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O sumiço

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GEORGES PEREC

O SUMIÇO

TRADUÇÃO

ZÉFERE


O Sumiço Obscura gralha bica um bricolado alado ruindo um ruído no solo (um outrora trilado por outra pluma (a som só lícito) ao ar livro a ar riscar) a arrastar um rastro carvão vivo. Não fora o olho (puro olho) a aclarar passo a passo o olho vivo do afiado aço à forra dum braço, não fora (com a mordaça do acaso ou afora bússola) o cricri grilo a guiar à surda forma do alfa signo oscilando difuso indifuso, qual o apto a captar (à captura (confuso luar a iluminar crido fim ao finório) dum não ditado à tinta tua por ti próprio) o árduo ofício (com as traças um traço traçando) da palavra canta-ralada (atro por branco)? J. Roubaud


Prólogo No qual foi inaugurada a Danação, conquanto isso ainda vá tardar a dar na vista

Um trio cardinalício, um rabino, um major francomaçom, um trio politicalho manipulado por um monopólio anglo-saxão, por tais indivíduos foi anunciado nas rádios, logo com cartaz por todos os lados, o risco duma inanição fatal para a população. No início a notícia soava falsa. Só uma intoxicação, diziam. Mas o rumor caiu na boca do povo. Acabou cada um com um pau na mão. “Pão para o povo”, gritava a população, vaiando o patrão, os ricos, a administração pública. Após o pôr-do-sol, a polícia não saía mais na rua. Confabulação, conspiração rolando por todos os lados. Mâcon: ali, um local administrativo foi atacado. Rocamadour: um galpão foi pilhado: atum, laticínios, achocolatado aos litros, milho aos quilos, mas tudo com uma cara um pouco putrificada. Nancy: duas dúzias mais um ou dois magistrados foram guilhotinados numa praça pública, aí botaram fogo num jornal noturno, o qual havia tomado o partido dos políticos no comando. Doca, hangar ou galpão, tudo foi assaltado. Dali a pouco, foram atacados os mouros, os africanos, os judaicos. Foram pogroms por todos os cantos: Drancy, Livry-Gargan, Saint-Paul, Villacoublay, Clignancourt. Aí obscuros soldados foram massacrados, por puro gozo. Cuspiram na calçada na qual um sacristão absolvia um capitão da CRS cortado por um iatagã dum hábil gaiato. Matavam a própria mãinha por bisnagas, o padrinho por torradas, o sobrinho por nacadas, o amiguinho por migalhas. Abril iniciado, na madrugada do dia 5, domingo, ou no postrídio, duas dúzias mais um ou dois assaltos a bombas foram contados. A aviação militar soltou suas granadas na Tour d’Orly. O Alhambra foi chamuscado, o Instituto da França, causticado, o Hospital Saint-Louis, calcinado. Dos jardins do Montsouris à Nation, não sobrou muro algum para contar história. 7


