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Tempo

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Coleção Parentalidade & Psicanálise

Tempo

(ORGANIZADORAS)

Daniela Teperman Thais Garrafa Vera Iaconelli


Copyright © 2021 As organizadoras Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora Ltda. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

editoras responsáveis

Cecília Martins Rejane Dias revisão

Aline Sobreira projeto gráfico

Diogo Droschi diagramação

Waldênia Alvarenga

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Tempo / (organizadoras) Daniela Teperman, Thais Garrafa, Vera Iaconelli. -- Belo Horizonte : Autêntica, 2021. -- (Coleção Parentalidade & Psicanálise). Vários autores. ISBN 978-65-5928-018-6 1. Fertilidade humana 2. Infância 3. Parentalidade 4. Psicanálise 5. Tempo 6. Tempo - Aspectos psicológicos I. Teperman, Daniela. II. Garrafa, Thais. III. Iaconelli, Vera. IV. Série. 21-58551

CDD-150.195

Índices para catálogo sistemático: 1. Tempo e psicanálise : Psicologia 150.195 Cibele Maria Dias - Bibliotecária - CRB-8/9427

Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500

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Sumário 7 Coleção Parentalidade & Psicanálise Daniela Teperman, Thais Garrafa e Vera Iaconelli APRESENTAÇÃO

13 Tempos e temporais da parentalidade Thais Garrafa FUNDAMENTOS

29 Tempos da fertilidade Rubens M. Volich 57 O bebê e o tempo primordial Julieta Jerusalinsky 69 Prematuridade Ethel Cukierkorn Battikha 83 Desejo, amor e sexo na adolescência Renata Petri 97 Finitude e parentalidade Mario Eduardo Costa Pereira PARENTALIDADE E MAL-ESTAR CONTEMPORÂNEO

117 Infâncias e parentalidade: nomeações, funções e funcionamentos Ilana Katz INTERLOCUÇÕES

137 Estado suicidário, fascismo e problemas no uso político do conceito de pulsão de morte Vladimir Safatle 155 Sobre as autoras e os autores


Coleção Parentalidade & Psicanálise Daniela Teperman, Thais Garrafa e Vera Iaconelli

A Coleção Parentalidade & Psicanálise surge com o objetivo de delimitar um campo de estudos sustentado em parâmetros éticos de escuta e respeito à subjetividade, condizente com os desafios impostos pelos atravessamentos históricos, culturais e sociais. Para tal, circunscrevemos parentalidade como tema que abrange a produção de discursos e as condições oferecidas pela geração anterior para que uma nova geração se constitua subjetivamente em uma determinada época. Isso implica considerar os sujeitos que se incumbem dessa tarefa no plano singular e o campo social que os enlaça. A articulação entre parentalidade e psicanálise justifica-se pela necessidade de separar a temática da parentalidade do universo normativo que marcou sua gênese e que, nos tempos atuais, contribui para a ascensão de práticas dogmáticas, mercantis e obscuras. Sem a pretensão de que haveria uma época livre da busca por garantias e predições diante dos aspectos intangíveis e imponderáveis da criação de crianças, nos cabe mapear a nossa e fazer frente aos discursos universalizantes. A psicanálise trata das questões da parentalidade a partir de seus elementos estruturais, isto é, para além dos efeitos imaginários de cada época, e, nesse contexto, situa também o mal-estar inerente às relações humanas e à nossa entrada na cultura. Com essas ferramentas, a psicanálise integra um campo de estudos multidisciplinares sobre o universo parental, ao mesmo tempo que aporta, a esse campo, inquietações que

