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Robinson Crusoé (Apresentação Maria Valéria Rezende)

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DANIEL DEFOE

Tradução: Márcia Soares Guimarães Apresentação: Maria Valéria Rezende


Copyright © 2021 Autêntica Editora

Título original: Robinson Crusoe Todos os direitos da tradução reservados pela Autêntica Editora Ltda. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

editora responsável e preparação de texto

capa

Sonia Junqueira

Diogo Droschi (sobre ilustração de Vito Quintans)

revisão

Bruna Emanuele Fernandes Júlia Sousa

diagramação

Waldênia Alvarenga

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Defoe, Daniel, 1660-1731 Robinson Crusoé / Daniel Defoe ; tradução Márcia Soares Guimarães. -- 1. ed. -- Belo Horizonte : Autêntica, 2021. -- (Clássicos Autêntica) Título original: Robinson Crusoe ISBN 978-85-513-0596-6 1. Ficção inglesa I. Título. II. Série. 21-57449

CDD-823 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura inglesa 823 Cibele Maria Dias - Bibliotecária - CRB-8/9427

Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500

São Paulo Av. Paulista, 2.073 . Conjunto Nacional Horsa I . Sala 309 . Cerqueira César 01311-940 . São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468

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SUMÁRIO

Apresentação Maria Valéria Rezende .................................................................7 Capítulo I Capítulo II Capítulo III Capítulo IV Capítulo V Capítulo VI Capítulo VII Capítulo VIII Capítulo IX Capítulo X Capítulo XI Capítulo XII Capítulo XIII Capítulo XIV Capítulo XV Capítulo XVI Capítulo XVII Capítulo XVIII Capítulo XIX Capítulo XX

O começo da vida...........................................13 Escravidão e fuga.............................................26 Náufrago em uma ilha deserta.........................39 Primeiras semanas na ilha................................57 A construção da moradia: O diário..................79 Doente e torturado pelo remorso.....................93 A experiência agrícola.................................... 107 Explorando a ilha.......................................... 117 Um barco..................................................... 128 Domesticando cabras.................................... 145 Pegadas humanas na areia.............................. 157 Um refúgio na caverna.................................. 171 O naufrágio de um navio espanhol................ 187 Um sonho realizado...................................... 200 A educação de Sexta-feira............................... 216 O resgate de prisioneiros de canibais.............. 231 A visita de amotinados................................... 248 A retomada do navio..................................... 264 O retorno à Inglaterra................................... 281 A luta entre Sexta-feira e um urso................... 296


APRESENTAÇÃO Maria Valéria Rezende

Caras amigas e amigos que se dispõem a ler ou reler Robinson Crusoé, tenho quase certeza de que nenhum de vocês está abrindo este livro na expectativa de grandes surpresas com o enredo. Estou pronta a apostar que muitos o abrem desejando reviver a experiência que tiveram ao conhecer Robinson e sua ilha deserta através de uma versão adaptada para crianças, um filme, um espetáculo teatral, um seriado de televisão ou pela simples lembrança de inúmeras referências a ele, semeadas pelos mais variados produtos culturais desde a primeira metade do século XVIII, quando foi publicado por Daniel Defoe. Mais de setecentas edições deste livro e outras tantas traduções e adaptações correm o mundo. Se eu estiver certa, se for assim e vocês estiverem prestes a ler o texto completo de Defoe pela primeira vez, saibam que podem, sim, ter surpresas. Quase toda a gente minimamente escolarizada, possivelmente no mundo todo, tem alguma ideia das aventuras de Robinson Crusoé como se fosse um personagem histórico que realmente existiu, enquanto muito menos gente saberia dizer quem foi o “inventor” desse personagem, ou seja, Daniel Defoe. É interessante notar como isso acontece com vários personagens de ficção que ganharam vida própria e se tornaram mais “reais” e conhecidos do que seus criadores. Aconteceu com Ulisses e Penélope, da Odisseia, com Dom Quixote, com Alice e o Chapeleiro Louco, o Coelho Branco e a Rainha de Copas, com Gulliver, com Capitu e tantos outros de quem vocês certamente se lembrarão, muitas vezes hesitando ao tentar nomear seus autores: Homero, Cervantes, Lewis Carroll, Jonathan Swift e até mesmo nosso Machado de Assis... 7


Para alguns teóricos – sobretudo britânicos, é claro – Robinson Crusoé inaugurou o romance moderno, mas essa é uma discussão interminável, verdadeiro duelo entre Robinson e Dom Quixote de La Mancha, apesar de seus autores estarem separados por um século! O certo é que este livro é herdeiro e segue a receita de um tipo de narrativa muito disseminado na Europa dos séculos XVI, XVII e XVIII, período da expansão colonial europeia pelo mundo afora, cenário de uma competição desenfreada e aventurosa pelo domínio dos mares, dos pontos de comércio ou de coleta e das rotas de transporte das riquezas que se supunha, ou se sabia, haver nos outros continentes – que os europeus se achavam no direito de “descobrir” e, por isso, dominar. Histórias foram contadas e recontadas – através de pinturas em cavernas (talvez o ancestral remoto das atuais HQs), ou em longas conversas em torno de fogueiras, ou recitadas como profecias do alto dos montes, ou cantadas ao som de uma lira na região do Mediterrâneo, como até hoje se cantam ao som de uma sanfona nos nossos sertões – muito antes de serem registradas por escrito. E aí entra o longo desenvolvimento da própria escrita, durante o qual essas histórias foram caligrafadas em blocos de pedra ou barro, em papiros, na Bíblia ou no Alcorão e em outros livros sagrados de diferentes povos, por um Homero, na Ilíada e na Odisseia, ou em folhetos de cordel, como nas feiras nordestinas, e, finalmente, impressas em livros como os que chegam tão abundantemente até nós; e, provavelmente, sem as histórias a espécie humana não teria desenvolvido sua capacidade de pensar e falar. (Vocês podem achar que os parágrafos anteriores estão longos demais, com excesso de alusões a coisas passadas. Eu proponho considerá-los como um “aquecimento”, uma preparação para o texto sobre Robinson Crusoé! E vamos continuar, sigamos aquecendo-nos. Concordo, porém, que ninguém é obrigado a ler apresentações, mas ouso pedir que continuemos juntos um pouco mais, pois creio que assim estaremos mais atentos a uma série de implicações do romance de Daniel Defoe.) Note-se que quase todas as narrativas que mencionei tratavam de viagens – por milênios fomos todos nômades, lembram? – e procuravam conservar preciosamente e transmitir aos mais novos a experiência do mundo que os mais velhos iam acumulando. Talvez, se nos pusermos a pesquisar ou a relembrar, descobriremos que a maioria das narrativas 8


