Christian Dunker Cláudia Perrone Gilson Iannini Miriam Debieux Rosa Rose Gurski (ORGANIZADORES)
SONHOS
CONFINADOS O que sonham os brasileiros em tempos de pandemia
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editoras responsáveis
Rejane Dias Cecília Martins coordenação editorial
Gilson Iannini revisão
Aline Sobreira capa
Diogo Droschi diagramação
Guilherme Fagundes
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Sonhos confinados : o que sonham os brasileiros em tempos de pandemia? / organização Christian Dunker ... [et al.]. -- 1. ed. -- Belo Horizonte, MG : Autêntica, 2021. Outros organizadores : Cláudia Perrone, Gilson Iannini, Miriam Debieux Rosa, Rose Gurski. ISBN 978-65-88239-92-6 1. Freud, Sigmund, 1856-1939 2. Psicanálise 3. Psicologia 4. Sonhos I. Perrone, Claúdia. II. Iannini, Gilson. III. Rosa, Miriam Debieux. IV. Gurski, Rose. V. Título 21-54294
CDD-616.89170722 NLM-WM-460
Índices para catálogo sistemático: 1. Psicanálise : Estudo de casos : Medicina 616.89170722 Aline Graziele Benitez - Bibliotecária - CRB-1/3129
Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465-4500
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Sumário
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Apresentação
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Pós-escrito ...Um ano depois
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capítulo 1
“Casa”: Sonhos infamiliares 71
capítulo 2
“Presente”: Tempos de sonhar 109
capítulo 3
“Constelação”: Sonhos, psicanálise e política em tempos de pandemia 131
capítulo 4
“Mulheres”: Mãe, sonhei com você: contar o trauma 171
capítulo 5
“Máquina de moer sonhos”: A pandemia e os sonhos das juventudes 195
capítulo 6
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capítulo 7
247
Quem somos
“Políticos”: Sonhos como apresentação perspectiva na pandemia “Despertar”: Você me dá seu sonho? Por uma política do despertar
MÃE ABANDONO HUMANO MOVIMENTO CLAREZA POSSIBILIDADE
FUTURO REALIDADE
IMPOSSIBILIDADE
PERSONAGEM
LIBERDADE ESCADA TRAVESSIA DESEJO
FENDA
ANGÚSTIA
MÁSCARA
FAMÍLIA
AMIGOS FUGA
FORÇA CASA
SUSTO
CICLO LUGAR MOMENTO PREOCUPAÇÃO
ROSTO
“Sonhei que estava numa CASA que não era minha, e estava CHEIA de gente. Entraram umas pessoas de MÁSCARA, acho que eram todos HOMENS, e eles usavam máscaras de pano. Essas mesmas que usamos na pandemia. Eles iam matar a gente. Eu saí correndo da casa e consegui ir pra rua. Estava de noite, a rua estava VAZIA. Eles vieram atrás de mim. Eu comecei a correr e precisava gritar ‘SOCORRO’ para me salvar. Só assim eu iria me salvar. Eu abria a boca, fazia esforço e o grito NÃO SAÍA. Eu ia MORRER. Me esforcei muito para gritar, eu estava CORRENDO. Até que eu acordei (de verdade) gritando ‘socorro’, e muito CANSADA, como se estivesse correndo. Fiquei cansada todo o dia.” (RAQUEL, 50 ANOS, 26 DE MAIO DE 2020)
A PRESENTAÇÃO
Christian Dunker, Cláudia Perrone, Gilson Iannini, Miriam Debieux Rosa, Rose Gurski
O que são cem anos, o que são mil anos, se um único instante os apaga? Bossuet
Fomos dormir em um mundo, acordamos em outro. Ao cair da noite, sem que soubéssemos exatamente por quê, começamos a sonhar mais e mais intensamente. Ou estaríamos nos lembrando mais dos nossos sonhos? “Não era real, não era real!”, “Era real demais!”, “Acordei assustada, demorei a dormir...”, “Não costumo me lembrar de meus sonhos, estou estranhando minha própria maneira de sonhar”. De uma hora para a outra, estávamos compartilhando nossos sonhos. Mal acordávamos e precisávamos falar. “Difícil explicar...” Mas a sensação de estranhamento era terrivelmente real. Assustados, atônitos, descrentes ou desconcertados, começamos a nos familiarizar com um novo cenário, povoado de máscaras e com as ruas vazias; com novas palavras, como “corona”, “quarentena” e “lockdown”, que rapidamente até as crianças começaram a declinar; e com novos objetos, como as máscaras e o álcool em gel, que passamos a manusear cotidiana e desajeitadamente; passamos a conviver com novas distâncias e novos ritmos. O vírus, que, nas imagens que vinham da China, parecia longe demais, de repente estava entre nós; e foi assim que todos aqueles que eram os mais próximos, nossos vizinhos, amigos e parentes, de uma hora para outra, estavam longe – ou perto – demais. O virtual invadiu, mais do que nunca, o espaço de nossas casas: aulas, reuniões, “lives”,
