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Foto: Arquivo pessoal
“Dinâmico e intenso, um romance que transforma intriga política em pura magia, com um casal que faz o coração sair do compasso.” Booklist E. J. MELLOW é a premiada autora da série de fantasia contemporânea Dreamland e da Trilogia Mousai. Também é cofundadora da She Is Booked, uma organização de arrecadação de fundos com temática literária que apoia instituições de caridade focadas em mulheres. Com bacharelado em Belas-Artes, E. J. divide seu tempo entre seus dois amores: design visual e escrita.
“Uma romantasia arrebatadora, perfeita para quem ama competições letais, reinos sombrios e faíscas irresistíveis entre protagonistas.” BuzzFeed “Um final eletrizante para a Trilogia Mousai, que consagra E. J. Mellow como uma das vozes mais envolventes da fantasia romântica atual.” Publishers Weekly
Leia antes:
ISBN 978-85-8235-870-2
9 788582 358702
E. J. M E L L O W SINFONIA DO TRONO MORTAL
ENTRE AS NOTAS DO PODER E OS ACORDES DO AMOR, CADA ESCOLHA PODE SER MORTAL.
QUANDO A SINFONIA COMEÇAR, NÃO DESVIE O OLHAR DO TRONO.
T R ILOGIA M OU SA I VOL. 3
SINFONIA DO
TRONO MORTAL E. J. M E L L O W
Arabessa Bassette é a líder implacável das Mousai, o trio de feiticeiras mais temido do Reino do Ladrão, capaz de usar a música como arma e como promessa de prazer. Por trás da máscara impecável, porém, arde um desejo que ela nunca ousou admitir: deixar de ser apenas a filha obediente do Rei Ladrão para traçar o próprio destino, e, talvez, viver o amor que sempre lhe foi negado. Esse amor tem nome e olhos que ela conhece desde a infância: Zimri D’Enieu, a mão direita do rei, o homem que jurou proteger o trono… e o coração de Arabessa. Quando uma convocação inesperada anuncia uma disputa mortal pela sucessão do Rei Ladrão, o caminho dos dois se cruza no mesmo palco: o da ambição. Para conquistar a coroa, Arabessa precisa enfrentar rivais cruéis, provas repletas de magia e jogos de poder em que cada nota pode ser um golpe. Mas o que há de mais perigoso é Zimri, preso entre o desejo de realizar o próprio sonho e a chance de, enfim, ficar ao lado da mulher que ama. Entre sacrifícios, traições e uma paixão tão letal quanto os feitiços que conduz, Arabessa terá de decidir até onde está disposta a ir para salvar o Reino do Ladrão. Como desfecho explosivo da Trilogia Mousai, esta história entrega tudo o que os leitores esperam: reviravoltas eletrizantes, segredos enfim revelados e um romance intenso que faz cada página vibrar como o último acorde de uma grande sinfonia.
TRILOG IA MOUSAI VOL. 3
SINFONIA DO
TRONO MORTAL E. J. M E L L O W TRADUÇÃO:
Vanessa Rodrigues Thiago
Copyright © 2023 E. J. Mellow. Copyright desta edição © 2026 Editora Gutenberg
Esta edição foi viabilizada por meio de um acordo de licenciamento originado com a Amazon Publishing, www.apub.com, em colaboração com a Sandra Bruna Agencia Literaria. Título original: Simphony for a Deadly Throne Todos os direitos reservados pela Editora Gutenberg. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
diretora editorial
revisão
Rejane Dias
Natália Chagas Máximo
editora responsável
adaptação de capa
Flavia Lago
Alberto Bittencourt
editora assistente
Natália Chagas Máximo preparação de texto
ilustração e projeto de capa
Micaela Alcaino diagramação
Laís Varizi
Waldênia Alvarenga
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
Mellow, E. J. Sinfonia do trono mortal / E. J. Mellow ; tradução Vanessa Rodrigues Thiago. -- 1. ed. -- São Paulo : Gutenberg, 2026. -- (Trilogia Mousai ; v. 3) Título original: Simphony for a Deadly Throne ISBN 978-85-8235-870-2 1. Ficção norte-americana I. Título II. Série. 26-352157.0
CDD-813 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura norte-americana 813 Aline Graziele Benitez - Bibliotecária - CRB-1/3129
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Para Alexandra, minha irmã altruísta, que daria o próprio coração se isso mantivesse outro batendo.
