PALMARES d E
ZUMBI leonardo chalub xilogravuras de LUIS MATUTO
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editor responsável
revisão
Arnaud Vin
Bruna Emanuele Fernandes
editores assistentes
capa
Carol Christo Eduardo Soares
Diogo Droschi (sobre xilogravura de Luis Matuto)
assistente editorial
Pedro Pinheiro
diagramação
Guilherme Fagundes
preparação
Sonia Junqueira
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Chalub, Leonardo Palmares de Zumbi / Leonardo Chalub ; xilogravuras de Luís Matuto. -- 1. ed. -- São Paulo : Nemo, 2019. ISBN 978-85-8286-503-3 1. Brasil - História - Ficção 2. Brasil - História - Palmares, 1630-1695 3. Ficção biográfica - Literatura juvenil 4. Negros - Brasil - Condições sociais 5. Quilombos - Brasil - História 6. Zumbi, m. 1695 - Literatura juvenil I. Matuto, Luís. II. Título. 19-27519
CDD-028.5
Índices para catálogo sistemático: 1. Zumbi e o Quilombo dos Palmares : Ficção biográfica : Literatura juvenil 028.5 Maria Paula C. Riyuzo - Bibliotecária - CRB-8/7639
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leonardo chalub
PALMARES d E
ZUMBI xilogravuras de LUIS MATUTO
nemo
Dedico este livro a Zumbi, que lutou e venceu, e a todos os capoeiristas, que até hoje utilizam a arte da capoeiragem para quebrar correntes de todos os tipos: sociais, econômicas, psicológicas. Correntes impostas por pessoas que criam sistemas corruptos e opressores. À minha família, e a Deus!
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Nota do autor
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Prefácio
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Capítulo 1
159
BRASIL, 1667 Capítulo 2 SENZALA Capítulo 3 CASA-GRANdE Capítulo 4 PALMARES Capítulo 5 NOBREZA Capítulo 6 CONTRAMESTRE Capítulo 7 CATARINA Capítulo 8 MOCAMBO dO ZUMBI Capítulo 9 dANdARA Capítulo 10 YANG Capítulo 11 GANGA Capítulo 12 1678 Capítulo 13 IUNA Capítulo 14 1694
173
Agradecimentos
27 41 53 65 77 91 103 109 123 133 145 151
Nota do autor
À
medida que escrevia este livro fui ficando assustado, pois, para contar esta história, muitas vezes precisei dizer que pessoas foram negociadas: compradas, vendidas ou trocadas. Isso me fez refletir profundamente sobre a podridão que há em alguns homens, que pensam que podem determinar o preço de uma vida. Mas... não é isso que nossos governantes continuam a fazer todos os dias, de uma forma ou de outra? Cada jogador tem sua mandinga, cada contador conta seu causo, para cada fato, muitas versões... Esta é uma delas.
Leonardo Chalub, 10 de julho de 2018.
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Prefácio
“N
ão se transporta canhões na mata fechada”, pensava o soldado enquanto arrastava-se, exausto, seguindo seus companheiros. O rosto suado e sujo atraía os mosquitos, que não lhe davam paz. Todos já haviam desistido de ser silenciosos, e os facões cantavam nas folhagens. Na primeira hora após o sol se pôr, muitos ficaram como cegos, esbarrando nos troncos das árvores. Nenhum deles era acostumado com os efeitos do lusco-fusco, aquele momento entre o dia e a noite, com seus vultos misteriosos aterrorizantes. O chão escorregadio, molhado pelo fino orvalho, os pés moídos pela caminhada... e a fome. Chegava a hora do combate, e os soldados sabiam que não podiam dormir ou vacilar. Eles sabiam que enfrentariam o inimigo número um da Coroa, um herói para o povo e, para muitos, um espírito imortal.
