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Quando os homens nao abandonam

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Foto: arquivo pessoal

9 786560 021464

Cláudio Magalhães é mestre em Comunicação Social, doutor em Educação, jornalista, pesquisador e historiador. Em 2003, sua esposa Dânia de Paula foi diagnosticada com câncer de mama. Ao acompanhá-la nas consultas e sessões de quimioterapia, ele percebeu que era um dos poucos homens presentes, o que o levou a uma investigação profunda sobre a relação entre masculinidade, doença e abandono. Hoje, Cláudio dirige o Instituto Dânia de Paula, hub dedicado à educação, cultura, comunicação e tecnologia, que busca continuar o legado da educadora profissional e inspiradora que foi Dânia. Conheça seus projetos em: www.institutodaniadepaula.com.br.

Uma mulher tem seis vezes mais chance de ser abandonada pelo companheiro ao ser diagnosticada com câncer do que um homem na mesma situação. Essa foi a dura realidade com que o professor e jornalista Cláudio Magalhães se deparou ao longo de quase vinte anos acompanhando o tratamento da esposa Dânia de Paula contra o câncer de mama, do diagnóstico ao seu falecimento. Mas, afinal, por que tantos homens desistem de suas companheiras na doença? O que faz com que muitos partam justamente quando a vida exige mais presença? E o que diferencia aqueles que decidem permanecer? Este livro nasce da experiência de quem escolheu ficar. Com coragem para romper o silêncio masculino e encarar os tabus que cercam o adoecimento, o cuidado e a morte, Cláudio parte da própria história para refletir sobre um comportamento ainda pouco debatido. Ao mesmo tempo, mostra que é possível construir outra resposta: a do amor que resiste, do cuidado compartilhado e da presença até o fim.

Quando os homens não abandonam na doença

Um raro e necessário olhar masculino sobre o amor e a perda.

Cláudio Magalhães

ISBN 978-65-6002-146-4

Cláudio Magalhães

Quando os homens não abandonam na doença O que aprendi sobre amor, câncer, sexismo e solidão

Quando tantas histórias terminam no silêncio, Cláudio Magalhães escolhe contrariar as estatísticas e narrar a sua. Não para oferecer respostas fáceis nem transformar a dor em exemplo, mas para compartilhar, com rara honestidade, a travessia de quase duas décadas ao lado da esposa Dânia de Paula durante o tratamento contra o câncer de mama. Ao fazê-lo, lança luz sobre uma questão tão desconfortável quanto urgente: por que tantos homens se afastam justamente quando o amor é mais exigido? Sem abrir mão da empatia ou da lucidez, Cláudio confronta dados, preconceitos e expectativas culturais sobre masculinidade, mostrando que permanecer também é uma escolha e que cuidar pode ser uma das formas mais profundas de amar. Entre lembranças, confissões e epifanias, a história de Cláudio e Dânia não fala apenas da dor, mas também do espanto, da raiva, do riso e da beleza que podem coexistir com a perda. É um convite para refletir sobre o que significa permanecer ao lado de quem amamos quando tudo parece desmoronar – e sobre como a honestidade do luto pode abrir espaço para que a vida floresça novamente.


Cláudio Magalhães

Quando os homens não abandonam na doença O que aprendi sobre amor, câncer, sexismo e solidão


Copyright © 2026 Cláudio Magalhães Copyright desta edição © 2026 Editora Vestígio Todos os direitos reservados pela Editora Vestígio. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora. Os direitos de reprodução da imagem “A fadinha e o espantalho”, na página 203, foram gentilmente cedidos por Caetano Cury.

direção editorial

Arnaud Vin edição e preparação de texto

Samira Vilela revisão

Marina Guedes capa

Diogo Droschi diagramação

Guilherme Fagundes

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil

Magalhães, Cláudio Quando os homens não abandonam na doença : o que aprendi sobre amor, câncer, sexismo e solidão / Cláudio Magalhães. -- São Paulo : Vestígio Editora, 2026. ISBN 978-65-6002-146-4 1. Amor (Psicologia) 2. Câncer de mama - Doentes - Narrativas pessoais 3. Homens - Autobiografia 4. Luto 5. Magalhães, Cláudio 6. Relacionamento interpessoal I. Título 26-340115.2

CDD-920.71 Índices para catálogo sistemático: 1. Homens : Autobiografia 920.71 Eliane de Freitas Leite - Bibliotecária - CRB 8/8415

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À Dânia.


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SU M ÁRIO

Nem luta, nem batalha: o desafio é a vida

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Homens que fogem versus humanos que ficam

13

C A PÍ T U L O 1

A Vida sob a Morte

19

C A PÍ T U L O 2

A esperança sob reformas

27

C A PÍ T U L O 3

Homens e o desejo de Morte

35

C A PÍ T U L O 4

Em estado de sítio

46

C A PÍ T U L O 5

Sobre a Síndrome do Sobrevivente

53

C A PÍ T U L O 6

Quem matou minha esposa?

