A L E X
S E N S
A silenciosa inclinação das águas –
P A R T E
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Copyright © 2021 Alex Sens
Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora Ltda. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora. EDITORAS RESPONSÁVEIS
Rejane Dias Cecília Martins PREPARAÇÃO E REVISÃO
Samira Vilela CAPA
Diogo Droschi (sobre imagem de Sakda Tiew/Shutterstock) DIAGRAMAÇÃO
Waldênia Alvarenga
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Sens, Alex A silenciosa inclinação das águas : parte II / Alex Sens. -- Belo Horizonte, MG : Autêntica, 2021. ISBN 978-65-5928-110-7 1. Ficção brasileira I. Título. 21-78239
CDD-B869.3
Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura brasileira B869.3 Aline Graziele Benitez - Bibliotecária - CRB-1/3129
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SEGU N DA PA RT E
Noruega
26.
Bergen, Noruega, março de 2019. Caía um borrifo de chuva a dez quilômetros dali. A paisagem se dissolvia numa luz cinzenta e fria. Vapores se condensavam, trespassados por galhos secos, quando deslizavam entre as ilhotas, partindo da água até as florestas, transformando-se em bolos de escuridão úmida no ventre das árvores, intumescendo seus caules, espalhando-se na grama já encharcada como que a cobrindo de um nanquim viscoso. Dois membros muito brancos, os braços de Magnólia boiavam na água, as mãos voltadas para cima como as de Ophelia de Millais. Não havia gramíneas por perto, nem juncos ou flores. Não havia cores ao redor, nem o verde descansado das margens, nem a lisura do limo, mas um frio sólido, cinzento, puro, bruto, que estremecia a água em sopros cada vez mais cortantes, como lâminas de ar. O frio era o último estremecimento da tarde, e os olhos de Magnólia, envernizados pela chuva, violáceos, fixos e duros, retinham o langor sanguíneo das cerejas, dois frutos não mais acesos no meio da neblina.
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27. Branco.
Branco e pesado era o ar achatado contra o lago. A neblina branca, as sombras brancas, os contornos brancos das árvores brancas. A água branca, um espelho de leite refletindo a massa úmida sobre ele. O branco maciço. A morte branca, como se cega, uma claridade de maldição marcando o rosto de Magnólia, exposto como uma pintura branca. A violência estalada de um sudário branco. Manchas brancas cobrindo tudo. Branco o silêncio que escapava dos lábios de Herbert, seus passos hesitantes, descendo os degraus de pedra e musgo até o lago Nordås, semicongelado, em frente à casa vermelha de composição de Edvard Grieg. Seus passos assustados como os de um urso branco sobre um torrão de gelo no meio da água, uma ilha flutuante. Magnólia era uma ilha branca oscilando não só na superfície da água, mas na superfície das coisas. Uma chuva cinza manchou o branco e a neblina se abriu numa clareira. Magnólia ainda estava parada quando Herbert se aproximou, observando a cena com uma distância calculada, o pavor lhe forçando os olhos a ficarem cada vez mais abertos, mais incrédulos. Seu corpo, deitado de bruços num curto trecho de pedra que quase entrava no lago, estava manchado, esticado e escurecido pela água nas roupas, como uma extensão do próprio dia, ou uma pincelada de carne cinza no meio da paisagem. 8
Seus braços pareciam de porcelana, rígidos um pouco acima da água, que batia em seus cotovelos com um som prazeroso e oco, como se o espírito do lago gorgolejasse algo que ela precisasse saber. Herbert não se aproximou mais. Estava a quatro ou cinco passos de Magnólia, e foi só quando viu seus braços flexionarem de leve, juntando pocinhas de água na parte interna dos cotovelos, que ele respirou fundo, aliviado. Ela não estava morta. Ela não está morta. Precisou repetir isso várias vezes, como um mantra, para rejeitar a possibilidade. Magnólia moveu os dedos, articulou cada parte de suas mãos e finalmente rolou para o lado, como se estivesse deitada sobre as areias douradas de uma praia no Caribe, e não em um braço escuro de pedra