KANAE MINATO
PENITÊNCIA U M A C I D A D E P A C ATA UM ASSASSINO SEM ROSTO UMA VINGANÇA CRUEL
AUTORA DO BEST-SELLER INTERNACIONAL
CONFISSÕES
KANAE MINATO
PENITÊNCIA U M A C I D A D E P A C ATA UM ASSASSINO SEM ROSTO UMA VINGANÇA CRUEL
Tr a d u ç ã o d o i n g l ê s : Elisa Nazarian
Copyright © Kanae Minato 2012. Todos os direitos reservados Copyright desta edição © 2019 Editora Gutenberg Título original: Shokuzai Originalmente publicado no Japão em 2012 pela Futabasha Publishers Ltd., Tóquio. Direitos de tradução para o português negociados com a Futabasha através da Japan UNI Agency, Inc., Tóquio, e Patricia Natalia Seibel.
Todos os direitos reservados pela Editora Gutenberg. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
editora responsável
capa
Rejane Dias
Diogo Droschi (sobre imagem de Nuchwara Tongrit/Shutterstok)
preparação
Sonia Junqueira
diagramação
revisão
Waldênia Alvarenga
Júlia Sousa Samira Vilela
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Minato, Kanae Penitência / Kanae Minato ; tradução Elisa Nazarian. 1. ed. – Belo Horizonte : Editora Gutenberg, 2019. Título original: Shokuzai ISBN: 978-85-8235-607-4 1. Ficção japonesa 2. Ficção policial e de mistério (Literatura japonesa) I. Título. 19-28845
CDD-895.63 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura japonesa 895.63 Iolanda Rodrigues Biode - Bibliotecária - CRB-8/10014
A GUTENBERG É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA
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Nota do tradutor para o inglês: Até 2010, a prescrição para o crime de assassinato no Japão acontecia quinze anos após a realização do crime.
Boneca francesa
Cara Asako, Agradeço por ter comparecido ao meu casamento no outro dia. Passei toda a cerimônia com receio de que, quando você visse a quantidade de parentes meus vinda daquela cidade do interior, se lembrasse dos fatos ocorridos naquela época, naquela cidadezinha, e ficasse nervosa. Eles nunca parecem perceber o quanto são grosseiros, às vezes. A única coisa boa naquela cidade onde cresci é o ar, que brilha de tão puro. A primeira vez que percebi isso – que, além do ar limpo, a cidade não tinha quase nada que a favorecesse – foi sete anos atrás, depois de me formar no ensino médio e ir para uma faculdade feminina em Tóquio. Vivi quatro anos no dormitório da faculdade. Quando contei a meus pais que queria estudar em Tóquio, os dois foram totalmente contra. Argumentaram que algum canalha poderia me enganar, me forçar a cair na prostituição. “E aí? O que você vai fazer se ficar viciada em drogas? Ou se te matarem?” Você foi criada na cidade grande, Asako, então tenho certeza de que vai rir quando ler isso, imaginando o que poderia tê-los levado a essas ideias. 7
“Vocês assistem demais o 24 City”, contra-argumentei, citando um dos programas de TV preferidos dos meus pais, mas a verdade é que, frequentemente, eu imaginava o mesmo tipo de cenário assustador. Ainda assim, queria desesperadamente ir para Tóquio. “O que tem de tão especial em Tóquio?”, meu pai questionou. “Existem outras faculdades no nosso distrito que oferecem a formação em que você está interessada. Se for demais ficar indo e vindo entre a escola e nossa casa, os apartamentos aqui são mais baratos. E se acontecer alguma coisa, você pode voltar para casa a hora que quiser. Todos nós poderemos ficar tranquilos.” “Ficar tranquilos? Está de brincadeira? Vocês sabem muito bem como fiquei paralisada nos últimos oito anos aqui!” Assim que falei isso, eles pararam com suas objeções. Resolveram me deixar ir para Tóquio, mas com uma condição: que eu não morasse sozinha em um apartamento, e sim no dormitório. Por mim, tudo bem. Eu nunca tinha estado em Tóquio, e descobri ali um mundo totalmente diferente. Quando desci do trem Shinkansen, a estação estava lotada – tinha gente até onde a vista alcançava. Provavelmente, havia mais gente só na estação do que em toda a cidade de onde eu vinha. Mas o que mais me surpreendeu foi como as pessoas conseguiam andar sem trombar umas nas outras. Mesmo enquanto eu circulava por ali, parando para checar as placas e pegar o metrô, consegui chegar ao meu destino sem me chocar com ninguém. Também fiquei surpresa ao subir no metrô. Os passageiros mal falavam uns com os outros, mesmo quando entravam acompanhados. De vez em quando, eu escutava alguém rindo ou pessoas conversando, mas normalmente eram estrangeiros, não japoneses. Até o fim do ensino fundamental eu ia para a escola a pé todos os dias; depois, comecei a ir de bicicleta; então só pegava trem umas duas vezes por ano, quando ia com amigos ou com a família até uma cidade vizinha, a uma loja de departamentos ou a um shopping. No trajeto de uma hora, a gente nunca parava de falar. “O que eu deveria comprar? É aniversário deles no mês que vem, então eu deveria lhes dar alguma coisa. O que vamos comer 8
no almoço? McDonald’s ou KFC?...” O modo como agíamos, conversando o caminho todo, não era tão estranho, eu acho. No trem tinha uma porção de gente conversando e rindo, e ninguém reclamava, então sempre pensei que era assim que as pessoas se comportavam nos trens. Percebi, subitamente, que os moradores de Tóquio não reparam em seu entorno, não têm interesse em quem está à sua volta. Desde que a pessoa sentada a seu lado não esteja incomodando, não dão a mínima. Não há um pingo de interesse no título do livro que alguém do outro lado do corredor esteja lendo. Ninguém repara nem mesmo se a pessoa em pé, bem em frente a eles, estiver carregando uma bolsa cara, de luxo. Antes de me dar conta, eu estava chorando. Devem achar que estou com saudades de casa, pensei, uma caipira arrastando uma mala enorme, sentada ali, choramingando. Constrangida, enxuguei as lágrimas, olhando, nervosa, à minha volta, mas não havia uma alma viva olhando para mim. Nesse momento, ocorreu-me que Tóquio era um lugar mais maravilhoso do que jamais imaginara. Não vim a Tóquio pelo shopping sofisticado, ou por todos os lugares famosos onde se divertir. O que eu queria era me misturar no meio da multidão de pessoas que não sabiam do meu passado e sumir. Mais precisamente, como havia testemunhado um assassinato e a pessoa que o cometera não tinha sido pega, o que eu queria mais do que tudo era desaparecer para sempre do seu radar. Éramos quatro a dividir um quarto no dormitório, todas vindas de lugares rurais, longe de Tóquio, e no primeiro dia competimos entre nós, enaltecendo nossa cidade natal. Minha cidade tem os noodles udon mais deliciosos, disse uma delas orgulhosa; a minha tem termas; a minha tem um jogador famoso da primeira divisão de beisebol, que mora perto da casa dos meus pais, disse outra. Esse tipo de coisa. As outras três meninas eram do interior, mas pelo menos eu já tinha ouvido falar das cidades de onde elas vinham. Quando eu disse o nome da minha, nenhuma delas nem mesmo sabia onde ficava. 9
“Que tipo de lugar é?”, perguntaram, e eu respondi:“Um lugar onde o ar brilha de tão limpo”. Sei que você, Asako, mais do que qualquer um, entenderia que eu não estava dizendo isso só por não ter mais nada do que me orgulhar. Nasci naquela cidade rural, e respirei aquele ar todos os dias, sem jamais parar para pensar a respeito. Mas a primeira vez em que tomei consciência de que o ar era muito puro e fresco foi logo depois que entrei na quarta série, na primavera do ano do assassinato. Um dia nossa professora de estudos sociais, Sra. Sawada, contou: “Vocês vivem no lugar que tem o ar mais limpo do Japão. Sabem por que posso dizer isso? Os instrumentos de precisão, usados em hospitais e pesquisas, precisam ser fabricados em um ambiente totalmente livre de poeira. É por isso que constroem fábricas que produzem esses instrumentos em lugares onde o ar é puro. E neste ano uma nova fábrica foi construída aqui, pela Companhia Industrial Adachi. O fato de o fabricante do instrumento mais preciso do Japão construir uma fábrica aqui significa que esta cidade foi escolhida por ter o ar mais limpo de todo o país. Vocês deveriam ficar muito orgulhosos de viver nesta cidade maravilhosa”. Depois da aula, perguntamos a Emily se o que a professora tinha dito era verdade. “Papai disse a mesma coisa”, ela respondeu. Estava decidido. Com a confirmação de Emily, soubemos que nossa cidade, de fato, tinha um ar puro e limpo. Não acreditamos nisso porque seu pai, de expressão intensa e olhar brilhante, fosse alguém importante na Industrial Adachi. Acreditamos por ele ser de Tóquio. Naquela época, a cidade não tinha um único mercadinho, mas nenhuma de nós, crianças, se importava. Aceitávamos as coisas do jeito que eram. Podíamos ver, na TV, comerciais sobre bonecas Barbie, mas nunca tínhamos realmente posto os olhos em uma, então não a desejávamos, particularmente. Para nós, eram muito mais preciosas as elegantes bonecas francesas que as pessoas da cidade expunham, com orgulho, em suas salas de visitas. Ainda assim, com a vinda da nova fábrica, uma sensação estranha começou a surgir entre nós. Por Emily e outros alunos transferidos 10
