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Sismógrafo

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Vencedor do Prêmio Cidade de Belo Horizonte

Finalista do Prêmio Jabuti

Finalista do Prêmio São Paulo de Literatura

Sismógrafo Leonardo Piana

Leonardo Piana Sismógrafo

2ª edição

Copyright © 2026 Leonardo Piana

Copyright desta edição © 2026 Autêntica Contemporânea

Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora Ltda. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

diretora editorial

Rejane Dias

editores responsáveis

Rafaela Lamas

Schneider Carpeggiani

revisão

Ariadne Martins

capa

Diogo Droschi

ilustração de capa

Marcela Novaes

fotografia da p. 220

Arquivo do autor

diagramação

Guilherme Fagundes

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Piana, Leonardo Sismógrafo / Leonardo Piana. -- 2. ed. -- Belo Horizonte, MG : Autêntica Contemporânea , 2026.

ISBN 978-65-5928-710-9

1. Adolescência 2. Ficção brasileira 3. Homossexualidade I. Título. 26-346072.0

CDD-B869.3

Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura brasileira B869.3

Eliane de Freitas Leite - Bibliotecária - CRB 8/8415

Belo Horizonte

Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520

Belo Horizonte . MG

Tel.: (55 31) 3465 4500

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SAC: atendimentoleitor@grupoautentica.com.br A AUTÊNTICA CONTEMPORÂNEA É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA

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Para a minha cidade.

Eu o observava enquanto ele se movia. Então observei os rostos que o observavam. E tive medo. Eu sabia que as pessoas estavam olhando, que fazia algum tempo que estavam olhando para nós dois. Elas sabiam que haviam testemunhado um começo, e agora não iam parar de olhar enquanto não assistissem ao fim.

James Baldwin (Tradução de Paulo Henriques Britto)

O esforço que lhe custou arrancar-se do olhar de Héracles poderia ter sido medido na escala criada por Richter.

Anne Carson (Tradução de Ismar Tirelli Neto) um sismógrafo não gira em torno de si mesmo como faria um compasso (objeto sincero que demarca território ou ritmo) um sismógrafo vai em frente como faria uma pessoa decente e entregue como (não) são as pessoas Humboldt que não são como eu eu sigo Humboldt me movendo em círculos em torno disso e de você dessa busca

Adelaide Ivánova

Quantas imagens são necessárias para contar esta história? É o que penso enquanto retiro a fotografia de Tomás, colada à parede do quarto, e reviro gavetas e álbuns à procura dos registros que fiz com a câmera analógica, presente dele. É o que penso enquanto reúno o arquivo prometido à sua mãe numa ligação telefônica, eu levo as fotos pra senhora, pode deixar. Guardo as visões do corpo dele num envelope pardo e, em silêncio, me despeço mais uma vez deste apartamento.

Vai de viagem aproveitar o resto do calor?, o porteiro deste turno pergunta, apontando a mochila que levo às costas. O dia aparece amarelo, inclinado do lado de fora. Quase isso, digo. Pra onde vai?, ele quer saber, e por um pequeno desvio sua voz ecoa pela portaria, pelas escadas todas do prédio, chega a andares de vizinhos que não conheço. Andradas, já ouviu falar? Não, ele diz, nunca. Eu poderia lhe mostrar algumas das fotografias, Tomás de sunga, posando depois de nadar, diante de uma piscina gelada, ou na rua onde cresci, cabeça baixa, sem saber bem onde enfiar as mãos. Foi em Andradas, eu lhe explicaria em vão, aqui aconteceu isso, aquilo. Eu poderia lhe perguntar se tem percebido a minha voz falha, se vê bem o meu rosto agora vermelho, essa timidez aprendida no lugar para onde volto hoje, ou falar dos acontecimentos de quando era menino, elencar partidas e desastres, resumir esta história à geografia de uma cidade.

Mas não digo nada. Confiro o relógio na parede sobre os ombros dele: estou sempre atrasado nesses ensaios de voltar para casa. O pouco que me escapa da boca é tenho que ir, e vou tentar aproveitar o calor, sim, espero não me esquecer disso. Boa viagem, o porteiro diz, e em seguida vem meu nome, lembra-se de mim: Eduardo.

Não fosse o fogo, aquele teria sido um dia impreciso como tantos outros. Meus olhos percorreram anjos e animais pintados no teto da igreja, a mãe chamou meu nome, acorda, Edu, e eu tentei por um momento me concentrar na missa, mas fui logo atraído para todas as outras coisas, santos, ventiladores, senhoras em volta e seus vestidos compridos, bem mais compridos do que a mãe vestia. O que esconderiam por baixo de tanto tecido?, eu imaginava certo de que haveria algo, um segredo impronunciável pelos coques bem apertados, óculos, mãos manchadas de óleo, algo: que elas sabiam e eu não, que eu deveria compreender daquele ritual sagrado, a hora certa para fazer o sinal da cruz sobre a testa, lábios, peito, para me levantar, ficar de joelhos.