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tudo passou a ser remoto, como remotas eram nossas chances de prever a duração da pandemia ou a chegada da vacina. Os sonhos, projetos e votos que havíamos feito na virada do ano pareciam se dissolver num horizonte sem horizonte. De uma hora para a outra, estávamos confinados. Foi nesse diapasão que começamos a sonhar mais, a lembrar mais dos nossos sonhos, a ter a sensação de sonhos mais vívidos, mais intensos. Como disse um dos sonhadores: “Não tenho certeza de nada, só que esses sonhos estão ficando mais ‘reais’”. As redes sociais, rapidamente, tornaram-se um espaço de compartilhamento dessas narrativas. O sonho entrou na nossa realidade, e a realidade, ou o que ainda restava dela, invadiu nossos sonhos. Em algum momento de março de 2020 começava, de fato, o século XXI. *** De onde vinha essa necessidade quase irresistível de contar nossos sonhos a nossos amores, a nossos amigos e amigas, a nossos analistas ou terapeutas? Por que diabos começamos a compartilhar nossos sonhos mais íntimos nas redes sociais? “Nunca fui de sonhar com freqüência,1 mas nos últimos dias tenho sonhado wuase todas as noites, e mais de um sonho por noite”, diz Lucíola, 36 anos, cabelereira no Distrito Federal. “Normalmente eu não sonho, mas, os poucos que tenho sonhado são com momentos anteriores à pandemia! Momentos em família, lembranças de entes falecidos há vários anos. Porém, na última semana, sonhei todos os dias com o momento em que fui à entrada da minha cidade ver o carro funerário com o corpo da minha tia passar. Eu e minha filha ficamos às margens da estrada e, quando o carro passou, levantei um cartaz e gritei para ela ir em paz e que nos a amamos! Acordo com essa cena e o choro aflora em mim!”, relata Vanusa, 51, parda, professora, mãe de dois filhos, que havia acabado de perder a tia, vítima de covid-19, numa cidade vizinha à sua, no interior de Minas Gerais, em maio de 2020. 1
Todos os relatos de sonho foram reproduzidos fielmente, incluindo eventuais erros ortográficos ou gramaticais.
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“MEDO do futuro, da ascensão do FASCISMO.
Medo da MORTE, do LUTO. Medo de ficar PRESA… de perder liberdade. Não tenho certeza de nada, só que esses sonhos estão ficando mais ‘REAIS’.” (ALGUÉM, BRASIL, 2020)
As redes sociais captaram esse fenômeno ímpar: uma corrente ao mesmo tempo subterrânea e noturna, mas que corria à flor da pele, à luz do dia, uma onda gigantesca e sutil que não apenas nos fez sonhar mais, mas que, principalmente, nos fez compartilhar nossos sonhos. As redes captaram nossos sonhos. Em vários países, pipocaram perfis que perguntavam “com o que você sonhou hoje?”. Cientistas, curiosos, artistas, psicólogos das mais diversas orientações, psicanalistas, neurocientistas, antropólogos, muita gente ficou intrigada com esse fenômeno. No mundo todo começaram a surgir pesquisas, de escopos os mais diversos. Foi surpreendente perceber o renovado interesse de jornais, revistas, rádios e TVs na temática dos sonhos. A pergunta sobre o adensamento do trabalho psíquico noturno passou a circular de forma mais ampla nos espaços sociais. Se, apenas um ano antes, O oráculo da noite: história e ciência do sonho, de Sidarta Ribeiro, já era um fenômeno editorial, com a pandemia, o interesse pelo tema passou a ocupar o centro do debate. Tínhamos, afinal, despertado de um estado de nosso sono profundo, de