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O tempo das paixões tristes As desigualdades agora se diversificam e se individualizam

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O TEMPO DAS PAIXÕES TRISTES François Dubet

As DESIGUALDADES agora se DIVERSIFICAM e se INDIVIDUALIZAM, e explicam as cóleras, os ressentimentos e as indignações de nossos dias.

tradução Mauro Pinheiro


Copyright © 2019 Editions du Seuil et La République des Idées Título original: Le temps des passions tristes Todos os direitos reservados pela Editora Vestígio. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

editor responsável

capa

Arnaud Vin

Diogo Droschi (sobre imagem de Sondem/Shutterstock)

editor assistente

Eduardo Soares

diagramação

Guilherme Fagundes

preparação

Eduardo Soares revisão

Bruna Emanuele Fernandes Júlia Sousa

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil

Dubet, François, 1946O tempo das paixões tristes / François Dubet ; tradução Mauro Pinheiro. -- São Paulo : Vestígio, 2020. -- (Espírito do tempo ; 4 / coordenação Arnaud Vin.) Título original: Le temps des passions tristes ISBN 978-65-8655-1-10-5 1. Desigualdade social - França - 1990- 2. Populismo - França - 19903. Fim das classes sociais 4. Precarização do trabalho 5. Multiplicação das desigualdades 6. Economia 7. Democracia. I. Título. II. Série. 20-41472

CDD-305.0944

Índices para catálogo sistemático: 1. Ciências Sociais : Sociologia : Desigualdade social : Grupos sociais : França 305.0944 Cibele Maria Dias - Bibliotecária - CRB-8/9427

A VESTÍGIO É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA São Paulo Av. Paulista, 2.073 . Conjunto Nacional Horsa I . 23º andar . Conj. 2310-2312 Cerqueira César . 01311-940 . São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468 www.editoravestigio.com.br

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SUMÁRIO

Introdução: Novas desigualdades, novas cóleras 7 A percepção das desigualdades 8 Sofrer “na qualidade de” 11 A experiência das desigualdades 13 1. O fim da sociedade de classes 15 Das ordens às classes sociais 16 O sistema das classes 19 Combates pela igualdade 21 Dos explorados aos inúteis 25 A saída do sistema das classes 27 Classes populares, no plural 29 Distúrbios na representação 32 2. O sistema das desigualdades múltiplas 35 Heterogeneidade e interseccionalidade 36 A agregação das pequenas desigualdades 40 Micro e macromobilidade 45


3. Experiências e críticas das desigualdades 51 A individualização das experiências 52 Desiguais “na qualidade de” 56 Uma comparação ao nível mais próximo possível 61 A extensão do reino das discriminações 64 O desprezo e o respeito 68 Os reconhecimentos e as justiças 73 Os critérios de justiça 75 Ser justo num mundo injusto 78 4. Cóleras e indignações 83 O ressentimento na internet 84 A publicidade das emoções 86 O “estilo paranoico” 87 Os mecanismos do ressentimento 92 A economia moral do respeito 97 A nação, um assunto de iguais 99 Individualismo e desejo de autoridade 101 A rotinização da indignação 103 Os populismos: do povo ao chefe 107 Paixões iliberais 111 Melancolias de esquerda e de direita 114 Conclusão: As esquerdas democráticas contra o populismo 119 Notas 125 Referências 133


INTRODUÇÃO NOVAS DESIGUALDADES, NOVAS CÓLERAS

pactua com as paixões tristes. Sob o pretexto de se desfazer do bom-mocismo e do politicamente correto, pode-se acusar, denunciar, odiar os poderosos e os fracos, os ricaços ou os paupérrimos, os desempregados, os estrangeiros, os refugiados, os intelectuais, os especialistas. De maneira um pouco mais atenuada, desconfia-se da democracia representativa, acusada de ser impotente, corrompida, distante do povo, submissa aos lobbies e mantida na coleira pela Europa e pelo sistema financeiro internacional. Cóleras e acusações antes consideradas indignas têm agora direito de cidadania. Elas invadem a internet. Numa grande quantidade de países, encontraram uma expressão política com os nacionalismos e os populismos autoritários. E essa tendência está aumentando, na Grã-Bretanha como na Suécia, na Alemanha e na Grécia. A questão social, que oferecia um contexto para nossas representações da justiça, o espírito do tempo

