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Posfácio

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Uma história dos tempos de Cristo

CAROL WALLACE Baseado no romance de Lew Wallace

Tradução Antonio Carlos Vilela


Posfácio

6 de abril de 1862 foi o pior dia na longa e agitada vida de Lew Wallace. Esse foi um dia trágico para milhares de famílias americanas: quase vinte e quatro mil soldados do Norte e do Sul foram mortos ou feridos em um campo de batalha pantanoso no sudoeste do Tennessee, perto de uma igreja chamada Shiloh. E foi um dia desastroso para os comandantes desses soldados, que descobriram o quão destrutiva seria aquela guerra. Batalhas anteriores à Guerra Civil tinham envolvido grupamentos menores de homens armados; em Shiloh, duas forças imensas se encontraram, provocando morte e destruição em escala monumental, e então se separaram aos pedaços, sem nenhuma vantagem clara para qualquer um dos lados. Morreram ali mais soldados do que em todas as batalhas norte-americanas anteriores somadas. Aqueles que acreditaram que a guerra entre os estados pudesse ser resolvida em um confronto decisivo tiveram que mudar de ideia depois da Batalha de Shiloh. Lew Wallace nunca superou aquele dia. Quando o sol nasceu ele era o mais jovem major-general do Exército da União, uma figura esguia e arrojada montada em um cavalo baio alto. Ele comandava, com confiança e entusiasmo, uma divisão de reserva com oito mil homens. Ao anoitecer, quando suas tropas encharcadas finalmente se juntaram aos regimentos surrados e dizimados que lutaram o dia todo, ele soube que seu comandante, Ulysses S. Grant, estava furioso. Às 9h Grant ordenou que Wallace trouxesse sua divisão para reforçar o flanco da União. E Wallace... bem, Wallace e seus homens só chegaram bem depois das 18h, deixando as forças de Grant expostas, exaustas e à beira de uma retirada.


A batalha durou mais um dia, e a União prevaleceu (por pouco), mas o número de baixas fizeram manchete no Norte e no Sul. Como pôde a União ter se atrapalhado daquela forma? Grant tinha uma resposta: era culpa de Wallace. Wallace tinha uma réplica: as ordens de Grant não foram claras. Esses eram os pontos de vista dos dois homens após a batalha, e nenhum deles deu o braço a torcer por mais de 20 anos. Até que novas evidências surgiram, e Grant cedeu, admitindo que talvez Wallace estivesse com a razão. A essa altura, em meados da década de 1880, era de se pensar que Lew Wallace não estivesse mais preocupado com isso. Ele era mais rico e célebre do que jamais poderia ter imaginado. Mas, até o dia de sua morte, Lew sentia que sua honra tinha sido manchada, e ele era um homem que se importava profundamente com esse conceito antiquado. Em muitos aspectos, na verdade, Lew nasceu um tantinho tarde demais, e viveu em descompasso com sua época. Por toda a vida ele buscou o exótico, o pitoresco, o perigo, em um período em que a vida norte-americana ficava cada vez mais estável, previsível e monótona. No fim, o anseio de Lew por atos gloriosos fez sua fortuna de um modo que ele não poderia ter previsto. Assim como o episódio de Shiloh. E, talvez o mais estranho de tudo, também o proporcionou um encontro casual num trem. Esse último fato aconteceu em setembro de 1876, quase 15 anos após a Batalha de Shiloh. Os anos entre os dois eventos foram confusos para Lew. Ele foi afastado de seu posto logo após a batalha; meses se passaram até que ele voltasse a liderar tropas em combate. E apesar do sucesso em Fort Donelson e Monocacy, ele não foi mais promovido. (Essa foi, na verdade, uma boa decisão por parte do comando da União: como soldado, Lew era inclinado à insubordinação e impulsivo.) Como era advogado na vida civil, ele serviu nos júris militares que julgaram os assassinos de Abraham Lincoln e do comandante de Andersonville, o infame campo de prisioneiros confederado. Então veio um período confuso em que Lew foi para o México formar e treinar um exército rebelde para combater os franceses, que tinham ocupado o país em uma ilegítima investida colonial. Lew retornou falando espanhol, mas afundado em dívidas, tendo sido ludibriado em relação a armamentos e provisões para forças que nunca se materializaram. Finalmente as aventuras acabaram. Lew teve que se estabelecer em Crawfordsville, Indiana, em um escritório de advocacia monótono que