nossa letargia social, de um adormecimento político? Foi o sonho que nos despertou? A precariedade das vidas e a fragilidade das condições humanas e sociais parecia se desnudar de forma quase poética nas narrativas oníricas. A exigência suplementar de trabalho psíquico que a chegada da pandemia nos impôs, principalmente nos primeiros meses, torna esses sonhos particularmente interessantes. Como não dispúnhamos de formas simbólicas, nem de narrativas padrão, nem de um repertório de imagens compartilhadas capazes de apreender tudo que se passava, nosso psiquismo teve que trabalhar mais. Teve que processar, dia e noite, sem parar, esse novo real. Os sonhos desempenham, nesse contexto, um papel decisivo em nossa saúde psíquica. Como afirma Sidarta Ribeiro (2019, p. 372), “o sonho é um momento privilegiado para prospectar o inconsciente [...]. O sonho pode, portanto, ser considerado um teste de hipóteses em ambiente de simulação”. Os sonhos podem combinar elementos heterogêneos, com liberdade maior do que aquela disponível em nossa consciência de vigília, com muito mais segurança do que no mundo externo. 12
Não por acaso, depois de alguns meses, notou-se uma tendência à “estabilização” da atividade onírica. As redes sociais também testemunharam esse refluxo: menos gente contando ou conversando sobre os sonhos. Isso torna o fenômeno aqui investigado ainda mais interessante. Com o passar do tempo, muitas pessoas começaram a relatar uma maior continuidade entre os sonhos atuais e os sonhos anteriores à pandemia. Mais ou menos como fomos, aos poucos, nos acostumando às novas rotinas, os sonhos, de certa forma, refletem isso. Na ressaca do carnaval de 2020, a pandemia que parecia tão distante, tão improvável, tão impalpável, de repente, invadia nossa intimidade. Incrédulos e desnorteados, fomos apresentados a uma realidade que parecia ficcional: uma distopia concreta e brutalmente real. Nada do que estava por vir poderia ter sido antecipado apenas algumas semanas antes. No réveillon, soltamos fogos, fizemos promessas que sabíamos que não iríamos cumprir, brindamos ou pulamos ondinhas. No carnaval, desfilamos, namoramos ou colocamos os trabalhos em dia. Mas, no dia 11 de março de 2020, a Organização Mundial de Saúde declarou oficialmente a pandemia de covid-19. Como uma faca afiada, a chegada da pandemia dividiu o século. Trata-se de um acontecimento traumático, tanto para os sujeitos quanto para a coletividade. Talvez ela seja o marcador mais fidedigno da entrada no século XXI e no desconhecido que ele nos lança. O mundo ao qual estávamos acostumados, sua imaginada solidez, desfez-se como um castelo de areia, com um simples sopro. Um inimigo invisível, intangível, desconhecido e ameaçador invadiu nossas vidas. Não poucos sonhadores em suas narrativas nos mostram a estranheza de conviver com um inimigo sem cara. Nos sonhos podemos deduzir a angústia pela ausência de antigos referentes de vida. Será que seguiremos sendo os mesmos? O que nos aguarda como sociedade? Esse recorte dos sonhos em momentos importantes da história não é algo exatamente novo. Desde Freud sabemos da importância que tem a escuta psicanalítica estar lá onde o desamparo dos sujeitos se encontra. Foi assim quando Freud deu voz e condições de fala à dimensão do sofrimento sociopolítico das histéricas, foi assim com a escuta dos sujeitos emudecidos pelos horrores da primeira grande