Nascida em uma noite sem lua, de três a mais velha, Suas mãos detêm a chave de seu poder; A música cataliza o controle, é sua medalha, Para despertar uma magia destinada a esvanecer Se ouvir sua sinfonia tocar Se ouvir sua sinfonia tocar Ela rege com elegância e calma, a irmã que suporta a turbulência, Mas uma tempestade despertará de sua alma Sobre qualquer um que ameace o desejo da regência Se ouvir sua sinfonia tocar Se você ouvir sua sinfonia tocar Então cuidado, meu filho, se estiver envolvido em sua canção, Se estiver balançando perto demais de sua banda; Você pode pensar que tem poder sobre sua ação, Mas sua vontade é ela quem comanda Quando ouvir sua sinfonia tocar, Quando você ouvir sua sinfonia tocar Versos da Canção das Mousai, dos Achak
Aadilor Esrom
Ma
r d
e O
ba
si
Shanjaree
Ilha Sacrossanta
Vale do
s Gigan
tes
Bruma Zombeteira
Yamanu
Baía do Escambo Reino do Ladrão
Jabari
Lachlan
PRÓLOGO
N
a noite em que Zimri D’Enieu ficou órfão, disseram-lhe que viveria com um rei. Ao caminhar pelo reluzente salão de ônix, não sabia como seus membros se moviam, de tão pesados que estavam. Não entendia como ainda respirava; todo o seu ar lhe fora tirado, afogado com seus pais. E embora sua mãe tivesse lhe ensinado que lágrimas não mudavam nada, Zimri, aos nove anos de idade, não tinha como impedir as que escorriam por seu rosto, por baixo da máscara. Ambos perdidos no mar. Ambos. Perdidos. Perdidos. Ambos. Foram as últimas palavras que ele compreendeu até que uma pessoa alta, cujos olhos violeta brilhavam como estrelas, veio buscá-lo. Os Achak, era assim que chamavam a si mesmos. Um rosto sem máscara, com pele tão negra quanto a de Zimri, mas brilhante e feita de um material diferente do deste mundo. Possuíam uma forma que se transformava constantemente de mulher em homem. Uma metamorfose tão fluida quanto a de uma brisa ondulando sobre um lago à meia-noite. Os Achak eram irmão e irmã, duas mentes compartilhando um só corpo. Zimri absorveu essa informação como fazia com tudo, rápida e silenciosamente. Quando se crescia no Reino do Ladrão, aprendia-se que a realidade raramente existia. Sua infância foi feita de impossibilidades e contradições. Como agora. Ele foi dormir com a vida plena, para acordar e encontrá-la vazia. Enquanto Zimri enxugava as lágrimas que escorriam por baixo de sua máscara de veludo, observava o grande salão. A cada poucos passos, o piso . 11 .
liso era interrompido por obsidiana afiada, que se elevava entre formações irregulares semelhantes projetadas do teto. Mais tarde, ele descobriria que o interior do palácio imitava o reino das cavernas do lado de fora, onde estalagmites e estalactites subiam e desciam. Fora das barreiras, cidadãos disfarçados escorriam pelas frestas para observar com ceticismo aqueles que passavam. O que estão escondendo? O que posso ganhar com isso? Uma vez ali, cortesãos mascarados deslizavam dos cantos sombrios para observá-lo sendo conduzido. Como vocês conhecem nosso rei? Como posso conhecê-lo? Dentes, garras, joias, penas e ossos esculpidos se entrelaçavam, adornando vestidos, túnicas e trajes da massa que se voltava para observar a procissão. Seus olhares pareciam se deter por mais tempo na criatura sem máscara que liderava o cortejo do que na criança presente no palácio. Os Achak, ao que parecia, não temiam que sua identidade fosse revelada nesse reino de caos e devassidão. Uma escolha reservada apenas aos mais imprudentes ou tolos. Embora Zimri pudesse sentir que os Achak não eram nem um nem outro. O sentimento que emanava dos gêmeos era de uma confiança perigosa. Eles pareciam caminhar com as faces expostas porque não tinham nada a esconder deste mundo oculto. Não há perversidade aqui que já não tenhamos visto nem praticado, dizia o olhar desinteressado dos gêmeos. Zimri estremeceu atrás de seu guia, captando facilmente o aroma pungente de seu poder sobrenatural. Era evidente que os Achak eram conhecidos nesta corte, e embora os D’Enieu também o fossem, como acontece com a maioria das famílias nobres de ladrões, seus rostos não eram conhecidos. A reputação e a identidade de uma pessoa são bens valiosos em nosso reino, meu filho, o pai de Zimri lhe disse certa vez enquanto o colocava na cama, e muitas vezes elas não convivem. Mas a melhor parte é que, com uma simples troca de disfarce, podemos renascer. Amanhã você poderá ser alguém completamente diferente de quem é esta noite. Na época, aquilo lhe parecera maravilhoso e emocionante, mas agora, enquanto Zimri seguia os gêmeos e percorria com o olhar a multidão que o observava avidamente, estranhos em um lugar estranho, ele só desejava que o dia de hoje fosse ontem, para que pudesse ser o menino que ainda tinha pais. – Que peixinho delicioso – disse a voz aguda de um cortesão que se inclinou para espiar Zimri através de seu adorno de cabeça com contas, que deixava visível apenas os olhos verdes. . 12 .