que fizeram sucesso e permaneceram na literatura “universal”, ou que simplesmente nos marcaram muito em certos momentos de nossa vida, tratam de viagens, seja em sua forma original, seja através de adaptações e reelaborações. Quem nunca ouviu falar de Moby Dick? É interessante também notar que a ideia de que a literatura de ficção deve ser encarada somente como texto, como construção de linguagem a ser analisada apenas do ponto de vista estrutural, não importando o que o autor quis dizer ou por que e para que a escreveu, é uma ideia muito recente. Percorrendo-se, mesmo em largos passos, a história da literatura e situando as obras nos contextos em que foram escritas ou reescritas, podemos perceber que sempre se produziram histórias para “pregar” ou “ensinar” alguma coisa. Esse tipo de livro ainda tem muitíssimos mais leitores que os livros de “vanguarda” ou “pós-modernos”, que “não querem dizer nada” a não ser “jogar com as palavras”. Os livros agora chamados de “autoajuda” ainda se servem de narrativas, fábulas, lendas, parábolas para induzir-nos a pensar ou a compreender outra coisa. Nem é preciso citar o exemplo do enorme sucesso de escritores que seguem declaradamente essa linha. Pois bem, conhecendo-se um pouco a biografia de Daniel Defoe, pode-se desconfiar que não foi apenas para ensinar sinceramente alguma coisa em que acreditava que ele escreveu Robinson Crusoé. Pode ter sido para conseguir ganhar dinheiro suficiente para sair de enrascadas. Na época, conseguiam um enorme sucesso de vendas os livros que contavam “a verdade” sobre outras terras, os perigos das viagens, que cuidados tomar para servir-se das correntes marinhas e dos ventos em vez de ser destruído por eles, como lidar com os “selvagens”, como distinguir os “bons selvagens” dos “maus canibais”, como se alimentar, construir abrigos etc. Desde o século XVI, pelo menos, circulavam e multiplicavam-se livros com relatos de aventureiros, navegantes, piratas, corsários, contando suas peripécias pelos “novos mundos”, a excitar a curiosidade e o entusiasmo de todos aqueles que sonhavam lançar-se ao mar para voltar imensamente ricos. Interessante é ver que o Brasil era assunto de muitos deles, desde o supostamente “verdadeiro relato” feito pelo mercenário alemão Hans Staden (1557), até a narrativa “ficcional” ou o “romance” de Daniel Defoe narrado por seu Robinson (publicado em 1719, contando uma história que teria se iniciado em 1660 e durado cerca de trinta anos!). 9


Para que seu romance fosse tomado a sério desse ponto de vista, Defoe não hesitou em simplesmente plagiar muito do que já se havia publicado como sendo “relatos verdadeiros de exploradores e náufragos”, principalmente das memórias do marinheiro escocês Alexander Selkirk (1676-1721), de quem ele simplesmente copia uma série de detalhes concretos para que seu livro funcione, ou pareça funcionar, como um bom guia para navegantes candidatos a náufragos – hipótese muito forte naqueles tempos, diga-se. Por outro lado, a partir do século XVI a Europa foi atravessada por conflitos político-religiosos, desde que o caso de Lutero desencadeou o que genericamente se chama de Reforma Protestante, mas que de fato foi – com o rompimento da hegemonia do catolicismo, que se mantivera durante a Idade Média através de sua cooptação pelos governantes – uma complexa e longa história de fragmentações, conflitos, alianças, novos rompimentos político-religiosos que nunca mais cessaram no âmbito dos que se declaram cristãos. O indivíduo daquele tempo, para se sentir seguro e contar com proteção e aliados naquela realidade de guerras incessantes, tinha de escolher seu lado e mostrar-se fiel a serviço da crença a que se filiava e que perpassava todos os aspectos da vida social. Assim, a narrativa de Robinson-Defoe é entremeada de reflexões teológicas de corte “calvinista”, descrevendo seu caminho de sofrimento até o arrependimento, a conversão através da leitura da Bíblia, o reconhecimento da fé como única salvação, independentemente das ações, a percepção da situação que o obriga a refletir e a “distrair-se” com a Bíblia, único livro resgatado do naufrágio, como sinal de predestinação à salvação. Quando se conhece a biografia de Daniel Defoe, porém, antes e depois da publicação de Robinson, é possível indagar, sem nada poder provar, se sua teologia e a moral que prega eram sinceras ou apenas mais um meio de garantir a boa aceitação e o sucesso comercial de seu livro. Parece que o próprio Defoe nunca chegou a pôr em prática os ensinamentos de Robinson. Outra questão que dá o que pensar e aparece sob várias formas no romance é a intensa discussão instaurada pelo Iluminismo quanto à natureza humana (Hobbes, Locke, Rousseau etc.): um infindável debate entre a concepção do “homem como lobo do homem” e a concepção do “bom selvagem”. Ambas, porém, resultando na necessidade de um contrato social que limitasse a intervenção do Estado na sociedade e na exaltação do 10


