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O Rio de Fernando Sabino - Passeio afetivo pela cidade

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TERESA MONTERO

O RIO DE FERNANDO SABINO

PASSEIO AFETIVO PELA CIDADE

TERESA MONTERO O RIO DE FERNANDO SABINO

PASSEIO AFETIVO PELA CIDADE

„ “Uma aventura lírica no reinado da matéria impressa”, assim Fernando Sabino definiu sua passagem pela revista Manchete

ROTEIRO

DOS

SABINIANOS

Copacabana

Centro e adjacências (Lapa, Estácio e Maracanã)

Botafogo e adjacências (Glória, Flamengo, Catete e Cosme Velho)

Leme

Gávea e adjacências (Lagoa)

Jardim Botânico

Leblon

Ipanema

Cronologia

O Rio de Fernando Sabino

Referências

Agradecimentos

Créditos das fotografias

ESTÁCIO

CENTRO

GLÓRIA LAPA

CATETE

FLAMENGO

COSME VELHO

BOTAFOGO

LEME
COPACABANA IPANEMA LEBLON
JARDIM BOTÂNICO
LAGOA
„ Fernando Sabino toca bateria com a Ramblers Traditional Jazz Band no Gula Bar, Hotel Marina, Leblon. Década de 1990.
A Nossa Senhora de Fátima.
A Fernando Sabino.
„ No apartamento na Rua General Venâncio Flores, no Leblon. Período em que publicou livros como O homem nu e A mulher do vizinho

„ Filhos de Fernando e Helena Valladares (primeiro casamento): Leonora (ao centro), Virginia, Eliana (de óculos) e Pedro Domingos.

„ Da esquerda para a direita, filhos de Fernando e Anne Beatrice (segundo casamento): Mariana, Verônica e Bernardo.

„ Fernando Sabino em seu apartamento na Rua Canning, em Ipanema, onde escreveu grande parte de sua obra.

COPACABANA

1. Apartamento de Fernando Sabino e Helena Valladares

2. Apartamento de Augusto Frederico Schmidt e Yedda Ovalle Lemos

3. Apartamento de Carlos Drummond de Andrade e Dolores Dutra de Moraes

4. Quarto de Paulo Mendes Campos

5. Apartamento de Carlos Lacerda e Letícia Abruzzini

6. Restaurante e Bar Alcazar

7. Boate Vogue

8. Café e Bar Bico

9. Botequim Alcobaça

10. Bar Maxim’s

11. Restaurante Le Rond Point

12. Cassino Atlântico

13. Restaurante Americana

14. Restaurante Lucas

15. Clube dos Marimbás

16. Editora Sabiá

17. Paróquia São Paulo Apóstolo

18. Paróquia Nossa Senhora de Copacabana e Santa Rosa de Lima e Capela Nossa Senhora de Copacabana

19. Cinema II

20. Livraria Mar de Histórias

„ A Igrejinha de Copacabana, demolida em 1918 para dar lugar ao Forte de Copacabana, renasceu em 1954 em forma de capelinha graças ao padre Antônio Lemos Barbosa, cujas missas ao ar livre atraíam Fernando Sabino.

„ Edifício Alcazar, onde morou o poeta Augusto Frederico Schmidt, ponto de encontro de escritores nos anos 1940, uma extensão do célebre Restaurante Alcazar, localizado no térreo do edifício.

„ No Bar Bico, o cafezinho esticava as horas e unia os amigos, que o diga Fernando Sabino e Otto Lara Resende.

„ No Clube dos Marimbás, vizinho do Forte de Copacabana, a Editora Sabiá inovou ao realizar lançamentos fora dos ambientes das livrarias.

„ Há 80 anos, as letras bordadas em cobre anunciam: “Edifício Elisabeth”. Na avenida mais movimentada de Copacabana, permanece o primeiro endereço de Fernando Sabino no Rio.

