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Os Escolhidos de Gaia

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Tradução: Santiago

Nazarian


Copyright © 2012 Marcela Mariz Copyright © 2014 Editora Gutenberg Título original: The Chosen of Gaia Todos os direitos reservados pela Editora Gutenberg. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja cópia xerográfica, sem autorização prévia da Editora. GERENTE EDITORIAL

REVISÃO

Alessandra J. Gelman Ruiz

Raquel Fernandes

EDITOR ASSISTENTE

CAPA

Denis Araki

Diogo Droschi

ASSISTENTES EDITORIAIS

DIAGRAMAÇÃO

Felipe Castilho Carol Christo

SGuerra Design

PREPARAÇÃO

Otacílio Nunes Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil

Mariz, Marcela Os escolhidos de Gaia / Marcela Mariz ; tradução Santiago Nazarian. -- 1. ed. -- Belo Horizonte : Editora Gutenberg, 2014. Título original: The Chosen of Gaia. ISBN 978-85-8235-132-1 1. Ficção - Literatura infantojuvenil I. Título. 14-01150

CDD-028.5 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura infantojuvenil 028.5 2. Ficção : Literatura juvenil 028.5

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UM

Domingo. O clima quente, combinado à brisa suave do início da manhã, parecia trazer a promessa de alguma aventura nova e empolgante. Definitivamente, aquele era o momento para uma mudança. Uma onda de coragem invadiu então os pulmões de Albert. Agora ele tinha 15 anos, uma idade em que as coisas podiam finalmente começar a acontecer, se ele conseguisse enfrentar o desafio. Talvez ele apenas precisasse pedir mais apoio de Ruth e solicitar uma… interferência social! Nos últimos dias em que alugaram a casa de praia, sua irmã gêmea aprendeu kitesurf, venceu um torneio de caminhada e até foi aos céus em seu primeiro voo de parapente. Lá estava ela no mar… nadando com novos amigos… enquanto ele estava sentado pateticamente na areia, usando grandes quantidades de protetor solar, e segurando um livro antigo que nem interessante de ler era. — Albert? — uma voz suave interrompeu seus pensamentos. A voz mais carinhosa que ele já conheceu pertencia à pessoa mais doce que ele podia imaginar: sua mãe, Sarah. — Já chamei você umas cinco vezes, e você nem piscou! Está tudo bem? — Seus olhos verdes brilhantes estavam fixos nos dele, tentando decifrar seus pensamentos. — É... eu só estava pensando... neste livro. É bem interessante... — disfarçou. Ele sabia que não conseguiria 7


esconder muito dela, mas havia algumas coisas que preferia guardar para si. — Eu trouxe almoço pra você! — disse Sarah, passando a ele um prato com batatas fritas e hambúrguer. — Oh-oh… Acha que o pai fez direito desta vez? Hesitando, ele agarrou o hambúrguer, enquanto a mãe se sentava ao lado dele. — Bom… está melhor que o último... — ela disse, olhando para o pai de Albert, Victor Klein, que fazia o churrasco na frente da casa. Apesar de nuvens de fumaça preta saírem de sua grelha improvisada, ele parecia confiante em seu desempenho. — Seu pai não é mesmo o máximo? — Definitivamente, deveria ser proibido ele cozinhar qualquer coisa — disse Albert, com os olhos vidrados no prato. Seu pai nunca costumava dedicar muito de seu tempo a eventos familiares como aquele, então ele tentaria demonstrar um pouco de apoio e gratidão. Depois de respirar fundo, tomou coragem para dar a primeira mordida. Apesar de o engasgo ser quase instantâneo, ele teve de disfarçar a dificuldade de mastigar, depois de notar que o pai estava espiando. Rapidamente, Albert mostrou a ele o polegar em sinal de positivo, e Victor sorriu de volta, orgulhoso. — Parece que o Sabão adorou! — Sarah apontou para o cão basset, que devorava feliz um pedaço de carne que Victor sem querer tinha deixado cair no chão. — O Sabão? — repetiu Albert, cuspindo discretamente a comida em um guardanapo. — Ele come até a maquiagem da Ruth e as minhas meias sujas! Ele não vale! Sarah não conseguiu segurar o riso. Albert definitivamente tinha razão. Naquela semana mesmo, ela tinha 8