deve ter lhe dado a sensação de fracasso. Lá estava ele – um homem que fugiu de casa aos 12 anos para participar de uma guerra mexicana; um homem que levantou seis regimentos de tropas do estado de Indiana e os convenceu a treinar e a se vestir como zuavos argelinos, com jaquetas curtas e pantalonas folgadas, tudo em nome da eficiência militar; o filho do sexto govenador de Indiana e cunhado do décimo terceiro –, defendendo casos em tribunais apertados de cidades pequenas, no esforço de pagar as consideráveis dívidas que tinha com seu cunhado banqueiro. Por outro lado, ele tinha uma esposa bonita e inteligente, com um senso de humor mordaz; um filho atencioso e o melhor hobby que poderia ter um homem que precisava fugir da rotina diária. Lew Wallace, em seu tempo livre, escrevia romances. Nisso, como em sua personalidade, Lew estava fora de sintonia com seu tempo. A década de 1870 foi o período do realismo na ficção americana. Os romances da moda faziam os leitores mergulharem na pobreza urbana e no sofrimento dos imigrantes, com personagens e diálogos encontrados na vida cotidiana. Lew, por sua vez, tinha pesquisado e escrito um épico sobre a conquista do México por Hernán Cortés, em 1519, incluindo linguagem de sonoridade arcaica. The Fair God (O Deus justo) foi publicado em 1873 e foi bem recebido, embora não tenha sido bemsucedido a ponto de permitir a Lew abandonar o escritório de advocacia. De qualquer modo, ficou claro para ele que seu hábito de escrever ficção era construtivo, pois lhe proporcionava uma fuga da labuta legal, que era o que pagava as contas da família Wallace. Ele gostava tanto de pesquisar quanto de escrever e, depois de The Fair God, acabou escrevendo uma novela sobre os reis magos. Lew não era um homem religioso, mas, nos Estados Unidos dos anos 1870, de certa forma, os Evangelhos faziam parte da cultura de todos. Lew, o viajante, o caçador de aventuras, ficou fascinado pelos três homens de fés distintas que saíram de seus lares distantes para seguir uma estrela em busca do Redentor da humanidade. Era algo que ele mesmo poderia ter feito. Em 1876, Lew já tinha quase 50 anos. Era um homem saudável, mas estava envelhecendo. O que mais a vida teria para ele? Quanto tempo mais ele conseguiria aguentar os tribunais poeirentos do interior, com um juiz mascando tabaco e réus de péssima higiene, para no fim do dia embolsar seus honorários e enfrentar a desconfortável viagem de volta para casa – e uma série interminável de dias semelhantes? Não é de admirar que ele tinha planejado comparecer à reunião do grupo de veteranos Boys in Blue, em Indianápolis, em setembro daquele


ano. Haveria discursos e música, possivelmente bebidas e uma marcha pelas belas ruas do centro. Haveria uma campanha política, o que interessava a Lew, embora suas próprias campanhas para o Congresso, em 1868 e 1870, não tivessem dado em nada. Ele apoiava Rutherford B. Hayes, o candidato republicano à presidência, e a reunião contaria com um discurso de Robert Ingersoll, o mais impressionante orador dos Estados Unidos nessa época. Isso pode soar estranho hoje, mas Robert Ingersoll era um superastro em 1876. Antes da televisão, antes do rádio, antes de músicas serem gravadas, apresentações ao vivo eram uma importante forma de entretenimento, e, acredite ou não, os norte-americanos compareciam em massa para escutar homens fazendo discursos. Lendo-se o trabalho de Ingersoll hoje, pode-se dizer que o homem tinha mesmo muito jeito com as palavras. Mais do que isso, ele possuía um ponto de vista notável, pois era o agnóstico mais conhecido da América. Ele era também um provocador nato. Um de seus passatempos favoritos era envolver estranhos em debates a respeito da divindade de Cristo, que ele negava com veemência. Por acaso, Ingersoll estava no trem que Lew Wallace tomou para a reunião dos Boys in Blue, em 19 de setembro de 1876. Ingersoll convidou Lew para ir à sua cabine privada e, enquanto o trem sacudia sobre os trilhos a caminho de Indianápolis, os dois homens começaram a conversar. Basicamente, Ingersoll desmontou Lew. Ele acreditava em Cristo? Sim. Por quê? Ele não sabia. Ele tinha lido os Evangelhos? Umm... uma parte. Ele acreditava mesmo naqueles milagres? Umm... talvez. Por quê? Lew acreditava mesmo que Jesus tinha levantado dos mortos? Toda aquela bobagem sobre Lázaro, morto há três dias e já se decompondo... como um homem instruído pode acreditar numa coisa dessas? Lew não sabia. Ele percebeu que não sabia muita coisa. E aquela conversa com Ingersoll o havia constrangido. A fé era uma questão vital naquela época, e, embora Lew não fosse de ir à igreja, ele reconhecia a importância fundamental do Cristianismo. Como podia ele, um homem curioso e instruído, ter chegado à sua idade sem refletir com seriedade sobre a sua fé? Então, sendo como era, decidiu pesquisar o assunto, o que significava escrever um livro a respeito. Na verdade, Lew percebeu naquela noite, enquanto caminhava pelas ruas tranquilas de Indianápolis em direção à casa de seu irmão, que ele já tinha começado esse livro. O que era sua novela sobre a viagem dos reis magos se não o início de um romance


