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Onde a luz cai – No crepúsculo da Revolução Francesa

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No crepúsculo da Revolução Francesa romance

DA AUTORA BEST-SELLER DO THE NEW YORK TIMES

ALLISON PATAKI e OWEN PATAKI


ALLISON PATAKI e OWEN PATAKI

Onde a luz cai

No crepúsculo da Revolução Francesa

Tradução:

Cristina Antunes


Copyright © 2017 Allison Pataki e Owen Pataki Copyright © 2018 Editora Gutenberg Esta edição foi publicada mediante acordo com a Dial Press, selo da Random House, uma divisão da Penguin Random House LLC. Título original: Where the Light Falls Todos os direitos reservados pela Editora Gutenberg. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

editora

revisão

Silvia Tocci Masini

Andresa Vidal Vilchenski Carla Neves Renata Silveira

editoras assistentes

Carol Christo Nilce Xavier

adaptação de capa

Diogo Droschi

assistente editorial

Andresa Vidal Vilchenski

diagramação

Larissa Carvalho Mazzoni

preparação

Nilce Xavier

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil

Pataki, Allison Onde a luz cai : no crepúsculo da Revolução Francesa / Allison Pataki e Owen Pataki ; tradução Cristina Antunes. -- 1. ed. -- Belo Horizonte : Editora Gutenberg, 2018. Título original: Where the Light Falls. ISBN 978-85-8235-514-5 1. França - História - Revolução, 1789-1799 - Ficção 2. Ficção histórica 3. Romance norteamericano I. Pataki, Owen. II. Título. 18-15097

CDD-813

Índices para catálogo sistemático: 1. Romances históricos : Literatura norte-americana

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Iolanda Rodrigues Biode - Bibliotecária - CRB-8/10014

A GUTENBERG É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA

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Para a nossa família – mamãe, papai, Emily e Teddy –, por alimentarem nossa imaginação e crença em grandes sonhos.


“Nesse dia e nesse lugar teve início uma nova era da História do mundo.” Johann Wolfgang von Goethe, Valmy, França, setembro de 1792

“O navio da revolução só pode chegar a salvo ao seu destino em um mar vermelho de torrentes de sangue.” Louis de Saint-Just, o “Arcanjo da Morte”, líder político e militar durante a Revolução Francesa


Prólogo

Paris, inverno de 1792 Ele os ouve antes de vê-los, uma turba de milhares, jovens e velhos, homens e mulheres, clamando do outro lado das paredes da prisão. Pareciam impacientes, gritando ruidosamente com a inebriante perspectiva de sangue fresco para molhar a lâmina da guilhotina recém-afiada. A pele fica gelada onde as grandes tesouras enferrujadas tocam o pescoço, rangendo e gemendo enquanto cortam seus cabelos. Ele observa como as débeis mechas cinzentas flutuam até o chão, anunciando o que está por acontecer com aquela cabeça onde cresceram. Ele ficaria enjoado, mas não restava nada no estômago para ser expelido. “Não podemos deixar que os cabelos se enrosquem na lâmina.” O hálito azedo do velho guarda da prisão fede a vinho, enquanto ele executa um rápido trabalho nos cabelos dos prisioneiros, cortando a fila de rabos de cavalo numa sequência rápida e bem-ensaiada. A maioria dos cabelos, mesmo os das cabeças jovens, está mesclada de cinza. Engraçado, pensa ele, como o terror envelhece um homem muito mais rapidamente do que qualquer passagem de tempo. “Por aqui, velho, mexa-se.” O guarda sacode o queixo cheio de marcas de varíola, indicando o final do corredor, e Alexandre de Valière, agora mais tosquiado do que um cordeiro na primavera, arrasta mais uma vez os pés acorrentados pelo corredor escuro. Os presidiários cujos nomes não foram chamados espiam através das pequenas fendas nas portas, assistindo à 9


marcha. Agradecidos, por enquanto, por estarem do outro lado das portas. Suas minúsculas celas quadradas parecem seguras, e até confortáveis, em comparação ao pátio marrom para onde Valière caminha. E, agora, ele espera. No pátio, em pé ao lado dos outros, segura as mãos em concha e tenta soprar um pouco de calor nas pontas dos dedos frios e doloridos. “Deve haver milhares deles lá fora.” Um homem de aparência nervosa, pelo menos trinta anos mais jovem, olha para ele com os olhos arregalados e sem piscar. Valière acena com a cabeça em resposta. “Você acha que esse grupo é barulhento? Espere até ouvi-los reunidos do outro lado do rio”, resmunga um dos prisioneiros, cuspindo no chão congelado. Este já era calvo, portanto não exigira o mesmo corte de cabelo dos demais. A multidão tinha saído cedo naquela manhã, como vinha fazendo havia várias semanas, reunindo-se do lado de fora dos muros da prisão que um dia fora a residência dos antigos reis. Eles irão formar uma fila em todo o percurso: através da pequena ilha no meio do Sena, sobre a ponte em frente à prefeitura, demarcando a Rue Saint Honoré, até desembocarem na Place Louis XV, recentemente renomeada La Place de la Révolution, onde um rugido ensurdecedor irromperá de suas bocas reunidas diante do cadafalso. Um guarda emerge da prisão: “Muito bem, está na hora. Subam”, ordena, apontando o mosquete para a carroça que está à espera. “Não vamos deixar a Madame esperando.” Valière se lembra de uma passagem de Dante, murmurando as palavras para si mesmo: “Seu dever sagrado é fazer a travessia das almas dos condenados pelo rio infernal.” “Ei, você! Nada de respostas insolentes!” Um guarda mais próximo ergue a coronha do mosquete como se fosse feri-lo no rosto, e Valière percebe, com um lampejo de humor amargo, que, instintivamente, ele retrocedeu diante da ameaça. Como se uma pancada pudesse causar algum dano àquela altura. Valière espera sua vez para subir na carroça, ajudando uma velha mulher à sua frente. Quando todos já estão lá dentro, um guarda iça o portão e o cocheiro chicoteia os cavalos. As rodas gemem quando começam a girar devagar, rígidas como ossos doloridos numa manhã fria, movendo a carroça para a frente. Valière se apoia no gradil, sorrindo timidamente para a velha que havia procurado seu ombro para recuperar o equilíbrio. Ela sorri melancolicamente para ele, com as mãos trêmulas traindo o próprio 10