COPACABANA ocupa um lugar de destaque nos Caminhos Sabinianos. Foi seu primeiro endereço na cidade. É o bairro que simboliza o período de formação no Rio de Janeiro: onde compôs os primeiros textos, aprendeu a dirigir e tocou pela primeira vez sua bateria na cidade. Seu livro mais festejado, O encontro marcado (1956), está repleto de passagens do protagonista Eduardo Marciano caminhando por suas ruas, afinal, ele se casa com Antonieta, moradora do bairro. Cita inúmeras vezes a praia, a confeitaria, a leiteria, o bar, a igreja. Eduardo Marciano retrata a atmosfera copacabanense que Fernando Sabino vivenciou nos anos 1940: “ônibus, cheiro de óleo queimado, maresia – era o Rio de Janeiro”. O autor escreveu o romance em meados dos anos 1950, quando já não morava mais no Edifício Elisabeth e o casamento com Helena Valladares chegara ao fim.

Cotidiano copacabanense

Quando o bairro é apresentado sob o ponto de vista do cronista Fernando Sabino, o escritor pode ser ligeiro como o gênero exige, mas não se exime de colocar um “pouco de erudição” para tornar o seu tema mais fundamentado, como em “O pão carioca de cada dia”, inspirado por suas andanças em uma padaria de Copacabana. “O carioca vive sob o signo do pão”, diz Sabino. E cita Carlos Drummond de Andrade para lançar uma verdade incontestável sobre o lugar da padaria na história de um bairro: “na sua condição suplementar de confeitaria e às vezes até de sorveteria, é o primeiro ponto de convergência da vida comunitária de um bairro”.

Em relação aos problemas crônicos da cidade, a Copacabana de janeiro de 1960 é um prato cheio. Em “Párias”, o tradicional malandro carioca, cheio de boa conversa e sempre pronto a dar o golpe, cedeu lugar ao mendigo declarado, o maltrapilho sem cerimônia que vai direto ao assunto: “me dá um dinheiro aí”. Vivem de cachaça e brisa os párias da cidade: “Há pouco tempo a Polícia deu uma batida apenas em Copacabana, ao longo da praia, para recolher alguns desses miseráveis. Não recolheu dez ou vinte, e sim mais de quinhentos. Devem ter sido logo substituídos por mil, e assim por diante: o seu nome é legião. São vagabundos que circulam por ali, já nem se preocupando em esmolar de acordo com o figurino, mas contando certo com a nossa obrigação de lhes dar dinheiro”.

No Rio de Fernando existe a carona. Na Avenida Princesa Isabel, um rapazinho humilde parado no sinal faz uma tentativa. O motorista, sentindo-se culpado por negar que ia para o Centro, ou melhor, até a cidade, como se dizia na época, decide voltar até o sinal e lhe dar carona. Publicada em livro em 1976, “O enviado de Deus” mostra como os níveis de violência ainda não eram tão altos como os de hoje, a ponto de se poder dar carona a um desconhecido.

Na Rua Barata Ribeiro, flagra, em “Valentia”, uma situação típica dos botequins, atualmente um comércio cada vez mais raro. Um freguês defende com valentia a funcionária da ira de seu patrão, só porque este não gostou de ver que, em vez de servir uma laranjada, ela fez um suco de laranja, sem pedir sua autorização. Ele não deixa barato: ameaça matar o dono do estabelecimento.

De Copacabana, Sabino não se restringe somente às ruas mais conhecidas. Uma casa na favela na Ladeira Saint Romain vira cenário quando quer compor “pequenas vinhetas da vida brasileira” e mostrar a solidariedade entre os moradores da favela e do asfalto em “O brasileiro, se eu fosse inglês”.

Se da janela do Edifício Elisabeth Fernando avistava o Morro dos Cabritos, é pouco provável que tivesse conhecimento do dia a dia de seus moradores, desde 1926 habitando aquela região íngreme onde, em grande parte, imigrantes nordestinos se estabeleceram e começaram a criar cabras. No morro do Rio de Fernando Sabino,

as famílias ocupavam sua encosta atraídas pelo mercado de trabalho no bairro.

Avenida Copacabana

Na Avenida Copacabana, Fernando pode encontrar, às 10 horas da noite, o eminente crítico literário Alceu Amoroso Lima. A situação lhe é inusitada, pois vê livros por todo lado sobre o meio-fio, entre eles o último de Thomas Merton, o que lhe causa espanto. O que Fernando não esperava era o porquê daquele tumulto na calçada: a troca do pneu do carro do Dr. Alceu. O porta-malas fora esvaziado, daí aquela profusão de livros. “Sinto-o deslocado em Copacabana a esta hora da noite como um esquimó no deserto de Saara”, diz o escritor em “O bilhete de despedida”.