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parece se dissolver nas categorias da identidade, do nacionalismo e do medo. Este ensaio almeja entender o papel das desigualdades sociais no desdobramento dessas tristes paixões. Minha hipótese é a seguinte: mais do que a amplitude das desigualdades, é a transformação do sistema de desigualdades que explica as cóleras, os ressentimentos e as indignações de nossos dias. As desigualdades, que antes pareciam incrustradas na estrutura social, num sistema tido como injusto, mas relativamente estável e compreensível, agora se diversificam e se individualizam. Com o declínio das sociedades industriais, elas se multiplicam, mudam de natureza, transformando profundamente a experiência que temos delas. A estrutura das desigualdades de classe se difrata numa quantidade de provações individuais e de sofrimentos íntimos que nos enchem de cólera e nos indignam, sem ter – por ora – outra expressão política senão o populismo.

A percepção das desigualdades Para esclarecer essas mudanças, não faltam explicações. A maior parte delas mostra como as sociedades industriais, nacionais e democráticas foram sacudidas pelas transformações do capitalismo, pela globalização, pelo colapso da União Soviética, pela crise de 2008 e pelo terrorismo. Os governos são impotentes diante das crises e das ameaças. Os trabalhadores pouco qualificados são submetidos à concorrência dos países emergentes, que se tornaram as fábricas do mundo. Para a maioria dos analistas, o neoliberalismo (aliás, de definição bastante vaga) surge como causa essencial dessas 8


transformações e dessas preocupações. Não somente a onda neoliberal destruiria as instituições e os atores da sociedade industrial como também imporia um novo individualismo, fraturando as identidades coletivas e as solidariedades, esfacelando a civilidade e o controle de si. Resumindo, “é a crise” e “antes era melhor”. A atenção concedida à transformação das desigualdades não deve levar à subestimação de seu aumento ou, mais exatamente, do esgotamento da longa tendência de sua redução, que marcou as décadas do período pós-guerra. Em todos os lugares, a porcentagem mais rica da população enriqueceu e colheu a maior parte do crescimento. Enquanto, em 1970, o 1% mais rico recebia 8% dos rendimentos nos Estados Unidos, 7% na Grã-Bretanha e 9% na França, em 2017, essa parcela subiu para 22% nos Estados Unidos e para 13% na Grã-Bretanha (permanecendo estável na França em 9%).1 As desigualdades se agravam em benefício dos altos rendimentos, os dos capitais e dos altíssimos salários. Elas se acentuam ainda mais se considerarmos os patrimônios. Após um longo período de redução da parte do patrimônio em relação aos salários entre 1918 e 1980, os patrimônios se vingaram: por conta do fraco crescimento econômico, os juros sobre o capital e o preço das terras crescem atualmente mais rápido que os salários.2 Os riquíssimos se tornaram tão ricos que fazem secessão,* enquanto a maioria da população tem a impressão de ver sua situação se degradar. *

A ideia presente aqui é a de que os “riquíssimos”, uma vez que avaliam que o governo não protege seus direitos e interesses, veem-se no direito de abolir sua subserviência a esse governo. [N.E.] 9


Ainda que possamos considerar o desemprego como uma desigualdade intolerável, na França, as desigualdades de rendimentos crescem, sem, contudo, “explodirem”. Segundo dados do INSEE* de 2004, o índice Gini (que mede a amplitude das desigualdades) passou de 0,34 em 1970 para 0,28 em 1999 e para 0,31 em 2011. No entanto, entre 2003 e 2007, os 10% mais pobres ganharam 2,3% da riqueza suplementar, ao passo que os 10% mais ricos ganharam 42,2%. Como em todo lugar, o crescimento dos altíssimos salários explica essa diferença3 e, ainda mais, a das desigualdades de patrimônio, posto que os 10% mais ricos possuem 47% do patrimônio, e o cêntimo superior, 17%. De todo modo, a pobreza (definida em 60% do ganho médio) chegou a regredir. Entre 1970 e 2016, a população pobre passou de 17,3% a 13,6%. Há cerca de trinta anos, aproximadamente 80% dos franceses acreditam que as desigualdades aumentam, mesmo nos períodos em que este não é o caso. Elas são percebidas como mais fortes porque saímos de um longo período em que parecia evidente que as desigualdades sociais se reduziriam continuamente, nem que fosse em decorrência da elevação do nível de vida. Seguramente, um bocado de desigualdades aumenta, enquanto algumas outras diminuem. Assim sendo, seria equivocado estabelecer uma