pavor. À medida que os portões da prisão rangem ao se abrir, os guardas posicionados ao longo da entrada olham, entediados, para a carga humana que segue em frente; outras carroças passaram por esse caminho ontem e outras mais passarão amanhã. Naquele momento, o débil halo do sol atravessa a camada de nuvens e a cidade fica iluminada pela luz do dia de inverno. O velho fica momentaneamente cego. Aperta os olhos, ajustando-os para contemplar a grande multidão que veio testemunhar sua passagem final pela cidade. Há ainda mais gente do que Valière teria imaginado. A velha ao seu lado está rezando para a Virgem, segurando um rosário de marfim que de alguma forma tinha escondido do guarda da prisão. Ela sustenta o olhar de Valière por um instante, e ele dá um breve aceno, quase imperceptível. Um zumbido ecoa perto de suas orelhas, seguido por um baque surdo. Ele olha por cima do ombro para o prisioneiro logo atrás de si e percebe a camisa cinza do homem salpicada de suco marrom de um tomate podre. Em seguida, uma cabeça de alface ricocheteia no ombro de Valière antes de atingir a velha, lançando por sobre o gradil da carroça seu rosário, que vai parar na rua imunda. “Meu rosário!”, ela grita. Da multidão brota um coro de vaias e risos abafados. Um dos espectadores mais entusiasmados, enfrentando a ira dos guardas, corre para a frente a fim de recolher da rua suja o rosário de marfim. A velha murmura para si mesma: “Meu rosário. Era o rosário da minha mãe...” “A-ha! A puta velha se preocupa com o colar até na hora do fim!” Uma mãe segurando um recém-nascido em um dos braços usa a mão livre para lançar um punhado de repolho, que acerta um prisioneiro próximo da frente da carroça, e a multidão entra em erupção mais uma vez. “Apodreçam no inferno, seus porcos ricos abarrotados!” Os guardas, alguns empunhando mosquetes velhos, outros armados com lanças recém-afiadas, esforçam-se para conter a multidão vingativa. “Abram caminho, eu já disse!”, o cocheiro levanta o chicote e as pessoas se dispersam, enquanto os guardas montados que escoltam a carroça lutam para dominar seus cavalos nervosos. Quando atravessam o rio, a multidão reunida na velha ponte segue atrás, correndo em procissão em direção à La Place. A carroça contorna a esquina e a estreita rua de paralelepípedos se abre para a grande praça abarrotada. A multidão vê a carroça que se aproxima 11


e entra em delírio. Nenhum monarca da França, nem mesmo o próprio Rei-Sol, Luís XIV, havia entrado na Place com tal alvoroço. O barulho é ensurdecedor quando Valière ouve as vozes urrando o novo hino da nação. Vários homens agitam triunfantes a nova bandeira tricolor com listras em vermelho, branco e azul, a marca da jovem nação. Alguns gritam impropérios, mas a maioria das vozes forma um barulho indistinto e ameaçador para os prisioneiros que sacolejam nas carruagens que seguem adiante. A multidão reunida ao redor do cadafalso é tão numerosa que o velho não seria capaz de ver o aparato de execução se este não estivesse em cima do grande palanque de madeira. De pé, Valière medita sobre a morte celebrada. A carroça balança até parar. Um guarda abaixa a cancela traseira e acena com a mão enluvada. “Muito bem, podem descer. Movam-se depressa.” Por um momento, nenhum deles se mexe. Valière dá o primeiro passo e salta da carroça. A multidão se acotovela para chegar perto deles – competindo por uma oportunidade de arranhar um pedaço de carne nobre, puxar um fio de cabelo nobre. Os guardas montados empurram a turba para trás, e um guarda a pé balança os cotovelos e brande a ponta do mosquete para escoltar a dúzia de prisioneiros em direção ao cadafalso. Valière abaixa a cabeça a tempo de escapar do ataque de uma maçã podre. “Você primeiro!”, aponta o guarda para um jovem de olhos arregalados, o que tinha comentado sobre o grande número de pessoas presente. O homem põe a mão no peito como se perguntasse “Eu?”. O guarda acena com a cabeça e faz um sinal com a mão. “Vamos lá, suba”, ordena, enfatizando bem as palavras que disse em seguida: “Melhor não deixá-los esperando, Monsieur Duque”. O jovem, que Valière agora sabe ser um duque, fecha os olhos e começa a chorar, e o velho percebe a mancha úmida que atravessa a virilha da calça bufante do rapaz. “Por favor, não deixe que eu me envergonhe”, pensa Valière. “Deixe-me, ao menos, partir com um resquício de dignidade.” O jovem duque é praticamente carregado para subir os degraus que rangem, e seu corpo magro treme entre os guardas. Seus soluços e protestos são audíveis, mesmo com todo o furor da multidão. “Mas por que devo ir primeiro? Por que eu? O que eu fiz?” “Que diferença isso faz, seigneur?” O guarda está impaciente; já viu esse protesto inútil vezes o suficiente para se aborrecer com os histéricos de 12


última hora. Ele precisa fazer o espetáculo acontecer antes que a multidão se torne incontrolável. Valière observa as mãos bem-cuidadas do homem sendo amarradas e ele sendo arrastado até o centro do cadafalso, e percebe uma cesta trançada que fica logo abaixo do lugar onde a lâmina vai cair. O duque é forçado a se ajoelhar e seu pescoço é imobilizado pelos dedos grossos do guarda, que posiciona o prisioneiro com o rosto virado para baixo, deslizando sua garganta para um suporte de madeira onde foi esculpido um semicírculo polido. Uma prancha de madeira complementar é colocada no topo, de modo que os dois semicírculos formem uma perfeita forca, que segura a cabeça do homem no lugar. O nobre está soluçando agora, e tenta resistir, mas seu pescoço permanece fixo no suporte. A multidão, que o testemunha se debatendo e suplicando, torna-se ainda mais frenética. Valière para de respirar, mas não consegue desviar os olhos. Um sacerdote faz o sinal da cruz sobre o trêmulo prisioneiro, uma absolvição que o condenado não pode ver. Finalmente, quando o trinco é puxado e a lâmina voa para baixo, Valière fecha os olhos. Ele escuta um ligeiro barulho, um breve golpe, seguido de um rugido ensurdecedor. Em meio à gritaria, o som da cabeça cortada caindo na cesta é abafado. “Encore! Mais!” “Le prochain! O próximo!” Depois desse primeiro respingo de sangue, a multidão se torna ainda mais voraz. O guarda chama a velha, a mulher frágil e devota que se apoiou no ombro de Valière. Ele não consegue olhar. Não deseja saber como é o semblante dela ao ser escoltada para subir os degraus em meio às zombarias e pragas da multidão. Mais uma vez, ele ouve o ruído repugnante que corta o momento de um breve e ávido silêncio, seguido dos gritos estridentes de euforia. “Encore! Encore!” O guarda está olhando para ele agora. Apontando para ele. Valière deixa escapar um lento e longo suspiro. Então isso é o que significa encarar a morte. Um pé depois do outro, Valière dirige-se ao cadafalso e sobe os degraus. Já não sente mais os próprios passos, nem pensa em como suas pernas conseguem levá-lo. O rugido da multidão parece retroceder, para então crescer a distância, e uma estranha sensação se apodera dele, quase como se estivesse flutuando fora de si mesmo. Alexandre de Valière se ajoelha por conta própria, antecipando-se ao tratamento brusco do guarda. De joelhos, olha para a multidão: um mar de rostos zombadores, contorcendo-se com uma macabra expectativa. Então, seu olhar se fixa em um rosto em particular. Olhos pálidos, pele e cabelos 13


