Walter Omar Kohan
O mestre inventor Relatos de um viajante educador
Coleção Educação: Experiência e Sentido
Walter Omar Kohan
O mestre inventor Relatos de um viajante educador
Tradução
Hélia Freitas
Copyright © 2013 Walter Omar Kohan Copyright © 2013 Autêntica Editora Título original: El maestro inventor. Simón Rodríguez Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora. coordenadores da coleção educação: experiência e sentido
Jorge Larrosa Walter Kohan
diagramação
Conrado Esteves revisão
tradução
Cecília Martins Lizete Mercadante
Hélia Freitas
Editora responsável
capa
Rejane Dias
Alberto Bittencourt (sobre imagem de Simón Rodriguez. Retrato feito por A. Guerrero, um discípulo seu, em Latacunga, 1850.)
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Kohan, Walter Omar O mestre inventor. Relatos de um viajante educador/ [tradução Hélia Freitas]. -- 1. ed. -- Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2013. -- (Coleção Educação : Experiência e Sentido) Título original: El maestro inventor. Simón Rodríguez ISBN 978-85-8217-250-6 1. Educação - Venezuela - História 2. Educadores - Biografia 3. Rodríguez, Simón, 1769-1854 I. Larrosa, Jorge. II. Kohan, Walter Omar. III. Série. 13-08080
CDD-370.92
Índices para catálogo sistemático: 1. Educadores : Biografia e obra 370.92
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APRESENTAÇÃO DA COLEÇÃO
A experiência, e não a verdade, é o que dá sentido à escritura. Digamos, com Foucault, que escrevemos para transformar o que sabemos e não para transmitir o já sabido. Se alguma coisa nos anima a escrever é a possibilidade de que esse ato de escritura, essa experiência em palavras, nos permita liberar-nos de certas verdades, de modo a deixarmos de ser o que somos para ser outra coisa, diferentes do que vimos sendo. Também a experiência, e não a verdade, é o que dá sentido à educação. Educamos para transformar o que sabemos, não para transmitir o já sabido. Se alguma coisa nos anima a educar é a possibilidade de que esse ato de educação, essa experiência em gestos, nos permita liberar-nos de certas verdades, de modo a deixarmos de ser o que somos, para ser outra coisa para além do que vimos sendo. A coleção Educação: Experiência e Sentido propõe-se a testemunhar experiências de escrever na educação, de educar na escritura. Essa coleção não é animada por nenhum propósito revelador, convertedor ou doutrinário: definitivamente, nada a revelar, ninguém a converter, nenhuma doutrina a transmitir. Trata-se de apresentar uma escritura que permita que enfim nos livremos das verdades pelas quais educamos, nas quais nos educamos. Quem sabe assim possamos ampliar
nossa liberdade de pensar a educação e de nos pensarmos a nós próprios, como educadores. O leitor poderá concluir que, se a filosofia é um gesto que afirma sem concessões a liberdade do pensar, então esta é uma coleção de filosofia da educação. Quiçá os sentidos que povoam os textos de Educação: Experiência e Sentido possam testemunhá-lo.
Jorge Larrosa e Walter Kohan * Coordenadores da Coleção
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* Jorge Larrosa é Professor de Teoria e História da Educação da Universidade de Barcelona e Walter Kohan é Professor Titular de Filosofia da Educação da UERJ.
Agradecimentos
A Gregorio Valera-Villegas agradeço o estímulo permanente, os livros, a hospitalidade e, sobretudo, a amizade genuína. A Maximiliano Durán, professor enamorado pelo ofício do magistério, agradeço pela alegria e pela generosidade em compartilhar sua paixão, nossa paixão. A Hélia Freitas, pela tradução viva e ajustada.
Nota do autor
Nas referências incluo os textos que serviram de apoio à escrita deste livro. Nas notas, quando não explicito um autor, é porque se trata das obras de Simón Rodríguez. Quando não coloco o título da obra é porque se trata das obras completas, que cito simplesmente pelo número de volume e de páginas. No caso das cartas, cito o destinatário, a data, e o título Cartas, seguido do número de página. Quando o autor das cartas é Bolívar, o esclareço. As referências completas dessas obras encontram-se ao final do livro. Nas citações de Rodríguez, preservo o seu castelhano, sua grafia original.
Prólogo
Uma leitura de Rodríguez em tom de Kohan Gregorio Valera-Villegas1
De Simón Rodríguez poderíamos dizer que é o ensinar como um desafio. A prática de se atrever a pensar, a imaginar, a sonhar sem medos, de forma aberta, com erros, sim, com sucessos parciais também, com muitos fracassos e, novamente, de volta ao caminho do ensaio. O ensaio nele é uma trilha, que se abre e se fecha continuamente, de finitude sem morte, de início, reinício, para seguir vivendo, para continuar em direção a um final que é um recomeço, um novo começo. Rodríguez, o andarilho, o da eterna errância, que chega a ser o que é da ousadia de experimentar o pensar, o inventar, vale dizer, filosofar e ensinar como expressões de um professor e filósofo ou um filósofo-professor. Aquele da palavra viva, pura irreverência, pura iconoclastia no andar, no falar, em sua práxis política. Palavra à viva voz em seu Professor de Filosofia da Educação da Universidade Central da Venezuela e da Universidade Experimental Simón Rodríguez.
