Paulo Rapoport
“Marília foi uma surpresa boa para todos: mulher guerreira, ciente da sua missão, com um potencial incrível na sua genialidade. E o mais importante: pura essência, natural, espontânea! Veio pra deixar o seu legado! História linda!” Daniel
Carol Prado é baiana de Brotas de Macaúbas. Como jornalista, escreve desde 2014 sobre a cultura popular e sua relação com o comportamento e a sociedade. Já trabalhou para a Folha de S.Paulo e a TV Globo. Atualmente, assina uma coluna no Estadão. Em 2025, criou e apresentou “Marília: O outro lado da sofrência”, podcast sobre o impacto de Marília Mendonça, que teve mais de 500 mil downloads nas plataformas de áudio.
“Lendo O rastro da rainha tive a certeza de que, se tivesse conhecido Marília Mendonça, seríamos boas amigas. Para os fãs, será uma oportunidade de viver a saudade. Para os que não tiveram a sorte, como eu, de conhecer a fundo a vida e a obra da Rainha, será um belo mergulho.” Astrid Fontenelle
“Diferente de tudo o que foi feito sobre Marília. Dá gosto de ver como o jornalismo pode tornar mais profunda e interessante uma história já tão rica. Uma personagem complexa, mas carregada de clichês – por culpa da própria imprensa –, pela primeira vez tem sua história relatada de forma serena e, ao mesmo tempo, carinhosa.” André Piunti
ISBN 978-65-6002-172-3
9 786560 021723
o rastro DA rainha PA R A E N T E N D E R O F E N Ô M E N O
“Sertanejo é sertanejo, não existe ‘feminejo’.” Marília Mendonça tinha pouco mais de 20 anos quando respondeu assim a um executivo de gravadora. Em menos de uma década, ela reescreveu as regras do gênero musical mais ouvido do país. Em O rastro da rainha, a jornalista Carol Prado reconstrói essa trajetória a partir de dez canções: de “Minha Herança”, escrita aos 12 anos, à póstuma “Tudo Vai Ficar Bem”. Delas emerge a compositora excepcional que deu voz aos desejos e às contradições das mulheres e, ao lado de Maiara & Maraísa, abriu caminho para uma transformação no sertanejo. Cinco anos após sua morte, esta reportagem reúne canções, números e relatos de quem esteve ao lado de Marília para compreender o fenômeno, a virada que provocou e o vazio que deixou.
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CINCO ANOS DEPOIS, A “RAINHA DA SOFRÊNCIA” PERMANECE VIVA NOS CORAÇÕES E MENTES BRASILEIROS
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as o que havia de tão particular na maneira de compor de Marília Mendonça? Para responder a essa pergunta e entender como uma artista de trajetória tão breve conseguiu alterar o curso da música brasileira, Carol Prado passou meses seguindo os rastros deixados por Marília. Conversou com artistas, produtores, compositores, empresários e fãs; examinou entrevistas e imagens de arquivo; ouviu centenas de músicas e mergulhou até nos áudios que a cantora compartilhava com seu “rebanho”. A investigação revela uma compositora de intuição extraordinária. Com poucos acordes, Marília criava melodias e modulações que surpreendiam músicos experientes; nas letras, encontrava ângulos inesperados para histórias conhecidas e traduzia emoções complexas numa linguagem imediatamente reconhecível. Era capaz de escrever uma música em minutos e, ao mesmo tempo, sabia com rara clareza que artista queria ser. Essa autoconsciência talvez explique por que vida e obra se confundem de maneira tão profunda em sua trajetória. Marília temia que a curiosidade sobre sua intimidade eclipsasse seu trabalho, mas deixou algo de si em tudo que cantou. Por isso, são as canções que conduzem este livro: elas permitem enxergar a menina, a compositora, a estrela e a mulher por trás do fenômeno.