No Palais-Bourbon, a oposição ladrava safados insultos, calúnias sacanas, injúrias canalhas, mas a força afrontada, conquanto abalada, assombrada, mantinha sua obstinação por acalmar os ânimos. Mas, junto com o assassinato dumas duas dúzias mais um ou dois suboficiais no Quai d’Orsay, Latour-Maubourg virava o palco da lapidação dum cônsul da Holanda flagrado roubando uma anchova num barril. Mas, junto com a surra sanguinária dada num barão a circular por Wagram com saltos nacarados, o qual achou dum nímio mau gosto um moribundo faminto suplicar por um trocado, Raspail virou o palco dum tiro ao alvo praticado por um volumoso viking louro, o qual, montado num cavalo com o tórax sangrando, liquidava com o arco todo indivíduo a causar algum incômodo. Um cabo faminto, aloprado por conta disso, duma hora para a outra, roubava uma bazuca, aí matava todo o batalhão, do capitão aos soldados; logo promovido a Major-Mor, dali a pouco sucumbia sob a aguda adaga dum ínvido adjunto. Um piadista com muito mau gosto, alucinado, alagou com napalm um bom quarto do Faubourg Saint-Martin. Lyon foi assolada, os corpos somavam no mínimo um milhão; a maioria foi vítima do scorbutus ou do typhus. Por algum motivo ignorado, bar, bistrô, birosca ou dancing, todos viram suas portas trancadas por um funcionário municipal tri-idiota. Daí, na falta do álcool, tudo ficou mais árido. Ainda por cima, Maio foi fogo: do nada, um ônibus foi carbonizado; duns cinco sicranos andando na rua, no mínimo um trio tinha insolação. Um ás da náutica subiu num ponto altíssimo, inflamou a população com sua fala. Num átimo, foi proclamado monarca. Convidaram-no a adotar uma alcunha à altura, altíssona; ambicionava virar Átila II+I; virou Fantômas XVIII, a contragosto. Discordou, discutiu, tomou uma palmada na mão. Coroaram um outro. Chamaram-no Fantômas XXII+I, um bobo, agraciado com uma cartola, uma larga faixa, mais um cajado acaju com a ponta dourada. Colocaram-no num andor para transportá-lo ao PalaisRoyal. Não atingiu o ponto final: um indivíduo todo animado, gritando “Abaixo o Tirano! Ravaillac sou, o cara!”, furou-o a facadas. Inumaramno num columbário, o qual, por oito dias, foi vandalizado por um bando profano, por alguma razão ignota. No futuro, foram surgindo um monarca franco, um hospodar, um marajá, Rômulus (um trio), Alaricos (oito), cinco Atatürks (mais um), quatro Mata Haris (mais quatro), um Caio Graco, um Fábio Máximo Ruliano, um Danton, um Saint-Just, um Pompidou, um Johnson (Lyndon B.), 8


vários Adolfs, Mussolini (um trio), cinco Caroli Magni (ou Carlos Magnos), um Washington, um Otto, logo afrontado por um habsburgo, um Timuri-Ling, o qual, por conta própria, trucidou Pasionarias (uma dúzia, mais quatro, mais dois), Maos (uma dúzia, mais quatro, mais quatro), duas dúzias mais quatro Marxs (um Chico, Karls (um trio), cinco Grouchos (mais um), Harpos (uma dúzia, mais dois trios)). Visando à boa disposição pública, Marat proibiu os banhos, mas uma tal Charlot Corday assassinou-o na sua jacuzzi. Assim foi liquidada a força a vigorar: transcorrido um tríduo, um carro blindado disparava do cais d’Anjou no rumo da Tour Sully-Morland, bastião final das instâncias administrativas; um alto funcionário do município subiu ao último andar; foi visto a agitar uma flâmula branca, anunciando a abdicação incondicional da Administração Pública; ainda por cima, para garantir a paz, dizia pôr à disposição do povo toda sua humílima ajuda. Mas fracassou, pois, surdo à sua súplica, o grandioso canhão do blindado, com intimação ou ultimato algum, implodiu toda a fortificação. Quanto à suposta norma marcial instaurada sob a instigação dum grandissíssimo idiota, ao qual as forças armadas haviam atribuído o comando, foi mais um fracasso, acabou agravando ainda mais a situação. Pronto, tudo ficou fora dos trilhos. Matavam por nada, por um sim, por um não. Mal davam bom dia, aí vinham para cima. Assaltavam ônibus, bondinho, carro mortuário, furgão postal, táxi, tílburi, carroça. Hostilizaram os hospitalizados, açoitaram um coitado dum acamado, atiraram nas costas dum manita com gota. Crucificaram falsos Cristos, no mínimo um trio. Afogaram um alcoolista na calibrina, um farmacologista na insulina, um motociclista na gasolina. Atacavam crianças para cozinhá-las na caçarola, saboianos para pururucá-los, advogados para jogá-los aos crocodilos, franciscanos para sangrá-los vivos, datilógrafos para mandá-los para a câmara do gás, rapazinhos para asfixiá-los, palhaços, garçons, prostitutas, boticários, tipógrafos, arautos, síndicos, mussipontinos, campônios, marujos, milords, trombadinhas, guardas mirins. Pilhavam, violavam, mutilavam. Mas faziam ainda pior: aviltavam, traíam, dissimulavam. Não podiam nunca mais confiar uns nos outros: só tinham ódio para com o próximo.