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convidam seus integrantes a um constante reposicionamento diante da singularidade de cada caso. Desde Freud, a psicanálise tanto elucida – “Freud explica!” – quanto inquieta, desconcerta e nos movimenta em torno dos mistérios do inconsciente e do mal-estar na civilização. A psicanálise marca, portanto, sua peculiar posição no campo de estudos da parentalidade: ocupa um lugar de composição e de exterioridade. Como integrante do conjunto, oferece seu dizer e seu saber sobre o exercício das funções parentais, de caráter estrutural, para entender a constituição do sujeito na família e para além do universo pai-mãe-bebê. Em sua posição de exterioridade, presta-se a produzir aberturas onde o conhecimento instrumentalizante tende ao fechamento e à produção de ingerências sobre a criação de crianças. Para fazer frente ao imperativo contemporâneo de oferecer a última palavra, propomos sustentar inquietações e os possíveis saberes que delas possamos extrair. A Coleção Parentalidade & Psicanálise é composta por cinco volumes. No primeiro deles, Parentalidade, encontram-se as principais inquietações que norteiam os estudos sobre o tema a partir da psicanálise. Laço articula-se a esse campo com ênfase nas relações que participam da estruturação do sujeito. Em Gênero, são discutidas as relações entre funções parentais, gênero e sexo, em um diálogo entre a psicanálise e diversas áreas do saber. Corpo aborda os entrelaçamentos entre pulsão e linguagem, os modos como os sujeitos habitam seus corpos e as incidências do discurso social, particularmente sobre a mulher e a mãe. Tempo, o volume final, reúne textos produzidos em torno de diferentes atravessamentos temporais que incidem na experiência da parentalidade. Cada um dos cinco volumes está organizado em quatro seções: 1 Na “Apresentação”, delimitamos cada um dos temas escolhidos em

sua relação com a parentalidade, situando questões que se abrem à reflexão. 2 A segunda e maior seção, “Fundamentos”, é formada por textos de diferentes autores que trazem conceitos centrais da psicanálise, articulando-os à temática da parentalidade. 3 Na terceira seção, “Parentalidade e mal-estar contemporâneo”, um psicanalista é chamado a refletir sobre aspectos da contemporaneidade 8


nos quais se apresentam questões cruciais para o estudo da parentalidade na época atual. 4 Na seção “Interlocuções”, autores de outras áreas do conhecimento trazem sua contribuição para o tema, de modo a abrir portas, no fim, para outros começos, e a marcar que a psicanálise não pode tudo dizer. Propusemos a psicanalistas e teóricos de instituições diversas o desafio de realizar essa transmissão por meio de textos rigorosos e, ao mesmo tempo, acessíveis a leitores e leitoras de diversas áreas. Agradecemos a todos os autores que aportaram ao campo de estudos da parentalidade sua preciosa contribuição. Boa leitura!

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APRESENTAÇÃO


Tempos e temporais da parentalidade Thais Garrafa

Eu vi um menino correndo Eu vi o tempo brincando ao redor Do caminho daquele menino […] Eu vi a mulher preparando outra pessoa O tempo parou pra eu olhar para aquela barriga Caetano Veloso

Uma gestação dura oito meses e uma eternidade? Ter um filho é receber uma passagem de volta à infância? As crianças crescem rápido? O que importa é o “tempo de qualidade” com os filhos? A criação de crianças hoje é mais difícil do que antigamente? A adolescência começa cada vez mais cedo? Ainda que remetam a generalizações questionáveis, não faltam exemplos para circunscrever a instigante relação entre parentalidade e tempo. Caetano Veloso tocou a pluralidade dessa articulação ao falar de um tempo que emerge quando olhamos para a criança ou assistimos à espera de uma nova vida. As exigências de trabalho psíquico colocadas àqueles que exercem as funções parentais tomam formas diversas. Abordá-las por meio das variantes do tempo que emergem nesse contexto permite o traçado de um fio articulador de seus principais desafios, sobretudo em seus 13


primeiros momentos. Este livro, quinto volume da coleção, aborda os atravessamentos temporais que incidem na experiência da parentalidade e convida à reflexão sobre o tema a partir do olhar psicanalítico. Motor de profundas inquietações na mitologia, na literatura, na filosofia e nas artes, o tempo tem lugar proeminente entre os desassossegos do homem. A psicanálise o tomou como ponto central: sua teoria e seu método desenrolam-se sobre a plasticidade da memória, a persistência do infantil na vida adulta, a luta contra a repetição assombrosa do passado, a lógica do ato que demarca um “antes” e um “depois”, a angústia diante da finitude. Veremos que a entrada na parentalidade implica essas diferentes temporalidades, de modo a desvelar o caráter ilusório da unidade do tempo. Psicanálise e o tempo em Freud