– Ele está aqui para nosso entretenimento, Achak? – perguntou outro, suas longas unhas pontiagudas quase tocando o ombro de Zimri. Uma curiosidade excitante emanava deles: doce e amarga, fazendo seus músculos se tensionarem. Embora ainda ingênuo em sua magia, Zimri foi agraciado pelos deuses perdidos com o dom de ler as emoções das pessoas. Os sentimentos chegavam a ele em odores e aromas; tristeza e raiva eram sempre mais fétidas, enquanto felicidade e esperança exalavam fragrâncias florais. – Ele está aqui pelo rei – responderam os Achak, sem deter o passo. – Então é melhor não tocarem no que não lhes pertence. A dupla recuou, um lampejo de medo – carne azedando – enquanto se curvavam, pedindo desculpas. Porém, o aviso de Achak só aumentou os rumores coletivos da corte. Murmúrios se espalharam pelo salão como fogo em mato seco. A atenção da multidão estava focada nele; era um ambiente de rumores pungentes. Mas enquanto a maioria das crianças teria sido tomada pelo terror diante de um público tão bestial, Zimri estava muito familiarizado com ele. Todos os dias, pessoas como aquelas inundavam os andares inferiores de sua residência. Ao se lembrar de seus pais e do clube deles, sentiu uma pontada profunda entre suas costelas, uma dor ainda mais sufocante. Perdidos. Ambos perdidos. Zimri desviou o olhar da corte observadora, encarando seus pés em movimento, o chão escuro sob eles e o reflexo ondulante de um agora órfão. O que será de Macabris?, pensou, os olhos marejados de lágrimas. Poderia desaparecer tão facilmente quanto seus pais? Sim, sua magia lamentou baixinho dentro dele. Tão facilmente quanto nós. Sim, concordou Zimri em silêncio, a dor crescendo, tão facilmente quanto eu. Perdido em seu luto e na incerteza de seu futuro, não ergueu os olhos até que os Achak o guiaram por meio de portas grandes e pesadas, ladeadas por dois enormes guardiões de pedra, para entrar na sala do trono. Um calor opressivo o envolveu através do casaco, do mesmo modo que a onda de frio o fez estremecer com a magia ancestral que se acumulava no aposento cavernoso. Lava serpenteava em labaredas alaranjadas de ambos os lados de uma longa passarela que se tornava mais estreita à medida que se aproximava do trono: uma dúvida sufocante em sua mente. Está certo de que quer estar aqui? Não, pensou Zimri. Quero estar em casa. Por mais que tenha passado muitas viradas de ampulheta na janela do seu quarto estudando o palácio, que se erguia como presas, imaginando o rei . 13 .