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I Antoin Vagol


1 O qual, no início, faz imaginar um livro já publicado, no qual um indivíduo dormia um bocado

Antoin Vagol não caía no sono. Ligou a luz. No pulso, o Jaz marcava uma hora da madrugada. Suspirou fundo, aprumou as costas na cama, apoiado numa almofada. Apanhou um livro, abriu-o, foi dando uma lida; mas só captava naquilo um imbróglio confuso, topava a toda hora com uma palavra cujo significado ignorava. Largou o livro na cama. Foi à pia; molhou uma luva para banho, passou-a no rosto, na gorja. Sua pulsação batia à disparada. Suava. Abriu a vidraça, sondou a madrugada. Não fazia calor, tampouco, frio. Um rumor indistinto vogava no ar. Próximo dali, profundo como a tocar numa vigília, surdo como a dobrar numa inumação, abafado como a badalar sob a borrasca, um sino soou a sua batida trinitária. Lá do canal Saint-Martin, um murmulho lastimoso sinalizava uma barca a passar. Na moldura da vidraça, um bicho do tórax azul índigo, com um aguilhão puxando para o açafrão, quiçá barata, quiçá moscardo, não, um borrachudo ia andando, arrastando consigo uma folhinha, uma alfa. Antoin ficou mais próximo, doido para achatá-lo com uma pancada, mas o animal, batidas as asas, voou, sumiu na madrugada. Vagol não logrou atingi-lo. Tamborilou uma marcha militar no oblongo caixilho da vidraça. Abriu o frigobar, apanhou um achocolatado, tomou uma xícara. Ficou mais apaziguado. Foi para o sofá, passou as páginas do jornal um tanto quanto distraído. Fumou um cigarro, conquanto incomodado com o odor. Tossiu. Ligou o rádio: após uma música afro-cubana, tocaram um bóston, aí um tango, aí um fox, aí um cotilhão arranjado ao gosto do dia. Dutronc cantou algo do Lanzmann, Barbara, uma canção do Aragon, Stich-Randall, uma ária da Aída. 13


Haja vista o susto súbito do Antoin, havia tirado um cochilo. Anunciavam no rádio: “Notícias do dia”. Não havia um único fato com alguma importância. Valparaíso: duas dúzias mais um ou dois mortos na inauguração dum viaduto; Suíça: Norodom Sihanouk não irá a Washington; Matignon: Pompidou faz proposta aos sindicatos visando a uma nova organização do status quo, mas fica só na palavra. Biafra: conflitos raciais; Conakry: o assunto foi um putsch. Um tufão ia arrasando Nagasaki, um tornado batizado com um antropônimo gracioso (Amanda) ia ficando mais próximo das ilhas Tristão da Cunha, das quais a população ia saindo graças ao auxílio da Marinha. Roland-Garros, por fim: numa partida da Copa Davis, Santana havia ganhado do Damon por 4 a 1. Apagou o rádio. Agachou na alfombra, tomou inspiração, forçou uns cinco ou mais apoios na musculatura torácica, mas não tardou a ficar cansado. Aprumou as costas ainda no chão, fatigado, fixando com um olhar lasso o curioso croqui a surgir ou sumir na alcatifa Aubusson, a variar a partir das formas organizadas por sua visão: Assim via, hora ou outra, uma argola inacabada com um traço horizontal alongando a sua ponta: quiçá como um G maiúsculo visto numa poça d’água. Ou, branco no branco, surgida numa bruma cristalina, a altiva figura dum monarca brandindo um arpão com uma ponta tripla. Ou, por um átimo, surgindo duma linha sob mais uma sob mais uma, um croqui aproximativo, insatisfatório: voltas avultadas, contornos bastardos a rascunhar, num vão arroubo da imaginação, a Mão tridáctila dum Sardônico rindo às gargalhadas. Ou, como uma imposição, sim, punha ali a figuração dum borrachudo do tórax fuliginoso, no qual havia uma articulação trística dum branco próximo ao lirial. Antoin dava asas à imaginação. A cada minuto mais absorvido naquilo, sondando a alfombra, via surgir cinco, ou mais uma combinação, duas dúzias mais uma ou duas, muitas, rascunhos pondo-o fascinado, mas fragílimos, lapsos falhos, obscuras figuras. Procurava organizá-las, buscando o surgidouro dum sinal mais nítido, dum sinal global cuja significação, quiçá, viria logo à tona, um sinal satisfatório. Contudo via um tramado com traços incôngruos, uns croquis silabados ou mal-acabados, aos punhados, todos soando como uma contribuição para urdir, para compor uma configuração dum croqui inicial ali simulado, imitado, aproximado, mas jamais todo à mostra: 14