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Copyright © 2026 Carol Prado Copyright desta edição © 2026 Editora Vestígio Todos os direitos reservados pela Editora Vestígio. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
direção editorial
diagramação
Arnaud Vin
Guilherme Fagundes
edição e preparação de texto
pesquisa iconográfica
Eduardo Soares
Ludymilla Borges
revisão
Julia Sousa capa
Diogo Droschi (sobre imagem de ZUMA Press / Alamy / Fotoarena)
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
Prado, Carol O rastro da rainha : Para entender o fenômeno Marília Mendonça / Carol Prado. -- 1. ed. -- São Paulo : Vestígio, 2026. ISBN 978-65-6002-172-3 1. Cantoras - Brasil - Biografia 2. Mendonça, Marília, 1995-2021 3. Música brasileira I. Título. 26-397637.0
CDD-782.0092
Índices para catálogo sistemático: 1. Cantoras brasileiras : Biografia 782.0092 Suelen Silva Araújo Oliveira - Bibliotecária - CRB-8/11482
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A Marília e a seu “rebanho”
Apresentação
9
1. “Minha Herança”
19
2. “Cuida bem dela”
39
3. “Sentimento Louco”
55
4. “Infiel”
65
5. “Amante Não Tem Lar”
85
6. “Todo Mundo Vai Sofrer”
109
7. “Leão”
137
8. “Troca de calçada”
155
9. “Fã-Clube”
163
10. “Tudo Vai Ficar Bem”
177
Encerramento
Ninguém foi o mesmo depois
193
Agradecimentos
209
Referências
211
CRÉDITOS DAS IMAGENS
229
APRESENTAÇÃO
Marília Mendonça já era a cantora mais popular do Brasil, a mais valiosa do catálogo brasileiro da gravadora Som Livre. Recebida com pompa em uma reunião com executivos da empresa, para discutir os rumos de um novo projeto, ela retrucou um dos engravatados. Ele insistia que, para contextualizar o público, era importante usar o termo “feminejo” no material de divulgação. “Existe rock feminino? Existe MPB feminina? Então, qual é a sua? Você acha que eu não posso concorrer com Zezé Di Camargo, com Leonardo? Sertanejo é sertanejo, não existe ‘feminejo’.” * O termo “feminejo”, uma junção das palavras feminino e sertanejo, foi inventado pela imprensa em 2016 para agrupar as artistas que vinham ganhando força nesse estilo musical. “Mudança na música sertaneja: o sucesso agora está usando saia”, anunciou a apresentadora Poliana Abritta ao falar sobre o novo fenômeno popular no “Fantástico” (TV Globo), em julho daquele ano. A reportagem que veio em seguida dava destaque ao evento que foi descrito como uma espécie de marco zero do movimento: o início da amizade entre Marília Mendonça e as irmãs gêmeas Maiara & Maraísa. Três anos antes, incentivada por amigos, Marília foi até um spa para conhecer as duas, enquanto as irmãs faziam um tratamento para 9
emagrecer. Todas tinham em comum o fato de serem compositoras proeminentes, que criavam músicas, quase sempre em parceria com homens, para que outros homens as cantassem. Quando suas mentes femininas começaram a pensar juntas, elas se especializaram em um tipo de narrativa musical que entendia e traduzia os desejos femininos. Ao serem interpretadas pelas vozes masculinas que dominavam o mercado sertanejo, essas composições faziam as mulheres sonharem com homens perfeitos, e, de suspiro em suspiro, as canções chegavam às primeiras posições das paradas de sucessos. Assim, antes de ser conhecida nacionalmente, Marília caminhou ao lado das amigas para se tornar uma das autoras mais admiradas e lucrativas do meio. Suas letras com quê cinematográfico, embaladas em melodias intensas e incomuns, consolidaram uma identidade única, que ganhou até nome. As músicas “mariliônicas” passaram a ser disputadas com unhas e dentes por artistas também interessados em tocar de forma tão profunda o coração feminino. Ela virou uma popstar nos bastidores, embora ainda fosse anônima para o público. Além de aprimorar sua caneta, o encontro com as gêmeas ajudou a dar um novo rumo à sua carreira, afinal as três parceiras compartilhavam a experiência na composição, mas também a ambição de crescer como cantoras, saindo de trás das cortinas para ocupar os palcos, interpretando as músicas que elas mesmas criavam. Demorou até que um empresário decidisse assumir o risco de investir em mulheres do sertanejo, um estilo de música historicamente dominado por homens. Mas, quando finalmente aconteceu, o êxito veio de forma quase instantânea. De desconhecidas do grande público, Marília e Maiara & Maraísa de repente chegaram à lista de artistas mais ouvidos do Brasil e passaram a cumprir algumas das agendas de shows mais lotadas do país. “Faltava isso, a mulher vir e cantar o que outra mulher quer ouvir, não cantar para o homem”, disse Marília na reportagem do “Fantástico”. Na época, ela tinha apenas 20 anos. * 10