brancos como pergaminho. Ele veio para tripudiar, até mesmo agora? Até mesmo neste momento derradeiro? Contra sua vontade, o velho começa a tremer, o rosto pálido daquele espectador inspira mais terror e fúria do que qualquer lâmina de guilhotina seria capaz. Lazare. Lázaro. O homem que Jesus ressuscitou dos mortos; e que agora envia muitos outros à morte. Valière sustenta brevemente o olhar do homem, jura que aqueles lábios pálidos se separam em um sorriso sinistro. Mas então Valière pisca, forçando-se a desviar o olhar. Não admite que aquele seja o último rosto em que seus olhos repousarão enquanto ainda estiverem nesta terra. Volta o olhar para o aparato que está diante de si, que o convoca à morte, e sua cabeça desliza para dentro do encaixe. Lá está novamente a cesta de vime, agora embaixo dele, manchada de escarlate. A cabeça da velha está virada para baixo, de modo que tudo o que ele vê é seu cabelo fino e prateado, salpicado de vermelho e à procura do corpo do qual fora cortado. Mas ele não pode evitar os olhos arregalados e vagos do jovem nobre morto momentos antes. Eles o encaram sem piscar, sem luz, congelados de medo. Os olhos são tão perturbadores que ele já não percebe a multidão. Já não ouve o sussurro do tam-tam-tam dos tambores. Tenta se forçar a pensar em outra coisa, algo que não seja o presente inferno. Para esquecer o cabelo pálido e o rosto incolor de seu inimigo. Para esquecer os olhos atordoados do jovem duque morto logo abaixo de si. Valière pensa no rosto de sua esposa, conjura sua imagem, seus belos traços não marcados pelo tempo ou pela preocupação. Então, sua mente voa para sua maior fonte de felicidade: dois meninos, com cachos louro-escuros, rostos felizes que o fazem recordar a alegria perdida de sua vida. Valière vê os meninos correndo um atrás do outro no jardim, dando gritinhos com sua impulsividade infantil. Com esse pensamento, sorri uma última vez. Sua visão se escurece por completo, e ele não sente nada quando a multidão explode pela terceira vez, regozijando-se com a morte do velho nobre Alexandre de Valière.

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Parte um


1 Paris

Setembro de 1792 O calor finalmente deu uma trégua, anunciando o que os parisienses chamavam de “le répit”. O alívio. Se fosse dito em outro contexto, também poderia significar graça, embora esta não fosse abundante na cidade naquele verão. Não agora – uma vez que a nova invenção tinha sido instalada permanentemente na Place de la Révolution. As cruzes haviam sido eliminadas dos altares das igrejas, crucifixos eram arrancados do colo das mulheres e jogados nas calhas imundas que descarregavam o vermelho dentro do Sena. Em muitos lugares públicos, a imagem da cruz foi substituída pelo novo ícone sagrado da nação: a guilhotina. Na Margem Esquerda, em uma estreita rua cheia de casas banhadas pelo sol, todas as janelas estavam entreabertas, de modo que qualquer residente podia descrever com certa precisão as idas e vindas de cada ocupante dos apartamentos ou das casas vizinhas. Nesta manhã, o casal que morava no canto leste, acima da taverna, estava batendo boca – discutindo sobre dinheiro, ou o calor, ou o pão velho que deveria ter durado dias. O casal da casa em frente, com base nos sons que ecoavam do seu dormitório, fazia as pazes após a briga da noite anterior. E um cão de rua, com costelas salientes sob a pele marrom-amarelada, tinha encontrado o prêmio de um osso cozido, que havia arrastado para fora da taverna até a rua, onde agora estava sentando para roê-lo, na esperança de obter cada pedaço de tutano de dentro dele. “Ora, sua besta sarnenta, olha só o que você apanhou!” Madame Grocque, esposa do taverneiro, afastou-se da porta e espantou o cachorro com a vassoura. Aproveitando-se do choque momentâneo do 17


vira-lata, ela se abaixou e pegou o osso com seus dedos grossos e sujos. O cachorro, recuperado das pancadas, avançou sobre a mulher, cravando os dentes no banquete que ela queria lhe negar. “Sua criatura inútil, eu vou arrancar sua pele e jogar você no guisado junto com esse osso! Isso nos faria bem, pois conseguiríamos um pouco de carne fresca.” Madame Grocque chutou o animal, mas o vira-lata se recusou a largar o primeiro bocado que havia conseguido em dias. De uma janela no andar de cima da taverna, um jovem rapaz, que não chegava nem aos 30 anos de idade, largou a pena e escutou a grotesca atividade que ocorria logo abaixo. Esfregando os olhos, suspirou: “Algum dia, em breve, sairemos desse bairro.” “Jean-Luc?”, sua mulher o chamava do outro lado da porta, e a voz dela mesclava-se com os familiares sons matinais de louça retinindo e do bebê chorando. “Você não vai tomar café da manhã antes de sair?” “Estou indo, Marie.” O advogado se apressou a deixar a escrivaninha do canto do quarto. Levantando-se, enrolou os papéis e colocou-os dentro da pasta. Atravessou a pequena sala em dois passos, alcançando o colete e o paletó surrado que a esposa havia preparado para ele. Quando vestiu o terno cinza, verificou seu reflexo no translúcido vidro do espelho rachado. Aquilo era um fio de cabelo cinzento que estava despontando? Inclinou-se para chegar mais perto, suspirando. Depois do ano que teve, não ficaria surpreso se houvesse alguns cabelos grisalhos atravessando o rabo de cavalo escuro. Os olhos de avelã agora olhavam de volta para ele, avaliando uma fina rede de linhas de expressão desconhecidas; uma nova linha parecia surgir a cada semana. Na outra sala, no cômodo que servia como cozinha, sala de jantar e sala de estar, tudo ao mesmo tempo, Marie segurava o bebê equilibrado em seu quadril. Sorriu quando viu Jean-Luc parado à porta. “Você vai tomar um pouco de café?” “Hmm?” Ele se inclinou e beijou os dois, primeiro a esposa, depois o filho. Marie inclinou a cabeça para o lado, levantando o bule com a mão livre. “Oh, certo. Café, sim. Por favor.” Jean-Luc sentou-se à mesa diante de um prato com pão preto, restos do pão de forma do dia anterior e um pedaço quadrado de queijo duro. Marie serviu-lhe um café diluído enquanto ele afastava os papéis que tinha deixado espalhados sobre a mesa. Ela tinha aberto todas as janelas, 18