*

O Institut National de la Statistique et des Études Économiques, conhecido pela sigla INSEE (em português, “Instituto Nacional da Estatística e Estudos Econômicos”), é o órgão oficial francês responsável pela coleta, análise e publicação de dados e informações sobre a economia e a sociedade do país. [N.T.] 10


correlação mecânica entre a amplitude das desigualdades e a maneira como os indivíduos as percebem, as justificam ou se indignam com elas.

Sofrer “na qualidade de” Nós nos encontramos numa situação paradoxal: o agravamento mais ou menos intenso das desigualdades se conjuga com o esgotamento de um certo sistema de desigualdades formado nas sociedades industriais, o das classes sociais. Mesmo que as desigualdades sociais pareçam inscritas dentro da ordem estável das classes e de seus conflitos, as clivagens (formações de grupos sociais distintos e, com frequência, opostos) e as desigualdades hoje em dia não param de se multiplicar, e cada indivíduo é, de certo modo, afetado por várias entre elas. Dentro do vasto conjunto que engloba todos aqueles que não estão no topo nem embaixo na hierarquia social, as clivagens não se sobrepõem mais de modo tão nítido, tão definido como antigamente, quando a posição dentro do sistema de classes parecia agregar todas as desigualdades de uma vez. Nesse caso, não se trata de uma ampla classe média – à qual dizem, contudo, pertencer a maioria dos indivíduos –, mas de um mundo fracionado segundo uma infinidade de critérios e dimensões. Constitui-se um universo social dentro do qual nós somos mais ou menos desiguais em função das diversas esferas às quais pertencemos. Somos desiguais “na qualidade de”: assalariado mais ou menos bem pago, protegido ou precário, diplomado ou não, 11


jovem ou idoso, mulher ou homem, vivendo numa cidade dinâmica ou numa região em dificuldades, num bairro chique ou num subúrbio popular, solteiro ou casado, de origem estrangeira ou não, etc. Essa lista, infinita, não é realmente nova. Por outro lado, a multiplicação dos critérios de desigualdade é relativamente pouco congruente ou “integrada” assim que nos afastamos dos grupos que acumulam todas as vantagens e todas as desvantagens. Há um bocado de gente entre as famílias Groseille e as famílias Le Quesnoy.* Por sinal, nosso vocabulário social tem cada vez mais dificuldades para nomear os conjuntos sociais pertinentes. Às classes sociais e aos estratos que predominam no vocabulário dos sociólogos acrescentam-se sem cessar noções que revelam novos critérios de desigualdade e novos grupos: as classes criativas e as estáticas, os incluídos e os excluídos, os estáveis e os precários, os ganhadores e os perdedores, os minoritários estigmatizados e os majoritários estigmatizantes, etc. Além disso, cada um desses conjuntos é ele mesmo atravessado por uma infinidade de critérios e clivagens, em função dos quais somos mais ou menos iguais (ou desiguais) aos outros. Essa representação e essa experiência das desigualdades se afastam progressivamente daquelas que dominavam a sociedade industrial, numa época em que a posição de classe parecia associada a um modo de vida, a um destino e a uma consciência. *

Alusão às famílias protagonistas do filme La vie est un long fleuve tranquille, de Étienne Chatillez, 1988. [N.T.] 12