lá dentro, a curiosidade de Zimri não existia naquela noite. Ele só desejava o impossível – voltar à sala de estar de sua família, ao lado do pai e da mãe, para ouvir suas inúmeras conversas sobre o lucro do Macabris naquele dia. Os convidados notórios presentes, as dívidas que agora tinham em mãos. Ao menos, eles estariam vivos. Mas não estavam. E nunca estariam. O Véu era egoísta e não abria mão dos mortos facilmente. – Aproxime-se. – Uma voz estrondosa, misturada a uma dúzia de outras, trouxe Zimri de volta à sala do trono. Os Achak haviam se afastado dele, deixando-o exposto diante do Rei Ladrão. Um medo abrasador percorreu Zimri enquanto ele encarava o governante de sua terra natal pela primeira vez. Muitas histórias cercavam o rei, a maioria delas implacável e aterrorizante, mas sua origem se perdera no Não Existe Mais. Engolida pelo abismo que colecionava histórias já não contadas. E, no entanto, sua história não parecia importar para seu povo. Especialmente não para os pais de Zimri, que só falavam de seu governante com reverência. Parecia que a única preocupação do reino era que ele permanecesse como sempre foi: acolhedor a todas as criaturas, depravações, desejos, pecados e dádivas dos deuses perdidos que Aadilor tivesse a oferecer. Nosso reino existe para impedir que o caos se instaure pelo resto de Aadilor, dissera sua mãe durante um dos muitos ensinamentos sobre seu lar. Se um dia você se aventurar para fora dessa cidade escondida nas cavernas, com certeza ouvirá palavras sujas e cruéis sobre o Reino do Ladrão. Apesar da maioria deles nunca ter nos visitado, ou desejado visitar, eles ainda assim nos odeiam. É o que acontece com as pessoas quando não entendem algo, quando temem o que é diferente delas. Mal sabem que suas vidas são como são por causa de nosso reino, de nosso rei. Ele governa um reino selvagem demais para o entendimento do resto de Aadilor. E esse mesmo rei ordenou que Zimri se aproximasse. Com a lasca de força que lhe restava, o menino avançou arrastando os pés, mantendo a atenção na fumaça pulsante que escondia o governante de sua vista. Sua mãe também tinha falado sobre isso. Sabia que nosso rei passa a maior parte do tempo em meio à fumaça, meu querido?, perguntou ela enquanto ele estava na cama sentado, observando a criada ajeitar seu vestido. Seus pais estavam se preparando para uma grande recepção no palácio. Naquele momento, Zimri achou que sua mãe parecia Yuza, a deusa perdida da força, com sua pele negra brilhando de pó dourado e com o adereço em seus cabelos se abrindo com pontas afiadas acima da . 14 .
sua cabeça – o sol ao entardecer. Ele só revela sua verdadeira forma para os poucos em quem confia. Seu peito se inflou de orgulho. Um dia, meu filho, eu sei que vai vê-lo assim como eu e seu pai o vemos. Zimri se perguntaria mais tarde o que sua mãe diria sobre o quanto seu rei acabaria revelando a ele. No momento, ele não conseguia distinguir a borda de sua coroa, braços ou ombros dentro da nuvem escura. Apenas o poder consumidor do rei deslizava do estrado, e com a Visão de Zimri – sua habilidade de ver magia porque ele possuía magia –, ele viu os fios prateados se enrolarem para a frente. As fitas brilhantes de seu rei acariciaram seu braço, chegando a circundar seu pescoço. Um beijo de fria percepção, sentindo que tipo de poder viveria dentro do coração de Zimri. Em resposta, sua própria magia se contorceu em suas veias com inquietação. Esconda, sussurrou ela. Devemos esconder. Mas, embora tivesse apenas nove anos, Zimri sabia que não haveria como se esconder enquanto estivesse no domínio de seu rei. Reunindo toda sua coragem, fez o possível para ignorar a magia inquisitiva e permaneceu imóvel. Pareceu uma eternidade até que os dedos de prata recuassem, permitindo-lhe um suspiro suave, que foi rapidamente roubado quando seu rei proferiu palavras que lhe dilaceraram o peito. – Você perdeu seus pais esta noite. – Uma frase sem sentimento, sem misericórdia, apenas um fato. Você perdeu seus pais esta noite. Não! Uma onda de raiva explodiu em Zimri, suas mãos se fechando em punhos. É mentira. Você mente! – É uma realidade difícil de assimilar para alguém tão jovem – continuou seu rei, como se ele também possuísse dons semelhantes aos de Zimri e conhecesse seu coração. – E mesmo para os muito idosos, mas isso não muda as circunstâncias. É uma grande perda vê-los entrar no Véu. Zimri mordeu o lábio inferior para impedi-lo de tremer, a realidade de sua vida o atingindo em cheio mais uma vez. Como de repente sua raiva se transformou em uma dor exaustiva. – Seus pais eram meus confidentes. – A nuvem de fumaça pulsava a cada palavra do rei. – Briella e Halson realizaram trabalhos importantes para este reino pelo Macabris. – Uma pausa para que a informação fosse assimilada, para que seus nomes conhecidos ecoassem no salão imponente. – Considerando que você cresceu aqui, sem dúvida compreende o valor dos segredos e o que significa ter a verdadeira identidade de alguém em . 15 .