de Tóquio, começamos a perceber que o estilo de vida que sempre pensamos ser perfeitamente normal era, na verdade, impróprio e ultrapassado. Tudo na vida desses novos moradores era diferente, a começar por onde viviam. Depois que a Industrial Adachi chegou, a empresa construiu um prédio de apartamentos para os funcionários, o primeiro prédio da cidade a ter mais de cinco andares. Foi projetado para harmonizar com o entorno, mas, para nós, ele se erguia como um castelo em algum país distante. Um dia, Emily convidou algumas das meninas da classe que viviam no distrito oeste, onde ficava o prédio, para ir a seu apartamento, no alto, no sétimo andar. Na véspera eu estava tão empolgada que não consegui dormir. Quatro de nós fomos convidadas: eu, Maki,Yuka e Akiko, todas amigas de muito tempo, criadas no mesmo bairro. Ao entrarmos no apartamento de Emily, a sensação foi de estarmos pisando em terra estranha. A primeira surpresa foi a planta de conceito aberto. Na época, não tínhamos o conceito de um ambiente integrado – um tipo de grande cômodo que reúne sala de visitas, de jantar e cozinha –, e ficamos surpresas porque os lugares onde a pessoa assistia à TV, cozinhava e comia formavam uma só unidade, sem paredes para separá-los. Serviram-nos chá inglês em xícaras de chá que nós, crianças, jamais teríamos permissão de tocar se estivéssemos em nossas casas, com um bule de chá combinando; e em pratos do mesmo conjunto havia tortas com uma variedade de frutas que eu nunca tinha visto. A única fruta que reconheci foi morango. Empanturrei-me, encantada, mas senti como se algo não estivesse muito certo. Depois de comer, resolvemos brincar de boneca, e Emily trouxe de seu quarto uma Barbie e um estojo de roupas, de plástico, em formato de coração. A Barbie estava vestida exatamente como Emily, naquele dia. “Tem uma loja, em Shibuya, que vende as mesmas roupas que a Barbie usa, e meus pais me compraram esta no meu aniversário do ano passado. Não é, mamãe?” 11
Tudo o que eu queria àquela altura era dar o fora dali. Justo nesse momento, uma das outras meninas disse:“Emily, você poderia mostrar para a gente a boneca francesa da sua família?”. “O que é isso?” Emily nos dirigiu um olhar perdido. Emily não tinha uma boneca francesa. E não fazia ideia do que estávamos falando. Eu estava me sentindo pequena, mas, ouvindo aquilo, me recuperei. Era muito natural que Emily não conhecesse bonecas francesas. Na capital, elas eram um símbolo de status obsoleto. Todas as casas de madeira no velho estilo japonês da nossa cidade tinham uma coisa em comum. O cômodo mais próximo à porta de entrada, uma sala de visitas, era feito no estilo ocidental, e era garantido que teria um candelabro e uma boneca francesa dentro de uma vitrine de vidro. Há décadas as pessoas tinham bonecas francesas, mas repentinamente, cerca de um mês antes de Emily se mudar para a cidade, tornou-se um hábito as meninas locais irem de casa em casa para admirar as diferentes bonecas. No começo, íamos apenas a casas de amigas, mas logo começamos a aparecer nas casas de outras pessoas do bairro. Era uma cidade rural, conhecíamos quase todo mundo de vista, e a sala ficava logo ao lado da entrada, então raramente alguém nos dispensava. Não demorou muito para começarmos a compilar Memorandos de Bonecas, que era como os chamávamos, classificando as bonecas francesas que tínhamos visto. Naquela época, as crianças não podiam tirar fotos com a facilidade de hoje, então desenhávamos os retratos das bonecas em cadernos, com lápis coloridos. Na maioria das vezes, a classificação era feita segundo a beleza dos vestidos, mas eu gostava de olhar o rosto das bonecas. Eu sentia como se as bonecas escolhidas pelas pessoas refletissem suas personalidades, e os rostos delas pareciam assemelhar-se aos rostos da mãe e das crianças da família. Emily disse que queria ver algumas bonecas francesas, então a levamos num tour das dez melhores do nosso ranking. Emily tinha certeza de que as outras crianças do seu prédio também nunca tinham visto bonecas francesas, então convidou algumas a virem com ela, e todas nós saímos em grupo para várias casas da cidade, 12
juntamente com crianças das quais não sabíamos nem mesmo o nome ou a série. Por algum motivo, alguns meninos também vieram. A pessoa da primeira casa que visitamos disse: “Ah, vocês são do Tour da Boneca Francesa?”. Gostamos tanto do termo que foi como denominamos nosso passeio naquele dia. A boneca francesa da minha casa era o número dois do ranking. O decote e a barra do vestido rosa eram adornados com penas macias, bem brancas, com grandes rosas roxas enfeitando os ombros e a cintura. Mas o que eu realmente gostava era de como o rosto da boneca se parecia um pouco com o meu. Com um pincel mágico, eu tinha acrescentado uma pintinha debaixo do olho direito, igual à que eu tenho, o que deixou minha mãe nervosa. Eu também gostava do fato de que não ficava clara a idade da boneca, ou seja, se era uma criança ou uma adulta. “Não é o máximo?”, me vangloriei, mas as crianças da capital já tinham perdido o interesse, e eu me lembro de ter me sentido amargamente decepcionada. Depois de visitarmos a última casa, Emily disse: “No fim das contas, acho que gosto mais das Barbies”. Imagino que ela tenha dito isso na maior inocência, mas sua declaração foi só o que bastou para que aquelas bonecas francesas, até então as coisas mais esplendorosas das nossas vidas, parecessem, subitamente, inúteis. Depois daquele dia, deixamos de brincar com bonecas francesas, e meu Memorando de Bonecas sumiu no fundo de uma gaveta. Mas, três meses depois, as palavras boneca francesa estavam na boca de todos por causa do chamado “roubo das bonecas francesas”. Fico pensando o quanto você sabe sobre esse incidente, Asako. No final de julho, na véspera do festival de verão, foram roubadas bonecas francesas de cinco casas locais, inclusive da minha. Não houve outros danos às casas, e não foi roubada nenhuma quantia de dinheiro. Faltavam apenas as bonecas francesas em suas vitrines de vidro. Um caso estranho por ali. O festival acontecia no espaço do centro cívico, nos arredores da cidade, com as danças de Obon começando por volta das seis 13
da tarde e um concurso de karaokê às nove; o evento se encerrava às onze da noite. A associação do bairro fornecia, de graça, melancias, sorvetes, noodles omen e cerveja, e havia barracas vendendo raspadinha de gelo e algodão-doce. Para a cidade, era um grande acontecimento. As casas de onde as bonecas francesas foram roubadas, inclusive a minha, tinham duas coisas em comum. Em primeiro lugar, toda a família estava fora, no festival, e em segundo, nenhuma das casas tinha suas portas de entrada trancadas. Acho que, na época, a maioria delas era assim. Quando se pedia a alguém para entregar uma coisa em uma casa, bastava abrir a porta da frente, caso não houvesse ninguém, e colocar o pacote dentro. Era assim que se fazia. Como havíamos feito nosso pequeno Tour da Boneca Francesa, a polícia logo classificou aquilo como uma pegadinha de crianças. Mas o criminoso e as bonecas nunca foram encontrados, e o caso acabou sendo arquivado como um evento inexplicável, estranho, na noite do festival. Lembro-me de meu pai ficar bravo comigo:“Foi porque vocês fizeram aquele tour, foi por isso. Alguma criança, que não tinha uma boneca francesa em casa, ficou com inveja e as roubou”. Nossas férias de verão começaram com esse incidente, mas, mesmo assim, saíamos todos os dias, da manhã à noite, para brincar. Gostávamos, especialmente, da piscina em nossa escola fundamental. Passávamos a manhã na casa de uma de nós, fazendo a lição de casa de verão, depois íamos à piscina à tarde, e mesmo depois do fechamento da piscina, às quatro, ficávamos por ali nas dependências da escola, brincando até escurecer. Hoje em dia, até as escolas fundamentais rurais tomaram várias medidas de prevenção ao crime, não permitindo que ninguém, nem mesmo crianças, frequentem o espaço quando não há aula. Naquela época, porém, podíamos brincar até escurecer, e ninguém dizia nada. Às vezes, quando voltávamos para casa antes de “Greensleeves” começar a tocar pelo sistema de alto-falante, anunciando as seis da tarde, nossos pais chegavam a perguntar o que havia de errado, se tínhamos brigado com nossos amigos. 14