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Capítulo 1
BRA SIL, 1667 U
m chicote era arrastado pelo chão, deixando as marcas das dobras de seu couro na terra. As esporas das botas do feitor estalavam com seus passos. Era um sábado nublado, e um homem negro, escravizado, estava amarrado a um tronco, com as costas descobertas. Outros escravos observavam um homem que, com o chicote nas mãos, caminhava lentamente. Os pássaros cantavam uma melodia triste, prevendo o desfecho fúnebre do momento. – Pela fuga do engenho, este escravo está condenado a quarenta chibatadas; por desacato e resistência, a mais trinta, segundo a vontade e determinação do seu senhor – disse o feitor, para que todos o ouvissem. Ele jogou o chicote para trás e olhou fixamente para as costas marcadas do escravo, que respirava lentamente. Um menino correu em direção ao feitor, gritando. Antes que ele pudesse se aproximar, o homem puxou o chicote, atingindo com sua ponta de couro o rosto do garoto, que caiu desmaiado. 13
– Francisco! – um grito veio de dentro da igreja. O padre correu em direção à criança e pegou-a no colo. O menino tremia, ferido, começando a convulsionar. Estava com os olhos meio abertos e os dentes cerrados, babando. O feitor acompanhou com os olhos o padre carregar a criança. O suor escorria pela sua testa e entrava nos olhos. Ele estalou o chicote no chão. O padre levou a criança para dentro, e as portas da igreja foram fechadas. A chuva começou devagar. O chicote estalou nas costas do homem amarrado ao tronco. Alguns dos que observavam, principalmente as mulheres, fechavam os olhos a cada chibatada. O escravo gemia, mas não gritava. Antes da metade das chibatadas ele já estava desmaiado, e pouco antes de acabarem estava morto. O feitor então enrolou lentamente o chicote ensanguentado. As gotas da chuva pingavam da aba de seu chapéu, e o sangue, de suas mãos. Oito homens chegaram a cavalo e pararam em frente à porta de um bar, que dava para a praça onde o negro havia acabado de ser morto. As patas dos cavalos estavam enlameadas, mas, pelo barulho das pisadas, o feitor soube que as ferraduras eram novas. Os homens desceram e entraram no bar, em silêncio. A chuva começou a apertar. Ninguém socorreu o escravo nem o tirou do tronco. Os homens que entraram no bar foram bem recebidos. Nenhum deles era brincalhão ou falava alto. Todos calculavam bem seus movimentos, com medo de serem repreendidos pelo líder do bando, um homem ainda jovem, mas que já carregava consigo um aspecto tenebroso. Velho, como o chamavam, sentou-se em uma cadeira alta, e dois de seus companheiros se juntaram a ele. Um deles ficou 14
de costas para o balcão do bar, com um arcabuz nas mãos. Todos estavam armados. Velho não estava preocupado: seus homens eram mercenários treinados e fiéis. Dentro da igreja, uma mulher tentava conter Francisco, enquanto o padre limpava o sangue que escorria desde seu supercílio até a orelha. Quando o menino deu o primeiro grito, o padre se acalmou, pois soube que ele havia recobrado as forças e a consciência. Os gritos duraram uns poucos minutos, até que a criança se tranquilizasse. Após cobrir a ferida com um curativo, Alika, uma exescrava – ou, como o padre preferia chamá-la, uma auxiliar da paróquia – ajudou Francisco a se sentar na cama. Ele fez força para abrir os olhos e pôde ver, através da janela embaçada e da tempestade que havia se formado, o corpo do escravo morto ainda preso ao tronco. A noite foi penosa. Francisco teve febre e voltou a convulsionar. Na manhã seguinte, Velho e seus companheiros partiram. A chuva havia dado uma trégua, e algumas carroças trafegavam pelas ruas. Uma mulher observava, amedrontada, os cavalos da tropa de Velho saírem da cidade. Todos sabiam que não era adequado encará-los nos olhos ou obstruir sua passagem. Apesar de nunca ofenderem publicamente os cidadãos dos lugarejos por onde passavam, todos já tinham ouvido sobre sequestros e estupros ligados aos mercenários de Velho, principalmente em suas expedições de caça a indígenas no interior do país. Francisco abriu uma pequena porta da igreja e passou para o lado de fora. Poucas lojas do comércio estavam abertas àquela hora. Ele esgueirou-se entre duas carroças, que naquele momento se cruzavam em uma das poucas esquinas da cidade e foi repreendido por um dos homens, 15