no meio de um lago inóspito e semicongelado. No início, seus olhos encontraram os de Herbert sem nenhum espanto. Estavam inchados, vermelhos, marejados, feito faróis apagados por um sentimento embrutecedor que florescia em carne viva dentro dela. A figura escura de Herbert (usava um casaco azul-marinho, que fora presente dela, e calças pretas, e seus cabelos moviam-se no vento como pontas de um fogo negro) parecia uma miragem: primeiro ele se assemelhou a uma árvore, depois tomou a forma de um totem de carvão, e em seguida se transformou apenas em uma mancha, trespassada pelos véus de luz que dificultavam sua visão e entravam no casaco, no rosto e nas pernas em borrões brancos. – Magnólia? Foi a voz dele que estalou primeiro em seus olhos, depois em seus ouvidos. Aquele “a” aberto, a inflexão na voz, a cautelosa vontade de se aproximar sem espantá-la, tudo isso limpou a visão dela, definiu a mancha como um corpo vestido, tornou nítido o rosto com a barba por fazer e transformou os cabelos apenas em cabelos, com alguns esvoaçantes fios escuros prolongados pelo vento, outros ainda úmidos, colados à testa pela chuva. – Mag, sou eu... 9
Herbert se aproximou ainda mais e estendeu o braço, oferecendo ajuda. Magnólia começou a tremer. Os sons ao redor dilataram subitamente, como se seus ouvidos tivessem sido destampados. Tudo era ruidoso, insistente, constante: as águas, os galhos esqueléticos das árvores que ladeavam o lago, os corvos ocultos em suas próprias asas negras, o assovio do vento, uma porta batida, uma janela fechada, um grito branco. Não. O grito tinha sido o início de uma dor se abrindo como um figo podre em sua cabeça. Sentiu tontura, vontade de vomitar. O grito era seu, e vinha de dentro. Tudo nela doía: desde os nós dos dedos até a parte traseira dos joelhos, e o pescoço ardia como se o tivesse raspado em todas aquelas pedras. Porque ela não agiu nem reagiu, ele se curvou sobre seu corpo gelado e a ergueu, envolvendo-a num abraço enquanto caminhavam feito sonâmbulos até uma clareira. De um lado, as árvores oscilavam e rangiam; do outro, uma parede de pedra indicava o túmulo de Edvard e Nina Grieg. O corpo de Magnólia parou de tremer, mas continuou frio, de modo que Herbert tirou o próprio casaco e cobriu a esposa, apertando seus ombros e esfregando seus braços. – Vamos subir até o café – disse ele, placidamente. – Eu não quero. Preciso sentar um pouco e... Havia um banco de aspecto pútrido quase em frente ao lago, logo abaixo da parede rochosa, e uma boia em tons de branco sujo e laranja desbotado estava presa a um mastro atrás dele. Sentaram-se ainda trêmulos de frio e não se importaram em sujar suas roupas na crosta úmida e pastosa que encobria a madeira, tão encharcada que chegava a ser macia, quase maleável. Herbert esperou pelo primeiro som discreto que levaria ambos ao chão. – Você está dura, Mag – insistiu ele. – Vamos subir e beber alguma coisa quente. Quanto mais ele falava, mais surreal se tornava o fato de estar ali. Magnólia o encarou como se o visse pela primeira vez, desviando sua atenção da água batendo na margem do lago para aqueles olhos assustados. Herbert percebeu que os contornos da 10
boca dela estavam estranhos e viu em seu pescoço um hematoma do tamanho de uma noz. – Estou preocupado com... – O que você está fazendo aqui? – perguntou Magnólia de repente, invadida pela consciência de que Herbert não estivera viajando com eles. Enquanto a memória tinha o aspecto amolecido de um ponto distante no meio de uma miragem, o Brasil parecia tão estranhamente próximo, tão absurdamente perto, como se ele tivesse atravessado uma ponte para vê-la, e não viajado mais de dez mil quilômetros. – Eu vim te ver – respondeu ele com uma ingênua clareza. Magnólia balançou a cabeça e em seguida massageou o pescoço, tentando retomar pela memória tudo o que havia acontecido. – Sim, mas... não estou dizendo na Noruega, disso você sabia. Mas aqui, como sabia que eu estava aqui? Ela olhou ao redor, confusa, e baixou o tom de voz para perguntar