mas o mormaço que descia do chão do andar de cima do apartamento espalhava-se estagnado e opressivo por causa dos meses de calor intenso. “Você esteve agitado e se revirou a noite inteira.” Marie mudou a posição do bebê e sentou-se em frente ao marido à pequena mesa. “Problemas para dormir novamente?” Ele engoliu um pedaço do pão duro, balançando a cabeça. Do lado de fora, a velha Grocque ainda gritava com o cachorro, e o animal gania em resposta a outro golpe de vassoura. Marie olhou do marido para a janela aberta e levantou-se para fechá-la. “Não, deixe-a aberta”, pegou a mão dela e a manteve na mesa. “Na próxima vez que você decidir trabalhar no meio da noite, poderia tentar vir para cá.” “Eu sei. Eu deveria ter vindo para cá para não acordar você e Mathieu. Desculpe-me.” Bebeu o café fraco enquanto ela se sentava novamente. “Você vai me perdoar por impor minha maldita insônia a você?” Marie apertou os olhos e pegou um pedaço do queijo do marido, partiu-o entre as pontas dos dedos e começou a mordiscá-lo. “Suponho que sim. Mas está piorando, você sabe.” “O quê?” “Sua maldita insônia.” Ela inclinou a cabeça para o lado. “Eu sei”, Jean-Luc respondeu. Permaneceram em frente um ao outro em silêncio, ele tomando o café da manhã, ela cuidando do bebê. Depois de vários minutos, o advogado apoiou os cotovelos na mesa e pigarreou. “Acho que vou pegar o caso da Viúva Poitier.” Acariciando a bochecha do bebê, Marie abaixou os olhos e Jean-Luc esperou a reação da esposa. Depois de uma pausa, ela disse: “Ela não pode pagar, pode?” Ele balançou a cabeça. Não. Marie olhou para ele, seus olhos castanhos sérios. “Você é um bom homem, Jean-Luc St. Clair.” Ele pegou a xícara de café, escondendo o sorriso. A aprovação da esposa, hoje em dia tão difícil de conseguir, sempre lhe provocou aquele sorriso. Olhou para ela, os braços ocupados com o bebê, mas seus olhos encarando os olhos dele com firmeza. “Então, minha amada esposa, você já me perdoou por tirá-la do seu querido sul e trazê-la para padecer neste sótão apertado?” “Perdoar você?”, seus lindos olhos se arregalaram, os cílios piscaram algumas vezes, lembrando-o da garota que o enfeitiçou. Como ela ainda 19


é gloriosa. “Quem falou em perdoar você?” Ela deu um meio sorriso, e Jean-Luc não conseguiu resistir à vontade de se inclinar para beijá-la. Ele a trouxera do sul da França há pouco mais de um ano, somente alguns meses após terem se casado. O pai dela exercia uma prática jurídica constante, embora não exatamente lucrativa, nos arredores de Marselha, não muito longe da aldeia onde a família de Jean-Luc possuía uma pequena porção de terra desde a época do Rei-Sol, Luís XIV. Há séculos, a família St. Clair mantinha uma confortável casa de fazenda em uma porção de terra pequena, mas fértil. Foi somente quando seu pai assumiu a propriedade que as fortunas da família – e também as da região, e de toda a França – se deterioraram tão drasticamente. Eles foram forçados a vender a maior parte da propriedade, mantendo apenas um acre com uma vaca leiteira, um punhado de galinhas e a casa para o viúvo e seu filho, Jean-Luc. Não foi por negligência que o pai de Jean-Luc perdeu a terra da família; o velho Claude St. Clair tinha sido um administrador fiel de seus bens. Ele foi simplesmente outra vítima das secas e do cenário econômico incapacitante que assolaram o resto do país durante o governo do último rei Bourbon, herdeiro do sucessor do Rei-Sol, o homem mais insultado da França: Luís XVI. No entanto, Sua Majestade não podia ser considerado o monarca mais ultrajado da França; esse título pertencia a sua esposa austríaca, Maria Antonieta. Quando chegou o momento de Jean-Luc planejar o próprio futuro, aceitou o conselho do pai e se dedicou ao estudo da lei. O que mais havia ali para ele? A terra estava exaurida; não havia mais riqueza que pudesse ser obtida pela agricultura, a menos que você fosse um nobre que desviasse os lucros dos camponeses e depois não pagasse impostos sobre esse quinhão. Sua mãe havia morrido nos primeiros dias de sua infância; seu único parente, uma irmã cinco anos mais velha, casou-se aos 16 anos e morava a um oceano de distância, na colônia de São Domingos, no Novo Mundo. Além de algumas cartas que havia recebido dela ao longo dos anos, Jean-Luc St. Clair, antes de começar seus estudos da lei em Marselha, ocupava-se principalmente em cuidar de seu pai idoso. Jean-Luc aproveitou o tempo que passou na escola, que oferecia mais emoção e oportunidade do que ele poderia encontrar na sua casa solitária e tranquila. Tendo se destacado nos estudos na Universidade de Aix-Marselha, o jovem e ambicioso advogado procurou algo que fosse além do pequeno escritório de magistrados da sua cidade natal. Candidatou-se a um cargo de advogado iniciante em um respeitável escritório jurídico perto de Marselha. Conhecer e se apaixonar por Marie Germaine, a linda filha 20


