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Os sabiás da crônica

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Os sabiás da crônica Rubem Braga

Vinicius de Moraes

Fernando Sabino

Paulo Mendes Campos

Stanislaw Ponte Preta

José Carlos Oliveira

ANTOLOGIA

Augusto Massi ORGANIZAÇÃO E P REFÁCIO


O fotógrafo Paulo Garcez | Nasceu em 1931, em frente ao estádio do America

Football Club, no bairro da Tijuca, Rio de Janeiro. A paixão pela fotografia começou cedo. Ao longo de sua trajetória profissional, adquiriu uma Rolleiflex, passou à Leica e nunca mais largou a Nikon. Foi assistente de montagem do fotógrafo e documentarista francês Jean Manzon. Em janeiro de 1956, percorreu diversos países na comitiva da primeira viagem internacional de Juscelino Kubitschek. Na volta, declinou o convite para ser fotógrafo oficial do presidente. Ingressou no fotojornalismo pelo Diário Carioca, passou ao Jornal do Brasil e à revista Vogue. Colaborou também com a Agência Image, fundada em 1962 por Flávio Damm e José Medeiros. Entre 1969 e 1971, assumiu a editoria de fotografia do Pasquim. Na mesma época, fez algumas capas de disco, com destaque para Elis – Como & Porque [1969]. Em 2002, lançou seu único livro de fotografia: Arte do encontro [RJ: Bem-Te-Vi], com textos de Millôr Fernandes, Sérgio Augusto e saborosas legendas de Ruy Castro. Dentre as 140 fotos estão imagens raras e irretocáveis de Leila Diniz, Nelson Rodrigues, Rubem Fonseca, Hélio Oiticica, Madame Satã, Grande Otelo, Glauber Rocha, Paulinho da Viola e Novos Baianos.


No verão de 1967, os sabiás da crônica se reuniram na cobertura de Rubem Braga – rua Barão da Torre, Ipanema, RJ – para realizar um ensaio fotográfico destinado à divulgação dos primeiros títulos da Editora Sabiá. Na varanda do apartamento, os craques da crônica posam para a posteridade. Imitam a clássica foto da seleção de todos os tempos. De pé, da esquerda para direita: Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Fernando Sabino, José Carlos Oliveira. Sentados: Vinicius de Moraes e Sérgio Porto. Contrastando com o time dos engravatados – linha de frente da nossa crônica – irrompe, deitado e em trajes esportivos, uma promessa da música popular brasileira, o jovem Chico Buarque.

Capitaneados pelo compositor, os sabiás pairam entre a vista panorâmica da praia de Ipanema (ao fundo) e a franja do jardim criado pelo paisagista Burle Marx.

Finda a sessão de fotos, a paisagem natural da varanda é substituída pela pinacoteca da sala. A roda de amigos abre o leque da descontração: uns descartam o paletó, outros tiram os sapatos, alguns levantam copos, outros sacam um cigarro. Os volteios barrocos da cadeira de balanço e as formas bojudas do vaso de barro inspiram a contradança dos pés e das mãos de Chico Buarque e Vinicius de Moraes.

Assim como a vasta parede da sala reúne uma bela coleção de quadros, o apartamento de Rubem Braga sempre esteve aberto para reunir seus amigos.

Dança das cadeiras. Alguns sabiás ameaçam levantar voo. Só Fernando Sabino continua piando sua longa entrevista pelo telefone.


27 Prefácio | Retrato de grupo

Rubem Braga

65 Ao respeitável público 67 Chamava-se Amarelo 70 Reflexões em torno de Bidu 73 Almoço mineiro 75 A equipe 76 Noel Rosa, poeta e cronista 80 Fim de semana na fazenda 83 Um braço de mulher 87 Tuim criado no dedo 90 Viúva na praia 92 Marinheiro na rua 94 Rita 95 A mulher que ia navegar 97 O mistério da poesia 99 Bilhete para Los Angeles

Vinicius de Moraes 103 O exercício da crônica 105 Menino de ilha 107 Profeta urbano 109 Conto rápido 112 Batizado na Penha 114 O conde e o passarinho 116 A bela ninfa do bosque sagrado 119 Abstenção de cinema 121 Uh-uhuhuhuh-uhuhuhuh! 122 Cidadão Kane, o filme-revolução 126 Grandeza de Otelo 128 Feijoada à minha moda 131 Ciro Monteiro 137 Meu Caymmi 141 Antônio Maria: uma velha crônica


Fernando Sabino

151 153 157 160 162 172 175 178 181 184 188 192 194 196 198

O estranho ofício de escrever A última flor do Lácio O balé do leiteiro Na escuridão miserável Um gerador de poesia A lua quadrada de Londres Cada um no seu poleiro Dois entendidos A quem tiver carro O habitante e sua sombra Aqui jazz o músico A vinda do filho Psicopata ao volante A última crônica Domingo azul do bar

Paulo Mendes Campos

207 Minhas janelas 209 Belo Horizonte 211 Sombra 213 O cego de Ipanema 216 O canarinho 218 Sobrevoando Ipanema 221 Mané Garrincha 226 Um conto em vinte e seis anos 229 Copacabana-Ipanemaleblon 246 Encenação da morte 250 Réquiem para os bares mortos 252 Bom dia, ressaca 254 O bom humor de Lamartine 257 Os mais belos versos da MPB 265 Meu amigo Sérgio Porto


Sérgio Porto/Stanislaw Ponte Preta

273 Prefácio de Sérgio Porto 275 Casa demolida 277 O ídolo 279 Gol de padre 282 Com a ajuda de Deus 283 Levantadores de copo 285 O inferninho e o Gervásio 288 O guarda que falava português 289 Zulmira e o poeta 292 Por vários motivos principais 294 O operário e o leão 296 O boateiro 297 Dolores 300 Assombração musical 302 Os Vinicius de Moraes

