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Perdidos no Tempo

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L E I RO S D O I S B RA S I AN T I G A N A R OM A

COLEÇÃO

HISTÓRIAS

DENTRO DA

HISTÓRIA


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Comecou assim stamos de novo na Domus Aurea, a casa de ouro da Roma Antiga, um palácio imperial com dois mil anos. Passeamos sorrindo e lembrando acontecimentos que não poderemos contar a ninguém: – Olha, era ali que tinha os jantares e as danças! – O passarinho tentou bicar aquela fruta logo que chegamos, lembra? É o dia 17 de outubro de 2013, dia do nosso aniversário. De repente, Ana e eu paramos na frente de um afresco que não conhecíamos. – Carlos, olhe! – exclama Ana, pasma. – O que foi? – ela nem consegue mais falar, o que é um verdadeiro milagre. Olho mais de perto. – Mas... este é novo! Não estava lá! É... O imperador fica no centro do afresco, perto de dois jovens idênticos e de alguns leões, no agito de uma festa muito animada: um bocado de pessoas dançando no meio de músicos e criados servindo iguarias. Não só as pessoas, mas também os leões dançam, ágeis, nas patas traseiras. Na mão, o imperador segura com orgulho e animação um pequeno objeto preto, que deverá grilar, e muito, os arqueólogos. Algo que reconheço e que, eu sei, com certeza não deveria estar ali, não deveria nem existir. Que maluquice! Pensando bem, creio que devo começar de novo. Vou tentar...


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I Um futuro promissor empre gostei de latim. Sei que todo mundo acha um porre, mas eu não: morro de inveja do pessoal antigo, como meu avô, que estudava latim na escola. Já tem uns dois anos que comecei a estudar sozinho – sei que não é a mesma coisa, mas fazer o quê? Até meus pais me acham um tanto maluco. Problema deles: eu acho bonito – e, além do mais, um escritor tem que conhecer essas coisas. E, como todo mundo já sabe, vou ser escritor. Minha irmã gêmea, Ana, que quer ser física, não liga pra essas coisas. Só quer saber de cíclotron e acelerador e centrais nucleares (que horror! Deviam ser proibidas em todos os lugares!) e gato de Schrödinger e coisas desse tipo. Fez até um curso sobre comunicação com animais, o que seria bem legal, mas foi com máquinas, computadores, algoritmos... Ou seja, até o que é bom ela estraga com esse papo de ciência. Vive entrando em encrencas, porque é curiosa demais: intrometida, metida a cientista e impaciente. Além do mais, o que é pior, me mete em suas encrencas. Não gosto nem de lembrar. Enfim, é isto: ela com os trons dela, eu com meu latim. Não só, é claro: toco guitarra, jogo basquete com meus colegas, gosto de bichos (como Clarice, minha gata), gosto de escrever, adoro ler. E agora quero ler em latim. Dizem que é difícil, mas o que eu acho difícil mesmo é a matemática. Ah, que coisa chata! O latim é gostoso. Se você conseguir falar, ninguém te entende. E tudo acaba sendo útil, antes ou depois. Garanto. Teve, sim, aquele pequeno incidente. Ana ainda zomba de mim, mas foi, é claro, um mal-entendido. Quando soube que passaríamos umas férias no sul da Bahia (meu pai é baiano), toquei a estudar tupi: imagine, encontraríamos índios, e eu queria estar preparado. Chegamos lá na Coroa Vermelha, perto de Porto Seguro, conversei com um que parecia o chefe dos Pataxós e perguntei, em ótimo tupi, sobre a tribo dele. O índio respondeu com muita polidez. Tudo perfeito. Só que... não sei bem o que houve, mas saí de lá com um arco, umas flechas e uma pequena onça na coleira. Ana rolou no chão de


