Os Adelfos
TE RÊN CIO EDIÇÃO BILÍNGUE
Adelphoe
C L Á S S I C A
Tradução
Rodrigo Tadeu Gonçalves
Públio Terêncio Afro
TE RÊN CIO Os Adelfos Adelphoe
EDIÇ ÃO BILÍNGUE
tradução, notas e paratextos
Rodrigo Tadeu Gonçalves prefácio
Guilherme Gontijo Flores
C L Á S S I C A
Copyright © 2020 Autêntica Editora Título original: Adelphoe Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora Ltda. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
COORDENAÇÃO DA COLEÇÃO CLÁSSICA, EDIÇÃO E PREPARAÇÃO
Oséias Silas Ferraz
CAPA E PROJETO GRÁFICO
Diogo Droschi DIAGRAMAÇÃO
EDITORAS RESPONSÁVEIS
Cecília Martins Guilherme Fagundes
Rejane Dias Cecília Martins REVISÃO
Bruna Emanuele Fernandes Lúcia Assumpção Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Afro, Públio Terêncio, 185 a.C.-159 a.C Os Adelfos / Públio Terêncio Afro ; com introdução, notas e posfácio do tradutor Rodrigo Tadeu Gonçalves. -- Belo Horizonte : Autêntica, 2020. -- (Coleção Clássica ; v. 9 / coordenação Oséias Silas Ferraz) Edição bilíngue: português/inglês. ISBN 978-85-513-0628-4 1. Teatro latino (Comédia) - História e crítica 2. Teatro (Literatura) I. Gonçalves, Rodrigo Tadeu. II. Título III. Série. 19-28290 Índices para catálogo sistemático: 1. Teatro : Literatura latina 872 Maria Alice Ferreira - Bibliotecária - CRB-8/7964
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A Coleção Clássica
A Coleção Clássica tem como objetivo publicar textos de literatura – em prosa e verso – e ensaios que, pela qualidade da escrita, aliada à importância do conteúdo, tornaram-se referência para determinado tema ou época. Assim, o conhecimento desses textos é considerado essencial para a compreensão de um momento da história e, ao mesmo tempo, a leitura é garantia de prazer. O leitor fica em dúvida se lê (ou relê) o livro porque precisa ou se precisa porque ele é prazeroso. Ou seja, o texto tornou-se “clássico”. Vários textos “clássicos” são conhecidos como uma referência, mas o acesso a eles nem sempre é fácil, pois muitos estão com suas edições esgotadas ou são inéditos no Brasil. Alguns desses textos comporão esta coleção da Autêntica Editora: livros gregos e latinos, mas também textos escritos em português, castelhano, francês, alemão, inglês e outros idiomas. As novas traduções da Coleção Clássica – assim como introduções, notas e comentários – são encomendadas a especialistas no autor ou no tema do livro. Algumas traduções antigas, de qualidade notável, serão reeditadas, com aparato crítico atual. No caso de traduções em verso, a maior parte dos textos será publicada em versão bilíngue, o original espelhado com a tradução. Não se trata de edições “acadêmicas”, embora vários de nossos colaboradores sejam professores universitários. Os livros são destinados aos leitores atentos – aqueles que sabem que a fruição de um texto demanda prazeroso esforço –, que desejam ou precisam de um texto clássico em edição acessível, bem cuidada, confiável. Nosso propósito é publicar livros dedicados ao “desocupado leitor”. Não aquele que nada faz (esse nada realiza), mas ao que, em meio a mil projetos de vida, sente a necessidade de buscar o ócio produtivo ou a produção ociosa que é a leitura, o diálogo infinito. Oséias Silas Ferraz [coordenador da coleção]
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PREFÁCIO
Guilherme Gontijo Flores
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INTRODUÇÃO
Rodrigo Tadeu Gonçalves
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OS ADELFOS
41 Ato I 51 Ato II 63 Ato III 83 Ato IV 107 Ato V 133 POSFÁCIO Comédia latina: um modelo de tradução e de teatro não aristotélico Rodrigo Tadeu Gonçalves
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Prefácio Guilherme Gontijo Flores
Fala-se hoje, muito, da poética da prosa, fala-se bem de como parece não haver definição clara que marque os limites entre o que seria prosaico e o que seria poético nas escritas; vemos experimentos constantes na poesia e na tradução que tentam demonstrar o lugar do não poético na poética e vice-versa, numa relação cada vez mais complexa de leituras e desleituras; enfim, nós ampliamos, e muito, as possibilidades da poesia nos últimos dois séculos, mas penso que persistimos em seguir sem reparar nas poéticas da comédia e, mais precisamente, na poesia da comédia. Causa disso é, em parte, o desprestígio constante da comédia como gênero sério – fazer rir é uma arte difícil, mas pouco creditada num mundo cristão, tanto que ainda pouco pensamos no porquê da comédia na Commedia de Dante – pelo menos desde a tradição manuscrita da Poética de Aristóteles, que nos chegou sem a parte dedicada aos poetas cômicos, um ponto que seria fundamental para desenvolvermos uma história do pensamento sobre o assunto. Parte disso pode estar na nossa dificuldade de entender as piadas e os códigos do riso do passado ou de culturas distantes – o gozo da piada é compartilhar imediatamente de um jogo, por vezes, sutil, por vezes escancarado, de modo que a nota de rodapé é quase sempre o túmulo do riso. Mas, mais que tudo que se diga em termos gerais, penso que há dois motivos mais recentes que impedem a fruição de uma comédia poética. Em primeiro lugar, o teatro contemporâneo pouco pensa nas potencialidades do verso encenado – talvez T. S. Eliot tenha sido o último grande dramaturgo a se arriscar na lida do verso, livre, este que não é livre a nenhum poeta sério – e pouco se preocupa em procurar versões em verso das comédias do passado, tanto que Shakespeare, o comediógrafo, ainda tende a nos ser um ilustre desconhecido. Em segundo lugar,