Na mesma avenida, Fernando encontra outro grande nome da literatura nos idos de 1954. “Eu passava de ônibus pela Avenida Copacabana e julguei reconhecê-lo diante de uma vitrine da Casa Sloper. Saltei imediatamente e abordei-o.” Era o poeta Pablo Neruda. O encontro não foi agradável. Neruda parecia cansado e triste. Lembrou-se vagamente de Fernando. O escritor registrou suas impressões em uma crônica, porém o que escreveu não agradou ao poeta. A resposta de Neruda foi publicada em um vespertino carioca, “presenteando-me com os mais expressivos insultos”, conta Sabino.

O tempo tratou de curar os ressentimentos num encontro em Londres, em 1965, no Congresso Internacional do Pen Clube; os dois se reconciliaram. Neruda admitiu sua intolerância. Em “O habitante e sua sombra”, Fernando Sabino fez um retrato comovente do poeta chileno, prestou uma homenagem particular à sua memória e relembrou suas vindas ao Rio e como ainda repercutem os versos que amou desde a primeira mocidade.

Avenida Atlântica

Na Avenida Atlântica, Fernando caminha ao lado de um ícone da arquitetura moderna, Oscar Niemeyer, em direção a um restaurante

na praia onde ele costuma almoçar. Em “Apenas um homem que vive”, Sabino traça seu perfil: “Ninguém identificaria neste homem de camisa-esporte e tão simples de aparência, gestos tranquilos e fala mansa, o gênio criador de Brasília”.

A praia era destino certo para quem fosse a Copacabana. Eduardo Marciano, em O encontro marcado, não resistia a esse encanto: “Tomou um ônibus, foi a Copacabana e ficou a ver os banhistas na areia. Certamente nenhum deles sabia nadar. Mulheres seminuas, belas e lânguidas, inatingíveis: nem ao menos o olhavam. Mas, também, não era possível que homem algum as conquistasse, jamais seriam de ninguém”.

Fernando Sabino testemunha as mudanças no lazer do carioca ao deslocar-se para a orla de Copacabana.

Em O encontro marcado, a vida glamourosa do bairro nos anos 1940 é retratada por seus cassinos, entre eles o Cassino Atlântico, cenário de uma festa de caridade. Oriunda de uma família rica, Antonieta, a namorada de Eduardo Marciano, mora em Copacabana e o convida para o evento ao saber que ele está no Rio.

E o que dizer da primeira vez em que um personagem de Fernando se viu motorizado em Copacabana? Ele ganhou de seu irmão uma barata conversível. “Considerei-me desde logo o Rei da Zona Sul”, relata em “Numa curva da estrada”. O carro o colocou em situações embaraçosas em vários pontos da cidade: dentro do Túnel Novo, no Largo da Carioca e na Rua Primeiro de Março.

Vida boêmia

Copacabana é um de seus bairros preferidos para abordar a vida boêmia de um jovem músico da Zona Sul entre Copacabana e Ipanema durante a década de 1960, como mostra em “O marido fiel”. Não é por acaso que, em O encontro marcado, Fernando Sabino cita uma lista de bares e boates copacabanenses por onde passa Eduardo Marciano. Ao dar carona a Valdomiro, passa pelo Michel, na Rua Fernando Mendes. A vivência na Zona Sul da cidade proporcionou a Fernando fazer pequenas coisas do cotidiano à beira-mar, como tomar chope com pressão depois da praia no balcão do botequim.

Na novela O bom ladrão, o aniversário de um ano de casamento de Isabel foi comemorado com um jantar em Copacabana num restaurante dos “mais finos da cidade”. Os personagens também frequentam o bar da praia, e o personagem-narrador, ao relatar sua última visita ao Rio, menciona sua passagem por uma joalheria do bairro.

