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Quero me tornar fascista: Minha terapia de conversão

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© C A RO L I N E FA B R E

Mark Fortier é sociólogo, ensaísta e diretor editorial da Lux Éditeur, prestigiada editora independente baseada no Quebec, Canadá. Doutor em Sociologia pela Université du Québec à Montréal (UQAM), sua produção intelectual transita entre a pesquisa acadêmica e a intervenção no debate público contemporâneo, marcada pelo uso da ironia e do diagnóstico crítico da sociedade. Autor de ensaios de forte repercussão, como Mélancolies identitaires (2019), consolida em Quero me tornar fascista sua verve satírica e seu compromisso com o pensamento crítico atual.

A partir dessa premissa corrosiva, Quero me tornar fascista transforma a crise das democracias contemporâneas numa reflexão em primeira pessoa sobre a tentação de ceder. Entre Trump, Milei, Meloni, Le Pen e o rastro deixado pelo orbánismo na Europa e o bolsonarismo no Brasil, Fortier examina o esgotamento das democracias liberais, a política transformada em espetáculo, o ressentimento contra as elites culturais e o colapso das formas tradicionais de convivência coletiva. A falsa “terapia de conversão” leva a uma pergunta incômoda: o fascismo retorna porque convence ou porque muitos preferem adaptar-se a ele? Com erudição, ironia e lucidez desconcertante, Fortier mostra como o autoritarismo contemporâneo se alimenta menos de grandes doutrinas do que de pequenas concessões: o silêncio conveniente, a neutralidade covarde, o cansaço democrático, a vontade de ordem, a raiva convertida em método.

“Uma advertência contra o medo e a apatia.” ISBN 978-65-6002-154-9

La Presse (Canadá)

QUERO ME TORNAR FASCISTA

Diante do avanço mundial da extrema direita, o sociólogo Mark Fortier decide fazer o impensável: converter-se. Não por convicção, mas por prudência. Afinal, se o vento da história sopra em direção ao autoritarismo, talvez seja melhor aprender a curvar-se antes que seja tarde demais.

Mark Fortier

“Vou me tornar fascista. Pronto, falei.”

Mark Fortier

QUERO ME TORNAR FASCISTA Minha terapia de conversão

Uma provocação sobre a INDIFERENÇA, as CONCESSÕES PERIGOSAS e o ENFRAQUECIMENTO da resistência

9 786560 021549

diante do AUTORITARISMO.

“Uma espirituosa ‘terapia de conversão’ que vacina contra o ‘perigo marrom’. O sociólogo Mark Fortier publica um pequeno manual contando sua tentativa de conversão ao fascismo. Uma fábula sarcástica que ridiculariza a extrema direita e seus cúmplices apáticos.” Libération (França)

“Em seu livro, Mark Fortier escolhe a sátira para abordar a questão do desmoronamento de nossas democracias e a ascensão da extrema direita... Ele nos lembra que a extrema direita raramente ganha por si mesma [mas sim pela passividade do resto].” La Première RTBF (Bélgica)

“Uma forma de resistência pelo humor, pela alegria e pela vivacidade. O formato escolhido – o de um pequeno manual de conversão na forma de uma longa confissão – alivia o tema, deixando espaço para a reflexão serena.” Le Devoir (Canadá)


Mark Fortier

QUERO ME TORNAR FASCISTA Minha terapia de conversão

Uma provocação sobre a INDIFERENÇA, as CONCESSÕES PERIGOSAS e o ENFRAQUECIMENTO da resistência diante do AUTORITARISMO.

tradução Eduardo L. Soares

Coleção ESPÍRITO DO TEMPO


Copyright © Lux Éditeur 2025 Copyright desta edição © 2026 Editora Vestígio Publicado mediante acordo especial com a Lux Éditeur, em conjunto com sua agente devidamente nomeada, a 2 Seas Literary Agency, e a coagente LVB & Co. Agência e Consultoria Literária. Título original: Devenir fasciste : ma thérapie de conversion Todos os direitos reservados pela Editora Vestígio. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

direção editorial

capa

Arnaud Vin

Diogo Droschi (Sobre imagem de Adobe Stock)

revisão da tradução

Julia Sousa

diagramação

Guilherme Fagundes

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil

Fortier, Mark Quero me tornar fascista : minha terapia de conversão : uma provocação sobre a indiferença, as concessões perigosas e o enfraquecimento da resistência diante do autoritarismo / Mark Fortier ; tradução Eduardo L. Soares. -- São Paulo : Vestigio, 2026. -- (Espírito do Tempo ; 12) Título original: Devenir fasciste : ma thérapie de conversion ISBN 978-65-6002-154-9 1. Ensaios filosóficos 2. Fascismo 3. Humorismo 4. Política Humor, sátira etc. I. Título. II. Série. 26-360037.1