que guiava uma das diligências. Quando as carroças passaram, o menino avistou o corpo do negro morto, ainda no centro da praça. Caminhou em direção ao homem e observou de perto suas costas cortadas pelo chicote. As feridas eram tão profundas e fétidas que Francisco não conseguiu olhar por muito tempo. A chuva recomeçou, fina, e o menino correu para dentro da igreja, protegendo com as pequenas mãos o curativo em seu rosto. À noite, durante a missa, Francisco auxiliava o padre, buscando objetos, limpando o que tivesse que ser limpo, mas nunca deixando que um dos fiéis o visse. Aquelas celebrações não eram para negros, mesmo os tidos como não escravos ou em fase de catequização. Francisco era um coroinha negro. Durante a semana, era alfabetizado e catequizado pelo padre em uma turma separada dos meninos brancos. A turma frequentada por ele era somente para negros e índios que haviam tido a sorte – ou o azar – de serem entregues à Igreja. Quando terminou de enxugar algumas taças, Francisco foi para detrás da cortina, subiu em uma cadeira e ficou escondido, observando os fiéis. No fundo da igreja, na última fila de bancos, avistou o feitor sozinho, com o chapéu na mão, olhando para baixo e orando. O menino observou-o por alguns instantes. Sua boca secou e seu coração disparou. Desceu da cadeira e rastejou sobre o assoalho. Deu a volta por fora da igreja e correu sorrateiramente até uma janela lateral. Pulou rapidamente para dentro, escondendo-se atrás de uma pia de água benta. Esgueirou-se até ficar bem atrás do feitor. As mãos do menino suavam. O feitor usava uma bota suja e velha, além de uma calça desgastada e uma camisa de algodão para fora da calça, certamente a melhor 16
que possuía. O cheiro de rum exalava do homem que, de olhos fechados, não conseguia ficar imóvel, balançando-se levemente de um lado para o outro. Francisco pensava no que fazer para vingar-se do feitor que havia matado o escravo a chibatadas, mas não conseguia pensar em nada que estivesse ao seu alcance e fosse grave o suficiente para equivaler ao crime. As portas da igreja foram abertas e Francisco assustouse, esgueirando-se para trás da pia de água benta. Um casal começou a caminhar em sua direção e o menino teve que improvisar um salto pela janela. Seu impulso não foi suficiente e ele precisou apoiar os pés na pia, que caiu lentamente antes de se espatifar no chão. O barulho da louça quebrando foi tão alto que todos olharam para trás. A água escorreu em direção aos pés do feitor. Todos olharam para ele com uma expressão de medo. O homem não teve reação alguma. Alguns fiéis fizeram o sinal da cruz ao verem seus pés encharcados de água benta. Não acreditavam que aquilo pudesse ser um bom sinal. Quando saiu da igreja, o feitor viu o corpo do homem morto ainda no tronco da praça, como o havia deixado. Fez o sinal da cruz, colocou o chapéu na cabeça e caminhou em direção ao local onde havia amarrado seu cavalo. De repente parou, atônito. O animal não estava onde deveria estar. Ouviu um barulho e o avistou galopando para longe. O feitor correu, desesperado. Tentou achar quem havia espantado o animal, mas não viu ninguém. Voltou a pé para casa e terminou a garrafa de rum que havia começado a beber antes da missa. Francisco convivia com outras crianças de sua faixa etária, que tinham entre 10 e 15 anos. Havia completado 12 anos há alguns meses, segundo a data de nascimento 17