Até o consumidor de música mais desinteressado percebia que algo ali soava diferente. Aquelas artistas viviam longe dos castelos de contos de fadas construídos para o universo feminino, ao longo de décadas, pela cultura pop. Falavam com todas as letras que eram cornas, amantes, que sentiam desejo, que amavam sem ser correspondidas, que foram para a farra e beberam até cair. E ainda mais surpreendente era a autenticidade com que contavam essas histórias. Eram figuras públicas que pareciam não fazer questão de observar algumas das normas de etiqueta do show business. Empresários e gravadoras rapidamente notaram a demanda reprimida para a nova vertente que surgia no sertanejo, o tipo de música mais amado do país. Para não ficarem para trás na tendência, passaram a buscar outras cantoras, que também cresceram com discursos e posicionamentos semelhantes. Quando a mudança chegou às rádios, o top 10 das músicas mais ouvidas do Brasil, totalmente sertanejo e masculino em 2015, virou uma lista ainda inteiramente sertaneja, mas com quatro nomes de mulheres no ano seguinte. Além de Marília e Maiara & Maraísa, Naiara Azevedo também havia conquistado destaque. * É claro que outras cantoras sertanejas já haviam feito sucesso antes. Nos anos 1940, as Irmãs Galvão – Meire e Marilene – e as Irmãs Castro – Maria e Lourdes –, ambas as duplas do interior de São Paulo, foram pioneiras cantando modas de viola, quando o sertanejo ainda era a música caipira e começava a tocar nas rádios. Na década seguinte, Inezita Barroso, paulistana, esbravejou que a mulher também sofre com os efeitos da “Marvada Pinga” (Ochelsis Laureano), e, dessa forma, ajudou a consolidar a imagem da cantora caipira. Nos anos 1980, a paraibana Roberta Miranda emplacou a composição “Majestade, o Sabiá” (Roberta Miranda) na voz de Jair Rodrigues, e vendeu mais de 1,5 milhão de cópias de seu primeiro disco como cantora. E, na virada para os anos 2010, Paula Fernandes virou a estrela do romantismo bucólico com seu “Pássaro de Fogo” (Paula Fernandes). 11
Em comum entre todas elas, além do estilo musical, há trajetórias absolutamente solitárias. Cada uma a seu modo, por caminhos distintos e distantes, essas cantoras foram exceções que desafiavam uma enorme maioria masculina. Como atesta Xororó, da dupla com Chitãozinho, “o meio sertanejo sempre foi mesmo muito machista, sempre duplas masculinas. Poucas mulheres se destacavam”. * O que se convencionou chamar de “feminejo” em 2016 era diferente porque constituía, pela primeira vez, um movimento coletivo de mulheres nesse ambiente. Várias artistas compondo e gravando, juntas, músicas com protagonistas femininas. Narrativas que, até então, raramente se ouviam nesse gênero. Em “Infiel” (Marília Mendonça), a quarta música mais tocada nas rádios naquele ano, uma mulher traída afrontava, ao mesmo tempo, o homem traidor e sua amante. Uma história parecida era contada em “50 Reais” (Naiara Azevedo, Bruno Mandioca, Alex Torricelli, Waléria Leão, Maykow Melo), quinta colocada das rádios em 2016. “Medo Bobo” (Maraísa, Vinicius Poeta, Benício Neto, Juliano Tchula, Junior Pepato), no sexto lugar do ranking, tinha uma protagonista se rendendo a um novo amor, mesmo sendo comprometida. Na posição seguinte, “10%” (Gabriel Agra, Danillo Dávilla) apresentava uma personagem que bebe para tentar esquecer o ex, mas obtém o resultado contrário. * Cheias de hits e de causos engraçados por trás deles, as novas cantoras, maiores novidades da música brasileira em décadas, frequentemente apareciam juntas nos programas de televisão. Estimulados por uma vibração social favorável, todos faziam questão de exaltar a força simbólica dessa mobilização, embora nos bastidores a história fosse outra. 12
