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Recursos Desumanos

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Ele só queria seu emprego de volta

Tradução

Zéfere


Copyright © Calmann-Lévy, 2010 Copyright da tradução © 2015 Editora Nemo/Vestígio

Título original: Cadres noirs Todos os direitos reservados pela Editora Nemo. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

DIRETOR DA COLEÇÃO

Arnaud Vin PREPARAÇÃO

Cristina Antunes REVISÃO

Eduardo Soares

CAPA

Carol Oliveira (sobre foto de © 2014 Lolostock/Logan Bannatyne All Rights Reserved e Shutterstock/Mega Pixel) DIAGRAMAÇÃO

Christiane Morais de Oliveira

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil

Lemaitre, Pierre Recursos desumanos : ele só queria seu emprego de volta / Pierre Lemaitre ; tradução Zéfere. -- 1. ed. -- São Paulo : Vestígio, 2015. Título original: Cadres noirs ISBN 978-85-8286-181-3 1. Ficção policial e de mistério (Literatura francesa) I. Título. 14-13392

CDD-843.0872

Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção policial e de mistério : Literatura francesa 843.0872

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Para Pascaline. Para Marie-Franรงoise, com todo meu afeto.


Faço parte de uma geração de má sorte, que se encontra num equilíbrio instável entre os tempos antigos e os tempos modernos e que não se sente à vontade nem aqui nem lá. Ademais, como já devem ter notado, sou um homem sem ilusões. G. Tomasi di Lampedusa, O leopardo


Antes


1 Nunca fui um homem violento. Por mais longe que eu volte nas minhas lembranças, nunca quis matar ninguém. Uma ou outra crise de raiva, sim, mas nunca tive vontade de realmente machucar. De destruir. Então, necessariamente, isso me deixou surpreso. A violência é como o álcool ou o sexo, não é um fenômeno, mas um processo. A gente mal percebe e já está dentro, simplesmente porque chegou no ponto, porque isso acontece exatamente na hora certa. Eu sabia que estava morrendo de raiva, mas nunca imaginei que aquilo se transformaria num furor de tanta frieza. É isso que me deixa com medo. E que tenha se voltado contra Mehmet, francamente... Mehmet Pehlivan. Ele é turco. Faz dez anos que vive na França, mas tem menos vocabulário que uma criança de dez anos. Só sabe se expressar de duas formas: ou berra ou emburra. E, quando berra, mistura o francês com o turco. Ninguém entende nada, mas todo mundo consegue ver muito bem quem ele acha que a gente é. Na Transportadora Farmacêutica, onde eu trabalho, Mehmet é “supervisor” e, conforme uma regra vagamente darwiniana, cada vez que ele sobe de posto, logo passa a desprezar os antigos colegas e considerá-los mais ou menos como vermes. Vi isso acontecer com bastante frequência durante minha carreira, e não somente com trabalhadores migrantes. Com muita gente que vinha do baixo escalão, na verdade. Basta subirem que eles se identificam com os chefões da empresa, 11


com uma convicção tamanha que nem os próprios chefes sonham que existe. É a síndrome de Estocolmo aplicada ao mundo do trabalho. Atenção: Mehmet não se acha o chefe da empresa. Melhor ainda, quase: ele encarna, ele “é” o chefe nos momentos em que o chefe não está por perto. Claro que aqui, numa empresa que deve contar com uns duzentos assalariados, não há um chefão propriamente dito, somente chefes. Ora, Mehmet se sente importante demais para se identificar com um simples chefe. Aquilo com o que ele se identifica é uma espécie de abstração, um conceito superior que chama de Direção, o que é vazio de conteúdo (os diretores, aqui, ninguém conhece) mas cheio de sentido: a Direção, o mesmo que dizer o Caminho, a Via. À sua maneira, ao subir no escalão da responsabilidade, Mehmet se aproxima de Deus. Eu começo às 5 horas da manhã, é o que a gente chama de trabalhinho ingrato (quando a gente emprega a palavra “trabalhinho”, sempre acrescenta o ingrato, por causa do salário). A tarefa consiste em fazer a triagem de pacotes de medicamentos que seguem depois para as farmácias do subúrbio. Eu mesmo não estava lá para ver, mas, antes de se tornar “supervisor”, parece que Mehmet fez isso durante oito anos. Hoje sente o maior orgulho por ter três vermes sob seu comando, o que não é pouca coisa. O primeiro verme se chama Charles. Nome estranho para um sem-teto. Ele é um ano mais novo que eu, magro feito um palito e louco por uma birita. A gente fala que ele é sem-teto para facilitar, mas, na verdade, tem um domicílio. Fixo, mesmo. Ele mora no carro, que faz cinco anos que não anda mais. Brinca que é seu “autoimóvel”, típico do humor de Charles. Ele usa um relógio de mergulho do tamanho de um prato, com um monte de mostradores diferentes. E com uma pulseira verde fluorescente. Não faço ideia do lugar de onde Charles veio nem de como foi chegar a esse ponto. Tem algo engraçado nele. Não sabe, por exemplo, por quanto tempo ficou inscrito nas listas de espera por um apartamento num HLM, uma habitação de locação moderada, mas conta com precisão o prazo decorrido desde que desistiu de renovar o 12