suas mãos. Zimri D’Enieu, da segunda casa nobre de ladrões, seus pais mantinham muitos de seus clientes. Era a troca exigida para hóspedes que desejavam o perdão de dívidas pesadas ou a punição para aqueles que ousassem roubar ou trapacear em Macabris. Um modelo de negócios muito inteligente, e foi assim que eles se tornaram meus conselheiros mais próximos. Um rei precisa saber o que acontece em seu reino, entende? Por isso, reúno aqueles que sabem. Apesar das circunstâncias, Zimri se agarrou avidamente a cada palavra. Seus pais tinham sido os olhos e ouvidos de Sua Graça além do palácio. Pelo menos um deles. O garoto lançou um olhar furtivo para os Achak, atrás dele. Ao perceber a atenção de Zimri, o sorriso dos Achak se iluminou, como se dissesse sim, nós vemos e sabemos tudo o que acontece nesse reino, e muito mais. – Você deve estar se perguntando por que compartilho tudo isso com uma criança – disse o rei, fazendo com que a atenção de Zimri voltasse para a nuvem negra que pairava no ar –, mas antes de responder suas perguntas, você deve responder a três das minhas. Está disposto a fazer essa troca? A magia de Zimri pulsava em suas veias com a expectativa. Embora fosse apenas um menino, ele sentiu que essa era uma daquelas ocasiões em que a semente cairia sobre sua cabeça, mudando seu futuro, assim como aconteceu com a perda de seus pais. Prendeu o ar por duas respirações; seus muitos anos de lições e estudos – tanto dos livros quanto da mãe e do pai – o inundaram. Os fragmentos dos dons sensoriais que a mãe lhe passara em seu nascimento. A história do nome D’Enieu neste reino, o que haviam lhe ensinado que significava: equilíbrio, poder, perspicácia. O que ele precisava defender. Orgulho. Eu devo dar orgulho para minha família. Então ele agiu da única maneira que sabia, usando seus dons. Encontre a verdade, pediu silenciosamente para sua magia enquanto a impulsionava, de onde flutuava quente em seu sangue, para testar o ar. Ele a sentia como uma suave exalação dourada de sua pele, uma leve nuvem se movendo em direção à fumaça escura. Tentou captar o que Sua Graça poderia estar sentindo, desejando que ele fizesse, assim como sua mãe tinha começado a ensinar. Você será capaz de moldá-las um dia, sua mãe explicou. Depois de praticar, será capaz de manipular as emoções que os outros sentem, assim como eu manipulo seus pensamentos. Você será capaz de extrair as confissões mais profundas e obscuras. Ah, meu querido, você será o guardião de tantos segredos, e nós ficaremos tão orgulhosos no dia em que você comandar o Macabris em nosso lugar. . 16 .
Ele ainda não tinha aquelas habilidades tênues de manipulação, então sua magia atingiu, desajeitadamente, um poder denso e impenetrável, sem qualquer sutileza. Uma risada rouca veio do Rei Ladrão. – Eu o elogio por sua ousadia, meu filho – disse ele. – E fico feliz em ver que você tem potencial com seus dons, mas é ingênuo ao pensar que sua magia pode disputar com a deste trono. Zimri reprimiu seus dons, sentindo o rubor em suas bochechas. Ingênuo. – Vou considerar suas ações como curiosidade, no entanto – continuou o rei. – Então, começaremos nossa troca de perguntas, se você concordar. Engolindo em seco, ele assentiu. – Sim, meu rei. Concordo. – Muito bem. Você, Zimri D’Enieu, deseja manter o lugar da sua família em minha corte? O coração de Zimri disparou. Ele não esperava que fosse essa a pergunta do rei. Mas ele mal precisou pensar antes de responder. – Sim. – Você deseja ocupar o lugar de Briella e Halson como meu confidente mais próximo? Ele se sentiu flutuar, leve como uma pluma. – Sim. – Jurará lealdade a esse trono e aos segredos que ele revelará? Uma pausa, o coração batendo forte no peito de Zimri enquanto as palavras de sua mãe o envolviam mais uma vez. Um dia, meu filho, eu sei que você o verá como seu pai e eu o vemos. – Eu juro – disse ele. Como se uma brisa soprasse pela sala do trono, a densa fumaça que envolvia o Rei Ladrão se dissipou, revelando uma figura resplandecente, vestida de branco. A boca de Zimri se abriu de espanto ao contemplar a criatura ofuscante sentada em seu trono de ônix, envolto por detalhes de pérola, marfim e alabastro, a cor de sua pele inexistente sob seu disfarce opulento. Seu adereço de cabeça era um estudo de ornamentação, trançando e camuflando qualquer tom que sua barba tivesse antes da máscara se transformar em chifres afiados e curvados no topo da cabeça. E ali, no centro de seu peito coberto por placas, repousava um crânio branco com dentes pretos. Dentes que combinavam com os olhos envoltos por um véu que observavam Zimri. . 17 .