José Carlos Oliveira

307 Solo para flauta 309 Chegada ao Rio 310 O rosto no espelho 312 Steiner 315 Evocação dos bares 318 Brasil, Pelé 320 A garota de Ipanema 322 O besouro 324 Vamos entrar na lista, querida? 326 Peripécias de uma bata — 1 329 Uma noite com os hippies 331 Vinicius e o português 333 Edu, coração de ouro 335 Meu inimigo artificial 337 A volta de Carlinhos Oliveira

341 Bibliografia


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Retrato de grupo Prefácio • Augusto Massi


Augusto Massi é professor de Literatura Brasileira na USP. Como

poeta publicou Negativo [SP: Companhia das Letras, 1991], Vida errada [RJ: 7 Letras, 2001], Gabinete de curiosidades [SP: Coleção Luna Parque, 2016] e Borra [BH: Tipografia do Zé, 2020]. Como crítico organizou e prefaciou Retratos parisienses [RJ: José Olympio, 2013], de Rubem Braga, e Diário do Hospício e O cemitério dos vivos, de Lima Barreto [SP: Companhia das Letras, 2017]. 28


A

maior parte dos jornais, revistas e editoras que publicaram essas crônicas desapareceram. Os bares, boates e restaurantes nelas festejados fecharam suas portas. Os próprios cronistas já bateram as botas. Mas qualquer pessoa que passar os olhos por essas páginas perceberá que os textos resistiram à passagem do tempo. Os sabiás da crônica surgiu de uma bela ideia da editora Maria Amélia Mello, que, inspirada em uma das fotos tiradas por Paulo Garcez – na cobertura de Rubem Braga, em Ipanema, no verão de 1967 –, imaginou reunir numa antologia os mesmos escritores que figuram no ensaio fotográfico, encomendado para divulgar os primeiros títulos da então recém-fundada Editora Sabiá. Os cronistas, sempre livres, desataviados e coloquiais na linguagem, comparecem todos de terno e gravata, sapatos nos trinques, um raríssimo cigarro e nenhum copo nas mãos: Vinicius de Moraes, Paulo Mendes Campos, Sérgio Porto, José Carlos Oliveira, Fernando Sabino e Rubem Braga. Rompendo com o profissionalismo do retrato, em algumas fotos, um sabiá gaiato flauteia em trajes esportivos. O jovem compositor Chico Buarque de Hollanda aparece meio de banda, já ensaiando cair na Roda viva, peça teatral que viria a ser publicada pela editora.1 Fiel ao projeto original, organizei a antologia de modo que correspondesse, no plano textual, a um retrato de grupo. Talvez, por causa disso, o conjunto tenha adquirido a configuração de um panorama no qual a totalidade dos textos revela temas e tramas que nos remetem às 1

Sob direção de José Celso Martinez Corrêa, cenografia e figurino de Flávio Império, a peça de Chico Buarque estreou em 17 de janeiro de 1968, no Teatro Princesa Isabel, Rio de Janeiro. No início de julho, abre temporada na Sala Galpão, Teatro Ruth Escobar, São Paulo. Em 18 de julho, o Comando de Caça aos Comunistas destrói parte dos cenários e agride atores e atrizes. Em setembro, Roda viva ainda segue para o Teatro Leopoldina, Porto Alegre, onde os atores foram espancados novamente e alguns sequestrados. A peça foi censurada e saiu de cartaz. Em dezembro de 2018, cinquenta anos depois, Zé Celso remonta Roda vida no Teatro Oficina, em São Paulo.

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características fundamentais de um romance de formação. As noventa crônicas que compõem o volume cobrem um arco histórico que vai de 1930 até 2004, quando falece Fernando Sabino. Fazendo uso de procedimentos de montagem, tentei reconstruir um enredo histórico cuja força reside na intensa troca de experiências coletivas e no longo aprendizado que os escritores extraem das relações mais heterogêneas: trabalho, classe, raça, amizade e vida amorosa. Em geral, biografias e ensaios dedicados às trajetórias individuais tendem a relativizar avanços estéticos engendrados por uma sociabilidade de grupo, atribuindo invenções e contribuições literárias à originalidade de um único autor. Em sentido oposto, essa antologia coloca maior ênfase nas afinidades eletivas, nas paixões compartilhadas, na boemia das altas rodas etílicas, no rodízio pelas redações de jornais e revistas. Tudo sem roubar ao leitor o prazer de bebericar e saborear separadamente cada um dos textos. Os sabiás da crônica combina duas perspectivas. A primeira, histórica e diacrônica, propõe alguns roteiros de leitura cronológicos: o volume abre com o velho Braga e fecha com o cronista da juventude Carlinhos Oliveira; as quinze crônicas reservadas a cada escritor percorrem das obras de estreia até as coletâneas póstumas, da cidade natal à obtenção da cidadania carioca, etc. Já a segunda, literária e sincrônica, parte sempre de uma reflexão sobre o ofício, projetando um amplo prisma temático capaz de enfeixar os sabiás em torno de núcleos comuns: a etnografia sentimental dos bairros e dos bares, os diálogos com a música e o cinema, os perfis de artistas e amigos, o versiprosa, as histórias de passarinho, o futebol, os tipos urbanos, entre outros. A ênfase na montagem dos textos é fundamental para a compreensão do retrato de grupo. Embora toda antologia tenha uma pitada de gosto pessoal, o propósito desta foi armar um quadro histórico e cultural que incorporasse os movimentos construtivos da amizade. Diferentes personalidades e visões de mundo vêm à tona e, apesar das discordâncias estéticas, sociais e políticas, não impedem o enriquecimento da reflexão coletiva. Se, de uma perspectiva crítica atual, a amizade parece a muitos uma espécie de idealização, é interessante observar como o senso de humor desses cronistas permitia que transitassem com desenvoltura da conversa lúcida para a réplica lúdica. Havia muita invenção, quebra de convenções, abertura para novas formas de vida. 30


