JAMES JOYCE
Os mortos
TRADUÇÃO E NOTAS Tomaz Tadeu
TEXTOS SINGULARES FICÇÃO
Copyright desta edição © 2026 Autêntica Editora
Copyright da tradução e das notas © 2016 Tomaz Tadeu
Título original: The Dead
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diretora editorial
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editora responsável
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assistente editorial
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revisão
Cecília Martins
capa
Alberto Bittencourt diagramação
Guilherme Fagundes
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
Joyce, James, 1882-1941
Os mortos / James Joyce ; tradução e notas Tomaz Tadeu. -- 2.ed. -Belo Horizonte, MG : Autêntica Editora, 2026. (Textos Singulares)
T ítulo original: The Dead.
ISBN 978-65-5928-510-5
1. Ficção irlandesa I. Tadeu, Tomaz. II. Título. III. Série.
24-239740 CDD-Ir823
Índices para catálogo sistemático:
1. Ficção : Literatura irlandesa Ir823
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Lily, a filha do zelador, literalmente não se aguentava mais em pé. Nem bem acabara de levar um cavalheiro até a copinha atrás do escritório no térreo ajudando-o com o sobretudo quando a roufenha campainha da porta da frente tocava outra vez e ela tinha que voltar correndo pelo despido corredor para receber outro convidado. Por sorte não tinha que atender as damas também. Mas, pensando nisso, a srta. Kate e a srta. Julia tinham transformado o banheiro de cima num vestiário feminino. A srta. Kate e a srta. Julia estavam lá, fofocando e rindo e se alvoroçando, caminhando uma atrás da outra até o topo das escadas, espiando por sobre os balaústres e chamando Lily lá embaixo para perguntar quem tinha chegado.
Era sempre um grande evento, o baile anual das srtas. Morkan. Vinham todos os que conheciam as duas, gente da família, velhos amigos da família, os membros do coral de Julia, qualquer um dos alunos mais crescidos de Kate e até alguns dos alunos de Mary Jane. Nunca falhara nem uma vez. Tanto quanto é possível lembrar, se dera em grande estilo por anos a fio; desde quando Kate e Julia, após a morte do irmão Pat, deixaram a casa de Stoney Batter levando Mary Jane, a única sobrinha, para morar com elas
na sombria e lúgubre casa em Usher’s Island, cujo andar superior elas alugaram do sr. Fulham, o cerealista do térreo. Isso fazia bem uns trinta anos, daí para mais. Mary Jane, que era então uma pirralha enfiada em vestidinhos, era agora o arrimo principal da casa, pois tocava órgão na Haddington Road. Ela tinha cursado a Academia e dava um concerto com os alunos todos os anos na sala de cima dos Antient Concert Rooms. Muitos de seus alunos pertenciam a famílias de classe mais alta, com casas ao longo da via férrea entre Kingstown e Dalkey. Por mais velhas que fossem, as tias dela também contribuíam com sua parte. Julia, embora estivesse bastante grisalha, ainda era a primeira soprano da Igreja de Adão e Eva, e Kate, frágil como era para ficar saindo muito por aí, dava aulas de música para principiantes no velho piano de armário da sala dos fundos. Lily, a filha do zelador, fazia o serviço doméstico para elas. Embora levassem uma vida modesta, acreditavam em comer bem; o melhor de tudo: filés de primeira, chás de três xelins e a melhor cerveja preta de garrafa. Mas Lily raramente se enganava nas encomendas, de maneira que se dava bem com as três patroas. Eram minuciosas, só isso. Mas a única coisa que não suportavam era respostas malcriadas. Sem dúvida tinham motivo para estarem alvoroçadas numa noite dessas. E depois passava muito das dez e ainda não havia nenhum sinal de Gabriel e da esposa. Além do mais temiam muitíssimo que Freddy Malins pudesse chegar meio alto. Não queriam de jeito nenhum que algum aluno de Mary Jane o visse alterado; e quando estava assim era às vezes muito difícil lidar com ele. Freddy Malins sempre chegava tarde, mas elas se perguntavam o que estaria atrasando Gabriel: e era isso que as levava a cada dois minutos até os balaústres para perguntar a Lily se Gabriel ou Freddy tinham chegado.