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tanto rir, trocou umas ideias com a onça, e fomos à sede do Ibama levar a bichinha (uma graça, por sinal: comeu as flechas e arranhou o forro do carro novo do meu pai. Mas era filhote, sabe como é). Mas o fato é que meus pais, naquele dia, chegaram meio misteriosos e anunciaram uma grande surpresa. – Carlos, Ana, vamos conhecer a partícula elementar... Eu: – ?????? Ana: – Oba! O bóson de Higgs! Quando? Onde? Sim, meu pai é engenheiro, mas agora está trabalhando também numa grande revista de divulgação científica. Ana fica babando e sempre quer ir com ele: – Oh, pai! Deixa eu ir! Vão fazer o teste do colisor [ou do acelerador, ou de um -or qualquer] e eu não posso perder! Meu pai acaba se comovendo, e pronto. Nunca que ele queira visitar, sei lá, a casa de Sherlock Holmes. Ou entrevistar Ana Maria Machado. Ou assistir um show de rock dos bons. Assim, naquele dia eu achei que já sabia o que ia acontecer: um teste qualquer, uma visita científica das costumeiras em algum lugar maravilhoso (mas fazendo algo chato), e eu em casa com a gata. Mas meus pais me surpreenderam: – Vamos para um laboratório de pesquisa nuclear que fica debaixo de uma montanha [hum! já sei como vai acabar], e vamos os quatro [a troco de quê?!] pra Itália! [ooohhh!] – Oba! Eu vou também? – Claro, Carlos, eu não disse que vamos os quatro? Há anos que não viajamos todos juntos, e você vai poder conhecer a Itália. Ana, que de tanta felicidade tinha ficado muda (coisa raríssima, eu garanto), de repente reencontrou a voz e me olhou com uma mistura de curiosidade e desprezo: – Está vendo, seu dinossauro? Você devia ter estudado mesmo é o italiano, e não aquela coisa inútil do latim. Sendo que o melhor


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é estudar inglês, que todo mundo entende. Logo você, que gosta de guitarra... Você já viu uma banda que canta em latim? Dinossauro, eu?! – Ótima ideia! Minha banda vai se chamar Alea jacta est!, que significa, claro que você não sabe, “a sorte está lançada”. E vai cantar em latim! E vou fazer shows e vender um bocado de CDs pelo mundo afora! E depois, um pouco de italiano dá pra aprender logo, não sou cabeça dura como você, que só entende de números e fórmulas. E mais: sem o latim, não haveria nenhuma dessas línguas todas! E você vai ver, terá que me pedir ajuda lá, sua... sua ignorante! E, finalmente, eu falo inglês sim, isso todo mundo sabe fazer, é fácil: difícil é o latim! – Seu besta, ninguém mais compra CD! Baixa música na rede! – Sua ladra! Rouba dos artistas! Logo, de mim! – Anta! Eu baixo música de um site pago! Compro as músicas, tá?! A gente se gosta muito.

II Barbaros oi aquela confusão. Um mundo de malas, roupas, trecos (“Você tem que levar o manual de física atômica em três volumes?!” “E você não podia deixar a guitarra em casa, desta vez?!”), passaporte, passagem, troca de dinheiro (o euro é bom porque você usa na União Europeia inteira, e não tem que ficar carregando mil moedinhas de tantos países diferentes). Comprar remédios, como se na Europa não houvesse médicos e farmácias. Deixar a gata Clarice e o cachorro Brás com Malvina, que trabalha conosco, gente boa, mas que dá comida demais aos bichinhos (eles engordam muito...). Enfim, quando finalmente conseguimos sair para o aeroporto, parecia um daqueles filmes: dois táxis lotados, cachorro latindo, Malvina chorando, eu tendo que voltar pra pegar uma das sacolas que esqueci no elevador, minha mãe pegando por engano o celular do motorista do táxi, pois não vive sem celular e achou que fosse o dela (de fato, ela carrega


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Perdidos no Tempo by Grupo Autentica - Issuu