63

C A PÍ T U L O 7

Sobre os piores dias

79

C A PÍ T U L O 8

Cura, celebridades e fake news

87

C A PÍ T U L O 9

Homens histéricos: sexismo na saúde

97

C A PÍ T U L O 1 0

Raiva e Gratidão

106

C A PÍ T U L O 1 1

Amizade não é para amadores

115

C A PÍ T U L O 1 2

Moral e alívios

123

C A PÍ T U L O 1 3

A importância dos rituais

129

C A PÍ T U L O 14

O espelho e as aparências

137

PR E FÁC I O

I N T RO D U Ç ÃO


C A PÍ T U L O 1 5

Sobreviver com memórias

144

C A PÍ T U L O 1 6

Palavras sobre um filho

152

C A PÍ T U L O 17

Porcelanato e escolhas

159

C A PÍ T U L O 1 8

Sobre coisas para fazer antes de morrer

168

C A PÍ T U L O 19

Sexo e o câncer

173

C A PÍ T U L O 2 0

Sobre a Solidão

186

C A PÍ T U L O 2 1

Sobre resignação e despedidas

194

E PÍ L O G O

Capítulo final?

205

Agradecimentos

211

Onde buscar informações sobre o câncer

214

Notas

217


PR EFÁCIO

Nem luta, nem batalha: o desafio é a vida

Para mim, foi uma experiência tocante e valiosa ter acompanhado um processo de adoecimento, tratamento e morte que, ao final, culminou no ato criativo de escrever um livro. Um livro sobre amor e sobre o luto vivido. Como médica oncologista e paliativista, pela primeira vez, pude enxergar a história por outro viés, e confesso que aprendi muito com isso. A função básica de um prefácio é apresentar o autor e sua história. Dando “nome aos bois”, Cláudio é o marido da Dânia, uma paciente que acompanhei nos últimos anos de vida. Leio este nome e imediatamente me lembro da doçura, sensibilidade e ternura que Dânia transmitia. Mesmo diante de momentos extremamente desafiadores, ela estava sempre serena. Uma pessoa que, como Cláudio mesmo diz, conhecia seu corpo como ninguém e sabia, antes mesmo da equipe médica, da piora de sua doença. Afinal, dezenove anos não são dezenove dias. Neste livro, Cláudio não quis romantizar a experiência do luto, muito menos seduzir o leitor com sua história. Pelo contrário, ele foi o mais realista possível, trazendo com aspereza a verdade nua e crua do tratamento contra o câncer. Com metáforas bem-humoradas, este livro me fez rir, chorar e refletir (às vezes, tudo ao mesmo tempo), pois a maneira como é narrado torna quase impossível não se deixar cativar. Pessoalmente, não gosto de usar termos como “luta” ou “batalha” para me referir ao tratamento do câncer porque não considero que quem não sobrevive à doença seja um perdedor. Não há uma luta a ser 9


ganha, mas desafios que pacientes e familiares enfrentam diariamente. A descoberta de uma doença como o câncer normalmente desperta horror, como se a morte estivesse próxima. O sentimento atinge não só o paciente, mas toda a sua rede de apoio. Para quem está de fora, parece óbvio que a morte esteja rondando os pacientes oncológicos e que esse tema seja sempre incluído nas consultas médicas ou nos bate-papos informais em casa, mas a realidade não é bem essa. Ainda existem muitos tabus a respeito do câncer, e este livro tenta justamente desconstruir alguns deles. Cláudio acompanhou todo o processo de adoecimento de Dânia, do diagnóstico ao falecimento. Como ele mesmo reconhece, faz parte do pequeno percentual de homens que acompanham a esposa durante todo o tratamento oncológico. Mesmo tendo convivido com o câncer por quase metade de sua vida, considero Dânia uma pessoa de muita sorte, e acredito que Cláudio tenha resgatado, com sua narrativa, o sentimento de orgulho por ter cuidado da esposa de maneira tão bonita. Após ler o livro, eu disse a ele que não conhecia esse seu lado “desbocado e brincalhão”, e sabe qual foi a resposta? “Era o momento dela.” Olha a beleza disso. Ao longo dos anos, tive a honra de conversar com os dois, olho no olho, sobre a Morte. E, quando falamos mais diretamente de sua proximidade, quase uma hóspede convivendo com o casal naquele momento, confesso que me surpreendi com o espanto dos dois. Tive a impressão de que, incrivelmente, aquela palavra nunca tinha sido de fato colocada à mesa durante as consultas. Agora, lendo Quando os homens não abandonam na doença, reiterei minha crença de que é importante verbalizar as dificuldades e os desafios, inclusive trazendo o tema da finitude durante o acompanhamento oncológico. Devo admitir que, quando estou triste, também recorro à escrita para dar vazão aos pensamentos. Eu e Cláudio somos parecidos nisso, e embora eu saiba que ninguém deseja sofrer para criar uma história, isso infelizmente não é uma escolha. O tratamento de um câncer sem possibilidade de cura é um processo de entrega para o fim da vida. Não é um processo de entrega para algo que pode dar certo. Mas, mesmo diante desse cenário, Cláudio mostrou que é possível, sim, viver e conviver com a doença. 10


