CLARA ANT
Quatro décadas com LULA O poder de andar junto
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editoras responsáveis
diagramação
Rejane Dias Samira Vilela
Guilherme Fagundes transcrição das entrevistas
Laura Martin
preparação de texto
Samira Vilela seleção de imagens
Mariângela Araújo
revisão
Julia Sousa capa
Diogo Droschi (sobre imagem de Ricardo Stuckert)
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Ant, Clara Quatro décadas com Lula : o poder de andar junto / Clara Ant. -- 1. ed. -- Belo Horizonte, MG : Autêntica, 2022. ISBN 978-65-5928-189-3 1. Ant, Clara 2. Autobiografia 3. Brasil - Política e governo 4. Experiência de vida 5. Mulheres - Biografia 6. Relatos pessoais 7. Silva, Luiz Inácio Lula da, 1945I. Título. 22-115944
CDD-920.72 Índices para catálogo sistemático: 1. Mulheres : Biografia 920.72 Aline Graziele Benitez - Bibliotecária - CRB-1/3129
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Para minha irmã Anita Ant Rodney. Para todas e todos profissionais e trabalhadores da saúde, do SUS e da rede privada, que expõem suas vidas para preservar as nossas. Para que mais brasileiras e brasileiros vejam na política uma via pela qual a sociedade escolhe seus destinos e os parceiros com quem constrói a democracia.
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INTRODUÇÃO
O dia em que me tornei assessora do presidente da República – Brasileira de coração
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PARTE I
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PARTE II
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PARTE III
– Criação e recriação de raízes – Resgates e saltos da democracia
– Sementes para um bom governo
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PARTE IV
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PARTE V
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PARTE VI
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PARTE VII
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PARTE VIII
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AGRADECIMENTOS
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IMAGENS
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REFERÊNCIAS
– Entrando no século XXI – O governo Lula – Glória, asfixia, prisão – Lula livre
Ricardo Stuckert.
Clara e Lula em reunião na sala do presidente no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) em 2010, durante a reforma do Palácio do Planalto.
introdução
O dia em que me tornei assessora do presidente da República
para a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva quando fui convidada pelo futuro titular do Ministério Extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome (MESA), José Graziano da Silva, para um encontro com os companheiros Frei Betto e Oded Grajew. Graziano trazia, em nome de Lula, uma proposta para zerar a fome no país, um programa promissor que teria como base um tripé de atuação: as organizações populares, junto a Frei Betto; o empresariado, junto a Oded Grajew; e o movimento sindical, junto a mim, Clara Ant. Foi uma conversa animada, permeada de ideias e de um forte entusiasmo. Estávamos acariciados pela brisa da vitória e pela emoção da expectativa da posse de Lula, que seria no dia 1º de janeiro de 2003. Na ocasião, Frei Betto, militante católico vinculado ao movimento popular e defensor dos direitos sociais, expôs a ideia do “Talher”, uma oficina de capacitação para quem fosse disseminar o objetivo do programa. Oded Grajew, presidente da Fundação Abrinq e fundador do Instituto Ethos em defesa da responsabilidade social das empresas, apresentou sugestões para envolver empresários e buscar novas adesões no setor. E eu, fundadora da CUT e militante sindical, idealizei uma rede a ser formada pelas centrais sindicais, que poderia, unificadamente, sensibilizar lideranças em cada categoria de trabalhadores para incluir a luta contra a fome em suas pautas. Cheguei a formular uma proposta de campanha nacional para acelerar a construção de cisternas, que teriam, cada uma, o nome de um doador ou de uma instituição. faltavam poucos dias
