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O primeiro rascunho de O Capital de Marx - História da gênese e da recepção dos Grundrisse

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Marcello Musto (Org.)

O primeiro rascunho de O Capital de Marx

História da gênese e da recepção dos Grundrisse

Coleção Alternativas ao Capitalismo

Coordenação: Marcello Musto, York University, Canadá

A coleção Alternativas ao Capitalismo tem como objetivo abordar as principais questões do capitalismo e indicar possíveis alternativas para transformar a sociedade. Reúne monografias, volumes organizados, antologias e traduções de obras previamente publicadas em outros idiomas, por prestigiados especialistas internacionais, nas áreas das ciências sociais e das humanidades. Os livros apresentam investigações originais sobre questões contemporâneas, expandem os limites das interpretações aceitas e da literatura existente, colocam diferentes conceitos e pensadores em novas relações e inspiram conversas significativas para os dias de hoje. Eles provêm de uma ampla gama de perspectivas políticas, disciplinas acadêmicas, contextos culturais e áreas geográficas, produzindo uma coleção inovadora e plural.

Títulos publicados

O primeiro rascunho de O Capital de Marx

História da gênese e da recepção dos Grundrisse

Marcello Musto (Org.)

Em nome da liberdade

Uma crítica socialista democrática ao regime neoliberal de Estado

Juarez Guimarães

Títulos em preparação

Friedrich Engels

Ontem e hoje

Terrell Carver

Escritos sobre a alienação

Karl Marx

Marcello Musto (Org.)

Saiba mais

O primeiro rascunho de O Capital de Marx

História da gênese e da recepção dos Grundrisse

Prefácio: Eric Hobsbawm

Prefácio à edição brasileira: Marcello Musto

COLEÇÃO ALTERNATIVAS AO CAPITALISMO

APOIO:

Copyright © 2026 Marcello Musto

Copyright desta edição © 2026 Autêntica Editora

Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora Ltda. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

diretora editorial

Rejane Dias

editora responsável

Cecília Martins

revisão

Aline Sobreira

capa

Diogo Droschi (sobre imagem de William Morris. Larkspur, 1875. Foto de Birmingham Museums Trust, licenciada sob CC0) diagramação

Waldênia Alvarenga

Dados

Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

O Primeiro rascunho de O Capital de Marx : história da gênese e recepção dos Grundrisse / Marcello Musto (org.). -- 1. ed. -- Belo Horizonte, MG : Autêntica Editora, 2026. -- (Alternativas ao Capitalismo ; v. 1)

Vários autores.

Bibliografia.

ISBN 978-65-5928-695-9

1. Capital (Economia) 2. Economia marxista 3. Economia política 4. Filosofia política 5. História do Marxismo 6. Teoria social I. Musto, Marcello. II. Série. 26-340474.0

Índices para catálogo sistemático: 1. Economia marxista 335.412

Aline Graziele Benitez - Bibliotecária - CRB-1/3129

CDD-335.412

Belo Horizonte

Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520

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São Paulo

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www.grupoautentica.com.br SAC: atendimentoleitor@grupoautentica.com.br