sobre Jesus? Ele já tinha escrito sobre a Natividade e teria que terminar, por motivos óbvios, com a Crucificação. O material intermediário traria à vida o mundo antigo em que Jesus viveu – e o próprio nazareno. O desafio e o prazer da empreitada viriam da invenção de personagens e acontecimentos que personificassem os conflitos do mundo antigo. O poder e a grandeza do Império Romano em seu ápice acabariam sendo representados por Messala, o jovem romano privilegiado, enquanto a população judaica oprimida da Judeia seria personalizada pelo jovem príncipe Judah Ben-Hur. A ação do romance se concentraria nos anos anteriores à a pregação de Jesus e durante ela, e levaria Ben-Hur à presença do Salvador. Um fator que tornou Ben-Hur popular foi a evidente fé de Lew. Ele escreveu sobre Jesus e seus ensinamentos com autêntica reverência e conduziu os leitores à presença imaginada do Senhor. Outro componente foi a devoção de Lew aos romances de aventura antiquados. Ben-Hur não seria famoso hoje sem a corrida de quadrigas e a batalha naval. O ódio declarado entre os ex-amigos Messala e Judah Ben-Hur empurra a trama para frente. Mas há outro elemento que confere força emocional a Ben-Hur. O momento crucial da história, quando o herói, Judah, é tirado do conforto da Jerusalém de sua infância, é um acidente. Judah derruba uma telha da cobertura do palácio da família Hur e fere uma autoridade romana. A reação imediata e violenta destrói o mundo de Judah, separando-o de sua família e o transformando em escravo. É o seu desejo de reencontrar seus entes queridos que move o restante do livro – junto com sua sede de vingança. Tudo isso é ficção, claro. Lew Wallace nunca chegou perto de uma galé romana, e com sua amada esposa e o filho Henry formava uma família unida e feliz. Mas Lew sabia o que eram afronta e injustiça. O desejo ardente de Judah Ben-Hur de reparar os danos sofridos em sua juventude reflete a luta vitalícia de Lew para limpar seu nome de uma acusação injusta – a desgraça de Shiloh. Através de Judah, ele imaginou a vingança que queria infligir a seus inimigos, os covardes burocratas militares que se recusavam a limpar seu nome. Há violência real em Ben-Hur, e nosso devoto herói judeu viola os mandamentos várias vezes ao matar com grande empenho. Com certeza, são a vergonha e a raiva de Lew que motivam Judah a aproximar imprudentemente sua quadriga da de Messala nos últimos momentos da célebre corrida. Assim como é a crença de Lew que faz Ben-Hur, no fim do livro, abandonar, relutante, seus planos de violência para aceitar um tipo diferente de Salvador.