CDD-320.533

Índices para catálogo sistemático: 1. Fascismo : Ciências políticas : Ensaios 320.533 Maria Alice Ferreira - Bibliotecária - CRB-8/7964

A VESTÍGIO É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA São Paulo Av. Paulista, 2.073 . Conjunto Nacional Horsa I . Salas 404-406 . Bela Vista 01311-940 São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468 www.editoravestigio.com.br SAC: atendimentoleitor@grupoautentica.com.br

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À minha mãe, que me ensinou que a maldade dos homens nada tem de definitivo.


Infinitas são as razões para chorar. Mas as de rir também existem. Eduardo Galeano


SUMÁRIO

Advertência

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Uma conversão

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Heil Romane!

37

Tornar-se o quê?

49

Carnaval político

59

A estranha agonia do democrata

75

Os libertários

91

Eles serão enforcados com a própria língua

101

A ditadura

117

Agradecimentos

125


ADVERTÊNCIA

Leitor, você que se prepara para abrir este livro, não entre aqui em busca de respostas. As respostas não precisam de um livro para serem encontradas. Elas estão diante dos seus olhos, nas leis da sua cidade, nas alegrias e nos sacrifícios dos seus contemporâneos, nas esperanças do passado e nas promessas do futuro. São um dom do mundo. Mas a resposta é inútil para quem esqueceu a pergunta. O essencial na tirania, qualquer que seja sua natureza, é a repressão do questionamento. E isso é tão fácil. Victor Klemperer, Meus soldados de papel

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UMA CONVERSÃO

É preciso que tudo mude para que nada mude. Giuseppe Tomasi di Lampedusa, O Leopardo

c h e g a u m t e m p o e m q u e o h o n e s t o acomodado

precisa, enfim, tirar os olhos dos livros para encarar a realidade. Eu teria preferido seguir minha existência em marcha lenta, com a careca ao vento, pedalando com indolência em direção à morte, sem outra ambição senão avançar serenamente enquanto aprecio a paisagem. Quanto prazer eu teria em manter por alguns anos mais meu modesto papel de espírito livre no palco da vida. Eu teria continuado de bom grado a bancar o paladino da justiça e o marginal ao lado de meus camaradas artistas, universitários, anarquistas de salão, professores, jornalistas – em sua maioria funcionários do Estado ou amplamente dependentes de seus subsídios –, todos e todas em pé de guerra contra a dominação, os privilégios brancos, a carne vermelha, os palavrões, a má literatura e as políticas de austeridade que corroem seu poder de compra. Francamente, se dependesse 13


apenas de mim, eu teria colocado minha vida sob a proteção da lei da inércia e seguido meu caminho assobiando. A realidade, porém, não perdoa. Os eventos políticos se atropelam num aparente caos, mas empurram implacavelmente a história numa direção que, convenhamos, me será bastante desfavorável se eu não encontrar coragem para romper com meus hábitos. A derrocada da democracia social e liberal é evidente em toda parte. Esse regime, que é meu habitat natural, recua em todas as frentes; em lugar algum encontra forças para passar ao ataque. Seus generais – barrigudos, apáticos, achacados, mumificados, hesitantes – temem tanto o mal que os corrói quanto os remédios que poderiam salvá-los. Em 2016, Bernie Sanders lamentava que o establishment democrata se agarrasse ao status quo como se sua sobrevivência dependesse disso. E de fato, o entusiasmo despertado pela campanha do velho resmungão dissidente mergulhava o partido em angústia existencial. Enfrentar as desigualdades? Apontar os bilionários, acusá-los de formar uma oligarquia? Falar de pão, manteiga, moradia? Relembrar o enraizamento social da democracia? Contestar a eterna continuidade do business as usual? Pura loucura. Foram esses mesmos democratas que entraram na campanha presidencial de 2024 opondo ao seu pior inimigo um zumbi chamado Joe Biden. Perderam a bola antes mesmo de o jogo começar. Depois, tomados pelo pânico, mandaram embora o zumbi no meio do segundo tempo. Sua substituta, Kamala Harris, mais jovem e mais dinâmica, trouxe um sopro de alegria às tropas, mas a festa durou pouco. O ogro republicano a devorou sem esforço. 14