– Ah, sr. Conroy, disse Lily a Gabriel quando abriu a porta para ele, a srta. Kate e a srta. Julia pensavam que o senhor não ia chegar nunca. Boa noite, sra. Conroy. – Presumo que sim, falou Gabriel, mas elas se esquecem de que minha esposa aqui leva três horas mortais para se arrumar.
Ficou em cima do capacho, raspando a neve das galochas, enquanto Lily levava a esposa dele até o pé da escada e gritava: – Srta. Kate, a sra. Conroy está aqui.
Kate e Julia logo desceram, vacilantes, a escada escura. Beijaram a esposa de Gabriel, disseram que ela devia estar morta de frio e perguntaram se Gabriel estava junto.
– Aqui estou, tão certo quanto o correio, tia Kate! Podem subir. Vou em seguida, gritou Gabriel do escuro.
Ele continuou a raspar os pés vigorosamente, enquanto as três mulheres subiam, rindo-se, para o vestiário feminino. Uma estreita franja de neve estendia-se como uma gola por sobre as ombreiras do sobretudo e como uma biqueira por sobre a ponta das galochas; e, enquanto os botões se soltavam, rangendo, da grossa lã enrijecida pela neve, um ar frio e fragrante trazido de fora escapava dos vincos e dobras do sobretudo.
– Nevando de novo, sr. Conroy? perguntou Lily.
Ela o precedera até a copinha para ajudá-lo com o sobretudo. Gabriel sorriu diante das três sílabas que ela lhe emprestara ao sobrenome, mirando-a. Era uma garota franzina, ainda se fazendo, de tez pálida e cabelo palha. A luz a gás da copinha a fazia ainda mais pálida. Gabriel a conhecia desde quando era criança e ficava sentada no fim da escada de fora embalando uma boneca de pano.
– Sim, Lily, respondeu ele, e acho que temos uma noite assim pela frente.
Olhou para o teto da copinha, que estremecia com os pés que batiam e se arrastavam no andar de cima, escutou por um instante o piano e então voltou o olhar para a garota, que cuidadosamente dobrava o seu casaco no canto de uma prateleira.
– Lily, me diga uma coisa, perguntou num tom afável, você ainda está na escola?
– Ah, não, senhor, respondeu ela. Terminei a escola faz mais de ano.
– Ah, suponho então, falou Gabriel, animado, que um dia desses iremos ao casamento com seu mocinho, hein?
A garota devolveu-lhe o olhar por cima do ombro e disse com grande amargura:
– Os homens de agora é só conversa fiada e o que podem se aproveitar da gente.
Gabriel corou como que sentindo ter cometido um deslize e, sem olhar para ela, livrou-se das galochas e com o cachecol esfregou vigorosamente os sapatos de verniz.
Era um jovem robusto tendendo a alto. A cor viva das faces subia uniforme até a fronte, onde se dispersava numas ralas e irregulares nesgas de um vermelho pálido; e no rosto imberbe cintilavam inquietamente as lentes polidas e os brilhantes aros dourados dos óculos que resguardavam seus delicados e inquietos olhos. O cabelo negro e lustroso era repartido ao meio e penteado numa longa curva por trás das orelhas onde se enrolava levemente por sob a marca deixada pelo chapéu.
Quando terminou de lustrar os sapatos, ergueu-se e puxou o colete para baixo, ajustando-o melhor ao corpo roliço. Depois tirou bruscamente uma moeda do bolso.
– Ah, Lily, disse, enfiando-a nas suas mãos, é Natal, não é mesmo? É só... uma pequena...
E caminhou ligeiro em direção à porta.
– Ah, não, senhor! exclamou a garota, seguindo-o. De verdade, senhor, não posso aceitar.
– É Natal! É Natal! disse Gabriel, quase troteando em direção à escada e sacudindo a mão em sinal de protesto.
A garota, vendo que ele ganhara as escadas, falou alto às suas costas:
– Obrigada, então, senhor.