A psicanálise ficou conhecida no discurso social por seu interesse pelas memórias de infância, o que, apesar da caricatural generalização – “passar anos falando do passado!” –, aponta para elementos fundamentais de sua práxis: a condição infantil do psiquismo e a atemporalidade do inconsciente. “Infância” e “infantil”, nesse contexto, referem-se a noções distintas: enquanto infância aponta para um período cronológico, circunscrito historicamente desde o século XVIII, o infantil, no campo psicanalítico, é atemporal e remete às condições de constituição do sujeito, em sua íntima e fundamental relação com aqueles que o embalam nos primeiros tempos de sua entrada no mundo. Freud ([1900] 1986) mostrou como as experiências primitivas de prazer junto ao cuidador estruturam o aparelho psíquico ao inscreverem traços indeléveis que instauram o movimento de busca por sua repetição. As marcas mnêmicas constituem-se, portanto, nos embalos da pulsão, signo daquilo que nos distancia dos instintos e seus objetos pré-fixados na história da espécie para nos lançar ao universo plural de satisfações possíveis no campo do humano (Freud, [1905] 1986). Nesse sentido, a memória, em sua articulação com a sexualidade, é o fundamento primeiro do aparelho psíquico, sua incipiente temporalidade. 14

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Nesse circuito de trocas prazerosas, o sujeito é fisgado pelo universo desejante daquele que o envolve em seus sonhos. No entanto, a eclosão da sexualidade que transborda desse laço porta também uma face excessiva para os recursos representacionais de uma criança. Freud ([1926] 1986) apresenta sua noção de desamparo – Hilflosigkeit – para designar a experiência subjetiva de se sentir ameaçado por um excesso pulsional ao qual não se pode dar um destino. Esse efeito de desmesura, inevitavelmente traumático, persiste, como repetição do infantil, para além dos anos da infância. O trauma e seus efeitos na produção de sintomas estiveram na origem da psicanálise. Percorrendo as associações de suas pacientes, Freud era conduzido a tempos cada vez mais antigos, que invariavelmente o levavam a encontrar a sexualidade infantil e os enlaçamentos edípicos na base da estrutura sintomática. O método psicanalítico adveio da constatação de que a escuta a essas associações possibilita a cada analisante a construção de uma narrativa sobre a própria infância e, dessa forma, o traçado de contornos para o infantil. O caminho que enoda, embaralha e distribui as inscrições implicadas em nossa apreensão do passado é constituído por uma rede de representações que se associam em múltiplas vias; cada novo elemento incide sobre os anteriores, de modo que a produção de sentido acontece “só depois” – a chamada Nachträglichkeit. Por isso, a experiência analítica se estabeleceu como uma talking cure, na medida em que a fala permite trazer à tona diferentes temporalidades, de modo a ressignificar o vivido, a construir e esvaziar sentidos. A psicanálise traz, portanto, uma ideia complexa de memória, estabelecida de forma plástica e dinâmica; distante de um registro pretensamente estável e fiel dos acontecimentos. O que veio antes incide naquilo que se repete adiante, mas cada novo termo incorporado à narrativa transmuta a escritura do que se passou. A plasticidade da memória, no pensamento freudiano, advém de sua relação com o recalque, mecanismo responsável por filtrar o acesso à consciência e, portanto, influenciar aquilo que pode ou não ser lembrado. Freud demonstrou que essa filtragem se arma de forma incompleta, simultaneamente falha e bem-sucedida, pois as intensidades afetivas, movidas pela persistência T e m p o s e t e m p o r ai s da pa r e n ta l idad e

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do infantil, pressionam por descarga, impelem à repetição, mas alcançam sua finalidade apenas sob poderosos disfarces. É assim que o neurótico acredita que suas dores e seus conflitos originam-se no presente, e não em outros carnavais… Temporais da parentalidade