Prefácio 9

Eric Hobsbawm

Prefácio à edição brasileira 17

Marcello Musto

Introdução: Antes dos Grundrisse

1. A crítica da economia política nos primeiros estudos de Marx 25

Marcello Musto

Parte I: A produção teórica de Marx no período dos Grundrisse

2. A vida de Marx durante a elaboração dos Grundrisse 73

Marcello Musto

3. Marx jornalista da primeira crise econômica mundial 97

Michael R. Krätke

4. Marx e a redação dos Cadernos da crise de 1857-58 111

Michael R. Krätke

Parte II: Tradução, disseminação e recepção dos Grundrisse: uma história global

5. Difusão e recepção dos Grundrisse no mundo 125

Marcello Musto

6. Alemanha, Áustria e Suíça 143

Ernst Theodor Mohl

7. Rússia e União Soviética 169

Lyudmila L. Vasina

8. Japão 189

Hiroshi Uchida

9. China 199

Zhongpu Zhang

10. França 205

André Tosel

11. Itália

Mario Tronti

12. Cuba, Argentina, Espanha e México 227

Pedro Ribas e Rafael Plá León

13. Tchecoslováquia 233

Stanislav Hubík

14. Hungria 237

Ferenc L. Lendvai

15. Romênia 243

Gheorghe Stoica

16. Estados Unidos, Grã-Bretanha, Austrália e Canadá 245

Christopher J. Arthur

Ana Clara Passos Presciliano

Epílogo: Depois dos Grundrisse

Prefácio

A odisseia da publicação dos Grundrisse

O lugar dos Grundrisse na obra de Karl Marx e a trajetória de sua publicação são, em muitos aspectos, peculiares. Em primeiro lugar, trata-se do único exemplo de um conjunto significativo dos escritos maduros de Marx que, na prática, permaneceram inteiramente desconhecidos dos marxistas por mais de meio século após sua morte – e, de fato, quase completamente inacessíveis até quase um século depois da redação dos manuscritos reunidos sob esse título. Quaisquer que sejam os debates acerca de sua importância, os escritos de 1857-58, claramente parte do esforço intelectual que culminaria em O Capital, representam Marx em sua plena maturidade – sobretudo enquanto economista. Isso distingue os Grundrisse de outro acréscimo póstumo ao corpus da obra marxiana: os escritos de juventude (Die Frühschriften), de 1932. O lugar exato desses escritos do início da década de 1840 no desenvolvimento teórico de Marx foi amplamente debatido, com ou sem razão, mas não há divergência quanto à maturidade dos escritos de 1857-58. Em segundo lugar, e de forma um tanto surpreendente, a publicação completa dos Grundrisse ocorreu sob condições que podem ser consideradas as menos favoráveis a qualquer desenvolvimento original dos estudos marxianos e do pensamento marxista – a saber, na União Soviética e na República Democrática Alemã, no auge da era stalinista. A publicação de textos de Marx e Engels continuou a ser uma questão sujeita à

aprovação das autoridades políticas mesmo mais tarde, como descobriram editores envolvidos em edições estrangeiras de suas obras. Ainda não está claro como foram superados os obstáculos à publicação, incluindo a purga do Instituto Marx-Engels e a eliminação – seguida do assassinato – de seu fundador e diretor, David Riazanov, ou como Paul Weller, responsável pelo trabalho sobre o manuscrito entre 1925 e 1939, sobreviveu ao terror de 1936-38 para concluí-lo. Pode ter ajudado o fato de as autoridades não saberem exatamente o que fazer com aquele texto extenso e difícil. No entanto, é evidente que tinham dúvidas quanto ao seu status preciso, sobretudo porque Josef Stálin considerava que os rascunhos manuscritos eram menos importantes do que os três volumes de O Capital, que refletiam a posição e as concepções maduras de Marx. Na verdade, os Grundrisse só foram publicados na íntegra em tradução russa em 1968-69, e nem a edição original alemã de 1939-41 (publicada em Moscou) nem a sua reimpressão de 1953 (em Berlim) foram incluídas oficialmente na Marx-Engels-Gesamtausgabe (MEGA) – apenas “no formato da MEGA” – ou nas Marx Engels Werke (MEW). No entanto, ao contrário dos Frühschriften de 1844, que desapareceram do corpus marxiano oficial após sua aparição original na MEGA de 1932, os Grundrisse chegaram a ser publicados mesmo no auge da era stalinista.

A terceira peculiaridade reside na prolongada incerteza quanto ao estatuto dos manuscritos de 1857-58, refletida nas variações de título que receberam no Instituto Marx-Engels-Lênin durante a década de 1930, até adquirirem o nome Grundrisse, pouco antes da impressão. De fato, a natureza exata de sua relação com os três volumes de O Capital – publicados por Marx e posteriormente reconstruídos por Friedrich Engels e, a partir das notas de 1861-63, por Kautsky, como uma espécie de quarto volume (Teorias do mais-valor) – permanece objeto de debate. Kautsky, que examinou os manuscritos, aparentemente não soube o que fazer com eles. Publicou apenas dois trechos na revista