de seu empregador, com abundantes cachos escuros e opiniões rápidas e ousadas, foi uma inesperada, porém feliz sorte. Jean-Luc estava empregado em seu novo escritório, e sua noiva alegremente instalada na confortável casa de campo na propriedade do pai, quando chegou a Marselha a notícia de que o rei Luís e a rainha Maria Antonieta tinham sido arrancados de seu palácio dourado em Versalhes e levados a Paris, onde foram forçados a viver entre seu povo. Jean-Luc, que tinha visto as esperanças de sua família serem praticamente extintas sob um monarca inepto, e que tinha acompanhado com grande interesse a construção de uma república nascente nas colônias americanas, queria viajar para Paris, alimentado por seu idealismo embrionário, assim como muitos de seus jovens compatriotas. Não escondeu o desejo de se juntar ao povo e sacrificar seus confortos mundanos e, se necessário, sua vida em nome da liberdade. Não seria vergonhoso, perguntou a Marie, ter nascido nessa época da História e, no entanto, recuar diante da tarefa gloriosa de um povo livre se levantando em nome da liberdade, da igualdade e da fraternidade? Mathieu nasceu seis meses depois da sua transferência para Paris, e Jean-Luc estava grato por isso. Marie ficava menos solitária com o menininho de cabelos escuros – que compartilhava seus olhos cor de café e sua personalidade impetuosa –, e contava com ele para preencher as longas horas que Jean-Luc passava trabalhando como advogado administrativo iniciante para o novo governo. Haviam se estabelecido neste sótão de dois quartos – exposto às correntes de vento no inverno e sufocante no verão –, que era tudo o que seu modesto salário do governo podia pagar. Seu sogro, furioso com Jean-Luc por levar sua filha para o distante norte, recusou-se a apoiar a mudança. Se ele visse como ela estava vivendo agora, pensou Jean-Luc, olhando em volta para os cômodos apertados. Eles, sendo do sul, não conheciam a inclemência de um inverno do norte até o ano passado. Nenhum deles havia passado um verão sem a brisa salgada do mar e a sombra das perfumadas árvores cítricas. Havia sido um ano difícil para ambos. Mas Marie, abençoada seja, nunca reclamou; nunca usou contra Jean-Luc o fato de ele a ter retirado da casa confortável de seu pai para trazê-la a esta cidade barulhenta e suja. Um lugar onde, em mais de uma ocasião, eles tiveram que escolher entre comida e combustível para se manterem aquecidos. Ela era forte, sim. Mas isso também acontecia porque ela, suspeitava Jean-Luc, era tão idealista quanto ele, mesmo que nunca tivesse ousado admitir isso. 21


“Sr. Figurão, você tem sua própria carruagem esta manhã.” Marie se levantou da mesa e estava olhando pela pequena janela; Mathieu estava irritado enquanto ela tentava fazê-lo arrotar. Jean-Luc pegou um último pedaço de pão duro e terminou seu café. “É Gavreau. Ele planeja me enviar para um dos seus casos. Sabe que não me importo, desde que eu tenha a carruagem.” “Qual é o caso?” “Outra mansão. Essa pertence a um nobre que mora..., bem, costumava morar, na Place Royale.” Jean-Luc recolheu o restante dos papéis espalhados sobre a mesa e forçou-os dentro da apertada pasta. “Os jacobinos querem usar a casa.” “Então eles enviaram a carruagem para você”, Marie assentiu, arqueando uma sobrancelha. O marido era privilegiado por ter aquele emprego, mesmo que o salário fosse insuficiente. Mais da metade de Paris estava morrendo de fome, e em alguns dias ele usava uma carruagem para trabalhar. O trabalho de Jean-Luc consistia em catalogar a propriedade enquanto ela era desapropriada das famílias ricas, uma antiga riqueza do ancien régime, agora tão obsoleta quanto a velha ordem em si. Inventário diário dos bens apreendidos – talvez isso não fosse tão estimulante ou significativo quanto o trabalho que ele esperava encontrar; talvez não estivesse desempenhando um papel tremendamente importante na construção da nova França; pelo menos ainda não. Mas antes que pudessem construir o novo país, alguém precisava descobrir o caminho adequado para desmantelar o antigo. Por enquanto, esse era o seu trabalho, administrar os despojos até que o Estado decidisse o que fazer com eles. Quanto aos antigos proprietários cujas riquezas ele agora catalogava, Jean-Luc raramente ouvia falar deles, e talvez não quisesse saber sobre. “O que aconteceu com a família?” Marie, como sempre, tinha chegado diretamente a sua mente e parecia ler seus pensamentos com um estranho discernimento. Ela o encarou com seus sérios olhos castanhos enquanto o bebê, pendurado em seu quadril, começava a chorar. “Perdão?”, Jean-Luc puxou a bainha de seu casaco. “Você disse que estava indo para a casa de um nobre na Place Royale para catalogar os bens da família. O que aconteceu com a família?” “Não tenho certeza.” Ele mudou de posição, olhando para trás em direção aos papéis. “Eles já se foram, pelo que parece. Talvez para a prisão?” Felizmente, em geral ele só visitava as mansões depois que os ocupantes tinham sido arrastados de seus quartos e jogados nas masmorras 22


em Conciergerie, La Force ou Les Carmes. Tinha ouvido os rumores – relatos de colegas que haviam visitado as prisões. E suspeitava que se precisasse testemunhar as condições por si próprio, seus atuais problemas para dormir ficariam muito piores. Melhor não insistir em pensamentos negativos, disse a si mesmo. Melhor se lembrar do trabalho nobre que estavam fazendo, trazendo liberdade, igualdade e fraternidade para um povo subjugado por ineptos déspotas Bourbons e seus aristocratas insensíveis. Suspirando, colocou a pasta debaixo do braço e cruzou a sala em direção à esposa. “Estou atrasado.” “Nós sempre podemos... voltar... Você sabe.” Marie evitou o olhar do marido, balançando o bebê na tentativa de acalmá-lo. “Se está ficando difícil demais. Se não é o que você pensou que seria.” Jean-Luc congelou, olhando para a esposa com descrença; será que ela estava realmente sugerindo que deixassem Paris? Que desistissem de da Revolução? “O que eu quero dizer é...”, balbuciou, “...os problemas de sono. O trabalho...”. Acenou com o braço livre mostrando a sala apertada. “Este lugar.” Ele deixou cair os papéis na mesa e se aproximou, colocando os braços em volta dela e do bebê. “Marie, por favor.” Ele estava muito cansado para ter essa discussão. Agora não. Suspirando, sem saber o que dizer, falou suavemente: “Eu sei que você odeia esse sótão”. “Não é somente o sótão que eu odeio.” “Eu não vou ficar nesse cargo por muito tempo.” “Isso é o que você sempre diz...” Ela arqueou uma sobrancelha. “Mas é verdade agora. Vou falar com Gavreau em breve. Vou solicitar um trabalho mais significativo. Um em que eu possa, finalmente, oferecer uma contribuição e encontrar um propósito mais elevado.” Sua voz perdeu a firmeza enquanto falava e seus olhos se voltaram para o chão. As feições de Marie se suavizaram um pouco e ela suspirou. Depois de um longo momento de silêncio, Jean-Luc inspirou profundamente e arqueou os ombros para trás, como se estivesse forçando a si mesmo. “Vamos lá, não podemos desistir tão rápido, Marie. A liberdade é uma bênção. Mas antes que possa ser aproveitada deve ser garantida, e essa batalha não é facilmente vencida.” O choro do bebê ficou mais alto, e Marie mudou seu foco para o filho. Depois de uma pausa, encolheu os ombros. “É melhor você ir. A carruagem está esperando.” 23


