guy de Maupassant F. scott Fitzgerald Jules BarBey d’aurevilly pierrette Fleutiaux Henry JaMes
Quatro novelas e um conto As ficções do platô 8 de Mil platôs, de Deleuze e Guattari
tradução e organização
Tomaz Tadeu
M imo
Quatro novelas e um conto
Outros mimos
Alfabeto Paul Valéry * Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano Donna Haraway, Hari Kunzru,Tomaz Tadeu (Org.) * Ao Farol Virginia Woolf * Manual do Dândi: a vida com estilo Barbey d’Aurevilly, Charles Baudelaire, Honoré de Balzac * Meu coração desnudado Charles Baudelaire * Mrs Dalloway Virginia Woolf * O casaco de Marx: roupas, memória, dor Peter Stallybrass * O grito da seda. Entre drapeados e costureirinhas: a história de um alienista muito louco Danielle Arnoux, Gaëtan Gatian de Clérambault, José María Álvarez * O Pintor da Vida moderna Charles Baudelaire * O tempo passa (edição bilíngue) Virginia Woolf * Os últimos dias de Immanuel Kant Thomas De Quincey * Rabiscado no teatro Stéphane Mallarmé *
Guy de Maupassant F. Scott Fitzgerald Jules Barbey d’Aurevilly Pierrette Fleutiaux Henry James
Quatro novelas e um conto As ficções do platô 8 de Mil platôs, de Deleuze e Guattari
tradução e organização
Tomaz Tadeu
Copyright © 2014 Autêntica Editora Copyright da tradução © 2014 Tomaz Tadeu Copyright de “História do abismo e da luneta” © Actes Sud, 2003 títulos originais
“Une ruse”, Guy de Maupassant “The Crack-Up”, F. Scott Fitzgerald “Le Rideau cramoisi”, Jules Barbey d’Aurevilly “Histoire du gouffre et de la lunette”, Pierrette Fleutiaux “In the Cage”, Henry James Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora. editora responsável
projeto gráfico e capa
Rejane Dias
Diogo Droschi
revisão
diagramação
Cecília Martins
Christiane Morais
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Quatro novelas e um conto : as ficções do platô 8 de Mil platôs, de Deleuze e Guattari ; tradução e organização Tomaz Tadeu. -- Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2014. -- (Mimo) Conteúdo: Une ruse / Guy de Maupassant -- The Crack-Up / F. Scott Fitzgerald -- Le Rideau cramoisi / Jules Barbey d'Aurevilly -- Histoire du gouffre et de la lunette / Pierrette Fleutiaux -- In the Cage / Henry James. Bibliografia ISBN 978-85-8217-393-0 1. Ficção - Coletâneas I. Maupassant, Guy de, 1850-1893. II. Fitzgerald, F. Scott, 1896-1940. III. D'Aurevilly, Jules Barbey, 1808-1889. IV. Fleutiaux, Pierrette. V. James, Henry, 1843-1916. VI. Série. 14-00980
CDD-808.83
Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Coletâneas : Literatura 808.83
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Apresentação 11
Um jeitinho Guy de Maupassant
19
O colapso F. Scott Fitzgerald
39
A cortina carmesim Jules Barbey d’Aurevilly
93
História do abismo e da luneta Pierrette Fleutiaux
133
Na gaiola Henry James
Apresentação
Reúnem-se, neste volume, as cinco obras de ficção mencionadas por Félix Guattari e Gilles Deleuze no platô 8 do livro Mil platôs (“Três novelas ou ‘o que se passou?’”, p. 6381, vol. 3, Editora 34, tradução de Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão): as três novelas referidas no título e que constituem precisamente seu objeto de análise, além da novela de d’Aurevilly e do conto de Maupassant, utilizados pelos autores para construir a distinção inicial entre conto e novela. As citações que Deleuze e Guattari fazem, na edição brasileira, de “Na gaiola” e de “O colapso”, feitas segundo suas respectivas traduções francesas, serão irreconhecíveis na presente edição. Assim, indico aqui as devidas correspondências.