um autor formado por uma pata humana, por uma marcha para trás, por dó; transformado por um fulaninho, por uma convicção, por uma acusada; um balido dum borro; um sol cifrado; ou olha: os olhos malignos duma orca colossal, provocando Jonas, hipnotizando Caim, fascinando Ahab: avatar múltiplo dum imo vital cuja divulgação consistia num tabu, substitutos ambíguos a contornar, ad infinitum, um logos, uma força abolida aos confins do nunca, mas pondo Antoin ansioso por avistá-la surgir, por todo o porvir. Ficava irritado. A visão da alfombra fazia um mal alvoroçador para Vagol. Às voltas com tanta ilusão ditada por sua imaginação, cria avistar um ponto mais avultado, um foco ignorado, o qual, por muito pouco, por um triz, jamais podia alcançar. Continuava. Contumaz. Fascinação da qual não podia abrir mão. No fundo da alfombra, como tudo fazia supor, havia um fio a tramar o obscuro ponto Alfa, um grão do Todo Grandioso dando profusas mostras do Infinito Cósmico, ponto primordial do qual, súbito, surgiria um panorama total, abismo com raio nulo, campo insabido do qual ia traçando o inaudito litoral, cujo contorno insinuado ia cobrindo com os próprios passos, turbilhão, altos muros, prisão, bordas galgadas mas nunca transpostas... Ficou obstinado com aquilo por oito dias, mofando, afracando, languindo na oblonga alfombra, a toda hora soltando sua imaginação à caça; focava a vista na visão, aí nominava-a, moldando, construindo, compondo toda uma narrativa à sua volta, numa vigília cansativa, divagando, insistindo na ilusão duma iluminação divina, graças à qual tudo soaria alto, claro. Aquilo o sufocava. Baliza alguma, timão algum, farol algum para guiá-lo, mas ia roçando, triscando na solução: sabia-a próxima, ali, palpitando: ia achá-la (já a achou, já a achara, pois tudo tinha a cara mais banal, mais normal, mais comum do mundo...) mas tudo ficava obscuro, tudo sumia: sobrava um burburinho furtivo, um ruído sibilino, um murmurinho difuso. Um claro-obscuro. Um imbróglio. Não podia mais dormir. Todavia ia para a cama ao pôr-do-sol, logo após sua infusão, com algum barbitúrico na composição, ou ópio, ou láudano ou papoula; todavia fazia-a cobrindo o cocuruto com um pano; todavia contava cabritinhos, muitos cabritinhos. 15