Lew Wallace fez a pesquisa para Ben-Hur e escreveu o livro em seu tempo livre. O mais surpreendente é que o processo todo levou apenas quatro anos, que foram bastante agitados para ele, pois o encontro com Ingersoll marcou o início de uma nova era em sua vida. Depois da decisiva reunião dos Boys in Blue, Lew tirou uma licença do seu escritório de advocacia em Crawfordsville para se dedicar com vigor à campanha de Rutherford B. Hayes, de modo que a política acabou por tirá-lo de Indiana. Era prática comum naquela época recompensar os aliados de campanha com cargos no governo. Mas Lew não era dos primeiros da lista de Hayes, pois foi só em 1878 que ele, afinal, ofereceu-lhe um posto, e um bem modesto: Lew poderia, se quisesse, tornar-se governador do turbulento e violento território do Novo México. O salário era pequeno, e o trabalho, perigoso: o Novo México era um território quase sem lei naquela época, com facções de criminosos se enfrentando na Guerra do Condado de Lincoln. Pior ainda – para Susan Wallace, pelo menos – eram as condições primitivas de Santa Fé, a capital do território. Mas Lew precisava de uma aventura, e Susan era mais corajosa do que deixava transparecer; e os Wallace então ocuparam o amplo Palácio Real de um andar, construído em 1610 e que não passou por muitas melhorias depois disso. Lew fez inimigos logo que chegou. Aquele era, afinal, o Oeste Selvagem, onde se vivia de arma em punho, e ele estava lá para restaurar a lei e a ordem. O fora da lei mais famoso era Billy the Kid, que ameaçou de morte o General Wallace. Susan ouviu de uma amiga que ela e Lew nunca deveriam deixar as cortinas abertas, à noite, em quartos com luzes acesas, pois era provável que um criminoso descontente atirasse neles. E quando Lew não estava prendendo Billy the Kid ou tentando apaziguar facções de boiadeiros rivais, ele virava a noite escrevendo Ben-Hur. De fato, ele terminou a primeira versão e a copiou inteira à mão usando tinta roxa. Em março de 1880 ele tirou uma folga de seu posto para entregar pessoalmente o manuscrito à editora Harper & Brothers, em Nova York. O livro foi aceito, mas com ressalvas. O modesto sucesso de The Fair God e a notoriedade de Lew ajudaram o editor a decidir pela publicação, mas ele tinha reservas quanto a um romance em que Jesus Cristo aparecia como personagem. Não importava que a representação fosse reverente, nem que o autor só tivesse dado para Jesus diálogos tirados diretamente dos Evangelhos, a Harper & Brothers estava preocupada que Ben-Hur: uma história dos tempos de Cristo pudesse ser um livro blasfemo. Apesar disso, eles assumiram o risco, e o livro foi lançado em 12 de novembro de 1880, pronto para o Natal.


Os instintos políticos de Wallace não eram dos melhores, principalmente no caso da Batalha de Shiloh, mas ele teve o bom senso de enviar cópias de Ben-Hur para alguns de seus amigos que ocupavam altos cargos na administração federal. Acontece que um deles era James Garfield, o presidente eleito, que prometeu ler quando tivesse tempo. Por incrível que pareça, Garfield cumpriu a promessa alguns meses depois. O presidente conseguiu ler o romance de 550 páginas em seis dias e, devido à força da sensível descrição do Oriente Médio feita por Lew, ofereceu-lhe o cargo de embaixador dos Estados Unidos junto ao Império Otomano. O salário seria três vezes o que Lew recebia no Novo México. O que seria bom, já que as vendas de Ben-Hur foram decepcionantes – os direitos autorais referentes aos primeiros sete meses de vendas somaram menos de 300 dólares. Levando em conta os anos gastos na criação do romance, aqueles eram rendimentos acanhados. Pouco tempo depois, Lew escreveria para o filho Henry especulando que os direitos somados de The Fair God e Ben-Hur poderiam alcançar mil dólares por ano, se ele tivesse sorte. Mas, de certa forma, ele escrevia seus romances como um hobby. A vívida imaginação de Lew fazia com que suas extensas pesquisas funcionassem como verdadeiras viagens. Ele costumava dizer que seus personagens eram seres vivos para ele, pois falavam, agiam, tinham vontade própria, e, embora ele amasse alguns, detestava outros. Hoje é possível que nós encaremos Ben-Hur de outra forma. Com o que sabemos da vida de Lew Wallace, podemos ver que as maiores preocupações do autor foram incorporadas a essa que acabou sendo sua obra-prima. Estão presentes não apenas o choque e a vergonha relativos à Batalha de Shiloh, mas também sua reverência pelas mulheres, sua idealização da família, sua preocupação perpétua com dinheiro – e até mesmo sua luta com as questões de vingança e perdão. Lew viveu seus anos de formação como soldado. A violência estava gravada na sua definição de masculinidade, e ele deu esse atributo ao seu herói, Judah Ben-Hur. Essas também eram as preocupações de muitos outros norte-americanos dessa época, e isso deve ter contribuído para o progressivo sucesso de Ben-Hur. Em 1880, o país estava se debatendo com o processo de reconciliação entre Norte e Sul, tentando deixar para trás o legado amargo da guerra, assim como Judah tem que aceitar que a liderança de Jesus não será por meio de violência, mas de paz e redenção. Também em 1880, a Era Industrial seguia a todo vapor, e a riqueza começava a ser respeitável – até glamorosa. Lew Wallace arrancou seu herói do conforto do