pedido na prefeitura. Cinco anos, sete meses e dezessete dias na sua última contagem. O que Charles calcula é o tempo decorrido desde que perdeu toda a esperança de ser realojado. “A esperança — diz ele com o dedo em riste — é uma canalhice inventada por Lúcifer para que os homens aceitem pacientemente sua condição”. Não é frase dele, já ouvi isso em algum lugar. Procurei a citação, não achei. De qualquer forma, isso serve para mostrar que, por detrás do bebum, existe um Charles que é culto. O outro verme é um cara jovem, Romain, um rapaz de Narbonne. Como tinha obtido certo sucesso no clube de teatro da escola onde fez o ensino médio, sonhou em se tornar ator e, logo depois do vestibular, subiu para Paris, mas nunca conseguiu receber nenhum cachê por causa do seu “r”, vibrante como o de d’Artagnan. Como o de Henri IV. Com esse sotaque escabroso, todo mundo ri quando ele diz: “Que não sendo quinhentos os que juntos saímos... três mil e tantos, quando o pé firmei no porto...”. Ele tomou aulas que não deram resultado nenhum. Foi fazendo um trabalhinho mais ingrato que o outro, para ainda poder se apresentar em cada uma das audições que apareciam, sem nunca ser escolhido. Um dia, entendeu que sua fantasia nunca iria se realizar. Romain, ator de cinema, caso perdido. Ainda por cima, a maior cidade que conhecia era Narbonne. Rapidamente, Paris cuidou de esmagá-lo, aniquilá-lo. Ele começou a sentir certo spleen, uma nostalgia da infância, uma saudade da sua região. Só que não quis voltar para casa de mãos vazias. Está tentando fazer seu pé de meia e agora só sonha com um papel, o do filho pródigo. Com esse único objetivo, vai acumulando o máximo de trabalhinhos ingratos que consegue achar. Tem vocação para formiga. As horas que sobram para ele, passa no Second Life, no MSN, MySpace, Twitter, Facebook e num monte de outras redes, nesses lugares onde suponho que ninguém ouve seu sotaque. Segundo Charles, ele leva muito jeito com informática. Meu turno é de três horas todos os dias pela manhã, o que me rende 585 euros, bruto (quando a gente fala de um 13


salário ingrato, sempre acrescenta a palavra bruto, por causa da carga dos impostos a deduzir). Volto para casa lá pelas 9 horas. Se Nicole sai um pouco atrasada, a gente dá a sorte de se cruzar. Quando isso ocorre, ela me diz: “Estou atrasada” e me dá um beijo no nariz antes de bater a porta. Então, hoje de manhã, Mehmet estava furioso. Como se sentindo pressionado. O que imaginei foi que a esposa não o tinha tratado bem. Estava andando rápido pela plataforma em que ficam alinhadas as caixas e os pacotes, num ritmo descoordenado. Segurava com tanta força a lista que tinha na mão que suas articulações chegavam a estar brancas. Dá para sentir que esse sujeito tem grandes responsabilidades e que seus problemas pessoais não caíam numa boa hora. Cheguei exatamente no meu horário, mas, logo que me viu, ele abriu o maior berreiro. Minha opinião é de que chegar no horário não é o bastante como prova de motivação. Ele chega pelo menos uma hora adiantado. Impossível compreender a integralidade da sua gritaria, mas captei o essencial, ou seja: que, para ele, eu sou um bunda-mole. Apesar de Mehmet dar tanta importância para o serviço, o trabalho em si não é tão complicado. A gente faz a triagem dos pacotes, coloca tudo dentro de outras caixas, em cima de paletes. Normalmente os códigos das farmácias estão escritos bem grande nos pacotes, mas, às vezes, não sei por quê, vêm sem o número. Romain diz que deve ser um problema de configuração de impressora. Nesse caso, o código pode ser encontrado numa longa sequência de caracteres impressos bem pequeno numa etiqueta. São os décimo, décimo segundo e décimo terceiro caracteres. Eu, que preciso dos meus óculos, acabo me atrapalhando todo. Tenho que pegar no bolso, colocar, baixar, contar os caracteres... Me faz perder um tempão. Se eu fosse visto fazendo aquilo, a Direção poderia se irritar. Pois é, justamente nessa manhã, o primeiro pacote que peguei estava sem o código. Mehmet começou a berrar. Eu me inclinei. Foi nesse momento que ele meteu o pé na minha bunda. Era um pouco depois das 5 horas da manhã. 14