O cenário da única peça teatral de Fernando Sabino é um apartamento de quarto e sala em Copacabana. Sua faceta de dramaturgo aflorou para atender a um pedido de Cacilda Becker. É que ela ia apresentar a peça Pega fogo, e, por esta ter somente um ato, precisava de mais dois para complementar o espetáculo. No entanto, a ideia da atriz foi anulada, porque sugeriram ampliar a própria peça que ela ia apresentar. Fernando não publicou o texto teatral, mas o transformou em uma novela muitos anos depois, com 35 páginas: “Noite única”, publicada em O galo músico.

A ampla laguna

A Copacabana desse período ainda tinha muito charme, mas, como Paulo Mendes Campos analisa em “O âmago da questão”, “Copacabana é o estúpido parâmetro de urbanização carioca”. Com o passar do tempo, Ipanema e Leblon se copacabanizam. Ipanema primeiro, e o Leblon depois, mais lentamente.

Nos anos 1950, o bairro abriga entre seus moradores os escritores

Rubem Braga e Millôr Fernandes, mas, antes de terminar a primeira metade da década, pouco a pouco “escritores e pintores começavam a desquitar-se da ampla laguna”, como concluiu Paulo Mendes Campos em “Copacabana-Ipanemaleblon”.

Fernando Sabino morou em Copacabana quase três anos, entre 1944 e 1949, com alguns intervalos, excluindo os dois anos em Nova York, de 1946 a 1948.

A mudança de endereço não o afastou de seu primeiro bairro na cidade. Nos últimos anos morando em Ipanema, segundo sua filha Eliana, visitava com frequência uma mendiga que ficava na entrada da Galeria Menescal, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Pelas lentes de Sabino, Copacabana revelou-se distante da “Princesinha do Mar” cantada por Braguinha e Alberto Ribeiro.

Caminhos Sabinianos em Copacabana

1 APARTAMENTO DE FERNANDO SABINO

E HELENA VALLADARES

Edifício Elisabeth. Avenida Nossa Senhora de Copacabana, n.º 769, apartamento 601, Copacabana.

Fernando se referia a essa rua como Avenida Copacabana, como a chamavam muitos na época. Depois o nome completo passou a ser usado pelos cariocas para identificar a principal avenida do bairro, junto com a Avenida Atlântica.

Construído em 1943, o Edifício Elisabeth tem apartamentos amplos com três ou quatro quartos. Após se casarem, em 10 de junho de 1944, em Belo Horizonte, Fernando e Helena alugaram o imóvel onde residiram em dois momentos, o primeiro até maio de 1946, quando se mudaram para Nova York. Fernando foi convidado para trabalhar em um escritório comercial e, em seguida, no Consulado do Brasil. Retornaram ao edifício em 1948.

O Elisabeth entrou para a história como um ponto de encontro de escritores e jornalistas. Tornou-se um verdadeiro open house quando diferentes gerações compartilharam a amizade de Sabino.

Até chegar ao Edifício Elisabeth, Fernando se perguntou: “Onde é que eu vou morar?”. A empreitada não era fácil, mas, quando viu as letras bordadas em cobre “Ed. Elisabeth”, tomou a decisão:

“– Eu sou aquele que vai alugar o apartamento.

“O porteiro me olhou espantado:

“– Como é que o senhor sabe que tem um apartamento para alugar?”

Assim ele conta em “Edifício Elisabeth” como, depois de disputar o imóvel com 60 outros pretendentes, saiu vencedor.

Localizado bem próximo do Metro Copacabana, bastava Fernando se debruçar à janela para saber qual filme estava em cartaz em um dos cinemas mais cultuados da época.

De sua janela via também o Morro dos Cabritos, o que hoje não é mais possível, pois estavam sendo construídos os primeiros edifícios da avenida. O Elisabeth foi um deles.

Do Elisabeth, ouvia o bonde passando na rua, muita gritaria e acidentes de meia em meia hora, mas no meio disso tudo conseguia escrever. Fernando tinha um cartório, presente de casamento do presidente Getúlio Vargas, porque sua noiva era filha do governador de Minas Gerais, Benedito Valladares. Portanto, era uma época de vacas gordas, mas com o tempo isso começou a incomodar Fernando, que não compartilhava da ideologia varguista erigida em moldes ditatoriais com o advento do Estado Novo.