A experiência das desigualdades A multiplicação das desigualdades, somada ao fato de cada um se confrontar com desigualdades múltiplas, transforma profundamente a experiência das desigualdades. De início, as desigualdades são vividas como uma experiência singular, como um desafio individual, como um questionamento do próprio valor, uma manifestação de desprezo e uma humilhação. Progressivamente, desliza-se da desigualdade das posições sociais para a suspeita de desigualdade dos indivíduos, que se sentem ainda mais responsáveis pelas desigualdades que os afetam, pois eles se percebem como pessoas livres e iguais por direito, com o dever de o declararem. Dessa forma, não surpreende que o respeito seja a exigência moral mais seriamente reivindicada hoje em dia – não o respeito e a honra devidos à posição, mas o respeito devido à igualdade. Como intuíra Tocqueville, mesmo quando as desigualdades são reduzidas, elas são cada vez mais vividas dolorosamente. A multiplicação e a individualização das desigualdades ampliam o espaço das comparações e acentuam a tendência de se avaliar com maior exatidão possível. Na verdade, nesse novo sistema, as “pequenas” desigualdades parecem bem mais pertinentes do que as “grandes”. As grandes desigualdades, como a que opõe a maior parte de nós ao 1% dos mais ricos, são menos significativas e nos colocam menos questões do que as desigualdades que nos distinguem daqueles com quem cruzamos todos os dias. Principalmente, as desigualdades multiplicadas e 13


individualizadas não se inscrevem em nenhuma “grande narrativa” suscetível de lhe dar sentido, designar suas causas e seus responsáveis e de esboçar projetos para combatê-las. Desafios singulares e íntimos, é como se fossem dissociadas dos contextos sociais e políticos que as explicavam, propiciavam razões de lutar juntos, ofereciam consolos e perspectivas. A distância entre essas provas individuais e os desafios coletivos abre espaço para o ressentimento, as frustrações, por vezes ao ódio pelos outros, a fim de evitar o desprezo de si mesmo. Ela gera indignações, mas, por enquanto, estas não se transformam em movimentos sociais, em programas políticos e tampouco em interpretações sensatas da vida social. A experiência das desigualdades alimenta os partidos e os movimentos que, na falta de termo melhor, qualificamos como “populistas”. Estes se esforçam para superar a dispersão das desigualdades opondo o povo à elite, os naturais aos estrangeiros, e instauram uma economia moral na qual a rejeição dos outros e a indignação restituem ao cidadão infeliz seu valor e sua dignidade.

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1 O FIM DA SOCIEDADE DE CLASSES

as desigualdades e denunciar aquelas que agridem nosso princípio de justiça e ameaçam a coesão social, o sentimento de viver na mesma sociedade. Via de regra, a crítica das desigualdades se concentra nas mais “obscenas”, aquelas que opõem o 1% ou o 0,1% mais rico a todos os outros, ou ainda, aquelas que separam os mais pobres do resto da sociedade. Do ponto de vista da moral, das políticas econômicas e da sobrevivência do planeta, as grandes desigualdades e a concentração das riquezas são decisivas, na medida em que elas comandam as estratégias das imensas empresas e escapam dos Estados. Do ponto de vista sociológico e político, o conjunto das desigualdades e a natureza destas importam muito mais. Com certeza, as enormes desigualdades não devem ofuscar as “pequenas”, as que envolvem os indivíduos que se cruzam ou se evitam no fluxo banal da vida social, no trabalho, na escola, na rua e nos transportes coletivos. é indispensável mensurar

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Nós ficamos legitimamente escandalizados com as fortunas de Bernard Arnault ou de Bill Gates, mas é provável que essas desigualdades pareçam abstratas em virtude da própria grandeza e nos irritem menos do que aquelas que nos distinguem de nossos colegas com maiores salários pelo mesmo trabalho, dos moradores de bairros “chiques demais” ou dos trabalhadores protegidos por certos “privilégios” – todas essas “pequenas” desigualdades que vivenciamos diretamente e que irrigam nossas relações sociais. Neste caso, a amplitude das desigualdades tem menos importância do que a natureza delas, a maneira como elas nos levam a nos definir e a definir os outros, a formação do sentimento de injustiça, as estratégias empregadas para combatê-las e, com frequência, defendê-las. Pois, se combatemos as enormes desigualdades, por outro lado defendemos de bom grado as “pequenas”, sobretudo quando nos são favoráveis.