Alguns meses antes das eleições norte-americanas, nas legislativas francesas de junho de 2024, a elite liberal havia bradado seu grito de guerra por toda a França: “Nem Reagrupamento Nacional, nem Nova Frente Popular!”. Evidentemente, teria pegado mal gritar: “Vamos votar no Reagrupamento Nacional para evitar os impostos que o Nova Frente Popular vai nos impor”. Os “comunicadores” do discurso dominante então convidaram os políticos centristas a “adotar” os “elementos de linguagem” desse programa do “nem-­nem” em todos os programas de TV e redes sociais, convencidos de que mais um jogo discursivo de espelhos favoreceria a “governança” extremo-centrista de seus administrados. Depois da votação, ignorando totalmente os resultados favoráveis à esquerda e demonstrando, mais uma vez, sua repugnância por qualquer forma de reivindicação social, o sr. Macron chegou a um acordo com o Reagrupamento Nacional para nomear primeiro-ministro o conservador Michel Barnier, cujo partido havia obtido menos de 7% dos votos... Após a repressão ao primeiro grande levante operário no bloco soviético, Bertolt Brecht zombou do governo da Alemanha Oriental sugerindo que ele dissolvesse o povo e elegesse outro caso este insistisse em se opor aos seus dirigentes. Macron levou ao pé da letra a recomendação do poeta. Como os comunicadores franceses, o Washington Post e o LA Times, que em 2020 haviam apoiado os democratas, também passaram a clamar “Nem Trump nem Harris” na véspera do pleito presidencial nos Estados Unidos. Ninguém se deixou enganar por essa súbita paixão pelo neutro. Jeff Bezos, poderoso bilionário dono 15


do Washington Post e da Amazon, fez simplesmente uma avaliação prudente dos riscos. De seu ponto de vista, as represálias de Trump contra seus opositores eram mais temíveis que as consequências de sua reeleição. Bezos apenas seguia os passos de tantos outros bilionários que apoiaram o demagogo, doando 172 milhões (Timothy Mellon), 136 milhões (Miriam Adelson), 133 milhões (Elon Musk) – cifras astronômicas, sem comparação com o patrimônio médio dos meros mortais que somos.1 No dia seguinte à eleição, o magnata do comércio on-­ line apressou-se a felicitar o vencedor por “seu incrível retorno”. “O futuro sorri para a América”, celebrou. E, para dar razão às suas palavras, naquele dia Wall Street abriu em alta. Business as usual. Já em dezembro de 2024, bilionários, chefes de Estado e grandes proprietários de mídia, movidos por ganância e medo, desfilaram por Mar-a-Lago para prestar homenagem vassálica ao presidente eleito. Em 2020, Jeff Bezos, que correu para saudar a vitória de Joe Biden, proclamava que “unidade, empatia e decência não são relíquias de uma era passada”. Em 2024, ajoelhou-se diante do novo César americano, e seu jornal censurou os chargistas que zombavam de sua covardia. Após o ataque ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, Mark Zuckerberg havia banido Trump do Facebook; agora que este estava de volta ao poder, o bilionário do Vale do Silício foi visitá-lo em sua fortaleza. Via-se ali Zuckerberg, mão no peito, ouvindo religiosamente “Justice for All”, uma releitura do hino nacional gravada por insurgentes condenados à prisão. 1

“Who Are the Biggest Donors?”, OpenSecrets, s.d. 16


Entre a resistência e a grande capitulação, esses senhores da economia já fizeram sua escolha.2 Eis a elite do poder: um agrupamento de satisfeitos. Um círculo de senadores romanos empanturrados. Fanáticos da resignação. A revolta que cresce nos interstícios da sociedade não lhes desperta o menor interesse. Os que se encontram entre os conservadores a veem, no máximo, como um pequeno braseiro sobre o qual soprar de vez em quando para aquecer seus castelos. Já os progressistas lamentam essa situação como se fosse uma doença rara e terrível que se descobre ao acaso enquanto deslizam o dedo pela tela do celular. Seu programa? Erguer barreiras contra os malvados extremistas... Sua concepção de resistência? Empurrar os malucos para fora dos muros da República, lançá-los à execração, escaldá-los, apedrejá-los – mesmo que isso os condene a viver permanentemente sitiados dentro das cidades. E se, apesar de tudo, a extrema direita tomar as chaves da Cidade, esses patrícios do século XXI, prudentes e moderados, farão o que sabem fazer de melhor: nada. Em todas as circunstâncias, optar pela inação política no curto prazo, mesmo se as consequências de longo prazo se anunciem calamitosas. Essa é sua estratégia. Entre os membros desse cenáculo, não há um Leônidas disposto a dar a vida para salvar a liberdade, nem um Churchill ou um De Gaulle para manter o 2