individualismo necessário à implantação definitiva do capitalismo ainda imaturo. Nenhuma delas, sabe-se, foi capaz de opor-se à escravização dos “selvagens”, já que era útil à acumulação de capital. Não se havia ainda criado um proletariado totalmente desprovido de bens a não ser sua própria mão de obra e obrigado a alugá-la por preço vil – mais lucrativa para os patrões do que a mão de obra escravizada, que custava caro e se pagava adiantado e à vista (aos traficantes, bem entendido). Por falar em “bom selvagem”, quem nunca ouviu falar do Menino Selvagem (cujo nome era Victor de Aveyron), verdadeiro precursor do ficcional Tarzã, criado pelo escritor norte-americano Edgar Rice Burroughs no livro publicado em 1911, ou de Mogli, o Menino Lobo, e do Kim de Rudyard Kipling, e assim por diante? Note-se ainda que a detalhada descrição do trabalho para sobreviver na solidão – que Defoe atribui à pena de Robinson – pode ser lida como uma demonstração de que a inteligência e o esforço próprio, a aceitação do sacrifício no presente com vistas na riqueza, a se obter a médio ou longo prazo, e o merecimento da riqueza que assim se obtém servem perfeitamente à construção do mito do self-made man, indispensável ao estabelecimento da exploração capitalista. Enfim, justamente por nos abrir os olhos para a complexidade da História humana e da história dos livros, além de fazer-nos lembrar que “no início” éramos apenas nós, seres naturais, e que, pela observação, pela reflexão, pela experimentação e pelo trabalho, em relação com a natureza inteira, construímos o mundo perigoso em que vivemos agora e, portanto, com essas mesmas capacidades, podemos refazê-lo para novos e mais esperançosos caminhos –, por tudo isso, vale demais a pena ler este eterno Robinson Crusoé e sua história de recomeços.

MARIA VALÉRIA REZENDE é autora de Outros cantos, Quarenta dias, Carta

à Rainha louca, No risco do caracol, Ouro dentro da cabeça (com prêmios como Jabuti, São Paulo de Literatura, Casa de las Américas, Oceanos, entre outros) e mais de vinte outros livros de ficção e não ficção, para adultos, crianças e jovens. Educadora popular, nascida em Santos, vive no Nordeste desde 1972. 11


Capítulo I O COMEÇO DA VIDA

Nasci no ano 1632, na cidade de York, em uma família muito boa, embora não fosse inglesa. Meu pai, alemão, veio de Bremen e se estabeleceu em Hull, onde conseguiu uma condição financeira satisfatória trabalhando com comércio. Algum tempo depois, deixou o ofício e mudou-se para York, onde se casou com minha mãe, cuja família se chamava Robinson, era muito prestigiada naquele país e deu origem a meu nome: Robinson Kreutznaer. Porém, pela habitual corrupção das palavras na Inglaterra, agora somos chamados – mais que isso, nós mesmos nos chamamos e assinamos Crusoé; e é assim que meus amigos sempre me chamaram. Tive dois irmãos mais velhos. Um deles era tenente-coronel de um regimento de infantaria inglês em Flandres, região norte da Bélgica, comandado, na época, pelo famoso coronel William Lockhart; foi morto em uma batalha perto de Dunquerque, na França, contra os espanhóis. O que foi feito de meu segundo irmão eu nunca soube nada além do que meu pai ou minha mãe souberam a respeito do que foi feito de mim. Sendo o terceiro filho da família e não tendo sido preparado para nenhum ofício, muito cedo minha cabeça começou a ficar cheia de sonhos. Meu pai, já idoso, tinha me dado uma quantidade suficiente de conhecimentos – até onde, geralmente, podem chegar uma educação em casa e uma escola gratuita de uma cidade do interior. Ele queria que eu estudasse Direito, mas a única coisa que me satisfaria era ir para o mar, e essa inclinação se opôs tão fortemente à vontade, ou melhor, às ordens de meu pai e a todas as súplicas e tentativas de persuasão de minha mãe e de outros amigos, que parecia haver alguma coisa fatal naquela tendência natural que me levou diretamente à vida de sofrimento que tive de enfrentar mais adiante. 13