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não temos mesmo uma tradição da tradução da comédia em verso, da comédia como poesia – há exceções recentes que confirmam a regra, tais como As Rãs de Aristófanes por Trajano Vieira, O doente imaginário de Molière por Leo Gonçalves, etc. –, nós não temos ainda uma tradição de ver poesia na comédia, por isso consideramos o verso da comédia como um apêndice incômodo, um ornamento inútil do riso. Em resumo, não vemos nem a poética no cômico nem o cômico na poética, fora os casos de poetas satíricos como Gregório de Matos, ou Bocage, mas estes não escreviam comédias. E mais, as traduções prosaicas que imperam nesta seara são, na maior parte, uma erva daninha contra o riso, um remédio em favor da monotonia. Daí a importância constante de reabilitarmos a tradução como espaço da discussão crítica, ou melhor, como espaço em que se reencena o riso em poesia. Diante desse cenário raro do riso poético é que aparece, agora, tarde antes que nunca, a tradução d'Os Adelfos de Terêncio, realizada por Rodrigo Tadeu Gonçalves. Dizer que temos aqui poesia seria pouco, dizer que se trata de uma chance de riso trans-histórico ainda seria pouco: a aventura tradutória de Gonçalves é a de tentar simultaneamente o estranhamento de lermos uma peça escrita em latim no século II a.C., para agora, em português do século XXI que ecoa e se desvia ao latim; é o risco de, mesmo na comédia, evitar a naturalização tradutória da transparência facilitadora. No caso da poesia de Terêncio, trata-se de um riso fino, muitas vezes sutil; nada de tortas na cara, cascas de banana, trocadilhos em artilharia, nada das gargalhadas mais imediatas; trata-se de um riso atento de que lê e vê e ouve também nas entrelinhas. Não chega ao siso dos sisudos, mas é uma poética que gira em torno de risos discretos que, por vezes, irrompem às gargalhadas da plateia. A tradução de Rodrigo Gonçalves nos demanda o mesmo, pensar e rir, ao mesmo tempo, pensar na possibilidade de vermos essa peça agir no corpo. Daí o sonho do tradutor de teatro, o de ver-se traduzido em cena, quando o gesto, o corpo desdobra as potencialidades do texto aqui vertido em verso, quando a poíesis da poesia vira potência do corpo cômico do ator. O texto está aqui. Cabe aos leitores performá-lo, na mente, nos atos. Dar-se ao direito do riso.
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Introdução Rodrigo Tadeu Gonçalves
Esta introdução visa apenas apresentar alguns temas e questões principais sobre a peça que ora apresentamos em tradução. O público a que esta tradução se destina é preferencialmente heterogêneo, e, portanto, a introdução poderá servir tanto a interessados em literatura antiga ou em teatro em geral quanto a especialistas. Ao final, apresento uma bibliografia efetivamente acadêmica para os interessados em aprofundar-se em Terêncio.
Vida e obra Suetônio (séc. I-II d.C.), em sua Vita Terentii, preservada por Donato (séc. IV d.C.), famoso comentador das comédias de Terêncio, é uma das fontes mais importantes a respeito da vida de Publius Terentius Afer. O poeta teria nascido em Cartago em 195/4 a.C. (ou 185/4, conforme variações nas edições do próprio Suetônio) e teria sido levado bem jovem a Roma como escravo do senador Terentius Lucanus, que o educou e o libertou, dizem as fontes, em virtude de sua beleza. Terêncio teria sido amigo íntimo de Cipião Africano e Gaio Lélio, generais e políticos importantes da época das Guerras Púnicas. Por conta dessa amizade, reputa-se a Terêncio a participação no chamado círculo dos Cipiões, composto por figuras públicas importantes interessadas em cultura helênica, literatura, ciências, entre outros. Há, no prólogo da peça aqui apresentada, uma referência ao fato de que o poeta sofria acusações de emprestar seu nome a esses poderosos, mas as referências textuais do próprio poeta e os testemunhos antigos não são claros quanto à natureza da relação do poeta com eles. Terêncio compôs seis peças que foram apresentadas nos festivais públicos em Roma entre 166 e 160 a.C., e, depois disso, os biógrafos relatam que ele teria empreendido uma viagem à Grécia, da qual
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jamais retornou. Mais especificamente, supõe-se que a viagem tenha sido feita em busca de inspiração e mais material para compor suas comédias. Suetônio relata que Terêncio morreu enquanto retornava, carregando novas peças traduzidas do seu modelo preferido, o grego Menandro (algumas fontes sugerem que ele tenha composto 108 novas comédias nessa viagem, o que parece bastante improvável). Segundo o biógrafo, a morte pode ter se dado em virtude de uma grande tristeza que acometeu o poeta ao ter perdido suas peças durante a viagem. A data de sua morte também é incerta, mas convenciona-se notar o ano 159 também em virtude da data da última apresentação de uma peça sua nos Ludi, 160, e da viagem que empreende logo depois. Terêncio teria vivido, portanto, 25 ou 35 anos, idade normalmente mais bem-aceita em virtude da plausibilidade. Sua carreira literária e teatral parece ter sido bastante conturbada. Seus antecessores famosos da Comédia Nova latina (também chamada de comoedia palliata, em alusão ao figurino típico da Comédia Nova grega, o pallium), Tito Mácio Plauto (c. 254-184 a.C.) e Cecílio Estácio (c. 220166), por exemplo, já tinham levado o gênero a níveis de excelência e popularidade enormes, e, uma vez que toda a produção dramática da comédia latina envolvia traduções, reescritas e adaptações de comédias gregas dos autores dos séculos IV-III a.C., como Menandro, Dífilo, Apolodoro de Caristo, Filêmon, entre outros (dos quais temos apenas fragmentos, com exceção de Menandro, com a descoberta de porções substanciais de algumas comédias em papiros no início do século XX1), testemunhos do próprio poeta em seus prólogos, como em Eun. 35-41,2 dão conta de que a escassez de material novo a ser traduzido tornava difícil a vida dos comediógrafos de sua geração (uma peça não poderia ser traduzida e apresentada duas vezes em latim, nos festivais, por autores diferentes). Além disso, o poeta parece ter sofrido acusações de detratores cuja identidade não é facilmente reconhecida, já que o poeta indica-os em seus prólogos polêmicos de maneira bastante vaga – a crítica supõe, a partir de comentários posteriores, que se tratava do poeta cômico mais velho Lucius Lanuvinus.3 Esses detratores teriam acusado Terêncio de vários tipos de imposturas literárias, entre elas, o furtum (tradução de uma passagem grega que já havia sido representada em Roma, um tipo de plágio), e a já mencionada relação suspeita com os poderosos.