Jean-Luc se inclinou para a frente e mais uma vez abraçou a esposa e o bebê. Marie olhou para ele; ela tinha perdido o bronzeado róseo de suas bochechas, mas ainda falava com o sotaque do sul. Ainda se vestia como uma sulista, com roupas de linho branco, e também cozinhava como uma delas, mesmo que se queixasse de não conseguir encontrar uma botija de açafrão decente em toda a cidade. Ele não conseguia se imaginar enfrentado nada disso sem ela. “Estarei em casa para o jantar”, prometeu e saiu do apartamento, fechando a porta atrás de si. Do outro lado, ouviu o bebê se acalmar enquanto a esposa sussurrava amorosamente, com uma voz mais suave do que música. Jean-Luc olhou para baixo e notou que suas mãos estavam vazias. “Eu esqueci algo”, disse ao abrir a porta e correr de volta ao quarto. Ela olhou para ele, balançando o bebê enquanto limpava os pratos do café da manhã. “Seus papéis”, disse, balançando a cabeça, familiarizada com o esquecimento do marido. “E isso também.” Aproximou-se dela e plantou um beijo em seus lábios. “Sim, de maneira alguma eu poderia sair sem isso”, disse, sentindo a preocupação e a tensão diminuírem quando a beijou novamente, enquanto sentia o corpo dela ficar menos rígido em seus braços. Marie deixou que ele a beijasse. “Odeio estar atrasado, caso contrário, eu...” Suas mãos viajaram até os quadris da esposa, e Jean-Luc sentiu a maciez de sua carne sob a saia de algodão engomada. Então sentiu o tapa que ela deu em sua mão. “Vá logo, seu devasso, antes que eu entre naquela carruagem e vá embora dessa cidade fedorenta.”

z O cocheiro da carruagem olhou para cima quando Jean-Luc surgiu na rua ensolarada, e sua expressão continuava aborrecida enquanto examinava o passageiro de baixo nível. “Cidadã Grocque.” Jean-Luc ergueu o chapéu para a vizinha carrancuda, saudando a esposa do taverneiro com o título que, recentemente, havia se tornado compulsório por lei. A Madame Grocque estava apoiada em uma vassoura na entrada da porta. “Que adorável ter um pouco de brisa hoje, não é, cidadã?” Percebendo que não receberia resposta, Jean-Luc não parou enquanto caminhava em direção à carruagem que o esperava. “Como estão as ruas nesta manhã?”, Jean-Luc perguntou. O cocheiro, ajustando as luvas de couro, fingiu não ouvir a pergunta. 24


Jean-Luc observou um pedaço de papel solitário na calçada de paralelepípedos, rodopiando pela varredura irritada de Madame Grocque. Um panfleto político, pelo que parecia, um dos milhares que flutuavam ao redor da cidade; nos dias de hoje, qualquer homem alfabetizado com opiniões bem-definidas e acesso a uma prensa móvel poderia reproduzir rapidamente um discurso político. No entanto, alguns deles provaram ser leituras interessantes, até mesmo esclarecedoras, e Jean-Luc abaixou-se para pegar o folheto antes de abrir a porta da carruagem e subir o degrau. Leu atentamente o título: Cidadãos da América se mobilizam em torno do Presidente George Washington para um segundo mandato. O escritor continuava, pedindo a seus próprios compatriotas franceses que olhassem para aquela nova nação como um exemplo de uma república que protegia a liberdade do povo, um lugar onde, com a cédula de voto, cidadãos livres exerciam o poder, não bandidos e mercenários estrangeiros. A coluna era anônima; este escritor, evidentemente esperançoso de evitar a glória ou a notoriedade da publicação, assinou seu discurso apenas com o enigmático pseudônimo “Cidadão Perséfone”. Jean-Luc levantou os olhos do panfleto e, pela janela, enquanto o cocheiro elevava o chicote para estimular os cavalos adiante, gritou: “Vamos evitar La Place. Odeio ver... bem, as multidões... Muito tráfego.” Embora fosse traição admitir, ele não tinha estômago para as multidões em um dia de execução; fazia tudo o que podia para evitar aquela área encharcada de sangue. O motorista mal acenou enquanto dirigia os cavalos para o leste, fora do bairro de Jean-Luc. Jean-Luc sem dúvida morava entre fervorosos partidários da Revolução. Seu bairro era uma das últimas vizinhanças onde estudantes, peixeiros e prostitutas podiam pagar o aluguel. Talvez devido ao tempo que tinha passado recentemente entre os bens confiscados da velha nobreza, as crianças maltrapilhas da rua que perseguiram a carruagem naquela manhã lhe pareceram especialmente miseráveis. Olhando pela janela, Jean-Luc observou um menino pequeno de calças curtas e pés descalços se alçando ao lado da janela do veículo. A poucos centímetros dele, o menino estendeu uma minúscula palma repleta de sujeira. “Por favor, Monsieur cidadão, dê uma moeda para minha mãe.” “Fora daí, seu rato imundo!” O cocheiro – ansioso para apressar sua entrega a fim de poder seguir caminho para a taverna antes que as multidões da execução se apresentassem – agitou o chicote e a criança desceu apressadamente. À medida que seu pequeno corpo sombrio ficava para trás da carruagem em movimento, Jean-Luc jogou uma moeda em sua 25