Morro acima até a casa, encontramos o pai estirado no sofá da sala. Como vocês demoraram, ele protestou, e na minha noção infantil as missas pareciam ser mesmo longas, longuíssimas, estender-se por horas seguidas até desembocarem na apatia dos nossos jantares. Pouco sabíamos uns sobre os outros àquela altura, cada vez menos perguntávamos, apegados desde cedo a um verdadeiro gosto pelo silêncio, ou seria medo de aprofundar o vinco eterno entre as sobrancelhas do pai?, com seus suspiros afetados ao largar o bornal quando chegava do trabalho, seus braços peludos empunhando a colher sobre a mesa, beiços mordidos enquanto contava o dinheiro escasso. Ele se levantou empurrando para trás a cadeira e rompeu o marasmo num baque do prato contra a pia,

e podia a louça suportar tamanho descuido em nossa casa abarrotada de fragilidades?, bibelôs, vasos, sorrisos forçados em porta-retratos.

Ficamos a mãe e eu na cozinha, folheando as revistas antigas que ela trazia da fábrica, que ninguém mais queria, deslumbrados, os dois, pelas fotografias. Eu dizendo que ela parecia até as mulheres da revista, com o batom e as roupas que ela tinha, de tão bonita, mãe. Ela gostando do elogio, me apertando com as unhas bem-feitas, o rosa do esmalte que eu tinha escolhido. O aperto, ele também, sendo um modo de fazer carinho. Sobre a mesa, a imagem de uma santa emoldurada em madeira, formato de capela, e uma vela sempre acesa. A mãe me disse para dar um beijo na santinha, fazer meus pedidos, e eu imaginei presentes de aniversário, uma máquina fotográfica que não ganharia, se poderia crescer mais rápido para não ter que subir num banco para alcançar os pratos no armário, os copos para pôr à mesa. Um beijo, os lábios marcados no vidro, depois sumindo.

O dia tinha que terminar. Lavei bem as mãos, escovei com força os dentes e me juntei à mãe e ao pai, sentados sobre a cama de casal. Mãos dadas, murmuramos baixo, vozes em coro num chiado quase inaudível, uma série de orações decoradas de que me escapavam o sentido, as palavras, o que diziam. Pedi a bênção ao pai, dei um beijo no rosto dele. Contudo, entre suas sobrancelhas, o vinco: quando teria surgido? E fui tomado pela angústia: teria algo a ver com a mãe?, com o ciúme que ele sentia da mãe, da beleza da mãe, dos olhares dos homens e mulheres que aquela beleza atraía e eu mesmo já tinha percebido?, ou pior: o vinco do pai teria algo a ver comigo?

Me arrastei até o meu quarto e esperei que a mãe viesse de camisola e passos acelerados, se abaixasse, confirmasse a inexistência dos bichos embaixo da cama e deixasse seu beijo de boa-noite em meus lábios. O rasgo do decote quase revelou

os seios dela, pesados sobre mim, nosso último contato antes de dormir. Boa noite, mãe. Por que você nunca me chama de mamãe, filhote? Eu sabia que deveria chamá-la: mamãe, dar a ela o que queria (não era simples?), desejava ser o melhor filho possível, dizer mamãe, eu te amo, mas não conseguia, ainda sem saber que para aquela mãe (de nome definitivo, cargo recebido no momento em que nasci, ou antes, no momento quando percebeu que eu crescia dentro dela), para aquela mãe, eu dizia, e para aquele pai, mesmo o melhor filho possível nunca bastaria.

Preencho as lacunas para reconstruir a cena como deve ter ocorrido. O sono teria demorado a chegar quando me deitei depois da reza, naquele domingo, para que eu pudesse então me ocupar com a imagem dos pais numa conversa incansável no quarto, rompendo o silêncio da casa. Eles falariam sobre a missa, sobre o trabalho do pai com marcenaria, sobre como teria sido a semana da mãe na confecção de roupas lindas. Diálogo impossível de ser levado adiante, ou menos, impossível de ter se iniciado, porque a dureza do pai cavada na testa, a apatia doce da mãe, me faziam ter a certeza de que não havia mesmo nada para ser conversado. E eu, enquanto filho (não o melhor, é claro, longe disso), deveria fazer algo. E eu, enquanto filho, talvez fosse (não o único, mas o principal) culpado pela sombra instalada dentro da casa. Com minhas perguntas descabidas, meus gestos duros e súbito muito delicados que o pai repreendia, e ao me impor no sofá entre eles, na cama enquanto rezavam, metido entre os dois bancos do carro. Devia ser por culpa minha que eles não falavam sobre o gosto das coisas inapropriadas para meninos de seis anos. Teriam se esquecido? Eu precisava pedir perdão à santa, que ela aliviasse o tormento instaurado por mim dentro de casa (perdão), o vinco no rosto do pai (perdão), se eu chegasse bem perto talvez ela me escutasse, talvez atendesse

às minhas vontades de criança educada, que ia à missa, um menino muito bonzinho, tinham me dito. Era possível que a santa tivesse misericórdia de mim, de nós. Que mostrasse alguma saída (perdão).