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No entanto, novamente segundo Suetônio, Terêncio, cuja extração social não permitia ascensão fácil, teria conseguido acesso ao grande Cecílio Estácio, já idoso (os problemas com essa narrativa envolvem justamente o fato de que ela teria se passado em 166 a.C. e Cecílio teria morrido em 168), durante um banquete, a fim de ler sua primeira peça, Andria. De início, por conta de não estar vestido adequadamente, Terêncio teve que sentar-se num banquinho, longe do grande mestre. Após alguns versos, Cecílio o teria convidado a sentar-se à mesa junto com ele. Essas narrativas biográficas incertas, ainda que provavelmente falsas ou, ao menos, ficcionalizadas, dão conta de uma vida bastante única para um ex-escravo que se torna uma celebridade. Apesar de ter tido problemas com o público (a peça Hecyra teve que ser encenada três vezes, pois, nas duas primeiras, o público todo teria debandado a fim de assistir a atrações mais empolgantes dos festivais), Terêncio teria ganhado grande fama e muito dinheiro, por exemplo, com a peça Eunuco, que foi encenada duas vezes no mesmo dia. Suas seis peças, como já dito, foram encenadas em festivais públicos romanos, como os Ludi Megalenses e os Ludi Romani, bem como em festivais fúnebres em honra de pessoas públicas importantes. Assim, segue-se a lista de suas peças, com datas e local de apresentação: Andria (A moça de Andros) 166 a.C. Ludi Megalenses Hecyra I (A sogra) 165 a.C. Ludi Megalenses Heauton timoroumenos (O autopunidor) 163 a.C. Ludi Megalenses Eunuchus (O eunuco) 161 a.C. Ludi Megalenses Phormio (Formião) 161 a.C. Ludi Romani Adelphoe (Os irmãos, Adelfos) 160 a.C. Ludi funebres (Aemilius Paulus) Hecyra II (A sogra, segunda apresentação) 160 a.C. Ludi funebres (Aemilius Paulus) Hecyra III (A sogra, terceira apresentação) 160 a.C. Ludi Romani
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Terêncio e a Comédia Nova Como todos os outros autores da palliata, Terêncio usou como modelos peças dos autores da Comédia Nova grega. De suas peças, quatro provêm de Menandro e duas de Apolodoro de Caristo (com inserções de passagens de Dífilo, por exemplo, nos Adelfos). Como de costume na palliata, os personagens mantêm nomes gregos, figurino grego, a ação se passa em cidades gregas e os cenários são geralmente uma rua pública diante de duas ou três casas, com passagens para o backstage pelas portas das casas e duas saídas laterais, geralmente representando um porto e o fórum da cidade. Uma das inovações principais de Terêncio foi a exclusão do argumentum (espécie de resumo do enredo) dos prólogos, que foram substituídos por polêmicas literárias em que o poeta comenta seu processo de composição, faz referência aos modelos, defende-se de acusações (como a de contaminatio, termo que geralmente é interpretado como a mistura de mais de uma peça grega na peça resultante, mas que, no período, tinha simplesmente o sentido de “estragar” alguma coisa, ou a de furtum, ou mesmo de ter sido ajudado por seus amigos poderosos na composição de suas peças). O poeta defende-se em estilo retórico, com argumentações de sucesso variado, sem jamais mencionar o nome dos detratores. Os enredos da Comédia Nova grega normalmente tratam de situações típicas da classe favorecida, apresentando jovens de vinte e poucos anos em suas tentativas de enganar seus pais a fim de conseguirem realização amorosa, o que leva invariavelmente a um final feliz. Diferentemente da Comédia Antiga de Aristófanes, por exemplo, em que o humor se baseia na exposição de personagens famosos reais, como poetas, políticos, filósofos, a Comédia Nova deixa de fazer alusão a figuras públicas e passa a se utilizar desses enredos familiares, criando uma espécie de mundo proto-burguês povoado de escravos, prostitutas, proxenetas, banqueiros, parasitas, formulando padrões de personagens-tipo que serão identificados por sua classe, como senex, adulescens, meretrix, matrona, leno, virgo, seruus, o que lhes dá estatuto quase universal através da criação de convenções de atuação, de linguagem, de figurino, entre outros. As situações também passam a ser convencionais, e, a partir da criação e utilização extensiva dessas mesmas convenções,
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a ser antecipadas e reconhecidas pelo público, que parecia gostar da repetição. No entanto, o esquema das convenções passa a ser cada vez mais objeto de variações mais ou menos sutis, em busca da geração de surpresas e novidades. Terêncio, escrevendo já num período de baixa na criatividade e falta de novos modelos a serem apresentados pela primeira vez, deleita-se em manipular as convenções cênicas e cômicas de modo às vezes bastante sutil, criando em sua produção um modelo de comédia menos espalhafatoso e obviamente cômico, como o de Plauto. Por isso, muitos críticos parecem preferir Plauto a Terêncio, creditando a este um tipo de éthos cômico mais comportado, menos engraçado, menos interessante, mais moralizante e sério. Conforme Terêncio passou a receber mais atenção da crítica especializada do século XX em diante,4 uma nova apreciação de sua produção pode ser vista. Um dos trabalhos recentes mais importantes a lidar com esta questão é o de Dupont e Letessier (2012), que reavaliam a produção de Terêncio a partir da seguinte premissa: Essa concepção de teatro moral e sério é problemática em muitos sentidos. Nós vimos que o teatro em Roma se inscrevia no ritual dos jogos; o fato de as representações teatrais serem oferecidas aos homens e aos deuses tornava seu sucesso necessário. Assim, a ideia de comédias que não seriam realmente cômicas, a ideia de uma palliata que não fosse cômica ou, para simplificar, que não fosse um teatro de vanguarda que rompesse com as tradições e expectativas do público é difícil de defender neste contexto (Dupont; Letessier, 2012, p. 178).