Das ordens às classes sociais É preciso evocar o sistema das ordens e das castas porque subsistem vestígios delas no seio de nossa modernidade. Nesse sistema de desigualdades, as diversas posições sociais são atribuídas aos indivíduos ao nascerem, e de maneira definitiva. Nasce-se camponês ou nobre, como se nasce livre ou escravo. A não ser que o sujeito se torne padre ou compre um título nobiliárquico, a filiação determina um destino totalmente programado. Nesse sistema, não somente as posições sociais são desiguais, como também os indivíduos que as ocupam 16


são fundamentalmente desiguais. Eles não têm a mesma “natureza”, o mesmo “sangue”, a mesma dignidade nem o mesmo valor. Esse sistema de desigualdades é de natureza “holística”, na medida em que a posição ocupada dentro das ordens e das castas comanda plenamente as condutas dos indivíduos: eles não escolhem seu trabalho, suas alianças matrimoniais nem sua maneira de se vestir e de crer.1 A sociedade decide por eles. Como as ordens e as castas separam indivíduos considerados ontologicamente desiguais, os conflitos sociais têm sempre uma dimensão religiosa, posto que questionam uma ordem desejada por Deus. Eles são uma desordem ou uma resposta a uma desordem. Para que a burguesia medieval rompesse a ordem das castas, foi preciso que a teologia lhe desse um lugar no Céu, que ela inventasse um purgatório e, depois, que a teologia protestante inventasse o ascetismo intramundano e a predestinação. A criação de uma sub-casta, como a dos indígenas da América Latina reduzidos à escravidão, foi uma questão tanto teológica quanto econômica: era preciso justificar a escravidão. O sistema das castas e das ordens foi corroído pelo crescimento progressivo das burguesias urbanas, pela potência do Estado, pela ruína das pequenas nobrezas, pelo desmoronar das comunidades tradicionais. Finalmente, as revoluções das Luzes transformaram as sociedades do Antigo Sistema em sociedades compostas de indivíduos iguais. Entretanto, mais de dois séculos depois, as revoluções democráticas que destruíram os âmbitos jurídicos e religiosos do sistema das ordens ainda subsistem em pesadas heranças. 17


As leis de Jim Crow lembram que a América manteve um sistema de castas e de separação entre as raças muito tempo após a abolição da escravidão. Desse ponto de vista, pode-se considerar que o racismo biológico não é apenas uma invenção da Inquisição espanhola, obcecada em desmascarar os judeus por trás dos convertidos; trata-se de um produto da modernidade, pois somente a natureza pode substituir a ordem de desigualdade desejada por Deus. Não obstante a abolição do sistema das ordens, as mulheres também foram atribuídas à natureza e à reprodução, ao passo que os homens se dedicavam à produção e à razão: elas não tinham acesso a todos os direitos universais, particularmente à cidadania, nem aos estudos e às profissões reservadas aos homens. Quanto aos colonizados, eles foram enclausurados dentro do status de sub-casta, embora a colonização tenha sido empreendida em nome dos valores universais da liberdade e da igualdade. Conforme demonstra Philippe d’Iribarne, a própria Revolução Francesa não aboliu totalmente as barreiras da posição e da honra; ela democratizou a “lógica da honra” mais do que a apagou.2 O medo da impureza, das alianças erradas, da corrupção pelos subalternos não desapareceu das sociedades democráticas, que, no entanto, colocam a igualdade no ápice de seus valores. Ainda em nossos dias, muitas das desigualdades que abordamos em termos de discriminações e estereótipos podem ser compreendidas como “sobrevivências” de uma sociedade de ordens e castas. Embora não tenha mais um contexto legal, a proibição de transpor barreiras subsiste 18


mais do que se poderia imaginar. Em Um coração simples, de Flaubert, após ter criado e amado os filhos da família, Félicité é abandonada a seu destino de empregada inútil. Ela não fará jamais parte da família, não mais do que Louise em Canção de ninar, de Leïla Slimani, um século e meio mais tarde. De um modo geral, não basta trabalhar junto para comer à mesma mesa na cantina, para beber junto, para se ver fora do escritório e da oficina. As barreiras invisíveis da origem social e cultural, da cor da pele, do sexo e dos diplomas funcionam como fronteiras, por vezes, intransponíveis.