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guerra e é neste diapasão que um grupo de psicanalistas e professores universitários, de diferentes regiões do país, decidiu não deixar que a intensa produção onírica deste tempo conturbado fosse apenas um amontoado de sonhos singularmente ruins e traumáticos. O sonho é a via régia para o inconsciente, como dizia Freud, assim como o é também para a própria fundação da psicanálise; e o trabalho que aqui apresentamos evoca a célebre passagem na qual Jacques Lacan lança um importante desafio: “Que antes renuncie a ela [a prática da psicanálise, g.i.], portanto, aquele que não puder alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época” (Lacan, 1966, p. 322). Esse é o desafio, ou a primeira parte dele: “Pois, como poderia de seu ser fazer o eixo de tantas vidas aquele que nada souber da dialética que o engaja com essas vidas [...]. Que ele conheça bem a espiral a que sua época o conduz na obra contínua de Babel, e que saiba sua função de intérprete na discórdia das linguagens” (Lacan, 1966, p. 322). Como alcançar a subjetividade de nossa época? Poderia o psicanalista se furtar a seu compromisso com as vidas às quais está, de uma forma ou de outra, ligado? Como transpor essa confusão de línguas, tão mais aguda no mundo das bolhas digitais hiperpolarizadas? Como decantar dos sonhos os fragmento de real, algo que possa ser construtivo coletivamente, em meio a tanto obscurantismo? *** Se o sonho é a via régia para o inconsciente, o que os sonhos em tempos de pandemia podem evocar das questões de nosso tempo? Com a publicação de A interpretação dos sonhos, em 1900, de Freud, os processos oníricos passaram a receber um novo estatuto. Por trás de imagens absurdas, associações incongruentes, situações, personagens e lugares aparentemente sem sentido, ele descobriria o sentido dos sonhos, a lógica do desejo inconsciente. O absurdo é a superfície aparente do sonho; mas uma escuta atenta desvelaria a lógica inerente aos processos oníricos latentes. Com isso, Freud retirou o desejo das brumas do inefável, do incognoscível e o devolveu à trama das experiências contingentes da vida de um sujeito. É desse modo 14
que Freud (1999, p. 126) formula a hipótese de que o “sonho é a realização de um desejo”, para logo em seguida reformulá-la. Ao examinar pesadelos, sonhos de angústia e outros materiais que pareciam desmenti-la, conclui que “o sonho é a realização (disfarçada) de um desejo (reprimido, recalcado)” (p. 166). Foi a partir de então que o sonho apareceu como uma via privilegiada de acesso ao inconsciente. Tinha início o primeiro século da Psicanálise. Grosso modo, sabe-se que, apesar de a consciência vigorar em nossa vida de vigília, ela é apenas uma camada, uma parte limitada de nossa experiência. Muito do que percebemos durante o dia não é processado ou elaborado pela consciência. O que não quer dizer que esses processos psíquicos não deixem rastros em memórias, digamos assim, não conscientes. Esse é um sentido lato de inconsciente, mas que tem um papel importante nos sonhos. Neles, esse material, que Freud chamava de “restos diurnos”, é processado, elaborado. O inconsciente, no sentido estritamente psicanalítico do termo, processa, encena, associa, em suma, trabalha. Conecta esses restos diurnos com nossos desejos recalcados e, portanto, com nossa história singular. Vai de per si o truísmo de que o sonho só pode ser escutado e interpretado um a um, no contexto transferencial de um tratamento singular. E, mesmo nesses casos, vale lembrar que há ainda o que Freud chamava de “umbigo do sonho”, aquele ponto impenetrável, aquele núcleo real que torna a interpretação de um sonho uma tarefa infinita. Embora este seja um ponto inegociável da clínica psicanalítica, o psicanalista não poderia ser surdo ao que emerge na tênue fronteira que separa o individual e o coletivo. De todo modo, no livro que o leitor tem em mãos, examinamos algumas facetas desse imenso arquivo onírico, cuja relevância salta aos olhos e aos ouvidos. Aliás, a própria tendência à “normalização” da atividade onírica (a certa altura, passamos a sonhar mais ou menos como antes), observada alguns meses depois do início da pandemia, confirma como o aspecto traumático desse acontecimento culminou com uma exigência suplementar de trabalho psíquico de que os sonhos confinados em tempos de pandemia são testemunha.