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Ao final do almoço, eu disse a Graziano que fazia questão de conversar diretamente com Lula sobre minha participação no programa. O passo seguinte foi procurar Gilberto Carvalho, que viria a ser o chefe do gabinete pessoal do presidente, para pedir esse encontro. Não foi fácil. Sabendo exatamente como Lula é com as pessoas mais próximas, tive a sensação muito precisa de que o papo só viria a acontecer depois que todos os estadistas, as lideranças estrangeiras, as demais celebridades e os amigos que prestigiaram a posse voltassem para seus países ou para seus locais de atuação no Brasil. Afinal, dá para imaginar como foi a disputa pela atenção do presidente naquele momento em que Brasília era tomada pela euforia de amigas, amigos, companheiras e companheiros de todas as fases de luta que Lula participou e liderou. A batalha que precisava ser lavrada por uma entrevista da imprensa nacional e internacional. Gente de todos os cantos do Brasil querendo chegar até ele, o primeiro operário a vencer as eleições para a presidência da República. Nosso encontro aconteceu no dia 9 de janeiro de 2003. Foi emocionante. A cada segundo eu sentia minha expectativa crescer, imaginava qual reação ele teria ao ouvir minha proposta, que acabara seguindo um caminho diferente daquele apresentado por Graziano. Mas a expectativa não durou muito, e a conversa foi bem rápida. Eu disse: “Lula, lutamos tanto para conseguir chegar a este momento que estou disposta a assumir o papel que você achar melhor, mais adequado ao meu perfil, que você conhece bem. Entretanto, a verdade é que, além de mim, existem muitos dirigentes sindicais com experiência e capacidade para levar à frente a batalha para zerar a fome no Brasil. Mas há outra atividade que acredito que só eu possa fazer”. Ele me olhava com certa impaciência, pela curiosidade que eu havia despertado com minhas palavras. Então, continuei: “Eu te conheço muito bem. Você, sempre rodeado por tanta gente, às vezes pede algo para uma pessoa e depois cobra de outra. O governo é gigantesco. É preciso garantir que as demandas sejam levadas adiante e que você seja informado em que pé cada coisa está sempre que precisar”. Ele mal piscava. 10
Concluí o raciocínio com uma analogia. O trabalho que eu propunha realizar era como o que os continuístas desempenham no teatro e no cinema: garantir a continuidade das cenas, evitar truncagens e propiciar um conjunto harmônico. No contexto do governo, eu garantiria que os encaminhamentos dados pelo presidente em reuniões e demais atividades fossem registrados e os acompanharia até sua concretização, ou, em caso negativo, até que fosse justificada a impossibilidade de realizá-los. Eu mal havia terminado de falar quando Lula chamou seu futuro chefe de gabinete: “Gilberto, Clara vai fazer uma coisa bem legal para acompanhar minhas decisões. Veja do que ela precisa e lhe dê um lugar para trabalhar”. Fui parar numa sala muito próxima à dele. Tudo o mais que aconteceu antes, durante e depois do governo, eu conto aqui, neste livro. E conto tendo algumas referências que me conduziram até aqui. Exponho com certo detalhamento a minha origem. Descrevo alguns períodos durante os quais minha trajetória e a de Lula estiveram muito próximas, como no movimento sindical, onde o conheci, e durante as demais lutas pela democracia. Conto sobre a criação e a inserção do Partido dos Trabalhadores nas lutas sociais de mulheres e homens, de negros, de indígenas, de jovens, de excluídos. E, a partir de 1991, sobre o que foi trabalhar com Lula no PT, no Instituto Cidadania, na presidência da República e, finalmente, no Instituto Lula. Este livro é, também, uma resposta às inúmeras indagações que me fazem sobre o jeito de Lula trabalhar, de decidir, de se relacionar. Fiz o possível para transmitir o que conheci dele nessas mais de quatro décadas, de 1977 até o dia 7 de abril de 2018, quando ele foi preso, e eu, por estar fora de São Paulo, só pude me comunicar por meio de um bilhete, que foi recebido com um sorriso. É um testemunho. O meu testemunho. O meu olhar. Conto essa história para que não seja esquecida. Para impedir que o negacionismo apague nossas batalhas. Para que todos saibam que uma liderança que alcança a dimensão que Lula alcançou não surge da noite para o dia. Não é fruto de publicidade. É a expressão de décadas de participação, de luta de milhões de mulheres e homens, de todas as idades, pela democracia, pela liberdade e pela justiça social. 11
Acervo pessoal
Família Ant. No alto, à esquerda: Carmen (mãe), Simão (pai), Sara (irmã) e Clara na Bolívia em 1950. Acima: família Ant com Anita, a caçula, no Brasil em 1962. À esquerda: Simão mascate e seu ajudante, Pedro, nas ladeiras de La Paz, na Bolívia, em 1950.