O sistema das classes Apesar de tudo, as revoluções democráticas e industriais inauguraram um novo sistema de desigualdades, o das classes sociais, nascido do encontro de duas grandes revoluções. A “providência democrática” instaura a igualdade e a liberdade para todos. A abolição das barreiras entre as ordens não proíbe mais aos indivíduos mudar de posição na escala das desigualdades, do prestígio e do poder. Mas, se a destruição do sistema das ordens conduz a uma sociedade composta de indivíduos livres e iguais, uma sociedade fundada sobre a vontade geral e sobre o contrato – e não sobre uma tradição e sobre o sagrado –, essa revolução é, antes de tudo, política. Ela não inaugura sozinha um novo sistema de desigualdades. Ainda restam ricos e pobres, investidores e operários, camponeses, artistas, comerciantes e burgueses, proprietários e proletários, mas ainda não é uma sociedade de classes. 19


Para isso, é preciso que, dentro do contexto democrático, se instale um novo tipo de economia, um novo modo de produção: o da revolução industrial. É em torno da formação da classe operária miserável e da emergência de uma classe de industriais capitalistas que se constrói o sistema das classes sociais. Nenhum indivíduo sendo mais essencialmente definido pelo seu nascimento e pelo seu status, é a posição dentro da divisão do trabalho que se torna central. Ela é ainda mais essencial visto que as desigualdades permanecem extremamente fortes, ao mesmo tempo que se desenvolvem dentro de um âmbito político e moral que reivindica a igualdade de todos. Certamente, no apogeu do desenvolvimento industrial na Europa ocidental, a maioria da população não pertence à classe operária nem à dos capitalistas. Mesmo sublinhando a predominância inelutável do confronto entre proletários e capitalistas, Marx citava mais de uma dezena de classes em A luta de classes na França. Mais tarde, Max Weber distinguiria as classes, definidas pelo poder e pelo prestígio, mas, a seus olhos, o sistema de classes é aquele das sociedades industriais. Esse sistema de desigualdades é moderno por mais de uma razão. Primeiramente, as posições sociais são nele definidas pelo trabalho, pela criatividade humana, e não pela tradição e pela ordem teológico-política. É moderno também porque, se as desigualdades de classes ferem o princípio democrático da igualdade entre os indivíduos, elas não o abolem. É em nome da igualdade democrática que as desigualdades de classes são contestadas. As classes sociais nascem, portanto, do encontro contraditório entre a igualdade 20


democrática e a divisão do trabalho capitalista. Mais ainda, as classes são a expressão do conflito entre essas duas dimensões. É por essa razão que o sistema das classes não se limita às fábricas e às grandes concentrações industriais. As classes sociais se tornam “fatos sociais absolutos”, um “conceito absoluto”, como dizia Raymond Aron. O sistema das classes é uma maneira de interpretar as desigualdades sociais, porque as classes agregam todo um conjunto delas. As posições dentro das relações de produção determinam os rendimentos, os modos de vida, as relações com a cultura, as representações da vida social e a oposição entre “nós” e “eles”. Nesse sentido, não existe classe sem consciência de classe, sem articulação de uma identidade para si e de uma oposição à classe dominante. O postulado de uma sobredeterminação das atitudes, das condutas e das representações pela posição de classe adquire uma consistência tal que, durante um longo período, os sociólogos procuraram estabelecer uma relação das posições sociais objetivas com as atitudes subjetivas, a fim de “verificar” a existência das classes sociais. Essa maneira de compreender as desigualdades foi, na França, incarnada por Pierre Bourdieu, o capital econômico determinando “em última instância” as outras formas de capitais.

Combates pela igualdade O sistema das classes aparece ainda mais robusto devido ao fato de ele ter estruturado a representação política. Após a oposição dos conservadores, dos liberais, dos clérigos e dos modernos, dos monarquistas e dos republicanos, 21


todos definidos pela sua relação com o Antigo Regime, a representação política foi construída em torno dos conflitos de classe, em torno da oposição entre os representantes dos trabalhadores e aqueles da burguesia. Em toda parte, estabeleceram-se esquerdas e direitas que deviam representar as classes, seus interesses e sua visão do mundo.* Em toda parte, parecia que os trabalhadores e seus aliados votavam na esquerda, e que os burgueses e seus aliados votavam na direita. Na sociedade industrial, o sistema das classes sociais foi sustentado por movimentos sociais e por sindicatos orientados no sentido de um modelo de justiça social que buscava reduzir as desigualdades entre as posições sociais, graças aos direitos sociais, ao Estado de bem-estar social, aos serviços públicos e às transferências sociais. Esse modelo de justiça era menos propício ao desenvolvimento da mobilidade social em nome da igualdade das oportunidades do que à redução das desigualdades entre as posições sociais, entre os lugares ocupados pelos indivíduos dentro da divisão do trabalho.3 Se a mobilidade social se desenvolvia, era porque a igualdade social ganhava terreno; mas a mobilidade não era o objetivo principal da justiça. O combate pela igualdade social era legítimo porque os indivíduos eram considerados fundamentalmente iguais, mas também porque a

