O sociólogo e o historiador
TRADUÇÃO
Guilherme João de Freitas Teixeira com a colaboração de Jaime A. Clasen
2ª EDIÇÃO
TEXTOS SINGULARES NÃO FICÇÃO
Copyright © 2010 Éditions Agone, Marseille, & Raisons d’Agir, Paris, France
Copyright desta edição © 2026 Autêntica Editora
Título original: Le sociologue et l’historien
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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
Bourdieu, Pierre, 1930-2002
O sociólogo e o historiador / Pierre Bourdieu, Roger Chartier ; tradução Guilherme João de Freitas Teixeira com a colaboração de Jaime A. Clasen. -- 2. ed. -- Belo Horizonte, MG : Autêntica Editora, 2026. -- (Textos Singulares)
Título original: Le sociologue et l'historien.
ISBN 978-65-5928-552-5
1. Bourdieu, Pierre, 1930-2002 - Entrevistas 2. Chartier, Roger, 1945- - Entrevistas 3. Historiadores - França - Entrevistas 4. Sociólogos - França - Entrevistas I. Chartier, Roger. II. Título. II. Série.
25-259169 CDD-301.0944
Índices para catálogo sistemático: 1. França : Historiadores e sociólogos : Entrevistas 301.0944
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7 Prefácio: À voix nue
Roger Chartier
17 Capítulo I: O ofício de sociólogo
35 Capítulo II: Ilusões e conhecimento
51 Capítulo III: Estruturas e indivíduo
65 Capítulo IV: Habitus e campo
81 Capítulo V: Manet, Flaubert e Michelet
95 Referências
101 Posfácio: Pierre Bourdieu e a história
Roger Chartier
Debate com José Sérgio Leite Lopes
Prefácio À voix nue1
Roger Chartier
Ao ler o texto com as entrevistas que, em 1988, eu havia feito a Pierre Bourdieu, minha primeira impressão foi a de reconhecê-lo tal como ele havia permanecido na minha lembrança desses cinco programas radiofônicos: enérgico, divertido e entusiasta. O mérito deste livrinho, creio eu, consiste em captar – a partir da vivacidade da interlocução – sua maneira de pensar, liberando-a dos rótulos que, às vezes, a encobrem, seja a autoridade magistral conferida pela cátedra do Collège de France,2 sejam os combates polêmicos do sociólogo envolvido nos conflitos de seu tempo. Sem terem ocultado, no entanto, a continuidade e a coerência de um trabalho que, desde o início, se apoiou nas mesmas categorias de análise e na mesma exigência de lucidez crítica, estas cinco entrevistas levam a reencontrar um Bourdieu um tanto diferente, menos confinado nos papéis que, mais tarde, veio a assumir por escolha ou por imposição: um Bourdieu jovial,
1 Título de programa radiofônico que poderia ser traduzido por: Sem meias palavras. (N.T.).
2 Pierre Bourdieu proferiu a aula inaugural de sua cátedra de sociologia, no Collège de France, em 23 de abril de 1982. Esse texto foi publicado por Éditions de Minuit com o título Leçon sur la leçon (1982b).
bem-humorado, irônico em relação aos outros e, também, a si mesmo; um Bourdieu defensor convicto das rupturas científicas operadas por seu trabalho, mas igualmente sempre disposto ao diálogo com outras disciplinas e abordagens.
Na leitura destas conversações, convém ter presente o que era diferente no contexto intelectual e histórico da época em que elas ocorreram. Em 1988, o diretor da estação de rádio France Culture, Jean-Marie Borzeix – que permaneceu no cargo entre 1984 e 1997 –, desejava incluir Bourdieu no programa À voix nue. Se a escolha de seu interlocutor orientou-se para um historiador – de maneira alguma principiante, mas tampouco entre os mais conhecidos – é, sem dúvida, porque minha admiração e amizade intelectuais por ele já se tinham traduzido por sua presença em vários programas que eu produzia – e continuo produzindo – uma segunda-feira por mês para “Les lundis de l’histoire”. 3 O programa dedicado a seus dois livros, publicados com pouco intervalo – La Distinction. Critique sociale du jugement (1979) e Le Sens pratique (1980) –, difundido no dia 25 de fevereiro de 1980, levou-o a dialogar com Patrick Fridenson e com Georges Duby, a quem estava ligado por uma estima recíproca. Conservo, ainda, uma das mais importantes lembranças desse programa. Na época em que La Distinction havia sido o alvo de críticas ferozes por parte de alguns historiadores que, por sua deficiente – ou, melhor, sua perfeita – compreensão do livro, essa interlocução mostrava,
3 Assim, em 24 de outubro de 1983, para um programa dedicado à história e à sociologia da arte na companhia de Carlo Ginzburg e de Louis Marin; ou, então, em 8 de julho de 1985, a propósito do livro de Alain Viala, Naissance de l’écrivain. Sociologie de la littérature à l’âge classique, com a intervenção de Christian Jouhaud e do próprio Alain Viala.