Para os autores, o contexto de produção nos ludi, os jogos ou festivais públicos em que se apresentavam comédias, mas também apresentações de pugilistas, malabaristas, entre outros, era necessariamente um contexto de performance ritualizada. O festival era público e em honra a algum deus, e, portanto, deveria ser realizado com perfeição em todas as suas etapas, pois, do contrário, não teria eficácia ritual. Sua função era criar, performar a concordia deorum (concórdia dos deuses). Assim, eles analisam a palliata como dotada de convenções a fim de se inscrever nos festivais através de uma ortopraxia lúdica, de convenções que necessariamente se instauram juntamente com
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as representações, durante a performance. No entanto, a criação do ludismo e a manutenção do ritual dependem, para eles, da variação constante dessas convenções, o que, em seus termos, constituiriam variáveis constantes.5 Quanto a Terêncio, a passagem seguinte resume a questão: “Terêncio escreve bem para um teatro codificado: ele joga ( joue6) para produzir um espetáculo que é, ao mesmo tempo, diferente e idêntico com relação ao que o público espera que ele seja” (p. 185). Assim, Terêncio inscreve-se perfeitamente na tradição ao fazer variarem as convenções, criando um espetáculo que inova ao mesmo tempo em que se mantém tradicional. Para Dupont e Letessier, “não existe modelo no sentido de um sistema normativo, e cada nova peça assemelha-se às outras sem assemelhar-se verdadeiramente” (p. 39) e “nesse sentido, toda a palliata pode ser considerada como a reescritura não apenas de uma comédia grega, mas também, e sobretudo, de uma outra comédia romana, pois dela retoma os mesmos códigos” (p. 40). Por isso, Terêncio é ao mesmo tempo conservadoramente paradigmático e revolucionariamente inovador em um gênero que é, necessariamente, convencional e iconoclasta. Suas prostitutas, por vezes, apresentam bom coração e resolvem os imbróglios dos enredos (como na Sogra), seus jovens, por vezes, são mais comedidos em seus planos de enganar seus pais e se arrependem (como, de algum modo, Ctêsifo e Ésquino, nos Adelfos), sofrem; seus escravos, em alguns casos, têm mais consideração pelos seus senhores e pelas famílias que os adotaram do que qualquer escravo em Plauto (o Geta, nos Adelfos é um exemplo paradigmático). No entanto, ao invés de gerar, com isso, uma comédia por vezes tida como melodramática, edificante, moralizante, entediante e nada engraçada, uma vez que a codificação seja compreendida e internalizada (como o era para todo o público da época), as variações atingem estatuto de enorme sofisticação, gerando, ao contrário, um tipo de comicidade mais irônica, quiçá refinada, do que a mais abertamente farsesca de Plauto, mas nunca efetivamente sem graça.
A peça: spoiler alert! Os Adelfos é uma das peças mais populares de Terêncio, uma típica representante da palliata, com suas intrigas, personagens-tipo
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e comicidade fáceis de agradar. O tema principal foi um estímulo para a boa recepção da peça: em linhas gerais, a peça trata da educação dos jovens através do contraste entre dois tipos de pais, os irmãos Micião e Dêmea, o primeiro jovial, permissivo, urbano, solteirão e o segundo, austero, viúvo, rústico, autoritário, desagradável e opositor dos amores e das liberalidades dos jovens. Ao longo da peça, Terêncio manipula por contraste o modo como a audiência percebe os dois personagens: Micião é agradável e gentil, fácil no trato, mas, ao final da peça, se depara com uma situação que coloca em xeque sua filosofia da educação libertária. Dêmea, ao contrário, é desde sua primeira aparição desagradável, criando o enredo perfeito para que ele possa ser enganado pelo escravo astuto Siro. No entanto, ao final, a revelação de que ele aparentemente sempre esteve errado em seu modo de ser e pensar faz com que Dêmea resolva se transformar (ao menos em aparência) e passe a ser amado por todos, levando Micião à miséria. Dêmea teve dois filhos, Ésquino e Ctêsifo, e deu o primeiro, mais velho, a Micião em adoção. Ctêsifo foi criado por Dêmea no campo, de acordo com as regras severas impostas pelo pai. No entanto, no desenrolar dos acontecimentos, percebe-se que os dois jovens acabam se tornando típicos adulescentes da palliata: tornam-se amantes inveterados, e Ésquino, que já engravidara Pânfila, moça pobre, criada pela mãe viúva, Sóstrata, e que não conseguiu até o momento da peça (quando o bebê está para nascer e, de fato, nasce) contar tudo para seu pai, ajuda Ctêsifo a roubar para este uma tocadora de cítara (normalmente as prostitutas na comédia são representadas como musicistas) que pertence a um leno (um proxeneta-mercador de escravos), Sanião. Tudo isso com a ajuda do típico seruus callidus (escravo sagaz) Siro, que rege a comédia como architectus doli (mestre dos enganos), ajudando os dois jovens a manter os pais afastados de suas aventuras e interferindo diretamente no roubo da prostituta. Percebe-se, então, que nenhum dos dois métodos educacionais impediu o destino inexorável de todo jovem de comédia: tornar-se um adulescens tristis ( jovem infeliz), arrebatado por alguma paixão que gera grandes dificuldades até ser resolvido ao fim, por exemplo, com um casamento.
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Quando finalmente Dêmea percebe que não estava a par de toda a verdade da peça (v. 855ss.), em um monólogo revelador e pungente, resolve mudar seu caráter e tornar-se liberal e agradável como seu irmão. A partir de então, passa a tratar todos os personagens que encontra de modo extremamente agradável e arquiteta um plano de vingança contra seu irmão Micião: primeiro, faz com que as casas de Ésquino e Pânfila, que são vizinhos, sejam unidas através da demolição do muro que as separa, o que irrita Micião. Depois, faz com que Micião aceite casar-se com a viúva Sóstrata, o que também o irrita. Adiante, consegue que Micião doe um terreno que alugava para o velho Hegião, amigo das duas famílias, e que age como conciliador na situação da gravidez (e aparente abandono de Pânfila, já que, até certo ponto da peça, todos acreditam que Ésquino roubou a prostituta do leno para si, e não para o irmão). Isso também irrita Micião. Por fim, consegue que Micião liberte o escravo Siro e sua esposa, e que lhes dê dinheiro para começarem a vida como libertos. Tudo isso irrita profundamente Micião, que, no entanto, não consegue dizer não. Ao fim, Dêmea revela que fez tudo isso para provar para Micião que sua filosofia libertária não leva a nada, apenas à ruína, e o velho ranzinza termina a peça nas graças dos filhos e do escravo Siro, que passara boa parte do enredo humilhando-o e enganando-o. Naturalmente, o que parece simples não é, de modo algum. O monólogo pungente de Dêmea, justamente em virtude de ser um monólogo, parece apresentar uma disposição legítima para transformar seu caráter, a fim de ter uma vida melhor. Dizendo essas coisas sozinho no palco, Dêmea, em princípio, por convenção dramática, não poderia estar mentindo. Mas, ao final, percebe-se que tudo não passou de uma artimanha para degolar Micião com seu próprio gládio (v. 958). Dessa forma, a vitória de Dêmea é ambígua: ao usar o gládio de Micião, ele subscreve sua filosofia de vida e assume, de forma metateatral, a persona do pater lenis, do velho bonachão. A derrota de Micião é, ao mesmo tempo, uma vitória metateatral, já que, ao fim, não é Dêmea que vence, mas a persona emprestada do outro que o derrota. Um final assim ambíguo e irônico não poderia deixar de causar grandes discussões críticas,
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como podemos resumir com as palavras de Augoustakis e Traill (2013, p. 320): Pior, a cena final zomba das convenções cômicas, da coerência temática, e da justiça poética ao mesmo tempo, quando Micião, o liberal e tranquilo, é o que recebe a punição, apesar de seu sucesso ao criar o tipo de filho – mais ou menos – que ele se dispôs a criar. Como coloca Johnson, “por que esse paradigma de humanismo clássico foi sujeitado à zombaria selvagem?” (1968, p. 171). O final tem desafiado os produtores e confundido os leitores ao longo dos séculos, incluindo adaptadores posteriores que, sem exceção, reescreveram-no a fim de eliminar a ambiguidade moral.
