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O sonho de Borum

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VENCEDOR DO 10º CONCURSO TAMOIOS DE TEXTOS DE ESCRITORES INDÍGENAS


Copyright © 2015 Edson Krenak Copyright ilustrações © 2015 Mauricio Negro

Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora Ltda. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

projeto gráfico

Mauricio Negro diagramação

Carol Oliveira revisão

Lúcia Assumpção Maria Theresa Tavares Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Krenak, Edson O sonho de Borum / Edson Krenak ; ilustrado por Mauricio Negro. -- 2. ed.; 1. reimp. -- Belo Horizonte : Yellowfante, 2023. ISBN 978-65-88437-65-0 1. Literatura infantojuvenil I. Negro, Mauricio. II. Título. 21-80305 CDD-028.5 Índices para catálogo sistemático: 1. Literatura infantil 028.5 2. Literatura infantojuvenil 028.5 Eliete Marques da Silva - Bibliotecária - CRB-8/9380

A YELLOWFANTE É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500

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2a edição

1ª reimpressão

VENCEDOR DO 10º CONCURSO TAMOIOS DE TEXTOS DE ESCRITORES INDÍGENAS


O SONHO DE BORUM O pedido do pajé Todas as noites de inverno, nos reunimos no centro comunitário da aldeia para ouvirmos as lindas histórias dos mais velhos. Gosto muito das histórias do cacique e das narrativas encantadas do pajé. Eles contam histórias dos ancestrais, das guerras, das aventuras no meio da floresta, das grandes caçadas, que hoje estão tão pequenas... Eu adoro quando falam dos encontros com a onça pintada na mata virgem, ou com a jaguatirica e o tamanduá-bandeira às margens do grande e furioso Rio Doce. Mas um dia fiquei com um tremendo frio na barriga. O pajé, ao terminar sua história naquela noite fria, olhou fi rmemente para mim e disse: – Amanhã, Cruquerré, você vai nos contar um sonho! Olhei para os lados, pensando que poderia ser outra pessoa, mas não, era eu mesmo! Havia ouvido mesmo o meu nome! Cruquerré é meu nome na aldeia, mas desde quando estudei na escola da cidade todos me chamam de Borum, que na língua do meu povo pode significar “pessoa verdadeira” ou simplesmente “índio”. Então, quando na aldeia me chamam pelo nome ou é uma bronca dos mais velhos ou algo muito importante será falado para mim. Quando não, me chamam pelo apelido que os meninos da cidade gostam. Cheguei em casa naquela noite preocupado com que sonho teria que contar para o pajé e para os outros meninos e meninas na hora das histórias. Perguntei para minha mãe e ela me disse que eu teria que sonhar para contar um sonho.

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Meu pai me explicou que quando o pajé pede para contar um sonho é porque ele vai me dar um presente, um grande presente. Puxa, como fiquei animado com o presente! O que seria? Seria um brinquedo? Seria algo muito importante para minha vida? – Pai, você também ganhou um presente do pajé? – Sim, meu fi lho. Quando tinha a sua idade o pajé me pediu para trazer para ele um grande cacho de bananas. Tinha que ser da bananeira que estava lá no alto do Monte Ibituruna, uma grande montanha depois do Vale das Antas. Ele me prometeu um lindo colar de gavião que me encheria de coragem quando eu o usasse. Então, numa manhã chuvosa, dessas que parecia que o céu inteiro ia cair na minha cabeça, parti para buscar o cacho de bananas. Meu pai parou por um momento. Parecia que ele estava de volta ao passado, ao seu tempo de infância. Depois ele retomou: – Eu pensei que a chuva me atrapalharia, mas não. Ela se tornou uma longa e linda música até o Monte Ibituruna. Na mata, ouvi poucos sons estranhos. Alguns pássaros cantavam celebrando a chuva tão gostosa, outros dormiam embaixo das folhas. Eu corria, driblando as árvores e os arbustos da mata. Quando voltei com o cacho de bananas, o pajé estava lá na entrada da aldeia me esperando... Todo molhado, com o colar de gavião nas mãos. Naquele dia ele me disse: – Você agora é um homem! Com coragem e persistência tornou-se um borum – uma alma verdadeira! Um krenak de verdade! Ao ouvir a história do meu pai, meu coração acelerou e fiquei tremendamente feliz porque a minha prova era muito simples: contar um sonho.

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