direção, esperando que, ao fazer isso, o dinheiro fosse chegar até sua mãe para comprar um pão em vez de um copo de vinho diluído. O bairro melhorava à medida que cruzaram o rio para a Margem Direita. Era uma manhã clara em Paris, a luz do sol refletindo a água que lambia as costas das duas pequenas ilhas: a Île Saint-Louis e a Île de la Cité. Uma vez na ponte, o cocheiro seguiu o cais que contornava a margem norte do rio. Estavam evitando a La Place. E, no entanto, quando a carruagem atravessou a Rue Saint-Florentin, Jean-Luc não pôde deixar de olhar para o amplo bulevar. Ali, à distância, ele os viu: vestidos de marrom, figuras sujas, homens com boinas vermelhas acenando a bandeira tricolor, mulheres com gorros vermelhos cobertas com seus tricôs, como se estivessem vendo algo tão mundano como um jogo de rua. Havia milhares deles. Mesmo depois de um ano na cidade, Jean-Luc ainda estava assustado – aterrorizado, se admitisse a plena verdade – pela sede de sangue dos parisienses. As histórias gloriosas que chegaram de Paris à sua casa no sul haviam despertado dentro dele uma alegria e um sentimento de dever patriótico aos quais ele havia respondido – relatos que rapidamente se tornaram obscuros e macabros quando viu as execuções em praça pública. Mas as últimas semanas trouxeram rumores de eventos ainda mais sinistros, histórias que coagularam seu sangue. Verdade ou não, ouviu que dois mil prisioneiros de toda a cidade haviam sido arrastados de suas celas e cortados em pedaços no meio da noite; não tinha certeza, mas precisava acreditar que isso era apenas uma febre passageira. Um flagelo sangrento que logo acabaria, substituído pelos ideais originais de esperança e liberdade. Era como ele tinha acabado de dizer a Marie: não podiam desistir da liberdade, da nova nação. Ainda não. O escritório de advocacia ficava a poucos quarteirões ao norte do Sena e a pouca distância da carcaça daquela infame torre de tormento, a Bastilha. Na verdade, se precisasse de um lembrete da razão pela qual estava ali, bastava Jean-Luc olhar para a Bastilha para ter uma confirmação. Por 400 anos, essa grande fortaleza de pedra serviu de prisão, a encarnação física do grande e arbitrário poder do ancien régime dos reis Bourbons. Com nada mais do que uma pavorosa intimação real, qualquer pessoa de nascimento comum, culpada ou não de um crime, poderia ser acusada, tirada de sua casa e trancafiada para sempre. Em um dia quente de verão três anos antes, uma multidão maciça e bem-armada marchou do bairro de Saint-Antoine e sitiou a grande fortaleza. Depois de uma luta feroz, e com a ajuda de soldados rebeldes da Guarda Nacional, os pobres homens e 26


mulheres de Saint-Antoine acabaram conseguindo abaixar a ponte levadiça e confiscá-la. Assim, nasceu a Revolução, a partir de uma luta desesperada, consagrada no sangue de seus cidadãos cansados e famintos. Jean-Luc trabalhava em um enorme edifício administrativo a várias ruas de distância. Seus longos corredores estavam lotados de funcionários legais, banqueiros e secretários – burocratas do novo regime, a maioria deles feliz por simplesmente ter emprego, por aceitar salários insignificantes com os quais poderiam alimentar suas famílias e se gabar de um lugar no novo governo. Era um edifício movimentado, uma colmeia de determinação e fofoca que variava em seus graus de legitimidade. Nesta manhã, no entanto, os salões da frente estavam menos barulhentos que o habitual. Inclinando-se para uma saudação a um par de guardas – “Cidadãos, bom dia” –, Jean-Luc subiu uma ampla escadaria. No segundo andar, atravessou rapidamente o familiar corredor até chegar à câmara que servia de sala de reuniões para seu departamento. Parou na entrada. Uma pequena multidão tinha se reunido no escritório. Vários rostos eram conhecidos por Jean-Luc, colegas que trabalhavam em escritórios adjacentes. No entanto, havia mais do que aqueles poucos rostos. Ao que parece, Gavreau, seu supervisor, havia convocado todo o edifício para essa reunião. Seja qual for o propósito do encontro, Jean-Luc estava atrasado. “St. Clair!”, Gavreau o viu chegar e acenou para que entrasse. Ele estava posicionado na frente do escritório, dirigindo-se à multidão. “Cidadão St. Clair, eu estava apenas compartilhando as notícias da manhã com seus compatriotas.” “Que notícias?”, Jean-Luc se arrependeu instantaneamente da franqueza de sua reação, mas o que quer que tenha causado tal tumulto entre seus pares, ele não ouvira nada a respeito. A única coisa que observou naquela manhã foi que o calor finalmente havia diminuído e que o povo de Paris ainda parecia faminto e zangado. O supervisor, felizmente, não percebeu sua ignorância, e, em vez disso, continuou a abordar a sala cheia. “Como vocês sabem, os últimos três meses viram o povo ascendendo e exigindo que sua voz fosse ouvida com mais potência do que nunca.” Vários homens do escritório bateram os punhos contra as mesas, grunhindo seu apoio à afirmação de Gavreau. O supervisor ignorou as interrupções e continuou. “Toda prisão na cidade está transbordando, e aqueles duques e duquesas perfumados sabem, finalmente, o que significa sentir fome.” 27


A multidão murmurou e assentiu em aprovação enquanto Jean-Luc estava inquieto. Ele sempre se sentia incomodado com conversas acaloradas como essa. Já tinha visto muitos discursos emocionantes começarem com entusiasmo sincero, apenas para se inflamarem repentinamente e darem vazão à fúria da multidão e a uma sede de violência. As bochechas de Gavreau ficaram vermelhas. “Exatamente no mês passado, nossos companheiros patriotas invadiram o Palácio das Tulherias, onde Luís e Maria Antonieta...” “Você se refere ao Cidadão Capeto e à meretriz austríaca!”, um homem que Jean-Luc não reconheceu interrompeu o discurso com os apelidos que Paris havia dado aos desgraçados rei e rainha do país. “Chame-os do que você quiser.” Gavreau acenou com a mão. “O fato é que, desde o último mês, os Bourbons pararam de engordar suas panças à custa de nossa fome e sacrifício. E eles não estão mais sentados no Palácio das Tulherias, escondendo-se atrás de seus guardas suíços contratados, como se isso pudesse ser considerado prisão.” “Eles estão na masmorra de Le Temple com o restante dos ratos, no lugar a que pertencem”, gritou uma voz. A multidão aplaudiu em resposta. Gavreau ergueu os braços, tentando reprimir o crescente fervor. “Irmãos, meus concidadãos, hoje, pela primeira vez, uma assembleia de franceses livres, dotada de todo o poder do povo, se sentará em Paris. Eles, assim como os rebeldes na América, elaborarão uma nova constituição e darão início a uma era de liberdade, igualdade e fraternidade!” A sala estremeceu ao som dos gritos e dos punhos batendo nas mesas de carvalho. Mesmo Jean-Luc, ao pensar em tal conquista do povo francês, sentiu-se impelido a participar das comemorações. “Vive la liberté!”, ele gritou. Gavreau permitiu que eles se deleitassem em euforia por um momento, sua própria expressão indicando a satisfação profunda que o dominava. Entretanto, quando ergueu os braços, todos ficaram silenciosos mais uma vez, vorazes por mais notícias. “Foi um bom verão para o povo, não há dúvidas. Centenas de nossos irmãos se juntaram ao nosso novo governo na Convenção Nacional. E poucos milhares daqueles nobres desgraçados não perderam a cabeça, graças ao nosso amigo, o Dr. Joseph-Ignace Guillotin.” Várias pessoas na sala riram e zombaram, mas Jean-Luc mordeu o lábio inferior. Seu trabalho lhe deu uma visão privilegiada do número exato de homens e mulheres nobres que haviam sido derrubados, e, só de 28