o que parecia um segredo. – Onde é aqui, afinal? Acho que conheço... É a casa do Grieg? Herbert sentiu um arrepio na nuca. Por dois segundos, a expressão de Magnólia pareceu a de uma mulher louca. E por mais tempo ela manteve o olhar estreito e desconfiado, como o de alguém que se sente perseguido ou está ouvindo vozes. – É a casa do Grieg – respondeu ele, finalmente. – A casa do Grieg! Eu sabia... Mas como você sabia que eu estava aqui? Ele tirou o braço que a envolvia e encolheu os ombros. O tom de sua voz já estava inflamado, e ela nem parecia sentir frio. A ingratidão, o fato de que mal tinha reparado no gesto carinhoso dele de envolvê-la com seu casaco, e a violência na pergunta, mais condenatória do que curiosa, não o tinham diminuído nem irritado com sentimentos de arrependimento e de ódio, mas de pena. Novamente, ele fora tomado por aquela pena lodosa na qual tantas vezes se deixara afundar. – Foi um palpite – respondeu, sem encará-la. 11
– Um palpite? Isso não é um jogo, Herbert. Você sabia que eu estava aqui de alguma forma. Estava me seguindo? Faz muito tempo que eu... – Eu não estava te seguindo! Ele levantou o tom de voz para calá-la, um recurso que usava sempre que sentia que a irritação de Magnólia penetraria devagar em sua própria irritação, condenando-o a um descontrole que ele não queria sentir. – Então como me encontrou aqui? – Eu já disse. Foi um palpite. Você está desaparecida desde ontem, sempre gostou do Grieg, achei que pudesse estar aqui, sei lá. Não foi o primeiro lugar que vim, antes eu andei por aí... – Quem disse que estou desaparecida? – Todo mundo – respondeu ele, baixando a voz. – Estive com o Orlando agora há pouco e ele me contou que você não dormiu na casa onde estão hospedados. Magnólia afastou-se, sentando-se na ponta do banco, e o encarou. De sua boca escapava uma nuvem de vapor, e Herbert percebeu os arranhões em suas mãos. O hematoma no pescoço já estava oculto pelos cabelos molhados que ela fizera questão de alisar com as duas mãos, na esperança de que pudesse secá-los ou deixá-los mais apresentáveis. Sem saber, ela estava com a expressão vazia e resignada de um condenado à morte. – Sim, foi só isso: não passei a noite com eles – disse ela num tom quase imaturo. – Não estou desaparecida. – Você deve algumas explicações. – E você também. – Por que eu? – Quero saber por que veio para cá, para a Noruega. – Eu disse que vim te ver. – Como sabia que estávamos em Bergen? Foi o Orlando, não foi? Tenho certeza de que foi ele que abriu aquela boca grande e feia... Ela já não estava mais olhando para Herbert, mas para o lago. Falava baixo, estreitando os olhos como se o irmão estivesse 12
ali diante deles, e parecia pronta para pular em seu pescoço e cortá-lo com as próprias unhas. – Não foi o Orlando. Foi o Tadeu. Magnólia virou o pescoço para ele e sentiu o estalo, seguido de um choque. – O Tadeu? Por que ele faria isso? – Porque eu pedi. Liguei na sexta-feira e perguntei se ainda estavam em Oslo, já que você não me deu notícias. – E ele deu com a língua nos dentes. – Não, ele só fez o que eu pedi: que não contasse a você sobre a minha ligação e que passasse o endereço de vocês aqui em Bergen. Peguei o avião ontem de manhã, e acho que cheguei a tempo. Ele se arrependeu daquilo no instante em que Magnólia riu de forma debochada. – Eu não ia me matar nesse lago, Herbert. Você não chegou a tempo de nada. Abraçando-se com força, ela inspirou profundamente e ficou em silêncio, contemplando a paisagem sombria. As árvores e as casas do outro lado do lago se confundiam com a neblina, agora fraca, e pareciam feitas dos mesmos borrões que ela tinha visto no que pensara ser uma miragem do marido, aquele sonho líquido no qual se mergulha quando a vida se confunde com a morte e a consciência com o coma. – Se você tivesse ligado, ou pelo menos escrito um e-mail, uma mensagem, qualquer coisa, eu não teria feito isso – disse Herbert, tentando não parecer ríspido. – Mas você desapareceu, resolveu dar as costas para mim, me ignorar, quando só o que precisamos é conversar, dar um jeito nessa coisa toda. – No nosso casamento? – perguntou ela, deixando escapar um riso cínico. – Quando um casamento passa a ser chamado de “essa coisa toda”, não tem mais sentido nenhum. Já deixou de ser “essa coisa toda” para ser nada, para ser apenas... isso. “Essa coisa toda” que você traiu por um casinho com sua colega não existe mais. 13