Na gaiola Mil platôs, ed. bras.
Na presente coletânea
“Ela temia essa outra ela mesma que, sem dúvida, a esperava do lado de fora; talvez fosse ele que a esperasse, ele que era seu outro ela mesma e de quem ela tinha medo.”
“[...] ela estava literalmente temerosa de seu outro eu, que poderia estar esperando do lado de fora. Ele poderia estar esperando; era ele que era seu outro eu e era dele que ela estava temerosa.”
p. 68
p. 219 7
Mil platôs, ed. bras.
Na presente coletânea
“Ela terminou por saber tanto acerca disso que nada mais podia interpretar. Não havia, para ela, mais obscuridades que a fizessem ver mais claro, só restava uma luz crua.”
“Afinal, ela sabia tantas coisas que já não tinha o mesmo sentimento de antes: o de que estava apenas adivinhando. Não havia, ali, qualquer sutileza – tudo saltava aos olhos.”
p. 69
p. 223
O colapso Mil platôs, ed. bras.
Na presente coletânea
“[...] qualquer vida é, bem “É claro que a vida é, toda ela, entendido, um processo de um processo de colapso [...].” demolição.” p. 71
p. 19
“[A fissura] se produz quase sem que o saibamos, mas na verdade tomamos consciência dela subitamente.”
“[...] o segundo [tipo de fratura] se dá quase sem a gente saber, mas é, de fato, num estalo que nos damos conta.”
p. 72
p. 19
“Concluí que aqueles que haviam sobrevivido tinham realizado uma verdadeira ruptura. Ruptura quer dizer muita coisa e não tem nada a ver com ruptura de cadeia, em que estamos geralmente destinados a encontrar uma outra cadeia ou a retomar a antiga.”
“Isso me levou à ideia de que aqueles que sobreviveram empreenderam alguma espécie de fuga radical. Trata-se de uma palavra grandiosa e sem qualquer paralelo com a fuga de uma prisão, quando se é, provavelmente, levado a uma nova prisão ou se é forçado a voltar à antiga.”
p. 72
p. 34 8
Mil platôs, ed. bras.
Na presente coletânea
“A célebre Evasão ou a fuga para longe de tudo é uma excursão dentro de uma armadilha, mesmo se a armadilha compreende os mares do Sul, que só são feitos para aqueles que querem navegar neles ou pintá-los. Uma verdadeira ruptura é algo a que não se pode voltar, que é irremissível porque faz com que o passado tenha deixado de existir.”
“A famosa ‘Evasão’ ou o ‘Fugir de tudo de uma vez’ é uma viagem em direção à armadilha, mesmo que essa armadilha inclua os Mares do Sul, que servem apenas para aqueles que querem pintá-los ou navegá-los. Uma fuga radical é algo do qual não há volta; é irreversível porque faz com que o passado deixe de existir.”
p. 72
p. 34
“Estava para sempre do outro lado da barricada. A horrível sensação de entusiasmo continuava [...]. Tentaria ser um animal tão correto quanto possível, e se vocês me jogassem um osso com bastante carne por cima, eu seria talvez até mesmo capaz de lhes lamber a mão.”
“[...] eu me retirava para sempre daquele lado do balcão [...]. O inebriante e perverso sentimento persistia. [...] Tentarei, entretanto, ser um animal decente, e se você me jogar um osso com bastante carne, posso até lamber sua mão.”