estipulada pelo padre e registrada no dia de seu batismo. Nunca conheceu seus pais nem perguntou sobre eles a ninguém. Sabia que havia sido capturado ainda bem novo, mas não tinha muitas lembranças sobre isso. Alika o havia criado com as outras crianças que viviam na casa paroquial. Ela tinha certa gratidão em relação ao padre, que a livrou de passar a vida sendo estuprada pelo homem a quem havia sido vendida. O padre chantageou o homem e o convenceu dizendo que doar a escrava à igreja poderia aliviá-lo de alguns de seus pecados. Além de aprender a ler e escrever em português e em latim, Francisco aprendia algumas palavras dos idiomas indígenas que as crianças com quem convivia falavam. Um de seus amigos mais próximos, um pequeno indígena entregue à igreja pelos homens de Velho e cujo nome de batismo era Manuel, tinha grande destreza na fabricação de objetos usando palha, cocos, madeira, além de um vasto conhecimento sobre plantas medicinais, preparação de peixes e caça. Ele tinha também uma atração desesperada por Alika, o que fazia Francisco zombar do pobre coitado. Nas poucas horas vagas, as crianças podiam brincar atrás da igreja. Naqueles dias, Francisco passou a sentar-se em um dos galhos de um pé de goiaba, olhando por cima do muro da paróquia para observar o escravo morto, que continuava na praça. O cheiro de decomposição do corpo já incomodava os habitantes do lugarejo, mas ninguém ousaria desobedecer às ordens do senhor a quem o escravo pertencia. Era o homem mais poderoso da região, e todos sabiam que o morto permaneceria exposto, como exemplo para os demais, por bastante tempo. Do alto da goiabeira, Francisco enxergava quase toda a cidade. Estudava as vielas, os becos e os locais 18
onde poderia esconder-se, caso precisasse, quando fugisse. Não passava um dia sem pensar em uma maneira de escapar. Dessa vez, faria sua primeira saída de reconhecimento. Planejava traçar uma rota de fuga e para isso estava decidido a estudar o terreno. Sabia que os feitores conheciam bastante a região e que seus cães eram bem eficientes ao rastrearem escravos fugidos. Não estava disposto a ser capturado e sofrer as duras consequências de sua fuga. Quando anoiteceu, as crianças foram mandadas para o quarto, e Francisco foi o primeiro a se deitar. Antes de a porta ser trancada por Alika, ele engatinhou e se escondeu no banheiro. Quando as chamas das lamparinas foram apagadas, esgueirou-se pelo corredor, pulando uma das janelas que davam para a rua. Nunca havia estado na rua durante a noite. A lua cheia clareava demais a cidade, o que dificultava esconder-se. Alguns cães latiram para ele, obrigando-o a correr. Quando parou, ofegante, viu o cavalo do feitor amarrado a uma pilastra de madeira. Chegou perto silenciosamente e, por um buraco em uma janela, viu o feitor dormindo profundamente. O menino andou alguns metros e avistou umas galinhas empoleiradas na varanda da casa do homem. Andou calmamente em direção a elas, pegando uma carinhosamente no colo, evitando que ela fizesse barulho. Andou até à porta da casa do feitor e quebrou o pescoço da galinha, torcendo-o até que o sangue saísse. Derramou o sangue na porta dele e seguiu até a praça, onde terminou de derramar o sangue da galinha ao redor do corpo do escravo morto, desamarrando-o do tronco. Francisco voltou para a igreja e dormiu no banheiro. Quando amanheceu e as outras crianças começaram a sair 19
do quarto, misturou-se à bagunça, e sua ausência durante a noite não foi percebida. Quando a cidade começou a se movimentar, as pessoas paravam para observar o escravo morto com sangue fresco ao redor, o corpo caído e as mãos desamarradas. Todos olhavam abismados. O feitor já havia estranhado o sangue na porta de sua casa, mas quando o viu também ao redor do escravo morto, ficou pálido. “Ninguém da região teria audácia suficiente para desamarrar o homem do tronco”, pensou. Alguns começaram a dizer que o espírito do morto havia voltado para assombrar os habitantes do lugar, em especial, o feitor. As pessoas ligaram facilmente o episódio da pia de água benta quebrada ao do sangue em volta do corpo e começaram a olhar com estranhamento para o feitor, evitando-o. Alguns escravos mais ousados encorajaram a dispersão do boato e pediram autorizações aos seus senhores para realizarem