No entanto, justamente ao se casar com Helena Valladares, seu destino foi enlaçado definitivamente à cidade, ao ser nomeado serventuário de justiça no Distrito Federal. O primeiro emprego em Belo Horizonte foi como funcionário público na Secretaria de Finanças – ele informava processos sobre recolhimento de impostos. Fernando fazia num só dia o trabalho de uma semana. Nas horas vagas ficava lendo ou aproveitava para fazer reportagens esportivas na Folha de Minas ou entrevistar alguém para a revista Belo Horizonte. Quando ficou noivo de Helena, foi promovido a oficial de gabinete da Secretaria de Agricultura. Helena Valladares tinha inclinação para as letras, como revelam as cartas de Fernando Sabino para Mário de Andrade. Ele envia-lhe poemas da noiva em 13 de julho de 1942, sem identificá-la, e pede a opinião do escritor. A resposta chega em 6 de agosto. Mário de Andrade exclama: “o que poderei dizer sobre vinte versos!”. E completa: “Provam que se trata de pessoa muito nova, e muito inteligente, ou pelo menos muito hábil. É certo que sua noiva lê e conhece bastante poesia ‘nova’ do Brasil”.

Mário argumenta que, se Helena for de fato poeta, não adianta ele desanimá-la: “A fatalidade sobrepujará o desânimo”. Resta-lhe dizer: continue. Afinal, “os versos são gostosos” e “são mais estados de poesia que poemas”. Helena continuou.

E Clarice Lispector, como demonstram as cartas enviadas a Fernando, estimulava-a, afinal de contas, mulher escrever e publicar era coisa rara naqueles tempos, que o diga Clarice. Ela conheceu o

casal quando estivera de passagem pelo Rio ao lançar O lustre, antes de se mudar para Berna. A amizade a uniu a Nandinho e Heleninha.

Clarice escreve, em 13 de outubro de 1946: “Fernando, eu queria muito ler outros contos de Helena, seria possível?”. E, em 30 de novembro: “Helena, você não quer me mandar outro conto? Não insisto, mas ficaria muito contente”. E, em 8 de fevereiro de 1947, pergunta a Fernando: “Heleninha como vai? Tem escrito?”.

Era o tempo da Segunda Guerra Mundial. No Distrito Federal, como se dizia na época, tudo acontecia. O jovem Fernando, com todo o vigor de seus 21 anos, só pensava em consolidar seu sonho acalentado desde os 13 anos: ser escritor; frequentar as rodas literárias era uma das iniciativas mais prementes para inseri-lo no mundo literário. Desde os tempos de Belo Horizonte, estabelecia contatos com os escritores veteranos, fundamentais para a sua formação. Guilhermino Cesar foi um deles: “me ensinou muitas coisas”, confessa Fernando. João Etienne Filho também: o escritor e jornalista lhe emprestava livros e o iniciou na literatura brasileira, e ainda publicava seus artigos literários em O Diário

Em Belo Horizonte, conheceu João Alphonsus, Cyro dos Anjos, Emílio Moura e Marques Rebelo; este, aliás, foi quem o ajudou a publicar seu primeiro livro, Os grilos não cantam mais (1941).

Com Mário de Andrade o encontro foi marcante, um divisor de águas. Entre 10 escritores, ele era o mais cobiçado pelos jovens. O autor de Macunaíma recebeu seu livro de estreia e lhe escreveu uma carta entusiasmada. Disse-lhe que, se Fernando tivesse menos de 30 anos, o que escrevera vinha a ser um caso bem interessante. Fernando escreveu o primeiro livro com 17 anos.

Encontro com escritores

No Rio, Fernando Sabino começa a conhecer escritores ao frequentar bares e restaurantes e participar de rodas literárias e etílicas, quando o chope e o uísque eram um estímulo para analisarem os últimos acontecimentos ou apreciarem uma ideia que viraria uma história ou um poema.

Nessa onda se aproxima do velho conterrâneo Carlos Drummond de Andrade, que já conhecia de Belo Horizonte, e de escritores veteranos a quem admirava, como Vinicius de Moraes, Aníbal Machado, Octavio de Faria, Marques Rebelo, Augusto Frederico Schmidt e Manuel Bandeira. Sem falar nos artistas plásticos e nos arquitetos que frequentavam os mesmos círculos, como Candido Portinari, Di Cavalcanti, Oscar Niemeyer e Lúcio Costa.