p. 73
p. 35, 38
9
Um jeitinho Guy de Maupassant
O velho médico e a jovem enferma conversavam junto à lareira. O que a afligia não ia além dessas indisposições femininas de que são acometidas com frequência as mulheres bonitas: um tanto de anemia, de nervos, e um tanto de fadiga, dessa fadiga que experimentam os recém-casados, quando se casam por amor, ao fim do primeiro mês de união. Ela estava estendida no sofá e falava. “Não, doutor, não vou nunca compreender que uma mulher traia o marido. Até admito que possa não amá-lo, que não cumpra nenhuma de suas promessas, de suas juras! Mas como pode ousar entregar-se a um outro homem? Como esconder isso aos olhos de todos? Como pode alguém amar com mentira e traição?” O médico sorria. “Quanto a isso, é fácil. Asseguro-lhe que não se pensa em todas essas sutilezas quando se é tomado pelo desejo de pecar. Tenho mesmo a certeza de que uma mulher não está madura para o amor verdadeiro a não ser depois de ter vivido todas as promiscuidades e todos os desgostos do casamento, que não passa, segundo um homem ilustre, de uma troca de maus humores durante o dia e de maus odores durante a noite. Nada de mais verdadeiro. Uma mulher não pode amar apaixonadamente a não ser depois de ter sido casada. Se pudesse compará-la a uma casa, eu 11
diria que ela não é habitável a não ser depois que um marido a inaugurou. “Quanto à dissimulação, é algo que todas as mulheres têm para dar e vender nessas ocasiões. As mais simples são maravilhosas e se safam com esperteza dos casos mais difíceis.” Mas a jovem senhora mostrava-se incrédula... “Não, doutor, não se pensa nunca, a não ser mais tarde, no que se devia ter feito nas ocasiões perigosas; e as mulheres estão, certamente, ainda mais sujeitas que os homens a perder a cabeça.” O médico levantou os braços. “A não ser mais tarde, diz a senhora! A nós, os homens, é que a inspiração chega tardiamente. Mas vocês!... Escute, vou lhe contar uma pequena história que aconteceu a uma de minhas clientes, a quem, como se diz, eu absolveria sem exigir a confissão. “O caso se deu num vilarejo de província. “Uma noite, em que eu dormia profundamente, nessa primeira e pesada fase do sono que não se deixa perturbar por qualquer coisa, tive a impressão, num sonho confuso, de que os sinos do vilarejo tocavam a incêndio. “Acordei em seguida: era a minha campainha, a da rua, que tocava desesperadamente. Como meu criado parecia não atender, puxei, por minha vez, o cordão da campainha que ficava ao lado da minha cama, e logo as portas começaram a bater e passos quebraram o silêncio da casa adormecida; Jean logo apareceu, entregando-me uma carta que dizia: ‘A Senhora Lelièvre roga encarecidamente que o Senhor Doutor Siméon vá imediatamente à sua casa’. “Refleti alguns segundos; eu pensava: crise de nervos, vapores, bobagens, e estou muito cansado. Respondi: ‘O Doutor Siméon está se sentindo muito indisposto e roga à Senhora Lelièvre que faça o favor de chamar o seu colega, o Senhor Bonnet.’ “Em seguida, enviei-lhe o bilhete num envelope e voltei a dormir. 12
“Meia hora mais tarde, aproximadamente, a campainha da rua tocou novamente e Jean veio me dizer: ‘É alguém, um homem ou uma mulher (não sei bem, porque a pessoa está toda coberta), que gostaria de falar urgentemente com o senhor. Diz que envolve a vida de duas pessoas’. “Vesti-me. ‘Mande entrar.’ “Fiquei esperando, sentado na cama. “E vi surgir uma espécie de fantasma negro, que se descobriu assim que Jean saiu. Era a Sra. Berthe Lelièvre, uma mulher muito jovem, casada havia três anos com um gordo comerciante da cidade que era conhecido por ter desposado a pessoa mais bonita da província. “Ela estava terrivelmente pálida, com essas crispações que as pessoas desvairadas carregam no rosto; e tremiam-lhe as mãos; por duas vezes ela tentou falar sem que um único som lhe saísse da boca. Por fim, conseguiu balbuciar: ‘Depressa, depressa... depressa... Doutor... Venha. Meu... meu amante morreu em meu quarto...’