pegado o cachorro comendo limão, pimenta e a escova de dentes dela. — Espere… o que está acontecendo? — De repente, Albert perdeu o fôlego olhando para o mar. A água parecia fugir da praia, como se houvesse sido sugada pelo ralo de uma banheira. — Não é pos.. sível... — Albert gaguejou. — É um tsunami! Uma sirene de alerta soou. Os salva-vidas soaram seus apitos e gritaram ordens de evacuação. Os surfistas começaram a nadar de volta à praia desesperadamente. Muitos pais correram de um lado para o outro em busca de seus filhos e as crianças começaram a chorar. Um caos total se estabeleceu. Sarah segurou as mãos de Albert, em choque. — Rápido! Precisamos sair daqui! — gritou Albert, ajudando a mãe a ficar em pé. Albert varreu o horizonte em busca de Ruth. Ela estava parada, congelada, hipnotizada pela água que se retraía. — Ruth, venha! — gritou Sarah. — Deixa que eu a ajudo, mãe, vá ficar com o pai! — Albert ordenou. Mas não estava fácil passar pelo enorme fluxo de pessoas que estava fugindo da praia. Como um rebanho aterrorizado, pisoteavam tudo e todos no caminho. O corpo de Albert parecia estar sendo arrastado pelos outros e algumas vezes ele foi jogado na areia junto com caixas de isopor quebradas e cadeiras. Quando finalmente alcançou Ruth, ele sabia que era tarde demais. Uma onda colossal, talvez com uns dez metros de altura, rugia na direção deles. Se tentassem fugir, só conseguiriam dar alguns poucos passos. Então, ele apenas ficou lá, com um braço ao redor da irmã. Seus pais, que 9


saíram correndo a toda velocidade, chegaram a tempo de juntar-se ao abraço, e todos ficaram unidos, esperando a água levar tudo embora. Entretanto, isso não aconteceu. As casas da praia e as palmeiras foram derrubadas. Todas as pessoas e seus pertences que haviam sido deixados na areia foram levados. Mas eles não. Quando a maré baixou e a família Klein reabriu os olhos, eles viram-se completamente sozinhos na areia. Sozinhos exceto por um homem negro de cabelos grisalhos, a poucos passos deles. Ele se aproximou e olhou todos nos olhos, um por um. Então, anunciou em uma voz profunda: — Vocês foram os escolhidos. Albert acordou. Seu cabelo ruivo estava úmido com o suor que escorria pela testa. Tentando controlar sua rápida respiração, olhou para o despertador de sua organizada mesa de cabeceira: eram 5h30 da manhã. O sonho havia sido tão loucamente real, tão rico em detalhes e emoções! Até seus pensamentos haviam sido muito... genuínos! Enquanto os pés de Albert buscavam o chão, um ganido agudo quebrou o silêncio absoluto do quarto. — Desculpa, Sabão! — ele cochichou e imediatamente começou a acariciar o cão, como se esperasse o perdão por tê-lo pisado. O cão abaixou as orelhas e balançou o rabo. — Ei! Quietos! — reclamou Ruth, que dormia do outro lado do corredor. Através das portas abertas, ele podia vislumbrar as pilhas de roupas, cosméticos, mochilas e livros no chão ao redor da cama da irmã. “Como ela conseguia viver assim?”, ele se perguntava. Albert cambaleou em direção à varanda e foi seguido fielmente por Sabão. O sol havia começado a nascer, e o 10


céu tinha aquela cor típica, azul-pálido, do começo da manhã. Ele agarrou a velha cadeira de praia que estava apoiada em barras de ferro, abriu-a e se sentou, respirando de maneira profunda e reconfortante. — Outro sonho estranho… agora já são cinco — ele pensou, acariciando as orelhas de Sabão. Estaria o lado inconsciente de seu cérebro tentando mandar alguma mensagem misteriosa com esse sonho, ele se perguntou? Ou era seu lado consciente simplificando algo que ele já sabia: que a vida era uma chatice. Albert olhou para o céu, então se endireitou, espantado, e se ergueu da cadeira. O céu azul-claro havia se tornado completamente vermelho. Ele esfregou os olhos. Ainda enxergava vermelho! Deu um passo atrás, um pé, depois o outro, mas não reparou que Sabão estava novamente em seu caminho. Perdeu o equilíbrio e, enquanto caía, seus braços bateram em tudo ao seu redor provocando um estrondo. Ruth acordou sobressaltada e gritou. Sabão latiu instintivamente. Por alguns segundos, Albert permaneceu caído no chão, com metade do corpo dentro do quarto, metade na varanda. — Sabão, para com isso! Precisa ficar atrás de mim assim? — reclamou Albert, enquanto o cachorro lambia seu rosto. Seus pais vieram até a porta, parecendo cansados e desorientados. Victor, com o cabelo escuro arrepiado como um penteado moicano, segurava uma raquete de tênis defensivamente. De repente, o despertador disparou e Victor se virou, girando a raquete no ar. — Calma, gente! Calma! Eu caí… foi só isso... — explicou Albert, levantando-se e desligando o relógio. 11


