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CAPÍ T U LO 1
A Vida sob a Morte PARA LER OUVINDO “Canção pra você viver mais”, de Pato Fu
O que é o luto, senão o amor que perdura? Visão, WandaVision
Uma coisa que não farei neste livro é ser um coach de Morte. Existem diversos caminhos para se aprofundar no assunto, de estudos filosóficos a obras literárias, de crenças orais a dogmas religiosos, de livros de conhecimento milenar aos contemporâneos de autoajuda. No âmbito da medicina, podemos entender sua causa, buscar formas de evitá-la ou até mesmo focar em seu aspecto mais mundano: o coração para de bater e pronto, o pó de que somos feitos volta à origem. Fim! Eu mesmo, ao longo do meu processo de Luto, li um bocado de livros sobre o assunto, consumi ótimos conteúdos de especialistas, assisti a filmes e séries, consultei paradigmas religiosos, fiz terapia e conversei com pessoas muito mais entendedoras do comportamento humano do que eu. Minha conclusão é que todos esses caminhos são válidos para quem sente vontade de percorrê-los, pois não faltam referências sobre o tema. Definitivamente, a Morte é pop! E, assim como as contas no fim do mês, ela sempre vence no final. Quando escrevi que gostaria de apresentar meu mundo aqui, como minha esposa me ensinou, sei que essa visão será moldada por meus valores, crenças e experiências, como acontece com qualquer professor. A imparcialidade é um mito, e a visão de um educador pode 19
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transparecer até mesmo na escolha de vocabulário: ao falar sobre o que aconteceu no Brasil em abril de 1500, por exemplo, alguns dirão “descobrimento” e outros “invasão portuguesa”. Mesmo fórmulas matemáticas, como o teorema de Pitágoras, podem ser apresentadas como algo a ser decorado para passar de ano na escola, um raciocínio científico ou uma ferramenta com aplicabilidade no cotidiano. Então, saiba que este livro se propõe a ajudar as pessoas a lidar com a dor, mas sem isenção de opinião, cientificismo ou coaching de Luto. Estou plenamente convencido de que o Luto é uma experiência muito individual. Ainda assim, se algo pelo que passei puder aliviar e interpretar a dor de alguém, parte disso já terá valido a pena. As experiências que compartilho aqui são como dicas para suportar a visita daquela tia chata sem acabar virando assunto no grupo da família depois. Porque, vou te contar, todo apoio é válido quando a Morte resolve se hospedar sem cerimônia em corpo e mente. Sendo um homem que conviveu com uma mulher com câncer, sei que não são poucos os exercícios necessários para nos desprendermos de discursos e atitudes machistas. O machismo estrutural está tão entranhado em nossa sociedade que até as mulheres estão sujeitas a reproduzir tais discursos por terem sido criadas ou socializadas em ambientes machistas. Identificar esse padrão talvez seja o primeiro passo para compreender que estamos todos presos em uma teia, e, se nos debatemos sem propósito, tudo o que fazemos é facilitar para que a aranha nos devore. Meu objetivo aqui é justamente não facilitar para a Morte, nem quando ela se hospeda em nossa casa após um diagnóstico, nem quando acredita que venceu. Claro, no fim de tudo ela sempre vencerá, mas é importante demais a gente cair batendo. Outra coisa importante que aprendi ao longo dos últimos vinte anos foi a dar nome às coisas. Chega de usar eufemismos para a Morte! “Ela morreu. Está morta. Será essa palavra tão difícil de se aprender?”, esbravejou C. S. Lewis, escritor irlandês que também perdeu a esposa para o câncer, logo no início de seu livro A anatomia de um luto.1 Tratar a Morte por palavras como “passagem”, “partida” ou “descanso” é uma tradição que, no meu entender, pouco ajuda a encarar a perda. Parece até uma praga ocidental: em todo velório, a 20
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gente vê e escuta isso da turma – sem noção, ainda que com a melhor das intenções – que diz que devemos parar de lamentar, que esse sofrimento vai passar. Como se lamentar fosse um problema. Judith Viorst vê o lamento até como solução. No Luto, há um enorme desejo de manter-se preso ao passado: renunciar a ele significa, nesse primeiro momento, continuar matando a pessoa amada. Mas ao lamentar cada emoção, das ternas às desagradáveis, traçamos o caminho para que o Luto siga seu curso: “Através do nosso lamento reconhecemos a dor, sentimos a dor, passamos por ela. Com nosso lamento libertamos os mortos e os guardamos dentro de nós”. E esse mesmo pessoal que deseja nos afastar da dor se indigna quando reagimos com desprezo ou damos uma resposta atravessada – coisa rara, mas que deveria ser normalizada em prol da saúde mental dos enlutados –, quando gritamos algo como “vai passar porra nenhuma!”