Quem estava ao lado dessas artistas nos primeiros anos se lembra bem dos comentários nada amigáveis de contratantes, produtores, até apresentadores, perplexos com o fato de seus corpos serem mais parecidos com os das mulheres que assistiam a elas do que com os das artistas que costumavam aparecer na TV. Isso é algo que, a bem da verdade, foi fundamental para gerar identificação e impulsionar ainda mais a geração feminina do sertanejo. “Eu acho que esse é o segredo: somos iguais àquelas que vão nos nossos shows. Sentimos as mesmas coisas, nos vestimos com as mesmas roupas, comemos do mesmo jeito…”, respondeu Marília Mendonça ao apresentador Luciano Huck, ao ser questionada sobre as razões por trás do seu sucesso avassalador. * Alguns minutos de conversa com qualquer fã bastam para confirmar que, de fato, muitas mulheres se enxergavam em Marília quando a ouviam cantar sem floreios sobre experiências amorosas catastróficas; quando a viam aparecer com pouca maquiagem e sempre com sapato baixo, porque se recusava a usar salto; e quando a assistiam enfrentar constrangimento público para que tivesse um corpo mais magro – uma pressão que a acompanhou por toda a vida. Parte do “rebanho”, como ela gostava de chamar sua legião de seguidores, conheceu sua versão bêbada, fazendo algazarra, trocando as palavras, escarrando e rindo alto depois dos shows. Mesmo já sendo uma celebridade, ela compartilhava esses momentos em áudios enviados em um grupo de mensagens que mantinha com alguns fãs. O espaço também servia para coordenar mutirões de divulgação de seus lançamentos, no intuito de inflar seus números na internet, afinal a construção da relação íntima de Marília com o público foi, sim, fruto de sua espontaneidade, mas também foi estratégica. A cantora colocou o engajamento do “rebanho” no centro do planejamento de sua carreira, e isso foi decisivo para transformá-la, ao longo dos anos, na própria personificação do que se convencionou chamar de “feminejo”. 13
* Foi esse engajamento também o combustível de seu plano mais ambicioso, para alguns até megalomaníaco: a turnê Todos os Cantos, iniciada em 2018. Nela, Marília Mendonça aparecia de surpresa nas ruas de capitais do país e panfletava em meio à multidão para divulgar o show gratuito que ela mesma faria horas depois naquela cidade. A logística para manter as apresentações em segredo e, principalmente, para comportar o enorme público que aparecia para ver a cantora era quase impossível. Nem sempre deu tudo certo. Mesmo assim, transformado em álbum ao vivo, o projeto rendeu a ela um Grammy Latino. Depois, na pandemia de Covid-19, a voz de Marília foi uma das maiores companheiras dos isolados em casa, embalando a melancolia dos relacionamentos que degringolaram em razão da convivência forçada. Quando as lives musicais eram o bote salva-vidas da indústria fonográfica, ela fez a transmissão mais assistida da história do YouTube. Ao fim da crise, saiu fortalecida, com um filho nos braços, um monte de ideias e a expectativa para dar o maior passo do que considerava ser o grande trabalho de sua vida, mais um ao lado de Maiara & Maraísa. * Acompanhei tudo isso de maneira atenta. Primeiro, como uma consumidora que cresceu sob a forte influência da música popular. Eu era criança nos anos 1990 e, como muitos da minha idade, sabia de cor as letras das canções do sertanejo romântico de duplas como Zezé Di Camargo & Luciano, Leandro & Leonardo e Chitãozinho & Xororó. Sem que me desse conta, aquelas músicas moldaram meu ideal de romantismo: me ensinaram a amar e, acima de tudo, a sofrer por amor. Eu não pensava que elas apresentavam só a perspectiva masculina das relações afetivas. Às mulheres, eram reservados papéis passivos: a doce amada de “É o Amor” (Zezé Di Camargo), os 14
amores que vêm e vão de “Não Aprendi a Dizer Adeus” (Joel Marques), a dona do “Fio de Cabelo” (Darci Rossi, Marciano) deixado no paletó. Só comecei a pensar nisso quando ouvi Marília Mendonça cantando “Infiel” pela primeira vez. Com ela, minha relação também se deu no campo profissional. O início de sua trajetória como cantora coincidiu com os meus primeiros passos na carreira de jornalista cultural. Nas redações por onde passei, sempre acabei incumbida da cobertura de assuntos ligados à música popular, por ser uma das únicas a ter familiaridade com o tema. Acredite, a maioria das pessoas nesses ambientes não saberia citar uma única canção de sertanejo lançada nos últimos dez anos – bom para mim. Tenho a sorte de ter crescido em uma família plural, que juntou cadeiras de plástico para que eu dormisse quando criança em todo tipo de ambiente festivo, e me ensinou a gostar, sem distinções, de sertanejo, forró, axé, samba, MPB, bolero, rock inglês e R&B norte-americano. Aprendi cedo que não existe um estilo moralmente superior a outro. Nada mais bobo que esse tipo de patrulha. Isso me ajudou a dar sentido à profissão. Passei a me orientar pelo desejo de dar à música consumida pelas massas, aquela que toca no rádio, na trilha da novela e no vídeo do Instagram, o mesmo tratamento crítico dedicado a obras idolatradas por uma suposta elite intelectual. Esse objetivo me fez correr para entrevistar Marília Mendonça quando ela apareceu e, ao longo do tempo, dedicar muitas outras entrevistas, reportagens e análises na tentativa de explicar o que fazia dela uma figura única na cultura brasileira. * Depois de liderar o inédito movimento feminino no sertanejo, Marília se tornou rainha absoluta na era da música consumida pela internet, dona de números comparáveis aos de grandes astros do pop internacional. O mais difícil, porém, sempre foi decifrar o que ia além das métricas. Como ela conseguiu se impor em um mercado tão difícil para mulheres? Por que suas músicas despertam emoções 15