Na relação com filhos, os carnavais são muitos. Ocupar o lugar parental toca sensivelmente a história familiar e a trama do passado que dá lugar ao infantil. Diferentes destinos são dados a esse afeto na particularidade de cada caso, o que varia da repetição assombrosa e irrefletida do passado à elaboração da conflitiva com os próprios pais trazida à tona pela emergência involuntária de lembranças. Por diferentes vias, conscientes ou não, o diálogo entre continuidade e ruptura é forçosamente trazido à tona para quem então ocupa o lugar de “dobradiça” entre gerações. A transmissão geracional implica olhar para o que existiu antes de nós em busca do que, dessa história, passará adiante após nossa existência. Essa visada implica o encontro com a cronologia e sua relação com a finitude da vida. Tal dimensão temporal comparece de inúmeras maneiras: no intervalo que abrange a fertilidade das mulheres; na contagem dos dias, semanas e meses que delimitam uma gravidez; em cada aquisição motora e expressiva do bebê… Explicita-se um tempo que passa! Mas, apesar de ter se tornado uma frase banal do cotidiano, sabemos que, do ponto de vista do tempo como categoria ordenadora da nossa passagem pela vida, as crianças não crescem rápido; seu corpo é que nos dá testemunho inequívoco de nossa transitoriedade. Ainda que possamos “perder a conta” dos dias e dos anos, para falar de modo simples sobre a forma peculiar como o neurótico procura negar a efemeridade da vida e dos objetos, o tempo como entidade abstrata encontra ancoragem no corpo. Crescer é análogo a envelhecer, e ambos apontam para a morte. Freud dedicou um belíssimo ensaio ao tema da transitoriedade em 1915, quando a Europa se via às voltas com aquilo que vinha sendo destruído pela guerra. O texto conduz o leitor a perceber que, 16

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se a finitude das coisas se impõe como obstáculo às nossas inclinações para a eternidade, a única saída para o homem é o trabalho de luto, um processo psíquico árduo e doloroso, mas necessário para retirar nossos investimentos libidinais dos objetos perdidos e destiná-los a novas construções. A problemática do luto e suas incidências sobre a experiência do tempo articulam-se intimamente ao estudo dos primeiros tempos da parentalidade, tanto pela porta que se entreabre para o fim que avistamos à frente, destino da existência, quanto porque ocupar o lugar parental delimita, de antemão, um término, ao passo que a chegada de uma criança convida a um investimento desmedido sobre ela e exige, portanto, a reordenação da libido que se espalhava em outras formas de satisfação. A fina sintonia que se estabelece entre o bebê e aqueles que dele se ocupam é exigente do ponto de vista psíquico, pois implica incluir o pequeno ser em um lugar nos sonhos dos adultos que o embalam. Lacan ([1969] 2003) mostrou como a constituição subjetiva depende desse laço, estabelecido sobre “um desejo não anônimo” (p. 369), isto é, por uma criança em especial, da qual muito se fala antes de que possa vir a tomar a palavra. Sob a atmosfera desse desejo particular, o adulto que se encarrega do bebê supõe nele um sujeito pleno de saberes e intenções, ao qual oferece sua corporeidade como espaço de afetação e seu aparato simbólico para traduzir e interpretar esses afetos. Esse processo envolve, portanto, antecipar ao bebê um lugar na linguagem, por meio de um intenso trabalho de produção de sentidos para suas experiências. Lacan ([1964] 2008) usou o termo “Outro”, grafado com letra inicial maiúscula, para designar o lugar que esse adulto encarna para uma criança no início de sua constituição. O Outro é o lugar da linguagem e da alteridade que há de ser incorporado no tempo da primeira operação de estruturação do sujeito: a alienação (p. 205). Tal construção teórica implica conceber que o sujeito não se constitui sem o campo do sentido, ainda que esse campo jamais possa recobrir toda a dimensão subjetiva. Uma segunda operação, ainda de acordo com o ensino lacaniano, conclui a causação do sujeito: a separação. Trata-se do encontro com a T e m p o s e t e m p o r ai s da pa r e n ta l idad e