ao contrário, que o historiador, assim como o sociólogo, deveriam entender as lutas relativamente às classificações tão reais quanto as lutas de classes (se é que elas poderiam ser separadas) e que as representações abordadas do mundo social, além de produzi-lo, acabavam por ser sua expressão. Para um grande número de críticos, o Bourdieu de 1988 era o homem desse livro, La Distinction; com a ajuda de polêmicas e da mídia, essa obra é que projetou o sociólogo para a dianteira da cena, tanto na área intelectual quanto do público em geral.4 Mas, antes de sua publicação, Bourdieu já contava com um longo passado como investigador e com um conjunto de textos sólidos e densos,5 balizado por seus trabalhos de etnografia na Cabília (1972), suas análises do sistema escolar francês (Bourdieu; Passeron, 1964; 1970; Bourdieu; M. de Saint-Martin, 1975; 1981),6 suas pesquisas coletivas sobre os usos sociais da fotografia (Bourdieu; Boltanski; Castel; Chamboredon, 1965) ou a visitação de museus (Bourdieu; Darbel; Schnapper, 1966), além de sua reflexão teórica sobre as lógicas das práticas. Essas linhas de força não esgotam em nada a impressionante vitalidade de uma investigação sempre vigilante, interessada também por outros temas: as sondagens de opinião (1971), as estratégias
4 Em 21 de dezembro de 1979, Bourdieu já tinha apresentado o livro na televisão, por ocasião do programa literário semanal “Apostrophes”, para o qual havia sido convidado por seu animador, Bernard Pivot, em companhia do historiador Fernand Braudel e do romancista Max Gallo; aliás, o título do programa era “L’historien, le sociologue et le romancier” [O historiador, o sociólogo e o romancista].
5 Aspecto que pode ser avaliado graças ao trabalho, bastante notável, de Delsaut e Rivière, 2002.
6 Essas duas pesquisas são evocadas por Pierre Bourdieu no decorrer de nossas entrevistas.
matrimoniais (1972, 1985), a alta-costura (1974; Bourdieu; Delsaut, 1975), as práticas esportivas (1978b), a sociologia do patronato (Bourdieu; M. de Saint-Martin, 1978) e do episcopado francês (Bourdieu; M. de Saint-Martin, 1982). Algumas dessas análises – apresentadas, muitas vezes, em forma de entrevistas ou de conferências – tinham sido reunidas em um livrinho: Questions de sociologie (1980b). Na década de 1980, três livros marcaram a trajetória intelectual do sociólogo que se tornou professor no Collège de France: em 1982, Ce que parler veut dire;7 em 1984, a obra, sem dúvida, mais difícil para ele, Homo academicus;8 e, alguns meses antes de nossas entrevistas, uma coletânea de intervenções orais, Choses dites (1987a).
Na época de À voix nue, Bourdieu preparava Les Règles de l’art (1992), como é demonstrado pela paixão com que evoca seu trabalho em curso sobre Manet e Flaubert. Vários ensaios, publicados em inglês, tinham acompanhado sua reflexão sobre as propriedades específicas dos campos intelectuais e artísticos (Bourdieu, 1983; 1987b),9 exatamente
7 Esta obra proporcionou-lhe uma segunda passagem em “Apostrophes”, em 20 de outubro de 1982, em companhia de Jacques Cellard, Auguste Lebreton, Joël Houssin e Pierre Perret, por ocasião de um programa intitulado “En jacter des vertes e des pas mûres” [Jogar verde em vez de maduro].
8 Por este livro e, mais ainda, pelo relatório apresentado ao Collège de France, Neuf propositions pour l’enseignement de l’avenir [Nove proposições para o ensino do futuro], é que Bourdieu apareceu uma terceira vez em “Apostrophes”, por ocasião de um programa intitulado “De l’école à l’université” [Da escola à universidade], que reunia Jean-Pierre Chevènement, Henri Tézenas du Montcel e Paul Guth.