. “Ela se deteve, arquejante e, depois, prosseguiu: ‘Meu marido vai... vai voltar logo do clube...’. “Saltei da cama, sem pensar que estava de pijamas, e me vesti em poucos segundos. Em seguida, perguntei: ‘Foi a senhora em pessoa que esteve aqui há pouco?’. Ela, de pé como uma estátua, petrificada pela angústia, murmurou: ‘Não... era minha criada... ela sabe...’. E então, depois de um momento de silêncio, ela disse: ‘Fiquei... ao lado dele’. E uma espécie de grito de dor horrível saiu-lhe dos lábios, e, após uma asfixia que a fez arquejar, ela chorou, ela chorou perdidamente, entre soluços e espasmos, durante um minuto ou dois; depois, subitamente, suas lágrimas cessaram, estancaram, como se secadas interiormente pelo fogo, e ela se tornou tragicamente calma: ‘Vamos depressa!’, disse. “Eu estava pronto, mas exclamei: ‘Puxa vida, não mandei atrelar meu cupê!’. Ela respondeu: ‘Tenho um lá embaixo, o dele, que o esperava’. Ela se cobriu até os cabelos. Partimos. 13
“Assim que se sentou a meu lado, na escuridão do veículo, ela me tomou bruscamente a mão e, apertando-a em seus dedos finos, balbuciou com espasmos na voz, espasmos que lhe vinham do coração dilacerado: ‘Ah! Se o senhor soubesse, se o senhor soubesse como sofro! Eu o amava, eu o amava perdidamente, como uma insensata, havia seis meses’. “Perguntei-lhe: ‘Há alguém acordado em sua casa?’. “Ela respondeu: ‘Não, ninguém, exceto Rose, que sabe de tudo’. “Paramos diante de sua porta; todos na casa, de fato, dormiam; entramos, com uma chave-mestra, sem fazer barulho, e subimos na ponta dos pés. A empregada, assustada, sem ter tido coragem para ficar perto do morto, estava sentada no topo da escadaria, com uma vela acesa ao lado. “E entrei no quarto. Estava todo revolvido, como depois de uma luta. O leito, amarrotado, amassado, continuava aberto, como que esperando – um lençol se estendia até o tapete; toalhas molhadas, com as quais se tinham friccionado as têmporas do jovem, estavam caídas no chão, ao lado de uma bacia e de um copo. E um singular odor de vinagre de cozinha, misturado com aromas de Lubin, vindo da porta, causava náuseas. “O cadáver, estendido de costas, jazia no meio do quarto. “Aproximei-me; observei-o, toquei-o; abri-lhe os olhos; apalpei-lhe as mãos e, depois, voltando-me para as duas mulheres, que tiritavam como se estivessem enregeladas, lhes disse: ‘Ajudem-me a colocá-lo sobre a cama’. E deitamo-lo com todo cuidado. Auscultei-lhe, então, o coração e coloquei-lhe um espelho diante da boca. Depois, murmurei: ‘Acabou, vistamo-lo rapidamente’. Era uma coisa horrível de se ver! “Peguei-lhe os braços e as pernas, um a um, como se fossem os de uma enorme boneca, e os enfiei nas vestes que as mulheres iam me alcançando. Colocamo-lhe as meias, as cuecas, as calças, o colete e, finalmente, o paletó, em cujas mangas tivemos muita dificuldade de enfiar os braços. 14
“Quando chegou a hora de abotoar-lhe as botas, as duas mulheres se puseram de joelhos, enquanto eu iluminava com uma vela; mas, como os pés tinham inchado um pouco, foi terrivelmente difícil. Como não encontravam as abotoadeiras, elas tiveram que usar seus grampos de cabelo. “Terminada a horrível toalete, examinei nossa obra e disse: ‘É preciso penteá-lo um pouco’. A criada foi buscar o pente e a escova da patroa, mas como ela tremia, arrancando, com movimentos involuntários, os cabelos longos e emaranhados, a Senhora Lelièvre apoderou-se violentamente do