A crônica se beneficia deste intercâmbio entre os faits divers do jornal e a experiência pessoal. Ela busca novos territórios, absorve a moeda corrente da gíria, explora novas articulações. Penso que essa antologia poderá atingir parte do seu objetivo se, além de reservar surpresas ao historiador do jornalismo, ao crítico musical, aos urbanistas, aos ecologistas e amantes da gastronomia, trouxer de volta certa respiração literária. Os escritores nem sempre escapam aos imperativos das modas e às ideologias da época. No entanto, por força do contraste, podemos identificar as inequívocas marcas da originalidade de cada um, seja pelo grau de contestação, seja por sua adesão às diferenças e ao heterogêneo, manifesta na singularidade de suas crônicas. Ao recusar os critérios tradicionais de seleção, Os sabiás da crônica procura dar voz aos próprios cronistas. Assim, ao final de cada conjunto, a décima quinta crônica lembra a famosa saideira: ao partir, o cronista brinda o próximo companheiro de ofício com o último chorinho. Se por trás dessa fotografia está cifrada a história da Editora Sabiá, esta não existiria sem o balão de ensaio da Editora do Autor, que, por sua vez, remonta à misteriosa Editora Alvorada, com o catálogo de um só título, Flauta de papel (1957), de Manuel Bandeira... Se quisermos compreender todos os caminhos percorridos até chegarmos a esse retrato de grupo, é preciso retroceder no tempo, convocar novos personagens. Para que este reencontro marcado em foto, em crônica, em livro seja completo, peço ao leitor certa licença (e paciência) poética. A capital da crônica A história da crônica começou a ser escrita recentemente.2 Existe certo consenso crítico em torno de três ciclos. O primeiro, de 1852 2

Ver: “Fragmentos sobre a crônica”, de Davi Arrigucci Jr., in: Enigma e comentário [SP: Companhia das Letras, 1987]; A crônica: o gênero, sua fixação e suas transformações no Brasil. Organização: Setor de Filologia da FCRB [Campinas; RJ: Editora da Unicamp; Fundação Casa de Rui Barbosa, 1992]; Cronistas do Rio, [org.] Beatriz Resende [RJ: José Olympio/CCBB, 1995]; História em cousas miúdas: capítulos de história social da crônica no Brasil. Orgs. Sidney Chalhoub, Margarida de Souza Neves e Leonardo Affonso de Miranda Pereira [Campinas: Editora da Unicamp, 2005]; Conversa de burros, banhos de mar e outras crônicas exemplares, antologia organizada e apresentada por John Gledson [Lisboa: Cotovia, 2006] e A crônica brasileira no século XIX: uma breve história, de Marcus Vinicius Nogueira Soares [SP: É Realizações, 2014].

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a 1897, corresponde aos fundadores do gênero: Francisco Otaviano, José de Alencar e Machado de Assis. O segundo, de 1897 a 1922, aos cronistas da Belle Époque: Olavo Bilac, João do Rio, Lima Barreto e Orestes Barbosa. O terceiro, de 1922 a 1945, pertence aos modernistas, reunindo um corpus rico e variado: Mário de Andrade, Oswald de Andrade, António de Alcântara Machado, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles. Neste último ciclo, há um esforço para ultrapassar as fronteiras e os temas cariocas. Munidos de uma linguagem de corte reflexivo e decantação ensaística, alguns cronistas enveredam pela história, revisitam nosso passado colonial, outros viajam por diferentes regiões e tratam de traduzir a contrastada realidade social e cultural do país. O comentário não faz restrição de nenhuma ordem aos ciclos anteriores, pelo contrário, só pretende acentuar a centralidade incontornável do Rio de Janeiro, durante o Império e a República. Tal centralidade é construída por elementos estruturais que, desde a metade do século XIX até 1920, espelham os interesses políticos, econômicos e sociais da classe dominante, concentrando na capital os principais jornais e revistas, tradição teatral e protagonismo cinematográfico, sistema de transporte coletivo e os primeiros automóveis, as grandes exposições, rede de hotelaria, restaurantes e bares, a festa do carnaval e a moda das conferências. Tudo converge para a formação e a ampliação de um público leitor. Os sabiás da crônica corresponde a um novo ciclo. Do fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, ao fechamento da Editora Sabiá, em 1972, assistimos ao entrelaçamento de três gerações: Rubem Braga e Vinicius de Moraes são de 1913; dez anos depois, Paulo Mendes Campos [1922], Fernando Sabino e Sérgio Porto [1923]; outros dez, José Carlos Oliveira [1934]. Vinicius e Sérgio Porto, cariocas da gema. Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos, mineiríssimos. Rubem Braga e Carlinhos Oliveira, capixabas. Mas, para a maioria dos leitores, todos foram adquirindo uma dupla cidadania literária, cada vez mais identificada com o modo de ser carioca. Esse grupo de escritores colaborou para que o Rio de Janeiro voltasse a ser a capital da crônica. Tais parâmetros historiográficos projetam uma linha de continuidade que perpassa as três gerações. Em meio às grandes transformações 32