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falta no campo do Outro, o enigma do desejo sobre o qual se origina todo discurso – o que, nas palavras de Lacan, pode ser apreendido na experiência da criança sob a forma: “ele me diz isso, mas o que que ele quer?” (p. 209). Esse segundo tempo envolve, portanto, incluir na estrutura o que escapa ao simbólico, o ponto de falta que dá origem ao desejo e situa o sujeito como não todo determinado pelo Outro. Entender a constituição do sujeito a partir das operações por meio das quais o bebê se apropria dos elementos da estrutura do Outro e dele se separa para se singularizar difere da perspectiva de desenvolvimento assumida pelas teorias que valorizam uma cronologia evolutiva. A clínica com bebês e crianças envolve a possibilidade de ler o tempo em que cada um se encontra nessa estruturação e intervir a partir dessa leitura, considerando que as estruturas psíquicas não são decididas na infância. Isso significa que a psicanálise não recua frente aos chamados “atrasos de desenvolvimento” de uma criança, ao passo que reconhece a possibilidade de que, mesmo fora de um “prazo esperado”, sejam incorporados elementos do campo do Outro. Em contrapartida, apesar de o tempo da estruturação subjetiva não obedecer à cronologia, as operações psíquicas que nele acontecem são fundamentais para colocar em funcionamento o crescimento corporal e a maturação neurológica. Por isso, o laço primordial entre o bebê e o Outro têm sido tema de pesquisas na psicanálise, especialmente impulsionado pela importância de intervir cedo nos casos em que se identificam possíveis ameaças à constituição. A psicanálise conta com forte arcabouço teórico e metodológico, além de décadas de experiência, para minimizar o sofrimento implicado em alguns quadros. A valorização das experiências primitivas do bebê aponta para um tempo que, por um lado, não espera e não volta; mas, por outro, não cessa de voltar à luz por tudo o que dele pode decorrer. Sob forte influência da produção de conhecimento em diferentes campos, o entendimento de que as condições oferecidas no início da vida impactam o futuro da criança tem despontado como importante traço das experiências parentais contemporâneas. Ainda que o tema tenha marcado historicamente a gênese e a evolução do conceito de infância, assistimos a uma importante expansão dessas preocupações 18

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para tempos cada vez mais precoces – chegando aos estudos sobre vida intrauterina. O conhecimento produzido traduz-se em informações rapidamente difundidas que penetram vertiginosamente o discurso social e a vida das famílias. Nesse contexto, embora exista uma pluralidade de posições entre os psicanalistas de crianças, a sustentação de uma postura ética no cuidado com esse precioso momento tem sido a tônica. A cronologia não é o tempo com o qual a psicanálise opera, ainda que suas intervenções não sejam alheias a essa dimensão. A cada nascimento, temos pressa, enquanto sociedade, para que alguém mergulhe no laço com o recém-chegado, mas o apressamento do tempo não combina com a delicadeza dos primeiros tempos da parentalidade e dos momentos lógicos do sujeito. Impedir que essa pressa se traduza em pressão, empurrão ou submetimento é determinante na escuta a mulheres e homens que se veem às voltas com a entrada na posição parental. Entendida como ato de se nomear mãe ou pai, essa entrada só pode acontecer a partir de uma decisão autoral, que envolve precipitar-se em um novo lugar na sociedade, na família e em uma posição diante do filho. Esse passo, ao traçar uma linha divisória na trajetória de vida, pode envolver vacilação, angústia e sofrimento, de modo que o tempo que o antecede tem duração imprevisível em cada caso. Abordei, no livro Parentalidade, primeiro volume desta coleção, a importância de entendermos separadamente a entrada na posição parental e a construção da função materna – expressão usada por Lacan ([1969] 2003) para situar as condições de constituição do sujeito a partir do laço com aquele que ocupa o lugar do Outro. Enquanto a posição parental concerne apenas àqueles que assumem os nomes “mãe” ou “pai”, considerando o trabalho psíquico implicado nessa nomeação, a função materna independe de parentesco ou gênero – a exemplo das crianças acolhidas em serviços institucionais ou por famílias acolhedoras – e impõe um trabalho psíquico de outra ordem, relacionado aos desdobramentos vividos na sintonia com o bebê, tal como vimos anteriormente. As adoções de crianças com 6, 7, 10 anos, assim como as adoções de adolescentes, evidenciam como o tempo da constituição da posição parental não coincide necessariamente com o tempo de constituição T e m p o s e t e m p o r ai s da pa r e n ta l idad e