pente e ajeitou-lhe a cabeleira com delicadeza, como que o acariciando. Repartiu-lhe o cabelo, escovou-lhe a barba e, depois, retorceu-lhe lentamente os pelos do bigode com os dedos, como, provavelmente, costumava fazer, nas intimidades do amor. “E de repente, largando o que tinha nas mãos, ela pegou a cabeça inerte do amante e olhou longamente, desesperadamente, esse rosto morto que não lhe sorria mais; depois, deixando-se cair sobre ele, estreitou-o fortemente nos braços, beijando-o com furor. Seus beijos caíam como golpes, na boca fechada, nos olhos apagados, nas têmporas, na fronte. Depois, aproximando-se dos ouvidos, como se ele ainda a pudesse escutar, como que para balbuciar a palavra que torna os abraços mais ardentes, ela repetiu, dez vezes seguidas, com voz dilacerante: ‘Adeus, querido’. “Mas o relógio bateu a meia-noite. “Sobressaltei-me: ‘Que azar! Meia-noite! É a hora que o clube fecha. Vamos, senhora, coragem!’. “Ela se levantou. Ordenei: ‘Vamos levá-lo para a sala.’ Nós três o pegamos e, levantando-o, sentei-o num canapé, acendendo, depois, os candelabros. “A porta da rua se abriu e se fechou pesadamente. Era Ele que chegava. Gritei: ‘Rose, depressa, me traga as toalhas e a bacia e arrume o quarto; apresse-se, por amor de Deus! É o Senhor Lelièvre que está voltando’. 15
“Ouvia-o subir, aproximando-se. As mãos, na sombra, apalpavam as paredes. Chamei-o, então: ‘Por aqui, meu caro. Tivemos um acidente’. “E o marido, estupefato, parou à entrada da porta, um charuto à boca. Ele perguntou: ‘O que foi? O que se passa? O que é isso?’. “Fui-lhe ao encontro: ‘Meu caro amigo, estamos aqui numa grande dificuldade. Tardei-me, conversando, aqui, em sua casa, com sua esposa e com nosso amigo, que me trouxera em seu veículo. Mas eis que ele desmaiou subitamente e faz duas horas que, apesar de todos os nossos esforços, ele está inconsciente. Eu não quis chamar pessoas estranhas. Ajude-me, pois, a descê-lo, posso tratá-lo melhor em minha casa’. “O marido, surpreso, mas sem desconfiar de nada, tirou o chapéu. Depois levantou, pelos braços, o rival, agora inofensivo. Atrelei-me às pernas do morto, como um cavalo entre dois varais, e eis-nos descendo a escada, alumiada, agora, pela mulher. “Quando chegamos à porta, endireitei o cadáver e falei com ele, encorajando-o, para enganar o cocheiro: ‘Vamos, meu bravo amigo, não foi nada; já se sente melhor, não é mesmo? Coragem, vamos, um pouco de coragem, faça um pequeno esforço e tudo terminará bem’. “Como percebi que ele ia cair, que me escapava das mãos, dei-lhe um forte golpe nas costas, lançando-o para a frente e fazendo-o entrar na viatura, subindo depois, atrás dele. “O marido, inquieto, me perguntava: ‘O senhor acha que se trata de coisa grave?’. Respondi: ‘Não’, sorrindo e olhando para a mulher. Ela havia dado o braço ao esposo legítimo e mergulhava o olhar no fundo escuro do cupê. “Apertei-lhe as mãos e mandei seguir. Durante todo o trajeto, o morto insistia em se apoiar na minha orelha direita. “Quando chegamos à sua casa, anunciei que ele tinha perdido a consciência no caminho. Ajudei a levá-lo ao seu 16
quarto, passando, em seguida, a certidão de óbito; era toda uma nova comédia que eu representava diante da inconsolável família. Voltei, enfim, para a cama, não sem antes praguejar contra os apaixonados.” O doutor calou-se, ainda sorrindo. A jovem, crispada, perguntou: “Por que o senhor me contou essa terrível história?” Ele respondeu, galantemente, a título de cumprimento: “Para lhe oferecer meus serviços, se for o caso.”
MAUPASSANT, Guy de. “Une ruse”. Publicado pela primeira vez na revista francesa Gil Blas de 25 de setembro de 1882. 17
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