palácio de um príncipe mercante e o jogou no ambiente brutal de uma galé romana, para depois dotar Judah com uma fortuna não conquistada – ou melhor, duas fortunas. E em um país onde a escravidão era uma lembrança recente demais para muitos cidadãos, um herói que tinha sido escravo dava uma nova percepção – ainda que indireta – das condições horríveis da escravidão. Como podemos ver agora, Ben-Hur: uma história dos tempos de Cristo tinha tudo: aventura para quem buscava entretenimento, sentimentalismo para as mulheres, uma fábula do tipo “da pobreza à riqueza” e até romance. As descrições, embasadas em sua meticulosa pesquisa, traziam imagens vibrantes do Oriente Médio para leitores que nunca viram nem veriam uma palmeira. O que diferenciou Ben-Hur, contudo, foi o cerne da ideia original de Lew Wallace: a aceitação da divindade de Jesus. Os quatro anos de pesquisa e escrita convenceram Lew de que o agnóstico Robert Ingersoll estava errado. Lew acreditava, e Ben-Hur demonstrava isso. As cenas da Natividade e da Crucificação eram o trabalho de um cristão convencido. Escrevê-las como parte de uma obra maior de ficção era um risco enorme, e os leitores a princípio se prepararam para ficar chocados. Mas a sinceridade de Wallace era evidente. Não havia nenhuma intenção de ofender os devotos, e estes não podiam se ofender. Mas isso não significa que os críticos gostaram do livro. Eles debocharam da linguagem extravagante e da trama antiquada. Algumas dessas críticas mais severas devem ter machucado Lew, que, já no fim de 1883, tinha recebido um total de apenas 2.800 dólares em direitos autorais por Ben-Hur. Mas a essa altura ele já desfrutava havia vários anos de uma renda mais confortável como embaixador dos EUA em Constantinopla – e de uma vida mais exótica do que o garoto sonhador de Indiana jamais poderia ter imaginado. Ele e Susan viajaram extensamente pela Europa e por todo o Oriente Médio; Lew pôde até verificar pessoalmente a precisão de suas descrições em Ben-Hur e anunciar, feliz, que todas estavam corretas. Ele conseguiu também cultivar uma relação cordial com o Sultão Abdul Hamid II, soberano do ruinoso Império Otomano. Esse foi um interlúdio gratificante e estimulante, e quando os Wallace retornaram aos Estados Unidos, Lew esperava uma aposentadoria tranquila da advocacia e a liberdade para se concentrar em seu próximo romance. Mas seu maior sucesso o aguardava, pois Ben-Hur tinha engrenado. Apesar das críticas e das fracas vendas iniciais, o romance encontrou seus leitores através da propaganda boca a boca. A moda literária podia ser de