Passados alguns minutos, dormitava, cochilava. Aí, num susto brutal, abria os olhos. Sim, tinha um calafrio. Aí surgia, invasiva, violadora, a visão a assombrá-lo: por um átimo, por um ínfimo átimo, Vagol adivinhava, avistava, captava. Saltava da cama para a alfombra: mas tudo já havia sumido, afora a irritação por causa do alvo inatingido, a frustração por causa do logos, por tão pouco, inalcançado. Aí, tão acordado quanto um indivíduo após dormir um bocado, saía da cama, andava, tomava algo, sondava a madrugada, lia, ligava o rádio. Dia ou outro, colocava uma roupa, ia para a rua, vagava, passava a madrugada num bar, ou num dancing, ou, dirigindo (muito mal), dava voltas com o carro, ao acaso, virando aqui, ali, a gosto da inspiração: rumo a Chantilly ou Aulnay-sous-Bois, a Limours ou Raincy, a Dourdan, a Orly. Numa das madrugadas, alcançou Saint-Malo: passou um tríduo por lá, mas não dormiu um só minuto. Buscou várias saídas para dormir, mas nada funcionou. Pôs um pijama com bolinhas, aí um maiô, aí um collant, aí um poncho, aí uma túnica dum primo soldado spahi, aí ficou todo nu. Arrumou a cama numas trinta formas distintas, no mínimo. Um dia, alugou toda uma pousada, caríssima, mas ainda gastou com cama portátil, chalo, grabato, cama com baldaquim, saco para acampar, divã, sofá, maca. Passou frio por falta duma colcha, passou calor por causa duma manta, trocou o colchão com molas por um colchão d’água. Barriga para cima, bruços, dos dois lados; consultou um faquir, cuja proposta foi uma cama com tachas, aí um guru, cuja indicação foi uma posição do ioga: com o braço atrás da nuca, bastava agarrar o calcanhar com a mão. Mas nada adiantou. Foi um fracasso atrás do outro. Quando mal cochilava, tudo ia por água abaixo, Antoin indo junto, com tudo borbulhando à sua volta. Oprimindo-o. Asfixiando-o. Um vizinho compassivo acompanhou-o a uma consulta no hospital Cochin. Informou qual o antropônimo próprio, Antoin Vagol, mostrou o cartão do plano do Sindicato do Trabalhador. Convidaram-no a passar por auscultação, apalpada, radiografia. Concordou. Indagaram: alguma dor? Um pouco – falou. Qual o mal? Insônia? Tinha tomado algum fármaco? Solução xaroposa? Sim, tinha, mas não tinha ajudado. Doía o olho? Não tanto. A abóbada palatina? Quiçá. O sobrolho? Sim. Os condutos auditivos? Não, mas, na calada da madrugada, tinha um borrachudo como 16


uma pulga atrás do ouvido. Buscaram mais informação: um borrachudo ou um borrachão? Ignorava. Foi logo ao otorrinolaringologista, um cara jovial, com uma juba curta, longas suíças ruivas, óculos, gravata cinza com bolinhas brancas, fumando um cigarro com o odor dalgum licor. O otorrino tomou sua pulsação, auscultou-o, introduziu um visor na sua boca para avistar a abóbada palatina, cutucou o pavilhão, tocou o tímpano, vasculhou o tubo laringiano, o naso-faringiano, os sínus paranasais, a divisória das fossas nasais. O otorrino fazia um bom trabalho, mas ficava assoviando ao longo da auscultação; acabou botando Antoin mal-humorado. – Ai, ai, aí dói – falou. – Calado! – diz o otorrino. – Vamos para a outra sala tirar uma radiografia. Colocou Vagol numa maca branca, fria, brilhosa, manipulou um botão, mais um, mais outro, baixou a cortina, apagou a luminária, fotografou com tudo obscuro, ligou a luz. Vagol quis sair da maca. – Parado! – intimou o otorrino. – Não acabou, não, ainda falta confirmar ou não uma suposta autointoxicação. Colocou uma máquina para funcionar, aplicou no occipital uma punção com irídio do tamanho duma Bic, aí foi analisar a graduação do fluxo sanguino num mostrador munido dum ímã animado por um rotor vibrátil: – A inscrição aponta para o máximo – diz o otorrino, tamborilando no maquinário, mascando o filtro do cigarro –, há uma constrição no sínus frontal. Só com cirurgia para curar. – Cirurgia! – ficou alarmado Vagol. – Sim, isso aí: cirurgia – confirmou o otorrino –, ou vais ficar com um garrotilho falsídico. Ia falando num tom brincalhão. Piada ou não, Vagol ignorava: o humor obscuro do doutor o angustiava. Tirou um guardanapo do bolso para limpar os coágulos babados, cuspiu umas palavras, indignado: – Charlatão maldito! – falou por fim. – Um oftalmologista daria um diagnóstico mais cristalino. – Ora, ora – diz o otorrino, conciliador –, após umas cinco, ou mais uma imuno-transfusão, tudo vai ficar muito mais claro, mas, por ora, vamos analisando aos poucos, com cuidado. Tocou uma campainha. Surgiu um auxiliar usando um blusão violácio. – Rastignac – falou o otorrino –, vá lá no Foch, no Saint-Louis ou no Broca, traga uma vacina anti-conglutinativa para nós, rápido. Não vá parar para almoçar no caminho. Aí ditou o diagnóstico para a datilógrafa: 17


