Jacques Fux
Retornos e travessias roseanas Sertão-Veneza



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Copyright © 2026 Jacques Fux
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diretora editorial
Rejane Dias
editor responsável
Schneider Carpeggiani
revisão
Cecília Castro
capa
Diogo Droschi
(sobre ilustração de Liz Foster/Adobe Stock)
diagramação
Waldênia Alvarenga
fotografias das páginas 1 e 96:
Sertão: Jaime Júnior/Adobe Stock
Veneza: Nexus Seven/Adobe Stock
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
Fux, Jacques
Sertão-Veneza : retornos e travessias roseanas / Jacques Fux. -- 1. ed. -- Belo Horizonte, MG : Autêntica Editora, 2026.
Bibliografia.
ISBN 978-65-5928-685-0
1. Crítica literária 2. Ensaios literários 3. Literatura brasileira 4. Rosa, João Guimarães, 1908-1967. Grande sertão veredas I. Título.
26-328889.0
CDD-869.94
Índices para catálogo sistemático:
1. Ensaios literários : Literatura brasileira 869.94
Cibele Maria Dias - Bibliotecária - CRB-8/9427
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Só importa a Beleza. Mas a Beleza é incapturável.
A Beleza é uma porta encruzilhada.
João Guimarães Rosa
Em 9 de outubro de 1949, João Guimarães
Rosa, acompanhado da esposa Aracy, registrou em seus Diários da Itália1 sua partida no trem das 9h15 de Milão para Veneza. Era a primeira vez que visitaria Veneza; uma viagem de fruição, após anos de inquietações. Depois desse dia, o olhar de Rosa para a encantada Veneza – e para a Itália – nunca mais foi o mesmo. E o desejo de retornar, de visitar novamente museus, restaurantes e praças, de observar pombos, passarinhos e gatos, de passear nas gôndolas, capturar e registrar momentos, visões e sensações permaneceu latente até seus últimos dias. Walter Benjamin, no seu livro Rua de mão única, escreveu: “Por meio de Moscou se aprende a ver Berlim mais rapidamente que a própria Moscou”. Durante essa viagem pela Itália – e a partir das observações e anotações – o viaggiatore Rosa conseguiu ver mais rapidamente, e reconheceu afetivamente, outras veredas desse “sertão” insular, milenar e suspenso.
No dia 28 de maio de 1952, Rosa faria outra viagem, ainda mais sensorial e literária. Uma investigação detalhada, uma apurada pesquisa in loco, um retorno ao passado e às memórias de infância. Saindo de Sirga até Araçuaí, acompanhado de seu primo Francisco Moreira, e conduzido por Manuelzão, ele se juntaria a uma boiada de vaqueiros durante a travessia dos mais de 240 quilômetros pelo sertão de Minas Gerais. Nos diários ou cadernos de anotações – A boiada 1 e A boiada 2 2 –, Rosa registraria, assim como já havia feito nos Diários da Itália e no Diário da Alemanha, 3 casos, acasos, minúcias, detalhes, cenários, pessoas, situações, sensações, sentimentos e reminiscências. Benjamin afirmava ser possível dividir o olhar do viajante em dois grupos, o dos autóctones e o dos estrangeiros. Segundo ele, os escritos e registros do primeiro grupo são minoria, já que o motivo superficial, o exótico, o pitoresco só atrai os de fora. Para o autóctone, o importante é resgatar imagens e sensações de sua cidade. Ele tem a motivação de
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quem, ao invés de viajar para longe e se colocar na posição distante e fria de estrangeiro, busca viajar para o passado a fim de se encontrar consigo mesmo. O retrato produzido pelo autóctone terá afinidade com o próprio livro de memórias. Nessas travessias, Rosa, que passou sua infância no sertão, se reconectou e redescobriu sua voz. Quatro anos após essa aventura, seriam lançados Corpo de baile e Grande sertão: veredas.
Sobre o desejo de empreender essa viagem-retorno, Rosa relatou ao amigo Mário Calábria, cônsul do Brasil em Munique:
“Estou-me preparando para, daqui a dias, ir acompanhar, rústica, árdua, autenticamente, uma boiada brava, em percurso de 40 léguas, lá do sertão sagarânico, da fazenda da Sirga –entre buritizais belíssimos e chapadões de matagal inviolado – até a fazenda São Francisco, de um meu primo, lá perto de Cordisburgo.
Já ando nos preparativos, arrumando mochila, cantil, roupa cáqui, pois serão 15 dias no ermo, a carne seca com farinha-de-mandioca e café com rapadura, sob sol, poeira, lama e chuva. Odisseus”. Ao citar a jornada do herói grego, ele se preparava para a sua travessia/retorno ao sertão. Não era a primeira vez: em 1945, esteve em Minas, e suas observações estão em
“Notas da Grande Excursão a Minas”; e, em 1947, em Nhecolândia, no Pantanal MatoGrossense, cujo relato pode ser lido nos textos Com o vaqueiro Mariano, Sanga Puytã, Cipango, Ao pantanal e Uns índios – sua fala. 4
Viagem ao passado. Jornada de sonhos, mitos e místicas. Travessias e reencontros é o que também realizou Italo Calvino. No livro
As cidades invisíveis, o autor italiano5 resgata as suas lembranças – e as lembranças, crenças e criações da cultura italiana – em relação à encantada Veneza – ou às encantadas
Venezas. Esse livro canônico se tornou fundamental para sonhar as inúmeras possibilidades dessa cidade. Por meio de seu personagemprotagonista Marco Polo, Calvino transformou a geografia física e histórica em uma linguagem de símbolos, e a viagem em epifanias.
Ele – criador e criatura – reconstrói as cidades visitadas elucidando o contorno brumoso e “cadavérico” de Veneza – cidade natal do viajante e coração silencioso de toda a narrativa. Cada cidade descrita ao imperador Kublai Khan funciona como um reflexo – mas também como uma distorção – da cidade-mãemito Veneza. Cidade-sonho insular, flutuante, aterrorizante; sempre à beira e à margem, tanto do desaparecimento quanto da eternidade.
Todas as cidades são Veneza, apesar de ser mencionada apenas oitos vezes n´As cidades invisíveis . Em uma delas, Calvino revela o sentimento do autóctone descrito por Walter Benjamin: “– Para distinguir as qualidades das outras cidades, devo partir de uma primeira que permanece implícita. No meu caso, trata-se de Veneza. [...] – Pode ser que eu tenha medo de repentinamente perder Veneza, se falar a respeito dela. Ou pode ser que, falando de outras cidades, já a tenha perdido pouco a pouco”.
Marco Polo, ao passar por cidades-histórias, descreve-as a partir de memórias, desejos, cheiros, sensações, signos, nomes e olhares – assim como fez Rosa em seus diários e anotações. Para Rosa e Calvino, o espaço físico e místico é atravessado por dimensões subjetivas, inventivas e simbólicas; o tempo é diluído de forma paradoxal: na aridez do sertão e nas águas dos canais venezianos. Se Veneza é a cidade-sombra, aquela em que o viajante busca alcançar por meio do véu das metáforas, o sertão “infinito” também só pode ser alcançado como criação.
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