Logo depois do crime, naquele dia, e muitas vezes depois disso, contei tudo o que consegui lembrar à polícia, aos professores da escola, aos meus pais, aos pais das outras crianças, e a você, Asako, além do seu marido. Mas agora eu gostaria de anotar os acontecimentos mais uma vez, na ordem em que ocorreram. Esta, provavelmente, será a última vez... Naquele dia, véspera de 14 de agosto, um monte de crianças com quem costumávamos brincar tinha ido para a casa de parentes para o feriado de Obon, ou tinha parentes visitando suas casas; então, éramos apenas cinco brincando nas dependências da escola: eu, Maki,Yuka e Akiko, e Emily. Nós quatro, daquela cidade, ou vivíamos com nossos avós, ou nossos avós e parentes também viviam na cidade, então o Obon não era um dia particularmente especial para nós, e saímos para brincar, como sempre. A maioria das pessoas da fábrica Adachi, que tinha se mudado de Tóquio para lá, estava fora da cidade por causa do feriado. Mas Emily ainda estava ali porque seu pai trabalhava no feriado, ao menos foi o que ela nos contou naquele dia. Mais tarde, no final de agosto, eles iriam sair de férias em família, para Guam. O Tour da Boneca Francesa tinha trazido certo estranhamento à nossa relação com Emily, mas isso logo passou, e voltamos a ser amigas. Um dos motivos deve ter sido o entusiasmo dela em jogar Exploradoras, muito popular na época. A piscina estava fechada no feriado de Obon, então jogamos vôlei em um canto do terreno da escola, na sombra ao lado do ginásio. Só formamos um círculo e passamos a bola de lá para cá, mas estávamos realmente concentradas, focadas em passar a bola cem vezes, sem deixar cair. Foi então que o homem apareceu. “Ei, meninas, vocês têm um segundo?”, ouvimos uma voz perguntar. Uma camisa e uma calça de uniforme em tom verde-amarelado, uma toalha branca enrolada na cabeça. 15
A voz repentina desconcentrou Yuka, que naquele dia estava fora de forma, e ela perdeu um passe. O homem apanhou a bola, que tinha rolado em sua direção, e veio até nós. Com um sorriso aberto, ele disse bem claramente: “Vim checar os ventiladores dos vestiários da piscina, mas me esqueci completamente de trazer uma escada. Só precisamos apertar alguns parafusos, então, uma de vocês poderia subir de cavalinho nos meus ombros para ajudar?” Hoje em dia, os alunos de uma escola fundamental ficariam alertas numa situação dessas. As escolas não são vistas, necessariamente, como lugares seguros. Se tivéssemos levado isso em conta, me pergunto, teríamos evitado o que aconteceu? Será que deveriam ter nos ensinado a gritar e a fugir quando um estranho falasse com a gente? Em nossa cidadezinha rural, no entanto, o máximo a que nos haviam alertado era para não entrar no carro de um estranho se ele dissesse que nos daria chiclete ou bala, ou que nossos pais estavam doentes e ele nos levaria até eles. Então, não ficamos nem um pouco desconfiadas em relação àquele homem à nossa frente. Não sei quanto a Emily, mas acho que foi como as outras se sentiram. Na verdade, quando ouvimos a palavra ajudar, competimos para ser a escolhida. “Sou a menor, então sou a mais fácil de ser levantada”, uma de nós disse. “Mas e se você não conseguir alcançar o ventilador? Não deveria ser eu, já que sou a mais alta?” “Mas alguma de vocês sabe apertar parafuso? Sou boa nisso.” “E se os parafusos estiverem duros de virar? Sou bem forte, então acho que deveria ser eu.” Dissemos esse tipo de coisa, acho. Emily não disse nada. Como se estivesse nos avaliando, o homem olhou uma por uma. “Não pode ser pequena demais, nem grande demais...”, disse. “E se seus óculos caírem, não é bom. E você pode ser um pouco pesada demais...” Por fim, olhou para Emily. 16
“Você é perfeita”, disse. Emily olhou para nós com uma expressão levemente preocupada. Maki, talvez decepcionada por ter sido vencida por Emily, sugeriu que todas nós ajudássemos. Boa ideia, concordamos as três. “Obrigado”, disse o homem,“mas o vestiário é meio pequeno, se todas vierem vai ser difícil trabalhar, e não quero que ninguém se machuque. Então, vocês poderiam ficar aqui? Não vai demorar. Depois eu compro sorvete para todas”. Como poderíamos ser contra isso? “Então está bem”, o homem disse, tomando Emily pela mão e cruzando com ela o terreno da escola. A piscina ficava além da área espaçosa, e voltamos a jogar vôlei antes de os dois desaparecerem. Jogamos por um tempo, depois nos sentamos à sombra fresca dos degraus da entrada do ginásio, e conversamos. Eles não vão me levar a nenhum lugar nas férias de verão. Gostaria que a casa do meu avô fosse um pouquinho mais longe. Emily vai para Guam na semana que vem. Guam faz parte da América? Ou é um país chamado Guam? Sei lá... A Emily tem muita sorte. Hoje ela também está com um vestido da Barbie. Ela também tem um rosto muito bonito. A gente chama esse tipo de olhos de amendoados, certo? Ela parece tão descolada! E o pai e a mãe dela parecem alienígenas de olhos arregalados. A minissaia dela é uma graça. A Emily tem as pernas bem compridas. Ah, você sabia? A Emily já começou aquilo. O que você quer dizer com aquilo? Sae, jura que você não sabe? Aquela foi a primeira vez que ouvi a palavra menstruar. As meninas da escola eram reunidas para ouvir a respeito no ano seguinte, na quinta série, e minha mãe ainda não tinha conversado comigo sobre o assunto. Eu não tinha uma irmã mais velha nem uma menina mais velha entre meus parentes, então não fazia ideia do que elas estavam falando. As outras três ou tinham irmãs mais velhas ou suas mães haviam contado a respeito, e começaram a me explicar, como que exibindo um conhecimento espantoso. A menstruação prova que o seu corpo pode ter bebês, elas disseram. O sangue pinga por entre as suas pernas. Hã? Vocês estão 17
dizendo que a Emily pode ter um bebê? É isso mesmo. Sua irmã mais velha também, Yuka? Também. Provavelmente a minha vai começar logo, então a mamãe me comprou umas calcinhas para isso. O quê? Você também, Maki? As meninas grandes começam na quinta série, elas disseram, mas você, Sae, não vai começar antes da sétima série. Quando chega ao ensino médio, dizem que todas têm. Você deve estar brincando. Nenhuma menina do ensino fundamental tem bebê. Isso é porque elas não fazem eles. Fazer eles? Sae, você está dizendo que não sabe de onde vêm os bebês? Ah, é... quando elas casam. Sinceramente! As meninas fazem sacanagens com os meninos, é assim. Espero que essa estupidez que estou escrevendo não faça com que você rasgue esta carta. Presas nessa conversa, notamos, de repente, que estava tocando “Greensleeves”, o sinal de que eram seis da tarde. “Hoje, meu primo mais velho vem de visita com uma amiga, então me disseram para voltar para casa às seis”, Akiko disse. Como era Obon, decidimos que era melhor nós todas chegarmos cedo em casa, e fomos buscar Emily. Ao atravessarmos o terreno, virei-me e vi que as sombras tinham se alongado consideravelmente desde que havíamos parado de jogar vôlei. Subitamente, percebi quanto tempo havia se passado desde que Emily se fora, e fiquei preocupada. A piscina era cercada com alambrado, mas o portão estava destrancado, preso apenas com um arame. Acho que até aquele ano havia sido sempre assim, no verão. Do portão, você subia uma escada e lá estava a piscina, com duas construções pré-fabricadas, os vestiários, atrás. O da direita era dos meninos, o da esquerda, das meninas. Ao caminharmos ao lado da piscina, pensei no quanto ela estava silenciosa. Os vestiários tinham portas de correr, e, é claro, também estavam destrancadas. Maki, à frente, foi quem abriu a sala das meninas. “Emily... Você acabou?”, ela chamou, ao deslizar a porta. “Hein?”, disse, inclinando a cabeça. Não havia ninguém lá dentro. 18
“Estou pensando se eles acabaram e ela foi para casa”, Akiko disse. “E o sorvete? Vai ver que ele só comprou um para Emily”, Yuka disse, irritada. “Isso não é justo”, Maki acrescentou. “E este daqui?”, apontei para o vestiário dos meninos, mas não havia som vindo de dentro. “Ela não está lá. Não há vozes, percebe?” Foi Akiko, ainda de frente para nós, que deslizou, com relutância, a porta do vestiário dos meninos. As outras três prenderam o fôlego. “O que...?”, Akiko exclamou, virando-se e soltando um grito. Emily, com a cabeça virada para a entrada, estava deitada sobre o estrado de madeira, no meio do chão. “Emily?”, Maki arriscou, temerosa. Então, todas nós chamamos seu nome. Mas Emily ficou ali deitada, com os olhos arregalados. “Ai meu Deus!”, Maki berrou. Se naquele momento ela tivesse dito “Ela está morta!”, poderíamos ter ficado tão apavoradas que teríamos disparado para casa. “Temos que avisar as pessoas”, Maki disse. “Akiko, você é a que corre mais rápido, então corra até a casa da Emily.Yuka, você vai até a delegacia. Vou procurar uma professora. Sae, você fica aqui, de guarda.” Assim que Maki nos disse o que fazer, as outras saíram correndo. Aquela foi a última vez em que nós quatro agimos em conjunto. Não acho que o que eu disse difira muito do depoimento dado pelas outras três. Nós quatro fomos interrogadas juntas, muitas vezes, sobre o que precedeu o assassinato, mas não nos perguntaram em detalhes sobre depois que encontramos o corpo. E não conversamos muito, entre nós, sobre o assassinato, então não sei grande coisa sobre o que as outras fizeram depois disso. O que vou contar a você, agora, é só o que eu fiz. Sozinha no vestiário, depois que as outras meninas saíram, olhei mais uma vez para Emily. Ela estava com uma camiseta preta com 19