Contive o medo e pisei devagar sobre o chão frio, enfrentei um caminho escuro pelo corredor até a cozinha. A imagem da santa sobre a mesa, o rosto iluminado e embaixo dela um pano bordado aqui mora gente feliz. À luz da vela de sete dias eu vi o bolo na assadeira, um vaso de plantas, pó de café, panelas sujas sobre a pia, tudo que a mãe tinha deixado dentro da noite para a manhã seguinte. Disse quero pedir perdão, santinha. Me aproximei numa tentativa de alcançá-la, e talvez tenha sido pelo crepúsculo que se tornou o cômodo inteiro à luz da vela, não sei, pela mão canhota de repente desajeitada, um movimento brusco em direção à mesa velha que o pai mesmo tinha construído, um tanto alta para o meu corpo minúsculo àquela época, não sei, talvez tenha sido apenas um momento de descuido, calcanhares erguidos para alcançar quando não alcancei, quando esbarrei de leve na vela que foi direto ao pano embaixo da santa, e num instante o pano em chamas. Era e não podia ser. Por um segundo, assisti assombrado ao incêndio da santa.

Corri para o quarto dos pais, esmurrei a porta, pegou fogo na santa, fogo na santa, e foi muito tempo até a mãe sair do quarto, o cabelo preto num emaranhado, pegou fogo na santa, mãe, vá ver. Ela correu descalça até a cozinha, eu atrás com a mão estendida na tentativa de alcançar a camisola com a ponta dos dedos. Me lembro da mãe rápida ao acender a luz, encher na torneira uma panela suja na pia, derramá-la sobre a mesa. O que você fez?, ela ofegava. Não sei, não foi de propósito, mãe, tinha um pedido que eu precisava fazer à santinha. Chorei.

Guardo a imagem da mãe na cozinha quando me mandou de volta para o quarto: a vergonha escapando do decote,

braços descobertos por onde se espalhavam novas marcas escuras, a feiura das marcas que tentaram, sim, mas nunca a impediram de ficar cada vez mais bonita. A mãe vivia caindo, ela dizia, algo que eu nunca tinha visto. No dia seguinte, eu coçaria aqueles roxos imensos num toque suave, cuida de mim que você tem a mão boa, filho, e em poucos dias a mancha se perderia na pele até que aparecesse outra. Por anos eu me valeria daquele carinho, de meus poderes de menino, eu acreditava, a minha cura.

Pelo corredor em direção ao meu quarto, passei diante da porta aberta dos pais, escutei o relincho espalhafatoso do homem que dormia confiante na fé dos tratados. A sensação é de que sobrevivi àquela noite em claro pedindo perdão à mãe, à santa, a deus, se é que eles ainda me escutavam, certo de que tinha cometido um grande pecado, de que iria para o inferno, eu, corando deitado no escuro, um diabinho vermelho, passagens compradas para o inferno, era certo: eu merecia.

Sou eu o forasteiro que a mãe recebe hoje, de braços abertos, encostada neste muro de um branco perdido no tempo. O cheiro da comida no fogo, eu o reconheço, pergunto posso entrar? A casa é sua, ela diz, e que bom ter você de volta, filho.

Tudo envelhece aqui dentro: móveis construídos pelo pai, fotografias na estante da sala, o desgaste dos tacos e azulejos. A mãe parece se espalhar pelos cômodos todos, luzes acesas, café frio para São Benedito em cima da geladeira. Nos sentamos para comer, agora somos só nós dois. Carregamos o silêncio como um fardo mais confortável, falamos pouco: a viagem de ônibus, o calor desses dias, camisetas suadas grudando ao corpo. A mãe diz que meu cabelo está muito comprido, fala de desleixo e eu não me importo. Depois do jantar, lavamos a louça juntos enquanto toca na televisão a música do comercial de uma operadora, ela mexe os quadris, pés descalços, e também sinto vontade de dançar antes que tudo isso acabe e eu nem perceba, então danço, livre, ao lado dela. É tarde quando levo a mochila ao quarto, não ao meu quarto adolescente deixado para trás, mas a um novo quarto de hóspedes para sempre desabitado. Retorno os olhos aos adesivos colados na janela, às roupas deixadas no armário, abro portas: jeans gastos de sentar no asfalto, uniformes da escola, costas manchadas de lama, herança de quando andava de bicicleta pelas ruas todas encharcadas, meias encardidas de andar pela casa. O espelho continua pregado à mesma parede, e nele procuro as primeiras marcas no meu rosto. Reconheço

neste encontro apenas a diferença entre o menino uma vez culpado, de um lugar antigo, impresso em preto e branco, e o filho desleixado da mãe: barba por fazer, pernas enfiadas nesse calção curto e largo, cicatrizes à mostra nos joelhos e chinelos de dedo. Me deito por um instante na cama arrumada para mim, então vou ao quarto dela dizer durma bem, mãe. Faz meses, esta é a minha primeira noite em Andradas. Estou em casa: afinal, não sou nenhum forasteiro.

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