“Mas o estrago estava feito e aconteceria de novo e de novo. Ainda acontece: ‘O que vive do passado no corpo que habitamos?’, se pergunta a poeta Helena Zelic, e me vejo na mesma posição absurda, com a tesoura afiada pela raiva, buscando, às cegas, o núcleo duro do calo, a origem da dor mais profunda – onde? Latejando sob as unhas dos meus dedos, tão parecidos com os dela, encontro a mesma dor, que tento anestesiar com outra dor. Às vezes sou minha mãe machucando os nossos dedos.”
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ISBN 978-65-5928-403-0
Livro finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2023 na categoria Melhor Romance de Estreia
Luiza Sigulem
SILVANA TAVANO RESSUSCITAR MAMUTES
SILVANA TAVANO nasceu em São Paulo em 1957 e estreou na literatura depois de anos de atuação no jornalismo como editora em revistas femininas. Professora no curso de Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz, tem mais de trinta livros dedicados às crianças e aos jovens, alguns já publicados na Argentina, China, Turquia, Suécia e também no México. Em 2022, recebeu o Prêmio Jabuti de Livro Infantil pelo Sonhozzz (Salamandra, 2021, em coautoria com Daniel Kondo). No ano seguinte, seu romance O último sábado de julho amanhece quieto (Autêntica Contemporânea, 2022) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura na categoria Melhor Romance de Estreia.
No trajeto entre acontecimentos da atualidade e projeções para o futuro, Ressuscitar mamutes é uma narrativa conduzida pelo tempo, situada em espaços que desafiam a sua linearidade. Nos cenários evocados nestas páginas, o ficcional, o científico, o fabuloso e o ensaístico se entrelaçam; literatura e memória caminham juntas, traçando rotas para transcender o presente. O resultado é um romance que, ao explorar o que faz nascerem e se fortalecerem os laços familiares, reúne com inventividade a teia de sentimentos intraduzíveis que se atrelam ao que fica de uma vida que se esvaiu.
Silvana Tavano
RESSUSCITAR MAMUTES
“De certos lugares, e na hora certa, é possível ver o passado e o futuro”, segreda Silvana Tavano. Ressuscitar mamutes é essa hora e esse lugar, concebidos com o presente da palavra. Livro-máquina do tempo, aparelho de alta precisão que conjuga número e metáfora, forma e tema, era geológica e figura de linguagem, temos aqui um híbrido de memória, ensaio e ficção composto de planos, de restos, de nuvens, letras e fósseis, mas principalmente do afeto de uma filha por uma mãe que já morreu. Objetos cotidianos que ficaram e lembranças são imantados da ternura, da raiva, da combinação sempre nova e sempre antiga, sempre igual e sempre diferente do que costumamos chamar de amor. E o amor é o de todas as filhas por todas as mães, incluindo as não humanas: as mamutes que, diz a ciência, talvez nos salvem. Pois a humanidade está em risco, e o retorno ao que já foi pode garantir o que virá. Assim, com a ponta do pé já de frente para o abismo, Silvana encara a esperança e a desesperança; o sentido e a falta dele; e percebe que a mãe é também ela própria. As pegadas da megafauna ressuscitada pela mais avançada genética são a possibilidade de que o permafrost não derreta e deixe de nos ameaçar. O que derrete aqui, no entanto, é o permafrost da memória, escorrendo reminiscências, descobertas, dores e alentos. Sofisticadíssimo livro-invenção, Ressuscitar mamutes vem confirmar que, no segundo intergaláctico que deu à luz a humanidade, cabe a literatura. NATALIA TIMERMAN