A protagonista desta história, que compartilha com a autora nome e vida, enfrenta há anos o duro diagnóstico de câncer de sua mãe. E, no exato instante em que a mãe morre em uma cidade do norte da Espanha, ela faz amor com uma mulher em um hotel em Barcelona, o que a impede de se despedir. Pouco depois, sua amante desaparece de forma brusca e definitiva. E o que existe, depois desse abalo de estruturas, é a vida com a sua parceira em um pequeno apartamento à beira-mar; a parceira que tenta acolher a angústia de um corpo que chora por uma mãe ao mesmo tempo que chora de desejo por outra mulher.
Temos aqui uma voz narrativa sincera, crítica, mas também muito terna, que conta a perda a partir dos afetos e apegos, e não a partir do discurso de ressignificação e superação. É preciso, sim, entender o amor, processar o luto, mas - mérito da construção honesta e sofisticada de Sara Torres - não temos aqui um manual de como refazer a vida após uma grande perda.