Creio que seja justamente esse final aberto, essa ambiguidade moral cômica que torne a peça ainda mais interessante, pois não há vencedor para o embate: se Dêmea vence Micião, quem efetivamente vence é o modo de vida de Micião, e não o autoritarismo insuportável do velho ridicularizado ao longo de toda a peça. A leitura do roubo da persona que desenvolvi acima é a mais plausível: quando Dêmea se apodera do papel dramático de Micião, do senex lenis, ele deixa de ocupar a persona de senex durus, de modo que essa posição fica vazia. Como em outras peças da palliata, essa tomada de persona esvazia o ator que a possuía, deixando-o em cena como ator sem personagem.7 Quem perde a identidade cênica é Micião, que, como ator despido de persona, é derrotado por sua antiga persona, agora em Dêmea. Deixo de lado os detalhes restantes do enredo para não estragar as poucas surpresas que restam.
Estilo e performance Como todos os autores da Comédia Nova, Terêncio escreve suas comédias em versos para serem encenados de modos diferentes. Os senários jâmbicos, adaptados dos trímetros jâmbicos gregos, eram falados sem acompanhamento musical, e são normalmente chamados de deverbia ou diverbia. Os versos jâmbicos e trocaicos mais longos, como os septenários e octonários, eram acompanhados pela música da tíbia, uma espécie de flauta cujo som estaria mais
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próximo do atual oboé8 (também chamados de recitativos ou de cantica monométricos) e, em alguns casos, supõe-se que as passagens eram também cantadas e dançadas pelos atores (geralmente passagens polimétricas em versos de tipo variados, os chamados mutatis modis cantica, abundantes em Plauto e raríssimos em Terêncio). Os atores eram todos homens, e a crítica jamais chegou a um consenso sobre o uso das máscaras. Os figurinos indicam os tipos de personagens e se compõem normalmente de peças de vestimentas gregas, como a clâmide (para os viajantes, por exemplo) e o pálio (uma espécie de manto que se usava sobre uma túnica simples). Esse estilo de representação aparentemente simples também acabava por se enquadrar no sistema fortemente codificado da palliata: os três tipos de performance acima alternavam-se em sequências maiores que formavam unidades previsíveis pela audiência. É de Marshall (2006) a proposta de que essas unidades formavam arcos performativos reconhecíveis, que, normalmente, tinham a seguinte estrutura: A (B) C A = deverbia, senários jâmbicos não acompanhados B = mutatis modis cantica (em Plauto) ou passagens longas jambotrocaicas (em Terêncio) C = recitativos (geralmente septenários trocaicos) Isso faz com que, por exemplo, praticamente todas as comédias iniciem-se deverbia (não acompanhados) e terminem em recitativos (septenários trocaicos acompanhados da música da tíbia). Esses modos de performance geralmente também correspondem a expectativas convencionais, tais como: passagens em deverbia geralmente são expositivas ou explicativas, passagens em recitativos geralmente são mais agitadas e rápidas em termos de ação e passagens em mutatis modis cantica são emocionalmente mais elevadas, parodiando, por exemplo, a tragédia. Sobre o uso desses modos de performance em Terêncio, especificamente nos Adelfos, Moore (2012, p. 354) afirma: Ao longo da maior parte da peça, [Terêncio] associa ambos os jovens apaixonados a octonários jâmbicos, geralmente reservando os trocaicos para ações, palavras e personagens que se opõem à união
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dos adulescentes com a mulher amada. Essa dicotomia suplementa a dicotomia padrão entre os amantes acompanhados [pela tíbia] e personagens de bloqueio desacompanhados. [...] Os amantes e a família de Pânfila (exceto Hegião) cantam a maior parte de seus versos, a maior parte deles em octonários jâmbicos, e não em trocaicos. Dêmea fala a maior parte de seus versos e quase nunca canta em octonários trocaicos. Micião e Siro, ainda que sejam aliados dos amantes, passam a maior parte de seu tempo no palco com Dêmea e – no caso de Micião – apresentando o monólogo expositivo de abertura, então eles falam mais do que cantam e cantam mais [septenários] trocaicos do que octonários jâmbicos. Sânio canta a maior parte de seus versos e canta mais octonários jâmbicos do que [septenários] trocaicos porque ele passa quase todo o seu tempo de palco dialogando com Ésquino e Siro.
Apesar de longa, a passagem resume basicamente toda a estrutura musical-performativa dos Adelfos e exemplifica a afirmação anterior de que havia relação direta entre o modo de performance (falado, cantado com instrumento musical ou cantado e dançado) e a estrutura da peça. Isso não se restringe aos Adelfos, naturalmente, mas a análise pontual de Moore nos poupa bastante trabalho.