David Smith, “The Great Capitulation: Why Key US Figures Are Seeking Trump’s Favor” [A Grande Capitulação: por que figuraschave dos EUA estão buscando o favor de Trump], The Guardian, 22 dez. 2024; Michelle Goldberg, “The Great Capitulation” [A Grande Capitulação], The New York Times, 16 dez. 2024. 17


rumo contra ventos e marés; tampouco um pequeno Roosevelt que acredite obstinadamente no futuro luminoso da liberdade e da igualdade democráticas. A hora da revolução conservadora chegou. Toda oposição é inútil. Quem quiser sobreviver à tempestade que se anuncia fará bem em procurar abrigo. Fiz meus cálculos e cheguei à conclusão de que chegou o momento de assinar meu armistício pessoal. Vou seguir os ensinamentos de meu mestre, Hegel, e tentar ser o melhor do meu tempo. Ora, os melhores – todo mundo sabe – são os vencedores. Portanto, já não é hora de disputa, mas de colaboração. A questão está resolvida. Vou me tornar fascista. Pronto, falei. Vindo de uma família liberal, intelectual de esquerda, democrata de coração e de raciocínio, eu me contorço de nojo só de imaginar uma conversão dessas. No mesmo instante, sinto crescer em mim algo como uma fascio-ansiedade. Passar das palavras aos atos não será simples, e o enxerto talvez não pegue. Mas é preciso. Chamemos isso de instinto de sobrevivência. Uma sábia concessão ao meu ambiente, que me poupará do destino do dronte das Ilhas Maurício, pássaro mais conhecido como dodô, extinto porque não soube se adaptar à atividade humana. As consciências desprovidas de instinto de conservação berram “Indignem-se!”, “¡No pasarán!”. Que se afundem com suas convicções, se assim desejarem. Os cemitérios estão cheios de tolos que se julgavam mais espertos que a maioria. Quanto a mim, prefiro me ajustar às consequências previsíveis das minhas escolhas, entregar-me às sereias neoliberais da resiliência e adotar uma máxima mais responsável: “Adaptem-se!”. 18


█

Vejam por si mesmos. A direita radical chega ao comando de um número crescente de países: Argentina, Índia, Suécia, Itália. A extrema direita governou na Polônia, na Hungria e no Brasil, triunfa nos Estados Unidos, bate às portas do poder na França, ganha força na Alemanha – e só cegos ignorariam que os trabalhistas devem sua recente vitória na Grã-Bretanha a uma extraordinária arrancada do demagogo conservador Nigel Farage. Sem falar dos plutocratas que governam a Rússia, dos nacionalistas autoritários que dominam a cena na China ou dos fanáticos religiosos que se agitam por toda parte. Todos esses reacionários querem a minha pele e a de meus semelhantes. Eles alimentam um ódio sem limites por aqueles que seus cães de guarda midiáticos chamam, com a mais absoluta seriedade, de “elites culturais globalizadas multimilionárias”. No Canadá, o chefe do Partido Conservador, Pierre Poilievre, um trumpista setentrional, repete a mesma cantilena, classificando toda a elite liberal como comunistas perigosos. Quem vota no Reagrupamento Nacional? Racistas, sem dúvida, mas também, observa o sociólogo Félicien Faury, indivíduos revoltados contra “a elite do diploma”, cuja “suficiência” eles detestam. Os eleitores de extrema direita desprezam os “mestres da palavra” – professores, escritores, jornalistas, advogados, altos funcionários –, todos inchados de orgulho e de distinção social.3 Na França, 3

Félicien Faury, Des électeurs ordinaires: enquête sur la normalisation de l’extrême droite. Paris: Seuil, 2024, p. 187 e seguintes. 19


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