um logo cor-de-rosa da Barbie no peito, mas a camiseta estava tão enrolada para cima que mal se percebia isso. Dava para ver sua barriga branca e a leve protuberância dos seios. Sua saia de pregas de xadrez vermelho também estava enrolada para cima, e a metade de baixo de seu corpo estava exposta, sem calcinha. Pediram-me para tomar conta dela, mas senti que se algum adulto viesse, gritaria comigo por deixar seu corpo exposto daquele jeito. “A pobrezinha!”, ralhariam. “Por que não a cobriu?” Eu não tinha feito aquilo com a Emily, mas era como se eles fossem me culpar. Entrei no vestiário. A primeira coisa que fiz foi usar meu lenço para cobrir seus olhos e boca abertos. Da boca pingava um líquido. Evitando olhar para ela, segurei a camiseta com os dedos e puxei-a para baixo. Havia uma coisa grudenta e branca por toda a sua barriga, embora na época eu não fizesse ideia do que fosse. Também arrumei sua saia. Quando me abaixei, vi sua calcinha, toda amassada e jogada de lado, na fileira mais baixa dos armários. O que eu devo fazer com a calcinha dela?, pensei. Tinha conseguido arrumar sua camiseta e a saia sem tocar no corpo, mas isso não aconteceria com a calcinha. Olhei para as pernas longas e brancas de Emily, abertas, e vi sangue escorrendo pelas coxas, vindo do meio das pernas. Foi aí que fiquei assustada e corri para fora do vestiário. Acho que, mesmo percebendo que ela estava morta, consegui arrumar suas roupas porque ela tinha sido estrangulada e não havia nada de sangue. Mas, assim que saí do vestiário, a piscina à minha frente me deu medo e fiquei paralisada. Num curto espaço de tempo, o sol tinha descido muito, e começava a ventar. Olhei para as ondinhas na superfície da piscina e senti como se fosse ser arrastada para dentro. Dizem que durante o Obon, festival para os espíritos que partiram, se você for nadar, os mortos agarram sua perna. Todo ano eu escutava o aviso, e agora ele martelava na minha cabeça, então me veio a súbita ilusão de que Emily ia se levantar e me empurrar na piscina para me levar com ela para a terra dos mortos. Fechei os olhos e me agachei, com a cabeça nas mãos para 20
tampar os ouvidos, e fiquei gritando tão alto que pareceu que minha garganta fosse estourar. Por que eu não conseguia perder a consciência? Se eu pudesse desmaiar, a situação em que me encontrava naquele momento poderia ter sido bem diferente. Não sei por quanto tempo fiquei assim, mas a primeira a aparecer foi você, Asako. Tenho certeza de que se lembra do que aconteceu depois disso, então só vou escrever sobre o que aconteceu comigo. Yuka voltou com o policial local. Logo depois, veio minha mãe, preocupada por eu não ter voltado para casa e ciente de que algo tinha acontecido. Ela me colocou nas costas e me carregou direto para casa. Chorei, pela primeira vez, depois que cheguei em casa. Acho que chorei ainda mais alto, então, do que quando estava gritando perto da piscina. No início, minha mãe não me pressionou sobre o que tinha acontecido. Quando me deitei em algumas almofadas zabutons, ela me deu chá frio de cevada, esfregou minhas costas com delicadeza e sussurrou: “Estou feliz que não tenha sido você, Sae”. Enquanto sua voz entrava nas profundezas da minha mente, fechei os olhos e adormeci. O que escrevo aqui não é muito diferente do depoimento que dei logo depois do assassinato. Acho que nós quatro demos um depoimento muito claro, considerando o tipo de incidente que havíamos presenciado. Mas até agora lamento pela única coisa que não pudemos dizer com certeza, a única coisa da qual nenhuma de nós quatro conseguiu se lembrar. Posso ver com muita clareza, na minha mente, tudo o que aconteceu naquele dia, como se fossem imagens em uma tela de TV, mas, por algum motivo, a única coisa da qual não consigo me lembrar é do rosto do homem. “O homem tinha uma toalha branca enrolada na cabeça.” “Usava um uniforme cinza.” “Não era de uma cor clara, esverdeada?” “Quantos anos ele tinha? Parecia ter 40, ou talvez 50.” 21
Embora tivéssemos uma impressão geral do homem, nunca conseguimos nos lembrar de seu rosto. Era alto ou baixo? Pesado ou magro? Tinha o rosto redondo ou mais estreito? Seus olhos eram grandes ou pequenos? E o nariz, a boca, as sobrancelhas? Tinha alguma pinta ou cicatriz? Mesmo quando sua aparência era reduzida a detalhes como esses, só conseguíamos sacudir a cabeça. Mas uma coisa era certa: nunca o tínhamos visto. Por um tempo, o assassinato foi o único assunto em nossa cidadezinha rural. Uma vez, um parente veio me perguntar mais sobre o assassinato, só por curiosidade, e minha mãe o mandou embora. As pessoas começaram a falar sobre o roubo das bonecas francesas e a ligar os dois incidentes. Talvez, diziam, haja algum pervertido em nossa cidade, ou por perto, que goste de garotinhas. Quem quer que tenha roubado as bonecas, talvez não tenha ficado satisfeito com elas, e assassinou uma menininha linda como uma boneca. As pessoas sussurravam esses rumores como se fossem totalmente plausíveis. A polícia voltou a interrogar as pessoas dos lugares onde as bonecas haviam sido roubadas, então quase todos começaram a ver os dois incidentes como obra de um único criminoso, um pervertido que gostava de garotinhas. Mas eu não estava convencida. Porque era eu quem tinha a aparência que seria mais bem descrita como a de uma jovem menina inocente. Desde o assassinato, se perco a concentração, começo a visualizar o cadáver de Emily. A imagem é em preto e branco, só o sangue pingando pelas coxas é de um vermelho vivo. Na minha mente, meu rosto fica sobreposto ao dela, e minha cabeça começa a doer. Enquanto seguro a cabeça latejante, um pensamento corre pela minha mente: Graças a Deus, não fui eu. Tenho certeza de que você acha isso uma coisa horrorosa para se pensar. Não faço ideia do que as outras três meninas pensaram. Algumas delas poderiam ter ficado muito tristes por Emily, e outras poderiam ter se afundado em culpa, imaginando por que não puderam salvá-la. Mas eu só consegui me preocupar comigo. 22
O que veio depois de Graças a Deus, não fui eu foi Por que a Emily? E tive uma resposta clara para isso. Foi porque, de nós cinco, ela era a única que tinha chegado à idade adulta. Foi por ser adulta que aquele homem fez coisas horrorosas com ela e a matou. Aquele homem – o assassino – procurava uma menina que tivesse acabado de ficar adulta. Passou-se um mês, seis meses, depois um ano, e o criminoso ainda não tinha sido encontrado. Acho que você voltou para Tóquio três anos após o assassinato, Asako. Eu me pergunto se você sabe que estou escrevendo esta carta por causa da promessa que fizemos então. O tempo passou, e conforme as pessoas na cidade foram falando menos do assassinato, o medo aumentou dentro de mim. Mesmo que eu não me lembrasse do rosto do assassino, ele poderia se lembrar do meu. Poderia pensar que conhecíamos seu rosto e vir me matar e matar as outras meninas. Até então, os adultos à nossa volta tinham ficado de olho em nós, mas foram relaxando aos poucos. Talvez o assassino estivesse esperando que voltássemos a fazer coisas sozinhas, sem qualquer adulto por perto... Eu tinha a constante sensação de que ele me observava. Pelas frestas de uma janela, das sombras de um prédio, de dentro de um carro. Fiquei apavorada, totalmente petrificada. Não queria ser morta. E para não ser, havia uma coisa que precisava evitar a todo custo. Nunca poderia crescer. Ainda assim, com a passagem do tempo, mesmo que ocasionalmente eu sentisse que alguém me observava, o assassinato também foi se atenuando na minha mente. No ensino fundamental e no médio, eu estava no grupo de instrumentos de sopro, e os estudos práticos intensos me mantiveram tão ocupada, treinando todos os dias, que eu tinha pouco tempo para refletir sobre o passado. Isso não significa que, mental e fisicamente, eu estivesse para sempre livre do assassinato. Percebi isso, tive que perceber isso, aos 17 anos, no começo do ensino médio. 23