histórias realistas da sociedade contemporânea, mas as descrições pitorescas do mundo antigo feitas por Lew conquistaram fãs e mais fãs. E o mais importante: seu maior risco literário tinha valido a pena. Tomar a ousada decisão de retratar Jesus em um romance poderia ter afastado o público cristão, dominante nos Estados Unidos do século XIX. Mas aconteceu o contrário; esses leitores foram conquistados. Lew começou a receber cartas emocionadas de leitores que se sentiram tocados e comovidos, cuja fé foi renovada pelo Jesus retratado em Ben-Hur. Pastores recomendaram o livro para suas congregações. Muitos norte-americanos nunca tinham lido um romance antes: ficção era considerada não apenas perda de tempo, mas algo pior, uma representação da falsidade. Isso tornava a maioria dos romances moralmente suspeitos, mas a religiosidade de Ben-Hur e seu apego à doutrina cristã colocaram a obra a salvo de uma reprovação religiosa. *** Lew Wallace voltou de Constantinopla no outono de 1885. Seis meses depois, seu retrato estampou a capa da revista nacional Harper’s Weekly. Pelo resto de sua vida ele seria uma celebridade norte-americana, um dos primeiros autores estelares. Foi uma incrível mudança de rumo, desde sua fase mais crítica, apenas dez anos antes. Em 1876, quando encontrou Robert Ingersoll naquele trem, Lew estava diante do que parecia ser um futuro deprimente, marcado pelo trabalho como advogado, que ele chamava de “abominável”, e por problemas financeiros para os quais não via saída. Pior, para o aventureiro ardente que era, parecia que as aventuras da vida tinham acabado. Parecia que, dali em diante, os encontros de veteranos seriam sua única fonte de emoção. Só que, conforme as vendas de Ben-Hur cresciam ano a ano, também se ampliavam as oportunidades. Revistas e editores de livros aceitavam qualquer coisa que saísse da pena de Lew, ou de Susan, sua mulher. Ele foi contratado para escrever a biografia de campanha do futuro presidente Benjamin Harrison. Não só a remuneração pelos direitos autorais começou a entrar, como também as dívidas de seus maus negócios no México foram pagas, e Lew pôde começar a poupar. Ele saiu em turnês literárias e falou para públicos de milhares de pessoas. Seus temas eram “México e os mexicanos”, “Turquia e os Turcos, com vislumbres do harém” e, claro, Ben-Hur. Ele leu a sequência da corrida de quadrigas em Siracusa, Nova York, para oito mil pessoas. Sua turnê, que se estendeu por pouco menos de seis meses, rendeu-lhe quase 12 mil dólares (aproximadamente 300 mil em valores atualizados).


Na turnê, Lew encontrou uma legião interminável de leitores que queriam lhe dizer o quanto Ben-Hur tinha significado para eles. Aqueles que não conseguiram ver o autor pessoalmente escreveram para ele: alcoólatras que pararam de beber, jovens que se reconciliaram com a família, céticos que voltaram para a igreja de sua juventude. Alguns leitores faziam questão de que ele soubesse que tinham achado o romance empolgante demais para largar a leitura – o velho nêmesis de Lews, o ex-Presidente Grant, devorou o livro em 30 horas. A editora Harper & Brothers fez diversas reimpressões e, em 1886, Ben-Hur era um grande best-seller. Era o livro de que todo mundo falava. Famílias liam em voz alta uns para os outros; era recomendado nas escolas dominicais; senhoras cultas vestiam figurinos e interpretavam esquetes e tableaux inspirados na obra. Não demorou para que Ben-Hur fosse mais que um livro. Na década de 1880 muitos best-sellers foram adaptados para o palco. O próprio Lew, com seu gosto pelo teatro, tinha escrito uma peça que acabou publicando (mas que nunca conseguiu que fosse produzida). Pedidos de permissão para adaptar Ben-Hur começaram a chegar já em 1882, mas a princípio Lew recusou. Ele estava preocupado que o tom reverente de seu romance não fosse preservado – afinal, o teatro era, por definição, uma mídia mais melodramática que o livro. Finalmente, Lew produziu um libreto para uma produção de tableau que foi encenada com sucesso em toda a América. Uma série de cenários pintados era acompanhada de leituras do romance e breves interlúdios musicais, incluindo uma sequência de dança exótica. Em 1899, a tecnologia teatral chegou ao nível que Ben-Hur exigia, e começaram as negociações para a produção de uma adaptação completa, que só poderia ser encenada em teatros maiores e mais sofisticados. Lew, que tinha administrado tão mal seu dinheiro quando quase não tinha nenhum, agora havia conseguido fazer um bom negócio, ficando com o controle criativo e a maior fatia dos lucros. Era dele a vantagem na hora de negociar: Ben-Hur era, àquela altura, o romance mais vendido de todo o século XIX (ultrapassando facilmente, apenas vinte anos depois de lançado, A cabana do Pai Tomás, de 1852). Lew também fez questão de um recurso incomum: Jesus não podia ser interpretado por um homem. Em vez disso, Cristo seria representado por um poderoso feixe de luz. Os efeitos especiais da produção de 75 mil dólares na Broadway eram impressionantes. O cenário consistia de múltiplas camadas de tecido e construções complexas. Destroços dos navios da batalha naval caíam em alçapões no palco, e a corrida de quadrigas era encenada em uma esteira com cavalos de verdade. Os animais ensaiaram durante seis semanas, e