Doença é algo que está na Classificação Internacional de Doenças (CID). Está nos hospitais, nos laboratórios, nos exames médicos, nos livros técnicos. O sofrimento, no entanto, está apenas no corpo do doente. Os sintomas e exames de cada paciente formam diagnósticos que podem ser compartilhados, mas a experiência da doença é algo único. Assim, toda vez que atendo um paciente, tenho que “esquecer” os anteriores, pois estou diante de uma versão inédita da doença que penso conhecer de cor. Cada paciente nos traz um novo relato do que é conviver com o câncer, porque a vida da Dânia é diferente da vida da Dona Joana, que é diferente da vida do Seu José. Todos os sintomas do paciente entram na conta da doença, mas o sofrimento é algo muito único. E o simples fato de que todos enfrentam os desafios à sua própria maneira mostra o quanto estamos vivos! Portanto, é importante valorizar a possibilidade de caminhar, mesmo sem saber para onde. E como Cláudio e Dânia caminharam. Que história linda escreveram. Reiterando o que ele mesmo escreve adiante, ele realmente foi muito afortunado e aprendeu muito, mesmo tendo perdido tanto. Sei que dizer isso não consola a perda que sofreu, e eu nem me aventuraria a tentar fazer isso. Mas acredito que a morte não é o fim: é reticências. Os dois ainda vão se reencontrar. Com carinho, Marcela Mascarenhas Médica oncologista especialista em cuidados paliativos

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INT RODUÇÃO

Homens que fogem versus humanos que ficam

Ao redor do buraco, tudo é beira. Ariano Suassuna

No início do tratamento da minha esposa contra o câncer de mama, uma observação um tanto despretensiosa de um médico a respeito da minha situação foi o que me motivou a escrever este livro. Em uma consulta, ele disse – como incentivo, imagino – que eram raros os homens que acompanhavam suas esposas com a frequência com que eu fazia. É fato: segundo uma pesquisa realizada pelo Fred Hutchinson Cancer Research Center – sugestivamente intitulada “Homens vão embora: separação e divórcio são muito mais comuns quando a esposa é a paciente”, em tradução livre –, uma mulher tem seis vezes mais chance de se separar ou divorciar ao ser diagnosticada com câncer ou esclerose múltipla em comparação a um homem na mesma situação.1 A taxa geral de divórcio e separação entre pacientes com câncer é semelhante à da população como um todo, cerca de 11,5%. Mas essa média esconde uma grande diferença de gênero: quando a mulher é a paciente, a taxa de separação é de 21%, e quando o homem é o paciente, cai para apenas 3%. Como se já não fosse perverso o bastante, o estudo aponta que quanto mais velha for a mulher, maior a probabilidade de a relação terminar. O abandono contribui para que as pacientes usem 13


mais antidepressivos, sejam mais hospitalizadas e estejam menos propensas a finalizar o tratamento. Como boa notícia, há apenas o fato de que as relações mais longas tendem a ser mais estáveis. No Brasil, o Dr. Luís Eduardo Werneck, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia, relatou que em sua prática clínica, concentrada especialmente nas regiões Norte e Nordeste do país, 40% das mulheres são abandonadas pelo marido entre o início da doença e o fim do tratamento.2 Veja bem: não se trata, aqui, de divórcio ou separação consensual, mas de abandono ou expulsão da mulher do próprio lar. Casos assim afetam tanto o psicológico da paciente quanto o rumo do tratamento, já que muitas vezes a mulher usa o plano de saúde do marido, e ele simplesmente a retira do plano. E mesmo os homens que ficam parecem não ajudar muito: segundo pesquisa da FEMAMA e do Datafolha, apenas uma em cada cinco mulheres (22%) aponta o companheiro como principal pessoa de quem recebeu apoio depois do diagnóstico. Os mais citados são os filhos, representando 27%; somando os demais parentes, o número salta para 56%. E olha que foi dada uma segunda chance: quando solicitadas a citar mais duas opções, os companheiros caíram para terceiro lugar, ainda perdendo para os filhos (56%) e empatando com os amigos (38%).3 Além da satisfação egoísta que senti por poder apoiar e proporcionar a segurança necessária à minha companheira naquele momento, o maior sentimento por fazer parte deste triste grupo foi mesmo de espanto. Quando os homens adoecem, as mulheres – inclusive as exs – cuidam deles com afinco. Quando são as mulheres que adoecem, no entanto, os homens costumam sumir. Ao longo dos vinte anos que se seguiram ao diagnóstico da minha esposa – outro diferencial do nosso caso, pois quanto maior o tempo de tratamento, maiores os índices de abandono –, percebemos que essa era uma informação disseminada entre as pacientes oncológicas, e bastava observar as salas de espera dos hospitais e os boxes de quimioterapia para comprovar tal realidade. Ao longo da escrita deste livro, comentando tais dados com outras pessoas, havia sempre alguém que se lembrava de uma parente ou conhecida que foi abandonada após um diagnóstico ou durante o tratamento, ou que voltou para cuidar de um ex-companheiro. 14