Meu pai, um homem sábio e severo, me deu conselhos sérios e brilhantes para que eu evitasse o que, ele previu, seria meu destino. Certa manhã, ele me chamou até seu quarto, onde estava confinado pela gota, e conversou afetuosamente comigo sobre o assunto. Quis saber que motivos eu tinha, além de uma mera inclinação para a vida nômade, para deixar a casa de meus pais e minha terra natal, onde eu certamente poderia ter uma boa introdução na sociedade e, com dedicação e disciplina, condições para fazer uma fortuna satisfatória e desfrutar de uma vida tranquila e prazerosa. Disse que eram os homens em situação de desespero, por um lado, ou aqueles com ambições por fortunas ainda maiores, por outro, que partiam para países estrangeiros em busca de aventuras, ou para ascender socialmente por meio da iniciativa privada, e se tornar famosos à custa de empreendimentos realizados por caminhos diferentes dos convencionais. Falou que essas coisas estavam muito abaixo ou muito acima de mim, já que minha condição era mediana, podendo até ser chamada de superior, dentro da categoria inferior. Argumentou que tinha concluído, por longa experiência, que essa posição era a melhor do mundo, a mais propícia para a felicidade humana: livre das adversidades e das dificuldades, do trabalho e do sofrimento vividos pela parcela mecânica da humanidade, mas também livre do orgulho, do luxo, da ambição e da inveja que caracterizam a camada superior da humanidade. Falou que eu poderia avaliar a felicidade que essa posição trazia se pensasse que era ela a condição de vida que todas as outras pessoas invejavam; que reis, frequentemente, lamentavam a triste consequência de terem nascido para grandes glórias e desejavam ter vindo ao mundo entre os dois extremos, o pequeno e o grande; que Salomão, um homem sábio, testemunhou que essa era a verdadeira felicidade quando pediu, em sua prece, para não ter nem a pobreza nem a riqueza. Meu pai afirmou que bastava observar ao meu redor para entender que as calamidades da vida eram sempre compartilhadas pelas camadas mais alta e mais baixa da humanidade; e que a intermediária sofria o menor número de desastres e não ficava exposta a tantas adversidades como estavam a superior e a inferior. Mais ainda, que seus integrantes não estavam sujeitos a um número tão grande de destemperos e desconfortos, tanto do corpo quanto da mente, como os que – por vícios, luxos e extravagâncias, por um lado; ou por trabalho duro, privação das necessidades básicas e alimentação pobre e insuficiente, por outro –, como consequência de seu 14


modo de vida, trazem problemas para si mesmos. Garantiu que a posição intermediária era a mais adequada para todo tipo de virtude e todo tipo de satisfação; que a paz e a plenitude eram os suportes de uma fortuna intermediária; que a temperança, a moderação, a tranquilidade, a saúde, a sociedade, todas as diversões agradáveis e todos os prazeres desejáveis eram as bênçãos dedicadas àqueles de posição intermediária. Assim, meu pai afirmou, essas pessoas passam pelo mundo silenciosa e suavemente, e dele saem confortavelmente, sem o cansaço do trabalho físico ou mental excessivo, sem precisar se submeter a uma vida de escravidão em troca do pão de cada dia, sem se afligir por circunstâncias difíceis, que roubam o descanso do corpo e a paz da alma. Não se enraivecem com o ardor da inveja ou com o desejo secreto e abrasador das grandes ambições. Em circunstâncias simples, elas deslizam mansamente pelo mundo, saboreando prudentemente as coisas doces da vida, sem conhecer as amargas; sentindo que são felizes e aprendendo, com a experiência diária, a avaliar mais sensatamente a própria condição. Depois, ele me pressionou seriamente, mas de maneira muito afetuosa, a não agir imaturamente, a não me precipitar nos tormentos dos quais a natureza e minha posição na sociedade pareciam ter se incumbido de me livrar. Alegou que eu não precisava lutar pelo meu pão; que ele me proveria do que fosse necessário e se empenharia em me introduzir adequadamente na condição de vida que me recomendava naquele momento. Disse ainda que, se eu não estivesse à vontade e feliz no mundo, só podia ser ou porque esse era meu destino, ou por minha própria culpa. Sendo assim, ele não teria de responder por nada mais, já que estava se desincumbindo de seu dever de me alertar contra decisões que, sabia, seriam maléficas para mim. Em resumo, meu pai deixou claro que faria muito por mim se eu ficasse em casa e me estabelecesse da forma como me aconselhava; porém, não me encorajaria a partir, pois não queria ter nenhuma responsabilidade sobre minha futura infelicidade. E, para finalizar, falou que eu tinha como exemplo meu irmão mais velho, pois ele havia usado os mesmos argumentos para convencê-lo a não ir para as guerras da Holanda, mas, mesmo assim, os desejos juvenis de meu irmão o levaram a entrar para o Exército, onde acabou sendo morto. Por fim, meu pai afirmou que, embora não fosse deixar de rezar por mim, tinha de esclarecer que, se eu realmente desse aquele passo insensato, Deus não 15


me abençoaria, e, quando não houvesse ninguém para me auxiliar em meu restabelecimento, eu teria tempo de sobra para refletir sobre o fato de não ter escutado seus conselhos. Nessa última parte de seu discurso – verdadeiramente profética, embora eu ache que ele não soubesse realmente disso –, as lágrimas correram abundantemente por seu rosto, sobretudo quando mencionou meu irmão morto na guerra. Percebi também que, no momento em que disse que eu teria tempo para me arrepender e não haveria ninguém para me ajudar, ficou tão comovido que interrompeu seu discurso e contou que seu coração estava tão apertado que não conseguiria dizer mais nada. Fiquei bastante emocionado com aquela conversa – sinceramente, quem não ficaria? Decidi não pensar mais em viajar para o exterior, e me estabelecer em minha terra, de acordo com o desejo de meu pai. Entretanto, infelizmente, bastaram poucos dias para que essa decisão desaparecesse totalmente de meus pensamentos; e, para evitar que meu pai voltasse a me importunar, passei a evitá-lo. Porém, não agi tão precipitadamente quanto o primeiro impulso da minha nova resolução me instigava a fazer. Quando achei que minha mãe estava mais tranquila do que habitualmente, disse a ela que minha mente estava tão voltada para conhecer o mundo que eu nunca conseguiria me fixar em nada com determinação suficiente para continuar. Falei que seria melhor meu pai me dar seu consentimento do que me forçar a partir sem sua permissão; que eu tinha 18 anos de idade, e estava tarde demais para me tornar aprendiz de algum ofício, ou funcionário de algum advogado. Expliquei que tinha certeza de que, se fizesse isso, eu certamente acabaria fugindo de meu mestre antes de cumprir meu dever até o fim, e iria para o mar; que, se ela pedisse a meu pai para me deixar fazer uma viagem para fora do país e eu não gostasse e voltasse para casa, não partiria nunca mais e prometia trabalhar e me esforçar, com dedicação e persistência, para recuperar o tempo perdido. Minhas palavras deixaram minha mãe muito abalada; disse que não adiantaria discutir com meu pai sobre esse assunto, que ele sabia muito bem qual era meu interesse e jamais daria seu consentimento em algo que fosse me prejudicar muito. Afirmou, ainda, que não entendia como eu podia continuar pensando nisso, depois da conversa que havia tido com meu pai e de todas as palavras gentis e carinhosas que, ela sabia, ele havia usado comigo. Resumindo, minha mãe afirmou que, se eu realmente 16