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do sujeito. Essas adoções ficaram conhecidas pela expressão “adoção tardia”, que remete, equivocadamente, à ideia de atraso, como se a entrada na parentalidade só pudesse acontecer junto a um bebê em seus primeiros momentos de vida. Considerando inúmeras experiências em que laços de filiação e parentalidade se estabeleceram fora dessa expectativa, tenho proposto chamar esses casos de adoção de crianças e adoção de adolescentes, sem predicados, como forma de contribuir para a desconstrução dessa ideia (Garrafa, 2019). Pais e mães que assim se nomearam a partir da adoção de crianças ou adolescentes demonstram de modo ímpar como a entrada nesse lugar acontece a partir de um passo decisivo, solitário e sem garantia. A entrada na parentalidade não acontece em um caminho natural, como etapas que se encadeiam; ela se engendra, à luz das formulações de Lacan ([1945] 1998) sobre o tempo lógico, a partir de um ato dos pais que assim se nomeiam, ao anteciparem uma certeza que se valida só depois, por seus efeitos. Interessado em encontrar uma saída para o circuito infinito da repetição neurótica, Lacan partiu das elaborações freudianas sobre a temporalidade inconsciente para então situar o tempo lógico em lugar central na clínica. Sua teorização sobre o ato que produz essa interrupção aponta para as condições que permitem caminhar da interrogação sobre algo, passando por um vasto campo de associações, dúvidas e vacilações, até a conclusão assertiva que o sujeito toma nas mãos, sem apoio ou garantia, para dar o passo que encerra um ciclo e inaugura um novo começo. Lacan nomeou esses três momentos instante de ver, tempo de compreender e momento de concluir (p. 204), todos eles inapreensíveis em termos de duração cronológica, mas assimiláveis a partir da lógica que articula a passagem de um a outro. Tal como na adoção de crianças, também para os pais de bebês, adotados ou não, a entrada na posição parental acontece por meio dessa antecipação de uma certeza não dedutível, que opera uma descontinuidade no campo do sentido. Talvez seja a isso que muitas pessoas se refiram quando dizem, sobre a decisão de ter filhos, que se você pensar, você não tem… O trabalho psíquico implicado nesse passo não se insere no cálculo neurótico – Quanto vai custar? Quanto tempo de dedicação? Quantas horas de sono a menos? 20

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Para muitas pessoas, a parentalidade é a experiência mais potente de fratura no paradigma time is money, o que, não raro, resulta em mudanças de rumo profissional. A irrupção do mal-estar que acomete inúmeros pais e mães nesse contexto sinaliza o contraste inegociável entre, de um lado, a delicadeza do tempo do bebê e da criança e, de outro, a ferocidade das demandas contemporâneas por produtividade. No que tange ao acolhimento social às expressões desse mal-estar, as diferenças de gênero são gritantes: os homens são ainda mais demandados a não perder velocidade para os apelos da parentalidade, enquanto as mulheres são empurradas a encampar parte significativa dessa inconciliável divisão. Passar um tempo com os filhos pode ter sua face de martírio – não tenho tempo para mim! – ou de deleite – pena que crescem!; em todo caso, essa possibilidade passará, progressivamente, a depender também da disposição dos filhos a estarem com os pais. Os ganhos de autonomia e as notáveis mudanças corporais da puberdade prefiguram os movimentos de separação que colocarão os laços à prova e trarão novos desafios para ambas as partes. Para que o adolescente e seus pais usufruam da liberdade vislumbrada será necessário, ainda, um refinado trabalho psíquico, a despeito das portas que porventura batem, e das vozes que eventualmente se elevam. Nesse contexto, talvez pareça justo, então, recorrermos a uma anedota extraída dos inúmeros ditos que popularmente circunscrevem os temporais da parentalidade: “na relação com filhos, os anos mais difíceis são os primeiros 40…”. Parentalidade e tempo