9 Estes dois textos, com outros oito, serão retomados em Bourdieu, 1993.
como ocorrera com as conferências proferidas em 1986, em Princeton, na série de Christian Gauss Seminars in Criticism ou, de certa maneira, com seu estudo sobre Heidegger (1975) que foi publicado sob a forma de livro no mesmo ano destas entrevistas (1988). Convém, portanto, tentar entender esse Bourdieu como se ignorássemos que, mais tarde, ele publicaria La Noblesse d’État (1989), Méditations pascaliennes (1997), La Domination masculine (1998a) ou Les Structures sociales de l’économie (2000a), além dos textos de intervenção, mais diretamente políticos, editados por Raison d’Agir.10
Para os historiadores, em relação ao ano de 1988, três fatos devem ser lembrados para a compreensão de alguns temas de nossas entrevistas. Em primeiro lugar, a história continuava sendo a disciplina com maior apelo público, a mais bem visível de todas as ciências sociais, não somente graças aos livros de seus mestres – alguns chegaram a tornar-se best-sellers –, mas também com o sucesso dos empreendimentos de envergadura comportando um grande número de volumes que, além de não terem assustado os editores franceses, encontravam compradores e eram traduzidos em outros idiomas. Assim, a Histoire de la vie privée em cinco volumes, dirigida por Philippe Ariès e Georges Duby, publicada pela editora Le Seuil, entre 1985 e 1987; do mesmo modo, em escala mais modesta, a Histoire de l’édition française, que tive o prazer de dirigir com Henri-Jean Martin e cujos quatro volumes foram publicados por Promodis, entre 1982 e 1986. Por outro lado, os historiadores franceses tinham começado a distanciar-se dos princípios de análise que haviam servido de base à dominação – no mínimo, intelectual – dos Annales,
10 Nesta editora inaugurada, em 1996, com o texto Sur la télévision, Pierre Bourdieu publicou, em seguida, outros dois livros (1998b; 2001a).
a saber: a preferência pelas fontes maciças, seu tratamento quantitativo e a constituição de séries. Questionado a partir do exterior – por exemplo, com as propostas da micro-história italiana –, assim como do interior até mesmo da tradição dos Annales, esse modelo de inteligibilidade cindira-se em proveito de outras abordagens que privilegiavam mais as representações coletivas que as classificações objetivas, as apropriações singulares mais que as distribuições estatísticas, as estratégias conscientes mais que as determinações não conhecidas. Daí, os debates – sem dúvida, um tanto fúteis para Bourdieu –, sejam entre o antigo primado atribuído às séries e às estruturas, por um lado, e, por outro, a atenção mais recente prestada aos atores, sejam sobre as diferenças ou os parentescos entre as categorias manipuladas pelo historiador e a linguagem dos próprios atores históricos.
Enfim, mas ainda bastante timidamente, a história havia começado a interrogar a si mesma. Muito distantes das maneiras de pensar de Bourdieu, alguns textos importantes – por exemplo, os de Paul Veyne (1971), Michel de Certeau (1975) ou Paul Ricœur (1983-1985) – haviam designado a tensão existente entre a intenção de conhecimento da disciplina e a forma necessariamente narrativa de sua escrita; tal diagnóstico foi considerado por alguns historiadores – para não dizer pela totalidade da corporação – como outra razão do descrédito relativamente às certezas herdadas e um robusto incentivo para refletir não somente sobre as condições de cientificidade de sua disciplina, mas também – e inversamente, à semelhança do que Bourdieu fazia em relação a Flaubert – sobre a capacidade cognitiva da ficção.11