Nos primeiros anos, Fernando acolheu amigos mineiros em seu apartamento quando de passagem pelo Rio, como o escritor Murilo Rubião, seu padrinho de casamento. Outro que estava sempre por lá era Paulo Mendes Campos, o primeiro a se mudar para a cidade, atraído pela vinda do poeta chileno Pablo Neruda, em 1945. Era um tempo em que os poetas deixavam a cidade natal para conhecer de perto seu escritor preferido.

A visita de Neruda, poeta cujos versos Fernando Sabino recitava desde a juventude pelas ruas de Belo Horizonte, foi o fato mais comentado na história do Edifício Elisabeth. Ao convidá-lo para comer um leitão em seu apartamento naquele junho de 1945, Neruda surge com “todo um séquito da esquerda radical, recrutado no Vermelhinho”, comenta Fernando. Além de Manuel Bandeira, também veio o poeta e compositor Jayme Ovalle, por quem Sabino iria se encantar, mas não nesse dia; no convívio em Nova York, descobriria em Ovalle a inteligência mais poética e intuitiva que já conheceu.

Paulo Mendes Campos e Carlos Drummond de Andrade registraram em crônicas esse momento histórico. Paulo destacou a presença de Di Cavalcanti, o primeiro convidado a chegar. Neruda viera ao Rio para participar do comício de Luís Carlos Prestes.

Ao recordar aquele dia, Neruda cercado por escritores no restaurante Alcazar e no apartamento de Fernando, Drummond anotou em seu diário, em 30 de junho de 1945, publicado como O observador no escritório (1985), a presença do poeta chileno em vários lugares da cidade. No apartamento de Sabino, Drummond assistiu a uma “sessão infernal de bateria executada pelo dono da casa”. O instrumento não era o forte do poeta itabirano.

Só o amor paternal foi capaz de silenciar a bateria. Com o nascimento da primogênita, Eliana, papai Fernando renunciou ao menos

por um tempo a tocar bateria e começou a pensar em substituí-la por um piano: “parei definitivamente com a bateria por causa do soninho da Eliana (já com três meses de nascida)”.

Guerra e poderes mediúnicos

No Edifício Elisabeth, Fernando ouviu a notícia mais esperada de 1945: “Nesses três dias não tenho feito outra coisa senão escutar no rádio em primeira mão a notícia de que a guerra acabou”.

A mudança para o Rio não o afastou de sua formação católica.

A Paróquia São Paulo Apóstolo ficava a duas quadras do Edifício Elisabeth. Em carta ao amigo Hélio Pellegrino, confessa: “Domingo de manhã, quando vou sozinho para a missa numa igreja aqui perto, tão diferente das daí, penso naquelas missas do Santo Antônio em que a gente se encontrava e depois voltávamos batendo papo”.

No apartamento de Fernando Sabino, aconteceram encontros que resultaram em arte, como é de se esperar quando se reúnem dois poetas: Vinicius de Moraes e Paulo Mendes Campos. Paulinho revelou, em “Soneto a quatro mãos”, que escreveu um poema com Vinicius.

E, por falar em Vinicius de Moraes, no Edifício Elisabeth ele foi personagem de histórias inusitadas, como Drummond se recorda em seu diário O observador no escritório, no dia 26 de abril de 1945, o dia em que se revelaram os poderes mediúnicos do “poetinha”.

Em um domingo à noite, reuniram-se Fernando Sabino, Vinicius, Drummond e João Cabral de Melo Neto. Eis que Vinicius começa a recordar-se do momento em que conversou com o pintor Carlos Scliar (que estava na Itália em plena guerra). Ele disse: “O espírito de Scliar se manifestou”. Resumo da história: depois Vinicius soube que naquela noite a mãe do pintor havia falecido em Porto Alegre. Impressionado com os poderes de Vinicius de Moraes, Drummond sugeriu invocarem o espírito de Mário de Andrade no apartamento de Fernando Sabino. Assim foi feito. Os três levaram uma mesinha para a varanda e apagaram as luzes, deixando acesas somente as da sala de jantar. Enquanto Vinicius começava a rabiscar a folha com traços desconexos, Fernando Sabino retirava uma folha para que o poeta

escrevesse na seguinte. De olhos fechados, Vinicius de Moraes tentava atender o desejo de Drummond.