que afetam todas as camadas sociais – passagem do universo rural para o mundo urbano, da oralidade do rádio para a visualidade da televisão, da cultura popular para a cultura de massas –, a crônica maturou uma linguagem cotidiana e, na esteira das principais conquistas modernistas, abreviou consideravelmente a distância entre a língua falada e a escrita, incorporando contribuições de distintos segmentos da sociedade e preservando registros da cultura popular no bojo das manifestações ditas eruditas. Um sabiá sozinho não faz verão. Eles foram chegando devagar. Ao longo dos anos 1930 e 1940, começaram a se reunir, com direito a idas e vindas, num ziguezaguear entre vocações literárias, incursões no jornalismo e carreiras diplomáticas. O primeiro a migrar foi Rubem Braga. Após terminar o ginásio no Colégio Salesiano, em Niterói, ingressa na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro. Desassossegado e metido em política, passa temporadas em São Paulo, Recife, Porto Alegre e Belo Horizonte, onde conclui seu curso, e retorna ao Rio. E, mesmo aí, andou ciscando por uma infinidade de bairros, de Vila Isabel ao Catete, até pousar em definitivo na sua cobertura, em Ipanema. A fama de arredio talvez tenha dificultado a percepção do quanto atuou como um dos principais elos entre os modernistas e a nova geração. Rubem Braga pavimenta o caminho para que a alma inconstante da crônica seja fixada em livro. Ela está no centro de suas preocupações. Ele a pensa de forma centrípeta: a poesia, a reportagem de guerra, os quase contos e a maré agitada da memória se banha sempre nas praias da crônica. Desde jovem costumava chamar a si mesmo de “velho Braga”. Possui reservas de experiência. Vinicius de Moraes desempenha uma função contrária e complementar. Partindo sempre da poesia, irradia, expande, leva o seu lirismo até o limite de outras formas estéticas. Em suas mãos, a crônica atravessa as fronteiras do conto, da música popular, da peça teatral e da crítica cinematográfica. A qualquer momento, o caldo saboroso de sua prosa dissolve uma receita de feijoada no caldeirão do poema.3 O extraordinário mergulha no cotidiano e o prosaico deságua no sagrado. 3

Ver “Feijoada à minha moda”, poema de Vinicius presente nesta antologia, publicado originalmente em Para viver um grande amor [RJ: Editora do Autor, 1962].

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Vinicius amadurece na companhia de amores e parceiros cada vez mais jovens. Desafia todas as convenções. O artista e o homem caminham rumo ao despojamento. Em 1942, Vinicius tem dois encontros decisivos: um com o cineasta Orson Welles, de quem será cicerone cultural e companheiro de farra e filmagens, no Rio de Janeiro. O outro com o escritor americano Waldo Frank, a quem leva para conhecer a favela da Praia do Pinto e a zona do Mangue e, na sequência, acompanhará numa viagem pelo Nordeste brasileiro que mudará radicalmente a visão política do poeta: “Saí um homem de direita, voltei um homem de esquerda”. Na esteira do pós-guerra, a França perderá espaço para a cultura em língua inglesa. Na condição de poeta e dublê de cronista, Vinicius representa uma abertura para o cinema, o jazz e o uísque. Entre 1946 e 1950, no seu primeiro posto diplomático, vice-cônsul em Los Angeles, ajudará a quebrar certa resistência à crescente influência norte-americana. Entre outras iniciativas, em 1949, lança dois números da revista Filme, em parceria com o cineasta Alex Viany. Penso que um quarto ciclo da crônica brasileira começa em torno de 1945. Sob essa data, podemos alinhar fatos históricos como o fim da Segunda Guerra Mundial (setembro) e, no plano interno, o fim do Estado Novo e a deposição de Getúlio Vargas (outubro). De uma perspectiva intelectual: I Congresso Brasileiro de Escritores (janeiro); a morte de Mário de Andrade (fevereiro); visita do poeta Pablo Neruda (junho); publicação de Com a FEB na Itália, de Rubem Braga. Os tempos eram de grande mobilização política. Visto deste ângulo, a cena literária poderia induzir a uma conclusão oposta. Nunca tantos escritores haviam optado por exercer funções ou seguir carreira no exterior: Clarice Lispector, Fernando Sabino, João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa, Vinicius de Moraes. No entanto, desafiando essa atmosfera aparentemente rarefeita e desencontrada, os diálogos adquirem densidade. Em abril de 1944, Vinicius envia uma “Mensagem a Rubem Braga”, através das páginas da Revista Acadêmica. Este ainda exerce as funções de correspondente de guerra, na Itália, quando decide viajar 900 quilômetros, de jipe, em pleno inverno, para encontrar Clarice, em Nápoles. Ao retornar ao Brasil, apresenta a escritora para Sabino, os 34


dois passam a se corresponder, ela em Berna (Suíça), acompanhando o marido diplomata, ele trabalhando no Escritório Comercial do Brasil e, depois, no consulado brasileiro em Nova York (EUA), ambos observam à distância a repercussão crítica de Sagarana [1946], de Guimarães Rosa. Em 1947, João Cabral assume seu primeiro posto diplomático, em Barcelona, onde passará a conciliar as atividades de poeta, editor e tipógrafo, imprimindo quatorze livros na sua prensa manual, sob o selo “O Livro Inconsútil”, entre eles, uma edição de cinquenta exemplares de “Pátria minha”, poema longo de Vinicius. A roda da amizade coloca em movimento livros e cartas. Parafraseando “Quadrilha” de Drummond: Rubem Braga escreve a Vinicius que escreve a João Cabral que escreve a Clarice que escreve a Sabino que escreve a Otto Lara Resende que escreve a Paulo Mendes Campos que nunca escreveu a Antônio Maria que ainda não entrou na história, etc. * Quando ainda residiam em Belo Horizonte, os jovens sabiás já gravitavam ao redor da mitologia pessoal de Rubem Braga e Vinicius de Moraes. Em 1943, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Otto Lara Resende travam o primeiro contato com Vinicius, à frente de uma delegação de intelectuais que, a convite do prefeito Juscelino Kubitschek, visitava a capital mineira. Finda a agenda do dia, um grupo se encaminhou para o Parque Municipal e, do nada, surgiu um violão e o poeta se pôs a cantar “Stormy Weather”4 sob uma lua deslumbrante. Resultado prático, em 1944, Fernando Sabino muda-se para o Rio de Janeiro. No ano seguinte, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos tomam o mesmo rumo. Li que Pablo Neruda estava no Rio, em visita aos amigos brasileiros, entre eles, Di Cavalcanti e Vinicius de Moraes. Isso foi em 1945, logo após a queda de Getúlio. A vinda de Neruda ao Rio não era só um ato poético – era também um ato político. Vim conhecer Neruda, sobre o qual já havia escrito vários artigos. Artigos estes que a poeta Gabriela

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Na versão de Fernando Sabino, “Menestrel do nosso tempo”, a canção era “Blue Moon”, in: Gente [RJ: Record, 1975].