A tradução A partir do exposto na seção anterior, torna-se mais fácil justificar uma tradução que busque uma emulação rítmico-performativa da peça de Terêncio. A tradução que ora apresentamos, que teve início em 2011 e que se completou em sua primeira versão em 2012, pretende preencher várias lacunas na recepção de Terêncio em língua portuguesa: não há, até onde posso afirmar, nenhuma tradução que se diga poética das obras do poeta, com exceção da tradução em decassílabos do português Leonel da Costa Lusitano das peças Andria, Eunuco, Heautontimorumenos e Adelfos publicada em 1778.9 Mesmo traduções em prosa são pouco numerosas e buscam, em geral, produzir comédias que, creio, não conseguem dar conta dos elementos expostos na seção anterior, fundamentais para a apreciação do gênero. Assim, o que aqui se apresenta é uma comédia em português escrita em versos não convencionais, que visam emular o ritmo e a
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performance da peça latina através de sistemas rítmicos que podem ser levados ao palco.10 Os princípios são simples: para os senários jâmbicos, procurei criar um verso com seis ou sete unidades rítmicas jâmbicas fundadas em oposições de sílabas átonas e tônicas. A variação no número de unidades tenta solucionar um problema complexo, que deriva do fato de que uma unidade jâmbica poderia ser substituída por várias unidades métricas diferentes, como os pés espondeus (duas longas), anapestos (duas breves seguidas por uma longa), dátilos (longa seguida por duas breves), tríbracos (três breves), proceleusmáticos (quatro breves), com exceção dos troqueus (longa seguida de breve), o que seria muito difícil de resolver em português sem eliminar a identidade rítmica do verso. O modelo de substituição é apenas aproximativo, uma vez que o latim, como o grego, contava com vogais longas e breves, que fundamentavam a distinção rítmica, sem que, necessariamente, as posições poéticas longas correspondessem às sílabas tônicas ou viceversa. No entanto, em performance, mesmo as passagens em que uma sílaba que deve ser lida como tônica possa soar um tanto forçada pela leitura em batidas muito marcadas podem ser suavizadas sem prejuízo da sensação do ritmo jâmbico. Vejamos um exemplo: MI: Escuta um pouco se não te incomoda, Dêmea. (seis tônicas) Primeiro, se o que te morde é o gasto todo (seis tônicas) que eles fazem, peço que contigo penses: (seis tônicas) outrora tu cuidavas deles dois com teus recursos (sete tônicas) então pensavas que terias o suficiente (sete tônicas) 810 em bens e achavas que eu não me casaria. (seis tônicas)
Certas passagens em que as tônicas parecem muito forçadas numa leitura mecânica, como em “então pensavas que terias o suficiente”, com sílabas normalmente átonas como os monossílabos “que” e “o” e a subtônica “fi” em “suficiente”, podem ser realizadas em performance de maneira mais suave, mantendo-se, em uma leitura mais sutil, as outras tônicas, sem que a força jâmbica se perca. O mesmo ocorre, por exemplo, com o pentâmetro jâmbico em inglês, o metro mais comum da língua inglesa, que nem sempre tem as cinco tônicas com a mesma força. O famoso “to be or not to be, that is the question” não precisa ser lido ou performado com a mesma força nas tônicas
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pares: “to be or not to be, that is the question”. Realizações mais sutis e mais eficientes podem envolver apagamento ou suavização de tônicas e deslocamentos, como na seguinte possibilidade de performance: “to be or not to be, that is the question”. Dessa forma, esta tradução não pretende guiar o leitor ou o ator a uma leitura maçante que force andamentos totalmente jâmbicos ou trocaicos que possam gerar estranhamento, mas, ao contrário, criar a percepção de que o teatro em versos pode soar bem em performance, num experimento rítmico que, de alguma forma, possibilite a fruição rítmica em performance. Por isso, recomendo a leitura em voz alta ou a montagem desta peça, que, infelizmente, ainda não foi realizada. Para os outros tipos de versos, segui o mesmo princípio: para o septenário trocaico, sete ou oito pés trocaicos; para o octonário jâmbico, oito ou nove pés jâmbicos; para o octonário trocaico, oito ou nove trocaicos. A única passagem em mutatis modis cantica desta peça (de um total de duas em todo o corpus de Terêncio) é o lamento de Ésquino em 610-7, composto pela mistura de versos líricos de tendência coriambo-crética (– u u – u –11), de extensões variáveis. Para marcar a diferença entre esta passagem e o restante da peça, utilizei-me do recurso ao espaço tipográfico à maneira da poesia moderna, mantendo, no entanto, células coriâmbicas (– u u –) e variações de modo que a passagem pudesse ser cantada.12 dói-me tanto meu coração: como pode de improviso um mau tão grande em mim cair? como não sei nem que farei nem como agir certo não é! os membros de medo débeis estão; a mente me foge tanto temor, no coração plano nenhum cabe, como vou desta desgraça escapulir? tanta suspei- ta agora de mim aparece não sem razão: Sóstrata crê- me a mim mesmo tê-la comprado – a citarista – isso a velha me disse.
610-617
ah!
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Aqui, a correspondência rítmica é bem mais impressionística, apoiada em sequências básicas coriâmbicas em variação com passagens créticas. O performer pode, por exemplo, cantar “mente me foge” com a última átona tão suavemente que ela não conte como um tempo do compasso, como Nick Cave faz quando repete a estrutura rítmica crética apoiada na estrutura melódica em seu refrão: “Foi na cruz / Foi na cruz / Que um di(a) / Seus peca(dos) / castiga(dos) / em Jesus”. O exemplo serve para balizar as possíveis performances que esta peça possa suscitar, e não como guia fixo de leitura. Assim, o ritmo passa a ser um tipo de variável constante, como defendem Dupont e Letessier (2012) para as outras convenções da palliata. Quanto à dicção poética, procurei explicitamente um tipo de literalismo não calcado no princípio ultrapassado de fidelidade tradutória. Um literalismo como projeto de tradução. Assim, a sintaxe é muitas vezes rebuscada propositalmente, para que o leitor da comédia em português sinta um certo gosto de latim, de estranho, de estrangeiro. Para que a comédia não seja lida como se tivesse sido escrita em português no século XXI. Tendências similares foram aplicadas ao vocabulário, sem que fosse deixado de lado o vocabulário contemporâneo mais cômico, a fim de variar o tom. A tradução segue verso a verso o texto latino, procurando manter a ordem da informação apresentada. Esse estranhamento, no entanto, não deve causar dificuldades ao leitor médio, nem, espero, ao público teatral. A tradução se propõe a ser efetivamente o script de uma peça de teatro, de uma comédia, e o literalismo poético, junto com a emulação rítmica, pretendem suscitar uma apreciação estética da peça como poesia, sem jamais deixar de ser teatro. Assim, este é o meu Terêncio, mais um Terêncio, que espera, inclusive, estimular mais tradutores a produzir mais recepções deste poeta como poeta.