– Então jure com sangue – ordenou o Rei Ladrão. Num instante, os Achak estavam ao lado de Zimri novamente e, com um estalo, produziram um cilindro de prata intrincadamente esculpido. – Coloque seu dedo na ponta brilhante, meu filho – instruiu. Quando Zimri o fez, uma picada feriu seu dedo, e ele inspirou profundamente, puxando a mão para trás para ver a gota carmesim surgindo na ponta. Sangue. – Um ladrão de segredos – explicaram os Achak em voz baixa enquanto guardavam o objeto no bolso. – O que viu de nosso rei você não conseguirá contar, nem se tentar. Zimri abriu a boca para tentar fazer exatamente isso, mas sua língua congelou e sua mente se dissipou. Mesmo podendo ver o rei em toda sua glória, ele não conseguia pronunciar as palavras para relatar o que vira. Inquieto, Zimri levou a mão dolorida ao peito. – Melhor se acostumar com a dor, jovem – disseram os Achak. – Sem dúvida haverá mais segredos para roubar até amanhã. A magia de Zimri se contorceu desconfortável em seu estômago, junto com seu medo crescente. Que outros segredos? E será que queria mesmo conhecê-los? – Você satisfez este trono nesta noite – disse o rei, os detalhes de sua vestimenta se movendo como escamas de peixe enquanto ele se inclinava em seu assento alto e elegante –, e sem dúvida agradou a seus pais onde eles repousam no Véu. Agora que você honrou sua parte em nosso acordo, irei honrar a minha. Você foi chamado aqui esta noite, Zimri D’Enieu, porque a perda de seus pais deixou um vazio que deve ser preenchido. Um vazio que você expressou o desejo de ocupar um dia. Vantajoso, visto que, segundo o testamento de seus pais, se eles viessem a falecer, Macabris será seu quando atingir a maioridade. O ambiente se desvaneceu enquanto a magia de Zimri vibrava em sincronia com seu pulso acelerado. Macabris será seu. Uma fagulha de esperança despertou em seu peito. Nem tudo estava perdido para seus pais, para seu lar. Macabris será seu quando atingir a maioridade. A esperança foi substituída pela dúvida. Dez anos. Terei que esperar dez anos. – O que acontecerá nesse meio tempo, Vossa Graça? – ousou perguntar. – Os seus bens serão administrados pelo banco de seus pais, o Tesouro Acumulado – respondeu o rei, os dedos enluvados batendo no apoio de braço. – Mas deve entender… as areias movediças raramente mantêm as pessoas ou os lugares como eram antes. Uma década é um longo tempo para . 18 .
