação interpessoal de duas pessoas, em que o que quer que surja merece investigação. Pensar na terapia dessa maneira resultou na escrita deste livro. A parte 2, “Um ano de terapia”, é um registro de minha tentativa, em mais de um ano de sessões selecionadas, de examinar como isso, de fato, parece na prática. Em essência, trata-se do registro de uma investigação pessoal, em que voltei um espelho a meus processos internos para tentar focar nas maneiras como um relacionamento terapêutico também pode ser uma amizade espiritual. As sessões de terapia estão agrupadas segundo as quatro estações do ano em que elas aconteceram e são descritas com a maior fidelidade possível – mantendo em mente restrições de privacidade – a como as coisas se desenvolveram no consultório, em tempo real. Em seguida ao relato de cada sessão, expus meus pensamentos a respeito, às vezes explicando mais a fundo os problemas de determinado paciente, mas com mais frequência explorando a ideia por trás de minhas palavras e comportamentos. Certos temas emergem em cada uma das estações: apego como a maneira fundamental com que perpetuamos nosso sofrimento no inverno; mindfulness como o antídoto na primavera; insight na natureza imaterial do indivíduo no verão; e agressão tanto para o obstáculo quanto para o acesso à compaixão no outono. A parte 3, “A passagem para a unicidade”, contém minhas conclusões finais. Aprendi neste ano de auto-observação e, com gratidão a todos os meus pacientes por lerem suas sessões e meus comentários, saí com uma compreensão mais firme de como o zen da terapia se manifesta. Não tentarei fazer um resumo aqui, mas permitirei que ele surja em seu próprio tempo. Minha intenção no que se segue é dupla: mostrar que a meditação não precisa ser um esforço solitário intrapsíquico, mas pode funcionar interpessoalmente; e demonstrar que a vida emocional, antes de ser uma distração, serve como passagem crítica para o 24
conhecimento espiritual. Aqui existe uma contracorrente de diálogos: um entre mim e meus pacientes, outro entre o pensamento budista e a ação psicoterapêutica. Dessas conversas, espero que surja algo importante. A vida espiritual, se for para entrar no território da liberdade pessoal, deve ser configurada individualmente. De uma maneira ou de outra, os problemas da vida real de uma pessoa devem ser conscientizados para servir de grão para o moinho espiritual, e um terapeuta, como amigo espiritual, pode ajudar que isso aconteça. Esta é a essência da minha própria tentativa de juntar os mundos do budismo e da psicoterapia. Decidi ser prático nas minhas descrições. Embora o material do paciente seja interessante (a maioria dos terapeutas é, por natureza, em parte bisbilhoteiro, em parte voyeur),6 tentei levar os leitores ao meu pensamento para mostrar como a compreensão budista pode ampliar um relacionamento terapêutico. Assim, cheguei à poesia da tradição zen-budista do leste da Ásia. Acho que isso acontece por causa da maneira com que os artistas e artesãos da China e do Japão integraram harmoniosamente o pensamento budista em suas buscas criativas já estabelecidas. Embora meu estudo do budismo tenha, em grande parte, se baseado na prática da meditação de insight, descobri que o lirismo dos poetas zen está muito alinhado com a sensibilidade que descrevo neste livro. Pelo meu modo de pensar, a terapia, assim como a poesia do Japão medieval, é uma forma de arte do nosso tempo e lugar, que pode atingir novas profundidades através de uma síntese criativa com o pensamento e a prática budistas. Anos depois de seu encontro com Sujata, o Buda teve uma conversa com Ananda, seu amigo íntimo e assistente pessoal, que refletia o quanto ele dava importância à amizade. É óbvio que não havia algo como psicoterapia na época do Buda, mas considero essa conversa como outra indicação do potencial terapêutico de canalizar a sabedoria dele. Ananda declarou ao Buda, com muita exuberância, como se tivesse acabado de fazer uma constatação importante: “Isto é metade da vida sagrada, senhor: uma amizade admirável, um companheirismo admirável, uma camaradagem admirável”7. Como 25
sempre fazia em suas conversas com Ananda, o Buda admoestou-o de volta: “Não diga isto, Ananda. Não diga isto!”, exclamou. “Amizade admirável, companheirismo admirável, camaradagem admirável são, na verdade, a totalidade da vida sagrada.” É deste território que parti para minhas explorações neste livro: a totalidade da vida sagrada. No contexto da psicoterapia, como podem efetivamente emergir a amizade, o companheirismo e a camaradagem?
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