Eu me chamo Alain Delambre, tenho cinquenta e sete anos. Sou um executivo desempregado.

2 No início, aceitei esse trabalho da manhã na Transportadora Farmacêutica para ter alguma ocupação. Pelo menos foi isso que eu disse para Nicole, mas nem ela nem as meninas caíram nessa. Na minha idade, ninguém acorda às 4 da manhã por 45% do salário mínimo, não com o único objetivo de mexer o esqueleto. É meio complicada essa história. Enfim, não, nem tanto assim. No início, a gente não precisava desse salário, agora sim. Faz quatro anos que estou desempregado. Quatro anos em maio, na verdade (24 de maio, me lembro bem da data). Como esse serviço não é suficiente para aparar as arestas do fim do mês, às vezes bastante ásperas, ainda faço uns bicos por aí. Faço umas horas carregando caixote, embalando coisa em plástico-bolha, distribuindo panfleto, fazendo faxina em escritórios de noite. Alguns trabalhos temporários também. Nos últimos dois anos, fui Papai Noel no Trouv’tout, uma loja especializada em eletrodomésticos usados. Nem sempre conto para Nicole o que faço, ela poderia se sentir mal. Vario as desculpas para justificar as ausências. Como é mais difícil no caso de algum serviço noturno, cheguei até a inventar uma roda de amigos desempregados que, supostamente, se reúne para jogar tarô. Digo para Nicole que isso me descansa os nervos. Antes, eu era diretor de RH numa empresa de quase duzentos assalariados, me ocupava dos empregados, da formação do pessoal, supervisionava os salários, representava a direção diante do comitê empresarial. Trabalhava na Bercaud, uma empresa de bijuteria. Dezessete anos sem fazer nada de joia. Essa era a piada favorita de muita gente, viviam dizendo: “Nada é joia na Bercaud”. Tinha um monte de piadas assim, 15


algumas bem legais, verdadeiras pérolas, só que de mentira... Digamos que eram brincadeiras corporativistas. Digamos que eram brincadeiras corporativistas. Pararam de rir em março, quando anunciaram para nós que a Bercaud tinha sido comprada pelos belgas. Eu poderia ter competido com o diretor de RH do grupo belga, mas, quando fiquei sabendo que ele tinha trinta e oito anos, comecei, mentalmente, a juntar meus trapos. Digo “mentalmente” porque, no fundo, é mais que evidente que eu não estava pronto para fazer aquilo materialmente. Mas não demorou a ser preciso que eu o fizesse. A venda foi anunciada no dia 4 de março. A primeira leva foi demitida seis semanas mais tarde, eu fiz parte da segunda. Em quatro anos, à medida que meus rendimentos foram sendo liquidados, meu estado de espírito passou da incredulidade à insegurança, depois à culpabilidade e, por fim, à sensação de injustiça. Hoje, eu me sinto é raivoso. Não é um sentimento muito positivo, a raiva. Quando chego na Transportadora e vejo a sobrancelha peluda de Mehmet, aquele vulto longo de Charles cambaleando e penso em tudo por que tive de passar até aqui, uma raiva terrível se põe a rosnar dentro de mim. Eu não posso nem pensar nos anos que me aguardam, na minha aposentadoria comprometida pela baixa contribuição, na redução dos auxílios, no desespero que bate às vezes em mim e em Nicole. Não posso nem pensar nisso porque, por mais que eu me controle, sinto uns humores terroristas circularem no corpo. Após quatro anos de convívio, claro que considero meu conselheiro do Polo Empregatício como alguém próximo. Recentemente, deixando transparecer uma espécie de admiração na voz, ele me disse que eu era exemplar. O que quer dizer é que, mesmo desistindo da ideia de encontrar um trabalho, eu não desisti de procurar. Ele vê nisso um sinal de que tenho uma forte personalidade. Prefiro não desiludi-lo, ele tem trinta e sete anos, e é melhor que preserve suas ilusões o máximo possível. Mas me vejo, na verdade, submetido a algo mais semelhante a um reflexo animal. Procurar trabalho é como trabalhar: já que não fiz mais nada a vida inteira, isso ficou 16