Macabris ficar sem um mestre. Parte do clube provavelmente será vendida para alguém que possa administrá-lo em seu lugar. Quando você retornar, se assim quiser, certamente não será o mesmo lugar de quando você partiu. Mas não se preocupe, há muitos caminhos que pode trilhar para se tornar um de meus confidentes, se não estiver destinado a ser pelo Macabris. Seus dons certamente são promissores. Deve ter sido uma cena impressionante ver um menininho endireitar seus ombros com determinação em frente ao rei poderoso. – Eu vou reivindicar o lar de meus pais, Vossa Graça – disse Zimri, desesperado para acreditar em suas próprias palavras –, e quando o fizer, vou me certificar de que Macabris seja o que meus pais sempre desejaram: comandado por um D’Enieu. Seu rei o observou, o olhar sombrio avaliando antes de assentir. – Aguardo ansioso por esse dia, criança, mas hoje à noite você não retornará a Macabris. Virá morar comigo. Zimri piscou, sua mente confusa. – Mas… por quê? Uma resposta imprópria, mas órfãos não são levados para viver com reis. Muito menos com o Rei Ladrão. – Quando se tem algo de valor, cuida-se – explicou ele. – E enquanto eu estiver sentado diante de você, como Rei Ladrão, talvez você descubra que também sou feito de um tipo diferente de pele e osso. – Sua cabeça com chifres se inclinou. – A menos, é claro, que queira tentar a sorte nas ruas do reino. O pânico rapidamente se instaurou em Zimri. – Eu… não, Vossa Graça, não quero. – Então sugiro que faça como ordeno e siga os Achak. Eles o levarão para um aposento privado para que durma. Há muito mais por vir amanhã. – Obrigado, Vossa Graça. Os pensamentos de Zimri rodopiavam enquanto ele se curvava profundamente antes de seguir os Achak por uma porta escondida que deslizava na parede de pedra, no fundo da sala do trono. O ar era mais respirável ali, mais fresco conforme ele andava pelo corredor sombrio. Mesmo assim, não acalmava sua mente agitada. Apesar do cansaço que o oprimia, queimava e implorava para que seus olhos se fechassem, não havia como ele dormir naquela noite. Mesmo quando os Achak o deixaram sozinho em um quarto grande, onde o calor crepitante de uma lareira banhava um tapete grosso e uma cama macia que o convidavam . 19 .
a se deitar, ele não conseguia. Andou de um lado para o outro, repassando os eventos do dia sem parar, sua magia se agitando vertiginosamente em seu sangue, com o pânico crescente. Como vou viver aqui?, pensou. No palácio do Rei Ladrão? Crianças deveriam estar entre essas paredes? Certamente não, considerando as histórias de gritos que ecoam nas masmorras inferiores. E as coisas que ficaram no meu quarto, em casa? Ou Zimri não poderia mais chamar Macabris de lar agora que estava nas mãos do banco de seus pais? Pelos céus e mares, como queria seus pais! A ameaça das malditas lágrimas retornou, embaçando a visão de Zimri, mas agora, sozinho, ele sentiu que poderia se entregar a sua dor. Afundando em uma poltrona, arrancou sua máscara, atirando-a ao chão, e deixou escapar os soluços que lutavam para sair pela garganta. Com os ombros tremendo e a cabeça entre as mãos, chorou ao pensar que nunca mais abraçaria o pai de novo, que nunca mais se aconchegaria ao lado da mãe, sentindo seu perfume ou o cheiro de seus charutos. Chorou por pensar que não tinha dito que os amava antes que partissem e por não lembrar da última vez que sussurraram as mesmas palavras em resposta. Zimri chorou, preenchendo o quarto com a densa nuvem dourada de sua dor – fruta apodrecendo. Chorou até que a melodia leve de um piano começou a invadir o quarto. Limpando o nariz que escorria nas costas da manga do casaco, Zimri ergueu os olhos. Ficou surpreso ao ver sua porta entreaberta, convidando a entrada da canção suave e envolvente. Embora fosse uma canção que nunca tinha ouvido, parecia familiar. As notas falavam à sua melancolia, um sussurro de solidão, ou somente por estar só. Como em um transe, Zimri ficou de pé, enxugando as últimas lágrimas de suas bochechas para seguir a melodia para fora de seu quarto, seguindo um corredor sombrio à esquerda. Arandelas esparsas iluminavam seu caminho antes que ele chegasse à porta de outro quarto. O local também estava escuro, exceto por uma bolha de luz violeta que envolvia uma garota que tocava piano no centro. Seus dedos deslizavam como água sobre as teclas, sua magia emanando dela para iluminar sua camisola marfim e seus longos cabelos trançados, tão negros quanto a própria noite. Seus olhos estavam fechados, a pele branca e os traços delicados não estavam escondidos por nenhuma máscara, mas expostos, relaxados enquanto seu corpo se movia suavemente ao som da música que produzia. Zimri estava tão desacostumado a ver outra pessoa – ainda mais outra criança – sem disfarce que por um instante se esqueceu de que havia deixado sua própria máscara em seus aposentos. . 20 .