queria me arruinar, então era inevitável, mas eu podia ter certeza de que nunca teria o consentimento deles. E que ela não contribuiria, de modo algum, para minha destruição, e que eu jamais poderia dizer que minha mãe disse “sim” quando, por sua vez, meu pai disse “não”. Embora ela tenha se recusado a conversar com meu pai sobre o assunto, fiquei sabendo depois que minha mãe tinha lhe contado nossa conversa, e que ele, demonstrando grande preocupação, suspirou fundo e disse: – Esse rapaz poderia ser feliz se ficasse em casa. Porém, se sair do país, vai ser o desgraçado mais infeliz que já nasceu. Não posso consentir nisso. Foi só quase um ano depois que parti, apesar de, durante todo esse tempo, eu ter ficado obstinadamente surdo a todas as propostas de trabalho fixo e ter discutido frequentemente com meus pais sobre eles serem tão radicalmente contra o caminho para o qual, sabiam, minha inclinação me levava. Entretanto, certo dia em que eu estava em Hull – aonde ia casualmente – e não tendo, naquele momento, nenhum plano para fugir, encontrei um amigo que ia navegar até Londres no barco de seu pai. Ele me convidou para ir junto e usou o argumento sedutor comum aos marinheiros: eu não teria que pagar passagem. Não consultei meu pai nem minha mãe, nem os avisei de minha partida: deixei que soubessem de qualquer outro modo. Sem pedir a bênção de Deus ou a de meu pai, sem levar em consideração as circunstâncias e as consequências e em má hora – Deus sabe! – parti, no dia 1º de setembro de 1651, a bordo de um navio com destino a Londres. Acredito que os infortúnios de um jovem aventureiro nunca tenham começado tão cedo ou durado tanto tempo quanto os meus. O navio mal havia se afastado do grande estuário Humber, na costa leste do norte da Inglaterra, quando o vento começou a soprar, e o mar, a se levantar da maneira mais assustadora. Como eu nunca tinha estado no mar, senti meu corpo indescritivelmente mal, e a mente, aterrorizada. Naquele momento, comecei a refletir seriamente sobre o que havia feito e a perceber o quanto era justo sofrer aquela sentença divina por ter deixado perversamente a casa de meu pai, abandonando meu dever. Todos os bons conselhos, as súplicas de minha mãe e as lágrimas de meu pai me voltaram ao pensamento; minha consciência, ainda não tão endurecida como se tornou a partir de então, me repreendeu por ter desprezado aqueles conselhos e violado meus deveres para com Deus e meu pai. 17


Enquanto isso, a tempestade piorou e o mar subiu muito, embora bem menos do que pude ver várias vezes, desde então; aliás, nem tanto quanto vi poucos dias depois. Entretanto, foi o suficiente para me impressionar naquele dia, pois eu era apenas um jovem marinheiro que jamais tinha visto nada semelhante. Tinha medo de cada onda daquelas nos engolir e, toda vez que o navio se inclinava muito, achava que chegaríamos ao fundo do mar e nunca mais voltaríamos à superfície. Nessa agonia mental fiz muitos juramentos e tomei muitas decisões. Prometi que, se fosse do gosto de Deus poupar minha vida, se algum dia eu pisasse em terra firme de novo, eu voltaria diretamente para a casa de meus pais e nunca mais subiria a bordo de um navio enquanto vivesse. Jurei que seguiria os conselhos deles e jamais me sujeitaria a desventuras como aquela. Ali, pude ver claramente o quanto eram boas as observações de meu pai a respeito da condição intermediária; o quanto ele tinha vivido com simplicidade e conforto todos os seus dias, sem nunca ter sido exposto a tempestades no mar ou grandes dificuldades em terra firme. Decidi então que voltaria para casa, como um verdadeiro filho pródigo arrependido. Esses pensamentos sábios e sensatos continuaram por todo o tempo que durou a tempestade e, na verdade, algum tempo depois dela. Mas no dia seguinte, com o vento menos intenso e o mar mais calmo, comecei a me habituar com a situação. No entanto, me senti muito mal o dia inteiro, e também um pouco nauseado. No fim da tarde, o céu clareou, o vento praticamente sumiu, e seguiu-se uma noite encantadoramente bela: o mar estava tranquilo, não havia nuvens quando o sol se pôs nem na manhã seguinte, quando se levantou. Com pouco ou nenhum vento e o sol brilhando sobre o mar sereno, pensei que aquela paisagem era a mais deslumbrante que já tinha visto em toda a minha vida. Eu havia dormido bem e o enjoo tinha passado; me sentia alegre, olhando maravilhado para o mar, bravio e terrível no dia anterior e calmo e agradável agora, tão pouco tempo depois. Então, o amigo que tinha me atraído para aquela viagem se aproximou... e minhas decisões não se concretizaram. – E aí, Bob? – disse, dando um tapinha amigável em meu ombro. – Como se sente depois do que houve ontem? Garanto que ficou com medo, não ficou? Ontem, quando tivemos aquela brisa repentina... 18


