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Passageiro clandestino

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Leonor Xavier

PASSAGEIRO CLANDESTINO Diรกrio de vida


Leonor Xavier

PASSAGEIRO CLANDESTINO Diรกrio de vida


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s histórias podem contar-se ao contrário. Mas só quando começam e acabam, quando se lhes conhecem as curvas e os contornos, quando as personagens que as povoam estão definidas, quando há um começo e um fim que possa ser o começo de outra história e de outra, até mais não. Há as histórias traçadas com precisão e aquelas que vão seguindo discretas, silenciosas, disfarçadas de pequenos sinais tão invisíveis que nenhum encadeado de palavras lhes dá corpo ou vida. Essas podem começar num dia de março, às escuras de um acordar, ou podem estrear num fim de tarde de julho obrigado a trânsito de gente, presença em acontecimento, troca de fugazes contatos de pele em síntese de palavras, venais circunstâncias no curso da cidade. Nessas histórias, o corpo estranho dentro do corpo é protagonista, passageiro clandestino, senhor que nele desde há muito se acha instalado com absoluto conforto. Não tem volume nem medida, aconchegado em amáveis tessituras, protegido de frios e calores, alimentado de sais e sucos, saciado de temperos e sabores. Até que discretamente cansa, perturba, transforma, asfixia, acorda o descanso, alvoroça a mente. Sem cara, sem nome, sem identidade, sem passaporte de instalação neste território feito de suor e sangue, o passageiro clandestino lá está. E quer apresentar-se no salão da casa, respingando plumas e paetês, adereços de banquete a preparar aparato e festa. 7


Um ano? Quantos meses? Que tempo passou desde que o clandestino assaltou o corpo, disfarçado de coisa nenhuma, bandido vestido de nada, malandro? Realidade engarrafada, diz Agustina sobre o romance certo, sem atropelos de memória ou eclipses de pessoas. Mas esse romance não existe, o curso dos acontecimentos é por natureza desordenado, e descubro eu agora que, tal como na vida verdadeira, nós perdemo-nos na realidade ou ela perde-nos a nós. Porque toda a realidade correu depressa demais, esquecemo-nos dos detalhes dos dias, das frases, dos pensamentos que andam a galope, a fugir de um para o outro que se segue. É o que não quero, é por isso que lembrar, recordar, registrar, guardar tem sido um traço forte meu, desde a primeira consciência de mim. Contar, dar testemunho daquilo que ouço e vejo e vivo, é importante. Muitas vezes eu guardo uma cor ou um cheiro ou uma sensação qualquer, mas o cenário desapareceu e as personagens sumiram, de vez. Essa é uma das perdas que me abala, quando acontece. Tenho um espaço de expressão que ao longo dos anos fui conseguindo, aprendizado de vida feito de casos e descasos, peripécias, atrevimentos, resguardo, muito amor, muitos encontros nos desencontros da vida, como diz o verso de Vinicius de Moraes. Nunca deixei de me expor, de dizer o que penso e sinto, de defender uma causa de fé, sem medo de ser criticada ou desprezada. Assim, posso talvez através da escrita passar uma respiração de serenidade aos tantos outros que, como eu, foram violados na intimidade do seu corpo, na sua integridade, na absoluta perfeição que julgavam iria durar para sempre. Uso o conceito de violação no modo mais bruto. Haveria outras formas mais leves de dizer. 8


Problema ou contrariedade ou fase difícil, como lhe chamam as pessoas cautelosas que se defendem em discrição para não dar nomes às coisas. Figuras virtuosas que muito bem sabem inventar um véu de conveniência a separá-las da realidade, na sua crueza. Não distingo as corretas designações para a doença, ouço dizer que tem uma infinidade de formatos. Em resumo, prefiro chamar-lhe simplesmente câncer, tal como é, e merece. E em vez de desenvolver o assunto doença, prefiro pensar em aventura, ou melhor dizendo, acidente/incidente de percurso. Que aconteceu de surpresa e me leva a refazer o entendimento do mundo. Que me dá vontade de contar, e que tem a ver com o que somos, porque existimos, o que andamos a fazer por aqui.

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minha condição é um ínfimo detalhe na ordenação de todas as coisas. Mas eu pertenço a essa ordenação, não é por acaso que nasci e que ando pelo meu chão de pisar, pelas contracurvas da minha pequena história, pelos tempos de euforia, pelas desordens dos desgostos. De tudo isso somos feitos, e eu sou feita, na minha condição de humana mulher, em idade madura, ainda saborosa e sumarenta. O que tem a ver a doença confirmada, e a partir daí, muito imediatamente, com certas impressões dos sentidos que me são dadas de surpresa, fortes como um murro no estômago, uma dor de prazer no coração, um golpe de frio a cortar a alma. Assim me aconteceu numa manhã de dezembro passado, à primeira hora de abertura da loja onde eu ia trocar uma compra. Como guardei esse instante, não tendo ele a menor importância, como foi tão intenso ao ponto de agora relembrá-lo? As palavras não chegam, só poderão sugerir que, afinal, o desimportante é, afinal, importante. Abri a porta do carro, saí na avenida ainda vazia de trânsito e, estando longe do rio, respirei fundo o ar da minha cidade de Lisboa, com um imenso prazer de pulmão cheio, de vida a correr em mim, sangue vivo, natureza a dizer que sim, existe.