A comunicação se deu, no entanto o espírito chamava-se Glorinha. Mário de Andrade não apareceu. Mudaram o método, buscaram o contato através do copo. Fracassaram. Drummond encerrou seu registro informando que restou aos amigos aproveitar a madrugada e ir para o Alcazar em busca de uns bifes. João Cabral saiu cedo e não presenciou os poderes mediúnicos de Vinicius de Moraes.

Escrever

No Edifício Elisabeth, Fernando Sabino vivenciou muitos momentos de ansiedade, quando se dava conta de que o trabalho de escrever um livro devia ser iniciado inúmeras vezes. Aos amigos, como Otto Lara Resende, desabafava nas cartas: “Meu livro, Otto, oh! Desgraça que está sendo meu livro que acabei pela quinta vez! Cento e tantas páginas datilografadas de cada vez”.

Em 23 de julho de 1945, Sabino avisa: “Meu livro, eu parei definitivamente. Você com seu menosprezo acabou me convencendo do que eu já estava convencido, isto é, que sou falso quando estou sendo eu, porque sou sincero para com uma realidade que verdadeiramente não existe em mim”.

Ele explica que o único caminho é assumir uma atitude estética diante da vida, só assim realizaria o ideal do homem integral, e cita Mário de Andrade como alguém que compreendeu isso. O uso do termo “atitude estética” pega emprestado do autor de Macunaíma. E tenta explicar: “A atitude estética diante da arte gera um Cyro dos Anjos; a atitude humana diante da arte gera um Jorge Amado”. Quanto a interromper o livro, nada como um dia depois do outro: escritores são dados a esses estados de desespero até que o dia termine e as ideias mudem. Meses depois, em outubro, diz a Hélio Pellegrino: “Meu livro vai indo, já terminei ele quinhentas vezes, estou na quinhentas e uma. Parece que vai”. Fernando estava sempre imaginando histórias; isso incluía o desejo de reunir os amigos mineiros para um exercício a quatro mãos, como a

ideia de fazer o livro Caderno de exercícios. Já tinha editora, a Agir, restava os amigos aceitarem. Assim era Fernando, tentando fazer a ponte entre eles, uni-los, até que um dia todos fossem viver no Rio de Janeiro.

Após dois anos em Nova York, em março de 1948 volta a morar no Rio e retorna para o apartamento de Copacabana, mas comenta com os amigos que quer morar em uma casa. Diz que Hélio Pellegrino se casará e ele será o padrinho.

Nesse período de Nova York, seus amigos também viviam longe do Rio: em junho de 1947, Fernando Sabino estava em Nova York, Vinicius de Moraes em Los Angeles, Rubem Braga em Paris e Clarice Lispector em Berna.

Fernando retoma seu trabalho no cartório. Chegava às 8 horas e ficava o dia inteiro. Quando se separou de Helena, em 1953, decidiu que podia começar a viver apenas de jornal e literatura, que eram a sua vocação. Sua demissão foi formalizada em um ofício ao presidente Juscelino Kubitschek. A partir daí, o ganha-pão virá dos direitos autorais, que só aumentariam significativamente com o lançamento de O encontro marcado (1956) e com as colaborações na revista Manchete e no Jornal do Brasil

Vizinhos: os Robertos e as Leão

No capítulo de vizinhos ilustres do Edifício Elisabeth, Fernando teve três: o arquiteto Marcelo Roberto e as irmãs ainda “menininhas” Danuza Leão e Nara Leão, a primeira com cerca de 10 anos, e a segunda com 2. O arquiteto era vizinho de andar, e as irmãs Leão moravam no segundo.

A rotina efervescente de seu apartamento começava a partir da meia-noite. Quando chegavam os amigos, Fernando jogava a chave do sexto andar. Podia ser Rubem Braga, Vinicius de Moraes, Carlos Castelo Branco, o Castelinho, ou Paulo Mendes Campos.