– Você disse brisa repentina?! – exclamei. – Foi uma tempestade terrível! – Uma tempestade?! Não seja tolo – ele respondeu. – Chama aquilo de tempestade? Ora, aquilo não foi nada. Com um bom navio e espaço livre e suficiente para manobrá-lo, rajadas de vento como aquela não são nada. Você é um marinheiro inexperiente, Bob. Venha, vamos fazer um jarro de ponche e esquecer tudo isso. Viu como o tempo está agradável agora? Para resumir essa parte triste de minha história, fizemos o que fazem todos os marinheiros. O ponche foi preparado, e fiquei relativamente embriagado com ele. Na extravagância daquela noite, afoguei todo o arrependimento, todas as reflexões sobre minha conduta recente e todas as resoluções para o futuro. Do mesmo modo que o mar retornou à sua superfície suave e permaneceu calmo depois da tempestade, a agitação de meus pensamentos também teve fim: meu medo e minha apreensão de ser engolido pelo mar foram esquecidos, meus desejos anteriores voltaram, e apaguei completamente os juramentos e as promessas que tinha feito em desespero. Na verdade, tive alguns momentos de reflexão, e os pensamentos sérios realmente tentaram retornar algumas vezes. Mas eu os atirava para longe e me livrava deles, como se fossem uma doença. Entregando-me à bebida e à companhia de meu amigo, logo dominei a insistência desses “ataques”, pois era assim que eu os chamava. Em cinco ou seis dias já tinha conseguido, sobre minha consciência, a vitória mais completa que um jovem decidido a não ser incomodado por ela poderia desejar. Ainda enfrentaria muitas outras adversidades, e a Providência, como costuma fazer em casos como esse, resolveu me deixar inteiramente sem perdão. Já que eu não tinha considerado aquele episódio como uma salvação, o próximo seria tão aterrorizante que até mesmo o pior e mais endurecido homem entre nós reconheceria o perigo que corríamos e suplicaria por misericórdia. No sexto dia de viagem chegamos à enseada de Yarmouth, na costa leste da Inglaterra. Como o vento tinha sido contrário e o mar tinha estado muito calmo, avançamos pouco depois daquela tempestade. Fomos obrigados a permanecer na enseada por sete ou oito dias, durante os quais o vento continuou contrário, vindo de sudoeste. Durante esse tempo, 19


muitos navios de Newcastle chegaram a Yarmouth, onde podiam esperar um vento propício para entrar no rio. Não deveríamos ter ficado ali por tanto tempo, e sim subido o rio com a maré; mas o vento estava muito forte e, depois de uns quatro ou cinco dias, ficou ainda mais desfavorável. Como a enseada de Yarmouth era considerada um bom porto, com ancoragem segura, e nossos cabos e âncora eram muito resistentes, nossos homens estavam despreocupados e nem um pouco apreensivos com o perigo; passavam o tempo descansando e se divertindo, da maneira como fazem os marinheiros. Na manhã do oitavo dia, o vento aumentou, e todos nós tivemos de trabalhar para baixar os mastros e deixar tudo amarrado e preso para que o barco pudesse navegar da forma mais fácil possível. Por volta de meio-dia, o nível do mar subiu muito, e o castelo de proa do navio foi atingido por várias ondas, e com tanta violência, que chegamos a pensar que nossa âncora tinha se soltado. Então, nosso comandante ordenou que soltássemos a âncora sobressalente usada em casos de emergência; ficamos com duas âncoras e fomos afrouxando os cabos gradativamente. Àquela altura, houve uma tempestade realmente forte, e comecei a ver terror e espanto até mesmo no rosto dos marinheiros. O comandante tomava todas as providências necessárias para salvar o navio, mas, quando passava por mim, entrando ou saindo de sua cabine, pude ouvi-lo dizer várias vezes para si mesmo, em voz baixa, coisas parecidas com: – Senhor, seja misericordioso conosco! Estamos perdidos! Estamos acabados! Durante os primeiros momentos dessa agitação, fiquei estarrecido, imóvel em minha cabine, que ficava na popa do navio. Não sei descrever o que sentia. Não me achava no direito de repetir aquele primeiro juramento, pois eu o havia claramente desprezado e renegado. Achei que a amargura da morte tinha ficado para trás e que aquela tempestade seria bem diferente da primeira, mas, quando o comandante passou por mim dizendo que estávamos perdidos, fiquei terrivelmente apavorado. Saí da cabine e olhei para fora. Nunca vira panorama tão sinistro: o mar se elevava à altura de montanhas, e as ondas se quebravam sobre nós a cada três ou quatro minutos. Quando pude olhar ao meu redor, não vi nada além de aflição por todos os lados. Percebemos que os marujos já tinham cortado os mastros em dois navios perto do nosso. Nossos homens 20