o primeiro a conseguir andar na esteira foi um cavalo árabe de 3 anos chamado Monk, de propriedade do próprio Lew. 20 anos mais tarde, quando a produção foi encerrada, Monk era o único membro do elenco original ainda no espetáculo. Charles Frohman, um importante produtor de teatro nos dois lados do Atlântico, assistiu a um dos últimos ensaios e comentou ao sair que “o público norte-americano jamais vai aceitar Cristo e uma corrida de cavalos no mesmo espetáculo”. É claro que Frohman estava errado. Ele tocou exatamente no ponto que tornou Ben-Hur um grande sucesso: o público norte-americano, na verdade, não se cansava de ver Cristo e uma corrida de cavalos no mesmo espetáculo. Ou, mais precisamente, de ver Cristo e uma corrida de cavalos retratados com extrema honestidade no palco e no livro. E, embora a produção na Broadway tenha sido um enorme sucesso, foram os shows itinerantes que tornaram Ben-Hur um nome familiar. Se os romances eram considerados mortalmente suspeitos entre os grupos religiosos mais rigorosos, as peças teatrais eram ainda mais escandalosas. Atuar – colocar-se em exibição por dinheiro – era tido como algo perto demais da prostituição. Ainda assim, devido ao conteúdo inspirador e ao tratamento reverente de Cristo, Ben-Hur era aceitável. De fato, como aconteceu com o livro, os líderes das igrejas estimulavam suas congregações a ver o espetáculo. Caravanas especiais eram organizadas para levar espectadores de cidades pequenas às cidades em que a peça era apresentada. Em 1904, uma produção de Ben-Hur foi exibida na Feira Mundial de St. Louis, enquanto versões da corrida de quadrigas apareciam no Barnum & Bailey Circus e no Pasadena Tournament of Roses. A versão teatral do romance de Lew ficou em cartaz por 20 anos nos Estados Unidos, e estima-se que tenha sido vista por 20 milhões de espectadores. Era natural que essa exposição toda vendesse muitos livros. Os espectadores – ou aqueles que apenas tinham ouvido falar na peça – ficavam ansiosos para ler a história. Em 1908, Ben-Hur tinha vendido perto de um milhão de cópias em capa dura, e a rede de lojas Sears, Roebuck and Co. fez à Harper & Brothers um pedido sem precedentes: um milhão de exemplares de uma edição mais barata, que deveria custar apenas 48 centavos de dólar. Foi a maior encomenda de um único título até então. Lew não viveu para saber disso, nem para desfrutar da longevidade da versão teatral do seu romance. Ele morreu de câncer no estômago em 1905, e as bandeiras do Capitólio do Estado de Indiana ficaram a meio-mastro durante um mês inteiro. O projeto arquitetônico da grande