Mas o que importava a mim e à minha esposa, pois conversávamos muito sobre isso, era a razão que levava a este cenário. E havia outra preocupação mais particular: os fatores que causavam o abandono não afetariam também a mim, já que sou homem? Ou, para além da presença física, eu não poderia abandoná-la emocionalmente, sendo tão vacilão quanto aqueles fujões? Os vinte anos seguintes nos mostraram que sim, algumas dessas questões vieram à tona, felizmente a tempo de mudarmos certos comportamentos antes de ela partir. Outras, paradoxalmente, só o poço profundo de um Luto foi capaz de jogar luz sobre elas. Minha esposa, Dânia, entre outras qualidades que citarei ao longo deste livro, foi uma educadora apaixonada que queria ensinar o máximo de pessoas, usando, muitas vezes, da própria dor para isso. Não foram poucas as pessoas para quem ligou, visitou, aconselhou, com quem riu e chorou ao falar do câncer. Fui um afortunado e aprendi muito com ela, mesmo tendo perdido tanto. Há certa lógica, assim, em eu tentar fazer o mesmo, em tentar construir conhecimento através da memória da minha esposa. Sou um tanto pragmático, então, embora não seja possível criar um manual de comportamento – algo bem tipicamente masculino –, ouso dar algumas dicas de como os homens podem enfrentar o câncer de suas companheiras, mães, irmãs e amigas (sim, estamos no século XXI, e ter amigas mulheres não é uma ameaça à masculinidade). Já às leitoras, tais devaneios crônicos – tanto do gênero literário quanto do que concerne ao tempo da minha trajetória pelo Luto – têm dois objetivos. O primeiro é tentar explicar, sem floreios, o que se passa na mente masculina, essa entidade social, moral e sentimentalmente estacionada na 5ª série. Daí partimos para o segundo objetivo: dar aos vacilões de todo o Brasil – maridos, irmãos, primos, amigos e até aquele colega pentelho do trabalho – uma oportunidade de entender um pouco mais o conceito de humanidade. Porque, olha, a gente é mesmo muito vacilão. Kris Carr, em seu livro Câncer – e agora?,4 conta que teve seu diagnóstico de câncer exposto pelo marido para todos na redação em que ele trabalhava, “até os contínuos e as secretárias daquela espelunca 15


sabem!”. Eu, embora com menos intensidade, fiz algo parecido. Soube do primeiro diagnóstico de Dânia por telefone, quando estava em outro estado. Foi um choque, pois o câncer foi descoberto em um exame de rotina. Voltei imediatamente para casa, mas dei a notícia para todas as pessoas que estavam comigo. Hoje vejo o absurdo que eu e o companheiro de Kris cometemos, um bom exemplo da falta de noção masculina. Além de um diagnóstico ser algo muito íntimo, não atinamos que são as pacientes que sofrem as consequências da exposição, já que muitas pessoas imediatamente as encapsulam em um amálgama de estigmas e preconceitos. Definitivamente, não era nosso direito tomar essa decisão. E por que fazemos isso? Na melhor das hipóteses, para estabelecer uma rede de apoio e afeto. Na pior, por autocomiseração ou para chamar a atenção. Vai saber. Em minha defesa, considerando que fui um marido atencioso, mas desprovido de escopo emocional diante de um cenário assustador e fora do meu controle, acredito ter sofrido uma espécie de transbordamento. Mas, não há dúvidas, tanto eu quanto o marido de Kris fomos vacilões. Então, cá entre nós, o altruísmo talvez nem seja a minha principal motivação para escrever este livro. Na boa? “Toda grande dor pode ser suportada se você escrever sobre ela”, nos ensina a escritora Karen Blixen. Assim, esse foi o jeito que encontrei de assimilar o Luto e dar algum sentido a essa porra toda, com o perdão da palavra aqui e ao longo do livro. Porque olha, vou te contar... é tudo mesmo uma grande merda, um sofrimento desgraçado, um sem-fim de sentimentos negativos, uma vontade estonteante de sumir, de acordar de um pesadelo, de saber onde foi parar a própria essência, de olhar para os lados e gritar: “Puta que pariu! O que vai ser da minha vida agora? Quem determinou esse caos e essa falta de sentido? Quero minha companheira de volta!”. Como já se viu, a Morte e o Luto são personagens centrais desta trama – daí o uso das iniciais maiúsculas. Por muito tempo, eles estiveram em busca de sentido, de significado. Foi quando, na ocasião da Morte da minha esposa, uma foto inédita de um buraco negro cósmico se popularizou e virou notícia. Era a primeira foto de material superaquecido em torno do supermassivo buraco negro no 16