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*** Mesmo cônscios da dimensão do “umbigo do sonho”; temos de nos perguntar sobre outra faceta. Qual é afinal o estatuto do inconsciente? Estaríamos diante de uma instância intrapsíquica imune ao contexto sócio-histórico que a circunscreve, isolada dos processos políticos que a situam? Embora seja mais ou menos assim que certa doxa percebe a psicanálise, essa apreensão distancia-se da experiência freudiana e da perspectiva que esse grupo de psicanalistas endossa através desta pesquisa. De fato, a concepção de sujeito para a psicanálise nunca se confundiu com a noção de um indivíduo solipsista ou dotado de uma interioridade fechada sobre si mesma. O sujeito da psicanálise sempre se situou na fronteira tênue entre a psicologia individual e a psicologia social. Não por acaso, insistia Jacques Lacan (1966, p. 258), o inconsciente é uma instância “transindividual”. Isso quer dizer que o inconsciente – aquele trabalhador que não julga, não pensa e não descansa – elabora conteúdos, impressões, intuições e percepções que nossa consciência não processa, não admite e não reconhece. Os sonhos funcionam como uma espécie de radar capaz de apreender com mais agudeza aquilo que parece recalcado ou não dito em nossa experiência social compartilhada. Os sonhos ressoam e testemunham a forma como a falta de sentido experimentada na vida social ordinária é tratada pela falta de sentido dos sonhos, cumprindo uma função protetora, ainda que desagradável, e de elaboração de algo que escapa às nossas representações. Além disso, no trabalho psíquico do sonho, Freud mostra que ficamos entregues às significações que as ruínas dos registros nos ofertam, sendo a narratividade sobre os sonhos uma liberação para novos possíveis a partir das edições singulares que cada sujeito faz das imagens oníricas recolhidas nas vivências diurnas. Além disso, não é demais lembrar que Freud escreveu alguns de seus textos fundamentais em períodos de profunda transformação social e política: durante e logo após a Primeira Guerra Mundial, assim como em meio à pandemia de gripe espanhola, que vitimou uma de suas filhas, e ao longo da ascensão do nazifascismo. No início de 1915, 16
Freud escreve suas “Considerações contemporâneas sobre a guerra e a morte”. O desafio metapsicológico da guerra se torna claro, pois ela obriga a todos e a cada um a enfrentar a negação da morte: “no fundo, ninguém acredita em sua própria morte, ou, o que vem a ser o mesmo: no inconsciente, cada um de nós está convencido de sua imortalidade” (Freud, 2020, p. 117). Ora, a guerra nos confronta com a impossibilidade de matar a morte pelo silêncio. A desilusão causada pela guerra nos obriga a mudar de atitude em relação à morte, pois ela desnuda a precariedade de nossas normas morais coletivas, exibindo o mecanismo pulsional subjacente a nossas ações. Durante a guerra, o caráter convencional de nossa cultura e de nossa moral se mostra em toda sua fragilidade: o homem primitivo se descortina por baixo de uma fina camada de convenções e de ideais. Não poderíamos transpor essa leitura para o contexto atual da pandemia? Se, convencionalmente, renegamos a morte, preferimos não falar dela, a pandemia não nos confronta diariamente com imagens, números, discursos sobre pessoas mortas, corpos largados à rua, filas de caixões e falência dos sistemas de saúde, mesmo das nações mais ricas? Talvez possamos formular a hipótese de que tudo isso empresta imagens e palavras, ou seja, o contexto atual fornece representações para aquilo que é irrepresentável para o inconsciente: nossa própria mortalidade. *** Em meio a todo esse relicário de nossas percepções e registros infraordinários, apresentamos, neste livro, a pesquisa multicêntrica “Sonhos confinados em tempos de pandemia”. Ela resulta do trabalho de pesquisadores que decidiram reunir e levar adiante algumas iniciativas regionais que já vinham estudando a temática dos sonhos em articulação com a política e a psicanálise antes da chegada da pandemia. No Instituto de Psicologia da UFRGS, a pesquisa é coordenada pelas professoras Rose Gurski e Cláudia Perrone, na USP, pelos professores Christian Dunker e Miriam Debieux Rosa, e, na UFMG, pelo professor Gilson Iannini. Cada coordenador montou equipes