Sala das Estátuas no Capitólio federal dos Estados Unidos estava sendo elaborado, e cada estado pôde indicar dois de seus cidadãos ilustres para serem imortalizados em mármore na rotunda. Indiana escolheu Lew – o único escritor do grupo. A figura de mármore mostra Lew em sua farda da Guerra Civil, e a sóbria base de granito o identifica apenas como “Soldado. Escritor. Diplomata”. O único filho de Lew e Susan, Henry Lane Wallace, havia muito administrava os negócios envolvendo Ben-Hur, um trabalho de período integral. Uma preocupação constante era resguardar os direitos autorais. Na década de 1880 as preocupações diziam respeito aos tableaux ou às leituras de excertos acompanhadas de “projeção de diapositivos”; já na época da morte de Lew a ameaça vinha de uma nova forma de arte: o cinema. Um filme, de certa forma primitivo, de 1908 apresentava uma corrida de quadrigas filmada em uma praia de Nova York e cenas internas com atores usando figurinos da Metropolitan Opera. A indústria cinematográfica era tão nova que os produtores não se sentiram obrigados a comprar os direitos de adaptação de Ben-Hur. Foi um erro enorme. Henry Wallace juntou forças com a editora de longa data de Lew, mais os produtores da versão teatral de Ben-Hur, e processaram a produtora do filme. Foi uma situação sem precedentes: a produtora da película, a Kalem Company, afirmou que o filme, na verdade, fazia propaganda do livro e da peça. Após três anos de recursos, o caso chegou à Suprema Corte, e a equipe de Wallace venceu. Kalem teve que pagar 25 mil dólares mais despesas judiciais, e o caso Ben-Hur estabeleceu que a proteção dos direitos autorais se estendia às adaptações para o cinema. Não que a ideia de Kalem estivesse errada – Ben-Hur era obviamente perfeito para o cinema. Mas Henry Wallace queria esperar a tecnologia cinematográfica evoluir antes de vender os direitos. Parte do apelo do livro de seu pai era seu potencial de grande espetáculo; Henry precisava ter certeza de que o filme faria justiça ao livro. Em 1919, afinal, depois de esperar mais de uma década, ele vendeu os direitos por 600 mil dólares (quase 8,5 milhões em valores atualizados). Uma das condições originais de Lew foi mantida: Jesus não podia ser interpretado por um ator– a presença dele era inferida por uma mão, um pé ou uma pegada. O filme levou sete anos para ser concluído e sua produção custou 4 milhões de dólares, o que fez dele a película mais cara do cinema mudo. O estúdio, MGM, acabou perdendo 1 milhão de dólares com a empreitada, mas o projeto rendeu tanto prestígio que a empresa se deu por satisfeita.


Ainda assim, a vida útil de um filme mudo era curta, e, já em 1930, a versão em preto e branco de Ben-Hur (com Ramón Novarro estrelando como Judah) parecia estranha e ultrapassada. Foi na década de 1930, também, que o livro de Lew finalmente saiu das listas de best-sellers dos Estados Unidos, sendo substituído por outra saga histórica envolvente, E o vento levou, de Margaret Mitchell. Ben-Hur continuou sendo um nome familiar na América, não apenas devido às milhões de cópias do livro nas prateleiras em todo o país, mas também por causa da série de produtos que levavam esse nome. Eles iam de seguro de vida a farinha de trigo, de charutos a bicicletas, de perfume a cercas. A empresa de mudanças Ben Hur continua na ativa, e os temperos Ben-Hur podem ser comprados com facilidade pelo site eBay. O livro de Lew tinha alcançado um público imenso paralelamente ao crescimento da cultura de consumo nos Estados Unidos. Anunciantes e publicitários perceberam que era bom ligar seus produtos a Ben-Hur, criando associações positivas na cabeça do público. Sabonetes e produtos para o cabelo faziam referência à mulher fatal egípcia Iras (interpretada no filme mudo, por incrível que pareça, por uma loira platinada). Bicicletas, carros, arreios, trenós e até óleo e gasolina eram vinculados à corrida de quadrigas. A empresa de barracas Ben-Hur foi bastante astuta, embora haja uma grande diferença entre uma barraca de camping e o acampamento nômade que aparece no romance. Quando chegou a década de 1950, a tecnologia cinematográfica tinha avançado bastante, mas o público do cinema estava sendo seduzido pela televisão. Era natural que Hollywood respondesse com o que a TV ainda não podia oferecer: épicos grandiosos e coloridos. A MGM novamente voltou sua atenção a Ben-Hur, e o imenso sucesso que resultou da nova adaptação, estrelada por Charlton Heston, quebrou todos os recordes: custo de produção, vendas antecipadas de ingressos, indicações ao Oscar. O filme faturou perto de 40 milhões de dólares no primeiro ano e foi relançado comercialmente em 1970. Desde então, as TVs o retransmitem com frequência, apesar da duração de 213 minutos. E agora, mais de cinquenta anos depois, Ben-Hur volta às telonas, tirando proveito das inovações tecnológicas no cinema e retomando a história original de dois jovens com passados distintos, fazendo escolhas distintas. E de um terceiro homem, Jesus, cujo papel na Terra em nada se assemelha aos dos outros dois, mas que influencia a decisão final de Judah Ben-Hur, este obstinado herói.


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