Die Neue Zeit, e nada mais: o breve “Bastiat e Carey” (1904), que teve pouco impacto, e a chamada “Introdução” à Contribuição à crítica da economia política (1903), nunca concluída e, portanto, não publicada junto ao livro homônimo de 1859 – texto que viria a se tornar referência precoce para aqueles que buscavam ampliar a interpretação marxista para além das ortodoxias vigentes, especialmente entre os austromarxistas. Até hoje, é provavelmente a parte mais amplamente discutida dos Grundrisse, embora alguns comentadores citados no próprio livro questionem se ela de fato pertence ao conjunto. O restante dos manuscritos permaneceu inédito e, de fato, desconhecido, até que Riazanov e seus colaboradores em Moscou obtiveram cópias fotográficas em 1923, organizaram o material e planejaram sua publicação na MEGA. É interessante especular sobre o impacto que poderiam ter tido se tivessem sido publicados em 1931, como originalmente planejado. A data da sua publicação efetiva – no final de 1939 e uma semana após a invasão da União Soviética por Hitler, em 1941 – fez com que permanecessem praticamente desconhecidos no Ocidente até a reimpressão de 1953, em Berlim Oriental, embora cópias raras tenham chegado aos Estados Unidos, onde, a partir de 1948, o trabalho foi analisado pelo grande pioneiro intérprete dos Grundrisse, Roman Rosdolsky, recém-chegado ao país após passar por Auschwitz e vários outros campos de concentração.1 É difícil acreditar que a maior parte da edição alemã original, “enviada […] à frente de guerra como material de agitação contra soldados alemães e posteriormente a campos como material de estudo para prisioneiros de guerra”,2 tenha atingido seus objetivos teóricos ou práticos.

A reimpressão integral de 1939-41, que se tornou a editio princeps para a recepção internacional dos Grundrisse, foi

1 Roman Rosdolsky. The Making of Marx’s Capital. Londres: Pluto Press, 1977.

2 Ibid., p. 204.

republicada na República Democrática Alemã, em 1953, alguns anos antes da publicação da MEW, mas deliberadamente sem vínculo direto com esta. Com uma única exceção, a obra não começou a exercer influência significativa nos estudos sobre Marx até a década de 1960. Essa exceção foi a seção “Formas que precederam a produção capitalista”, publicada separadamente em russo, em 1939 (assim como, um pouco antes, o “Capítulo sobre o dinheiro”), traduzida para o japonês entre 1947 e 1948, republicada em alemão em 1952 e depois traduzida para o húngaro (1953) e o italiano (1954), sendo certamente discutida entre historiadores marxistas do mundo anglófono. A tradução para o inglês,3 acompanhada de uma introdução explicativa, foi logo publicada em versões espanholas na Argentina (1966) e na Espanha sob o regime de Franco (1967). É plausível que o interesse especial desse texto para historiadores marxistas e antropólogos sociais explique sua ampla difusão muito antes da disponibilidade dos Grundrisse completos, bem como sua relevância específica para a muito contestada análise marxista das sociedades do Terceiro Mundo. Ele iluminou o debate sobre o “modo de produção asiático”, controversamente revivido no Ocidente por obras como Despotismo oriental: um estudo comparativo do poder total, de Karl August Wittfogel.4

Sobre a história da recepção dos Grundrisse

A história da recepção dos manuscritos de 1857-58 começa, de fato, com o grande esforço, após a crise de 1956, de libertar o marxismo da camisa de força da ortodoxia soviética, tanto dentro como fora dos partidos comunistas, que já não eram monolíticos.

3 Karl Marx. Pre-capitalist Economic Formations. Londres: Lawrence & Wishart, 1964.

4 Karl August Wittfogel. Oriental Despotism: A Comparative Study of Total Power. New Haven: Yale University Press, 1957.

Como esses manuscritos não pertenciam ao corpus canônico dos “clássicos”, mas eram, sem dúvida, obras de Marx, tanto os escritos de 1844 quanto os de 1857-58 puderam – como demonstram diversos textos da segunda parte desta coletânea – ser considerados, dentro dos próprios partidos comunistas, como base legítima para a abertura de posições até então fechadas. A descoberta internacional quase simultânea dos escritos de Antonio Gramsci – cuja primeira publicação na União Soviética ocorreu entre 1957 e 1959 – desempenhou função análoga. A crença de que os Grundrisse tinham potencial para a heterodoxia foi demonstrada pelo aparecimento de traduções independentes não oficiais, como as realizadas pelos reformistas da editora francesa Éditions Anthropos (1967-68) e, sob os auspícios da New Left Review, por Martin Nicolaus. Fora dos partidos comunistas, os Grundrisse tinham a função de justificar um marxismo não comunista, mas ainda assim inquestionável; contudo, isso só ganhou relevância política na era das rebeliões estudantis da década de 1960, embora sua importância já tivesse sido reconhecida nos anos 1950 por acadêmicos alemães próximos à tradição de Frankfurt, mas distantes do ativismo político – como George Lichtheim e o jovem Jürgen Habermas. A radicalização estudantil em universidades em rápida expansão também proporcionou um público leitor maior do que se poderia ter esperado para textos de tamanha dificuldade. Sem esse contexto, editoras comerciais como a Penguin Books certamente não teriam se disposto a publicar os Grundrisse, mesmo como parte de uma “Pelican Marx Library”. Nesse meio-tempo, o texto foi, com maior ou menor relutância, aceito como parte do corpus dos escritos de Marx na União Soviética, sendo incorporado à edição anterior das obras de Marx e Engels em 1968-69 – ainda que em tiragem menor do que O Capital. Seguiram-se rapidamente publicações na Hungria e na Tchecoslováquia.