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rontos. Portanto. É assim. Escrevendo estas palavras totalmente fora do contexto, tomo a liberdade de pensar nestes modos portugueses de respirar fundo a tomar fôlego, antes de uma tirada de afirmação que se julgue de alguma importância. Também retomo uma frase de Alfredo Marceneiro, como preâmbulo para o sombrio assunto que virá a seguir. Certa vez cantou ele um fado, nos bastidores da rádio, e o fado saiu-lhe bem, acrescentado pelos elogios de quem o ouvia. “Ó filhos, tudo vai do arranque”, disse então o Mestre, já de voz aquecida, pronta para mais. O assunto sombrio, por estranho que pareça o parentesco, até tem muito a ver com fado, esse destino que nos assombra, de dor e paixão, de traição e ciúme que consomem, desgraçam, desfazem. E este assunto, a que me permito chamar arranque, tem uma senha. Não é que eu acredite nesse destino que poderia traçar a minha vida, porque a vida é uma construção feita de escolhas e liberdades, assim fomos criados na nossa humana imperfeição. Ou seja, não foi por destino que fiquei doente de câncer. Mas um tom de fado a evocar panejamentos escuros de dor ou vermelhos de sangue dá-nos a nós, portugueses, um prazer um bocadinho masoquista. Que eu até assumo, por gostar de às vezes ter uma leve pena de mim, ou emocionar-me por um sentimento, por uma compaixão, por um espetáculo de beleza que me faz chorar. 13


Voltando ao assunto sombrio, ao momento do arranque e ao anúncio do que viria a seguir, aparece com pompa a palavra “biópsia”. Como outras, instala-se no meu novo vocabulário, sabendo eu já que é mensageira de boas ou de más notícias em avaliação de saúde. No caso, há um papel com carimbo de laboratório especializado, em que ela registra a má notícia de que há um câncer dentro de mim. Sem drama, talvez porque a própria natureza nestes momentos me cobre com aquelas penas de pato que fazem escorrer a chuva e protegem do frio, assim eu soube. Pelo telefone me chegou o veredito, estava eu num almoço de mesa grande de amigas. Não calei nem disfarcei, nem apaguei a notícia. “Estou com um câncer”, disse em voz baixa às que se sentavam ao meu lado. Assim foi o arranque. Arranque, que teve preliminares de que eu não tinha noção, até as suas sequências. A colonoscopia e mais a tomografia, práticas que eu nunca tinha experimentado, com as respectivas demoras em salas de espera e mais o tempo até ao resultado definitivo, constam nesta minha iniciação. Os guichês de recepção, onde a minha identidade é apurada e imediatamente perdida, naquele universo burocrático. A consistência das cadeiras de espaldar duro, onde pacientemente me ajeito, concentrada nos painéis com a inscrição eletrônica dos números e a categoria de chamada. O instantâneo ruído, a dizer que um número avançou. Tudo isto aconteceu, como já disse, na fase de arranque. Seguiram-se outras etapas, curtas, repentinas, imediatas. E na fase substancial desta história, começo a sentir-me em casa, pouco a pouco vou tateando os espaços, os modos de falar, a estética em curso.

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esta condição que agora é a minha, sinto-me como se mudasse de país, de identidade, já que o meu vocabulário se pretende ampliado, muito além da minha vontade. Passei a saber que existem palavras, algumas difíceis de decorar como leucócitos e plaquetas, linfócitos e eritrócitos, neutrófilos e eosinófilos, basófilos e monócitos, num elenco bem mais complexo do que os simples nomes de brancos ou vermelhos para designar os glóbulos que no sangue me mantêm viva. Tenho a sensação de um regresso aos bancos da escola, quando tudo o que se aprendia era excitante e novo. Ler, escrever, contar eram passos firmes para crescer, para me fazer ouvir, para conseguir perceber coisas que até então não podia alcançar. Nesta fase, parece-me o passado colado ao presente, quando as cenas de infância e adolescência pulam acima da idade adulta, talvez a significar que desde muito cedo os nossos códigos estão lá, inscritos na maneira de ser, personalidade adiante definida. A memória traz-me, de mão beijada, um desfile de gente e de coisas. Coisas como, à minha escala de criança, podem ser a medida exata e a consistência da carteira onde me sentava na classe, o pupitre da escola francesa quando todos os dias, em coro, dizíamos a tabuada, escandindo os sons, de dois a dez, como se os números fossem um canto de embalar. Sou de família de médicos, em pequena era às vezes levada pelo meu pai ao hospital, em dias de sábado 15


ou domingo passávamos pelas camas dos doentes na enfermaria, ele falava-lhes, apresentava-me, tinha sempre um tom de agrado, de carinho, de compaixão. Em nossa casa não se falava de doenças nem de doentes, a ética nunca permitiria personalizar casos concretos, e a saúde não era tema de conversa à mesa, na hora do almoço ou do jantar. Talvez por isso eu tenha sempre sido arredia à descrição pormenorizada de males do corpo. Não quero saber de investigação na internet, não procuro livros de autoajuda, não faço perguntas, não percebo de fórmulas nem de remédios. Nem de medicamentos, como se designam, de maneira correta, aquelas substâncias a que chamo remédios. Uma ida a um dentista que insistia em mostrar-me numa tela a radiografia da raiz que ia tratar, eu a dizer que não queria ver, não percebia, não me interessava e ele a querer explicar e eu a levantar-me da cadeira, foi um minúsculo episódio pícaro, a relembrar-me a incompetência ou a ignorância que mantenho nestes casos. Penso que a medicina tem pertença destes saberes, investiga, trata, cura. Ou não. E esse é o mistério da esperança, que é um dom, uma graça.

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