Os capítulos que se seguem organizam e desenvolvem temas que se articulam a essa trama. A sessão “Fundamentos” está composta por cinco textos extremamente ricos e precisos, que refletem a maturidade da pesquisa e da clínica de seus autores. No primeiro deles, “Tempos da fertilidade”, Rubens M. Volich recupera a discriminação entre sexualidade e função reprodutiva que, há mais de um século, marcou a gênese do pensamento freudiano, para apresentar uma leitura, à altura de nossa época, dos conceitos psicanalíticos e das condições sociais que T e m p o s e t e m p o r ai s da pa r e n ta l idad e

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hoje perpassam o tema da fertilidade. À luz das mudanças socioculturais e econômicas das últimas décadas, bem como dos avanços nos âmbitos da medicina, da ciência e do direito, o autor analisa o tema de forma abrangente e robusta na extração das contribuições da psicanálise para o estudo das exigências de trabalho psíquico colocadas pela possibilidade de conceber e gestar. Fenômenos como gravidez na adolescência, aborto, recusa da paternidade, reprodução assistida, adoção, decisão de não ter filhos e menopausa têm lugar em sua análise, sempre cirurgicamente delimitados pelo contexto social em que se apresentam e pela importância de serem considerados a partir da singularidade de quem os experimenta. Na sequência, Julieta Jerusalinsky apresenta, em “O bebê e o tempo primordial”, as ideias que delimitam o campo de estruturação do sujeito a partir do laço entre o bebê e aquele que cerca de palavras e sentidos sua entrada no mundo. A autora percorre conceitos que, em Freud e Lacan, apontam para o valor decisivo das experiências do início da vida, sem desconsiderar que a abertura a novas inscrições e à ressignificação dessas experiências também pode acontecer em momentos posteriores. O texto situa, ainda, as diferenças entre diagnóstico e sintoma, para colocar em pauta as condições que demandam intervenções clínicas na infância, no lugar da espera por uma solução pela passagem do tempo. Jerusalinsky lança mão de uma escrita delicada e assertiva por meio da qual conduz o leitor ao encontro das questões que envolvem o trabalho implicado na criação de crianças. No capítulo subsequente, “Prematuridade”, Ethel Cukierkorn Battikha aborda a magnitude do sofrimento e do trabalho psíquico colocados a mães e pais quando seus bebês nascem prematuramente. A autora interroga possibilidades de sustentação de um olhar subjetivante para o bebê, bem como de tradução e simbolização de suas experiências, quando aqueles que se encarregam dessas funções encontram-se, eles próprios, sob o impacto dos riscos à vida do filho recém-nascido e dos excessos traumáticos impostos pelo tratamento na UTI neonatal. Battikha chama a atenção, também, para as marcas que a prematuridade pode deixar no tecido orgânico e no tecido psíquico, entre os quais uma necessária elaboração deve se produzir a fim de evitar as consequências 22

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do aprisionamento no tempo do trauma. Seu trabalho tem um brilho ímpar diante da expansão dessas internações na contemporaneidade e convida a uma reflexão potente e cuidadosa acerca de seus possíveis efeitos sobre a saúde mental. Renata Petri, em “Desejo, amor e sexo na adolescência”, transcende o universo dos momentos iniciais da parentalidade, majoritariamente abordados nos cinco volumes desta coleção, para focalizar os desafios colocados aos jovens e seus pais na travessia da adolescência. A autora conduz o leitor ao tempo das separações e ilumina as interfaces entre a queda dos pais como objeto privilegiado do amor e o encontro do sujeito com o sexo, entendido em seus desdobramentos sobre o corpo, a identidade e os laços. Petri destaca como, do lado dos pais, a separação também impõe exigências psíquicas igualmente árduas, à medida que lhes é demandado seguir com a sustentação de suas funções e, ao mesmo tempo, permitir a partida do filho. Nas linhas da autora, a complexidade do tema dissolve-se em leveza e precisão, temperadas pela feliz escolha de ilustrá-lo com dramas de personagens de uma série contemporânea. Para encerrar a sessão “Fundamentos”, Mario Eduardo Costa Pereira, em “Finitude e parentalidade”, interroga as condições para que o sujeito suporte a precariedade das garantias e a opacidade da relação com a finitude de sua própria vida. O autor faz uma incursão sintética e certeira nas ideias de Freud e Lacan sobre a inexistência de uma representação da morte de si mesmo no inconsciente, para situar como trauma e desamparo, em sua íntima relação com o irrepresentável, têm lugar central na condição humana. Pereira caminha em direção às funções parentais na criação de possibilidades para que uma criança ouse, um dia, lançar-se à vastidão da existência e responsabilizar-se por seu desamparo fundamental. O texto é rico em referências filosóficas, literárias e culturais, incluindo as que permeiam o universo infantil, de modo a construir uma atmosfera tocante e convidativa a um mergulho nas inquietações trazidas à tona pelo tema. Na sessão “Parentalidade e mal-estar contemporâneo”, contamos com a preciosa e necessária contribuição de Ilana Katz em “Infâncias e parentalidade: nomeações, funções e funcionamentos”. A autora parte da ideia convergente na antropologia e na psicanálise lacaniana segundo T e m p o s e t e m p o r ai s da pa r e n ta l idad e