gritaram que outra embarcação, que seguia a pouco menos de dois quilômetros à nossa frente, tinha naufragado. Dois outros navios, cujas âncoras haviam sido içadas, saíam de Yarmouth, aventurando-se para o alto-mar sem nenhum mastro de pé. Os barcos mais leves suportavam melhor a chuva e o vento, não se inclinavam tanto quanto os maiores. Ainda assim, dois ou três deles avançaram com apenas uma vela desfraldada e passaram bem próximo de nós. Perto do anoitecer, o piloto e o contramestre imploraram ao capitão que os deixasse cortar o mastro dianteiro, mas ele resistiu muito. No entanto, quando o contramestre protestou dizendo que, caso isso não fosse feito, o barco naufragaria, ele consentiu. Depois que cortaram o mastro dianteiro, o mastro principal ficou tão frouxo e fez com que o navio balançasse tanto, que foram obrigados a cortá-lo também, deixando o deque descoberto. Qualquer pessoa pode imaginar como eu estava aflito em meio a tudo isso, sendo apenas um jovem marinheiro que já tinha sentido todo aquele medo antes, mas por pouco tempo. Se sou capaz de expressar, após tanto tempo, meus pensamentos naquela situação, digo que tive dez vezes mais horror ao me dar conta de minhas convicções anteriores e de que tinha voltado atrás em minhas decisões e retomado o maldito caminho que havia seguido ao sair da casa de meus pais. Essa reflexão me aterrorizou mais do que a própria morte. Isso, somado ao pavor da tempestade, me deixou de um jeito que não há palavras que possam descrever. O pior ainda não tinha acontecido. A tempestade continuou com tanta fúria que os próprios marinheiros admitiram que nunca haviam passado por uma pior. Tínhamos um bom navio, mas ele estava bastante carregado e balançava tanto que os marujos gritaram várias vezes que ele ia soçobrar. De certa forma, tive a sorte de não saber, na ocasião, o que queriam dizer com “soçobrar”. Só depois, quando perguntei, me disseram que significava “naufragar”. A tempestade era tão violenta que vi o que raramente é visto: o comandante, o contramestre e outros homens mais sensatos do que o resto fazendo suas preces e esperando o tempo todo que o navio afundasse. Para aumentar ainda mais nosso sofrimento, um dos homens que haviam descido no meio da noite para inspecionar a parte inferior do navio, gritou que estava entrando água. Em seguida, outro disse que já havia mais 21


de um metro de altura de água no porão. Então, todos foram chamados para ajudar com a bomba. Naquele momento, na cabine, pensei que meu coração tinha acabado de morrer dentro de mim e caí para trás, sobre o lado de cama onde estava sentado. Logo depois, os homens me levantaram e disseram que eu, que até então não havia tido capacidade para ajudar em nada, estava tão apto para trabalhar na bomba quanto qualquer outro. Isso me encorajou: fui imediatamente até lá e trabalhei vigorosamente. Enquanto isso, o comandante, ao ver dois pequenos navios-carvoeiros que, incapazes de suportar a tempestade, foram obrigados a fugir para o alto-mar, passando bem perto de nós, ordenou que fosse disparado um tiro de canhão, como sinal de alarme. Eu, que não sabia de nada sobre aquilo, pensei que o navio tivesse batido e se arrebentado, ou que qualquer outra coisa terrível tivesse acontecido. Em resumo, fiquei tão surpreso que caí desmaiado. Como aquela era uma ocasião em que cada um se preocupou somente em salvar a própria vida, ninguém se importou comigo ou com o que havia me acontecido. Outro homem assumiu meu lugar na bomba, depois de me chutar para o lado, achando que eu estava morto. E lá fiquei jogado, durante bastante tempo, até recuperar os sentidos. Continuamos a trabalhar, mas o nível de água no porão subia continuamente, e tudo indicava que o navio ia afundar. Embora o temporal tivesse diminuído, ainda não era possível navegar até algum porto. O comandante continuou a atirar para pedir ajuda. Um navio menor que seguia um pouco à nossa frente arriscou-se a lançar um bote para tentar nos socorrer. E foi enfrentando um enorme perigo que o bote tentou se aproximar de nosso navio; mas, para nós, era impossível alcançá-lo, e, por outro lado, seus tripulantes também não estavam conseguindo emparelhar com nosso barco. Por fim, enquanto eles remavam com todas as suas forças, arriscando as próprias vidas para salvar as nossas, nossos homens lhes atiraram, da popa, um cabo com uma boia na ponta. Depois, foram girando o navio até que, com muito trabalho e grandes riscos, os marujos do bote alcançaram a boia e pudemos puxá-los para perto de nossa proa, por onde nós todos descemos para entrar no bote. Sabíamos, tanto eles quanto nós, que não adiantava pensar em voltar ao seu navio; foi unânime a decisão de deixar o bote ao sabor do vento, 22