— Ah, sério? Só isso? — retrucou Ruth, entrando no quarto dele. Ela havia acabado de saltar da cama, mas seu longo cabelo ruivo ainda parecia perfeitamente escovado. — Da próxima vez, por favor, tenta derrubar a outra metade do quarto para poder acordar os vizinhos também! — Ela se sentou no canto da cama dele. — Para de criar caso! Já estava na hora da gente acordar. Além do mais… — Albert parou por um momento, olhando para o céu algumas vezes. — Vocês não têm ideia do que aconteceu. O céu estava vermelho há alguns minutinhos. Totalmente vermelho. — Você precisa parar de ver esses filmes de terror, Albert — aconselhou Ruth. — Não tem nada a ver com filme — reagiu Albert. — Tem sim. Filme de terror faz a gente perder a noção do que é real — disse Victor pondo a raquete de tênis no chão. — Então, foi aquele mesmo sonho novamente? Albert assentiu e virou o rosto para olhar um desenho na parede. Pegou um lápis em sua mesinha e cuidadosamente retocou a sobrancelha grossa da imagem que fazia do rosto que continuava aparecendo em seus sonhos. — É... a mesma situação e o mesmo cara… — Ele disse algo diferente desta vez? — perguntou Sarah, intrigada. — Não, mãe, mas… quando eu vi o céu vermelho eu ouvi a voz dele na minha cabeça... dizendo... “Gaia”. — Estou começando a ficar preocupada com você, moleque. — Victor passou a mão no cabelo de Albert. — Vá se vestir para a escola. Eu vou tomar um banho... — Hoje é o grande dia! — comemorou Sarah, beijando Victor. 12


— Você vai assistir à cerimônia, certo, querida? — Victor prendeu Sarah em seus braços. — Nunca que eu perderia meu marido ganhando uma medalha do prefeito! — ela respondeu. — Astrônomo do ano! — exclamou Ruth, pegando uma página amarrotada do jornal no criado-mudo e apontando uma foto de Victor. — Parece bem importante, pai, tão importante que eu devo ir também. — Você vai para a escola, mocinha! — declarou Victor, saindo do quarto. — Então, mãe… — Ruth puxou a mãe para se sentar ao lado dela na cama. — Você deixa eu me mudar para o andar de baixo agora que o Albert está ficando maluco? Eu posso até ter um ataque do coração da próxima vez em que ele me acordar assim. O tom exagerado de Ruth provocou risadas em Sarah, mas ela parou assim que notou a expressão angustiada de Albert. — Sabe, filho, seu avô me contava sobre... céus vermelhos... Sarah nunca escondeu sua fascinação pelo pai. Sempre o descrevia orgulhosamente como inteligente e carinhoso, profundamente ligado à natureza. Infelizmente, ela havia perdido os pais bem moça, mas herdou o amor deles por todas as coisas vivas, cuidando do jardim e trabalhando de voluntária em vários abrigos de animais. — Meu pai costumava dizer que céus vermelhos são um sinal de que grandes acontecimentos estão a caminho... — Sarah continuou. — Grandes acontecimentos estão a caminho? Isso parece bom! Talvez as meninas finalmente deixem você conversar com elas. — Ruth deu um soquinho no ombro de Albert. 13


— Talvez… — ele sorriu, pensando nas possibilidades. — Quanto antes você se vestir, mais cedo vai descobrir. Gaia pode ser o nome da sortuda! — Sarah o encorajou, abrindo seu sorriso contagioso. — A sortuda nerd — respondeu Ruth, deixando o quarto para se arrumar.

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