Bibliografia comentada Obras gerais sobre Terêncio Antony Augoustakis e Ariana Traill editaram o volume A Companion to Terence, publicado pela Wiley-Blackwell em 2013. Contando com uma introdução e 25 capítulos, trata-se de bibliografia fundamental para os interessados em
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aprofundar-se em Terêncio. Todos os capítulos sugerem leituras adicionais e apresentam análises bastante atualizadas. Sander Goldberg publicou o clássico Understanding Terence em 1986, com reedição pela Princeton Legacy Library em 2014. Trata-se de uma obra fundamental para entender o papel de Terêncio na comédia palliata, representativa da nova onda de crítica sobre Terêncio.
Obras gerais sobre a comédia palliata W. Beare, The Roman Stage: A Short History of Latin Drama in the Time of the Republic, de 1950, é um clássico sobre a comédia latina, apesar de um pouco datado. George Duckwork, The Nature of Roman Comedy, apesar de sua edição original de 1952, é bastante atual no posicionamento a respeito de questões centrais da palliata. Richard Hunter, A comédia nova da Grécia e de Roma, publicado originalmente em inglês em 1985 e publicado pela primeira vez em português em 2010 pela Editora da UFPR, com tradução de Rodrigo Tadeu Gonçalves, Guilherme Gontijo Flores e um grupo de alunos como resultado de uma disciplina de graduação, é a única obra de caráter mais geral sobre a Comédia Nova, tanto grega quanto latina, a ter sido publicada em português. Aurora López e Andrés Pociña, Comedia Romana, é uma excelente e abrangente introdução à palliata e a outros gêneros dramáticos de Roma, publicado originalmente em espanhol em 2007.
Livros sobre performance, música e convenções dramáticas da palliata Njall Slater, Plautus in Performance: The Theater of the Mind, publicado originalmente em 2000, apesar de focar em Plauto, trata de questões centrais sobre teatralidade, performance, metateatralidade e afins na comédia romana. C. W. Marshall, Stagecraft and Performance of Roman Comedy, publicado originalmente em 2006, é um livro fundamental para as questões de performance da comédia romana. Marshall analisa todas as dimensões do teatro da palliata, de figurino à música, passando pela estrutura do palco, atores, máscaras, etc. Timothy Moore, Music in Roman Comedy, publicado originalmente em 2012, é o livro mais completo e atualizado sobre métrica, ritmo, música, poeticidade e afins na palliata. Florence Dupont e Pierre Letessier, Le théâtre romain, publicado em 2012, traz uma das mais importantes reavaliações das questões ligadas à codificação e ao espetáculo não apenas na palliata, mas também na tragédia romana e em outros gêneros dramáticos da Roma antiga. Marion Faure-Ribreau, Pour la beauté du jeu: La construction des personnages dans la comédie romaine (Plaute, Térence), publicado em 2012, resultado da tese de doutorado
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da autora, orientado por Florence Dupont, inscreve-se na tradição do livro de Dupont e Letessier, focalizando, no entanto, a construção dos personagens e a noção de persona cômica como algo negociável ao longo da encenação.
Edições e comentários das peças de Terêncio Robert Kauer e Wallace Lindsay, P. Terenti Afri Comoediae, publicado em 1926 pela série Oxford Classical Texts é uma das edições mais importantes do texto latino das seis peças. Foi a edição que serviu de base para esta tradução. R. H. Martin, Terence: Adelphoe, é uma edição com comentários publicada pela série Cambridge Greek and Latin Classics em 1976. Trata-se de uma das edições mais importantes e confiáveis do texto com comentário extensivo das passagens latinas. John Barsby, Terence (dois volumes), da Biblioteca Loeb, publicado em 2002, traz traduções e edições atualizadas de todas as comédias de Terêncio.
Bibliografia sobre tradução rítmica de textos antigos Os seguintes livros, artigos, teses e dissertações apresentam um panorama da questão da tradução rítmica de literatura antiga hoje, especialmente no Brasil. ANTUNES, C. Leonardo B. Ritmo e sonoridade na poesia grega antiga: uma tradução comentada de 23 poemas. São Paulo: Humanitas/Fapesp, 2011. ANTUNES, C. Leonardo B. Metro e rítmica nas Odes Píticas de Píndaro. São Paulo: USP, 2013. Tese (Doutorado em Letras Clássicas), Faculdade de Letras, Universidade de São Paulo, 2013. BRUNET, Philippe (Ed.). Homère en Hexamètres. Revue Anabases, vol. 20, 2014. CARDOSO, Leandro Dorval. A vez do verso: estudo e tradução do Amphitruo, de Plauto. Curitiba: UFPR, 2012. Dissertação (Mestrado em Letras) – Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Programa de Pós-Graduação em Letras, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2012. FLORES, Guilherme Gontijo. Tradutibilidades em Tibulo. Scientia traductionis, n. 10, 2011. FLORES, Guilherme Gontijo. (Ed.). Tradução de Poesia. Scientia Traductionis, v. 10, 2011. FLORES, Guilherme Gontijo. Uma poesia de mosaicos nas Odes de Horácio: tradução e comentário. São Paulo, USP, 2014. Tese (Doutorado em Letras Clássicas) – Faculdade de Letras, Filosofia e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014. FLORES, Guilherme Gontijo; GONÇALVES, Rodrigo Tadeu. Polimetria latina em português. Revista Letras, Curitiba, v. 89, 2014.