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a qual uma criança responde, pela via da afirmação, da recusa ou da transformação, ao lugar que lhe é reservado no discurso cultural e familiar. O texto destaca a importância de levarmos em conta a pluralidade das experiências de infância no Brasil, em seus contrastes econômicos, culturais e territoriais, para problematizar a ilusão de que, enquanto sociedade, protegemos indiscriminadamente a todas as crianças. Katz traça o caminho que extrai da práxis psicanalítica de escuta de crianças a via por meio da qual, ao lhes dar voz, podemos furar as homogeneidades violentas e excludentes que sustentam um modelo de criança e de parentalidade no discurso e nas políticas sociais. A sessão “Interlocuções” encerra o livro com o brilhante trabalho do filósofo Vladimir Safatle, “Estado suicidário, fascismo e problemas no uso político do conceito de pulsão de morte”. O autor coloca em primeiro plano a importância de considerarmos o campo político e social de nossa época no estudo das condições oferecidas à constituição de uma nova geração. Nesse contexto, analisa a economia pulsional do fascismo, de modo a destacar o agenciamento de uma destrutividade capaz de inebriar o litoral entre o extermínio do outro e o aniquilamento de si mesmo, de mobilizar de forma crescente todo o entorno no campo destrutivo e de, assim, produzir a impressão de uma tendência à infinitude. Safatle discute o estatuto suicidário do Estado fascista e critica o uso do conceito psicanalítico de pulsão de morte nas análises de seu fundamento psicológico, de modo a convocar leitoras e leitores a uma reflexão viva e urgente frente aos desafios sociais da atualidade. O enlace entre esses sete capítulos permite uma viva aproximação com a íntima e plural relação entre parentalidade e tempo, ricamente evidenciada nas elaborações de cada autor e cada autora. Boa leitura! Referências FREUD, S. A interpretação dos sonhos [1900]. Rio de Janeiro: Imago, 1986. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, IV). FREUD, S. Inibições, sintomas e ansiedade [1926]. In: Um estudo autobiográfico, Inibições, sintomas e ansiedade, A questão da análise leiga e outros trabalhos (1925-1926). 24

A p r e s e n ta ç ã o


Rio de Janeiro: Imago, 1986. p. 95-201. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, XX). FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade [1905]. In: Um caso de histeria, Três ensaios sobre a sexualidade e outros trabalhos (1901-1905). Rio de Janeiro: Imago, 1986. p. 118-230. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, VII). FREUD, S. Sobre a Transitoriedade [1915]. In: A história do movimento psicanalítico, artigos sobre metapsicologia e outros trabalhos (1914-1916). Rio de Janeiro: Imago, 1986. p. 345-348. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, XIV). GARRAFA, T. Os pais chegam antes. Revista Cult, São Paulo, n. 251, p. 27-29, nov. 2019. LACAN, J. Nota sobre a criança [1969]. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p. 369-370. LACAN, J. O seminário, livro XI: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise [1964]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008. LACAN, J. O tempo lógico e a asserção da certeza antecipada [1945]. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 197-213.

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