Ele ficou do lado de fora do salão, ouvindo o roçar das saias contra a porta e o arrastar dos pés no assoalho, à espera de que a valsa acabasse. Ainda estava desconcertado pelo repentino e amargo retruque da garota. Isso o pusera num estado de tristeza, que tentava dissipar ajeitando os punhos da camisa e o laço da gravata. Depois tirou do bolso do colete uma tira de papel e deu uma olhada nos tópicos que esboçara para seu discurso. Estava em dúvida quanto aos versos de Robert Browning, pois temia que pudessem estar acima da capacidade da audiência. Melhor seria alguma citação de Shakespeare ou das Melodias que eles pudessem reconhecer. O indelicado estalar dos saltos e o arrastar das solas dos sapatos dos homens faziam-no lembrar que o nível cultural deles diferia do seu. Iria apenas se expor ao ridículo recitando-lhes um poema que não conseguiam compreender. Pensariam que estava exibindo sua elevada educação. Faria feio com eles da mesma e exata maneira que fizera feio com a garota na copinha. Escolhera o tom errado. Todo o seu discurso era do começo ao fim um equívoco, um fracasso total.
No mesmo instante as tias e a esposa saíam do vestiário feminino. As tias eram duas senhoras idosas baixinhas, sobriamente vestidas. A tia Julia era dois ou três dedos mais alta. Os cabelos, repuxados por sobre a ponta das orelhas,
eram cinzentos; e cinzento também, com umas zonas mais escuras, era o largo e flácido rosto. Embora robusta de corpo e aprumada no porte, os olhos mortiços e a boca meio aberta davam-lhe a aparência de uma mulher que não sabia onde estava nem para onde ia. A tia Kate era mais vivaz. O rosto, mais saudável que o da irmã, era todo rugas e pregas, como uma maçã murcha, e os cabelos, trançados ao mesmo modo antigo, não haviam perdido a cor de noz madura.
As duas beijaram muito Gabriel. Era o sobrinho favorito, filho da irmã mais velha, Ellen, já falecida, que se casara com T. J. Conroy, da Cia. dos Portos e Docas.
– Gabriel, a Gretta me falou que vocês não vão pegar um coche na volta para Monkstown, disse a tia Kate.
– Não, disse Gabriel, virando-se para a esposa, basta aquilo do ano passado, não é? Não lembra, tia Kate, do resfriado que a Gretta pegou por causa disso? As janelas do coche trepidando o tempo todo e o vento leste entrando depois que passamos por Merrion. Muito divertido. Gretta pegou um resfriado terrível.
A tia Kate, séria, franzia a testa e balançava a cabeça a cada palavra.
– Muito bem, Gabriel, muito bem, disse ela. Nunca é demais ter cuidado.
– Mas quanto à nossa Gretta ali, disse Gabriel, ela iria para casa a pé sob a neve se a deixassem.
A sra. Conroy deu uma risada.
– Não ligue para ele, tia Kate, disse ela. Ele é mesmo um grande chato, com essa coisa de máscaras verdes para os olhos do Tom à noite e de fazê-lo praticar halteres, e de forçar a Eva a comer mingau. Pobre criança! E ela não pode nem ver mingau! Ah, mas vocês nunca vão adivinhar o que ele me faz usar agora!
Ela teve um ataque de riso e olhou para o marido, cujos olhos, satisfeitos e admirados, se entretinham em percorrer desde o vestido até o rosto e os cabelos dela. As duas tias também riram com gosto pois a solicitude de Gabriel era motivo constante de piada entre elas.
– Galochas! disse a sra. Conroy. É a última. Devo sempre usar galochas em chão molhado. Chegou ao ponto de querer que eu usasse hoje à noite, mas me neguei. Logo vai querer me comprar um traje de mergulho.
Gabriel deu um risinho nervoso e, para se reafirmar, ajeitou a gravata, enquanto a tia Kate se dobrava de tanto rir. O sorriso no rosto da tia Julia logo se dissipou e seus olhos tristes se voltaram para o rosto do sobrinho. Após uma pausa perguntou:
– E galochas, o que é mesmo isso, Gabriel?
– Galochas, Julia! exclamou a irmã. Deus meu, você não sabe o que é uma galocha? A gente coloca por cima... por cima dos sapatos, é isso, não é mesmo, Gretta?