. Parece que estão todos no mundo fantasioso de Nárnia, evitando falar a palavra “morte” mesmo com um defunto ali, no meio da sala. Repare como todos falam baixo, como se não quisessem “acordar” o morto, que “parece tão calmo, como se estivesse dormindo”. Ah, vá! Vamos combinar? Eu me chamo Cláudio, e embora não ligue que me tratem por apelidos, não me chamar pelo meu nome real ao falar de um assunto sério pode fazer com que ambas as partes adiem o enfrentamento do problema. Não é à toa que, quando éramos crianças, nossos pais usavam nosso nome completo quando a coisa ficava feia. Quem tem nome composto como o meu sabe disso muito bem. Só de ouvir um “Cláudio Márcio!”, sei que deu ruim pra mim. Também falarei de religião aqui, pois tais eufemismos têm a ver com crenças arraigadas. Alguns dirão que essas denominações nos consolam por indicarem que a morte não é um ponto final. Mas, para mim, um dos maiores problemas do Luto é justamente esse: achar que não tem ponto final. Tem, sim, caralho! Eu nunca mais vou rir com a minha esposa, abraçá-la, viajar com ela, perguntar o que fazer quando nosso filho estiver doente. Nunca mais vou implicar com sua coleção de potes de plástico que “um dia servirão para alguma coisa”, nem ela vai me olhar com aquela cara de “você vai sair vestindo isso?”. E eu nunca mais vou poder cuidar dela. 21
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Porque existe um ponto final, e seu nome é Morte. O Luto também pode trazer um dos piores efeitos colaterais: a culpa. Minha batalha interna mais cruel é tentar entender o que eu poderia ter feito melhor, em que poderia ter errado menos, o que deixei escapar e que talvez tivesse estendido um pouco mais a vida da minha amada. Esse conflito geralmente é amenizado por familiares e amigos que insistem que você não teve culpa de nada, que fez o que tinha que ser feito, mas é incrível como a cabeça do ser humano funciona às vezes: você pode concordar, mas não vai acreditar. Tenho sentido que Perdão é a palavra mais difícil de aceitar depois de Morte. Igualmente enlouquecedor é pensar no que você poderia ter dito e no que poderia ter deixado de dizer. É tão mais fácil recordar as merdas que dissemos do que as palavras de amor compartilhadas! Nesses momentos, é preciso usar da lógica: se as palavras rancorosas fossem mais numerosas e relevantes, o afastamento teria sido inevitável na saúde ou na doença. No entanto, o Luto e a Morte estão se lixando para a lógica. Pensando no que poderia ter sido dito, é fato que não nominar a Morte durante o período de tratamento de Dânia foi um erro. Nossa cultura judaico-cristã não ajudou; fomos ensinados que a Morte deve ser temida, que não devemos mencioná-la para não atrair mau agouro, que devemos tratá-la literalmente como “aquela que não deve ser nominada”. Em casa, fingimos que essa hóspede não era um incômodo e pisamos em ovos durante o pouco e precioso tempo que tivemos juntos. Hoje entendo que não nominar, não dizer com clareza que a Morte atrapalhava nosso convívio foi o catalisador de algumas discussões estúpidas e evitáveis. De sentimentos ruins que nos debilitaram quando não suportávamos mais abatimentos. Eu devia ter dito que o problema nunca foi o piso de porcelanato que ela escolheu, e sim o fato de que eu teria que encará-lo todos os dias quando ela se fosse. Devia ter admitido que não discordávamos sobre o que era melhor para o nosso filho, e sim que eu me sentia inseguro por não saber como seria nossa vida quando ela morresse. Devia ter reconhecido que, na maioria das vezes, não estávamos brigando um com o outro, e sim com a porra da Morte. Mas não falar sobre a Morte não significa que não demos nossos pulinhos. Em retrospecto, foram mais saltos em queda livre do 22
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que pulos. Desde que Dânia recebeu o diagnóstico, acendeu-se um alerta que nos deu urgência de vida. Embora mantivéssemos a meta de envelhecer juntos, de nos tornarmos esses casais de velhinhos que estão sempre de mãos dadas, não havia mais aquela história de esperar para fazer as coisas quando tivéssemos tempo ou dinheiro sobrando. Pouco tempo após o diagnóstico, quebramos um combinado do início do casamento e partimos para a nossa maior aventura: ter um filho. Entre chutes mais cotidianos no balde – um vinho em dia de semana, uma cerveja antes do meio-dia –, fomos a todos os shows possíveis de astros internacionais da música pop, inclusive em outras cidades. Foram inúmeras viagens, com direito a repetir destinos de que a gente gostou e conhecer lugares exóticos, do tipo que a gente só pensa em ir no fim da vida. As conquistas foram muitas, e em frentes variadas. Dânia desfilou numa escola de samba da 1ª divisão de São Paulo, e foi campeã. Abrimos nossa própria escola, outro projeto que tínhamos para a aposentadoria e resolvemos adiantar. Depois, gastamos uma baba para reformar o espaço e abrir um coworking temático de educação, que inauguraria em março de 2020. Com o início da pandemia de covid-19, no entanto, o negócio deu com os burros n’água, mas isso não nos impediu de manter outros pequenos negócios educativos, sempre com a determinação pedagógica de Dânia à frente da gestão. Três meses antes da vitória definitiva da Morte, Dânia andou de quadriciclo e passeou de tirolesa pela