Magnólia começou a chorar, e, sem que tivesse permitido, seu corpo revelou a tensão e o desconforto com o frio, oscilando para a frente e para trás como um barco à deriva, o que provocou um súbito enjoo em Herbert. Ele se manteve imóvel, falando sem olhar para ela. – Eu perdoei todos os seus casinhos, se é que podemos colocar no diminutivo – provocou ele. – Eu sempre soube, mas preferi ficar quieto, já conversamos sobre isso. Mas não podemos ficar quietos diante disso, Mag. Precisamos resolver o que fazer. Sua fuga para cá não ia me impedir de tentar. – Eu sei, você sempre teve uma tendência ao melodrama. Atravessar o oceano e cair numa cidade escandinava para conversar sobre divórcio? – Não é sobre divórcio. É sobre nós dois. – E o que você acha que nós representamos agora, hein? Um matrimônio? Até as suas frases são dramáticas, românticas. Apelativas. Escondem a verdade. – Não sou eu que estou cheio de hematomas e arranhões depois de desaparecer numa cidade estrangeira. Ele tinha vencido e sabia disso. Ela dardejou seus olhos, escrutinou seu rosto inteiro. Envergonhada, olhou para os pulsos descobertos, depois para as mãos, sentindo uma fisgada na parte traseira da cabeça. Fez tudo isso sem disfarçar, com uma intenção oculta e insidiosa de extrair mais pena de Herbert, de conseguir dele qualquer tipo de perdão, até a condescendência que mais abominava. Mas a exposição daquelas marcas não surtiu nenhum efeito nele, que continuou imóvel e frio, os olhos escuros pousados no lago. – Ao contrário do que você pensa, eu não preciso ficar me justificando – disse Magnólia, sem se mexer. – Não vim para a Noruega em busca de um consolo ou de uma epifania, só queria ficar longe de você. Mas agora vejo que isso é impossível. – Não vai me falar sobre esses machucados? – Não vou falar nada enquanto você não aceitar que essa coisa toda acabou. 14
– Eu preciso saber, Mag. Preciso saber por que você está assim, por que não contou aonde ia, por que passou a noite fora, deixando todo mundo preocupado. – Se estivessem preocupados, teriam me encontrado, feito qualquer coisa. Você não precisa saber de nada. São muitos porquês e eu estou ficando cada vez mais cansada. Magnólia se levantou devagar e cruzou os braços, dando uma olhada rápida para a cripta de pedra do casal Grieg. – Se ainda existe algum amor entre nós, espero que ele seja enterrado assim, numa cripta na parede, indicando a todos o que acontece com esse sentimento depois de vivido, sabe? Não acho uma má ideia. – Eles foram enterrados aí? – perguntou Herbert, tentando não dar atenção ao contexto. – As cinzas deles. Ele ficou em silêncio por alguns segundos, vendo Magnólia dar a volta no banco e torcendo o próprio tronco para acompanhar seus passos. Ela parou atrás dele e acariciou seus cabelos enquanto retirava das próprias costas o casaco azul-marinho. – Eu queria ter vivido um amor que pudesse ser decomposto em cinzas e eternizado dessa maneira – disse ela, lançando um olhar vazio para o céu. – Não, Mag, você não queria – disse ele lentamente, sem se mover, fechando os olhos enquanto as mãos duras e frias da esposa massageavam sua cabeça com uma leveza perigosa e suspeita. – Se quisesse, teria vivido. Você tinha tudo. Nós tínhamos tudo. – Pois é. Mas o tudo nunca me bastou. Ele suspirou, sentindo com carinho a pressão da ponta dos dedos de Magnólia. – Depois eu que sou dramático. Ela sorriu porque Herbert não podia ver, e continuou massageando a cabeça do marido, até que o tremor em seu corpo aumentou, o vento farfalhou em meio ao silêncio e a chuva voltou a cair.
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