celebrações, de acordo com suas religiões, a fim de acalmar o espírito do morto. Mas tudo não passava de uma desculpa para conseguirem algumas horas sem grilhões, com fartura de comida e música, para comemorar o medo dos feitores e reforçar neles a crença no perigo sobrenatural que vinha com a morte de um negro. Apesar de terem realmente conseguido assustar seus captores com isso, eles também conseguiram enfurecer alguns líderes de senzalas que levavam suas religiões a sério. O boato chegou aos ouvidos do padre, que se viu obrigado a solicitar ao ex-senhor do escravo morto autorização para a retirada do corpo da praça. Ao ouvir os relatos do padre sobre os acontecimentos, a autorização foi imediatamente concedida. Em seguida, a praça foi lavada e salgada. As pessoas começaram a evitar passar 20
pelo lugar, e os boatos aumentavam. Tudo virava motivo de discussão, e algumas pessoas se mudaram da cidade, com medo da assombração. Nos dias seguintes, uma série de acontecimentos reforçou a crença de que a região era assombrada, todos eles causados por pessoas que queriam passar pequenos sustos em amigos, ou por escravos que queriam realmente apavorar os senhores de engenho. Ouviam-se uivos e murmúrios atrás de paredes, coisas quebravam misteriosamente, pedras caíam nos telhados das casas e correntes eram arrastadas. Francisco estava assustado com toda a repercussão do que tinha feito, mas sabia que o medo das pessoas de saírem de suas casas de madrugada, evitando um possível encontro com o tão falado espírito do escravo, poderia ser de grande ajuda para sua fuga. Sua maior preocupação não era sair da cidade, mas o que aconteceria depois que a fuga fosse descoberta. Sabia que seria perseguido e castigado, se o pegassem. No dia posterior à retirada do corpo da praça, o feitor encontrou, na porta de sua casa, uma cabeça de boi ensanguentada, e, nos dias seguintes, outras partes de animais mortos. Àquela altura, já sabia que não se tratava de um espírito, mas de uma perseguição dos próprios escravos, que queriam enlouquecê-lo. Isso o deixou mais violento no dia a dia da fazenda. Toda vez que um escravo atrasava o trabalho, ele o chicoteava com mais força do que o usual e praguejava contra o que ele chamava de “feitiçarias usadas pelos negros”. As pessoas do lugarejo andavam desconfiadas. Quando Francisco propôs a fuga a Manuel, o menino ficou apavorado, mas sequer cogitou trair o amigo contando 21
suas intenções ao padre. Apesar de não ter certeza se teria coragem suficiente para fugir, ajudou Francisco em tudo o que precisava. Na mata atrás da igreja, eles capturaram uma rã bastante venenosa. Com a habilidade de Manuel, extraíram todo o veneno do animal, sem se preocuparem com a sobrevivência do bicho. Decidiram que o melhor momento para uma fuga seria entre o décimo e o décimo segundo dia após o primeiro dia de lua cheia. A lua não estaria muito clara, mas também não ficariam perdidos na escuridão, o que lhes permitiria correr durante a noite. Planejaram levar pouquíssimas coisas, pois entendiam que deveriam priorizar a fuga, não a fome, e que somente quando estivessem seguros, caçariam. No décimo dia após a primeira lua cheia, Manuel ainda não estava tão determinado a fugir quanto Francisco, mas havia se comprometido a roubar uma faca da cozinha, o último item necessário para a fuga. Após as outras crianças dormirem, Francisco abriu a porta do quarto com uma chave que haviam roubado de Alika. Manuel se esgueirou pelo corredor e, quando passava em frente ao quarto de Alika, viu pela fresta da porta a luz do candeeiro acesa e ouviu um barulho vindo lá de dentro. Olhou pela fresta e viu o padre agarrando e beijando a escrava, que parecia gostar do que estava acontecendo. O espanto fez Manuel congelar, mas ver aquilo fez com que o resto das dúvidas sobre a fuga se dissipasse. Seguiu rapidamente e dirigiu-se à cozinha, onde pegou a faca mais afiada que encontrou. Quando Francisco retornou e abriu novamente a porta do quarto das crianças, Manuel o puxou para fora e disse que aquela seria a noite na qual fugiriam. Eles 22