Embora não houvesse um livro de música diante da menina, nem partituras para que ela seguisse, ela tocava como se já tivesse ouvido aquela história muitas vezes. A canção fluía de suas mãos. Até que seus olhos se abriram, encontrando os dele, e ela parou. O coração de Zimri disparou, o instinto de fugir o dominando, mas por alguma razão ele não o fez. Ficou ali, enraizado, enquanto ele e a menina envolta em luz púrpura se encaravam. Ela tinha, talvez, a mesma idade dele, com um queixo levemente pontudo e nariz pequeno. Mas os olhos… era ali que ele conseguia ler suas emoções, apesar de seus dons… tão grandes, azuis e expressivos. Desconfiança, diziam eles. – Você está nos aposentos íntimos de minha família – disse uma voz, surpreendentemente autoritária vinda de alguém tão jovem e de aparência tão delicada. – Os Achak me trouxeram aqui – disse Zimri, com a voz rouca de tanto chorar. – Meu quarto é logo ali, no final do corredor. – Seu quarto. – Não havia uma pergunta, mas era como se digerisse a informação enquanto avaliava o que ele havia revelado. – Você parece triste – disse ela por fim. – Estou triste – respondeu Zimri, como só alguém tão jovem poderia: com franqueza. – Meus pais entraram no Véu hoje. – Assim que a verdade saiu de seus lábios, uma onda de náusea o atingiu, a realidade assombrosa revirou seu estômago. Meus pais entraram no Véu hoje. A garota levou um momento para entender a informação, seu olhar permanecendo ligado ao dele com firmeza. – Minha mãe está lá – disse ela depois de uma pausa. – Então eles estão em boa companhia. A tensão nos ombros de Zimri diminuiu um pouco ao ouvir que uma pessoa tão jovem quanto ele poderia conhecer a tristeza que sentia percorrendo seu coração partido. E embora ele e a outra garota não soubessem nada um do outro, Zimri tinha a firme convicção de que, se soubessem, compartilhariam muitas coisas. Era um Entendimento. Algo que vinha de duas almas se tocando e descobrindo que eram feitas de fios, poeira e ossos semelhantes. – Gostaria de se acomodar e ouvir? – perguntou ela em seguida, dedilhando as teclas e enviando uma pequena fração da magia púrpura para iluminar uma poltrona próxima que estava envolta em sombras. Depois de um momento de hesitação, Zimri se aproximou, atravessando a escuridão para chegar até a sua luz. . 21 .
– Pode me dizer seu nome? – perguntou a garota enquanto ele se sentava. Zimri sabia que não poderia responder a tal pergunta, mas ela já tinha visto seu rosto e muita coisa que não deveria ter acontecido tinha acontecido naquela noite, então ele se pegou dizendo: – Zimri. – Zimri – repetiu ela. – É um nome bonito. Ele sentiu a face corar. Nunca disseram isso sobre seu nome, não que muitos o soubessem. Ele era apenas o filho dos D’Enieus. A criança do Macabris. Seu nome será compartilhado com o reino quando significar algo, meu filho, e mesmo assim, seu pai disse uma vez, pode não ser o nome que te demos ao nascer. – Sou Arabessa. – Arabessa – repetiu ele, com a excitação correndo pela espinha. Sua infância não foi repleta de encontros com outras crianças. – Também é bonito. – Eu sei – disse ela, voltando-se para o piano. Enquanto ela deixava os dedos bailarem sobre as teclas, nenhum dos dois falou novamente. Era hipnotizante, como ver o fogo em uma lareira. O que pareciam ser movimentos aleatórios eram, na verdade, propositais. Uma reação. Uma premonição. Zimri não conseguia desviar o olhar. A magia saltava das mãos dela em tons de púrpura enquanto ela despertava nota após nota. Ele nunca tinha sentido tamanha conexão enquanto ouvia música. O que Arabessa tocava capturava tudo o que ele estava sentindo. Toda a tristeza, a solidão, o luto. Tudo o que havia perdido naquele dia. Tudo o que viveria no dia seguinte. Sozinho. Mas agora, com a melodia o envolvendo e com aquela garota e seus acolhedores dons violeta que chegavam à borda de onde ele estava sentado, Zimri não sentia solidão. Pela primeira vez desde que soubera da morte de seus pais, ele sentiu que era visto. Visto por aquela garota, cujos olhos agora estavam fechados, que existia em algum outro lugar. Em um lugar em que Zimri também queria estar. Então ele fechou os olhos e se deixou levar. Quando Zimri os abrisse de novo, estaria deitado na cama do quarto que lhe fora mostrado quando chegou, imaginando se a garota que o fez adormecer era só um sonho em meio aos seus pesadelos. Arabessa. Logo ele descobriria que ela era mais do que real. Ela era outro segredo a ser roubado: a filha mais velha do Rei Ladrão. E ele acabaria se apaixonando por ela.
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