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transladar-se pela Europa, em seu viajar de formação; e, mais tarde, escrita para dirigir-se às futuras gerações, acompanhada da, irônica e irreverente, permissão dos seus contemporâneos, especialmente daqueles que nunca o compreenderam. Esse desafio de Samuel Robinson, convertido em Rodríguez, é aceito por Walter Kohan, filósofo e pedagogo, para atrever-se a pensar, a ensaiar a partir dele, junto dele e a caminhar com ele. Em um ensaiar com a âncora na América, em Nossa América, diria Martí, anos mais tarde. Ensaiar é uma tentativa sempre de ser originais, como assinalava o professor de Bolívar, porque originais, apregoava, são todas as coisas na América. O livro O mestre inventor. Simón Rodríguez é uma entrega de um aproximar-se e relacionar-se com a vida e a obra do filósofo, que já leva alguns anos. Aproximação que se transformou em um conhecimento, em uma busca por fazer um corpo a corpo com o Sócrates de Caracas, como assim fora chamado em um momento, com o Sócrates de Nossa América, diria eu. Esta obra poderia ser descrita como um estudo a mais sobre Rodríguez. No entanto, pode-se dizer que ela tem suas peculiaridades fundadas em um experimentar próprio, diferente, original. Um Rodríguez em tom e ritmo de Kohan. Um Rodríguez a quem faz falar e andar de novo e vai até seu campo para reaprender os seus passos, para revelá-los em diferentes tons, com a sabedoria de um intérprete e com o sabor das musas filosóficas atuais. O Rodríguez de Kohan toca núcleos do professor errante para entoar sua errância, seu nomadismo, sua irreverência e sua perpétua iconoclastia. Neste Rodríguez se sente um viajante que se faz e se desfaz em projetos, que reinicia sua finitude em seu novo caminho, em empresas educativas libertadoras, populares, vale dizer, políticas. Um Rodríguez múltiplo, caleidoscópico, que chega, toca 12
Uma leitura de Rodríguez em tom de Kohan
e subverte, e logo se põe a andar; em uma eterna busca por formar o novo homem, o novo republicano para as novas repúblicas. Um visionário que se abre e se forma nos caminhos que faz e transita. Um viajante eterno do tempo e sua circunstância. O livro O mestre inventor é, pois, biografia, narrativa e mímesis. Uma excursão do pensar no contraponto do biográfico sem contágio de crônica de datas. Uma biografia viva que vai tecendo a narrativa para alcançar a identidade de um personagem, de um filósofo muito original, na junção de sua escrita e de suas cartas. Aqui não há datas que distanciem o personagem, ao contrário, trata-se de narrá-lo para fazê-lo falar, para que nos fale, para que nos faça pensar e fazer com ele. E aqui o exercício de mímesis é múltiplo: a partir da leitura do personagem histórico e ficcional em letras de Rumazo González e Uslar Pietri, até a mímesis de Kohan que acaba convertido e, em alguma medida, convertendonos em seu Rodríguez. O mestre inventor é um ensaio sobre ensaio. Um pensar que ensaia como único caminho para poder interpretar a obra de Rodríguez. Ensaio sobre ensaio, camada após camada para dar corpo a uma urdidura para caracterizar um mestre inventor. Se o Joseph Jacotot de Rancière é o mestre ignorante, o Rodríguez de Kohan é o mestre inventor, descobridor, que o faz porque seu destino é inventar, sua vocação é ensaiar e errar, seu desafio é o atrever-se sempre a inventar, apesar do errar, do fracassar. O atrever-se a imaginar, contra todo prognóstico, outras sociedades americanas. E aí a escola mista e antirracista, a escola dos mais pobres, dos negados, mais além da educação popular, e na volta, o desafio de formar os novos cidadãos, os novos republicanos para as repúblicas americanas em nascimento. E o ensaiar a obra escrita filosófica, pedagógica e política, junto ao 13
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responder às urgências de entender os cataclismos naturais a partir de seu pensamento científico. O Rodríguez de Kohan é o errante que faz do pensar um projeto inacabado. E assim vida e obra são interpretadas a partir das notas de um pensamento que sempre começa, que sempre nasce e renasce, que finaliza quando começa um novo ensaio, que termina e começa quando em cada erro se inicia uma nova invenção. Caminhos de ida e volta, ensaios que se recriam constantemente em exercícios de finitude. Errância com conhecimento de causa do que não se tem, do que não há certeza, do erro que faz inventar, que faz sonhar o caminho à Nossa América. Caracas, abril de 2013
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