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Mistral, que então residia como diplomata no Rio (cônsul-geral do Chile), enviava a Neruda. De forma que ele já conhecia meus artigos, o que significa dizer que já me conhecia de nome. Fiquei um mês no Rio, morando na casa de Vinicius, onde Neruda costumava aparecer. Aliás, foi na casa de Vinicius que Neruda leu para mim um trecho do Canto general, que eu traduziria mais tarde, um trecho lindo, aquele em que ele fala das alturas de Machu Picchu.5

No ano seguinte, Rubem Braga e Paulo Mendes Campos dividem um apartamento na Júlio de Castilhos, em Copacabana. Otto também divide apartamento com um amigo mineiro, na praça Serzedelo Corrêa. Fernando Sabino parte para Nova York, onde estreita relações com o mítico Jayme Ovalle e com Vinicius de Moraes, em Los Angeles. Crônica passada em revista O destino da crônica sempre esteve vinculado às transformações do jornalismo. No princípio, tinham endereço fixo nos jornais. Para a Gazeta de Notícias, Machado de Assis, Olavo Bilac e João do Rio eram cronistas da casa. Porém, com o advento da República, na virada para o século XX, assistimos à irrupção das revistas ilustradas, mensais e elitizadas, como Kosmos [1904-1909] e Ilustração Brasileira [19091915] ou semanais e populares, como Revista da Semana [1900-1959], O Malho [1902-1954], Fon-Fon [1907-1958], Careta [1908-1960] e Para Todos [1918-1932]. Graças à modernização da imprensa, os cronistas conquistaram um público mais amplo e passaram a circular por novos espaços. Se a periodicidade mensal introduzida pelas revistas permitiu ao cronista guardar certa distância dos fatos e da reportagem, por outro lado, até mesmo nas semanais, ele se vê obrigado a disputar a atenção dos leitores, página a página, competindo com uma visualidade moderna, capitaneada pela imagem fotográfica. A técnica da escrita abre-se para distintas temporalidades, do automóvel ao cinematógrafo. E o cronista passa a flertar com a literatura e a moda, flanar entre a crítica de costumes “Paulo Mendes Campos: um erudito sem erudição”, in: A milésima segunda noite da avenida paulista, de Joel Silveira [SP: Companhia das Letras, 2003].

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Rubem Braga


Ao respeitável público

C

hegou meu dia. Todo cronista tem seu dia em que, não tendo nada a escrever, fala da falta de assunto. Chegou meu dia. Que bela tarde para não se escrever! Esse calor que arrasa tudo; esse Carnaval que está perto, que aí vem no fim da semana; esses jornais lidos e relidos na minha mesa, sem nada interessante; esse cigarro que fumo sem prazer; essas cartas na gaveta onde ninguém me conta nada que possa me fazer mal ou bem; essa perspectiva morna do dia de amanhã; essa lembrança aborrecida do dia de ontem; e outra vez, e sempre, esse calor, esse calor, esse calor... Portanto, meu distinto leitor, portanto, minha encantadora leitora, queiram ter a fineza de retirar os olhos desta coluna. Não leiam mais. Fiquem sabendo que eu secretamente os odeio a todos; que vocês todos são pessoas aborrecidas e irritantes; que eu desejo sinceramente que todos tenham um péssimo Carnaval, uma horrível quaresma, um infelicíssimo ano em 1934, uma vida toda atrapalhada, uma morte estúpida! Aproveitem este meu momento de sinceridade e não se iludam com o que eu disser amanhã ou depois, com a minha habitual falta de vergonha. Saibam que o desejo mais sagrado que tenho no peito é mandar vocês todos simplesmente às favas, sem delicadeza nenhuma. Por que ousam gostar ou aborrecer o que escrevo? O que têm comigo? Acaso me conhecem, sabem alguma coisa de meus problemas, de minha vida? Então, pelo amor de Deus, desapareçam desta coluna. Este jornal tem dezenas de milhares de leitores; por que é que no meio de tanta gente vocês, e só vocês, resolveram ler o que escrevo? O jornal é grande, senhorita, é imenso, cavalheiro, tem crimes, tem esporte, tem política, tem cinema, tem uma infinidade de coisas. Aqui, nesta coluna, eu nunca lhes direi nada, mas nada de nada, que sirva para o que quer que seja. E não direi porque não quero; porque não me interessa; porque vocês não me agradam; porque eu os detesto. 65


Vinicius de Moraes


O exercício da crônica

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screver prosa é uma arte ingrata. Eu digo prosa fiada, como faz um cronista; não a prosa de um ficcionista, na qual este é levado meio a tapas pelas personagens e situações que, azar dele, criou porque quis. Com um prosador do cotidiano, a coisa fia mais fino. Senta-se ele diante de sua máquina, acende um cigarro, olha através da janela e busca fundo em sua imaginação um fato qualquer, de preferência colhido no noticiário matutino, ou da véspera, em que, com as suas artimanhas peculiares, possa injetar um sangue novo. Se nada houver, resta-lhe o recurso de olhar em torno e esperar que, através de um processo associativo, surja-lhe de repente a crônica, provinda dos fatos e feitos de sua vida emocionalmente despertados pela concentração. Ou então, em última instância, recorrer ao assunto da falta de assunto, já bastante gasto, mas do qual, no ato de escrever, pode surgir o inesperado. Alguns fazem-no de maneira simples e direta, sem caprichar demais no estilo, mas enfeitando-o aqui e ali desses pequenos achados que são a sua marca registrada e constituem um tópico infalível nas conversas do alheio naquela noite. Outros, de modo lento e elaborado, que o leitor deixa para mais tarde como um convite ao sono: a estes se lê como quem mastiga com prazer grandes bolas de chicletes. Outros, ainda, e constituem a maioria, “tacam peito” na máquina e cumprem o dever cotidiano da crônica com uma espécie de desespero, numa atitude ou-vai-ou-racha. Há os eufóricos, cuja prosa procura sempre infundir vida e alegria em seus leitores, e há os tristes, que escrevem com o fito exclusivo de desanimar o gentio não só quanto à vida, como quanto à condição humana e às razões de viver. Há também os modestos, que ocultam cuidadosamente a própria personalidade atrás do que dizem e, em contrapartida, os vaidosos, que castigam no pronome na primeira pessoa e colocam-se geralmente como a personagem principal de todas as situações. Como se diz que é preciso um pouco de tudo para fazer um mundo, todos estes “marginais da imprensa”, por assim dizer, 103