pensar que uma cabeça cortada correspondia a cada um dos seus casos diários, sentiu o estômago revirar. “E, no entanto, nossa Revolução – nossa própria nação – está em perigo.” O rosto de Gavreau se tornou sombrio quando a sala ficou em silêncio. “Eu lhes disse que havia notícias hoje, e há. Parece que toda a Europa tomou conhecimento da velocidade e da força de nossa Revolução. E nossos vizinhos do leste estão assustados.” Jean-Luc inclinou-se para mais perto; não tinha ouvido essa notícia. “Tudo pelo que lutamos pode ser perdido em breve, se não olharmos para o que está acontecendo a menos de cem milhas ao leste. O inimigo está perto”, explicou Gavreau. “O duque de Brunswick reuniu uma aliança de quarenta mil prussianos, austríacos e hessianos e está marchando em direção a nossa cidade neste exato momento.” Gavreau falava baixo, mas já não competia com nenhuma voz perdida; toda a sala estava silenciosa, todos os olhos fixos atentamente. “Desde que arrancamos Luís e Maria Antonieta de sua luxuosa prisão palaciana, os Habsburgos e seus amigos viram quão séria é nossa Revolução. E não gostaram da aparência dela. As coroas da Europa estão tremendo de medo, e agora decidiram trazer suas espadas contratadas através de nossas fronteiras.” Jean-Luc sentiu o peito se contrair ante o pensamento de soldados estrangeiros marchando através de suas terras, para o interior da cidade deles. “Este duque estrangeiro... Brunswick... declarou... não, ele prometeu...”, Gavreau pegou um par de óculos na mesa e começou a ler um pergaminho, “...pôr fim à anarquia no interior da França, verificar os ataques ao trono e ao altar, para restabelecer o poder legal e restituir ao rei a segurança e a liberdade de que hoje ele está privado e colocá-lo em uma posição para exercer uma vez mais a autoridade legítima que lhe pertence”. Com isso, a sala entrou em erupção ao som de gritos e rugidos indignados. “Deixem os bastardos tentarem!” “Morte aos tiranos Habsburgos e a seus mercenários estrangeiros!” “Vamos pegar suas coroas em seguida! Vamos marchar diretamente para a sala do trono Habsburgo e mostrar a eles o que os franceses livres acham do...” “Você é um tolo, Pierrot, se acha que será tão fácil”, interveio Jean-Luc, virando-se para o homem barulhento ao seu lado, um colega impetuoso que geralmente parecia preferir falar a escutar. “O que você acha, Cidadão St. Clair?” Gavreau acenou com a cabeça para Jean-Luc, permitindo-lhe continuar. 29


Jean-Luc fez uma pausa e limpou a garganta. Cruzando os braços, arriscou: “O Cidadão Capeto e sua esposa austríaca eram ricos e têm muitos amigos poderosos. Os reinos da Europa central não ficarão de braços cruzados enquanto uma princesa Habsburgo é obrigada a sentar-se atrás das grades.” “Isso é verdade, St. Clair”, concordou Gavreau. “Então, o que está acontecendo?”, Jean-Luc perguntou a seu supervisor, desejando saber se deveria voltar para casa e levar Marie e o bebê para fora de Paris. Gavreau ergueu o queixo como se lançasse um desafio. “Chegamos à guerra!” A sala se encheu de maldições e resmungos, vanglórias e declarações, mas o supervisor continuou falando por cima do barulho. “Cinquenta mil franceses valentes se colocam entre nós e aqueles que prometem destruir todas as liberdades que conquistamos nos últimos três anos.” Jean-Luc inspirou e soltou o ar lentamente. Muitos desses soldados, ele sabia, ingressaram nas fileiras do exército francês apenas nos últimos meses, até mesmo semanas, já que a ameaça de uma invasão comandada por uma aliança dos monarcas da Europa passou de rumor sussurrado para perigo genuíno. Faltava-lhes disciplina, treinamento e, na maioria dos casos, uniformes adequados. Jean-Luc esperava que eles pudessem, de alguma maneira, compensar tais deficiências de habilidade com fervor patriótico e zelo democrático, mas ele, como todos os outros, não tinha certeza sobre isso. Gavreau olhou diretamente nos olhos de Jean-Luc enquanto dizia: “Todos vocês que estão aqui são bons cidadãos. Tenho a honra de trabalhar com todos e cada um de vocês, e sei que devemos fazer a nossa parte pela República. Se por acaso ouvirmos os sinais de alerta ou os sinos, significa que o inimigo está em nossos portões. De todo homem nesta cidade... aos diabos, de todas as mulheres também... será esperado que peguem em armas e defendam nossa casa. Não devemos nos esquecer: foi um bando de patriotas, mulheres e homens, que conquistou a grande fortaleza da Bastilha. Foi um bando de mães e filhas famintas que marchou sobre Versalhes e tirou os Bourbons de seus penicos de ouro. Seremos a última linha de resistência da França. Derramaremos cada última gota de sangue em sua defesa.” Os homens ofereceram respostas ao grito de guerra de Gavreau com vários graus de entusiasmo. Jean-Luc considerou a possibilidade em silêncio. 30


Será que pegaria em armas se o inimigo marchasse sobre Paris? Contra essa nova força que ameaçava a segurança de sua família e da sua nação? Sim, ele supôs que sim. Ao lado dele, Pierrot estava ruborizado e parecia desejar que o inimigo conseguisse chegar às barreiras parisienses, só para ter a oportunidade de derramar seu sangue. Ou talvez estivesse simplesmente furioso por Jean-Luc tê-lo chamado de idiota. Gavreau enfiou as mãos nos bolsos enquanto prosseguia. “Agora nossos pensamentos vão para nossos irmãos ao leste. Nossos generais, Dumouriez e Kellermann, marcharam com seus valentes soldados ao encontro do inimigo perto das florestas de Valmy. Logo, ou talvez até mesmo hoje, a vitória ou a derrota de nossa Revolução poderá ser decidida nesses prados.” Jean-Luc deixou a notícia penetrar profundamente nas suas vísceras enquanto olhava pela janela. A leste, viu o rio. Além do Sena, as antigas torres de pedra da Catedral de Notre Dame se erguiam contra o céu. A distância, depois do perímetro demarcado pelas muralhas de Paris, onde o verde florescia no antigo campo de caça silvestre de seu desgraçado rei, seus companheiros patriotas esperavam. Jean-Luc estreitou os olhos, desejando ver além da cidade e penetrar naquela extensão verdejante. Não sabia dizer se era apenas um truque de sua imaginação, mas lá, a distância, pensou ter detectado uma fraca espiral de fumaça ondulando em direção ao céu.

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Onde a luz cai – No crepúsculo da Revolução Francesa by Grupo Autentica - Issuu