Não é, portanto, fácil separar os debates sobre os Grundrisse do contexto político em que ocorreram – e que os estimulou.

Na década de 1970, quando tais debates atingiram seu auge, sofreram também de uma limitação geracional e cultural: a perda da maior parte da geração pioneira (principalmente da Europa Central e Oriental) de estudiosos marxianos de dedicação e erudição monumentais – nomes como Riazanov e Rosdolsky. De fato, alguns esforços sérios foram empreendidos por jovens intelectuais trotskistas para desenvolver as análises anteriores acerca do lugar dos manuscritos de 1857-58 no desenvolvimento do pensamento de Marx e, mais especificamente, sobre sua posição no plano geral do que viria a se tornar o torso de O Capital.

Contudo, polêmicas teóricas marxistas de grande destaque passaram a ser lançadas por autores como Louis Althusser, na França, e Antonio Negri, na Itália – ambos com formação insuficiente na literatura marxiana –, e recebidas por jovens que, por sua vez, talvez ainda carecessem de familiaridade com os textos ou de capacidade para avaliar as controvérsias passadas sobre eles, inclusive por razões linguísticas. Não é de surpreender, portanto, que a observação feita no capítulo sobre a Itália – de que “a recepção dos Grundrisse teve um caráter bastante peculiar” – se aplique a mais de um país.

Visão geral

O presente volume coletivo surge em um momento em que os partidos e movimentos marxistas raramente são atores significativos no cenário global e em que os debates sobre suas doutrinas, estratégias, métodos e objetivos já não constituem o quadro inevitável das discussões sobre os escritos de Marx, Engels e seus seguidores. E, no entanto, ele aparece também em uma época em que o mundo parece confirmar a perspicácia da análise marxiana sobre o modus operandi econômico do sistema capitalista. Talvez este seja o momento oportuno para retomar o estudo dos Grundrisse de modo menos restrito pelas

considerações temporárias da política de esquerda situadas entre a denúncia de Stálin por Nikita Khrushchev e a queda de Mikhail Gorbachev. Trata-se de um texto imensamente difícil sob todos os aspectos, mas também de uma obra extremamente gratificante, nem que seja porque fornece o único guia para toda a extensão do tratado do qual O Capital é apenas uma fração, além de ser uma introdução singular à metodologia do Marx maduro. Os Grundrisse contêm análises e percepções –por exemplo, sobre a tecnologia – que levam a reflexão de Marx sobre o capitalismo muito além do século XIX, adentrando a era de uma sociedade em que a produção já não requer trabalho em massa, marcada pela automação, pelo potencial do lazer e pelas transformações da alienação sob tais condições. É o único texto que vai um pouco além das próprias alusões de Marx ao futuro comunista em A ideologia alemã. Em poucas palavras, pode-se dizer, com justiça, que os Grundrisse representam o pensamento de Marx em seu ponto mais rico.

A presente obra está dividida em duas partes. A primeira reconstrói a biografia intelectual de Marx entre 1857 e 1858, enquanto a segunda apresenta um relato completo e rigoroso da disseminação e da recepção dos Grundrisse em todo o mundo. Em suma, este trabalho realiza uma tentativa muito bem-sucedida, tanto de expor algumas das riquezas dos Grundrisse quanto de situar sua gênese e trajetória inicial em seu contexto internacional.

Bibliografia

Marx, Karl. Pre-capitalist Economic Formations. Em: Hobsbawm, Eric J. (Org.). Londres: Lawrence & Wishart, 1964.