têm o seu papel a cumprir. Uns afagam vaidades, outros as espicaçam; este é lido por puro deleite, aquele por puro vício. Mas uma coisa é certa: o público não dispensa a crônica, e o cronista afirma-se cada vez mais como o cafezinho quente seguido de um bom cigarro, que tanto prazer dão depois que se come. Coloque-se porém o leitor, o ingrato leitor, no papel do cronista. Dias há em que, positivamente, a crônica “não baixa”. O cronista levanta-se, senta-se, lava as mãos, levanta-se de novo, chega à janela, dá uma telefonada a um amigo, põe um disco na vitrola, relê crônicas passadas em busca de inspiração – e nada. Ele sabe que o tempo está correndo, que a sua página tem uma hora certa para fechar, que os linotipistas o estão esperando com impaciência, que o diretor do jornal está provavelmente coçando a cabeça e dizendo a seus auxiliares: “É... não há nada a fazer com Fulano...”. Aí então é que, se ele é cronista mesmo, ele se pega pela gola e diz: “Vamos, escreve, ó mascarado! Escreve uma crônica sobre esta cadeira que está aí em tua frente! E que ela seja benfeita e divirta os leitores!”. E o negócio sai de qualquer maneira. O ideal para um cronista é ter sempre uma ou duas crônicas adiantadas. Mas eu conheço muito poucos que o façam. Alguns tentam, quando começam, no afã de dar uma boa impressão ao diretor e ao secretário do jornal. Mas se ele é um verdadeiro cronista, um cronista que se preza, ao fim de duas semanas estará gastando a metade do seu ordenado em mandar sua crônica de táxi – e a verdade é que, em sua inocente maldade, tem um certo prazer em imaginar o suspiro de alívio e a correria que ela causa, quando, tal uma filha desaparecida, chega de volta à casa paterna.

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Fernando Sabino

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O estranho ofício de escrever

É

ramos três condenados à crônica diária: Rubem no Diário de Notícias, Paulo no Diário Carioca e eu no O Jornal. Não raro um caso ou uma ideia, surgidos na mesa do bar, servia de tema para mais de um de nós. Às vezes para os três. Quando caiu um edifício no Bairro Peixoto, por exemplo, três crônicas foram por coincidência publicadas no dia seguinte, intituladas respectivamente: “Mas não cai?”, “Vai cair” e “Caiu”. Até que um dia, numa hora de aperto, Rubem perdeu a cerimônia: – Será que você teria aí uma crônica pequenininha para me emprestar? Procurei nos meus guardados e encontrei uma que talvez servisse: sobre um menino que me pediu um cruzeiro para tomar uma sopa, foi seguido por mim até uma miserável casa de pasto na Lapa: a sopa existia mesmo, e por aquele preço. Chamava-se “O preço da sopa”. Rubem deu uma melhorada na história, trocou “casa de pasto” por “restaurante”, elevou o preço para cinco cruzeiros, pôs o título mais simples de “A Sopa”. Tempos mais tarde chegou a minha vez – nada como se valer de um amigo nas horas difíceis: – Uma crônica usada, de que você não precisa mais, qualquer uma serve. – Vou ver o que eu posso fazer – prometeu ele. Acabou me dando de volta a da sopa. – Logo esta? – protestei. – As outras estão muito gastas. Sou pobre mas não sou soberbo. Ajeitei a crônica como pude, toquei-lhe uns remendos, atualizei o preço para dez cruzeiros e liquidei de uma vez com ela, sob o título: “Esta sopa vai acabar.” Estranho ofício é este de escrever. De toda crônica que publiquei na vida, houve sempre um leitor para achar que era a melhor e outro a pior que já escrevi. 151


Crônica? Nunca a célebre definição de Mário de Andrade (sobre o conto) veio tão a propósito: crônica é tudo aquilo que chamamos de crônica. Rubem Braga, de quem se diz que jamais praticou outro gênero, o maior cronista brasileiro, é autor de alguns dos melhores contos de nossa literatura, sempre tidos e lidos como crônicas. O mesmo se poderia afirmar de Paulo Mendes Campos. Quanto a mim, como dizia o poeta, outros que não eu a pedra cortem: limito-me a escrever aquilo que me agradaria ler – e ler passando preguiçosamente os olhos pela matéria escrita, à procura de uma brecha de interesse por onde entrar. Macaco velho, venho de longa experiência, para meter a mão em cumbuca. Nunca me esqueço o dia em que o Carlos Castello Branco me disse, a propósito das crônicas que eu escrevia no falecido Diário Carioca, já se vão muitos anos: – Eu, se fosse você, parava um pouco. Esta sua última crônica estava de amargar. Parei dois anos por causa disto. Quando recomecei, como todo cronista que se preza, vez por outra recauchutava um escrito antigo, à falta de coisa melhor, confiante no ineditismo que o tempo lhe conferia. Até que chegou o dia em que no meu estoque não restava senão uma, jamais republicada – aquela que o Castellinho havia estigmatizado com seu implacável juízo crítico. Vai essa mesmo – decidi, tapando o nariz e escondendo a cara de vergonha. Pois não vem o mesmo Castellinho me dizer, efusivo, a propósito da mesmíssima crônica: – É das melhores coisas que você já escreveu. Havia-se esquecido, o mandrião. E por causa dele eu passara dois anos no estaleiro. Quando lhe acusei a distração, ele não se perturbou: – Agora achei boa. Ou a crônica melhorou, ou eu é que piorei.