fazendo tudo o que era possível para tomar o rumo da costa. Nosso comandante prometeu a eles que, se o bote fosse arruinado ao chegar à costa, ele arcaria com o prejuízo. Com uns remando e os outros pilotando, o bote seguiu para o norte, e nos aproximamos do litoral na altura de Winterton Ness, no condado de Norfolk. Pouco mais de quinze minutos depois que abandonamos nosso navio, assistimos ao seu naufrágio, e eu realmente entendi o que era um navio “soçobrando” no mar. Devo reconhecer que mal tive força para olhar quando os marinheiros me disseram que ele estava afundando, pois, desde o momento em que embarquei – ou, melhor dizendo, fui colocado – naquele bote, meu coração parecia morto dentro de mim, em parte de medo, em parte de horror aos pensamentos sobre o que eu ainda tinha pela frente. Enquanto estávamos nessa situação – os homens ainda trabalhando duramente com os remos, para aproximar o bote da costa –, podíamos enxergar, nos momentos em que nosso barco ficava na crista das ondas e o litoral se tornava visível, uma grande quantidade de pessoas correndo ao longo da praia, para nos ajudar quando estivéssemos mais próximos. Mas nosso percurso até lá foi bastante lento; só conseguimos chegar depois que passamos o farol de Winterton, onde a costa rumava para oeste, na direção de Cromer, e a terra abrandava a violência do vento. Ali desembarcamos, embora com muita dificuldade, mas todos sãos e salvos, e caminhamos até Yarmouth, onde, como homens desventurados, fomos recebidos com grande generosidade tanto pelas autoridades locais, que nos ofereceram bons alojamentos, quanto pelos comerciantes autônomos e os donos de navios, que nos deram dinheiro suficiente para irmos até Londres ou de volta a Hull, conforme achássemos mais apropriado. Se eu tivesse sido sensato e voltado para Hull, para minha casa, teria sido feliz, e meu pai, como na parábola do sábio Evangelho, teria até mandado preparar um novilho gordo, já que, tendo ouvido dizer que o navio em que eu havia partido tinha naufragado perto de Yarmouth, levou muito tempo para ter certeza de que eu não tinha me afogado. Mas meu destino cruel me empurrou com uma obstinação irresistível e, apesar de todos os chamados insistentes da razão e das recomendações ajuizadas de meu julgamento para que eu voltasse para casa, não tive capacidade para agir assim. Não sei que nome dar a isso, nem vou argumentar que se trata de um propósito secreto que nos domina e nos leva a ser o 23


instrumento de nossa própria destruição, embora essa ruína esteja nítida diante de nós e, ainda assim, corramos para ela de olhos bem abertos. Sem dúvida, nada, exceto uma predestinação inevitável e inescapável, poderia ter me levado a contrariar minhas ponderações sensatas, a convicção de meus pensamentos mais íntimos e as duas lições tão claras que tinha recebido na minha primeira tentativa de correr o mundo. Meu amigo, que havia me ajudado a endurecer meus sentimentos no início e que era filho do comandante, se encontrava agora menos ousado do que eu. Na primeira vez em que falou comigo – quero dizer, na primeira vez em que nos vimos novamente, só dois ou três dias depois que chegamos a Yarmouth, pois ficamos em alojamentos separados na cidade –, senti que seu tom estava diferente. Parecia muito melancólico e, balançando a cabeça, perguntou como eu me sentia. Em seguida, contou ao pai quem eu era e como tinha feito aquela viagem apenas por experiência, para conhecer países estrangeiros. O homem olhou para mim e disse em tom sério e preocupado: – Rapaz, você não deve ir para o mar nunca mais; deve entender o que aconteceu como um sinal claro e evidente de que não nasceu para ser marinheiro. – Ora, o senhor nunca mais vai para o mar? – perguntei. – É um caso diferente – ele respondeu. – É minha vocação e, portanto, meu dever. No entanto, como você fez essa viagem como uma experiência, pôde ver a amostra que os Céus lhe deram do que deve esperar se persistir nessa ideia. Talvez tudo aquilo tenha acontecido conosco por sua causa, como ocorreu – de acordo com a Bíblia Sagrada – com o profeta Jonas, que, tendo desobedecido ao Senhor e tomado um navio para Társis, causou uma grande tempestade no mar, cuja fúria cessou apenas depois que Jonas foi lançado ao oceano. Por favor, me diga – ele prosseguiu –, quem você é? Por que razão foi para o mar? Contei parte de minha história, e o homem teve um estranho acesso de raiva. – O que foi que eu fiz – exclamou – para que esse miserável infeliz fosse parar no meu navio?! Eu não colocaria meus pés no mesmo navio que você de novo nem por uma grande fortuna. Aquilo foi realmente um ataque de nervos, pois ele ainda estava alterado pelo sentimento de perda do navio e, por isso, foi mais longe do 24


que deveria. Mas logo se acalmou e conversou muito seriamente comigo; tentou me convencer a voltar para a casa de meus pais e não induzir a Providência a me levar ao infortúnio, dizendo que, se eu quisesse, poderia enxergar nitidamente a mão dos Céus pronta a se erguer contra mim. – Rapaz, acredite nisto: se não voltar para casa, aonde quer que você vá não vai encontrar nada além de desastres e decepções, até que as palavras de seu pai se tornem realidade na sua vida. Mal lhe respondi; despedimo-nos logo depois, e não o vi mais; não sei que caminho seguiu. Quanto a mim, tendo algum dinheiro no bolso, viajei por terra para Londres. Lá, assim como durante a viagem, tive vários conflitos comigo mesmo sobre que rumo dar à minha vida. Deveria voltar para casa ou ir para o mar? Quanto a retornar para casa, a vergonha se opunha à melhor proposta que meus pensamentos me ofereciam. Pensei em como os vizinhos certamente ririam de mim; em como eu ficaria embaraçado, não só diante de meu pai e minha mãe, mas de todas as outras pessoas. Desde então, tenho sempre observado como o temperamento dos humanos, sobretudo o dos jovens, é irracional, incongruente com a razão que, de fato, deveria guiá-lo: eles não se envergonham de pecar; no entanto, têm vergonha de se arrepender. Não se envergonham da ação pela qual devem, merecidamente, ser considerados tolos, mas sim de voltar atrás, o que só faria com que fossem considerados sábios. Nessa situação permaneci, por algum tempo, inseguro a respeito de que caminho tomar, que rumo dar à minha vida. Sentia uma relutância contínua e invencível em voltar para casa. Durante esse período em que fiquei distante, a lembrança dos riscos que corri foi se apagando gradualmente, e, enquanto ela desaparecia, os impulsos causados pelos pequenos desejos de voltar para meus pais também foram se apagando junto com ela. Por fim, deixei completamente de lado esses pensamentos e fui em busca de uma viagem.

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