Eu estava com 17 anos e ainda não tinha tido minha primeira menstruação. Eu podia ser fisicamente pequena, mas isso não explicava o motivo de não ter começado a menstruar. Talvez eu ainda estivesse dentro da variação aceitável de idade para um primeiro período menstrual, mas minha mãe sugeriu que eu me consultasse com um médico. Assim, fui ao setor ginecológico no hospital do distrito, na cidade vizinha. É preciso muita coragem para uma menina do ensino médio ir a uma clínica obstétrico-ginecológica, mas percebi que, até então, não tinha dado a mínima para menstruação, e embora tivesse uma ideia do porquê disso, imaginei que não poderia ser a razão de ainda não ter tido um período. Seria terrível ter algum tipo real de problema ginecológico, pensei, então juntei coragem e fui. Havia uma clínica particular de obstetrícia e ginecologia na nossa cidade, mas a última coisa que eu queria era que pessoas do lugar me vissem entrando ali. Eu mal conversava com qualquer menino, muito menos saía com algum, mas não poderia suportar a ideia de fofocas horríveis circulando. Então, fui para outra cidade para ser examinada. Os exames não revelaram nada de extraordinário, e o médico disse que poderia ser psicológico. “Você está passando por algum tipo de estresse na escola ou em casa?” perguntou. Quando eu soube que os períodos menstruais podiam começar e parar por motivos psicológicos, fez sentido. Se eu me tornar adulta, vão me matar, eu pensava. Se meu período começar, vou ser assassinada. O tempo todo eu vinha sugerindo isso ao meu corpo; no início, conscientemente, depois, aos poucos, de modo inconsciente. Mesmo que eu não pensasse, com muita frequência e conscientemente, no assassinato, nos recantos mais profundos da minha mente ele havia continuado a agir. O hospital recomendou terapia e injeções regulares de hormônio, e eu disse que conversaria a respeito com meus pais. Foi a última vez que fui ao hospital. Na volta, contei à minha mãe que eles não tinham encontrado nada de errado, e que eu só estava um pouco atrasada. 24
Agora, eu rezava ainda mais para que meu período não começasse antes da prescrição do assassinato. Mesmo que eu deixasse a cidade, me perdesse nas multidões de Tóquio e vivesse entre pessoas que não soubessem nada do crime, quem garante que eu não daria de cara com o assassino novamente? Mas meu corpo, que ainda não pertencia a um adulto, me manteria a salvo do mal. Era essa a sensação de segurança que eu buscava. Não tinha grandes desejos de que o assassino fosse preso e o assassinato voltasse à tona, mas sim que a prescrição chegasse rapidamente e eu, por fim, me visse livre do passado. Isso não tem nada a ver com a promessa que te fiz, Asako. Mesmo assim, nunca pensei que te veria novamente. Depois de me formar em língua inglesa, em uma faculdade feminina, fui contratada por uma empresa de porte médio que lidava, principalmente, com corantes. Mesmo que você se forme em ciências ou humanas, todos os empregados novos são designados, nos primeiros dois anos, ao laboratório. Eles fazem isso para ensinar à gente com que tipo de produtos a empresa lida. Essa era a primeira vez, desde as aulas de química do ensino médio, que eu tocava em tubos de ensaio e béqueres, e a primeira vez na vida que via um desses dispositivos de análise que custam dez milhões de ienes. Cromatografia gasosa, cromatografia líquida – eles explicaram o que aqueles componentes quadrados, cúbicos, faziam, mas isso era demais para minha cabeça. No entanto, o logo da empresa na lateral das máquinas captou meu olhar: Industrial Adachi. Percebi que os equipamentos eram produzidos na fábrica da minha cidade, com seu ar limpo e puro, e me senti subitamente próxima a eles. Ao mesmo tempo, fui invadida por uma sensação de repugnância, como se aquela cidade estivesse me espreitando. Essa mescla complexa de emoções permaneceu comigo, começando pouco depois de eu ter sido contratada. Foi na primavera, no início do meu terceiro ano na empresa, que o chefe do laboratório me abordou sobre um possível candidato a casamento. Isso foi logo depois de eu ter terminado meu 25
estágio de dois anos no laboratório e ser oficialmente designada para o departamento de contabilidade. “Ele é filho de um primo do diretor-executivo de um dos nossos principais clientes. Viu você em algum lugar e pediu para ser apresentado formalmente.” Se o chefe do laboratório tivesse conversado comigo em particular, provavelmente eu teria recusado, ainda que quem propusesse fosse um dos executivos da empresa. Afinal de contas, eu não pensava em me casar. Mas ele me perguntou em voz alta, diante de meus colegas, exatamente quando todos nós, que tínhamos ingressado na empresa ao mesmo tempo, juntávamos nossos pertences no laboratório, preparando-nos para passar aos vários departamentos a que havíamos sido designados. Ele me estendeu a fotografia do homem e seu histórico pessoal bem ali, e meus colegas juntaram-se em volta, mortos de curiosidade. Abri a pasta com a foto do homem, e algumas das mulheres expressaram sua aprovação:“Parece bom!”. Quando olhei o currículo do homem, os homens no laboratório também expressaram a deles: “Impressionante!”. Vendo a reação deles, o chefe do laboratório disse: “O que você acha? Bem interessante, não é?”, incitando-os. “É um bom partido”, disseram alguns dos meus colegas. “Esta é a sua grande chance!” Eu tinha perdido por completo a oportunidade de rejeitá-lo discretamente, e acabei respondendo que ficaria feliz em conhecer o homem. Mas por que um homem da elite como aquele, formado em uma universidade importante, trabalhando em uma companhia importante, de aparência elegante, pediria para conhecer alguém como eu, uma funcionária qualquer de escritório, numa empresa de terceiro escalão, e pensaria que eu pudesse ser uma esposa adequada? O que eu estaria fazendo quando ele me viu e ficou interessado? Pensamentos desse tipo passaram pela minha cabeça repetidas vezes antes do dia do nosso primeiro encontro, e cheguei a uma conclusão: ele devia estar me confundindo com outra pessoa. Evitamos o costumeiro e rígido encontro amiai, com a presença de intermediários, e, em vez disso, combinamos um jantar 26
a dois. Mas, na verdade, isso me deixou deprimida. Agora eu me sustentava, e finalmente conseguia conversar com homens como qualquer pessoa, mas nunca tinha jantando sozinha com um homem que acabara de conhecer. Usei um vestido rosa primaveril, recomendado por uma das mulheres intrometidas, contratada na mesma época que eu. Cheguei ao saguão do hotel onde deveríamos nos encontrar e logo depois surgiu um homem, o mesmo da fotografia. Era Takahiro. De um jeito animado e educado, ele se desculpou por pedir ao meu chefe que acertasse as coisas e me agradeceu por ter ido no meu dia de folga. Fiquei um pouco atrapalhada, sem conseguir achar uma resposta aceitável. Fomos ao restaurante italiano no último andar e, depois de nos acomodarmos, passei-lhe uma cópia do meu próprio currículo, bastante inexpressivo. Mas ele o colocou num canto da mesa, sem nem olhar. “Você cresceu na cidade de _____, não foi?”, perguntou. Engoli em seco quando ele mencionou o nome da cidadezinha, aquela com o ar limpo e puro. Ele continuou, com um sorriso no rosto: “Eu também morei lá por três anos, da sexta à oitava série do ensino fundamental. Estávamos com dois anos de diferença na escola, então não acho que você se lembre de mim”. Lembrar? Como poderia, se nem mesmo o conhecia? Se ele estava na sexta série, isso significava que eu estava na quarta. Foi nesse ano que a fábrica foi construída, e a escola ficou, subitamente, lotada de alunos transferidos. “Sinto muito que você não se lembre”, ele disse.“Mas uma vez a gente se divertiu juntos. O Tour da Boneca Francesa. Você era a responsável e levou a gente para ver todas as bonecas.” Ah... Então ele estava naquele grupo. Mesmo assim, não conseguia me lembrar que criança ele era. Mas ele mudou de assunto antes que eu pudesse reviver a sensação de fracasso que tinha tido então, e antes que pudesse pensar muito no roubo das bonecas francesas. Ele morou na cidade por três anos, então, naturalmente, soube do roubo, talvez até soubesse que eu estava envolvida. Talvez estivesse evitando o assunto em consideração a mim. 27