pegaram as poucas coisas que levariam consigo e pularam a janela da igreja. Naquele momento, o batimento cardíaco e a respiração dos meninos estavam como se eles tivessem corrido dez quilômetros sem parar. Eles se arrastaram próximos ao muro de trás da igreja, e Francisco abriu cuidadosamente o vidro com o veneno que haviam preparado. Caminharam lentamente até quase chegarem ao portão da casa de um dos senhores mais nobres do lugarejo. Um cachorro aproximou-se do portão, farejando, e começou a rosnar. Os garotos despejaram algumas gotas do veneno em um pedaço de pão e jogaram para o animal. O cachorro comeu o pão, e os meninos saíram pelo outro lado. Continuaram a fazer isso nas casas que tinham os cães mais conhecidos por caçarem escravos fugidos na mata. Quando passaram pela casa do feitor, uma das últimas antes da grande mata que cercava o lugarejo, Francisco olhou pela fresta da janela e viu o homem enforcado dentro da própria casa. Há alguns dias ele já demonstrava sinais de loucura, em decorrência das perseguições, das zombarias e da rejeição que vinha sofrendo por parte da população local. O menino desamarrou o cavalo do feitor, que não se afastou muito. Francisco tentou espantar o animal, mas Manuel o agarrou e o mandou ficar quieto. Eles continuaram a pé, pois assim seria mais fácil encobrirem seus rastros. Quando adentraram a mata fechada, todas as suas dúvidas sumiram, e os meninos apertaram o passo. Começaram a correr quando se distanciaram o suficiente para que suas pisadas não fossem mais ouvidas por ninguém. Seguiram firmes até as margens de um riacho, que atravessaram a nado. Correram pela noite sem medo dos sons 23
dos animais na mata, certos de que o que buscavam era o prêmio mais valioso: a liberdade. Quando o dia amanheceu, demorou até que alguém desse falta dos dois. Alika e as crianças que viviam na casa paroquial já haviam percebido sua ausência, mas não fizeram questão de alertar imediatamente o padre, que só se deu conta da fuga na hora do almoço, quando Manuel sempre o servia à mesa. Muitos se reuniram na praça, mostrando-se disponíveis para servir à Igreja e rastrear os meninos, mas a verdade é que a notícia de que o feitor havia se enforcado e o mal-estar dos cães de caça devido ao veneno de rã deram um golpe duro na coragem dos demais feitores da região, que temiam sofrer o mesmo tipo de perseguição sobrenatural que havia levado seu colega ao suicídio. Alguns foram atrás dos garotos, mas, logo no início da jornada, a má vontade dos homens era tamanha que os impediu de atravessar o riacho a nado para continuar a seguir os rastros. Naquele momento, os meninos já haviam descansado e tinham tido a sorte de achar frutas pelo caminho, o que lhes daria mais algumas boas horas de viagem sem precisar parar para procurar comida. Manuel parou atrás de uma árvore, e Francisco o imitou. O menino indígena fez sinal para seguirem em silêncio. Caminharam lentamente, até que Francisco ouviu vozes de homens e conseguiu ver algumas barracas e redes armadas nas árvores. Os meninos continuaram a dar a volta no acampamento, vagarosamente. Quando já se distanciavam, um bando de pássaros levantou voo, chamando a atenção dos homens que estavam por perto. Os dois começaram a correr desesperadamente, mas sabiam que não conseguiriam se desvencilhar dos homens, que passaram a persegui-los a cavalo. 24
Francisco passou de um lado para o outro, entre os cavalos de dois homens que tentavam agarrá-lo. Manuel tomou um empurrão e caiu. Francisco foi agarrado por um dos homens, que rolou com ele na terra. O homem caiu por cima dele e o prendeu, sufocando-o com seu peso. De longe, o menino indígena resistia: puxou a faca que levava consigo e tentou acertar um dos homens, que revidou com um tiro. Manuel caiu morto. Em prantos, Francisco gritava de desespero. Ele foi amarrado e desmaiou após levar um soco no nariz.
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