11 Nesta perspectiva é que se situa meu trabalho sobre George Dandin (1994), de Molière, evocado nas entrevistas.
Portanto, estas entrevistas permitem situar um momento da relação de Bourdieu com a história e com os historiadores: ele vai criticá-los, de forma perspicaz, por universalizarem indevidamente suas categorias de análise e por se interrogarem insuficientemente sobre a construção social e histórica das divisões e das classificações, consideradas por eles, com grande frequência, como objetos naturais. Mas, ao mesmo tempo, Bourdieu respeitava os trabalhos de determinados historiadores, franceses ou estrangeiros, acolhidos generosamente nas páginas de Actes de la recherche en sciences sociales12 ou publicados na coleção “Le sens commun”, dirigida por ele na editora Éditions de Minuit.13 Antes de nossas entrevistas, eu mesmo havia publicado um artigo em Actes (Chartier, 1980) e, em duas outras ocasiões, dialogado com ele a propósito da leitura e da história cultural (Bourdieu; Chartier, 1985).14
A violência das polêmicas, cada vez mais ásperas, o retorno a um primado do político e do indivíduo, afirmado por alguns no decorrer de controvérsias a respeito do Bicentenário
12 Assim, antes de 1988, para os historiadores estrangeiros: os historiadores da arte Svetlana Alpers, Michael Baxandall, Francis Haskell, Dario Gamboni e Enrico Castelnuovo, além de Carlo Ginzburg, Edward Thompson, Eric Hobsbawm, Robert Darnton, Carl Schorske ou David Sabean. E, em relação aos historiadores franceses, Maurice Agulhon, Christophe Charle, Dominique Julia, Lucette Le Van-Lemesle e Gérard Noiriel.
13 É o caso das obras de Erwin Panofsky (1967), François Furet e Jacques Ozouf (1977), François de Dainville (1978) e Alain Viala (1985). Convém ainda acrescentar dois livros que, apesar de não terem sido escritos por historiadores, não deixaram de ter uma importância decisiva para a disciplina: Richard Hoggart (1970) e Jack Goody (1978).
14 Este diálogo ocorreu em 18 de setembro de 1982 no Collège d’échanges contemporains de Saint-Maximin e foi difundido no programa “Dialogues”, em 7 de dezembro de 1982, da France Culture. Em relação ao outro diálogo, cf. Bourdieu, Chartier e Darnton (1985).
da Revolução Francesa, além da moda pela história nacional, levaram Bourdieu a uma crítica mais brutal contra a história e os historiadores, tal como é manifestado em sua entrevista de 1995 com o historiador alemão Lutz Raphael (Bourdieu, 1995). Modifica-se o tom de 1988, e o libelo acusatório – que se limita a poupar alguns nomes – é sem apelo: a história (pelo menos, a francesa) é denunciada, em conjunto, por recusar a reflexibilidade crítica, por manifestar seu gosto pelas falsas oposições, sua atração pela má filosofia e sua ignorância dos clássicos das ciências sociais, além de preferir a futilidade de discussões epistemológicas à custa das práticas de pesquisa que são, de fato, o verdadeiro lugar da reflexão teórica. Que se considere pertinente ou injusto, bem focalizado ou demasiado indistinto, esse julgamento impiedoso tinha se afastado um tanto do tom crítico, mas amigável, das entrevistas de 1988. Eis a razão pela qual acho de bom alvitre ter a possibilidade de reencontrar este momento precioso de um diálogo prejudicado, durante um período de tempo, por ofensas e incompreensões, mas em seguida reatado. Permanecem, para mim, como lembranças luminosas, as várias conversações com Bourdieu no programa “Les lundis de l’histoire”, animadas – como havia ocorrido dez anos antes – pelo calor de uma discussão exigente, mas aprazível: por exemplo, uma entrevista acerca do livro Méditations pascaliennes – habitada pela memória de Louis Marin, que tinha sido seu amigo, desde os anos da “École normale supérieure” (programa difundido em 12 de maio de 1997) –, ou a propósito de La Domination masculine, um diálogo com Arlette Farge sobre o maravilhoso mistério que, às vezes, rompe as leis implacáveis do mundo social e autoriza o encantamento de encontros inesperados (programa difundido em 19 de outubro de 1998).
O júbilo prodigalizado por estas cinco conversações não deve, contudo, levar a esquecer que elas são também
permeadas pela ansiedade de Bourdieu quando ele se esforça por compreender as violentas resistências a suas análises – e não somente as de seus adversários – e as tensões próprias a um trabalho sobre espaços sociais, sejam eles o mundo universitário, sejam a sociedade inteira, dos quais o sociólogo é parte integrante – “enquanto indígena”, de acordo com suas próprias palavras. Daí, em seu entender, a tarefa difícil –embora indispensável – de uma disciplina que, dissipando as ignorâncias tranquilizadoras, permite uma compreensão mais lúcida dos mecanismos que orientam dominações e subjugações, mas pagando o preço da desilusão. “O sociólogo é insuportável”, afirma ele, e não somente para os outros, mas também para si mesmo, por estar situado no campo social, cuja análise é elaborada por ele. Nas palavras de Bourdieu, encontraremos a dolorosa “esquizofrenia” (palavra utilizada por ele) que resulta dessa posição – sem dúvida, única nas ciências sociais – em que o sujeito que produz o conhecimento está implicado, ao mesmo tempo, no objeto a conhecer.