centro da Via Láctea, Sagitário A*. Nenhuma luz consegue escapar do centro do buraco negro. Mas também já se sabe que radiações são expelidas. De repente, essa me pareceu a melhor metáfora para o Luto: eu sentia que milhares de coisas estavam sendo sugadas de mim, e também expelidas, em um inferno alucinante e em uma dimensão inexplicável, mas fotografável. Era só me olhar no espelho: como na foto do fenômeno espacial, era possível reconhecer o assombro em mim, mas não o que ocorria por dentro e por fora. E olha que essa nem é uma metáfora original. O Luto enquanto buraco é citado desde a psicanálise até a ampla referência de pesquisas sociais sobre o tema. Sigmund Freud relata ter sentido um buraco vazio após a perda da filha Sophie; Jacques Lacan menciona que o Luto é “um buraco real que se abre no simbólico”; no livro Perdas necessárias,5 a psicanalista Judith Viorst traz o relato de uma paciente cuja morte do marido projetava um futuro de um vazio sem cor, “um enorme buraco negro”. Mas certa vez me disseram que o universo não se comunica por metáforas, e gostei de como isso soou – afinal, o universo tem mais o que fazer do que se comunicar conosco. Então, em busca de sanidade e de sentido para a minha vida, resgatei algo que eu e minha esposa nos orgulhávamos de ter em comum: o ato e o gosto por educar. Ambos éramos professores. Ela, com formação em magistério, migrou por um tempo para a Publicidade, mas depois retornou para as salas de aula, primeiro na graduação de Comunicação, depois na nossa escolinha de acompanhamento educacional. Eu, jornalista de formação, fui em grande parte levado por ela para as escolas onde lecionava, já encantado pela área dentro da minha trajetória em canais educativos de televisão. Dânia maravilhosamente me ensinou a apresentar o mundo às pessoas, e é isso que pretendo com este livro: apresentar meu mundo, tomado pelo meu Luto, a quem busca entender o próprio luto ou o do outro. Não há garantias de sucesso neste método, apenas o resultado de um exercício que venho praticando há pelo menos duas décadas: tentar sem pestanejar. Mas, entenda, não quero que esta seja uma jornada melancólica, embora a tristeza seja outra personagem central. Meu desejo é que seja esclarecedora, com toques de alívio e, principalmente, de humanidade. 17


O Luto é um de nossos processos emocionais mais singulares e incompreendidos. Seu fardo já é pesado por si só. Por isso, sempre que possível, falarei desses temas com leveza e humor. Como minha companheira costumava dizer – nem sempre como elogio, confesso –, eu perco o amigo, mas não a piada. E se tem algo que eu e ela fizemos muito bem nos nossos quase trinta anos de convivência, foi rir (fica a primeira dica!). Não que eu vá contar anedotas sobre a Morte, mas sempre acreditamos que a alegria ensina mais do que a resignação. É claro que os sentimentos negativos também compõem nossa base emocional, e lutar contra eles é dar um tiro no pé: além de machucar mais, piora a caminhada. O melhor conselho que recebi, inclusive, foi no velório da minha mãe, quando um conhecido me disse: “Não caia na conversa de que isso vai passar, porque não vai. Esse buraco que se abriu vai continuar aí para sempre. A única coisa que podemos fazer é tratá-lo bem para que possamos conviver com ele em paz”. Comecei a colocar isso em prática já, ornando meu novo buraco negro como quem planta flores na cova deixada pela árvore arrancada. Convido você para cultivarmos juntos os cuidados com nossos pequenos e grandes buracos negros, ou para estendermos a mão a familiares e amigos que estejam lidando com as próprias angústias cósmicas. Porque o Luto deve ser enfrentado sozinho, mas não sem companhia.