Marcelo Roberto era o primogênito dos irmãos Roberto, que se distinguiram por serem precursores da arquitetura moderna no Brasil. O MMM Roberto é o escritório de arquitetura do trio de irmãos que projetou ícones da paisagem carioca, como o prédio da Associação

Brasileira de Imprensa (ABI). Fernando sentia-se constrangido quando o encontrava no elevador e lembrava que sua bateria tocara até as 3 horas da manhã.

Se morar no Edifício Elisabeth proporcionou a Fernando Sabino tantos encontros marcantes e tantas noites prazerosas, a luta diária era contra o barulho da cidade, tão diferente de Belo Horizonte. Os bondes passavam pela manhã deixando perturbados os ouvidos sensíveis do escritor, mas à noite Fernando dava um jeito de revidar e se divertia com a sua bateria: “eu compensava o barulho fazendo mais barulho ainda durante a noite” ou ouvindo Duke Ellington a “todo pano”.

Afinal, ele mostrou que, para viver na grande metrópole que era o Rio de Janeiro dos anos 1940, precisava exercitar a sua alma de músico. E tome jazz!

Na Copacabana onde se criaram as filhas de Fernando e Helena, podia-se brincar sem receio na rua, como fizeram muitas vezes na Raul Pompeia. Violência e assalto eram palavras inexistentes no dicionário de Eliana e Leonora.

O edifício ficou eternizado em uma crônica que resume esse momento da vida de Fernando em Copacabana, antes da mudança para Nova York e após a volta, em 1948. Ele assinala a inauguração de uma nova era na qual os vizinhos poderiam reclamar do silêncio no 601. Após quase três anos morando no edifício, ele, Helena e as duas filhas arrumam as malas e as ideias e abandonam para sempre o Elisabeth.

2 APARTAMENTO DE AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT E YEDDA OVALLE LEMOS

Edifício Alcazar. Rua Almirante Gonçalves, n.º 4, 10º andar, cobertura, Copacabana. Esquina com a Avenida Atlântica.

O poeta e editor Augusto Frederico Schmidt era proprietário de um patrimônio que lhe permitia exercitar seu talento no ainda incipiente mercado editorial. Jorge Amado, Graciliano Ramos e Lúcio Cardoso foram três escritores que estrearam na Editora Schmidt. Ter um apartamento acima do restaurante Alcazar era tudo o que os jovens escritores poderiam desejar. A turma mineira de Fernando Sabino, à medida que foi se mudando para o Rio, tinha

Copyright © Teresa Montero

Copyright dos trechos da obra e imagem de Fernando Sabino © Herdeiros de Fernando Sabino

Copyright desta edição © 2026 Autêntica Editora

Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora Ltda. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

A editora e a autora agradecem às instituições e aos arquivos públicos, todos devidamente citados na p. 269, que colaboraram com esta publicação ao autorizar gentilmente a reprodução de fotografias e documentos de seus acervos.

diretora editorial

Rejane Dias

editora responsável

Rafaela Lamas

revisão

Aline Sobreira

Deborah Dietrich

projeto gráfico

Diogo Droschi

fotografia de capa

Ricardo Chaves/Abril

Comunicações S.A.

diagramação

Guilherme Fagundes

fotografias e reproduções

Daniel Ramalho

verso da capa

Acervo C Musehum –Museu das Comunicações e Humanidades/Oi Futuro

mapas

© Contribuidores do OpenStreetMap.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Montero, Teresa O Rio de Fernando Sabino / Teresa Montero. -- 1. ed. -- Belo Horizonte, MG : Autêntica Editora, 2026.

ISBN 978-65-5928-625-6

1. Cotidiano social 2. Jornalistas - Biografia - Brasil 3. JornalistasBrasil - Memórias 4. Rio de Janeiro - Descrição e viagens 5. Sabino, Fernando, 1923-2004 I. Título.

25-294446.0 CDD-070.92

Índices para catálogo sistemático: 1. Jornalistas : Biografia e obra 070.92

Aline Graziele Benitez - Bibliotecária - CRB-1/3129

Belo Horizonte

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