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Os Estados Unidos escapam dessa tendência em função de uma industrialização tardia, e ainda mais porque, numa sociedade de imigração, a tensão entre os grupos já instalados e os recém-chegados desloca a clivagem das classes para aquela das comunidades. 22


sociedade devia retribuir aos trabalhadores uma parte das riquezas produzidas, que lhes haviam sido roubadas pela exploração capitalista. Os direitos sociais foram, de início, os dos trabalhadores e de suas famílias, protegidos contra os efeitos da doença e do desemprego, obtendo direito à saúde, ao descanso e à aposentadoria, em nome de seu trabalho. Na sociedade salarial, os direitos dos trabalhadores se tornaram progressivamente direitos sociais universais.4 Sob a ação dos partidos e sindicatos, sob os efeitos das greves e mobilizações, as desigualdades foram razoavelmente reduzidas, em particular quando o crescimento permitiu a transferência de riquezas para os trabalhadores e os mais pobres sem que a situação dos ricos se degradasse. Em suma, no século XX, as desigualdades sociais foram reduzidas porque eram, antes de tudo, desigualdades de classe. Muito além da tradição marxista, a leitura das desigualdades sociais em termos de classe acabou se impondo. Quais são as dimensões de classe do Estado, da educação, da cultura, do lazer, do consumo? Não se trata unicamente de estabelecer uma correlação entre as posições de classe, das práticas e das representações coletivas, mas de mostrar como essas práticas (e as instituições) contribuíram para a formação e a reprodução de uma ordem que excedeu amplamente os limites das fábricas e dos conselhos administrativos. Quando esse tipo de análise predominava na França, nos anos 1960 e 1970, as classes sociais funcionavam como um explicadum e um explicans, ao mesmo tempo aquilo 23


que se deve explicar e aquilo que explica o que é preciso explicar: as classes explicam as condutas e as consciências de classe que, por sua vez, explicam as classes. A influência dessa representação era tão poderosa, que as outras desigualdades passavam para o segundo plano e acabavam mesmo desaparecendo em prol da única desigualdade que contava, a desigualdade de classe. Os imigrantes apareciam menos como desarraigados discriminados do que como trabalhadores superexplorados; as desigualdades impostas às mulheres eram aquelas das trabalhadoras e das esposas de trabalhadores, e parecia evidente que a igualdade delas passaria apenas pelo trabalho. Em certa medida, as classes sociais podiam ser consideradas como instituições sobre as quais se implantavam representações da sociedade, das identidades e dos significados comuns. Elas deram orgulho aos indivíduos vítimas das desigualdades, atribuíram causas às injustiças sofridas, escreveram narrativas coletivas, ofereceram utopias e memórias de combates. No sistema de classes, os desafios individuais eram inscritos dentro dos desafios coletivos, num certo sentido, anônimos. A fim de que essas “instituições imaginárias” funcionassem, elas se tornaram “realidades”, através da ação das associações, dos sindicatos e dos representantes eleitos locais, das periferias carentes, dos movimentos de educação popular, dos movimentos esportivos, etc. Na Europa industrial, as desigualdades de classe eram cristalizadas dentro de mundos sociais dominados e explorados, mas mundos que ofereciam aos indivíduos uma dignidade e capacidades de resistência. 24