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CAPÍTULO 1

A Vida sob a Morte PARA LER OUVINDO “Canção pra você viver mais”, de Pato Fu

O que é o luto, senão o amor que perdura? Visão, WandaVision

Uma coisa que não farei neste livro é ser um coach de Morte. Existem diversos caminhos para se aprofundar no assunto, de estudos filosóficos a obras literárias, de crenças orais a dogmas religiosos, de livros de conhecimento milenar aos contemporâneos de autoajuda. No âmbito da medicina, podemos entender sua causa, buscar formas de evitá-la ou até mesmo focar em seu aspecto mais mundano: o coração para de bater e pronto, o pó de que somos feitos volta à origem. Fim! Eu mesmo, ao longo do meu processo de Luto, li um bocado de livros sobre o assunto, consumi ótimos conteúdos de especialistas, assisti a filmes e séries, consultei paradigmas religiosos, fiz terapia e conversei com pessoas muito mais entendedoras do comportamento humano do que eu. Minha conclusão é que todos esses caminhos são válidos para quem sente vontade de percorrê-los, pois não faltam referências sobre o tema. Definitivamente, a Morte é pop! E, assim como as contas no fim do mês, ela sempre vence no final. Quando escrevi que gostaria de apresentar meu mundo aqui, como minha esposa me ensinou, sei que essa visão será moldada por meus valores, crenças e experiências, como acontece com qualquer professor. A imparcialidade é um mito, e a visão de um educador pode 19


transparecer até mesmo na escolha de vocabulário: ao falar sobre o que aconteceu no Brasil em abril de 1500, por exemplo, alguns dirão “descobrimento” e outros “invasão portuguesa”. Mesmo fórmulas matemáticas, como o teorema de Pitágoras, podem ser apresentadas como algo a ser decorado para passar de ano na escola, um raciocínio científico ou uma ferramenta com aplicabilidade no cotidiano. Então, saiba que este livro se propõe a ajudar as pessoas a lidar com a dor, mas sem isenção de opinião, cientificismo ou coaching de Luto. Estou plenamente convencido de que o Luto é uma experiência muito individual. Ainda assim, se algo pelo que passei puder aliviar e interpretar a dor de alguém, parte disso já terá valido a pena. As experiências que compartilho aqui são como dicas para suportar a visita daquela tia chata sem acabar virando assunto no grupo da família depois. Porque, vou te contar, todo apoio é válido quando a Morte resolve se hospedar sem cerimônia em corpo e mente. Sendo um homem que conviveu com uma mulher com câncer, sei que não são poucos os exercícios necessários para nos desprendermos de discursos e atitudes machistas. O machismo estrutural está tão entranhado em nossa sociedade que até as mulheres estão sujeitas a reproduzir tais discursos por terem sido criadas ou socializadas em ambientes machistas. Identificar esse padrão talvez seja o primeiro passo para compreender que estamos todos presos em uma teia, e, se nos debatemos sem propósito, tudo o que fazemos é facilitar para que a aranha nos devore. Meu objetivo aqui é justamente não facilitar para a Morte, nem quando ela se hospeda em nossa casa após um diagnóstico, nem quando acredita que venceu. Claro, no fim de tudo ela sempre vencerá, mas é importante demais a gente cair batendo. Outra coisa importante que aprendi ao longo dos últimos vinte anos foi a dar nome às coisas. Chega de usar eufemismos para a Morte! “Ela morreu. Está morta. Será essa palavra tão difícil de se aprender?”, esbravejou C. S. Lewis, escritor irlandês que também perdeu a esposa para o câncer, logo no início de seu livro A anatomia de um luto.1 Tratar a Morte por palavras como “passagem”, “partida” ou “descanso” é uma tradição que, no meu entender, pouco ajuda a encarar a perda. Parece até uma praga ocidental: em todo velório, a 20


gente vê e escuta isso da turma – sem noção, ainda que com a melhor das intenções – que diz que devemos parar de lamentar, que esse sofrimento vai passar. Como se lamentar fosse um problema. Judith Viorst vê o lamento até como solução. No Luto, há um enorme desejo de manter-se preso ao passado: renunciar a ele significa, nesse primeiro momento, continuar matando a pessoa amada. Mas ao lamentar cada emoção, das ternas às desagradáveis, traçamos o caminho para que o Luto siga seu curso: “Através do nosso lamento reconhecemos a dor, sentimos a dor, passamos por ela. Com nosso lamento libertamos os mortos e os guardamos dentro de nós”. E esse mesmo pessoal que deseja nos afastar da dor se indigna quando reagimos com desprezo ou damos uma resposta atravessada – coisa rara, mas que deveria ser normalizada em prol da saúde mental dos enlutados –, quando gritamos algo como “vai passar porra nenhuma!”. Parece que estão todos no mundo fantasioso de Nárnia, evitando falar a palavra “morte” mesmo com um defunto ali, no meio da sala. Repare como todos falam baixo, como se não quisessem “acordar” o morto, que “parece tão calmo, como se estivesse dormindo”. Ah, vá! Vamos combinar? Eu me chamo Cláudio, e embora não ligue que me tratem por apelidos, não me chamar pelo meu nome real ao falar de um assunto sério pode fazer com que ambas as partes adiem o enfrentamento do problema. Não é à toa que, quando éramos crianças, nossos pais usavam nosso nome completo quando a coisa ficava feia. Quem tem nome composto como o meu sabe disso muito bem. Só de ouvir um “Cláudio Márcio!”, sei que deu ruim pra mim. Também falarei de religião aqui, pois tais eufemismos têm a ver com crenças arraigadas. Alguns dirão que essas denominações nos consolam por indicarem que a morte não é um ponto final. Mas, para mim, um dos maiores problemas do Luto é justamente esse: achar que não tem ponto final. Tem, sim, caralho! Eu nunca mais vou rir com a minha esposa, abraçá-la, viajar com ela, perguntar o que fazer quando nosso filho estiver doente. Nunca mais vou implicar com sua coleção de potes de plástico que “um dia servirão para alguma coisa”, nem ela vai me olhar com aquela cara de “você vai sair vestindo isso?”. E eu nunca mais vou poder cuidar dela. 21