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com alunos de graduação, bolsistas de iniciação científica, mestrandos, doutorados e/ou pós-doutorandos. Capitaneados por psicanalistas, os grupos atraíram ainda pesquisadores ligados à filosofia, à história, às neurociências e às letras. De modo geral, os núcleos e laboratórios envolvidos nesse estudo têm a psicanálise implicada como um comum na realização de trabalhos de pesquisa e extensão. Todos, de alguma forma, vêm buscando a construção de modos de levar a escuta psicanalítica – tradicionalmente marcada pela experiência em clínica privada – para outros espaços da cidade, aproximando a Universidade das demandas da sociedade. Além disso, o primeiro resultado dessas pesquisas é a constituição de um riquíssimo acervo, um arquivo desse momento traumático do ponto de vista singular e coletivo, e que poderá ser explorado nos próximos anos como testemunho fundamental de uma experiência histórica e social. É preciso ainda contar que sob o signo da “Oniropolítica em construção”, os grupos da UFGRS e da USP começaram a trabalhar com sonhos ainda em 2019, buscando, através da dimensão do sonho e do despertar, uma possibilidade de fazer furo no discurso totalitário e hermético da atualidade. A ênfase da oniropolítica não recai exclusivamente sobre a dimensão terapêutica do sonho, nem tampouco sobre a proposta de construir noções específicas de uma biografia ou mesmo da psicopatologia do sujeito; trata-se, principalmente, de pensar na função coletiva do sonho e do sonhar. Por seu turno, em abril de 2020, surgiu no Programa de PósGraduação em Psicologia da UFMG o projeto “Sonhos confinados”: realizado por um grupo de pesquisadores e psicanalistas de Belo Horizonte, com o objetivo de coletar relatos de sonhos produzidos durante o período da pandemia de covid-19, a fim de analisar e/ou interpretar as estratégias subjetivas de elaboração do contexto histórico sui generis pelo qual estamos passando. O grupo partiu da premissa de que o espaço para relatar e para ser escutado pode não apenas fornecer material onírico importante para compreensão do mal-estar contemporâneo, mas ainda funcionar como uma ferramenta a mais para que o sujeito possa expressar as angústias, os medos e as frustrações vividas, 18
sentidas ou pensadas durante o confinamento. Nesse sentido, trata-se de uma pesquisa-intervenção, que ofertou escuta individual a mais de uma centena de pessoas, na perspectiva dos efeitos terapêuticos rápidos. Rapidamente, devido ao grande número de relatos de sonhos por mulheres, o grupo de pesquisa da professora Carla Rodrigues, da UFRJ, foi convidado a integrar o projeto e passou a reunir-se semanalmente com o grupo da UFMG, resultando numa colaboração intensa e fecunda. Além disso, foram discutidos métodos e hipóteses com pesquisadores associados ao Instituto do Cérebro da UFRN, sobretudo com a neurocientista Natália Mota, que nos ajudou especialmente com as ferramentas de análise computacional de linguagem natural. Os dois coletivos de pesquisadores – UFRGS/USP e UFMG/ UFRJ – tiveram o livro Sonhos do Terceiro Reich, da jornalista alemã Charlotte Beradt, como referência indispensável para esses trabalhos. No livro, a autora compila cerca de 300 sonhos de alemães depois da ascensão de Hitler, entre 1933 e 1939. Beradt não era psicanalista, mas inscreveu a importante articulação do sonho como uma produção que reside nos limiares entre o sujeito e o social. Ela percebeu, através dos próprios pesadelos, a importância que o material dos sonhos pode ter em momentos de grandes catástrofes. Com a reunião e a publicação dos 300 sonhos de alemães, ela ofereceu um documento psíquico do totalitarismo. Os sonhos narrados por Beradt não explicam nada, nem a natureza do nazismo, nem a psicologia dos sonhadores, mas funcionam como uma espécie de sismógrafo íntimo da história política do III Reich. O livro mostra que, para muitos, o território onírico foi uma forma singular de resistir ao poder da tirania da época. O interessante é que, nas narrativas oníricas, aparece claramente a percepção de um modo de funcionamento totalitário, ainda que, para a sociedade alemã da época, o regime não estivesse completamente explicitado. Um dos exemplos é um alemão que, no início dos anos 1930, sonha que todas as paredes de sua casa desabam, em uma clara alusão à destruição da privacidade também no espaço mais íntimo. Todo esse trabalho com os sonhos também nos ajuda a problematizar o cenário atual vivido pela sociedade brasileira. Parece