tão profundas? O que fez seu repertório ser amado de forma tão unânime, até mesmo fora do sertanejo? E qual o segredo de seu carisma? No mercado do entretenimento, a construção da imagem pública pode ser tão importante para a carreira de um artista quanto a música. No caso de Marília, a construção dessa imagem foi fundamentada em uma personalidade magnética. Aquele algo a mais, que muitas celebridades buscam em treinamentos para conquistar e influenciar pessoas, ela parecia ter naturalmente e de sobra. Desde o acidente aéreo que a levou de forma trágica e repentina, em novembro de 2021, essas questões se tornaram, para mim, ainda mais intrigantes. Meia década depois de sua morte, Marília segue como uma das vozes mais ouvidas do país, influência irrevogável dentro e fora do meio sertanejo, e o mercado da música ainda colhe os frutos de seu impacto. Nas plataformas de música, há milhões de faixas para dar o play quando quiser. Álbuns e mais álbuns e centenas de novos nomes surgindo o tempo todo. A maioria não chega a se destacar. Alguns fazem um sucesso estrondoso e, depois, desaparecem. Outros tantos até se consolidam, ganham fãs, mas perdem força quando surge alguma onda nova. São poucos os que resistem ao tempo, mexem com a cultura e a sociedade. Mas o que separa as coisas? O que, afinal, faz um artista entrar para a história? Para tentar desvendar o elemento decisivo no caso de Marília Mendonça, passei meses conversando com artistas, produtores, compositores, empresários e fãs, assisti a entrevistas, examinei imagens de arquivo, ouvi centenas de músicas e a coleção de áudios que ela enviava para o “rebanho” no grupo de mensagens. Entendi coisas importantes sobre a precocidade de seu talento, a mecânica de sua composição, o DNA de suas músicas, os pensamentos por trás de suas decisões, os planos concretizados e os que ela não conseguiu realizar. Também descobri que, por trás do carisma imbatível, havia uma personalidade nem sempre fácil de lidar. Quem a conheceu na intimidade descreve uma pessoa cheia de peculiaridades, ciumenta com os amigos e capaz de arrumar briga pelos motivos mais fúteis. 16
* Marília era teimosa. Nunca abria mão de seus desejos, sobretudo, porque sempre sabia exatamente o que queria. Bateu o pé para gravar suas próprias músicas; para moldar seu repertório à sua vontade, e não às tendências do mercado; para vestir a roupa que achava mais confortável; para investir uma quantidade monumental de dinheiro em planos malucos; e para desprezar o rótulo do “feminejo”. “Eu sempre tive o sonho de ser eu”, disse uma vez, numa conversa com o forrozeiro Xand Avião. “Meu sonho não era cantar. Era cantar o que a Marília é”. Para além do talento e do carisma, essa fidelidade a si mesma talvez tenha sido sua maior distinção. E, no processo para entendê-la, essa foi a descoberta que mais me impressionou: uma poderosa autoconsciência, raríssima em alguém tão jovem, não somente foi o segredo de sua autenticidade, mas também a principal matéria-prima de sua obra. Marília tinha pavor de que sua vida íntima se sobressaísse ao seu trabalho, mas ela existiu em tudo que cantou, e por isso mesmo a melhor forma de contar sua história é através de suas músicas. Em um repertório de mais de trezentas composições próprias, e outras tantas de diferentes artistas que ela já interpretou, este livro destacará dez em especial. As análises e contextualizações dessas canções ajudam a traçar o perfil e a trajetória de Marília Mendonça, da descoberta de seu talento até depois de sua morte – afinal, ela se foi, mas sua obra continua reverberando de formas surpreendentes na cultura do país. São elas: “Minha Herança”, “Cuida Bem Dela”, “Sentimento Louco”, “Infiel”, “Amante Não Tem Lar”, “Todo Mundo Vai Sofrer”, “Leão”, “Troca de Calçada”, “Fã-Clube” e “Tudo Vai Ficar Bem”.
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