Esta divisão de si mesmo exigida pelo trabalho sociológico – difícil de ser vivida e assumida – é, igualmente, o fundamento do “utopismo racional” que o funda. Com efeito, somente a evidência dos determinismos que se impõem aos atores do mundo social (incluindo, o sociólogo) pode garantir a crítica das aparências ilusórias e das evidências enganosas, o afrouxamento das condicionantes e a possibilidade reconhecida a cada um – mesmo que nem todos possam apropriar-se de tal procedimento – de “tornar-se o sujeito de seus próprios pensamentos”. Com a condição de não se enredar em falsas oposições (por exemplo, entre indivíduo e sociedade, entre consenso e conflito, entre objetividade das estruturas e subjetividade dos atores), o trabalho do sociólogo propõe mecanismos de autodefesa contra o que parece ser
imposto, inexoravelmente, pela ordem natural das coisas – e das dominações.
Pierre Bourdieu andava assombrado pela própria responsabilidade. Esse sentimento explica seus compromissos, assim como seus tormentos e – como poderemos ler nestas entrevistas que restituem, o melhor possível, sua fala apaixonada – sua confiança no saber: o único capaz de tornar menos inexorável e menos desesperante o mundo tal como é. Paris, 24 de novembro de 2009.
Os capítulos seguintes são extraídos de cinco programas À voix nue, gravados em 7 e 8 de dezembro de 1987 e difundidos pela estação de rádio France Culture, entre 1º e 5 de fevereiro de 1988; a assistente de produção foi MarieAndrée Armynot du Châtelet. Esses programas voltaram a ser transmitidos na mesma estação entre 28 de janeiro e 1º de fevereiro de 2002, após o falecimento de Pierre Bourdieu, que ocorreu em 23 de janeiro de 2002.
Capítulo I
O ofício de sociólogo
Roger Chartier: O ofício de sociólogo não deve ser algo fácil de exercer, porque, ao observarmos a maneira como seu trabalho é comentado, ficamos impressionados com as formidáveis contradições que se manifestam nos escritos e nos espíritos. Com efeito, afinal de contas, em relação ao objetivo da sociologia, temos de escolher entre estas duas possibilidades: ele consistiria em mobilizar as massas ou, então, em “provocar o desespero de Billancourt”15? Como é que a sociologia pode ser essa escrita ilegível – de tal maneira complexa que seu sentido se torna impenetrável – e, ao mesmo tempo, servir de suporte a uma mensagem particularmente clara a ponto de vir a ser, para alguns, radicalmente subversiva? E será que a sociologia pode alimentar a pretensão – essa é, às vezes, nossa impressão – de ser uma ciência dominante, um saber dos saberes, quando, ao levar em conta seus escritos, você acaba por desconstruí-la enquanto disciplina? A partir de todas essas contradições é que, talvez, seja possível iniciar a primeira destas entrevistas, considerando que o desafio
15 Expressão corrente para dizer que os diagnósticos científicos não devem provocar o desespero dos assalariados, considerando que Billancourt – o município de Boulogne-Billancourt, no subúrbio leste de Paris – era o lugar da implantação das usinas Renault, símbolo da classe operária. (N.T.).
deste programa consiste em abordar uma série de questões fundamentais: O que é a sociologia? O que é exercer o ofício de sociólogo? Como pensar a relação da sociologia com outras disciplinas que, à semelhança da história (que é a minha área), devem enfrentar esse monstro proteiforme e, em parte, inquietante?
Pierre Bourdieu: Exatamente, penso que a sociologia desestabilize, mas o sentimento um tanto obsedante que eu poderia experimentar como sociólogo é, apesar de tudo, neutralizado pelas próprias contradições entre os ataques. Penso, em particular, que as acusações de cunho político dirigidas contra a sociologia têm, no mínimo, a virtude de serem contraditórias; e, por isso, elas permitem viver. Bom, é verdade que nem sempre é fácil dedicar-se à sociologia.
Roger Chartier: Isso mesmo, porque se tem a impressão de que é uma disciplina que, por seu esforço de reflexibilidade sobre o mundo social, vai inscrever, ao mesmo tempo, quem a produz no próprio campo que ele está em via de descrever. Nesse sentido, não é fácil vivê-la, não apenas por devolver aos outros uma imagem de si mesmos que, muitas vezes, eles não suportam, mas também por implicar aquele que a produz na própria análise.