– Antropônimo: Antoin Vagol. Consulta do 18/04: coriza banal, autointoxicação do nariz, arriscando abolir todo o trato olfatório, constrição do sínus frontal sinistro, com inflamação da mucosa irradiando para as glândulas sublinguais; a inoculação do tubo laringiano daria por afiliação um garrotilho falsídico. Proponho, portanto, a ablação do sínus, ou, no futuro, faltará voz ao achacado. Aí acalmou Vagol: a ablação do sínus consistia num trabalho longo, minucioso, mas da mais habitual rotina. Já praticavam-na sob Louis XVIII. Vagol não tinha motivos para aflição: dali a oito, mal ficaria sinal. Portanto, Vagol foi parar no hospital. Colocaram-no num dormitório no qual havia duas dúzias mais um ou dois indivíduos, todos um pouco moribundos. Aplicaram um baita dum tranquilizador no coitado (Largactyl, Procalmadiol, Atarax). Vinda a manhã, viu um Grão Patrão a dar uma volta por ali; futuros diplomados, toda uma comitiva, acompanhavam-no a gozar com o visto, o ouvido, com risos forçados a cada risadinha sua. Hora ou outra, o doutor ia à maca dum acamado a agonizar, dava uns tapinhas no braço do combalido, suscitando um ricto pavoroso, agoniado. Mas abundava nas palavras positivas ou consoladoras para todos; distribuía balas para cada garotinho dodói; sorria para as mãinhas. Para cinco ou mais casos complicados, dava aos graduandos sua conclusão, justificando-a: Parkinson, Pólio, Carbúnculo, Guillain-Thaon, Coma pós-parto, Sífilis, Convulsão, Arritmia, Torcicolo. Transcorrido um tríduo, Vagol passava à maca; dali, à sala cirúrgica. Cloroformização. Aí o otorrino introduziu uma cânula numa das suas narinas: a incisão no trato olfatório provocou uma dilatação nasal, facilitando a introdução dum raspador Obradovitch, utilizado para arranhar a divisória das fossas nasais. O próximo passo foi a abrasão com um buril, aí uma obstinada oclusão, com a ajuda duma lâmina fabricada por um britânico uns trinta dias atrás. Dando continuação à cirurgia, foi praticada a punção do sínus, do qual, com um bisturi, foi tirado um fungo maligno, aí, para finalizar: a ustão do nódulo. – Bom – falou com o auxiliar, todo transpirado –, a oxidação foi positiva. Inflamação, não há mais. Passou para o tampão, suturou com catgut, botou o curativo. Um trauma ou um colapso podiam advir na madrugada. Mas não surgiu complicação alguma, a cicatrização foi ótima. Passados oito dias, Vagol podia voltar para casa: voltou, portanto. No mais, dormia tão mal quanto no início; mas já não sofria tanto. 18


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