Dos explorados aos inúteis A questão não é saber se existem classes sociais. Elas sempre existiram, especialmente as classes dirigentes que possuem uma forte consciência de si mesmas, de seus interesses e de sua identificação com as “leis” da economia liberal. A questão que se coloca para nós é a de saber se o sistema das classes ainda estrutura as desigualdades sociais e se ele engloba as representações e as identidades dos atores. A situação atual é ainda mais paradoxal porque é caracterizada, ao mesmo tempo, pelo aprofundamento das desigualdades e pelo declínio do sistema das classes. Em vários aspectos, essa conjuntura histórica não deixa de lembrar aquela da primeira metade do século XIX, quando novas desigualdades surgiam ao mesmo tempo que a sociedade do Antigo Regime definhava. A questão social era a da pobreza e das classes perigosas, mas não ainda a da “classe” operária. O esgotamento do sistema das classes é uma das consequências das mutações do capitalismo mundial. As sociedades industriais capitalistas tinham se formado no seio das sociedades nacionais (mais exatamente, no cerne das sociedades nacionalizadas, protegidas pelas fronteiras e pelos direitos alfandegários, dirigidas por Estados soberanos que impunham culturas nacionais), mas a globalização mudou o jogo. As classes operárias europeias e norte-americanas são agora submetidas à concorrência de trabalhadores dos países emergentes, com menores salários, porém com as mesmas qualificações, ao passo que as antigas burguesias industriais se tornaram potências financeiras. À ideia de um processo de globalização homogênea, pode se preferir a noção de 25


“capitalismo deslocado”, caracterizado pela separação e pela tensão entre as diferentes esferas da atividade econômica, os mercados financeiros, a governança das empresas, os locais de produção e o consumo. Mesmo que a classe operária nunca tenha tido a unidade que lhe atribuem, o trabalho operário se transformou muito com a produção em fluxo intenso, as relações diretas com os clientes, as tecnologias inteligentes e a multiplicação dos status, quando setores inteiros, como o de construção e de obras públicas, são ainda dominados pela mobilização da força física. A produção industrial abandona gradualmente o taylorismo (gestão científica) em prol do lean management (gestão otimizada), mas os empregos do setor de serviços são, por sua vez, cada vez mais afeitos ao modelo do taylorismo. Em média, os empregados hoje em dia são menos remunerados do que os operários. A relação social industrial mudou de natureza nas grandes empresas. Enquanto antigamente o proprietário era também o patrão, presente em sua fábrica e em seu castelo, como os mestres das forjas, hoje o patrão não é mais necessariamente o proprietário. Quando as empresas fecham, não é raro que os executivos sejam sequestrados, a fim de que o proprietário, frequentemente um grupo financeiro, se revele e se manifeste. As “formas particulares de emprego” (um eufemismo para os “contratos de duração determinada”, na França, e os contratos sazonais) passaram de 3,4% em 1983 para 10,5% em 1998 e para 12% em 2012. Com a uberização das atividades, surgem os trabalhadores autônomos, dependendo de um só cliente ou da plataforma que lhes remete os clientes, e de clientes instados a avaliar a qualidade do serviço prestado. 26


Os empreendedores independentes são mais pobres e mais frágeis do que os operários. Como situar esses “independentes dependentes” dentro de uma estrutura de classes? Sem dúvida, diversos sistemas produtivos se sobrepõem. Uns participam diretamente da globalização das trocas e do desenvolvimento das tecnologias de ponta, ao passo que os outros ainda estão situados dentro de mercados nacionais e nichos locais. Uma parte dos trabalhadores, importante na França, trabalha nos serviços públicos, nos quais, mesmo sendo protegidos, eles se submetem como os outros às novas formas de gestão. Os funcionários de saúde nos hospitais públicos são controlados, como operários, mas eles não enriquecem ninguém. Enfim, uma parte crescente da população enfrenta o desemprego, a precariedade dos “bicos” e do trabalho informal, quando não se encontra totalmente excluída.5 Hoje em dia, os mais pobres são “desclassificados” ou “underclass” (sub-classificados). São menos explorados do que abandonados, considerados “inúteis”.

A saída do sistema das classes Embora pensemos que as classes ainda existem, o sistema das classes desmorona. A mesma classe social se dispersa numa série de mercados econômicos e de trabalho. A velha dualidade dos OS (operários especializados) e OP (operários profissionais)* é substituída por uma fragmentação de *

Na França, os operários especializados executam um trabalho específico após um breve período de formação; os operários profissionais 27


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O tempo das paixões tristes As desigualdades agora se diversificam e se individualizam by Grupo Autentica - Issuu