Rosdolsky, Roman. The Making of Marx’s Capital. Londres: Pluto Press, 1977.

Wittfogel, Karl August. Oriental Despotism: A Comparative Study of Total Power. New Haven: Yale University Press, 1957.

Prefácio à edição brasileira

Este livro é uma tradução parcial da coleção de ensaios publicada para marcar o sesquicentenário (1858-2008) da redação dos Grundrisse de Karl Marx. O volume original em inglês contém três partes, divididas em 34 capítulos. A primeira consiste em oito capítulos sobre os principais temas que surgem da leitura dos Grundrisse: “History, Production and Method in the 1857 ‘Introduction’” de Marcello Musto, “The Concept of Value in Modern Economy: On the Relationship between Money and Capital in the Grundrisse” de Joachim Bischoff e Christoph Lieber, “Marx’s Conception of Alienation in the Grundrisse” de Terrell Carver, “The Discovery of the Category of Surplus Value” de Enrique Dussel, “Historical Materialism in ‘Forms which Precede Capitalist Production’” de Ellen Meiksins Wood, “Marx’s Grundrisse and the Ecological Contradictions of Capitalism” de John Bellamy Foster, “Emancipated Individuals in an Emancipated Society: Marx’s Sketch of Post-Capitalist Society in the Grundrisse” de Iring Fetscher e, por fim, “Rethinking Capital in Light of the Grundrisse” de Moishe Postone. A segunda parte do livro reconstrói o contexto biográfico e teórico em que Marx produziu esses manuscritos, enquanto a terceira parte apresenta um relato completo da difusão e da recepção dos Grundrisse em todos os idiomas para os quais foram traduzidos integralmente. A edição brasileira que os leitores agora têm em mãos não inclui a primeira parte (disponível online, em língua inglesa, no meu site: https://marcellomusto. org/wp-content/uploads/2008/01/Karl-Marxs-Grundrisse.pdf),

mas, seguindo a edição em espanhol, é acrescida de uma vasta introdução e um largo epílogo que reconstroem as principais etapas da crítica da economia política de Marx antes e depois dos Grundrisse. Além disso, o capítulo dedicado ao Brasil e a Portugal foi escrito novamente, em uma versão mais extensa, para esta edição brasileira.

O desafio mais complexo na preparação deste livro surgiu em relação à parte dedicada à recepção dos Grundrisse no mundo. Para sua composição, foi necessário localizar todas as traduções existentes, encontrar pesquisadores capazes de construir a história de sua difusão em cada país e rastrear toda a literatura crítica referente a esse texto. Essa tarefa específica, realizada por diversos autores, foi complementada pelo meu trabalho nas bibliotecas do Stiftung Archiv der Parteien und Massenorganisationen (SAPMO) [Arquivo da Fundação dos Partidos e Organizações de Massas], em Berlim, do Internationaal Instituut voor Sociale Geschiedenis (IISG) [Instituto Internacional de História Social], em Amsterdã, e em correspondência com o Rossiiskii Gosudarstvennyi Arkhiv Sotsial’no-Politicheskoi Istorii (RGASPI) [Arquivo do Estado Russo de História Social e Política], de Moscou. A etapa seguinte consistiu em traduzir os diversos textos e homogeneizar seu conteúdo.

A elaboração deste volume, iniciada em março de 2006, deu-se em numerosos idiomas, através da troca de mais de 1.500 e-mails e – nos casos daqueles que não utilizavam esse meio de comunicação – dezenas de cartas e telefonemas. Recebi informações valiosas de cerca de 200 estudiosos, militantes políticos e bibliotecários, a quem é materialmente impossível nomear aqui. A todos eles, vai a minha gratidão.

Karl Marx’s Grundrisse: Foundations of the Critique of Political Economy 150 Years Later, publicado pela Routledge

em Londres e Nova York, em julho de 2008, despertou um grande interesse entre os leitores de Marx. A primeira publicação deste livro, acompanhada da versão em e-book, apareceu, como é costume no mundo anglo-saxão, com capa dura e em uma edição muito cara. Apesar disso, esgotou-se rapidamente, foi reimpressa em 2009 e 2011 e, mais tarde, transferida para impressão digital sob demanda. No ano seguinte, seguiu-se a versão mais econômica em brochura. Desde então, foram publicadas três reimpressões.