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FLORES, Guilherme Gontijo; GONÇALVES, Rodrigo Tadeu. Três Traduções Rítmicas: Lucrécio, Catulo e Horácio. Revista Rónai, v. 2, n. 1, 2014. GONÇALVES, Rodrigo Tadeu. Traduções Polimétricas de Plauto: em Busca da Polimetria Plautina em Português. Scientia Traductionis, n. 10, 2011. GONÇALVES, Rodrigo Tadeu. L’hexamètre au Brésil: la tradition de Carlos Alberto Nunes. Revue Anabases, v. 20, 2014. GONÇALVES, Rodrigo Tadeu. Traduire la comédie romaine en vers rythmiques portugais. In: COLLOQUE VOIX, GESTE ET RYTHME DANS LA POÉSIE ANTIQUE ET MODERNE. Rouen, França, 2015. GONÇALVES, Rodrigo Tadeu. Untimely Translations: The Ideology of Unusual Rhythms in Modern Translations of The Classics. In: CONFERÊNCIA UNTIMELINESS/EXTEMPORANEIDADES, 2015, Londres/Princeton. Anais… Londres/Princeton: UFMG/UCL, 2015. GONÇALVES, Rodrigo Tadeu (Coord.) et al. Uma tradução coletiva das Metamorfoses 10.1-297 com versos hexamétricos de Carlos Alberto Nunes. Scientia Traductionis, n. 10, 2011. GONÇALVES, Rodrigo Tadeu; CARDOSO, Leandro. A poética da comédia nova Latina. In: Escamandro. São Paulo: Patuá, 2014. GONÇALVES, Rodrigo Tadeu; VIEIRA, Brunno Vinicius Gonçalves. Dossiê Tradução dos Clássicos em Português. Revista Letras, v. 89, 2014. GONÇALVES, Rodrigo Tadeu; FLORES, Guilherme Gontijo. Translation as Classical Reception: “Transcreative” Rhythmic Translations in Brazil. Framing Classical Reception Studies. Leiden: Brill. (No prelo.) GONÇALVES, Rodrigo Tadeu et al. Galiambos brasileiros: tradução e performance de Catulo 63. Translation, v. 10, 2015. MARKOWICZ, André. Le livre de Catulle. Lausanne: L’âge d’homme, 1985. NOGUEIRA, Érico. Verdade, contenda e poesia nos Idílios de Teócrito. São Paulo: Humanitas, 2012. NOGUEIRA, Érico. Sob a batuta de Horácio: metros horacianos em português, alemão e inglês. In: SIMPÓSIO DE POESIA AUGUSTANA. São Paulo, 2015. Inédito. OLIVA NETO, João Angelo. The Portuguese Dactylic Hexameter: An Overview. GONÇALVES, Rodrigo Tadeu (Ed.). New Voices in Classical Reception Studies. Proceedings of the panel Classical Tradition in Brazil: Translation, Rewriting and Reception. The Open University, Inglaterra. (No prelo.) OLIVA NETO, João Angelo; NOGUEIRA, Érico. O hexâmetro dactílico vernáculo antes de Carlos Alberto Nunes. Scientia Traductionis, Florianópolis, n. 13, p. 295-311, ago. 2013.
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TÁPIA, Marcelo. Diferentes percursos de tradução da épica homérica como paradigmas metodológicos da recriação poética: um estudo propositivo sobre linguagem, poesia e tradução. São Paulo: USP, 2012. Tese (Doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012.
Outras obras citadas na introdução: AUGOUSTAKIS, Antony; TRAILL, Ariana. Introduction. In: A Companion to Terence. Oxônia, Reino Unido: Blackwell, 2013. BROWN, Peter. Terence and the Greek New Comedy. In: A Companion to Terence. Oxônia, Reino Unido: Blackwell, 2013. GONÇALVES, Rodrigo Tadeu. Performative Plautus: Sophistics, Metatheater and Translation. Tyne, Reino Unido: Cambridge Scholars Publishing, 2015.
Notas 1 2
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Cf. Brown (2013, p. 25 e referências ali contidas). Esta passagem é brilhante, especialmente por sua conclusão: “quod si personis isdem huic uti non licet:/ qui mage licet currentem servom scribere,/ bonas matronas facere, meretrices malas,/ parasitum edacem, gloriosum militem,/ puerum supponi, falli per servom senem,/ amare odisse suspicari? denique/ nullumst iam dictum quod non dictum sit prius.” (“Mas se não lhe for lícito utilizar as mesmas personas: o que mais ele pode escrever senão um escravo atarefado, fazer matronas boas, meretrizes más, parasitas esfomeados, soldados fanfarrões, crianças trocadas, um velho ser enganado por um escravo, amar, odiar, suspeitar? Enfim, não há nada já dito que não tenha sido dito antes.”) Cf. Brown (2013: 20, por exemplo), Duckworth (1952, p. 61-65), entre outras referências. Como exemplo, cito a seção “Terentian Scholarship”, de Augoustakis e Traill (2013), que apresenta a profusão de trabalhos recentes e importantes sobre o poeta, alguns dos quais cito na bibliografia desta introdução. Veja-se, especialmente, as páginas 39-41 do livro citado. Sobre a relação do termo ludus ( jogo, brincadeira, engano, peça de teatro, dança, festival, entre outros) e a questão aqui colocada, veja-se Dupont e Letessier (2012, p. 20-21). Como defendo em Gonçalves 2015a com relação a Sósia no Anfitrião de Plauto. Dupont e Letessier (2012) e Faure-Ribreau (2012) desenvolvem esse tema mais profundamente a partir de exemplos de muitas outras peças. As referências mais importantes e completas sobre metro, música e performance em Plauto e Terêncio são Marshall (2006) e Moore (2012). Este último apresenta, inclusive, um capítulo inteiro dedicado aos Adelfos.
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Veja-se, a respeito das traduções poéticas da palliata, Cardoso (2012), Gonçalves (2011, 2015a), Flores e Gonçalves (2014a), Gonçalves e Cardoso (2014). 10 Como inspiração, cito o grupo francês Démodocos, liderado por Philippe Brunet, que anualmente em seu festival Dionysies apresenta tragédias e comédias gregas em traduções rítmicas encenadas com música, canto, dança e figurinos inspirados nos modelos antigos, sem, no entanto, visar aproximações filológicas ou arqueológicas radicais ou ultraconservadoras. No Brasil, fundamos, eu e Guilherme Gontijo Flores, em 2015, inspirados no trabalho do grupo francês, a banda Pecora Loca, que faz o mesmo com traduções de poesia greco-romana em performances musicais. 11 O sinal “–” corresponde a uma sílaba longa, e “u”, a uma sílaba breve. 12 Em Gonçalves (2015b), analisei a possibilidade de cantar esta passagem com base na melodia da canção “Foi na Cruz”, de Nick Cave. 9
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