Takahiro trabalhava com vendas, em uma divisão que lidava com relógios, então tinha muitas oportunidades de visitar a Suíça, e como um dia estava recordando minha cidade, de como ela lhe lembrava um pouco a Suíça, calhou de me ver de novo e querer se encontrar comigo. “Onde foi isso?”, perguntei, e ele disse que foi no que imaginava ser a festa de final de ano da minha empresa. Mencionei o nome de um restaurante chinês.“É!”, ele disse.“Foi nesse lugar. Eu estava lá com um amigo, perto de você, e pensei: Será que coincidências como essa acontecem mesmo?” Ele disse que ficou até um pouco confuso, imaginando se teria sido o destino que havia nos juntado novamente. Agora, no entanto, percebo que só estava dizendo o que quer que passasse pela sua cabeça. Depois disso, Takahiro e eu nos encontrávamos uma ou duas vezes por semana. Jantávamos, íamos ao cinema ou a um museu de arte, cenários típicos de namoro, mas o estranho é que, quando eu estava com ele, sentia-me livre do medo de que alguém estivesse me observando. Tanto que a cada vez que nos despedíamos, eu queria ficar com ele mais um tempinho. Mas ele nunca me convidou para ir a um hotel, nem disse que queria subir ao meu apartamento, onde eu morava sozinha. E, é claro, quando me levava de volta para o meu prédio, de táxi, nunca o convidei para um café nem nada. Se tivesse feito isso, e se ele tivesse aceitado, o que teria acontecido? De quem era a voz na minha cabeça, imaginando isso? Foi no nosso sétimo encontro que ele, repentinamente, me pediu em casamento. Aquela foi a primeira vez em que ficamos de mãos dadas. Nada de particularmente romântico nisso. Tínhamos ido à estreia de um musical famoso, e ele pegou minha mão para não nos separarmos no saguão lotado, mas foi o bastante para fazer meu coração disparar. Mais tarde, depois de nos sentarmos no teatro escuro, fui tomada pela tristeza e até derramei algumas lágrimas. “Fui transferido a longo prazo para a Suíça, e esperava que você pudesse vir comigo.” 28
Takahiro pediu minha mão durante o jantar, depois de nos terem servido uma elegante sobremesa kaiseki-francesa, acompanhada de vinho. O restaurante era muito exclusivo, cada mesa com seu compartimento individual, o lugar perfeito para um pedido de casamento. Parecia um sonho, e pensei em como ficaria feliz em aceitá-lo de bom grado, sem qualquer hesitação. Mas não consegui. E havia um motivo para isso. “Sinto muitíssimo”, eu disse, fazendo-lhe uma reverência,“mas não posso aceitar”. “Por que não?”, ele perguntou. O pedido não era totalmente inesperado, mas tinha me aturdido. Desejei poder recusá-lo com algum motivo óbvio, banal, dizer que ele deveria encontrar alguém mais adequado em vez de optar por uma ninguém, como eu. Mas estaria mentindo. Então fui em frente e revelei o verdadeiro motivo. Nunca imaginei que revelaria a verdade odiosa a meu respeito, em resposta a um pedido de casamento. “Sou incompleta como mulher.” Ele ficou espantando. Tenho certeza que nunca esperou ouvir isso. Antes de ser dominada pela vergonha, revelei tudo: “Mesmo agora, aos 25 anos, nunca tive um período menstrual, nem mesmo uma vez. Porque, bem lá no fundo, rejeito a ideia de meu corpo passar a ser o de uma mulher. Um corpo como o meu não pode ter relações sexuais normais, nem ter um filho. Um homem como você, com um futuro brilhante à frente, não deveria se casar com um artigo defeituoso como eu”. Pela primeira vez, amaldiçoei a maneira como minha mente havia enganado meu corpo para me proteger. Se é assim que as coisas vão acabar, pensei, arrependida, deveria ter feito o que fosse preciso, injeções ou terapia, quando estava no começo do ensino médio. Achei que chorar seria um ato covarde, então reprimi as lágrimas. Dei uma mordida na sobremesa, que era como uma peça requintada de porcelana, mousse branca com uma variedade de frutas silvestres coloridas por cima. Morangos, framboesas, groselhas, mirtilos... Desde que aprendi todos esses nomes diferentes, aquela cidade rural me prendera em suas garras. 29
“Isso não importa”, disse Takahiro. “Se você só vier comigo, já está bom. Se estiver lá quando eu chegar em casa, cansado do trabalho, é tudo o que eu preciso. Eu te contarei o que aconteceu no dia, te abraçarei e irei dormir. Não posso imaginar felicidade maior do que essa. Você não quer vir comigo, começar uma nova vida em um lugar como aquele em que costumávamos viver juntos? “Deixar o Japão não seria uma má ideia para você”, acrescentou. “Provavelmente, você ficou assim por causa do assassinato, e vai ver está preocupada por ficar em uma cidade que te lembre a sua, que te lembre de tudo o que aconteceu lá. Mas posso te garantir uma coisa: nesse lugar novo não tem assassinos, e eu estarei lá para te proteger.” Fiquei surpresa quando Takahiro perguntou se tudo bem convidar você, Asako, e seu marido, para o nosso casamento. Foi aí que eu soube que o pai de Takahiro e seu marido eram primos. “Quando Asako e seu marido me virem”, perguntei, “não vão se lembrar do assassinato e sofrer aquelas terríveis lembranças de novo?”. Mas ele me contou que você disse a ele que realmente queria participar. Para ser totalmente sincera, eu não queria te ver de novo, Asako. Tive medo de você jamais me perdoar por não manter a promessa que te fiz e, em vez disso, procurar minha própria felicidade. Mas eu não tinha direito de dizer nada no que se referia ao casamento. Afinal de contas, era a família de Takahiro – o pai e a mãe eram executivos da Industrial Adachi – que estava arcando com esse acontecimento extravagante, a ser realizado em um museu de arte projetado por um arquiteto famoso, lugar onde várias celebridades também haviam se casado. A única coisa que me sobrou para escolher por mim mesma foi o vestido de noiva. Mas no dia do casamento, Asako, você me disse para esquecer o assassinato e ser feliz. Não posso te dizer o quanto fiquei eufórica quando você disse isso... E outra coisa me fez de fato feliz naquele dia: a surpresa que Takahiro tinha preparado. 30
Quando eu e ele estávamos planejando o casamento, eu tinha certeza de que, quando fosse me trocar no meio da recepção, seria para usar um vestido de festa mais curto, mas ele simplesmente dispensou a ideia, insistindo para eu ficar com o vestido branco de casamento até o fim. O motivo ficou claro durante a recepção, quando ele, repentinamente, me deu uma caixa com uma grande fita, e fui levada para uma sala de espera por uma das funcionárias. Abri a caixa e lá dentro havia um vestido rosa. O decote e a barra eram arrematados com penas brancas, os ombros e a cintura decorados com grandes rosas roxas. Uma tiara combinando, com rosas roxas e penas brancas, também foi colocada na minha cabeça. Minha boneca francesa poderia usar esse tipo de tiara, lembrei. Olhei-me no espelho e vi a boneca francesa que costumávamos ter na sala de visitas da nossa antiga casa. Mas por quê?, perguntei-me, e então lembrei que a primeira vez em que Takahiro e eu nos encontramos foi durante o Tour da Boneca Francesa. Eu, uma menina do campo, mostrando orgulhosa às crianças da capital as nossas bonecas com aparência antiga. Ele deve ter se lembrado de como eu era naquela época, e encomendou um vestido idêntico ao da minha boneca. Para me surpreender e me fazer feliz. Quando voltei para o saguão da recepção, Takahiro olhou para mim como se estivesse segurando o fôlego, e depois abriu um grande sorriso. “Você está incrível!”, disse. Todos brincaram conosco, brindaram conosco, e dois dias depois desse momento delicioso, parti com Takahiro para nossa viagem. Do avião, vi a paisagem no solo perder-se de vista, e meu corpo todo foi tomado por um sentimento de libertação. Nesse lugar novo não tem assassinos, e eu estarei lá para te proteger. Mas havia um criminoso. A cidade onde estou agora tem mesmo ar fresco e limpo, como aquela outra – até aí é verdade –, mas, tirando isso, não tem nada parecido. Esta cidade é muito agradável e linda. Passaram-se duas semanas, desde que começamos nossa vida juntos, só nós dois. É difícil acreditar que sejam só duas semanas. 31
Eu estava um pouco surpresa enquanto escrevia esta carta. Até agora, consegui falar calmamente sobre as coisas, mas não tenho nenhuma certeza de que conseguirei expressar tão bem todo o resto. Mas o que vou escrever agora é o que realmente preciso dizer. Começarei pelo dia em que chegamos a esta cidade... Takahiro havia me contado que nossa nova casa tinha quase tudo o que precisávamos em se tratando de móveis, louças e daí por diante, então me livrei da maior parte do que eu tinha quando morava sozinha e só despachei um mínimo de roupas e outros itens pessoais. Depois de ficarmos noivos,Takahiro foi para a Suíça alguma vezes, a trabalho, e deixou a casa pronta para nós. Chegamos ao aeroporto local pela manhã, e várias pessoas da sua empresa vieram nos receber. Fui com Takahiro ao escritório para conhecer seus colegas. Todos nós fizemos uma refeição juntos, para que eu fosse apresentada a cada um, e ganhamos um lindo presente de casamento. Então, fomos para a nossa nova casa, só nós dois, num carro fornecido pela empresa dele. Encantei-me com tudo o que vi naquele dia, mas, ao chegarmos a nosso bairro luxuoso, me emocionei ao ver nossa casa, parecida com uma antiga casa de bonecas. A casa tinha dois andares: uma sala de visitas espaçosa, uma combinação de sala de jantar e cozinha no primeiro andar, bem como dois outros cômodos. A sala de visitas tinha um conjunto de sofás e uma estante, e me adiantei e pus sobre ela o pesado relógio de pêndulo que ganhamos de presente. Mas, no geral, a sala estava um pouco vazia. Na cozinha, havia pratos e utensílios suficientes, mas achei que seria simpático ter um par de xícaras combinando. “Uma toalha de mesa laranja ficaria bem na mesa de jantar”, comentei, “e adoraria colocar um monte de fotos perto da janela saliente”, acrescentei, empolgada. Takahiro sorriu e me disse para decorar a casa como preferisse. “Mas antes”, disse, “vamos abrir as caixas”. As caixas que havíamos despachado do Japão estavam empilhadas aleatoriamente, em um dos cômodos do primeiro andar. 32