As primeiras traduções do livro foram lançadas pouco depois. No Irã, apesar dos tempos sombrios da presidência de Mahmoud Ahmadinejad, o volume foi publicado em persa em 2010, em Teerã, com uma tiragem de 2.000 exemplares, pela editora Nika. A tradução chinesa apareceu em 2011, publicada pela prestigiada China Renmin University Press, de Pequim, em 5.000 exemplares (antecipada no ano anterior por uma edição fora de comércio, em tiragem limitada de 300 exemplares, reservada a estudiosos e acadêmicos). Esse livro foi reeditado em mais 5.000 exemplares em 2016. Além disso, em 2013, a editora Manohar de Nova Déli, parte da Routledge – Taylor & Francis Group, realizou, com um preço de capa muito mais acessível do que as primeiras edições em inglês, uma nova edição reservada à Índia e aos países do Sudeste Asiático. Essa edição foi reimpressa em 2020. Em 2015, foi a vez da tradução italiana, realizada pela ETS, de Pisa, em 1.000 exemplares, e reeditada, em 2021, com a mesma tiragem. Finalmente, em 2018, foi publicada a tradução em espanhol pelo Fondo de Cultura Económica, primeiro em Bogotá e depois na Cidade do México.

Por fim, é importante acrescentar que alguns textos deste livro foram traduzidos para outros idiomas, em particular o capítulo introdutório da segunda parte, intitulado “Difusão e recepção dos Grundrisse no mundo”, e que o prefácio de Eric Hobsbawm foi incluído na última coleção de escritos por ele

publicada – Como mudar o mundo (2011) –, que teve uma grande circulação internacional.

Esta edição em português segue, portanto, uma longa série de traduções e reimpressões deste volume. Embora os textos sobre o marxismo não tenham hoje o grande público dos anos 1960 e 1970, o livro que aqui se apresenta ao leitor de língua portuguesa já obteve um sucesso internacional significativo, aproximando-se, em número de traduções e vendas – apesar de seu formato de obra coletiva –, do sucesso obtido pelos dois textos mais conhecidos da literatura crítica sobre os Grundrisse, de Marx: Gênese e estrutura de O Capital de Karl Marx (1968), de Roman Rosdolsky, e Marx além de Marx (1979), de Antonio Negri. Contribuíram também para esse sucesso várias conferências internacionais, realizadas tanto na América do Norte quanto na China, dedicadas ao volume, bem como as numerosas resenhas que ele recebeu.

Os textos deste livro foram traduzidos por Marisa Silva Amaral (capítulos 1, 2, 5 e 26), Ana Clara Passos Presciliano (o “Prefácio” e os capítulos 4, 7, 12, 13, 14, 15, 19, 20, 21, 22 e 23), Pedro Gava (capítulos 6, 8, 9, 10, 11, 16, 17, 18 e 24) e Eleutério F. S. Prado (capítulo 3). Todos eles, assim como as complexas bibliografias que os acompanham, foram revisados por mim e por Cecília Martins, a quem agradeço pelo paciente trabalho realizado.

Os títulos das obras de literatura secundária em russo, japonês, chinês, grego e coreano foram indicados em forma transliterada.

Como este livro é uma tradução realizada a partir do volume originalmente publicado em inglês, as referências bibliográficas e as citações das obras de Marx remetem, sempre que possível, à conhecida edição inglesa Marx Engels Collected Works, publicada pela Lawrence & Wishart em 50 volumes, entre

1975 e 2005. Para os manuscritos e cadernos de apontamentos de Marx não traduzidos para o inglês, recorreu-se à edição

Marx-Engels-Gesamtausgabe, a chamada MEGA², publicada de 1975 a 1990 pela Dietz Verlag e, de 1998 até o presente, pela Akademie/De Gruyter. Até o momento, foram publicados 70 dos 114 volumes previstos dessa edição. Para tornar mais concisas as notas de rodapé e as bibliografias apresentadas ao final de cada capítulo, essas edições são indicadas pelas seguintes abreviações: MECW e MEGA².

O organizador e a editora agradecem à Faculty of Liberal Arts & Professional Studies da Universidade York, em Toronto, Canadá, pelo apoio financeiro concedido a este livro.

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O primeiro rascunho de O Capital de Marx - História da gênese e da recepção dos Grundrisse by Grupo Autentica - Issuu