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Paulo Mendes Campos

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Minhas janelas

E

m geral as pessoas possuíram automóveis e se recordam de todos eles. Eu possuí janelas e ajuntei para a lembrança um sortido patrimônio de paisagens. Minha primeira providência em casa nova é instalar meus instrumentos de trabalho ao lado duma janela: mesa, máquina de escrever, dicionários, paciência. Além de pequenos objetos familiares: um globo de lata, uma galinha de barro, um Gorki de porcelana, um Buda de marfim e três cachimbos que há muitos anos esperam aparecer em mim o homem tranquilo e experiente que fume cachimbo. A janela também faz parte do equipamento profissional do escritor. Sem janelas, a literatura seria irremediavelmente hermética, feita de incompreensíveis pedaços de vida, lágrimas e risos loucos, fúrias e penas. Tive muitas janelas, e nenhuma delas mais generosa e plena do que esta de que me despeço na manhã de hoje. Amanhã cedo mudarei de casa, de janela, e até de alma, pois o meu modo de ver e viver já não será o mesmo fatalmente. Não falo de mim, mas do que foram as janelas por meu intermédio. Quando era menino, nunca olhei pela janela, mas fazia parte da paisagem dum quintal, doce e áspero a um só tempo, com seus mamoeiros bicados pelos passarinhos, as galinhas neuróticas em assembleia permanente, o canto intermitente do tanque, e o azul sem morte. (Comme le monde était jeune, et que la mort était loin!) Criança do meu tempo, do tempo das casas, só chegava à janela em dia de chuva, amassando o nariz contra a vidraça, para ver o mistério espetacular das águas desatadas, as enxurradas maravilhosas, as poças onde os moleques pobres e livres podiam brincar com euforia. Portanto, só à medida que ganhamos corpo e tempo vamos aprendendo a conhecer a importância das janelas. Morei em Belo Horizonte, no Leme, Copacabana, Leblon, Botafogo, Silvestre, andei aí pelo Brasil e por outros países. Meus olhos deram para ruas quietas ou frenéticas, pátios melancólicos, morros cobertos de mataria, 207


pedaços de mar. Vi coisas, muitas coisas, só não vi a linda mulher nua que os outros homens já viram de suas janelas. O resto eu vi. Vi um garoto pequenino comandando o mundo de cima dum telhado, vi um afogado dando à praia ao amanhecer, vi um homem batendo numa mulher, vi uma mulher batendo num homem, vi auroras profusas e chamejantes, vi poentes dramáticos, vi uma menina morrendo num pátio, vi as luminárias inquietantes dos transatlânticos, as traineiras indo e vindo, vi operários equilibrando-se em andaimes incríveis, vi um general a bater-se com um soneto, vi a tormenta, o sol, a tarde cristalina, o verde, o cinza, o vermelho, a folha, a flor, o fruto, o farol da ilha, o féretro passando, a moça saindo para as núpcias, a mãe voltando da maternidade com um filho, o bêbado matinal, o casal de velhinhos crepusculares, o mendigo irrompendo pela rua como um versículo do Novo Testamento, vi através de minhas janelas todas as formas inumeráveis da vida, e a noite que chegava para engolfar o mundo em escuridão. Buscava um lugar que me servisse e encontrei Ipanema. Já me mudei muitas vezes dum bairro para outro, já me mudei até de cidade, mas, nos últimos anos só tenho trocado um lugar de Ipanema por outro lugar em Ipanema. Ando cansado de andanças, isto é, a idade vai chegando. Não quero mais ir, quero ficar; não quero mais procurar, quero conhecer o que já encontrei; para quem sou, as alegrias e as tristezas que já tenho estão de bom tamanho. Vou perder dentro de poucas horas esta magnífica janela, incomparavelmente a melhor peça deste apartamento, e a mais vivificante de todas as janelas em que trabalhei e morei. Peço pois um minuto de silêncio, um minuto de silêncio em derradeira homenagem aos meus telhados de limo lá embaixo, minhas amendoeiras cambiantes, meus pinheiros líricos, minhas gaivotas, meu mar, minhas ilhas, minhas vagas, meus dias de ressaca, meus dias de calma, meus barcos; dou adeus para o meu mar noturno, invisível e trágico, e adeus para este mar cheio de luz.

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Sérgio Porto/ Stanislaw Ponte Preta

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Prefácio de Sérgio Porto

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uando os diretores da Editora do Autor me entregaram os originais de Tia Zulmira e Eu, para prefaciar, justificaram a incumbência dizendo que ninguém melhor do que eu conhece a obra e o autor. De fato, Stanislaw Ponte Preta* foi criado junto comigo e, praticamente, é meu irmão de criação. Moramos na mesma casa, tivemos a mesma infância e muitas vezes comemos no mesmo prato. Hoje, no entanto, embora vivendo ambos do jornalismo, já não somos tão ligados: raramente nos vemos, poucos são os nossos gostos comuns e acredito que seria uma temeridade da minha parte se continuasse companheiro fraterno do irrequieto autor deste livro, nas suas andanças e intemperanças por este mundo de Deus. Stanislaw surgiu na imprensa por uma contingência da própria imprensa. Foi numa época em que os cronistas mundanos dominavam as páginas dos jornais, com suas colunas cheias de neologismos e autossuficiência. Antes disso – segundo suas próprias palavras – só assinara promissórias. Convidado, porém, para ser mais um cronista mundano, num jornal que não se perdoava o fato de não ter, no seu corpo de redatores, um inventor de palavras e expressões como “piu-piu”, “champanhota”, “fúria louca”, “bola branca”, “flor azul” e outras baboseiras, Stanislaw aceitou a incumbência, com a condição de não se ater aos vazios personagens do “café-society”, estendendo sua coluna até outros setores, inclusive o do “divertissement”, que ele mais tarde classificaria como “teatro rebolado”. Lembro-me perfeitamente dos preparativos de estreia do então desconhecido Stanislaw. Achava que, acima de tudo, devia ser petulante, para competir com os cronistas mundanos, que – no seu entender – por mais importante que fosse a notícia a publicar, falavam sempre de si mesmos antes de dar a notícia. Coisas como “este colunista está 7