Pierre Bourdieu: É isso, e tenho a experiência de uma situação: quando, por exemplo, vou falar de sociologia a não sociólogos, a não profissionais, estou sempre dividido entre duas estratégias possíveis. A primeira consiste em apresentar a sociologia como uma disciplina acadêmica, como se estivesse abordando a história ou a filosofia; nesse caso, acabo suscitando o interesse, mas precisamente de natureza acadêmica. Ou, então, procuro exercer o efeito específico da sociologia, isto é, tento colocar meus ouvintes em situação de autoanálise e, nesse momento, sei que me exponho a
tornar-me o bode expiatório da assistência. Por exemplo, tive uma experiência, faz dois anos, quando fui à Filarmônica de Bruxelas,16 convidado por um integrante da diretoria de uma associação – Les Amis de la Philharmonique de Bruxelles [Os Amigos da Filarmônica de Bruxelas] – que, de forma bastante gentil, mas um tanto ingênua, tinha feito o pedido para que eu expusesse minhas concepções, minhas representações da arte, da sociologia da música, etc. E, até o último momento –lembro-me muito bem deste comentário –, no carro que nos levava para o evento, naquela noite, etc., eu lhe dizia: “O senhor não se dá conta de que está me solicitando algo de arriscado que vai suscitar reações; haverá incidentes, e vou ser insultado”. Ele pensava que eu estava com o nervosismo habitual do conferencista. E, em seguida, aconteceu o que eu tinha receado: foi um verdadeiro happening, e, durante oito dias, no meio intelectual, em Bruxelas, não se falou de outro assunto. Um dos meus amigos ouviu um dos participantes dizer que, desde os surrealistas, ele nunca tinha assistido a um debate tão movimentado e extraordinário como nessa ocasião. Ora, eu tinha proferido afirmações totalmente inofensivas, eufemizadas, neutralizadas. Eu havia tomado precauções: meu ponto de mira na assistência era uma senhora idosa, muito bem vestida, com sua bolsa sobre os joelhos, um pouco à maneira do que ocorre no Collège de France; assim, tive todo o cuidado para não ser chocante, nem sequer um instante. Por isso, utilizei o maior número possível de eufemismos.
Apesar disso, penso que a “verdade” sociológica – enfim, coloco verdade entre aspas – é dotada de tal violência, que
16 Não conseguimos detectar a data e o tema da conferência feita em Bruxelas. Pode-se pensar que ela teria retomado os temas da entrevista publicada em Le Monde de la musique, 1978b (reproduzida em 1980b).
acaba machucando; ela faz sofrer e, ao mesmo tempo, as pessoas se libertam desse sofrimento, devolvendo-o para quem aparentemente o provoca.
Roger Chartier: Essa é a diferença, sem dúvida, em relação à história, que fala de mortos e, talvez, à etnologia e à antropologia, que, por sua vez, descrevem assuntos que, apenas raramente e em circunstâncias excepcionais, são confrontados com os discursos que falam deles.
Pierre Bourdieu: Exatamente, neste caso, também, posso responder com um exemplo. Trata-se de um episódio que acho bastante divertido. Um de meus colegas no Collège de France, membro eminente do Institut,17 dizia-me que meus trabalhos tinham suscitado algumas resistências entre determinados membros dessa instituição, inclusive, verdadeiras resistências. E, entre meus trabalhos, o mais chocante era um artigo que eu tinha publicado sob o título “Les catégories de l’entendement professoral” (Bourdieu; Saint-Martin, 1975) usando muita ironia – isto é um parêntese: muitas vezes, há textos que escrevo sorrindo; infelizmente, não há um sinal para exprimir o riso por escrito, essa é uma das grandes lacunas da simbologia gráfica. Portanto, eu tinha encontrado este título – “Les catégories de l’entendement professoral” – e, nesse artigo, eu analisava, por um lado, as apreciações anotadas por um professor do liceu Fénelon, nas classes preparatórias para a École Normale Supérieure, a propósito das dissertações de seus alunos e, por outro lado, os necrológios de ex-alunos dessa mesma École. E esse eminente
17 Referência ao “Institut de France”, instituição cultural francesa formada por cinco Academias: Académie Française, Académie des Inscriptions et Belles-Lettres, Académie des Sciences, Académie des Beaux-Arts, além da Académie des Sciences Morales et Politiques. (N.T.).
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