primeira vez. Foi uma de nossas últimas aventuras pelas praias cearenses, onde o lema “pé na areia, água de coco e caipirinha” regeu nossos passeios. Na boa? A Morte foi uma hóspede filha da puta, mas também ressignificou nossas vidas. Isso não significa que deveríamos tê-la tratado bem, mas talvez devêssemos tê-la convidado para algumas das nossas noites de vinho ou cerveja, encarando-a de frente, talvez chorado um pouco juntos, porque bêbados chorando é tudo de bom. As pouquíssimas vezes que conversamos sobre a Morte como algo possível e real, no entanto, foram tão rápidas e incômodas, tão pragmáticas e cruéis, que acho que nem posso contá-las como válidas. E, como um bom homem estúpido, numa das poucas vezes que houve uma tentativa de aprofundamento, eu meti os pés pelas mãos. Na ocasião, minha esposa 23
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perguntou como eu e meu filho ficaríamos sem ela, e a resposta – automática, típica de quem só quer se livrar da pergunta incômoda – foi que ficaríamos bem. Ela não gostou nada de ouvir isso, mas também não disse nada. Hoje sei que essa resposta impulsiva a fez pensar, erroneamente, que ela não significava nada em nossas vidas. De fato, homens são de Marte, mulheres são de Vênus. Até que um dia, quando finalmente entendemos que nossos incômodos eram ampliados por essas respostas vazias, ainda que bem-intencionadas – do tipo que infestam o inferno –, chamamos novamente a Morte para a conversa. A iniciativa foi de Dânia, que se abriu comigo e disse o quanto aquela resposta tinha sido terrível. Da minha parte, também pude ser sincero e dizer que, em resumo, a Morte nos destruiria. Que ela, mãe e esposa, era a pessoa mais importante da nossa família. E que, na realidade, eu não sabia como responder àquela pergunta porque a simples ideia de sua ausência era algo impensável, irreal. É um paradoxo, mas foi preciso essa resposta visceral para trazer alívio à minha esposa. Sim, é preciso desafiar a Morte durante sua estadia e dizer que, sendo ela inevitável, a Vida que se deixa e o legado que se herda a superam. Dessa conversa em diante, inclusive nos momentos finais, eu e nosso filho aproveitamos todas as oportunidades de reafirmar o quanto ela era importante para nossas – agora debilitadas – vidas. Então aqui vai uma boa dica: não finja que a Morte não está por aí, ou nem aí. Não deixe de tratá-la pelo nome nem de procurar a sua verdade nela. É preciso falar sobre a Morte para perceber que há coisas ainda mais importantes na Vida.
Dicas de leitura O luto é a coisa com penas, de Max Porter (Editora Elsinore, 2016) Esta foi minha leitura preferida sobre o tema da Morte. É uma fábula sobre um ser que chega para transformar a vida de uma família após o falecimento da mãe, trazendo reflexões durante esse período de dor e
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incerteza. Além de um belo projeto de design e um título inquietante na edição em português, o livro tem uma escrita poética, capaz de emocionar até quem não gosta de poesia, como eu. Meu irmão caçula, de JeanLouis Tripp (Editora Nemo, 2023) Em 5 de agosto de 1976, o jovem JeanLouis, então com 18 anos, curtia as férias de verão com a família quando seu irmão mais novo, Gilles, morre em um trágico atropelamento. O evento dilacera a vida do autor, mergulhando-o em um poço de culpa angustiante e marcando o início de sua dolorosa jornada de luto. Essa HQ é um mergulho nas lembranças de JeanLouis e dos que estiveram próximos a ele naquele momento crucial, que permanece indelével na história da família até os dias atuais.
Mitos desconhecidos sobre a Morte Mictlantecuhtli: Micli, para os íntimos, é o senhor de Mictlan, o reino dos mortos dos astecas, que governa ao lado de sua esposa, Mictecacihuatl. Foram enviados à Terra por Quetzalcóatl, deus da criação e da vida, para zelar pelos ossos dos mortos. Supay: governante inca do Ukhu Pacha, uma ponte no submundo entre a vida e a morte. Sua aparência, semelhante à do Diabo do cristianismo, lhe atribui a versão satânica. É celebrado até hoje pelo povo Quéchua, que o homenageia com danças e trajes coloridos no Festival Mamacha Candicha, que acontece no Peru. Donn: mortal alçado a deus, é o senhor tanto da morte quanto da solidão, conceitos muito associados na cultura irlandesa. Ele supervisiona a coleta das almas que vagam pela Terra como sombras, permitindo que descansem apenas depois de seu convite. Thanatos: frequentemente retratado na cultura grega como um sujeito relaxando perto de uma tumba, é a personificação das mortes
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não violentas – e, portanto, o terror dos idosos. A sanguinolência fica por conta das irmãs Keres, retratadas como criaturas aladas e de garras afiadas. Meng Po: senhora do esquecimento na mitologia chinesa, serva do Di Yu, o reino dos mortos. Quando uma alma está pronta para reencarnar, é Meng Po quem faz com que se esqueça da vida anterior oferecendo- lhe o Chá do Esquecimento.
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