No segundo andar havia quatro cômodos, cada um de um tamanho. “O quarto maior no fundo é o dormitório”, ele me disse, “os outros, você pode usar como quiser”. Olhei dentro de cada quarto pela ordem, começando pelo que estava mais perto. Este lugar é grande demais só para nós dois, pensei, enquanto seguia pelo corredor largo e punha a mão na maçaneta do quarto dos fundos. “Vamos deixar esse quarto para depois”, Takahiro me disse. “Deixei tudo arrumado nele quando estive aqui antes, então vamos comer primeiro.” Suas palavras, e minha própria timidez quanto ao quarto estar pronto para nós, impediram-me de abrir a porta. Em vez disso, fui com ele a um restaurante próximo. Tomamos cerveja e comemos alguns pratos locais simples, mas deliciosos, e quando chegamos em casa de bom humor, Takahiro subitamente pegou-me em seus braços, levantou-me sobre a soleira, como uma princesa, e começou a subir a escada me carregando. Continuamos pelo corredor e ele abriu a porta do quarto mais afastado, colocando-me, delicadamente, no meio do cômodo. O quarto estava um breu, mas eu sabia que ele tinha me posto sobre uma cama. Ele abriu o zíper do vestido, que caiu pelos ombros. Logo depois do nosso casamento, ficamos em um hotel no Japão por alguns dias, mas Takahiro andara tão ocupado trabalhando, preparando-se para seu novo cargo, que nada acontecera entre nós. Mas, agora, eu sabia que tinha chegado a hora. Mesmo com meu corpo incompleto, achei que meu amor por ele ia me tornar capaz de fazer aquilo. De algum modo, ele conseguiria se virar. Meu coração estava aos trancos, minha respiração suspensa, quando, de repente, algo desceu delicadamente pela minha cabeça. Meus braços passaram devagar por dentro de mangas, um fecho foi puxado nas costas, ele segurou minha mão e fiquei em pé, enquanto, cuidadosamente, ele arrumava a barra do vestido longo. Percebi que ele tinha colocado outro vestido em mim. Surgiu uma luz no quarto. Takahiro tinha acendido um dos abajures. Naquele instante, o que me atingiu foi a visão de uma boneca francesa. O que sorriu de volta para mim, de cima da mesa 33
de madeira maravilhosamente entalhada, ao lado da cama, foi o próprio rosto de uma daquelas bonecas francesas exibidas nas salas de visitas daquela cidade rural. Então ele tinha comprado o tipo exato de boneca para mim? Não, não era isso. Havia uma pinta minúscula sob o olho direito da boneca, mas o vestido era diferente. Não era rosa, mas azul-claro. E o vestido que ele havia posto em mim era um idêntico, azul-claro. Em transe, virei-me e vi Takahiro olhando para mim com o mesmo sorriso da nossa cerimônia de casamento. “Minha boneca preciosa”, ele disse. “Mas o que...?” Assim que disse essas palavras, com a voz rouca, uma voz zangada gritou:“Não fale!”. Seu sorriso foi substituído por uma expressão nervosa, irritada, e pela primeira vez, eu me lembrei de qual criança ele era no Tour da Boneca Francesa. Sem saber ao certo o que estava acontecendo, impedida de dizer uma palavra, fiquei ali, paralisada. Rapidamente, ele recuperou sua costumeira expressão bem-disposta e colocou-me na cama, sentando-se ao meu lado. “Desculpe-me por ter gritado. Você ficou assustada?” Seu tom era gentil, mas não consegui responder. Olhava para mim, mas não eram os olhos de alguém olhando para uma pessoa real, viva. Olhei de volta, em silêncio.“Você é uma boa garotinha, não é?”, ele disse, dando tapinhas na minha cabeça com sua grande mão. E começou a contar sua história. “Até então, eu nunca tinha me apaixonado”, ele disse. “Todas as meninas à minha volta eram treinadas, desde crianças, a serem bem-educadas, a viverem de acordo com sua situação de elite, mas, em sua maioria, eram criaturas pretensiosas, estúpidas. Minha mãe não era diferente, sempre reclamando dos pesquisadores que ela supervisionava, todos eles incompetentes, segundo ela, e do meu pai, que trabalhava no mesmo departamento. “Então, tivemos que nos mudar. Eu não podia acreditar que aquela cidade chegasse a fazer parte do Japão, era tão desprovida de tudo! Nunca tinha visto crianças como aquelas, incultas e vulgares, 34
tomadas pela inveja. Quando pensava que teria que passar os próximos anos com elas, achava que ficaria louco. “Por volta dessa época, uma das crianças que viviam em nosso prédio me convidou para ver algo interessante, segundo ela. Eu não fazia a menor ideia de que seriam bonecas, mas não tinha nada melhor a fazer, então fui com aquela molecada encardida do interior. Elas abriam a porta de entrada da casa dos outros sem bater, gritavam ‘Gostaríamos de ver sua boneca!’, e as pessoas que viviam ali gritavam de volta ‘Fiquem à vontade!’, e nem mostravam a cara. As crianças simplesmente infestavam a casa das pessoas para ver o que estava exibido ali. Inacreditável. “Mesmo assim, foi meio interessante. Olhando todas as coisas à mostra ali – não apenas as bonecas, mas as pinturas, os diplomas, as lembranças –, fiz um retrato mental do tipo de pessoa que vivia em cada casa. E não deu outra: quando as pessoas vinham com bebidas para nós, chá de cevada ou Calpis, eram exatamente como eu tinha imaginado. Fiquei surpreso. Por volta da quarta casa, percebi que as bonecas se pareciam com as crianças daquela família, e comecei a prestar mais atenção nelas. Pareciam temperamentais, teimosas ou nada brilhantes; todas as impressões que tive foram muito negativas. “Acho que a penúltima casa que visitamos foi a sua. Àquela altura, eu estava cansado daquilo tudo e pensava em sair de mansinho, mas assim que pus os olhos na boneca da sua casa, soube que tinha que ficar com ela. “Aquela boneca tinha um rosto incomum. Era difícil dizer se era mais uma criança com aparência precoce ou um adulto que parecia criança. Tive vontade de tocar naquele rosto, nos braços e pernas graciosos. Tudo era muito encantador. Como seria maravilhoso, pensei, ter esta boneca sempre ao meu lado e poder conversar com ela. Também tive algumas expectativas em relação à menina, dona da boneca, mas ela era um típico espécime maltrapilho, sendo a única semelhança a pinta no mesmo lugar da boneca. “Mesmo depois de chegar em casa, não consegui tirar aquela boneca da cabeça. Sempre que ouvia meus pais discutindo no quarto 35
ao lado, pensava na boneca. Quando meus colegas de classe riam de mim por não saber as regras do Chute a Lata, lembrava-me da boneca. Por fim, decidi. Tinha que pegá-la para mim. “No dia do festival, as pessoas baixaram a guarda ainda mais do que o normal, então, roubar a boneca foi fácil. Levei-a para casa e fiz o mesmo com as outras quatro. Levei as outras porque, assim, se as pessoas descobrissem que o ladrão era eu, não saberiam que eu estava apaixonado por aquela boneca em particular. No mesmo dia, joguei as outras bonecas no incinerador da fábrica. “Não fiquei com a consciência pesada. Tinha certeza de que cuidaria melhor de você do que qualquer outra pessoa. “Logo depois, aconteceu aquele assassinato. O que me surpreendeu mais do que o próprio assassinato foi como as pessoas tentaram associá-lo ao roubo das bonecas. “Sem chance, pensei, eles não podem me confundir com um assassino! Fui visitar uma das crianças envolvidas no assassinato para verificar as coisas por mim mesmo. Era a sua casa. A criança que fui ver estava voltando da escola, ou da polícia, com os olhos baixos, enquanto caminhava acompanhada da mãe. Por apenas um instante, meus olhos se encontraram com os da menina. Aquele instante me fez sentir um arrepio. Ela tinha os mesmos olhos que você. “Eu tinha pensado que a menina não passava de uma criança encardida do interior, mas isso poderia se transformar em uma coisa realmente surpreendente. Você, com menos de um metro de altura, era muito maravilhosa, mas imagine uma versão tamanho natural. Seria ainda mais surpreendente. Eu poderia ir além do que apenas falar com você enquanto você ficava ali; poderia fazer você sentar, caminhar com você, abraçar você enquanto durmo. Tive uma premonição de que, um dia, aconteceria um milagre. “Logo, reportagens no jornal diziam que o suspeito do assassinato era um homem na casa dos 40, 50, e esqueci completamente o assunto. Só conseguia pensar em você. “Você não parecia notar, mas eu estava sempre olhando para você. Na escola, no caminho para casa, até em frente à sua casa. Não muito depois disso, meus pais foram transferidos para Tóquio 36