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que a crise sanitária e política de nosso tempo nos transformou em espectadores passivos, cujos sentidos são produzidos em laboratórios e gabinetes, onde se tece a genealogia de todos os tipos de ódios e onde se preparam as condições para o achatamento do pensamento e para a produção, como dizia Hannah Arendt, da banalidade do mal. Foi nesse âmbito que, gradativamente, vimos a política se perder como espaço da esfera pública passível de garantir o o livre pensar. Trocamos o debate de ideias por uma matemática perversa de algoritmos que, ao retirar a dimensão do desejo e do sonho, nos desumaniza. Será que, em meio a este cenário, os sonhos podem ser um elemento crítico que nos ajude a despertar deste tempo de adormecimento em que parecemos ficar na espera passiva pelo fim da história? É neste sentido que buscamos renovar a psicanálise não somente como uma clínica do sofrimento psíquico individual, mas também como uma forma crítica de pensar as questões coletivas do tempo presente. É importante destacar que não se trata de sugerir algo como uma predição do futuro ou adivinhação futurística, mas de dar relevo a percepções mínimas acerca das condições totalitárias de uma época. Ora, se o sujeito se constitui nos limiares entre o individual e o social, como dizia Freud, as questões públicas e sociais estão presentes nas singularidades e, portanto, na composição das narrativas dos sonhos. O livro de Beradt e o próprio desenrolar desta pesquisa nos mostrou exatamente que a luta social e política é travada não apenas na arena pública, mas também no espaço mais íntimo de cada sujeito, no inconsciente. Isso porque a vida onírica testemunha questões que constroem nosso tempo social, político e cultural. *** O livro que o leitor tem em mãos, portanto, é um primeiro retrato, um instantâneo da pesquisa multicêntrica que reuniu diferentes pesquisadores de universidades públicas do país. Uma espécie de ontologia do tempo presente do ponto de vista psicanalítico. Nele, cada grupo de pesquisa destacou um tema, um recorte específico. 20
Cada grupo foi fiel a suas premissas teóricas e metodológicas, sob o fundo comum do acervo principal e da ética da psicanálise. Este livro não pretende ser uma descrição científica exaustiva da pesquisa em curso. Para esses fins, existem as revistas científicas, para onde serão submetidos os resultados devidamente ponderados, descritas as técnicas, os métodos etc. Este livro dirige-se a um público mais amplo e adota, deliberadamente, uma linguagem um pouco menos técnica: destina-se a pessoas como Marina, Vanusa, Carioca, Zé Ninguém, Maria Preta, Ursa, Morena da Odontologia, oLIV, Eueueu, Nekara Ojuara, Risonha Azulada, CW, Mauro, Camélia. São gente como a gente, artistas visuais, professores, bibliotecários, autônomos, operadores de telemarketing, desempregadas, engenheiros, cozinheiras, psicanalistas, agentes de aeroporto, trabalhadoras do lar, artesãos, K-idols que nos enviaram seus sonhos, seus temores, suas palavras. Este livro é destinado a eles e elas. Os coordenadores gostariam de agradecer imensamente aos inúmeros alunos de graduação e de pós-graduação que dedicaram seu tempo, seu esforço e sua paixão com a temática para a realização desta pesquisa. Muitos deles tiveram participação passageira, mas decisiva; outros fizeram e ainda fazem parte do projeto maior, o sonho de que os sonhos possam ganhar um espaço de reconhecimento social e coletivo em nossa vida cotidiana. REFERÊNCIAS
BERADT, C. Sonhos no Terceiro Reich. São Paulo: Três Estrelas, 2017. FREUD, S. (1900). Die Traumdeutung. In: Gesammelte Werke chronologisch geordnet. Editado por A. Freud, E. Bibring, W. Hoffer, E. Kris e O. Isakower. Frankfurt am Main: S. Fischer Verlag, 1999. v. 2-3. p. 1-643. FREUD, S. Cultura, sociedade, religião: o mal-estar na cultura e outros escritos. Tradução Maria Rita Salzano Moraes. Belo Horizonte: Autêntica, 2020. (Obras Incompletas de Sigmund Freud). LACAN, J. Écrits. Paris: Seuil, 1966. RIBEIRO, S. O oráculo da noite: história e ciência do sonho. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
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“Estava num prédio muito ALTO, imagino que no vigésimo andar. Não era um prédio luxuoso, mas era aparentemente SÓLIDO e com uma estrutura bacana, além de visualmente bem decorado. Por algum motivo que não sei exatamente qual, tive que sair de forma URGENTE, poderia ser um INCÊNDIO, poderia ser um curto-circuito apenas… mas o fato é que não poderia usar o elevador. Então corri para a ESCADA e quando a encontrei fiquei muito chocada, pois o prédio havia ‘se virado em seu EIXO’… tipo, invertido os lados… e a escada ficou virada para a PAREDE, além de ter aberto um BURACO, um vão da altura dos andares.
Além de a escada ficar aparentemente INACESSÍVEL por ‘começar na parede’, a fenda muito larga que se abriu me IMPEDIA de sequer tentar chegar até a parede das escadas. Olhava o tamanho do buraco e a altura em que estava e sabia que seria IMPOSSÍVEL. Fiquei muito desesperada por estar ENCURRALADA ali e tive clareza de que não conseguiria me salvar, meu sentimento era de PÂNICO, muito REAL e até físico, tanto que acordei muito assustada e impressionada com tantos detalhes e a clareza com que eu via minha morte.” (ANNA, 38 ANOS, 20 DE MAIO DE 2020)
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