Porque existe um ponto final, e seu nome é Morte. O Luto também pode trazer um dos piores efeitos colaterais: a culpa. Minha batalha interna mais cruel é tentar entender o que eu poderia ter feito melhor, em que poderia ter errado menos, o que deixei escapar e que talvez tivesse estendido um pouco mais a vida da minha amada. Esse conflito geralmente é amenizado por familiares e amigos que insistem que você não teve culpa de nada, que fez o que tinha que ser feito, mas é incrível como a cabeça do ser humano funciona às vezes: você pode concordar, mas não vai acreditar. Tenho sentido que Perdão é a palavra mais difícil de aceitar depois de Morte. Igualmente enlouquecedor é pensar no que você poderia ter dito e no que poderia ter deixado de dizer. É tão mais fácil recordar as merdas que dissemos do que as palavras de amor compartilhadas! Nesses momentos, é preciso usar da lógica: se as palavras rancorosas fossem mais numerosas e relevantes, o afastamento teria sido inevitável na saúde ou na doença. No entanto, o Luto e a Morte estão se lixando para a lógica. Pensando no que poderia ter sido dito, é fato que não nominar a Morte durante o período de tratamento de Dânia foi um erro. Nossa cultura judaico-cristã não ajudou; fomos ensinados que a Morte deve ser temida, que não devemos mencioná-la para não atrair mau agouro, que devemos tratá-la literalmente como “aquela que não deve ser nominada”. Em casa, fingimos que essa hóspede não era um incômodo e pisamos em ovos durante o pouco e precioso tempo que tivemos juntos. Hoje entendo que não nominar, não dizer com clareza que a Morte atrapalhava nosso convívio foi o catalisador de algumas discussões estúpidas e evitáveis. De sentimentos ruins que nos debilitaram quando não suportávamos mais abatimentos. Eu devia ter dito que o problema nunca foi o piso de porcelanato que ela escolheu, e sim o fato de que eu teria que encará-lo todos os dias quando ela se fosse. Devia ter admitido que não discordávamos sobre o que era melhor para o nosso filho, e sim que eu me sentia inseguro por não saber como seria nossa vida quando ela morresse. Devia ter reconhecido que, na maioria das vezes, não estávamos brigando um com o outro, e sim com a porra da Morte. Mas não falar sobre a Morte não significa que não demos nossos pulinhos. Em retrospecto, foram mais saltos em queda livre do 22


que pulos. Desde que Dânia recebeu o diagnóstico, acendeu-se um alerta que nos deu urgência de vida. Embora mantivéssemos a meta de envelhecer juntos, de nos tornarmos esses casais de velhinhos que estão sempre de mãos dadas, não havia mais aquela história de esperar para fazer as coisas quando tivéssemos tempo ou dinheiro sobrando. Pouco tempo após o diagnóstico, quebramos um combinado do início do casamento e partimos para a nossa maior aventura: ter um filho. Entre chutes mais cotidianos no balde – um vinho em dia de semana, uma cerveja antes do meio-dia –, fomos a todos os shows possíveis de astros internacionais da música pop, inclusive em outras cidades. Foram inúmeras viagens, com direito a repetir destinos de que a gente gostou e conhecer lugares exóticos, do tipo que a gente só pensa em ir no fim da vida. As conquistas foram muitas, e em frentes variadas. Dânia desfilou numa escola de samba da 1ª divisão de São Paulo, e foi campeã. Abrimos nossa própria escola, outro projeto que tínhamos para a aposentadoria e resolvemos adiantar. Depois, gastamos uma baba para reformar o espaço e abrir um coworking temático de educação, que inauguraria em março de 2020. Com o início da pandemia de covid-19, no entanto, o negócio deu com os burros n’água, mas isso não nos impediu de manter outros pequenos negócios educativos, sempre com a determinação pedagógica de Dânia à frente da gestão. Três meses antes da vitória definitiva da Morte, Dânia andou de quadriciclo e passeou de tirolesa pela primeira vez. Foi uma de nossas últimas aventuras pelas praias cearenses, onde o lema “pé na areia, água de coco e caipirinha” regeu nossos passeios. Na boa? A Morte foi uma hóspede filha da puta, mas também ressignificou nossas vidas. Isso não significa que deveríamos tê-la tratado bem, mas talvez devêssemos tê-la convidado para algumas das nossas noites de vinho ou cerveja, encarando-a de frente, talvez chorado um pouco juntos, porque bêbados chorando é tudo de bom. As pouquíssimas vezes que conversamos sobre a Morte como algo possível e real, no entanto, foram tão rápidas e incômodas, tão pragmáticas e cruéis, que acho que nem posso contá-las como válidas. E, como um bom homem estúpido, numa das poucas vezes que houve uma tentativa de aprofundamento, eu meti os pés pelas mãos. Na ocasião, minha esposa 23