e nós voltamos para lá, mas eu voltava todo feriado para ver como você estava, fingindo que queria visitar a casa de uma das crianças mais decentes que viviam naquela cidade. “Você cresceu bem como eu esperava. Houve uma época em que fiquei preocupado com o que aconteceria se você se tornasse imoral o bastante para flertar com homens, mas você não mostrou sinal disso. Quando eu estava na faculdade, pensei uma vez em falar com você, mas esperei pacientemente, preparando terreno para te fazer minha. “‘Sou incompleta como mulher.’ Quando escutei isso, correu uma emoção ainda maior dentro de mim, maior do que lá atrás, quando nossos olhos se encontraram pela primeira vez. Porque eu soube, então, que você era de fato uma genuína boneca viva. Se foi o assassinato que fez meu ideal criar vida, então eu tinha que agradecer ao assassino. “Venha aqui do meu lado. À noite, você é minha boneca.” Talvez cansado da viagem, ou da longa história, ele logo adormeceu, abraçando-me com cuidado. Eu ainda estava com o vestido que havia posto em mim, como se eu fosse uma boneca preciosa. Assustada, enojada... É impossível expressar como me senti então. Percebia, agora, que a sensação que eu havia tido por tanto tempo, de que alguém me observava, não era fruto da minha imaginação. Mas saber que não era o assassino não me deu nenhuma sensação de alívio. Em vez disso, fui tomada pelo medo de que agora estivesse nas garras de alguém ainda mais bizarro, e não consegui dormir um segundo naquela noite. Amanhã, voltarei ao Japão. Só consegui pensar nisso. Mas ao amanhecer, quando saí da cama, em silêncio, Takahiro não tentou me impedir, embora eu tenha certeza de que ele notou. Tomei uma ducha, coloquei roupas normais e fiz um café da manhã simples, com o pão e os ovos que tínhamos comprado na véspera. Àquela altura, ele já estava de pé, como sempre. “Tenho que ir trabalhar a partir de hoje”, disse, com seu costumeiro bom humor, “mas se você se sentir sozinha, ou tiver algum 37
problema, ligue a qualquer hora no meu celular”. Ele me deu um beijo de despedida e foi para o escritório. Será que a noite anterior havia sido um sonho? Não, tinha realmente acontecido. Mas vai ver que ele tomou muita cerveja e estava bêbado. Vai ver que ele gostou mesmo da boneca e a tinha de fato roubado, inventando aquela história para esconder seu constrangimento. Tentando me convencer de que devia ser isso, entrei no nosso quarto para começar a limpá-lo e vi a boneca ali, esperando por mim com sua expressão gentil de sempre. Agora, estava com um vestido vermelho. No quarto havia uma cama, uma mesa e um guarda-roupa, os dois últimos com entalhes combinando. Aproximei-me lentamente do guarda-roupa e abri as portas duplas com um puxão. Dentro, havia vestidos iguais em muitas cores, uns para a boneca, uns para mim. Recuei, novamente, e fiquei com os olhos marejados. Mas, aos poucos, um sorriso veio ao meu rosto. Na noite anterior, no escuro, tinha sido assustador ser levada a vestir aquele vestido e escutar a história bizarra de Takahiro, mas, à luz do dia, as fileiras de vestidos no armário pareciam espalhafatosas e divertidas, embora, em última análise, ridículas. Como roupas que um palhaço de circo poderia usar. Onde ele comprou todas essas roupas, e o que se passava pela sua cabeça ao fazer isso? Com certeza ele não tinha levado retratos dos vestidos feitos com lápis de cor até uma loja, ou será que tinha? Talvez o caderno Memorando de Bonecas, que joguei fora muito tempo atrás? Quando ele era criança, devia haver algo faltando em sua vida. Algo vital. E a boneca em nossa sala de visitas, uma coisa que poderíamos muito bem ter jogado fora alguns anos depois, compensou essa falta. E agora sou eu quem desempenha esse papel para ele, algumas horas por dia. Foi ele quem me trouxe da minha cidadezinha rural para este lugar longínquo. Para que duas pessoas imperfeitas e avariadas vivam, é preciso uma cerimônia absurda que lhes permita esconder suas imperfeições.
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Sempre fui boa em me convencer de coisas. À noite, quando Takahiro voltou do trabalho e me viu com as mesmas roupas comuns que eu estava de manhã, pareceu contrariado. Então, antes que dissesse qualquer coisa, soltei o seguinte, num rompante: “Mesmo à noite, aqui é um lugar para nós vivermos como seres humanos. Comeremos, usaremos o banheiro, tomaremos uma ducha. E então, você não gostaria de passar uma noite de verdade ali no quarto, comigo?” Eu estava receosa de que fosse demais para mim, como uma simples boneca, sugerir passarmos uma noite de verdade juntos, mas ele só abriu um sorriso. “O que tem para o jantar?”, perguntou. Mesmo assim, foi miserável brincar de ser uma boneca no segundo dia, e no terceiro. Escutar, em silêncio, enquanto ele falava, era uma coisa, mas era difícil suportar quando ele punha a mão dentro do meu vestido, me acariciava toda e lambia as partes expostas do meu corpo. Conforme o tempo foi passando, porém, acostumei-me com isso, querendo que ele me tocasse ainda mais. Mal podia esperar pela hora em que poderia me transformar numa boneca, e comecei a detestar quando a noite chegava ao fim. Mas a última noite foi diferente. Eu tinha me sentido febril desde cedo, o estômago latejando de dor, e ao meio-dia não aguentei mais. Deitei-me no sofá da sala de visitas, puxei um cobertor e fechei os olhos. Mas o barulho do relógio me incomodou, e não consegui adormecer. Enfiei o relógio debaixo do sofá e finalmente consegui dormir um pouco, embora a dor não diminuísse. A noite veio e Takahiro voltou. Ficou preocupado ao ver meu rosto pálido, e quando pedi desculpas por não ter o jantar pronto, ele me disse para não me preocupar. Suas palavras bondosas fizeram-me baixar a guarda, e esse foi o meu erro. “Gostaria de dormir aqui esta noite”, disse a ele. “Não, não permitirei isso”, Takahiro disse com frieza. Não sei por que fiquei tão brava, mas na noite anterior eu estava realmente nervosa, e a raiva subiu dentro de mim. 39
“Não me faça jogar aqueles jogos pervertidos quando estou me sentindo assim!”, gritei. Assim que soltei isso, senti uma dor aguda no rosto. “O que foi que você disse?” Takahiro pressionou seu rosto junto ao meu, e seu aspecto me assustou. Mas não recuei. Estava irritada além da conta. “Eu disse que você é um pervertido. Não me diga que não percebeu que é um pervertido?” Um grito alto, depois outra dor aguda no rosto, e desmoronei no chão. Ele montou sobre meu estômago, que ainda doía, e agarrou meu pescoço com as duas mãos. “Retire o que disse! Se você retirar o que disse neste exato momento, eu te perdoo. Fique de quatro e peça desculpas!” Foi então que aconteceu. Senti algo quente e pegajoso saindo do meio das minhas pernas. Sem me levantar e olhar, eu sabia o que era, podia imaginar a cor. No instante seguinte, como num filme acelerado, aquele assassinato passou pela minha cabeça. Crianças jogando bola, um homem surgindo de uniforme de trabalho, avaliando uma criança de cada vez, Emily sendo levada embora, a cena dentro do vestiário... Eu ia ser morta! Não me lembro do que aconteceu depois. Logo depois da mesa de jantar onde estou escrevendo esta carta, em frente ao sofá, Takahiro está deitado no chão. O sangue que saía da sua cabeça parou e está começando a ficar escuro e viscoso. Caído ao lado dele está o relógio coberto de sangue. Até daqui é óbvio que ele não está respirando. Devo tê-lo matado. Das imagens daquele momento que correm pela minha cabeça, me vem um súbito pensamento. Todas nós tínhamos nos dirigido ao assassino como ojisan – tio –, a maneira típica como as crianças tratariam um desconhecido de meia-idade, mas, na verdade, o homem não era tão velho, provavelmente estava na casa dos 30. E agora sei que quem roubou as 40
bonecas francesas era outra pessoa. Com a prescrição se aproximando, rezo com todo o meu coração para que essas provas sejam úteis e que, agora, o caso possa ser resolvido. Cumpri minha promessa a você agora? Vou te enviar esta carta e depois voar de volta para o Japão. Não faço ideia de onde ou como eles lidam com alguém que matou o marido no exterior, mas vou voltar para o Japão e me entregar à delegacia mais próxima. Pode ser que eu tenha que ir para a prisão, mas isso não me incomoda porque sei que, depois de cumprir minha sentença, terei finalmente uma vida livre. Para dizer a verdade, sinto-me em paz. Como se enfim, depois de todos esses anos, eu estivesse de volta a um tempo antes de você e da sua família virem para a cidade. De volta a uma época em que respirava aquele ar puro e limpo, sem pensar duas vezes. Cuide-se. Adeus. Sua, Sae
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