Agradecimentos
Pouco antes de eu concluir o curso de Arquitetura na USP, participei de uma intensa mobilização que se iniciou com a greve da Escola de Comunicações e Artes, a ECA. Grandes assembleias a céu aberto, a emoção de estar junto de tanta gente e ter um horizonte comum. O percurso entre a minha casa e a Cidade Universitária era o cenário das minhas reflexões sobre o público e o privado, o coletivo e o individual. Por ali, eu ia traçando minhas trajetórias e desenhando meu futuro. O momento de chegar em casa, ouvir música e usufruir da privacidade das minhas paredes era, ao mesmo tempo, quando eu mais me via como parte de um conjunto que, mesmo não sendo de pessoas que se conheciam, era o encontro daquelas que se reconheciam. Em cada instante da minha trajetória, encontrei pessoas às quais devo agradecer. Espero que cada uma delas que me der a honra de ler este livro sinta-se abraçada e se reconheça nestas páginas e nestes agradecimentos. Começo pela minha mãe, meu pai e minhas irmãs. Um ninho da diversidade. Um ensaio de convivência e tolerância. Passo pelas professoras e professores, do jardim de infância à universidade, bem como pelos colegas de todas as fases de aprendizado. Pelas companheiras e companheiros das atividades políticas e sindicais, verdadeiras escolas de camaradagem, de coragem e de conflito de ideias. Por todas e todos com quem compartilhei ou coordenei equipes de trabalho. Cabe um lugar especial às minhas paixões. Tanto as fulminantes como as duradouras. Uma menção aos que se foram. E um caloroso 389
abraço a amigas, amigos, vizinhas e vizinhos, a quem devo muito. Gostaria de ser tão importante para eles quanto eles são para mim. Agradeço amigas e amigos que me deram apoio material e permitiram que eu não abandonasse o convênio médico. Agradeço também aos meus médicos, dentistas, ao meu fisioterapeuta e meu professor de ginástica, sem os quais eu não enfrentaria o medo na pandemia. Agradeço à diarista, Dona Neuci Bernardo, responsável por me ajudar a dar conta da bagunça que armei dentro do apartamento com papéis, livros, canecas de café e objetos em geral, todos fora do lugar. Finalmente, um agradecimento especial a quem me deu apoio direto neste trabalho que, confesso, foi muito difícil para mim. Agradeço o tempo dedicado pelas pessoas que entrevistei e pelas que aceitaram conversar informalmente. Agradeço as dicas que recebi, os arquivos e as fotografias que me foram cedidos. Sou grata às pessoas que me ajudaram a desfrutar do prazer da escrita, a percorrer os labirintos da memória e a fugir das armadilhas do ego, ou parte delas. A maior felicidade neste período foi encontrar a editora que me adotou com respeito e entusiasmo.
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Vera Yursis.
Lula e Clara no Encontro do PT de São Paulo em 1982.
Acervo pessoal.
Clara e o jornalista Fúlvio Abramo em ato em memória a Leon Trotsky, em 1978.
Elson Martins.
Em 1979, Wilson de Souza Pinheiro, presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Brasiléia, vizinha de Xapuri, cobra do então governador do Acre, Joaquim Macedo, uma ação contra o desmatamento na região.
Vera Yursis. Vera Yursis.
Clara junto a Vicentinho, Malta e Raimundo, líderes da greve dos trabalhadores da Mercedes-Benz na Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, São Paulo, em 1982. João Ferrador, personagem da Tribuna Metalúrgica, estampa a camiseta de todos.
Clara no II Encontro Nacional do PT na capital São Paulo, entre os dias 27 e 28 de março de 1982.
Vera Yursis. Acervo pessoal.
Clara presidindo o Encontro Estadual da Classe Trabalhadora (ENCLAT) na nova sede, ainda em construção, do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, em 1983.
Jacó Bittar, presidente do Sindicato dos Petroleiros de Paulínia, São Paulo, e Clara com dirigentes sindicais urbanos e rurais de vários estados na Articulação Nacional de Movimentos Populares e Sindicais (ANAMPOS) em 1983.
Vera Yursis.
Lula e Clara no IV Congresso dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo em 1983.
Acervo Folha de S.Paulo. Acervo Tarcísio Tadeu.
Acervo Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo.
Artigo de Clara publicado no jornal Folha de S.Paulo em 20 de junho de 1989.
Caderno da Campanha Salarial de 1980. Exemplar de Tarcísio Tadeu Garcia Pereira, presidente da Associação Henrich Plagge de trabalhadores da Volkswagen Brasil perseguidos no período da ditadura.
Acima, João Ferrador, personagem do jornal Tribuna Metalúrgica. Abaixo, logotipo da CUT criado por Jorge Bittar em 1982.
Acervo Revista Povo.
Cartaz publicado na Revista Povo de 19 de abril de 1985. A foto mostra Clara na delegacia de polícia de Limeira, em São Paulo, após ter sido ferida com um golpe de cassetete por um policial por prestar apoio aos metalúrgicos em greve na cidade.
Roberto Parizotti.
Metalúrgicos da Mercedes-Benz em greve, caminhando com suas famílias rumo ao Paço Municipal de São Bernardo do Campo em 1989.
Esdras Martins. Liane Rossi.
Lula e Clara caminham de braços dados em sua primeira campanha presidencial, em 1989, no centro bancário de São Paulo.
Clara e Lula na convenção do PT que escolheu candidatos para a disputa eleitoral de 1990.
Ricardo Stuckert.
Lula e Clara em um dia normal de trabalho na sala do presidente.
Acervo pessoal. Ricardo Stuckert.
Clara e Lula durante o lançamento do Projeto Moradia no auditório da Universidade Mackenzie, em São Paulo, em 2000.
Lula com crianças em Moçambique em 6 de novembro de 2003.
Ricardo Stuckert.
Reunião diária de comunicação de Lula com Luiz Gushiken, André Singer e Ricardo Kotscho, em 2003. À esquerda, Clara anota as decisões no palmtop.
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