perguntou como eu e meu filho ficaríamos sem ela, e a resposta – automática, típica de quem só quer se livrar da pergunta incômoda – foi que ficaríamos bem. Ela não gostou nada de ouvir isso, mas também não disse nada. Hoje sei que essa resposta impulsiva a fez pensar, erroneamente, que ela não significava nada em nossas vidas. De fato, homens são de Marte, mulheres são de Vênus. Até que um dia, quando finalmente entendemos que nossos incômodos eram ampliados por essas respostas vazias, ainda que bem-intencionadas – do tipo que infestam o inferno –, chamamos novamente a Morte para a conversa. A iniciativa foi de Dânia, que se abriu comigo e disse o quanto aquela resposta tinha sido terrível. Da minha parte, também pude ser sincero e dizer que, em resumo, a Morte nos destruiria. Que ela, mãe e esposa, era a pessoa mais importante da nossa família. E que, na realidade, eu não sabia como responder àquela pergunta porque a simples ideia de sua ausência era algo impensável, irreal. É um paradoxo, mas foi preciso essa resposta visceral para trazer alívio à minha esposa. Sim, é preciso desafiar a Morte durante sua estadia e dizer que, sendo ela inevitável, a Vida que se deixa e o legado que se herda a superam. Dessa conversa em diante, inclusive nos momentos finais, eu e nosso filho aproveitamos todas as oportunidades de reafirmar o quanto ela era importante para nossas – agora debilitadas – vidas. Então aqui vai uma boa dica: não finja que a Morte não está por aí, ou nem aí. Não deixe de tratá-la pelo nome nem de procurar a sua verdade nela. É preciso falar sobre a Morte para perceber que há coisas ainda mais importantes na Vida.

Dicas de leitura O luto é a coisa com penas, de Max Porter (Editora Elsinore, 2016) Esta foi minha leitura preferida sobre o tema da Morte. É uma fábula sobre um ser que chega para transformar a vida de uma família após o falecimento da mãe, trazendo reflexões durante esse período de dor e

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incerteza. Além de um belo projeto de design e um título inquietante na edição em português, o livro tem uma escrita poética, capaz de emocionar até quem não gosta de poesia, como eu. Meu irmão caçula, de JeanLouis Tripp (Editora Nemo, 2023) Em 5 de agosto de 1976, o jovem JeanLouis, então com 18 anos, curtia as férias de verão com a família quando seu irmão mais novo, Gilles, morre em um trágico atropelamento. O evento dilacera a vida do autor, mergulhando-o em um poço de culpa angustiante e marcando o início de sua dolorosa jornada de luto. Essa HQ é um mergulho nas lembranças de JeanLouis e dos que estiveram próximos a ele naquele momento crucial, que permanece indelével na história da família até os dias atuais.

Mitos desconhecidos sobre a Morte Mictlantecuhtli: Micli, para os íntimos, é o senhor de Mictlan, o reino dos mortos dos astecas, que governa ao lado de sua esposa, Mictecacihuatl. Foram enviados à Terra por Quetzalcóatl, deus da criação e da vida, para zelar pelos ossos dos mortos. Supay: governante inca do Ukhu Pacha, uma ponte no submundo entre a vida e a morte. Sua aparência, semelhante à do Diabo do cristianismo, lhe atribui a versão satânica. É celebrado até hoje pelo povo Quéchua, que o homenageia com danças e trajes coloridos no Festival Mamacha Candicha, que acontece no Peru. Donn: mortal alçado a deus, é o senhor tanto da morte quanto da solidão, conceitos muito associados na cultura irlandesa. Ele supervisiona a coleta das almas que vagam pela Terra como sombras, permitindo que descansem apenas depois de seu convite. Thanatos: frequentemente retratado na cultura grega como um sujeito relaxando perto de uma tumba, é a personificação das mortes

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não violentas – e, portanto, o terror dos idosos. A sanguinolência fica por conta das irmãs Keres, retratadas como criaturas aladas e de garras afiadas. Meng Po: senhora do esquecimento na mitologia chinesa, serva do Di Yu, o reino dos mortos. Quando uma alma está pronta para reencarnar, é Meng Po quem faz com que se esqueça da vida anterior oferecendo-­ lhe o Chá do Esquecimento.

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