incrustado no meu sistema neurovegetativo, alguma coisa me empurra por necessidade, mas sem planos. Eu procuro trabalho como os cães farejam postes. Sem nenhuma ilusão, mas é mais forte que eu. Foi assim que, uns dias atrás, respondi a um anúncio dos classificados. Uma agência de consultoria está em busca de um assistente de RH para uma megaempresa. O trabalho consiste em participar do recrutamento de pessoal para um cargo de alto escalão, estabelecer o perfil necessário para o posto, conduzir o processo de seleção e redigir os relatórios dos testes, participar da elaboração do resultado final, etc., é exatamente o que eu sei fazer, o que fiz durante anos na Bercaud. “Deve ser polivalente, metódico, rigoroso, dotado de qualidades relacionais”. É exatamente o meu retrato profissional. Acabando de ler o anúncio, já juntei minhas fotocópias e enviei o currículo. Só que, evidentemente, não mencionaram nada sobre estarem ou não dispostos a contratar um sujeito da minha idade. Porque não precisa nem dizer: é óbvio que a resposta é não. Azar. Enviei minha candidatura mesmo assim. Fico em dúvida se não foi só para continuar merecendo a admiração do meu conselheiro do Polo Empregatício. Quando Mehmet meteu o pé na minha bunda, como eu soltei um grito, todo mundo se virou para ver. Primeiro Romain, depois Charles, com muito mais dificuldade, porque já chega de manhã com umas boas doses na cabeça. Me reergui num salto. Como um jovenzinho. Foi aí que me dei conta de que sou quase uma cabeça mais alto que Mehmet. Até então, como ele era o chefe, eu nunca tinha prestado atenção na sua altura. Nem mesmo Mehmet conseguia entender direito como tinha chegado a meter o pé na minha bunda. Parecia que sua crise de raiva tinha passado, vi seus lábios tremendo, seus olhos piscando e piscando e ele tentando encontrar o que dizer, não sei em que língua. E aí, fiz uma coisa pela primeira vez na vida: 17


inclinei a cabeça para trás, bem devagar, como se estivesse admirando o teto da Capela Sistina, e trouxe ela de volta para a frente de uma só vez. Como vi fazerem na televisão. Charles, enquanto sem-teto, já levou muita porrada, conhece do assunto. “Um gesto com uma bela técnica” foi o que me disse. Para um iniciante, parece que o golpe foi bem dado. Espatifei o nariz de Mehmet com minha testa. Antes de sentir o choque dentro de mim, escutei um estralo sinistro. Mehmet berrou (em turco, dessa vez, tenho certeza), mas não pude realmente aproveitar da minha iniciativa, pois ele levou as mãos à cabeça imediatamente e caiu de joelhos. Geralmente, se fosse um filme, eu teria tomado um pouco de distância e enfiado um baita de um chute na sua cara, mas a dor que senti era tamanha que eu também levei as mãos à cabeça e caí de joelhos. Nós dois de joelhos, face a face, com as mãos na cabeça, inclinados para o chão. Tragédia no universo do trabalho. Grandiosa cena. Romain foi correndo acudir, não lhe vinha à cabeça o que fazer. O sangue jorrava de Mehmet. O SAMU chegou em alguns minutos. Fizemos a ocorrência. Romain me disse que viu Mehmet metendo o pé na minha bunda, que ele era testemunha e que eu não precisava esquentar com aquilo. Eu não disse nada, mas minha experiência me faz pensar que, certamente, não vai ser tão simples assim. Fiquei com ânsia de vômito. Fui no banheiro. Para nada. Na verdade, nada, não: vi no espelho que tinha me cortado e estava com um grande hematoma na testa. Eu estava lívido e meio perdido. Lastimável. Por um instante, tive a impressão de estar começando a parecer com Charles.

3 — Ora, ora...! O que aconteceu com você? — perguntou Nicole enquanto tocava no meu enorme hematoma da testa.

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