Stanislaw Ponte Preta é um heterônimo do escritor e crítico musical Sérgio Porto. (N.O.)

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seguramente informado” ou “confirmando mais um furo deste colunista” etc. etc. Stanislaw nesse setor foi incomparável; ninguém conseguiu (e acredito que ninguém conseguirá) ultrapassá-lo em autoimportância. E as expressões que criou acabaram ganhando mundo, como o já citado “teatro rebolado”, o “picadinho-relations” e outras mais, sem contar o “bossa nova”, que já merece dicionário. Este Tia Zulmira e Eu, que andei folheando, porque não suporto uma leitura mais detida dos escritos do autor, talvez porque me sinta comprometido com suas irreverências – afinal fomos criados juntos – é um apanhado, com certo critério de seleção, das coisas que andou dizendo, das ideias que andou espalhando em vários jornais e revistas do Rio. Sua Tia Zulmira, senhora respeitável que conheço e admiro, entra nele en passant. O autor, com sua irreverência, não se peja de comprometer a parenta em tão levianos escritos. Foi esta, aliás, a razão do afastamento que hoje mantenho de Stanislaw. O leitor há de – por força – compreender o quanto é comprometedora, para um jornalista modesto e que tem esperanças de ser levado a sério, a companhia constante de amigo tão atrabiliário. E já aqui me apresso a terminar este prefácio, temendo que – ao lê-lo – o autor acrescente mais uma página no fim do livro, para chamar o prefaciador de cocoroca.

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José Carlos Oliveira

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Solo para flauta

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screver. Tenho que escrever. Neste momento é necessário, mas não se trata de necessidade. Domingo, por exemplo, não tenho obrigação de escrever, e entretanto escrevo. Quando entro em férias, escrevo mais que quando em atividade remunerada. Donde viria isso, essa compulsão inefável e cruel de que sou vítima e cúmplice desde garotinho? Não me consta que um operário sinta prazer em trabalhar durante, digamos assim, a telenovela das oito da noite. Se lhe obrigassem a isso, ou se lhe pedissem isso, ou se simplesmente lhe fizessem tal insinuação, ele imediatamente recorreria a um trecho da legislação trabalhista – a qual, mesmo defeituosa, contém algumas garantias que já se podem considerar sagradas. No entanto eu trabalho vendo novela de TV. Tenho sempre um caderninho de apontamentos e uma esferográfica. Não me desligo de minha atividade nem mesmo durante os comerciais. Neste momento, luto contra uma sonolência que me visita em horas mais ou menos previsíveis. Tem ela afinidade com o desfalecimento. Estando em convalescença, minado o meu organismo pela ingestão de produtos químicos, o sono se aproxima com promessas de recuperação, mas eu recuso a sua meiga imposição. Não me agrada dormir no sentido em que as pessoas geralmente dormem, obedientes à tirania do relógio e à ordem das atividades sociais produtivas. Na verdade, forcei minha consciência a viajar numa região de permanente sonambulismo, e isto já vem desde os 20 anos de idade, quando aderi com um atraso de 30 anos ao movimento surrealista. Feito o lavrador inferido de um verso implacavelmente lúcido de Saint-John Perse, navego “o solo arável do sono”. Nessa região me sinto bem, balbuciante, em surdina, em penumbra, escutando o silêncio que ali adquire clarões de sinfonia. Não há dúvida, se algo se assemelha ao meu despertar é esse desmaio de que me aproximo com disposições de sedutor e cuja aproximação rejeito, negaceio, mantenho sob o controle da inteligência reduzida às dimensões de um grão de arroz. 307


Ser noturno, encontro aqui uma doçura que paradoxalmente poucos reconhecem, posto que quase sempre se associa essa disposição noturna a uma volição luciferiana, portanto plena de luz e feroz por definição. Nenhuma ferocidade aqui: penumbra, surdina, radioso silêncio de sinfonia. Ou talvez o “Bolero” de Ravel, estampido proposto ao deleite de tímpanos surdos. Aí está, escrevo, sou um animal que escreve, absurdo como a lesma que vai deixando a rendada gosma no canteiro cujas flores ela suga – vampiro, ela murcha, fenece, assassina. Meiga, na sala, a voz rouca, comendo uma pera, lendo um livro meu, uma garotinha loura me faz pensar em Renoir numa crise de melancolia, pincelando uma rosada fausse maigre. O riso rouco me transporta ao passado, ao alumbramento infantojuvenil em face da jeune-fille, esse passado é rouco e sombreado e mágico, a garotinha tem uma qualidade seráfica, mortal vista agora, mortífera vista no instante em que a vi – tantas iguais a ela vi, e de minha garganta subia então um canto sofrido, tristonho, antigo... Haverá ainda compreensão para uma literatura de sutilezas, de carnaduras tênues, quase tão somente cores e sons macios, sigilosos? Ah! quanta saudade tenho da aurora da minha vida... Era feliz o mundo exterior, o grato susto de saber que Deus povoara o mundo delas, as meninas que comem pera de pernas esticadas e cruzadas... Escrevo, escrevo. Continuarei.

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