– Sim, disse a sra. Conroy. Umas coisas de guta-percha. Agora cada um de nós tem um par. O Gabriel diz que no continente todo mundo usa.
– Ah, no continente, murmurou a tia Julia, balançando a cabeça devagar.
Franzindo a testa, Gabriel disse, como se estivesse levemente irritado:
– Não é nenhuma maravilha, mas Gretta acha muito engraçado porque diz que a palavra a faz lembrar dos Menestréis de Christy.
– Mas me diga, Gabriel, disse a tia Kate, de um jeito brusco. Você tratou de achar um quarto onde ficar, é claro. Gretta estava dizendo...
– Ah, o quarto está certo, respondeu Gabriel. Fiz reserva no Gresham.
– Com certeza, disse a tia Kate, é mesmo a melhor coisa a fazer. E as crianças, Gretta, você não fica preocupada com elas?
– Ah, é só por uma noite, disse a sra. Conroy. Além do mais, Bessie vai cuidar delas.
– Com certeza, repetiu a tia Kate. É uma benção ter uma moça assim, alguém em quem se pode confiar! Vejam a nossa Lily, não sei bem o que deu nela ultimamente. Não se parece em nada com a garota de antes.
Gabriel estava prestes a fazer à tia algumas perguntas a esse respeito, mas ela se interrompeu de repente para espiar a irmã que se metera escada abaixo e estava esticando o pescoço por sobre os balaústres.
– Ora só, me digam, disse, à beira da irritação, aonde Julia pensa que está indo? Julia! Julia! Aonde está indo?
Julia, que descera até a metade da escada, voltou, anunciando calmamente:
– O Freddy chegou.
No mesmo instante, os aplausos e um floreio final da pianista diziam que a valsa tinha acabado. A porta do salão foi aberta pelo lado de dentro e alguns casais saíram. A tia Kate puxou Gabriel ligeiro para o lado e sussurrou-lhe ao ouvido:
– Seja bonzinho, Gabriel, e verifique se ele está bem e não deixe subir se estiver meio alto. Tenho certeza que está. Tenho absoluta certeza.
Gabriel foi até a escada e se pôs à escuta por sobre os balaústres. Podia ouvir duas pessoas falando na copinha. Então reconheceu a risada de Freddy Malins. E desceu a escada ruidosamente.
– É um grande alívio, disse a tia Kate à sra. Conroy, ter Gabriel em casa. Sempre fico mais descansada quando ele
está aqui... Julia, a srta. Daly e a srta. Power aceitam algo para beber. Muito obrigada por sua bela valsa, srta. Daly. Foi um momento muito bonito.
Um homem alto, rosto encarquilhado, com um bigode hirto e grisalho, tez escura, que saía do salão com seu par, disse:
– E nós também podemos ter algo para beber, srta. Morkan?
– Julia, disse a tia Kate sem rodeios, temos aqui o sr. Browne e a srta. Furlong. Leve os dois para dentro, Julia, junto com a srta. Daly e a srta. Power.
– Sou o queridinho das mulheres, disse o sr. Browne, repuxando os lábios até o bigode se eriçar todo e sorrindo com todas as suas rugas. Sabe, srta. Morkan, o motivo pelo qual elas gostam tanto de mim é...
Não terminou a frase, mas, percebendo que a tia Kate estava fora do alcance de sua voz, imediatamente conduziu as três moças à sala dos fundos. O meio da sala estava ocupado por duas mesas quadradas encostadas uma na outra, em cima das quais a tia Julia e o zelador estavam estendendo e alisando uma grande toalha. Em cima do aparador estavam dispostos travessas e pratos e copos, e molhos de facas, garfos e colheres. O tampo fechado do piano de armário também servia de aparador para os petiscos e os doces. Num canto, de pé junto a um aparador menor, dois moços tomavam refrigerantes.
O sr. Browne levou as moças sob sua guarda para lá e, brincando, convidou-as, todas, a tomarem um ponche para damas: quente, forte e doce. Como falaram que nunca bebiam nada forte, abriu três garrafas de limonada para elas. Depois pediu a um dos jovens que se afastasse e, pegando a licoreira, serviu-se de uma boa dose de uísque.
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